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Revista Brasileira de Educação Física e Esporte

versão impressa ISSN 1807-5509versão On-line ISSN 1981-4690

Rev. bras. educ. fís. esporte vol.30 no.4 São Paulo out./dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1807-55092016000400893 

BIODINÂMICA

Efeito do treinamento de força com resistência elástica sobre o desempenho da flexão de quadril em bailarinas clássicas

Ana Paula ZUCCOLOTTO* 

Magda Amabile Biazus Carpeggiani BELLINI* 

Anderson RECH* 

Francesca Chaida SONDA*  ** 

Mônica de Oliveira MELO*  ** 

*Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Caxias do Sul, Caxias do Sul, RS, Brasil.

**Escola de Educação Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.

Resumo

Para realização e manutenção de movimentos estéticos de grande amplitude articular, um bailarino necessita desenvolver além de flexibilidade, força muscular. Trabalhos científicos sobre o “ballet” apontam para uma lacuna com relação ao efeito de diferentes métodos de treinamento na produção de força muscular em grandes amplitudes de movimento. Assim, o objetivo deste estudo foi investigar os efeitos de um programa de treinamento de força com resistência elástica sobre o torque, a amplitude de movimento ativa e passiva, bem como o ângulo e o tempo de sustentação da flexão de quadril em bailarinas clássicas. Participaram deste estudo 15 bailarinas que foram divididas em dois grupos: grupo intervenção (n = 8) e grupo controle (n = 7). Durante o estudo, todas participantes mantiveram a rotina habitual de aulas de “ballet”, porém o grupo intervenção realizou um treinamento de força com resistência elástica para os flexores de quadril, o qual foi realizado duas vezes por semana, durante seis semanas. Antes e depois de seis semanas, todas participantes realizaram medidas de torque, das amplitudes ativas e passivas, bem como do ângulo e tempo de sustentação da flexão de quadril. ANOVA de um fator (grupo) com medidas repetidas no tempo foi usada para identificar os efeitos da intervenção. O grupo intervenção apresentou incrementos de torque três vezes superiores ao grupo controle (grupo intervenção = 38,47% e grupo controle = 13,13%). Incrementos de 125,25% para o tempo de sustentação foram observadas somente para o grupo intervenção. Nenhum efeito foi identificado nas demais variáveis. Os achados mostram que o treinamento de força com resistência elástica gera aumentos no torque, bem como no tempo de sustentação de flexão de quadril em bailarinas clássicas.

Palavras-Chave: Torque; Amplitude de movimento; Materiais elásticos; Força muscular; “Ballet” clássico

Introdução

O “ballet” é um ramo da dança que envolve arte, técnica e diversas capacidades físicas, entre elas a força e a flexibilidade1-2. Os bailarinos realizam movimentos de grande amplitude articular que vão além dos limites anatômicos, de modo que precisam ter aliada à elevada flexibilidade, força muscular tanto para a execução do movimento quanto para a manutenção da posição desejada em elevadas amplitudes2-4. Tradicionalmente, habilidades técnicas e capacidades motoras necessárias para execução dos movimentos do “ballet” são exercitadas juntas através de uma sequência de passos pré-determinada1, 5-6.

Apesar dessa metodologia de treinamento descrita acima ser ainda a mais utilizada no ambiente do “ballet”, a necessidade de implementação de uma rotina de treinamento de força periodizada tem chamado a atenção dos professores e bailarinos, uma vez que o número de lesões no sistema musculoesquelético nesta modalidade é bastante elevado, principalmente nos membros inferiores7-8, de modo que muitos bailarinos jovens tem sido levados a abandonar a dança de forma precoce. Além disso, há diversas situações específicas que carecem de treinamento personalizado para uma melhor evolução técnica e estética.

A máxima flexão de quadril é, por exemplo, uma condição de movimento utilizada com frequência em diversos passos típicos do “ballet” como o “développé devant”, a “attitude devant” e o “grand battement devant” entre outros9. Para a perfeita execução técnica desses passos é importante que o treinamento do “ballet” priorize não só o desenvolvimento da flexibilidade dos extensores de quadril, mas também o fortalecimento dos músculos flexores e rotadores laterais de quadril, sobretudo no final da amplitude de movimento (ADM), já que há a necessidade de executar o movimento no padrão técnico, com “en dehors”, ou seja, movimentos que pressupõem uma importante rotação lateral do quadril4, 9.

A razão do problema enfrentado pelo professor e pelo bailarino na evolução da sustentação da flexão de quadril em grandes ADMs é que fisiologicamente os músculos perdem a capacidade de produção de força no final das ADMs10-11. Isso ocorre devido a relação força-comprimento, que determina que a força depende do grau de sobreposição de pontes cruzadas, que acaba sendo muito limitado quando o músculo está extremamente encurtado10. Assim, para aumentar fisiologicamente a capacidade dos bailarinos de produzir mais força no final da ADM, uma das estratégias chaves é promover uma maior sobrecarga nas grandes amplitudes articulares.

Um dos implementos mecânicos utilizados na rotina de treinamento de força convencional para promoção de aumento de força nas amplitudes finais de movimento é o material elástico, como tubos e bandas elásticas. Este tipo de material impõe uma resistência ao executante que aumenta de acordo com o estiramento do implemento, gerando maior tensão quando maior for a sua deformação12-16. Estudos anteriores realizados fora do ambiente do “ballet” mostraram resultados positivos no aumento de força em amplitudes finais de movimentos ao anexar materiais elásticos na rotina de treinamento14-15. No entanto, nas bases consultadas, não foram encontrados estudos que tenham verificado o efeito de treinamento de força periodizado e com resistência elástica no aumento do torque, da ADM e do tempo de sustentação da flexão de quadril em bailarinas clássicas.

Assim, considerando a escassez de dados na literatura e a constante necessidade de aprimoramento da técnica nessa população, esse estudo investigou os efeitos de um treinamento de força de seis semanas com resistência elástica sobre a força muscular (expressa pelo torque), a amplitude de movimento passiva e ativa, o ângulo de máxima sustentação e o tempo de sustentação na maior ADM possível da flexão de quadril em bailarinas clássicas. A hipótese central do presente estudo era de que bailarinas que treinassem força com uma resistência elástica proporcionando maior sobrecarga no final da ADM de flexão de quadril teriam incrementos superiores no desempenho dos testes cinéticos (avaliação do torque máximo) e cinemáticos (amplitudes passiva e ativas, bem como ângulo e tempo de sustentação da maior ADM) comparadas as bailarinas que realizaram apenas a rotina habitual de aulas de “ballet”.

Método

Desenho experimental

Este é um estudo experimental que avaliou os efeitos de seis semanas de treinamento de força com resistência elástica sobre variáveis cinéticas e cinemáticas em bailarinas clássicas. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade de Caxias do Sul (CEP n. 798.266), onde foi realizado. Antes do começo do estudo, as participantes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido e foram informadas que poderiam deixar de participar da pesquisa em qualquer momento caso assim desejassem.

Participantes

As participantes foram recrutadas pessoalmente numa escola de “ballet” localizada na cidade de Caxias do Sul através de um convite feito por uma das pesquisadoras do presente estudo. Para fazer parte da amostra, as bailarinas deveriam estar realizando aulas de “ballet” clássico por pelo menos cinco anos, contemplar um volume de treinamento entre seis a 15 horas semanais nos últimos seis meses, ter idade entre 15 a 22 anos e ser do sexo feminino. As bailarinas com menos de 18 anos tiveram o consentimento de seus responsáveis para sua inclusão na pesquisa. Os critérios de inclusão foram: não estarem praticando qualquer outro tipo de treinamento de força por pelo menos seis meses, não terem tido nenhum tipo de lesão não tratada no sistema músculo esquelético nos último seis meses e não possuírem qualquer disfunção cardiorrespiratória aguda ou crônica que lhes impedissem de realizar um teste de força máxima.

As bailarinas que satisfizeram os critérios de inclusão foram divididas em dois grupos: grupo intervenção, que foi submetido a um treinamento de força periodizado e com resistência elástica para os flexores de quadril e grupo controle, que não foi submetido a nenhum tipo de treinamento de força. A alocação das participantes em cada grupo foi pareada com base na idade e tempo de experiência e um sorteio com auxílio de envelopes selados foi feito para determinar o grupo final de cada participante (TABELA 1). O sorteio foi realizado somente depois que todas participantes concluíram as avaliações pré-intervenção. Os responsáveis pela aquisição e tratamento dos dados coletados foram blindados com relação à randomização e a alocação.

TABELA 1 Características basais dos grupos intervenção e controle. 

Grupo Intervenção (n = 7) Grupo Controle (n = 7)
Idade (anos) 18,25 ± 2,49 17,57 ± 2,43
Estatura (m) 1,65 ± 0,04 1,62 ± 0,06
Massa (kg) 56,3 ± 4,07 56,74 ± 6,85

Média ± SD.

Protocolo de avaliação

Todas as participantes foram avaliadas antes e depois de um período de seis semanas. Durante esse tempo, somente o grupo experimental foi submetido ao treinamento de força com resistência elástica, o qual foi realizado na residência das participantes. Os desfechos avaliados foram: amplitude máxima de movimento passivo, amplitude máxima de movimento ativo, amplitude máxima de sustentação, tempo de sustentação e torque máximo dos flexores de quadril. A amplitude máxima de sustentação corresponde ao ângulo máximo de flexão de quadril no qual a bailarina consegue manter isometricamente o membro inferior.

Para o registro das variáveis cinemáticas foi utilizado um sistema de cinemetria dotado de sete câmeras integradas (Vicon MX systems, Oxford Metrics Group, UK). Os dados cinemáticos foram coletados em uma taxa de amostragem de 100 Hz. Após uma sessão de aquecimento que consistiu de séries de movimentos dinâmicos próprios do “ballet”, marcadores reflexivos foram fixados nos seguintes pontos anatômicos padronizados de acordo com o modelo “Plug in Gate” (Vicon MX systems, Oxford Metrics Group, UK): espinha ilíaca ântero superior direita e esquerda, espinha ilíaca póstero superior direita e esquerda, terço proximal na superfície lateral da coxa direita e terço distal na superfície lateral da coxa esquerda, côndilo do joelho direito e esquerdo (lateral), côndilo da tíbia direita e esquerda, maléolo direito e esquerdo (lateral), calcanhar direito e esquerdo e, base da falange distal do terceiro dedo do pé direito e esquerdo.

Durante o teste, foi solicitado às bailarinas que apoiassem com a mão contralateral ao membro avaliado em um aparato que simulava uma típica barra de apoio usada em aulas de “ballet”. Ambos os membros inferiores foram mantidos em rotação externa e o corpo foi mantido ereto, realizando o mínimo de movimentação possível durante a execução da ação solicitada. Primeiramente, para a verificação da amplitude máxima de movimento passivo, o membro inferior dominante do sujeito foi conduzido pela própria participante na maior angulação possível de flexão do quadril. Para as avaliações restantes, o membro superior ipsilateral foi mantido de acordo com a linha clássica do “ballet”: abdução de ombro, pequena flexão de cotovelo e supinação de antebraço, deixando o membro superior levemente arredondado ao lado do corpo. Depois de posicionada, cada bailarina foi solicitada a flexionar dinamicamente o membro de forma ativa na maior amplitude de movimento possível. Em seguida, foi solicitado que a participante repetisse o movimento de flexão de quadril mantendo o membro na maior angulação e tempo possíveis. Cada ação realizada na avaliação cinemática foi executada três vezes com um intervalo de um minuto entre as tentativas. Apenas o membro dominante foi avaliado.

Após a coleta, a análise dos dados foi executada em duas etapas, a primeira consistiu da reconstrução tridimensional estática e dinâmica e a segunda, do registro das informações de ângulo e tempo de manutenção e das máximas amplitudes passivas e ativas de movimento atingidas durante cada tentativa. Ambas as etapas foram realizadas no próprio “software” de coletas de dados (Vicon MX systems, Oxford Metrics Group, UK). O maior valor obtido entre as tentativas foi considerado para análise estatística.

O torque muscular foi coletado, posteriormente, através de um dinamômetro isocinético Biodex System 4 Pro (Biodex Medical Systems, EUA). Os sujeitos foram posicionados no equipamento em decúbito dorsal com o banco do dinamômetro fixado em um ângulo em zero grau conforme as instruções do fabricante. Após o posicionamento, os participantes foram solicitados a realizar três contrações isométricas voluntárias máximas de flexão de quadril no ângulo de 120º e com duração de cinco segundos. Foram permitidos três minutos de intervalo entre cada contração isométrica. Apenas o membro inferior dominante foi testado e todos os sujeitos foram instruídos a executarem a contração “tão rápido e forte quanto possível”17. A contração que apresentou maior pico de torque (N.m-1) foi utilizada para posterior comparação dos resultados.

Protocolo de treinamento

Uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo, profissional em educação física, orientou a execução do programa de treinamento. As bailarinas executaram o treino em um ambiente de sua escolha, contando que houvesse espaço e estrutura para realização do mesmo. Foi preciso uma estrutura ou ponto de fixação rente ao solo que possibilitasse a fixação do material elástico e um aparato que servisse de apoio lateral ao corpo para as bailarinas. Não foi feito controle com relação a alteração do comprimento da banda elástica durante o treinamento. Após cada sessão de treino, as participantes redigiram um breve relatório a respeito de seu desempenho e sobre a intensidade de esforço percebida conforme a escala de Borg, onde seis foi considerado leve e 20 extremamente intenso18-19. Os relatórios foram úteis para a confirmação da realização da sessão de treinamento e verificação da intensidade de esforço percebida durante a sessão (FIGURA 1). Desse modo, foi possível garantir qualitativamente que o esforço fosse leve e moderado nas duas primeiras semanas de treinamento e que gradativamente fosse aumentando para intenso até o final do estudo.

0: esforço muito leve; 20: esforço extremamente intenso.

FIGURA 1 Intensidade média de esforço avaliada segundo a Escala de Borg 

O treinamento foi realizado duas vezes por semana, durante seis semanas, com intervalo entre as sessões de no mínimo 48 horas. A resistência externa das participantes foi imposta por diferentes graduações de um material elástico do tipo banda elástica (FIGURA 2). Para esse tipo de material, a magnitude das intensidades é alterada de acordo com a cor da banda elástica, sendo que em geral quanto mais escura for a cor, maior sobrecarga é oferecida pelo material. Para o treinamento o qual foi realizado à domicílio, uma das extremidades da banda elástica foi fixada rente ao solo, enquanto a outra extremidade foi presa ao pé da bailarina. Foi solicitado que as bailarinas realizassem o movimento na velocidade preferida.

Uma das extremidades da banda elástica foi presa sob a porta e outra extremidade presa no pé da bailarina.

FIGURA 2 Posição típica utilizada para realização do treinamento em ambiente de escolha de cada participante. 

O treinamento consistiu na realização de flexões de quadril. Para isso, as bailarinas permaneceram em pé, com o corpo ereto, com ambos os membros inferiores em rotação externa e com os joelhos estendidos. As bailarinas realizaram o movimento de flexão de quadril de acordo com o número de repetições e de séries, bem como a cor da banda elástica determinados para a semana. Os intervalos entre as séries foram de até um minuto. Depois das contrações dinâmicas, as participantes realizavam contrações isométricas na amplitude máxima de flexão de quadril atingida pelo tempo determinado para a semana. A progressão da sobrecarga do treinamento ocorreu de forma progressiva conforme os pressupostos de FLECK e KRAEMER20. Os detalhes a respeito do programa de treinamento estão descritos na TABELA 2.

TABELA 2 Protocolo de treinamento utilizado no presente estudo 

Semanas 1 e 2 Semanas 3 e 4 Semanas S 5 e 6
Cor da banda elástica Verde Azul Preta
Repetições 17- 20 14-17 12-14
Tempo de sustentação (s) 8 12 15
Número de séries 3 3 4
Intervalo entre as séries Até 1 minuto Até 1 minuto Até 1 minuto
PSE Leve Um pouco intenso Intenso

PSE: percepção subjetiva de esforço segundo escala de Borg (0 = esforço muito leve e 20 - esforço extremamente intenso).

Aulas de “ballet”

Tanto o grupo intervenção quanto o grupo controle manteve a rotina usual das aulas de “ballet”. Tais aulas contemplam a estrutura tradicional de “ballet” que geralmente é composta por três etapas: movimentos realizados com apoio na barra, sem apoio e, por fim, grandes deslocamentos6. Na primeira etapa as bailarinas realizam sequência de passos pré-determinada (“pliés”, “battement tendu”, “battement jeté”, “rond de jambe à terre”, “battement fondu”, “rond de jambe en l’air”, “battement frappé”, adágio, “petit battement”, “grand battement” e alongamento). Através desses movimentos, todas as capacidades físicas e a técnica são desenvolvidas de forma conjunta5. Na segunda etapa, executam-se exercícios sem apoio da barra com movimentos dos membros superiores (“port de bras”), giros (“pirouettes”), movimentos rápidos, lentos e saltos (como exemplo: “allegros”, adágios, “waltz” e “batterie”)5. Por fim, a última etapa da aula enfatiza os grandes saltos - como “grand jetés”, “temps levés” - e giros de velocidade - “chaîné”, “pique tour”, entre outros1. Nestas aulas, nenhum implemento mecânico é utilizado. A duração das aulas é de 1h30min, sendo que após normalmente são realizados ensaios das coreografias para festivais e competições.

Tratamento estatístico

Para a apresentação dos dados foi utilizada estatística descritiva, adotando os valores de média e desvios-padrão. A normalidade dos dados foi verificada e confirmada pelo teste de Shapiro-Wilk. Para verificar o efeito do treinamento nas variáveis investigadas foi usada ANOVA de um fator (grupo) com medidas repetidas no tempo. Os desdobramentos dos dados foram investigados direto na sintaxe do programa nas combinações de interesse por meio de testes de comparação LSD. Para avaliar os efeitos práticos do treinamento o percentual de variação de mudanças foi calculado para todas as variáveis investigadas. Teste t para amostra independentes foi usada para comparar o possível percentual de aumento entre os grupos. Foi adotado um nível de significância de α ≤ 0,05.

Resultados

Nenhuma diferença foi observada na comparação das características basais entre os grupos (p > 0,05) (TABELA 3).

TABELA 3 Resultados observados para todas as variáveis investigadas para o grupo intervenção e grupo controle. 

Grupo intervenção Grupo controle
Pré Pós Δ% Pré Pós Δ%
Torque (Nm) 41,02 ± 11,97 55,5 ± 13,26* 39 39,00 ± 13,58 43,81* ± 14,79 13#
ADM passiva (graus) 142,75 ± 12,87 144,75 ± 14,91 1 144,14 ± 9,59 143,57 ± 2,16 0
ADM ativa (graus) 125,00 ± 16,59 130,00 ± 9,63 4 129,28 ± 7,99 134,57 ± 11,17 4
Angulo de sustentação (graus) 89,87 ± 15,81 88,12 ± 12,98 -2 95,28 ±15,75 94,14 ± 17,43 1
Tempo de sustentação (s) 7,5 ± 1,77 16,5* ± 4,44 125 9,71 ± 4,75 13,00 ± 8,62 27

*indica diferença significativa entre os momentos pré e pós intervenção (p < 0,01); # indica diferença significativa entre os grupos (p < 0,01); Δ%: percentual de mudanças entre os momentos pós e pré intervenção.

ANOVA revelou que houve efeito principal do tempo (p < 0,001), onde ambos os grupos aumentaram o torque após o período de seis semanas. Não houve diferenças significativas entre os grupos, nem antes (p = 0,764), nem após (p = 0,131) o período de intervenção (TABELA 3).

Quando os percentuais de mudanças foram comparados, o teste t identificou diferenças significativas entre os grupos (p = 0,012), onde o grupo experimental apresentou 38,47% (SD = 20,25%) de aumento no torque versus 13,13% (SD = 11,10%) de aumento promovido pelo grupo controle (TABELA 3).

ANOVA mostrou uma interação significativa entre o grupo e o tempo (p = 0,034), onde somente o grupo experimental obteve aumento significativo na variável tempo de sustentação (TABELA 3). Não houve diferenças significativas na comparação entre os grupos, nem antes (p = 0,241), nem após (p = 0,331) o período de intervenção.

Quando os percentuais de mudanças foram comparados, teste t para amostras independentes apontou para diferenças significativas entre os grupos (p = 0,015), onde o grupo experimental apresentou 125,25% (SD = 64,72%) de aumento no tempo de sustentação, enquanto o grupo controle apresentou um aumento de 26,88% (SD = 44,49%) (TABELA 2).

Para as demais variáveis avaliadas (ADM passiva, ADM ativa e amplitude de sustentação), a estatística utilizada não encontrou efeitos principais ou interações significativas (p > 0,05) (TABELA 3).

Discussão

Os principais achados do presente estudo mostraram que: a) o treinamento de força com resistência elástica foi capaz de gerar maiores aumentos percentuais no torque isométrico máximo avaliado na máxima amplitude de flexão de quadril comparado com o treinamento convencional de “ballet”; b) o treinamento de força com resistência elástica foi capaz de promover maiores incrementos percentuais no tempo de sustentação da máxima amplitude de flexão de quadril comparado ao treinamento convencional de “ballet”; c) O treinamento de força com resistência elástica não promoveu mudanças nas amplitudes avaliadas.

Estudos prévios fora da área do “ballet” demonstraram que o treinamento com materiais elásticos é eficiente para produzir aumentos de força muscular em diferentes tipos de populações. CRONIN et al.21avaliaram o efeito de 10 semanas de treinamento balístico realizado com e sem material elástico anexado em uma máquina de agachamento sobre a força e potência muscular em homens jovens praticantes de treinamento de força por mais de um ano. Como resultado, os autores reportaram aumentos significativos para os valores de força máxima, pico de potência e potência média após ambos os tipos de treinamento. Além disso, a efetividade no ganho de massa magra em sedentárias de meia idade22e no incremento de força dinâmica e mobilidade em pessoas com idade acima de 60 anos23 já foi demonstrada em estudos anteriores. Outros autores encontraram aumentos nos níveis de ativação muscular similares entre o treinamento com peso livre e treinamento com tubo elástico em mulheres de 26 a 55 anos24.

Há também estudos que obtiveram ganhos superiores na força quando algum tipo de material elástico foi adicionado ao treinamento de força com pesos livres ou máquinas de musculação14-15. MELO et al.14 realizaram um treinamento de extensão de joelhos em jovens universitários ativos e de ambos os sexos por oito semanas, onde o grupo intervenção foi submetido a um treinamento com tubos elásticos anexados a uma máquina de extensão de joelhos com intuito de incrementar a carga no final da ADM. Em contraponto, o grupo controle treinou sem resistência elástica acoplada ao equipamento. Como resultado, o treinamento associado à resistência elástica obteve maior aumento da força máxima isométrica dos extensores de joelho no grupo intervenção nos ângulos 10º e 30º da flexão de joelho (0º = extensão máxima), posição articular onde o quadríceps se encontra relativamente encurtado. WALLACE et al.15 também encontraram ganhos superiores de torque muscular para o treinamento que associou o uso de implemento elástico com o treinamento de pesos livres quando comparado ao treinamento somente com pesos livres em mulheres jovens de ambos os sexos e praticantes amadores de treinamento de força por pelo menos seis semanas.

No estudo de ANDERSON et al.16, atletas jogadores de basquetebol e hockey foram submetidos a sete semanas de treinamento com tubos elásticos em adição a sua rotina habitual de treinamento de força com altas (85% de uma repetição máxima). Neste estudo, ambos os grupos mantiveram suas rotinas habituais de treinamento tanto no esporte e como com pesos livres, mas somente o grupo controle não adicionou resistência elástica em seu treinamento de força. Como resultados principais, tanto o grupo controle quanto o grupo intervenção apresentaram ganhos de força significativos. No entanto, o grupo que treinou com a resistência elástica adquiriu um ganho aproximadamente três vezes maior do que o grupo controle. Esse resultado se assemelha ao do presente estudo no que diz respeito ao fato do grupo que realizou treinamento com adição de uma resistência elástica apresentar um aumento de torque superior ao grupo controle. Entretanto, é preciso ter cautela nesta comparação, pois os participantes do grupo controle do presente estudo mantiveram a rotina habitual de aulas de “ballet”, mas não realizaram qualquer treinamento de força.

Além dos incrementos obtidos no torque para o grupo que treinou com resistência elástica, o presente estudo mostrou, até onde se sabe pela primeira vez, que a adição do material elástico foi capaz de aumentar o tempo de sustentação da flexão máxima de quadril consideravelmente. Esses resultados são importantes do ponto de vista prático, visto a exigência que os bailarinos possuem de utilizarem a força muscular para garantir a manutenção de posturas, sendo comum o corpo de baile, por exemplo, precisar manter a imobilidade por determinado tempo1, 5. Neste estudo, as bailarinas treinaram objetivando o aumento do tempo de sustentação da flexão de quadril na maior amplitude possível por oito, 12 e 15 segundos. O resultado foi o aumento significativo deste tempo em 125,25%, ganho que pode levar a consideráveis contribuições às performances.

A expectativa inicial do presente estudo era de que houvesse um aumento da ADM ativa e também da amplitude de sustentação da flexão de quadril. É possível que esse aumento não tenha ocorrido simplesmente devido ao fato das bailarinas já terem atingido a máxima amplitude permitida pela articulação do quadril. Além disso, especula-se que uma das razões para que essas amplitudes não tenham se aproximado da ADM passiva foi a de que a resistência externa em alguns momentos, principalmente nas últimas semanas do treinamento, se tornou muito elevada. Esse aumento da carga impediu que muitas das bailarinas realizassem o treinamento no ângulo de máxima amplitude. O fato das bailarinas não terem treinado nas últimas semanas na amplitude máxima permitida pela articulação pode ser considerado uma limitação deste estudo. Entretanto, acredita-se que esta possível limitação não invalida os resultados de torque, uma vez que o aumento do torque foi observado a 120º de flexão de quadril. Apesar de alguns estudos25-26 sugerirem que o efeito do treinamento de força pode repercutir em menor grau em angulações adjacentes de 5 a 20º acima ou abaixo do ângulo trabalhado27, parece que neste estudo não houve transferência de força para além da ADM das bailarinas. Mais estudos que avaliem o torque nos ângulos adjacentes precisam ser conduzidos para confirmar ou refutar essa especulação.

O controle da sobrecarga é um dos parâmetros mais importantes na prescrição de exercícios resistidos para gerar os objetivos pretendidos18, 28. Neste estudo, esse controle foi feito com base na sensação subjetiva de esforço mensurada através da Escala de Borg, onde foi observado um aumento progressivo homogêneo de moderado para muito difícil na sensação subjetiva de esforço ao longo das semanas de treinamento (FIGURA 1). Apesar da Escala de Borg já ter sido amplamente aceita na literatura para controle das intensidades de treinamento17-18, sugere-se que futuros estudos utilizem procedimentos de calibração dos materiais elásticos12 e controle da ADM29 de treinamento de cada participante a fim de se obter um registro objetivo das intensidades de treinamento. Além disso, recomenda-se a realização de teste de força máxima para que seja possível determinar as intensidades submáximas de treinamento. Assim, durante o treinamento será possível garantir que as bailarinas sejam capazes de atingir e manter as amplitudes máximas pretendidas de movimento.

Em conclusão, os achados desse estudo sugerem que treinamento de força com resistência elástica é capaz de aumentar o torque dos flexores de quadril, bem como o tempo de sustentação da flexão de quadril de bailarinas clássicas. Sugere-se que estudos futuros realizem procedimentos de calibração dos materiais elásticos, medição da ADM e da alteração do comprimento das bandas elásticas durante o treinamento e realizem teste de força máxima para controle mais preciso das intensidades de treinamento. Essas medidas possivelmente irão garantir o sucesso pretendido também no aumento na amplitude de sustentação e da ADM ativa, outra importante variável prática para o “ballet”.

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Recebido: 27 de Janeiro de 2015; Revisado: 13 de Junho de 2015; Aceito: 29 de Setembro de 2015

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