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Revista Brasileira de Educação Física e Esporte

versão impressa ISSN 1807-5509versão On-line ISSN 1981-4690

Rev. bras. educ. fís. esporte vol.30 no.4 São Paulo out./dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1807-55092016000400937 

SOCIOCULTURAL

Apropriação das ciências humanas pela Educação Física: análise dos processos de classificação no Brasil entre os anos de 2007 e 2012

Gustavo Luis GUTIERREZ* 

Marco Antonio Bettine de ALMEIDA** 

Renato Francisco Rodrigues MARQUES*** 

*Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil.

**Escola de Artes, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

***Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil.

Resumo

Este trabalho problematiza a posição ocupada pelas ciências humanas dentro do campo da Educação Física e questiona como se dão as relações entre o conhecimento próprio das humanidades, socialmente estabelecido e exposto em seus veículos de divulgação, e as interfaces com os objetos de pesquisa desta área em específico. O objetivo foi propor uma reflexão sobre o desenvolvimento científico, tendo como referencia concreta a interação entre a produção geral do campo da pesquisa em Educação Física e sua interação com objetos e metodologias originais do campo das ciências humanas. Para tal, é apresentada uma análise da relação entre o campo de pesquisa em Educação Física e sua apropriação de temas e métodos originais das ciências humanas. Foram organizados e categorizados artigos publicados por três importantes periódicos da área de Educação Física no Brasil, entre os anos de 2007 e 2012, de modo a subsidiar a discussão sobre a abrangência e utilização de referenciais das ciências humanas nesta área de conhecimento. Como conclusão, aponta-se que a compreensão da apropriação de temas e referenciais das ciências humanas pela Educação Física depende da observação de aspectos internos à própria área e suas disputas, como também de características específicas das ciências humanas e, por fim, da sociedade mais ampla que rodeia e interfere em todo o processo.

Palavras-Chave: Pesquisa; Educação Física; Ciências Humanas; Política de publicação

Introdução

A ciência pode ser vista como uma forma de religião moderna, a qual legitima campos de conhecimento e afirmações sobre realidades objetivas da vida. Este poder simbólico confere aos achados científicos o prestígio e ascensão intocáveis e inquestionáveis, exceto por acadêmicos1.

A reflexão sobre o desenvolvimento e evolução do campo científico é sempre complexa. A ciência tem uma lógica própria essencial que é a construção de relatos verdadeiros decorrentes do uso do método científico. Isto, por si só, constitui uma questão difícil, tendo em conta que nem sempre há consenso com relação às escolas de pensamento legitimadas no meio acadêmico. Além disso, é preciso considerar também que a ciência é fruto do trabalho de seres humanos, envolvidos em disputas políticas, movidos pela busca de recompensas materiais e simbólicas e portadores de suas próprias idiossincrasias.

Percebe-se o esforço de estudiosos em justificar suas empreitadas em busca por conhecimento, como procedimentos científicos que se aproximam muitas vezes de métodos clássicos de experimentação e observação, mesmo que sua área de pesquisa não demande determinadas ferramentas. Por exemplo, o estudo de história não precisaria, necessariamente, aproximar-se de procedimentos de coleta e tratamento de dados próprios de ciências básicas como a física1. Porém, percebe-se tal movimentação, principalmente devido a uma conceituação objetiva e experimental de ciência que predomina no senso comum e que, em alguns casos, é determinante em esferas de distribuição de poder no meio acadêmico, como em agências de fomento ou periódicos científicos.

O campo de pesquisa em Educação Física configura-se como um espaço fértil para tais ocorridos, visto tratar seu objeto de estudo (por vezes não tão consensual) com notável abrangência e, em alguns casos, generalidade. Assim, percebe-se a convivência de acadêmicos oriundos de diversas áreas de conhecimento, que não apenas baseiam seus métodos e interpretações em referenciais distintos, mas compreendem o exercício científico de formas diferentes e, em alguns casos, concorrentes.

É neste cenário que este trabalho problematiza a posição ocupada pelas ciências humanas dentro do campo da Educação Física, e questiona como se dão as relações entre o conhecimento próprio das humanidades, socialmente estabelecido e exposto em seus veículos de divulgação, e as interfaces com os objetos de pesquisa em Educação Física.

Este trabalho tem como objetivo geral avançar na reflexão sobre o desenvolvimento científico, tendo como referência concreta a interação entre a produção geral do campo da pesquisa em Educação Física e sua interação com objetos e metodologias originais do campo das ciências humanas entre os anos de 2007 e 2012.

A premissa adotada toma o campo científico como um espaço de confrontos e lutas, com características muito específicas que o distingue de outros espaços sociais. Esta definição embasa o objetivo específico ligado à reflexão sobre o movimento exercido pelo campo da Educação Física sobre objetos e métodos das ciências humanas.

Para tal exercício, parte-se fundamentalmente dos conceitos de campo de Bourdieu e, também, de Lyotard e sua ideia de performance. Busca dialogar com os textos de Paul Feyerabend e Maurício Tragtenberg sobre a natureza da ciência e suas relações com a sociedade em geral e, muito pontualmente, com o conceito de colonização apresentado por Habermas.

Método

Como todo trabalho científico, o texto a seguir contempla duas dimensões articuladas e complementares. Uma referente à técnica de pesquisa ou coleta e tratamento de dados, e outra que se refere à dimensão epistemológica, ou metodológica, do trabalho.

No que diz respeito à questão técnica da pesquisa, o instrumental utilizado é simples, adequado aos objetivos e, portanto, pouco controverso. Trata-se de perceber, num conjunto previamente definido de publicações acadêmicas, relativamente homogêneo, a presença de artigos que utilizam referenciais das ciências humanas, comparando-os com artigos que utilizam referenciais de ciências exatas e biológicas. Uma vez definido este conjunto de artigos que utilizam referenciais originais das humanas, procurou-se desagregá-lo a partir de subcategorias definidas pela frequência observada, buscando assim construir um olhar mais complexo e cuidadoso do todo.

A dimensão epistemológica da pesquisa, por sua vez, traz outros desafios. Os dados apresentados só possuem um sentido, e portanto, auxiliam a compreensão do real, se forem percebidos a partir da sua articulação num contexto conhecido e definido. Caso contrário, poderiam apontar, por exemplo, uma simples seleção aleatória e vazia.

Raymond ARON2, em seu livro mais conhecido “As etapas do pensamento sociológico”, comentando a sociologia compreensiva escreve o seguinte:

A elaboração característica das ciências da natureza consiste em considerar os caracteres gerais dos fenômenos e estabelecer relações regulares ou necessárias entre eles. Ela tende à construção de um sistema de leis ou de relações cada vez mais gerais, tanto quanto possível de forma matemática. (…) O sistema é dedutivo e se organiza a partir de leis ou princípios simples e fundamentais. Nas ciências históricas ou da cultura (…) o espírito não procura inserir progressivamente a matéria informe num sistema de relações matemáticas; aplica uma seleção à matéria relacionando-a a valores. (…) chega-se não a um sistema hipotético-dedutivo, mas um conjunto de interpretações, todas seletivas e inseparáveis do sistema de valores escolhido (p.471).

Nesta caminhada para construir uma compreensão do real que fundamente a pesquisa em questão, a partir da percepção primeira de um sujeito agente da ação social que age racionalmente na busca de seus objetivos, vamos assumir como referência básica, e portanto como critério fundamental de valor no sentido apontado por Aron, o trabalho de Bourdieu e, principalmente, o seu conceito de campo. Neste sentido, o campo do ensino e pesquisa em Educação Física deve possuir características em comum, seus membros se reconhecem, possuem um “habitus” próprio e competem entre si, individualmente ou formando grupos identificados internamente, pelo aumento do seu capital material ou simbólico. Consideramos, de forma complementar, os conceitos de performance, conforme apontado por Lyotard ao analisar a produção científica, e o conceito de alianças e grupos de referência apontado em Gutierrez, como elementos que ajudam a ilustrar o fenômeno e não inviabilizam a proposição básica de Bourdieu, pelo contrário, podem dialogar com ela.

Sempre dentro deste movimento de construção de uma compreensão conceitual do campo da Educação Física, consideramos também que na sociedade atual, a produção científica contemporânea ilustra uma forma de reprodução marcada por uma dimensão burocrática, tal qual apontaram Tragtenberg e Feyeraband. Tomando, primeiro, o trabalho de Tragtenberg, a burocracia se caracteriza, fundamentalmente, pela presença de dois aspectos: avaliação e controle. No sentido mais amplo, todo processo de avaliação incorpora, inevitavelmente, uma escala de valores que, ao pensarmos sua existência na realidade social, nunca poderá ser neutra ou asséptica. Já com relação ao segundo autor, como destaca seu livro mais famoso “Contra o Método”, o processo de avaliação e controle da produção científica é uma tendência que ele aponta, ao mesmo tempo em que destaca o perigo que representa para a futura originalidade e criatividade do trabalho científico.

Não é objetivo deste artigo discutir os efeitos da avaliação e controle da produção científica conforme os autores citados, independente da evidente relevância do assunto. Aqui, especificamente, os autores são citados no sentido de ilustrar a existência e de uma homogeneidade mínima do campo em questão, que torna representativa a amostra estudada e seus resultados. Ou seja, em resumo, o conceito de campo (dialogando com performance e formação de alianças e grupos de referência) mais o de burocratização (percebida como a existência de um sistema formal de avaliação e controle da produção acadêmica) dão sustentação à pesquisa realizada e bases para as conclusões apontadas ao final.

O texto parte de uma exposição mais ampla sobre a história da ciência, até chegar ao seu objetivo específico que é a apropriação, pelo campo da Educação Física, de discursos originais das humanidades. Para tanto vai discutir a autonomia científica em um mundo burocratizado, a interdisciplinaridade e as características da constituição de uma área científica. Apresenta, por fim, uma sistematização da produção acadêmica com referencial das ciências humanas em revistas da área de Educação Física, mais especificamente as revistas Movimento, Motriz e a Revista Brasileira de Educação Física e Esportes (RBEFE) no período entre os anos de 2007 e 2012. Tal escolha justifica-se pela relevância alcançada por tais periódicos frente à área da Educação Física no país, por apresentarem um caráter abrangente frente a tal espaço de pesquisa e também devido a pontuações de relativo destaque no estrato Qualis/Capes na área 21 durante o período estudado. Tal decisão foi meramente metodológica, com o objetivo de ilustrar o cenário brasileiro a partir de uma amostra de revistas, o que não desqualifica a relevância e importantes contribuições de outros periódicos brasileiros no período.

Conforme análise relativa aos títulos e resumos, os artigos publicados em tais periódicos no período especificado foram classificados nas seguintes áreas, ou conjunto de áreas: a) pedagogia e Educação Física escolar; b) psicologia, imagem corporal e corpo; c) ciências sociais, cultura e gênero; d) lazer e turismo; e) filosofia; f) história; g) dança e música; h) letras e linguagem; i) excluídos por especificidade; j) excluídos: demais áreas.

Quando um artigo dialoga com mais de um referencial metodológico a classificação foi feita em função das palavras-chave apresentadas. Quando este critério não permite uma conclusão clara, e só nestes casos, foi verificada a bibliografia apontada. Foram excluídos artigos (item i) que, apesar de utilizar um referencial original das ciências humanas, tratam de temas muito específicos da Educação Física, o que tornaria altamente improvável sua aprovação em periódicos das ciências humanas, por exemplo temas de pedagogia do esporte, qualidade de vida, mercado de trabalho da Educação Física, inclusão e adaptação, ou ainda questões epistemológicas e características da produção científica e política acadêmica da área científica. O item “j” classifica os demais artigos, com referenciais próprios das ciências biológicas e exatas. Em casos duvidosos, a inexistência de referências ao campo de humanas nas palavras chaves foi critério para classificá-los nesta categoria. Os artigos sobre qualidade de vida, assim como da área de Educação Física adaptada, só não foram considerados entre os excluídos da análise (item “i”) quando apresentam uma relação clara com o campo das humanidades. De resto, procurou-se fazer um exercício de bom senso, por exemplo, desenvolvimento motor, na maioria das vezes, dialoga com a área biológica enquanto aprendizagem motora dialoga com a educação, embora possam existir exceções conforme a opção de uso da terminologia por parte do autor, que podem ser conferidas através das palavras chaves e do resumo.

Referencial teórico

O campo científico

Um campo social se conforma através da definição dos objetos de disputas e dos interesses específicos desse espaço, que só são compreendidos por quem faz parte dele. No campo, os agentes disputam o direito da violência simbólica, ou seja, o poder de orientar a conservação ou mudanças da estrutura de distribuição de capital, com base no seu reconhecimento e legitimidade como sujeito com destaque social, devido sua posse de capitais3. Desta forma, cada campo específico se faz relativamente autônomo, ou seja, embora sofra certas influências do meio social que o cerca, tem suas regras e história próprias4. Tem-se como exemplo a existência do campo científico, no qual os sujeitos lutam pela legitimidade de sua participação, reconhecimento acadêmico, poder econômico e político dentro dos princípios e critérios criados por seus agentes5.

As diferentes espécies de capitais são os poderes que definem as probabilidades de ganho em um campo determinado. Têm-se quatro formas essenciais que norteiam as disputas e que se inter-relacionam3: econômico (quantidade de dinheiro sob posse do agente), social (referente ao seu círculo social e relações interpessoais), cultural (aprendizado e conhecimento formal - ligado, entre outras formas, à escola regular e transmissão doméstica de conhecimento) e simbólico (específico de cada campo, é determinado pelo que o “habitus” e costumes daquele espaço indicam como algo a ser valorizado). Por exemplo, no campo científico atual são formas de capital simbólico o índice quantitativo de produtividade do pesquisador, sua capacidade de atrair financiamentos de pesquisa ou sua relevância teórica para determinada área de conhecimento.

Nesta estrutura, têm-se as disputas por reconhecimento e direito à violência simbólica assim como em qualquer outro espaço social. A análise sobre os comportamentos dos agentes se dá a partir da compreensão das regras sociais de disputas e do objeto (capital simbólico) desejado. A compreensão sobre os comportamentos dos sujeitos e grupos configuram-se como seus “habitus”, que se colocam como estruturas estruturadas e estruturantes, que são estabelecidas de acordo com as leis do campo e os caminhos específicos para a disputa e aquisição de capital3.

A produção contemporânea de conhecimento científico tem suas raízes no desenvolvimento filosófico e político da antiguidade clássica, passa pela fundação das primeiras universidades em sociedades islâmicas e na Europa, nos séculos X e XI, e chega até a atualidade na forma da ciência moderna, marcada pelo método científico e as obras de pesquisadores como Descartes, Galileu, Newton e Darwin. É caracterizada pela definição clara de um objeto de pesquisa e a adoção de um método científico para produzir conhecimento sistemático sobre um objeto determinado. A ciência apresenta modelos explicativos, ou teorias, fundamentados em premissas ou paradigmas através dos quais avança no conhecimento da realidade que nos rodeia. Em termos gerais, se aceita a subdivisão entre ciências da natureza (basicamente exatas e biológicas) e ciências da sociedade e ou humanas. Com base nas atuais normas do campo científico, podem-se identificar, muitas vezes, disputas por capitais entre agentes representantes de algumas destas vertentes, seja de modo a questionar a validade ou relevância científica de determinada área de conhecimento, ou até ao posicionar-se de modo favorável aos critérios de premiação e recompensas do campo5. As ciências da natureza também são referidas como ciências duras em função de uma presença mais forte da experimentação e do cálculo, embora exista pesquisa neste campo com viés especulativo (a questão, por exemplo, da expansão ou contração do universo) e também pesquisas em ciências humanas voltadas para a experimentação (alguns exemplos podem ser encontrados no behaviorismo) ou com o uso de cálculos estatísticos (presentes, por exemplo, em política).

No caso do conhecimento em ciências humanas não é possível conhecer e controlar todas as variáveis das pesquisas, o que incorpora uma dimensão inevitável de imprevisibilidade. Tome-se, como exemplo, diversas pesquisas que envolvam identificação de variáveis socioculturais e estabelecimento de relações humanas, como estudos etnográficos ou análises de discursos. Nota-se a busca por rigor metodológico de percepção e análise de informações, de acordo com procedimentos muitas vezes construídos ou modificados durante o processo - como, por exemplo, entrevistas semiestruturadas6 ou procedimentos de construção de teorias fundamentadas7-8 - que consideram a intersubjetividade ou até a relatividade e especificidade do contexto cultural em que ocorre a análise.

Com base nessa estrutura a construção da exposição a uma realidade social, na forma de um relato, não é operada num vazio social, mas está submetida a coações estruturais, ou seja, não é somente pontual e objetiva numa análise do microcosmo do objeto, mas sim, considera todo o macroespaço em que este se situa para compreender as razões e as estruturas que o conformam9. Tal análise busca uma compreensão do mundo social a partir da contextualização das relações que permeiam os objetos e as disputas pelo poder nos diferentes espaços de relações sociais.

Desse modo, para poder desvendar um objeto social deve-se compreender inicialmente sua produção, isto é, o espaço da sua produção e também de sua utilização pelos agentes envolvidos. Bourdieu, em conferência proferida na Universidade de San Diego, em 1986, utilizou como exemplo o ato de observar uma árvore muito de perto. Isso impossibilita enxergar e considerar a floresta a sua volta, e por não ter se construído esse espaço antes da análise do objeto, não se tem nenhuma chance de compreender de onde se está vendo e o que, de fato, se vê.

Segundo BOURDIEU3, é impossível compreender uma obra sem conhecer a história do espaço de produção da mesma. Para compreender a lógica mais profunda do mundo social, construí-la como uma figura em um universo de configurações possíveis.

Esse modo de orientar o pensamento busca negar a análise substancial dos objetos sociais, ou seja, como coisas inscritas de forma biológica ou cultural em determinado grupo. Por exemplo, uma prática inicialmente nobre pode ser abandonada por tal grupo tão logo seja adotada por uma fração da burguesia e classes populares. Da mesma maneira, uma prática inicialmente popular pode ser retomada como aristocrática3.

A autonomia científica, o mundo burocratizado

Desde a origem das primeiras universidades no Ocidente, a partir do século XI, coloca-se a questão da autonomia universitária enquanto um elemento fundamental para o desenvolvimento da ciência, propiciando um ambiente de liberdade e criatividade, onde a evolução científica responde à sua própria lógica de busca da verdade desinteressada. A história é rica em conflitos entre a universidade e o poder constituído, desde as relações com as Cidades-estados e a Igreja, até as recentes ditaduras e governos de fato. No momento atual, e tendo como foco o Brasil e os principais países produtores de conhecimento, pode-se perceber um relativo consenso com relação à importância de que a instituição acadêmica e de pesquisa usufrua de uma autonomia que lhe permita avançar a busca de conhecimento independente de opiniões pessoais políticas, religiosas ou culturais. Estas características reforçam a definição de campo conforme elaborada por Bourdieu.

A autonomia não é absoluta, mas referentes às atividades fins da instituição universitária: pesquisa, docência e extensão. No caso específico das universidades do Estado de São Paulo, existe também a autonomia de gestão financeira, a partir de um percentual da arrecadação de imposto de circulação de mercadorias e serviços (ICMS), conforme índice determinado pela Assembleia Estadual. A autonomia de gestão financeira está sempre subordinada às atividades fins da universidade, ou seja, a universidade é responsável pela sua gestão financeira desde que se atenha às funções para as quais foi criada.

Parece ter ficado no passado a censura, as perseguições políticas e aposentadorias compulsórias. O respeito da sociedade e das autoridades constituídas pela autonomia universitária tem gerado situações paradoxais, como ocorreu no ano de 2011 quando uma série de crimes, inclusive com morte, na Cidade Universitária da USP, levaram parte significativa da comunidade acadêmica a manifestar-se pelo policiamento do campus pela Polícia Militar do Estado, gerando uma situação de conflito interno. A universidade, em resumo, é autônoma para definir questões como conteúdo de aulas, programas de pesquisa, atividades de extensão, mas não está isenta de prestar contas à sociedade e procurar aprimorar canais de comunicação, inclusive com o mercado. A autonomia universitária não pode transformar a instituição numa espécie de República Autônoma do Saber, ou ainda numa aldeia de irredutíveis gauleses. Nota-se neste cenário a construção teórica do campo científico público no Brasil, o qual possui certa autonomia de regras de funcionamento e distribuição de capitais específicos, agregando poder aos agentes de destaque, mas que ao mesmo tempo deve, principalmente por seu caráter público, dar contribuições para a melhoria da sociedade e também se fazer sujeito de leis impostas por ela.

Numa sociedade cada vez mais mercantil e institucionalizada, os limites da autonomia científica podem ser buscados em outras instâncias, como, por exemplo, na definição das políticas de financiamento à pesquisa, nos órgãos de avaliação da carreira docente, na legitimidade de indexadores que praticamente impõem a obrigação de publicar em determinados veículos em detrimento de outros, ou ainda no relacionamento com o mercado e a presença de financiamentos privados ou de órgãos externos à política acadêmica de desenvolvimento científico, entre outros. Este processo, que pode ser chamado de burocratização, ilustra uma situação complexa, e que foge dos objetivos do artigo. Convém reforçar, contudo, que a situação atual não é estranha ou inusitada. Na década de 80, autores como Maurício Tragtenberg e Paul Feyeraband já apontavam, de forma crítica, problemas que agora se tornaram evidentes.

TRAGTENBERG10, em “A delinquência acadêmica: o saber sem poder e o poder sem saber”, denunciava o uso político da ciência a serviço do poder constituído, a sua subserviência ao mercado e uma vocação burocrática onde os meios (os processos de avaliação, por exemplo) se tornam fins, e os fins (a valorização do novo e a criatividade, por exemplo) se perdem. FEYERABEND11-12, por sua vez, em obras como “Contra o método” e “Adeus à razão”, denuncia a dimensão mítica da ciência contemporânea ao se apresentar muito mais abrangente e coerente do que ela é de fato, sua tendência conservadora ao preferir a hipótese mais antiga e não necessariamente a melhor e a sua ignorância com relação a outras formas de percepção do real, incluindo aqui o conhecimento popular e tradicional. Acusa também os cientistas de seguirem o caminho mais fácil de comprovação, e portanto, mais fácil de divulgação e com mais retorno para o pesquisador, em detrimento de buscar rumos mais originais, que exigiriam pesquisas mais longas, uma luta mais difícil para sua divulgação, mas que trariam mais conhecimento e benefícios para a sociedade em longo prazo.

Para efeito deste artigo, vamos aceitar que o conhecimento científico mantém a sua legitimidade na sociedade contemporânea e, apesar das críticas e limitações, continua ampliando seu espaço e importância no meio profissional. A questão central é perceber, dentro das nossas limitações, como se dá este processo de evolução e expansão da ciência para poder chegar à questão específica da relação entre a área da Educação Física e as ciências humanas.

A interdisciplinaridade

A evolução de pesquisa em humanas dentro da Educação Física é característica de uma área multidisciplinar, onde a interface entre referenciais de origens diferentes permite o avanço de uma delas sobre os novos objetos de pesquisa. Neste caso, que também pode ser classificado como interdisciplinaridade, ocorre uma espécie de colonização, numa analogia ao uso do termo por HABERMAS13na “Teoria da ação comunicativa”, dos objetos e métodos de outra área de conhecimento, por uma área de origem constituída e institucionalizada, onde deve ser considerada tanto a qualidade intelectual da produção como também o peso político da área no meio acadêmico, no sentido de legitimar o novo conhecimento produzido e permitir aos seus pesquisadores o acesso a fontes de financiamento e cargos no interior do campo das organizações de trabalho.

Para efeito deste artigo consideramos que o núcleo duro e original da Educação Física se encontra nas preocupações primeiras com relação à preparação para a atividade física, a interface entre exercício físico e a busca da saúde, além das práticas esportivas. Estas questões devem ser vistas em duas perspectivas: a) com relação à evolução da sociedade como um todo, incluindo as dimensões culturais, políticas e mercadológicas, que apresentam novas demandas e valores; e b) no diálogo que a área de pesquisa, institucionalizada no meio acadêmico, promove com as outras áreas científicas. Este processo nos leva à situação atual da área de Educação Física, enquanto carreira de nível superior, com uma grade curricular mínima definida pelos órgãos competentes e presença importante em seus campos específicos, seja como elemento de atuação profissional, ou no seu desenvolvimento teórico e de intervenção.

A área de ciências humanas é caracterizada, em geral, pelas seguintes disciplinas: ciências sociais (antropologia, sociologia e política), filosofia, história, geografia, educação, psicologia, linguística, direito, administração, economia, contabilidade e arquitetura. Podemos apontar como ponto de união, neste universo tão díspar, a preocupação com o ser humano, suas formas de interação e manifestação, e o embate permanente entre diferentes escolas de pensamento, ou paradigmas, dada a dificuldade em utilizar a experimentação como elemento último de comprovação. De resto, há diferenças importantes entre elas, no que concerne ao seu desenvolvimento, legitimidade acadêmica, qualidade e quantidade de produção sistemática14.

Tendo em mente a relação entre a Educação Física e as humanidades podemos afirmar que, inicialmente, existe uma área constituída que, para sua expansão, passa a utilizar recursos desenvolvidos fora dela, compreendendo o conceito de expansão dentro do campo que a própria área constitui e onde estão as suas publicações legitimadas, as fontes institucionais de financiamento e as carreiras definidas nas organizações acadêmicas. Ou seja, a possibilidade de uma área de pesquisa “A” utilizar objetos e métodos da área “B”, com sucesso, vai depender da capacidade de legitimação dos novos relatos dentro do espaço científico institucionalizado de “A”. Trata-se, portanto, de um movimento que começa e termina dentro de “A”. Neste mesmo sentido, não podemos falar de uma relação entre iguais, já que o objetivo final é a expansão do conhecimento a partir dos meios de difusão específicos de uma delas e não a construção de uma área comum, ou de uma terceira área de pesquisa, embora estes processos possam vir a ocorrer eventualmente14.

O leque de pesquisas em Educação Física, que se relaciona com as ciências humanas, permite perceber estes movimentos com relativa clareza. Mas o processo como um todo, se dá de forma desigual. Existe, por exemplo, um forte intercâmbio com a sociologia, expresso em congressos e publicações, e praticamente nenhum com a área do direito. Ou seja, a interação entre a área de Educação Física e os diferentes campos das ciências humanas não é linear, embora tampouco possa se afirmar que é aleatória ou dependente de fenômenos impossíveis de observar. A questão que se procura colocar neste texto, a partir da compreensão política do desenvolvimento da ciência, é a natureza dessa heterogeneidade15.

O desenvolvimento de um campo de pesquisa não se dá solto no ar, mas é decorrente de pressões e interesses específicos como os grupos de pesquisa legitimados, a história recente, a existência de linhas de financiamento, as novas pesquisas presentes no campo e a ação da mídia como elemento que aponta temas presentes na sociedade. No caso específico da Educação Física, é preciso ter presente que é uma área voltada à colocação dos seus formandos no mercado de trabalho. Neste sentido, talvez o primeiro elemento que ajude a compreender a interface diferenciada com outras áreas, e mais especificamente com as ciências humanas, é o currículo mínimo dos cursos de graduação.

De uma forma geral, as áreas (ou conjunto de disciplinas) das humanidades contempladas no currículo mínimo dos cursos de Educação Física, que têm algum grau de desenvolvimento e presença no campo científico, são:

  1. ciências sociais (política, sociologia, antropologia);

  2. psicologia;

  3. metodologia de pesquisa/teorias do conhecimento/epistemologia;

  4. filosofia/ética;

  5. educação/didática/estrutura e funcionamento do ensino;

  6. lazer/recreação;

  7. gestão/marketing esportivo.

A presença da área no currículo mínimo parece ser um critério importante para compreender a interface com a área de ciências humanas, mas não parece ser suficiente para trazer alguma luz a respeito da heterogeneidade interna do movimento. Parece importante pensar, além do apontado, a fragilidade interna da área a ser apropriada pela Educação Física, a atuação de pessoas ou grupos institucionalizados importantes, e ainda a relação inversa do processo de apropriação.

Ou seja, numa relação em que uma área “A” (Educação Física) procura apropriar-se de objetos e metodologias de uma área “B”, teremos como alguns critérios explicativos:

1º Critério: presença no currículo mínimo e uma tradição anterior de dialogo entre áreas. As áreas com mais diálogo tendem a manter mais presença no tempo, numa espécie de inércia.

2º Critério: fragilidade da área “B”. A interface com a sociologia pode servir de exemplo. Na década de 90, quando vários grupos com origem na Educação Física passam a organizar uma pesquisa sistemática em sociologia do esporte, a partir de autores como Norbert Elias e Pierre Bourdieu, o campo original da sociologia vivia uma forte crise de paradigmas, tendo que escolher entre uma revisão importante com a incorporação de novos conceitos e autores ou, pelo contrário, uma volta aos clássicos e seu aprofundamento e/ou radicalização. A apropriação da sociologia pela Educação Física pôde pular essa etapa de discussão, destacando autores específicos e tendo como critério básico sua adequação ao objeto de pesquisa esporte.

3º Critério: legitimidade e complexidade da área “B”: no caso de um conflito de legitimidade podemos colocar como exemplo a relação entre a Educação Física e a área da pedagogia. Na expressão Educação Física escolar é difícil definir claramente qual é o elemento central, se a Educação Física ou a escola. A legitimidade para produzir conhecimento sobre todos os aspectos do que acontece na escola, aliada ao poder institucional e ao fato que seus egressos possuírem poder formal sobre a estrutura educacional, pode levar a uma relação conflituosa e desigual.

4º Critério: complexidade da área “B”: neste caso podemos usar o exemplo do direito como uma área pouco presente no currículo mínimo, mas sem dúvida importante. Com o aumento da presença do judiciário nas mais diversas esferas da vida social, é muito provável que os atuais alunos de Educação Física tenham que enfrentar, ao longo de suas vidas profissionais, algum questionamento legal. A interface com a área de direito praticamente inexiste, muito provavelmente, pela complexidade e especialização inerente ao campo do saber jurídico.

Como foi colocado antes, este é um movimento de apropriação que começa e termina na área de origem, neste caso a área da Educação Física. É preciso, além de observar as características das outras áreas, levar em conta também a própria heterogeneidade no interior da área de origem. Isto significa dizer que o movimento de expansão da Educação Física, através da apropriação de objetos e métodos de pesquisa das ciências humanas, enfrenta não apenas a resistência dos diferentes grupos estabelecidos e reconhecidos neste campo, mas também uma resistência interna ao próprio campo da Educação Física. A economia nos ensina que, na sociedade, os recursos são escassos. O campo de ensino e pesquisa em Educação Física não pode fugir a esta regra. O avanço de pesquisadores da Educação Física nas humanidades se expressa, principalmente, através da produção de artigos em periódicos de reconhecida relevância. Sua legitimação vai depender, contudo, do reconhecimento interno à própria área, aonde vão se contrapor os dois movimentos conflitantes. Por um lado, é interessante para a área a sua expansão, por outro lado, esta expansão pode afetar a distribuição interna de recompensas materiais e simbólicas no sentido de ameaçar a reprodução de um “status quo” no tempo. Pode-se perceber nesta disputa o que talvez seja o maior exemplo de luta pelo capital simbólico deste campo.

Resultados e discussão

Vamos tomar como um dado de realidade significativo, para ilustrar estas relações de política acadêmica, os diferentes periódicos indexados na área de Educação Física e os temas recorrentes mais comuns. Esta opção parte do raciocínio de que o campo científico é um espaço de lutas e embates em busca de recompensas materiais e simbólicas. Neste campo, o sucesso dos sujeitos sociais dependerá em boa parte da sua vinculação como docente de um curso de pós-graduação, cujo primeiro critério de credenciamento passa pela publicação de artigos em revistas indexadas. Todo pesquisador, dadas as características de desenvolvimento da ciência e do conhecimento na sociedade contemporânea, tem que apresentar um alto grau de especialização em determinados temas, o que dificulta bastante a sua atualização posterior. Isto significa que a possibilidade de sucesso e ascensão na carreira de cada pesquisador depende tanto da sua competência individual como da expansão do seu campo de especialização. Assim, tanto os periódicos legitimados em uma área de pesquisa acadêmica, como os artigos neles publicados, ilustram uma longa cadeia de comportamentos articulados, onde todos os sujeitos buscam racionalmente um resultado específico e útil aos seus objetivos, antecipando os movimentos e expectativas dos outros sujeitos, procurando maximizar o retorno material e simbólico, onde se destaca a construção de alianças16.

Quando um pesquisador vinculado ao campo da Educação Física termina de escrever um texto com um tema das ciências humanas ele tem, como primeira decisão, que escolher entre: a) enviá-lo para um periódico da área das humanidades, publicado por um grupo externo ao campo da Educação Física ou; b) enviá-lo para um periódico da área de Educação Física que contemple este tipo de assunto.

A opção a) pode ser decorrente, basicamente, dos seguintes fatores que deverão ser analisados:

  1. O tema, em função da sua especificidade, teria dificuldade de aceitação fora da área de humanas;

  2. O autor pode ter interesse em se legitimar através de periódicos prestigiados na área de humanas;

  3. A publicação fora da área de Educação Física pode abrir possibilidades profissionais alternativas, que se tornem úteis no futuro;

  4. Ele possui um capital de relações sociais específico que facilita seu trânsito naquele campo ou, em outras palavras, frente às alianças construídas dentro de seu grupo de referência, ele tem maior chance de sucesso.

A opção b), por sua vez, pode decorrer de:

  1. Busca de uma maior pontuação na avaliação da CAPES, já que os periódicos da área são melhor avaliados que os externos;

  2. O tema, apesar de dialogar com as ciências humanas, tem trânsito mais fácil no campo de Educação Física;

  3. Ele possui um capital de relações sociais específico que facilita seu trânsito naquele campo ou, em outras palavras, frente às alianças construídas dentro de seu grupo de referência, ele tem maior chance de sucesso.

Vamos tomar, como primeira aproximação, a presença de revistas voltadas a temas das ciências humanas no Qualis da área 21 (área na qual situa-se a Educação Física, em conjunto com Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional):

Estes dados são aproximados já que nem todas as revistas têm um perfil claramente definido, podendo transitar entre várias áreas, ou ainda em fronteiras entre duas áreas. É preciso considerar também que a área 21 da CAPES congrega, além da Educação Física, as carreiras de Fisioterapia, Terapia Ocupacional e Fonoaudiologia, o que pode ajudar a explicar, por exemplo, a posição alta de revistas de psicologia. Um fator que deve ser destacado é a barreira existente na avaliação dos periódicos de humanas em, no máximo, B1, mesmo que ele tenha uma avaliação maior na sua área de origem. Porém, o que se percebe neste quadro não se repete em relação às ciências biológicas, onde os periódicos da área médica, por exemplo, podem apresentar classificações A1 e A2 na área 21.

As TABELAS 1 e 2 mostram a existência de dificuldades, no período analisado, para que uma revista da área de ciências humanas passasse de uma avaliação B1 para A2 na área 21, independente da condição do periódico na sua área de origema. Aqui podem ser apontadas algumas hipóteses mais prováveis, sempre levando em conta a relatividade da análise. Em primeiro lugar é preciso ter claro que se trata de um processo pelo qual a área de Educação Física legitima publicações externas. Quais as consequências mais evidentes deste processo? Trata-se de uma mudança nos critérios de acesso aos pontos Qualis, o que interfere na possibilidade de acesso como docente à pós-graduação, ou seja, interfere na constituição da elite do campo, com o impacto correspondente na distribuição interna de bens materiais e simbólicos. A aparente subavaliação dos periódicos das ciências humanas neste período, em comparação com a avaliação dos periódicos próprios da área biológica pode, então, ser percebida dentro de uma competição já tradicional no campo da Educação Física, entre estas duas áreas. É possível apontar, ainda, outra consequência. Teoricamente, os periódicos específicos das ciências humanas deveriam ser mais rigorosos e atualizados (eventualmente mais corporativos também) para avaliar pesquisas da sua área, ou seja, ao colocar uma pesquisa com tema de humanas numa publicação da área, o pesquisador atuante na Educação Física estaria provando maior competência e atualização. Na prática, ao subavaliar os periódicos das Ciências Humanas, a Educação Física pode estar deixando de incentivar seus quadros a melhorarem a qualidade das pesquisas através da competição com avaliadores especializados naquelas temáticas e referenciais metodológicos. Ou seja, pode estar embutida nesta prática uma piora do nível possível de qualidade da produção na EF.

TABELA 1 Quantidade e classificação de revistas de ciências humanas no Qualis/Capes da área 21 no ano de 2012. 

B5 B4 B3 B2 B1 A2 A1 Total Posto
Educação 11 4 3 3 8 29
Psicologia 9 5 5 7 26
Ciências Sociais/Cultura/Gênero 9 1 2 5 17
Lazer/Turismo 3 2 1 2 8
Letras/Comunicações 3 2 1 6
Filosofia 4 1 5
História 2 3 5
Música/Dança 1 1 2
Geografia 2 2
Biblioteconomia 1 1
Arquitetura/Urbanismo 1 1
Administração/Economia 1 1
Serviço Social 1 1

TABELA 2 Distribuição dos periódicos da área de Ciências Humanas por diferentes estratos Qualis/Capes da área 21 no ano de 2012. 

Nivel Qualis B5 B4 B3 B2 B1 A2 A1
Porcentagem de periódicos 46,00% 11,00% 10,00% 11,00% 21,00% zero zero

Outra aproximação interessante é verificar a presença de artigos com temas das ciências humanas em alguns dos principais periódicos da Educação Física. Para efeito da construção das TABELAS a seguir foi considerada a presença de temas específicos das ciências humanas no resumo e nas palavras chaves dos artigos, conforme explicitado na metodologia. Foram classificados artigos com tema e referencial de humanas e separados de artigos classificados como “Educação Física + referencial de humanas” com temas de humanas, mas voltados muito especificamente para a Educação Física (que teriam dificuldade em serem aceitos para avaliação fora da área). A categoria “Educação Física + referenciais de exatas ou biológicas” agrupa os artigos com temas da Educação Física que utilizam referenciais metodológicos de áreas duras. Foi apresentada também uma soma separada dos artigos de humanas com os de Educação Física, mais específicos, com referencial de humanas. A avaliação não tem, evidentemente, a precisão de um teste de laboratório. Seus resultados devem ser vistos como um retrato amplo do que acontece na área, sinalizando a presença de algumas tendências (TABELA 3).

TABELA 3 Distribuição dos artigos por área e periódico no período entre os anos de 2007 e 2012. 

Periódico Motriz % Movimento % RBEFE %
Referencial e temática própria das ciências humanas 200 41,1 192 72,7 64 26
Educação Física com referências das ciências humanas 81 16,7 37 14 62 25,2
Educação Física com referências das ciências da natureza 205 42,2 35 13,3 120 48,8
Somatório Referencial e temática das ciências humanas e Educação Física com referencial das ciências humanas 281 57,8 229 86,7 125 51
Total 486 100 264 100 246 100

Estes números ajudam a ilustrar a política editorial de cada revista. A revista Movimento buscou concentrar-se na divulgação de temas de ciências humanas, enquanto a revista Motriz buscou um equilíbrio relativo entre humanas e áreas duras. A RBEFE, por sua vez, apresentou a maior distribuição de temas e áreas apontando, provavelmente, para uma maior diversidade dentro das possibilidades de pesquisas que o campo da Educação Física oferece (TABELA 4).

TABELA 4 Produção na área de ciências humanas por periódico e tema (2007 até 2012). 

Revista Motriz % Movimento % RBEFE %
Pedagogia e Educação Física escolar 74 37 72 37,5 24 37,5
Psicologia, imagem corporal, corpo 37 18,5 13 6,8 6 9,4
Ciências sociais, cultura e gênero 28 14 51 26,6 15 23,4
Lazer e turismo 37 17 20 10,4 4 6,2
Filosofia 5 2,5 8 4,2 2 3,1
História 10 5 15 7,8 12 18,8
Dança e música 10 5 12 6,2 1 1,6
Letras e linguagem 2 1 1 0,5 zero zero
Total com tema e referencial de humanas 200 100 192 100 64 100
Total geral de artigos publicados 486 264 246

Comparando o perfil dos três periódicos analisados tem-se o panorama da TABELA 5.

TABELA 5 Panorama geral sobre referenciais das ciências humanas utilizados em trabalhos na área de Educação Física. 

Movimento Motriz RBEFE
Educação 37,5 Educação 37,0 Educação 37,5
Ciências Sociais/ Cultura/Gênero 26,6 Psicologia 18,5 Ciências Sociais/Cultura/Gênero 23,4
Lazer/Turismo 10,4 Lazer/Turismo 17,0 História 18,8
História 7,8 Ciências Sociais/Cultura/Gênero 14,0 Psicologia 9,4

Um aspecto que pode ser apontado aqui é a importância da área de educação como o principal interlocutor da Educação Física com as ciências humanas, seguido das áreas de Ciências Sociais/Cultura/Gênero, Lazer e turismo, Psicologia/Imagem corporal/corpo e História. O dialogo com a educação e a Educação Física escolar parece constituir o núcleo principal da interação entre as áreas, provavelmente não só pela dimensão histórica da Educação Física escolar, mas também pelo fato da área de educação dispor de uma grande quantidade de periódicos nos diferentes estratos do Qualis.

As áreas pouco contempladas apontam, por sua vez, a possibilidade de explorar temas menos comuns e que podem, justamente por isso, virem a se tornar nichos de pesquisadores e grupos de pesquisa especializados no futuro, em função da menor competição. Cabe destacar, por exemplo, o pequeno diálogo com a área do direito e, até mesmo, com a administração. Porém, convém levar em conta também que o sistema de credenciamento nos programas de pós-graduação, através de pontos em periódicos Qualis, não facilita inovações. Um texto de educação vai buscar se viabilizar num espaço que é quase 40% de todas as publicações nas revistas de Educação Física consultadas, oferecendo ao autor, como plano “B”, um leque grande de opções nas publicações da área de educação. Textos, por exemplo, de filosofia ou letras, ocupam em torno de 5% do espaço nas publicações analisadas em Educação Física e têm, como plano “B”, áreas de publicação mais especializadas e pouco acostumadas a dialogar com a Educação Física.

Esta dinâmica não pode ser considerada conservadora no sentido forte do termo. Ela vai aceitar a inovação desde que ela parta das áreas constituídas e legitimadas, ou seja, a inovação a partir do típico. Mas, como colocavam Tragtenberg e principalmente Feyerabend, as inovações no sentido de rupturas radicais com os paradigmas estabelecidos, ou ainda que dialoguem com perspectivas novas e originais, tendem a enfrentar bastante dificuldade para encontrar interlocutores. Este caminho termina por se constituir numa aposta arriscada para o pesquisador que precisa sobreviver num sistema permanente de avaliação, se comparado com a simples inovação a partir dos cânones mais aceitos no campo.

O campo da produção científica é complexo e dinâmico. A busca permanente da construção e divulgação de relatos científicos soma-se à dimensão política das relações organizacionais e institucionais e às idiossincrasias pessoais, sem esquecer nunca da presença de um componente aleatório difícil de avaliar. O fato de procurar compreender esta dinâmica no momento atual torna a tarefa ainda mais difícil.

A compreensão da apropriação de temas e referenciais das ciências humanas pela Educação Física depende da observação de aspectos internos à própria área e suas disputas, como também de características específicas das ciências humanas e, por fim, da sociedade mais ampla que rodeia e interfere em todo o processo.

Este texto procurou delinear alguns destes aspectos e colocá-los em perspectiva no sentido de avançar a discussão, sem pretender ser conclusivo com relação às questões abordadas. Trata-se, fundamentalmente, de contribuir para a reflexão e participar de um diálogo amplo com os diferentes sujeitos da comunidade acadêmica e científica. Procura, também, aproximar o pensamento de Bourdieu com o de alguns pensadores do campo que, apesar de bastante recentes, parecem estar mais ausentes do debate, como Feyeraband e Tragtenberg, constituindo um sistema de valores, no sentido usado por Aron, sem o qual a análise não poderia ser desenvolvida.

Como considerações finais deste trabalho podemos resgatar a importância de entender o campo de poder do ensino e da pesquisa em Educação Física e suas características, os sujeitos que têm um papel de destaque neste campo, os grupos e suas pesquisas, bem como o “habitus” da produção científica da área. Os conceitos de performance ao analisar a produção científica e o conceito de alianças e grupos de referência ilustram o fenômeno de fortalecimento de determinadas áreas de pesquisa em detrimento de outras.

A construção do campo da Educação Física, analisado neste trabalho entre os anos de 2007 e 2012, ilustra uma forma de reprodução marcada por uma dimensão institucionalizada, ou burocrática, caracterizada por formas estabelecidas de avaliação e controle, onde se destacam a inserção na área de ciências biológicas e a determinação de disciplinas no curriculum mínimo do curso. Portanto, a produção científica neste período possuiu uma escala de valores que não foi neutra e poderia (ou ainda pode) apresentar limitações nas dimensões futuras de originalidade e criatividade do trabalho científico. Tais componentes estruturam um campo de disputa por poder que se orientou por critérios de avaliação e distribuição de capitais pautados em características que não beneficiaram todos os grupos do mesmo modo. As consequências deste cenário se ilustram em algumas diferenciações e lutas distintivas que afetam espaços de atuação como os programas de pós-graduação e o ordenamento e organização de espaços de publicação. Como alguns dos produtos deste processo, têm-se adaptações e transformações de algumas áreas das ciências humanas relacionadas à Educação Física, no sentido de adequar-se à lógica imanente de distribuição de poder neste campo.

Destaca-se que, em tempos mais recentes, podem ser percebidos movimentos, dentro da área 21, no sentido de procurar métodos e critérios de avaliação de periódicos que permita menor diferença de acesso a publicações mais valorizadas, entre as diferentes áreas de pesquisa em Educação Física. O produto de tais transformações, oriundas, dentre outros aspectos, das disputas e desequilíbrios próprios do cenário estudado, ainda não pode ser medido. Por isso, novos estudos fazem-se pertinentes, em um futuro próximo, como forma de complemento a este diagnóstico sobre o campo de produção acadêmica na área 21.

Todavia, é preciso ter presente também que o campo é composto de pessoas racionais, dotadas de iniciativa, livre arbítrio e ética, ou seja, não é impossível a construção de consensos, mesmo que relativos, onde os objetivos de evolução, crescimento, originalidade e preservação dos setores menos representados da área se sobreponham aos interesses específicos e imediatos das pessoas e dos grupos que a compõem. Talvez esse seja o maior desafio que se apresenta na atualidade.

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a. É importante considerar que este presente trabalho se refere a um estudo de um cenário anterior, entre os anos de 2007 e 2012, que precedeu a algumas medidas recentes (2015) adotadas pela CAPES, que modificam alguns critérios e meios de classificação de periódicos, de modo a procurar minimizar diferenças de acesso a publicações mais valorizadas entre as diferentes áreas de pesquisa em Educação Física. Os desdobramentos de tal ação somente poderão ser analisados em oportunidades futuras.

Recebido: 19 de Agosto de 2013; Revisado: 26 de Março de 2015; Revisado: 21 de Outubro de 2015; Aceito: 21 de Outubro de 2015

ENDEREÇO. Renato Francisco Rodrigues Marques. Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto. Universidade de São Paulo. Av. Bandeirantes, 3900. 14040-907 - Ribeirão Preto - SP - BRASIL. e-mail: renatomarques@usp.br.

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