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Revista Brasileira de Educação Física e Esporte

versão impressa ISSN 1807-5509versão On-line ISSN 1981-4690

Rev. bras. educ. fís. esporte vol.30 no.4 São Paulo out./dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1807-55092016000401069 

PEDAGÓGICA E COMPORTAMENTAL

A influência do desempenho motor no “status” social percebido por crianças

Motor performance influence in social status perceived

Pâmella MEDEIROS* 

Marcela Almeida ZEQUINÃO* 

Fernando Luiz CARDOSO* 

*Centro de Ciências da Saúde e do Esporte, Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.

Resumo

Este estudo teve como objetivos descrever o desempenho motor de crianças e adolescentes em relação ao “status” social dos mesmos segundo a percepção dos colegas nos diferentes sexos, além de verificar se há o efeito sexo nessa possível associação. Participaram desta pesquisa 300 crianças e adolescentes do 3º ao 5º ano e da 4a a 6a série do Ensino Fundamental de duas escolas públicas, com idades entre oito e 14 anos. Os instrumentos utilizados foram a Bateria motora TGMD-2 e a Escala Subjetiva de Status Social. As meninas apresentaram melhor desempenho motor que os meninos, no entanto, apenas os meninos com melhor desempenho motor também apresentaram maior “status” social percebido. Tal situação nos indica que os meninos estão mais suscetíveis a avaliações sociais positivas pautadas em competências físicas que as meninas, podendo fazer uso do seu melhor nível de desempenho motor para elevar a sua popularidade na escola através de práticas esportivas.

Palavras-Chave: Destreza motora; Hierarquia social; Educação física; Fatores sexuais

Abstract

This study aimed to describe the children and adolescents motor performance in relation to their social status perceived by their colleagues in both sexes, and to check for sex effects in this possible association. The study gathered 300 children and adolescents from the 3rd to 5th year and 40 to 60 grade of elementary school from two public schools, aged between 8 and 14 years. The instruments used were the Motor Battery TGMD-2 and Subjective Scale Social Status. Girls had better motor performance than boys, however, only boys with better motor performance also had higher perceived social status. This situation tells us that boys are more susceptible to social evaluations guided in physical skills than girls so that they can make use of their best motor performance level to increase their popularity at school through sports practices.

Key words: Motor skills; Hierarchy; Physical education; Sex factors

Introdução

O desenvolvimento motor é o processo de maturação do sistema motor ao longo do tempo, compreendendo modificações contínuas do comportamento motor, realizado pela influência mútua entre as necessidades da tarefa, a biologia do indivíduo e a interação com o meio ambiente, que combinados resultam em uma melhora do desempenho que representa a aquisição de funções motoras cada vez mais complexas1.

Os parâmetros normais de desenvolvimento motor servem como padrões típicos do desenvolvimento infantil, representando a idade média em que a criança é capaz de realizar habilidades motoras básicas, que são requisitadas no seu cotidiano, sendo imprescindíveis para o diagnóstico do desenvolvimento infantil2-3. Os aspectos motores apresentados na infância sofrem modificações com a idade e são inerentes às diferenças sociais, intelectuais e emocionais4.

Dessa forma, crianças e adolescentes que apresentam movimentos precisos, adequados e que manifestam respostas rápidas a uma determinada situação, possuem maiores probabilidades de sucesso no desempenho de suas tarefas motoras5, o que tende a causar efeitos positivos em outros domínios da vida diária, como nos relacionamentos intra einterpessoal6, refletindo no sucesso das relações do contexto escolar.

No universo infanto-juvenil as comparações sociais, a avaliação do desempenho motor dos colegas e a avaliação que recebem de terceiros, influenciam de forma efetiva no desenvolvimento do senso de auto eficácia, responsável pela promoção da satisfação e sustentação de relacionamentos sociais positivos, influenciando seu “status” social perante o grupo7-8. Este, por sua vez pode ser entendido como a posição social de uma pessoa frente às percepções dos seus pares nos diferentes níveis sociais em que convive9, podendo ter impacto negativo ou positivo na vida dos indivíduos10, principalmente na infância e adolescência, nos quais meninas e meninos são mais dependentes da aceitação e aprovação dos pares11-14.

Na escola, o grau de “status” que o aluno possui perante o grupo, seja na disputa pelo poder ou na marcação territorial15, pode estar associada a algumas características como idade, tempo que está na instituição16-18, ser bom em esportes e até mesmo o nível de desempenho motor que ele apresenta19. Estudos vêm apontando que crianças e adolescentes que apresentam um melhor nível de desempenho motor e um maior nível de atividade física, consequentemente também apresentam um maior “status” social percebido pelo grupo20-23. No entanto, os alunos com nível mais baixo de desempenho motor, pouca habilidade para os jogos com bola, são constantemente excluídos do grupo, das brincadeiras e jogos nos recreios e nas aulas de Educação Física, enquanto os mais aptos tendem a dominar20, 22, 24-26. Com isso, muitas crianças se retiram dessas situações para evitarem demonstrar qualquer proficiência motora abaixo da média. Esse pode se tornar um problema ainda maior e de efeitos relativamente duradouros, não apenas pelo prejuízo no desenvolvimento motor, mas também pelo prejuízo nas relações pessoais27-30.

No entanto, pouco se sabe como a relação das variáveis desempenho motor e “status” social pode atuar em meninos e meninas separadamente. O entendimento dessa relação pode tornar-se mais complexo quando confrontamo-la com a variável identidade sexual, ou seja, até que ponto ser menino ou menina com melhor ou pior desempenho motor pode interferir nas estratégias escolhidas para se ganhar mais “status” na escola?

Diante disso, o presente estudo tem como objetivos descrever o desempenho motor de crianças e adolescentes em relação ao “status” social dos mesmos segundo a percepção dos colegas nos diferentes sexos, e por fim verificar se há relação destas variáveis em meninos e meninas separadamente.

Método

Esta é uma pesquisa descritiva, transversal e de campo que procurou por possíveis correlações entre o nível de desempenho motor e o “status” social segundo a percepção dos próprios colegas.

Participantes

Participaram do estudo 300 crianças e adolescentes do 3º ao 5º ano e da 4ª a 6ª série do Ensino Fundamental, de ambos os sexos, com idades entre oito e 14 anos, matriculadas em duas escolas públicas municipais no período vigente do estudo. Esta pesquisa faz parte de um projeto aprovado junto ao Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos sob processo 5439/2011, n. expediente 75/2011.

Instrumentos

Para a avaliação do nível de desenvolvimento motor utilizou-se a bateria Test of Gross Motor Development- Second Edition- TGMD-231, que consiste em uma avaliação normativa das habilidades motoras globais consideradas comuns, referenciada por norma e critério44. É composto por 12 habilidades motoras fundamentais, divididas em dois sub-testes específicos: habilidades de locomoção (correr, galopar, saltitar, saltar obstáculo, saltar horizontalmente e deslizar); e habilidades de controle de objetos (rebater, quicar, receber, chutar, arremessar por cima do ombro e rolar a bola). Em cada habilidade são observados de três a cinco critérios motores específicos que permitem avaliar como as crianças coordenam o tronco e membros durante o desempenho de uma habilidade motora, ou seja, analisa o padrão da habilidade motora, isto é, o processo e não o produto final da tarefa.

Cada habilidade foi executada duas vezes, sendo as duas avaliadas e pontuadas. Cada sub-teste possui 24 critérios de desempenho cada um e em cada critério é atribuída uma nota 0 (não atendeu ao critério) ou 1 (atendeu ao critério), podendo totalizar um máximo de dois pontos por critério em cada habilidade. Desta forma, cada criança avaliada pode ter no máximo 48 pontos no escore de cada sub-teste. A partir desta pontuação é necessário consultar o manual do teste proposto por ULRICH31 para determinar o Quociente Motor Bruto, pois cada criança recebe um escore conforme a idade e o sexo para cada sub-teste. Assim, determina-se o nível de desempenho da mesma, classificando-a em sete categorias: “muito pobre, pobre, abaixo da média, na média, acima da média, superior e muito superior”31.

Para verificar o “status” social segundo a percepção dos colegas, utilizou-se o método sociométrico32, que consiste em analisar a aceitação ou rejeição social por meio de escolhas sociométricas positivas ou negativas33. Aplicou-se então, a Escala Sociométrica de Status Social Subjetiva de LEVANDOSKI16, composto por seis questões de avaliação de um aluno em relação aos seus colegas, através de indicações de acordo com seis habilidades específicas percebidas através do convívio diário: três questões que abrangem o “status” positivo Q1 (Primeiros a serem escolhidos na Educação Física), Q3 (Mais fortes) e Q5 (Primeiros a serem escolhidos para trabalhos em sala de aula) e três questões de “status” negativo Q2 (Últimos a serem escolhidos na Educação Física), Q4 (Mais fracos) e Q6 (Últimos a serem escolhidos para trabalhos em sala de aula). O aluno consultado pode indicar até 10 colegas para cada pergunta independente do sexo16. Ao final foi realizada uma contagem de frequência com os alunos indicados, obtendo assim, escores para cada um, tanto para “status” positivo, quanto negativo. Estudos como COIE et al.34, enfatizam a importância de se usarem o método sociométrico, obtendo com a combinação de questões positivas e negativas, resultados mais precisos envolvendo toda a esfera do “status” social.

Procedimentos

O teste foi filmado individualmente e as filmagens analisadas por três avaliadores, sendo comparadas as notas dadas em cada critério 0 (não atendeu ao critério) ou 1 (atendeu ao critério), de modo que o resultado considerado fosse indicado por pelo menos dois dos avaliadores em cada critério e em cada tentativa. A aplicação do teste motor TGMD-2 foi realizada em um espaço apto com piso de concreto, cedido pelas escolas, de forma individual, sob a orientação de dois pesquisadores treinados e capacitados para a aplicação: um foi responsável por instruir os participantes, e outro por filmar as habilidades. Já o questionário para avaliar o “status” social na percepção dos colegas, foi aplicado individualmente em uma sala de aula por um pesquisador treinado e capacitado. Ambos os testes foram aplicados no ambiente escolar.

Análise estatística

Os dados da pesquisa foram tabulados e analisados no programa computadorizado Statistical Package for the Social Science (SPSS for Windows) versão 20.0, mantendo a identidade das crianças em sigilo. Para análise dos dados utilizou-se o teste de normalidade de KolmogorovSmirnov para verificar se os dados atendiam os pressupostos paramétricos. Como os dados não apresentaram distribuição normal, realizou-se a estatística descritiva e inferencial por meio dos testes Qui-quadrado, para verificar a associação entre o desempenho motor categorizado e a variável sexo; Mann-Whitney, para comparação entre os sexos em relação aos escores de desempenho motor e o “status” percebido, e correlação de Spermann para verificar a relação entre os escores de desempenho motor e “status” percebido pelos colegas. Utilizou-se, também, o programa G power 3.1, para calcular o tamanho do efeito da correlação entre o desempenho motor e o “status” social dos participantes segundo a percepção dos colegas.

Resultados

Desempenho motor e sua relação com o sexo dos participantes

Quando analisados separadamente os escores das Habilidades Locomotoras e de Controle de Objetos em relação aos sexos, verificou-se que meninas apresentaram melhor nível de desempenho motor em relação aos meninos nas habilidades de controle de objeto (℘ = 6,96; DP = 2,24; p ≤ 0,001). Da mesma forma, quando analisado o Quociente Motor Bruto, as meninas também foram as que apresentaram melhores resultados (℘ = 81,45; DP = 10,70; p ≤ 0,007) - TABELA 1.

TABELA 1 Escores dos sub-testes e do quociente motor bruto, controladas pelo sexo dos participantes. 

Variáveis Meninos (n = 152) Meninas (n = 148) U p ≤


χ (dp) χ (dp)
Escore habilidades locomotoras 6,79(2,17) 6,80(2,12) 11083,50 0,677
Escore habilidades de controle de objetos 6,10(2,31) 6,96(2,24) 9001,50 0,001
Quociente motor bruto 78,78(9,89) 81,45(10,70) 9243,00 0,007

*χ: média;

DP: Desvio padrão;

p: nível de significância p ≤ 0,05;

U: teste de Mann Whitney.

Apesar das meninas apresentarem escores superiores no geral em relação aos meninos, quando os participantes foram classificados em quatro categorias (muito pobre, pobre, abaixo da média e na média), não foram encontradas associações entre estas e o sexo masculino e feminino. Além disso, pelas frequências foi possível observar que nenhum dos alunos atingiu os níveis acima da média, superior e muito superior, conforme a TABELA 2.

TABELA 2 Associação o desempenho motor categorizado e o sexo dos participantes. 

Desempenho motor Meninos Meninas χ2 p ≤

N % N %
Muito pobre 35 23,1 24 16,2 7,455 0,059
Pobre 57 37,5 43 29,1
Abaixo da média 37 24,3 54 36,5
Na média 23 15,1 27 18,2
Total 152 100% 148 100%

*N: número de participantes;

%: frequência;

χ2: Teste do qui quadrado;

p: nível de significância p ≤ 0,05.

“Status” na percepção dos colegas: diferença entre os sexos

Em relação ao “status” social segundo a percepção dos colegas, identificou-se que os meninos foram mais vezes escolhidos preferencialmente nas aulas de Educação Física, foram também mais vezes citados como os mais fortes e mais fracos, além de serem os últimos a serem escolhidos para trabalhos em dupla realizados em sala de aula, quando comparados às meninas. Em contrapartida, as meninas foram mais vezes citadas como as preferidas para fazerem os trabalhos escolares em sala de aula com o grupo.

Em relação ao escore de “status” positivo, os meninos possuem um maior “status” pela percepção dos seus colegas. Contudo, quando somadas às questões que fazem referência a um pior “status”, também foram os meninos aqueles mais vezes indicados como tendo menor “status” segundo a percepção dos colegas, quando comparados as meninas (TABELA 3).

TABELA 3 Diferenças dos escores do “status” segundo a percepção dos colegas com os sexos dos participantes. 

Questões Meninos (n = 207) Meninas (n = 202) U p ≤
χ (dp) χ (dp)
Q1 Primeiros escolhidos na Educação Física 5,37(4,12) 4,24(2,79) 16260,00 0,013
Q2 Últimos escolhidos na Educação Física 3,05(2,39) 2,55(2,02) 16904,00 0,055
Q3 Mais fortes 3,55(4,32) 1,17(1,84) 11100,00 0,001
Q4 Mais fracos 2,73(2,63) 2,02(2,14) 15889,50 0,004
Q5 Primeiros escolhidos para sala/aula 2,14(4,32) 3,15(2,33) 14044,50 0,001
Q6 Últimos escolhidos para sala/aula 2,97(2,04) 1,63(1,59) 12417,50 0,001
Escore “status” positivo 11,07(10,00) 8,55(5,60) 16185,50 0,011
Escore “status” negativo 8,75(5,50) 6,19(4,52) 13223,00 0,001

*χ: média extraídado número de indicações pelos pares, quanto maior os números, maior o número de indicações;

DP: desvio padrão;

U: teste de Mann Withney;

p: nível de significância p ≤ 0,05.

Relação entre o desempenho motor e “status” social entre os sexos, segundo a percepção dos colegas

Ao analisar as relações entre o desempenho motor e o “status” dos participantes segundo a percepção dos colegas foi encontrada uma correlação positiva ρ = 0,274** ; p ≤ 0,001) entre “status” positivo na percepção dos colegas e o desempenho motor, por meio do quociente motor bruto, para os meninos. Isto é, quanto melhor o nível de desempenho motor do aluno, mais popular na visão dos colegas. Já para as meninas, nenhuma correlação foi encontrada (ρ = -0,001; p = 0,995). Tamanho do efeito: 0,29.

A FIGURA 1 ilustra a associação entre as duas variáveis utilizando os escores brutos: desempenho motor e o “status” dos participantes.

FIGURA 1 Gráfico de correlação entre desempenho motor e “status” na percepção dos colegas. 

Discussão

Desempenho motor e sua relação com o sexo dos participantes

Dentro de um contexto desenvolvimentista, as habilidades motoras fundamentais são aquelas que envolvem os grandes grupos musculares do tronco, braços e pernas. Essas habilidades envolvem tarefas de locomoção e manipulação, e quando desenvolvidas possibilitam o aperfeiçoamento para tarefas especializadas como: transportar o corpo pelo espaço e explorar e interagir com os objetos no ambiente35. Tais habilidades podem ser utilizadas em situações específicas de esporte, dança e atividades lúdicas36 e assim, construir um diversificado repertório motor, possibilitando que os desafios do cotidiano sejam enfrentados de maneira adequada e efetiva37.

Em geral, testes que avaliam essas habilidades, têm mostrado que meninos em idade escolar possuem significativamente melhor desempenho motor em relação às meninas38-42. Além disso, BLATCHORD et al.43relataram que meninos são mais propensos a se envolverem em jogos com bola o que pode levá-los a níveis mais altos de atividades físicas e melhores habilidades manipulativas. Esses dados, vão de encontro aos resultados deste estudo, no qual meninas apresentaram melhor desempenho nas habilidades de controle de objetos e no quociente motor bruto quando comparadas aos meninos. Esse resultado foi semelhante aos achados de ABIKO et al.44, também com estudantes da região Sul do Brasil, em que, do mesmo modo, meninas apresentaram resultados superiores aos meninos no resultado geral, embora a idade dos participantes das pesquisas tenha sido inferior aos do presente estudo, no entanto maiores especificidades em relação ao contexto social não foi encontrado nos estudos.

Ainda que meninas tenham apresentado melhores resultados quando comparadas aos meninos, verificou-se que, em ambos os sexos, os níveis de desempenho motor foram muito baixos em geral, sendo que apenas 15,1% dos meninos e 18,2% das meninas atingiram o nível médio, ficando todos os outros participantes em níveis inferiores. Esses dados indicam um grande atraso no desenvolvimento motor das crianças e adolescentes deste estudo, tendo em vista que a literatura vem apontando que no decorrer do crescimento e do desenvolvimento infantil a habilidade em usar os segmentos corporais deveria aumentar em força, velocidade e coordenação35, 45-47.

“Status” na percepção dos colegas: diferença entre os sexos

Quando analisados neste estudo o “status” percebido pelos colegas em quase todas as questões os meninos foram mais lembrados que as meninas, tanto para perguntas sobre “status” positivo, quanto negativo, indo ao encontro de estudos como o de COIE et al.34 e MORAIS et al.33. Em contrapartida, as meninas foram as mais citadas como sendo as primeiras escolhidas para fazerem trabalhos em sala de aula. Isso se justifica tendo em vista que diversos estudos têm mostrado os meninos com um pior desempenho escolar e maiores dificuldades para aprender48-52.

Apesar de os meninos apresentarem um desempenho superior às meninas em matemática, na língua portuguesa acontece ao contrário, sendo este padrão recorrente em grande parte das sociedades estudadas53. Embora existam essas variações para maiores facilidades e dificuldades em cada disciplina, estudos apontam uma incidência de três meninos para uma menina em relação às dificuldades para aprender, podendo variar ainda em até 10 para um48-50, 54-55.

A relação entre “status” e habilidades cognitivas espelha a influência dos tradicionais estereótipos de gênero já muito bem documentado na literatura56. Nas relações que a criança cria com o grupo, ela estabelece estratégias para exercer o poder, assim como mecanismos para obter a aceitação e sua posição no grupo33. OSTBERG57 verificou que durante a infância, quanto menor sua posição de “status” percebidos pelos colegas em relação aos seus pares, o indivíduo apresentará uma menor auto avaliação de saúde na vida adulta, além de influenciar sintomas de estresse emocional e ações de vitimização de “bullying” escolar durante a infância e adolescência. Crianças e adolescentes com um menor “status” social correm sérios riscos de desenvolverem problemas de ajustamento social tanto no presente como no futuro33, 58.

Desempenho motor e sua relação com o “status” social

Neste estudo, foi encontrada uma associação entre ter melhor desempenho motor e maior “status” social segundo a percepção dos colegas, entre os meninos. Esses dados estão de acordo com a literatura que considera o nível de desempenho motor influenciador no modo como às crianças se percebem e percebem seus pares e, quando experimentadas sensações de divertimento, satisfação e sucesso nas atividades físicas, o nível de autoestima e motivação tendem a se elevar35, 59. Além disso, para OLDEHINKELET al.19 um melhor desempenho motor está associado a um maior “status” social em crianças adolescentes. Isso se aplica principalmente para os meninos, que estão mais suscetíveis a avaliações que as meninas, pois estudos indicam os meninos como mais competitivos por dominância social e “status”60 estando mais expostos à avaliação dos colegas. Além disso, muitas meninas reforçam essa competitividade entre os meninos, fazendo com que eles se tornem, inclusive, mais agressivos, pois para elas os meninos agressores são os alunos mais populares da sala e que se destacam em atividades de força e habilidades esportivas, bem como as crianças que não se destacam são vistas em menor posição social61.

O sucesso nas atividades físicas, o envolvimento em esportes em idade escolar e o reconhecimento de seus pares pode aumentar a popularidade, bem como restringir as possibilidades de ser intimidado na escola62. Segundo WEINECK63 crianças e adolescentes que possuem um amplo conhecimento motor são cobiçados parceiros de jogos, sendo aqueles que sabem correr rápido, pegarem bem uma bola e serem ágeis, os mais bem-vistos por seu grupo social. No entanto, o contrário também é verdadeiro, sendo que crianças e adolescentes com menos habilidades motoras e um fraco desempenho em jogos tendem a ter menos amigos, serem rejeitadas pelos pares, são menos convidadas para brincar e participar de jogos26, 28, 64-65. Assim, pode-se considerar que o desempenho motor na infância e adolescência é fundamental para a percepção e os sentimentos que os indivíduos têm de si, principalmente em função do “status” social que este pode proporcionar aos mesmos37.

Desta forma conclui-se que embora as meninas tenham apresentado um melhor desempenho motor geral em relação os meninos, encontrou-se uma associação entre maior “status” percebido pelos colegas e um melhor desempenho motor apenas para os meninos. Isso nos dá indícios de que os meninos são mais suscetíveis a serem avaliados socialmente a partir da sua motricidade. Essa diferença entre meninos e meninas poderia ser explicada por questões relacionadas à identidade de gênero dos participantes, no entanto este estudo limitou-se apenas a avaliar o sexo dos mesmos. Assim, sugere-se que mais estudos sejam realizados para testar tal hipótese controlando o gênero dos participantes, isto é uma orientação para a masculinidade ou feminilidade.

Esta associação entre melhor desempenho motor e maior “status” social segundo a percepção dos colegas para os meninos pode trazer grandes contribuições para uma Educação Física mais inclusiva, à medida que os professores possam criar estratégias metodológicas que resgatem os meninos com menor “status” e controlem os meninos com maior “status”, para que não façam uso de seu poder social de maneira negativa com os pares. A confirmação dessa associação entre essas duas variáveis fortemente influenciadas pela identidade sexual dos participantes pode fundamentar uma prática de Educação Física desenvolvimentista, inclusiva e responsável, pois as habilidades motoras trabalhadas na escola podem influenciar comportamentos positivos e negativos no ambiente educacional quando respeitadas as diferenças de sexo.

Limitações

Apesar da relevante contribuição deste estudo em produzir novos dados quantitativos para melhor explicar e não só interpretar o desenvolvimento motor e humano, este estudo foi realizado em um ambiente especifico que se caracteriza por uma alta vulnerabilidade social, nos impedindo de fazer qualquer generalização das nossas conclusões para a população escolar catarinense como um todo. Mais estudos comparativos sobre a influência da marginalização social em escolares em termos de desenvolvimento motor, desempenho escolar, “status” social e identidade de gênero / sexo são necessários e urgentes.

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Recebido: 03 de Março de 2014; Revisado: 28 de Março de 2015; Revisado: 10 de Julho de 2015; Aceito: 17 de Julho de 2015

ENDEREÇO. Pâmella Medeiros. Centro de Ciências da Saúde e do Esporte. Universidade do Estado de Santa Catarina. R. Pascoal Simone, 358. 88080-350 - Florianópolis - SC - BRASIL. e-mail: pamellamedeiros@hotmail.com

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