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Arquivos do Instituto Biológico

On-line version ISSN 1808-1657

Arq. Inst. Biol. vol.80 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1808-16572013000100006 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Frequência de anticorpos contra o vírus da língua azul em ovinos do estado do Ceará, Brasil

 

Antibodies against the bluetongue virus in sheep flocks of Ceará state, Brazil

 

 

R.R. PinheiroI; T.S. SouzaII,*; A.L.V.L. FeitosaIII; M.A.C. AragãoIV; C.C.V. LimaII,*; J.N. CostaV; A. AndrioliI; M.F.S. TeixeiraIII; R.L.L. BritoVI,**

IEmbrapa Caprinos e Ovinos, CP 145, CEP 62010-970, Sobral, CE, Brasil. E-mail: rizaldo.PINHEIRO@embrapa.br
IIUniversidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil
IIIUniversidade Estadual do Ceará, Faculdade de Veterinária, Laboratório de Virologia, Fortaleza, CE, Brasil
IVUniversidade Estadual do Vale do Acaraú, Departamento de Biologia, Sobral, CE, Brasil
VUniversidade Federal do Recôncavo da Bahia, Centro de Ciências Agrárias, Cruz das Almas, BA, Brasil
VIUniversidade Estadual Paulista, Jaboticabal, SP, Brasil

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi avaliar a ocorrência de ovinos soropositivos para o vírus da língua azul (VLA) no Estado do Ceará, Brasil, e analisar as proteínas imunogênicas das cepas virais circulantes nesses rebanhos. O teste de imunodifusão em gel de agarose (IDGA) foi utilizado para pesquisar 271 amostras de soro oriundas de 16 rebanhos. Os resultados demonstraram que 27,3% (74/271) das amostras analisadas apresentaram anticorpos contra o agente e 68,8% (11/16) das propriedades tiveram animais positivos. O immunoblotting (IB) foi utilizado para analisar as proteínas imunogênicas do VLA a partir dos soros de animais positivos no IDGA. Os soros demonstraram forte reação contra a proteína viral VP2. Para o VLA, das sete proteínas estruturais, a VP2 é a principal a estimular a resposta imune protetora. Concluiu-se que a soropositividade para a língua azul (LA) nos rebanhos ovinos estudados no Ceará é alta, apesar dos animais não apresentarem sinais clínicos, indicativo de que o vírus ocorra de forma endêmica. Além disso, a resistência à doença apresentada pelos animais pode estar relacionada com a forte reação imunológica desses à proteína VP2. Sendo assim, outros estudos são necessários para melhor esclarecer a situação epidemiológica da LA no país, através da identificação dos vetores e sorotipos virais circulantes nas diferentes regiões.

Palavras-chave: Orbivirus, ruminantes, semiárido, VP2.


ABSTRACT

The objective of this work was to verify the occurrence of sheep serologically positive for bluetongue virus (BTV) in the state of Ceará, Brazil, and analyze immunogenic proteins of circulating viral strains in these flocks. The agar gel immunodifusion test (AGID) was used to examine 271 serum samples from 16 herds. The results demonstrated that 27.3% (74/271) of the analyzed samples presented antibodies for the agent, and that 68.8% (11/16) of the properties presented positive animals. Immunoblotting (IB) was used to analyze the immunogenic proteins of BTV derived from AGID positive sera. Sera showed strong reaction against viral protein VP2. Of the seven BTV structural proteins, VP2 is the major protein to elicit protective immune responses. It was concluded that bluetongue (BT) seropositivity in sheep flocks studied in Ceará is high, despite that the animal's do not show clinical signs, indicating that it occurs in an endemic form. The animals' resistance to the disease may be related to the strong immune response to the protein VP2. Therefore, further studies are needed to better clarify the epidemiological situation of BT in Brazilian sheep flocks, through the identification of viral vectors and serotypes circulating in different regions.

Key words: Orbivirus, ruminants, semiarid, VP2.


 

 

INTRODUÇÃO

A língua azul (LA) é uma enfermidade viral transmitida principalmente por mosquitos do gênero Culicoides sp., capaz de acometer todas as espécies de ruminantes domésticos e selvagens, apesar da doença ter sido demonstrada principalmente em ovinos (COSTA et al., 2006; BATTEN et al., 2008; WILSON et al., 2008). É de notificação compulsória à Organização Mundial de Saúde Animal, cujo impacto econômico decorre das perdas diretas nos rebanhos afetados e também das restrições econômicas impostas por países importadores (OIE, 2008).

O vírus da língua azul (VLA) é membro do gênero Orbivirus e da família Reoviridae e 25 sorotipos já foram identificados em diversos países (HOFMANN et al., 2008; CHAIGNAT et al., 2009). A partícula viral não é envelopada e possui aproximadamente 70 nm de diâmetro, compreendendo o genoma de dez segmentos de ácido ribonucleico de fita dupla (dsRNA), circundado por três camadas proteicas concêntricas que formam o capsídeo. A camada interna é constituída pela proteína viral "3" (VP3) e contém três enzimas na superfície interna (VP1, VP4 e VP6). A camada média é composta por VP7, que possui grupos antigênicos. VP2 e VP5 formam a camada externa. VP2 contém a maioria dos antígenos neutralizadores virais, tendo uma sequência variável entre os diferentes sorotipos (CHAGAS; PINHEIRO, 2003; BATTEN et al., 2008; SCHWARTZ-CORNIL et al., 2008; ROY et al., 2009).

Os sinais clínicos da enfermidade incluem ano-rexia, febre, apatia e sialorreia; edema, hiperemia, lesões e crostas nas mucosas, narinas, lábios, língua, tetos, coroa dos cascos e interdígitos; hipersensibilidade da pele, marcha rígida e paresia (BALDWIN et al., 1991; CLAVIJO et al., 2002; ELBERS et al., 2008), além de transtornos reprodutivos como abortamentos, natimortos, malformações, nascimento de animais fracos e infertilidade (LOBATO, 1999).

Apesar dos primeiros relatos dessa enfermidade só terem sido publicados no final do século XIX e início do século XX, a LA foi inicialmente descrita por fazendeiros na África do Sul como "febre catarral ovina" e causou sérios transtornos, sendo observada após a importação de ovinos da raça Merino da Europa, no final do século XVIII. A denominação "bluetongue" mais tarde foi utilizada para descrever a cianose da língua de ovinos severamente afetados (MACLACHLAN, 2004; VELLEMA, 2008).

A primeira epizootia de LA fora da África ocorreu em ovinos no Chipre, em 1943. Em 1956, um surto na Península Ibérica resultou na morte de quase 180.000 ovinos (VELLEMA, 2008). No entanto, a maior epizootia já registrada da doença se iniciou em 1998, na bacia do Mediterrâneo, quando o VLA-9 foi detectado nas ilhas gregas de Rhodos, Kos, Samos e Lesvos. Nos anos subsequentes, o vírus se disseminou para o norte e oeste europeu. Outros sorotipos também entraram na Europa pelo leste e então se disseminaram para o oeste, causando a morte de milhares de ovinos (MELLOR; WITTMANN, 2002; PURSE et al., 2005).

A distribuição mundial do VLA não é um evento recente e diferentes sorotipos e cepas estão envolvidos, coincindindo com a presença de distintas espécies de Culicoides (MACLACHLAN, 2004). Em muitas regiões tropicais e subtropicais, o vírus está amplamente disseminado, apesar de a enfermidade ser rara ou inexistente (LOBATO, 1999). No Brasil, de acordo com levantamentos sorológicos realizados em vários estados, o VLA se difunde de forma silenciosa (CHAGAS; PINHEIRO, 2003; TOMICH et al., 2006).

Nesse contexto, considerando a escassez de dados referentes à ocorrência de LA em rebanhos ovinos no Estado do Ceará, este trabalho teve por objetivo avaliar a frequência de animais soropositivos no estado, bem como verificar as proteínas imunogências da cepa viral circulante nesses rebanhos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Este estudo foi conduzido a partir de amostras de soro de ovinos colhidas em municípios pertencentes a quatro mesorregiões do Estado do Ceará, no período de outubro de 2005 a dezembro de 2006 (Tabela 1).

A amostragem foi calculada através da fórmula de Astudillo (1979), assumindo-se um erro amostral de 20%, grau de confiança de 95% (z = 1,96), levando-se em consideração a prevalência estimada de 30,6% (SILVA, 2002). Sendo assim, o número mínimo de amostras a serem colhidas foi de 218. No entanto, 271 ovinos foram utilizados para as coletas, por amostragem não probabilística. O número de animais por propriedade foi o equivalente a 10% do total do rebanho, resultando em 16 propriedades visitadas.

A idade dos animais foi estimada com base na arcada dentária, sendo utilizados na pesquisa aqueles com mais de seis meses de idade. Os animais foram avaliados clinicamente, buscando-se alterações características da LA, segundo CLAVIJO et al. (2002) e ELBERS et al. (2008). Após a antissepsia com álcool iodado, colheram-se as amostras de sangue através da punção da veia jugular, utilizando-se tubos estéreis a vácuo, sem anticoagulante. Em seguida, após a formação de coágulo, os tubos foram centrifugados a 1.500 g por 10 minutos para a obtenção dos soros, que foram acondicionados em tubos tipo eppendorf e estocados a -20º C até a realização dos testes sorológicos.

A sorologia para a detecção de anticorpos contra o VLA foi realizada pelo método de imunodifusão em gel de agarose (IDGA), utilizando-se o kit comer-cial da Veterinary Medical Research and Development (VMRD). Preparou-se o gel de ágar por suspensão de agarose a 0,9% com solução a 0,85% de cloreto de sódio em água Milli-Q, sob aquecimento de banho-maria. Posteriormente, à temperatura de 45º C, a solução foi distribuída em placas de Petri. Após a polimerização adequada sob refrigeração, o gel foi perfurado com roseta metálica contendo sete poços, um no centro e seis periféricos em formato hexagonal. Utilizaram-se 20 µL de antígeno no poço central e 20 µL de soro padrão e soros testes nos poços periféricos de forma intercalada. As placas foram incubadas em câmara úmida à temperatura entre 22 e 25º C.

Realizaram-se leituras após 24 e 48 horas de incubação, utilizando-se feixe de luz intenso, sobre fundo escuro, para observação de linhas de precipitação. O soro teste foi considerado positivo quando houve a formação de linha de precipitação com identidade com as linhas de referência do soro padrão positivo ou quando estas linhas de referência se desviaram em direção ao poço contendo o soro teste, seguindo-se as recomendações do fabricante do kit comercial.

Com base nos resultados sorológicos, foram calculadas as frequências para as variáveis sexo, faixa etária e tipo racial. Objetivando-se verificar a existência de diferenças significativas, utilizou-se o teste qui-quadrado (χ2) com o auxílio do programa EPI-INFO (DEAN et al., 1994).

Para avaliação das proteínas imunogênicas da cepa circulante no Estado do Ceará, realizou-se a dosagem proteica do antígeno do kit (BRADFORD, 1976). Em seguida, o antígeno foi submetido à eletroforese em gel de poliacrilamida (SDS-PAGE) utilizando-se minigel (Mini-Protean II Cell® - Bio-Rad) formado por gel de concentração e gel de separação, acompanhado com padrão (LAEMMI, 1970). Determinou-se o perfil eletroforético do antígeno diluído em tampão de amostra, na proporção de 1:1, utilizando-se 8 µL de antígeno e 8 µL de tampão da amostra, aquecendo-se a mistura a 100º C por 3 minutos (HARLON; LANE, 1988).

Procedeu-se com a técnica de immunoblotting (IB), com transferência das proteínas do antígeno, do gel para a membrana de nitrocelulose (MN), através do trans-blot (Trans-blot® Bio-Rad) em tampão de transferência. Após a transferência, a membrana foi bloqueada com solução de bloqueio (tampão fosfato salino – PBS, com 0,3% de Tween 20) por 60 minutos e lavada com solução de lavagem (PBS com 0,05% de Tween 20) por três vezes. Incubou-se a MN com soros dos animais positivos no teste de IDGA, utilizando-se como controle positivo o soro padrão do kit da VMRD, na diluição de 1:200, em PBS. Em seguida, a membrana foi novamente lavada três vezes e incubada com conjugado anti-IgG ovino marcado com peroxidase, na diluição de 1:1000 em PBS, por 60 minutos. Após lavagens, a MN foi colocada em solução de revelação com peróxido de hidrogênio. A reação foi finalizada com lavagem em água Milli-Q (ARAGÃO et al., 2008).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram testadas 271 amostras de soro de ovinos oriundas de 16 propriedades do Estado do Ceará, utilizando-se a técnica de IDGA, sendo que 27,3% (74/271) dos animais apresentaram anticorpos contra o VLA (Tabela 2) e 68,8% (11/16) das propriedades possuíram pelo menos um animal soropositivo. Não foram observados sinais clínicos da enfermidade nos animais amostrados.

 

 

O VLA ocorre em uma ampla faixa que abrange grande parte das Américas, África do Sul, Ásia, norte da Austrália e Europa (MELLOR; WITTMANN, 2002). Acredita-se que o vírus exista em ecossistemas, onde as cepas virais específicas provavelmente co-evoluíram com diferentes espécies do inseto vetor (MACLACHLAN, 2004).

Entretanto, existe uma questão epidemiológica muito importante que diz respeito à distribuição do vírus em diferentes zonas. Em zonas epidêmicas, o número de animais com anticorpos contra a doença varia e geralmente é focal. Assim, surtos esporádicos podem ocorrer. Em zonas incursivas, animais soropositivos são raros, assim como o aparecimento da doença. Já em zonas endêmicas, a infecção é comum, mas a enfermidade é rara ou inexistente (LOBATO, 1999).

Na América do Sul, raças localmente adaptadas de ovinos são suspeitas de possuírem alta prevalência de anticorpos, mas aparentarem resistência à LA, apesar de múltiplos sorotipos de VLA poderem estar circulando (CLAVIJO et al., 2002). Isso ocorre devido às condições de temperatura e umidade de países tropi-cais, que favorecem a multiplicação e manutenção dos vetores do vírus, mantendo-o endemicamente, com grande parte da população de ruminantes imune aos sorotipos presentes na área (CHAGAS; PINHEIRO, 2003; TOMICH et al., 2006).

Sendo assim, os resultados sugerem que o vírus é endêmico nas regiões cearenses estudadas, justificando a alta ocorrência de anticorpos anti-VLA frente à ausência de sinais clínicos nos animais avaliados e de relatos de surtos da enfermidade.

De acordo com LOBATO (1999) e COSTA et al. (2006), a primeira indicação da presença do VLA no Brasil foi relatada em 1978, com a demonstração de anticorpos anti-VLA em bovinos e em ovinos de propriedades do Estado de São Paulo. Observando-se os dados obtidos por sorologia em diferentes regiões do país (Tabela 3), tudo indica que o vírus se dissemina pelos rebanhos de forma silenciosa, apesar de dois surtos de LA já terem sido relatados no Brasil, um no Rio de Janeiro, em 1998 (FIGUEREDO et al., 2007) e o outro no Paraná, em 2002 (CLAVIJO et al., 2002), afetando caprinos e ovinos.

Entretanto, deve-se ressalvar que os inquéritos sorológicos realizados no Brasil demonstram uma grande diversidade de resultados, com alguns estudos apontando para uma baixa frequência de soropositivos e outros alertando para a ampla disseminação do VLA em determinadas áreas. Isso sugere que o vírus não se distribui uniformemente pelas diferentes regiões do país, o que pode estar relacionado a fatores climáticos, dentre outras variáveis.

Os fatores climáticos desempenham um papel importante na infecção e transmissão do vírus, principalmente por interferir na sobrevivência dos vetores (MELLOR et al., 2000; LAGER 2004; MACLACHLAN, 2004). O surgimento da população de Culicoides tende a ser ótimo com temperatura variando de 25 a 30ºC e é inibido com temperatura abaixo de 8 a 10º C (PURSE et al., 2005). Além disso, no período de chuvas, quando a temperatura e a umidade estão elevadas, há o favorecimento da multiplicação e manutenção dos vetores, levando ao aumento da percentagem de animais soropositivos (CLAVIJO et al., 2002; KONRAD et al., 2004; COSTA et al., 2006).

No sertão da Paraíba, MELO et al. (2000) detectaram baixa ocorrência de animais positivos. Na Bahia, SOUZA et al. (2010) também observaram prevalência muito baixa em região com tipologia climática árida e semiárida, com predominância de sistemas de criação extensivos. A temperatura e a umidade do semiárido podem dificultar a sobrevivência do Culicoides sp., justificando a baixa frequência de soropositivos (MELO et al., 2000).

No entanto, neste trabalho observou-se alta frequência de animais soropositivos. O Ceará possui a maior parte do seu território no clima semiárido, com período chuvoso se restringindo em 3 ou 4 meses do ano (normalmente de fevereiro a maio). Os municípios estudados (Tabela 4) estão localizados em uma faixa de temperatura média anual que varia de 26 a 28º C (FUNDAÇÃO..., 2011).

Por isso, SOUZA et al. (2010) demonstraram a necessidade de verificar a presença de mosquitos vetores e os sorotipos virais circulantes nas diferentes regiões para elucidar essa problemática da distribuição do VLA no país e a possibilidade de ocorrência da doença.

SILVA (2002) já havia demonstrado a disseminação do VLA em rebanhos caprinos do Ceará, inclusive nos municípios avaliados neste estudo, com exceção de Várzea Alegre, que não participou do levantamento citado. De 119 rebanhos caprinos amostrados, 99 (83,2%) foram positivos, sendo que dos 1.865 animais testados por IDGA, 570 (30,6%) foram reagentes.

No que diz respeito ao sexo, a ocorrência de fêmeas soropositivas foi maior que a de machos, com diferença significativa (p < 0,05). Além disso, houve maior número de animais soropositivos nos estratos entre 2 e 3 anos e maior que 3 anos. Entretanto, observou-se diferença estatística significativa (p < 0,05) apenas entre os estratos de 1 a 2 anos e de 2 a 3 anos. Não houve diferença estatística significativa quanto ao tipo racial (Tabela 5).

SILVA (2002) observou que animais mais velhos têm maior probabilidade de entrarem em contato com o VLA, devido ao maior tempo de exposição ao vetor. SHRINGI; SHRINGI (2005) também verificaram maior soropositividade em animais adultos. Além disso, maior soropositividade tem sido observada em animais mestiços de tipos raciais importados (SILVA, 2002). Na verdade, a importação e o trânsito de animais infectados visando ao melhoramento genético de raças localmente adaptadas podem desempenhar importante papel epidemiológico na ocorrência do VLA, principalmente em regiões onde o clima não é favorável à multiplicação do vetor (MELO et al., 2000; SOUZA et al., 2010).

O IB realizado a partir da transferência das proteínas do antígeno do kit VMRD para a membrana de nitrocelulose demonstrou que os animais soropositivos no IDGA apresentaram forte reação para as proteínas virais VP2, VP4 e NS1. Já o soro padrão positivo do kit reagiu para as proteínas VP2, NS1, NS2 e principalmente VP7 (Fig. 1).

A VP2 compõe a camada externa do capsídeo viral. Age na interação do vírus com a célula hospedeira e contém epitopos responsáveis pela hemaglutinação, neutralização viral e especificidade aos sorotipos (BATTEN et al., 2008). VP7 faz parte da camada intermediária e possui importante função na manutenção da integridade estrutural do capsídeo, protegendo o RNA viral. VP4 é uma enzima responsável por catalisar reações para formação do capsídeo. Já as proteínas não estruturais NS1 e NS2 são as mais expressadas em células infectadas. NS1 está relacionada com os efeitos citopatogênicos do vírus, causando alterações morfológicas nas células e NS2 é o principal constituinte dos corpúsculos de inclusões virais e se liga ao dsRNA, possuindo importância na replicação viral e montagem do capsídeo (SCHWARTZ-CORNIL et al., 2008; ROY et al., 2009).

Das diferentes proteínas antigênicas do VLA (VP1, VP2, VP3, VP4, VP5, VP6, VP7, NS1, NS2 e NS3), a VP2 é a principal proteína a estimular a resposta imune protetora. Com a tecnologia de proteína recombinante, tem sido demonstrado que a VP2 sozi-nha é capaz de estimular a produção de anticorpos neutralizantes (ROY et al., 1990; ROY et al., 2009). A forte reação apresentada contra a VP2 pelos animais soropositivos no IDGA pode estar relacionada com a ausência da enfermidade nos rebanhos avaliados, já que a principal resposta imune protetora se dá a partir da imunogenicidade desta proteína viral.

 

CONCLUSÕES

A soropositividade para LA nos rebanhos ovinos estudados no Ceará foi alta, apesar da ausência de sinais clínicos nos animais, sugerindo que o vírus provavelmente ocorra de forma endêmica. Além disso, a resistência à doença apresentada pelos animais pode estar relacionada com a forte reação imunológica desses à proteína VP2. Sendo assim, outros estudos são necessários para melhor esclarecer a situação epidemiológica da LA no país, através da identificação dos vetores e sorotipos virais circulantes nas diferentes regiões.

 

AGRADECIMENTOS

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) pela concessão de bolsa de doutorado aos pós-graduandos.

 

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Recebido em: 20/7/11
Aceito em: 4/1/13

 

 

* Pós-Graduação em Ciência Animal nos Trópicos.
** Pós-Graduação em Medicina Veterinária.

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