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Arquivos do Instituto Biológico

versão On-line ISSN 1808-1657

Arq. Inst. Biol. vol.80 no.3 São Paulo jul./set. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1808-16572013000300007 

ANIMAL PATHOLOGY/SCIENTIFIC ARTICLE

 

Soroepidemiologia da leptospirose e brucelose bovina em propriedades rurais de agricultura familiar do agreste paraibano, Nordeste do Brasil

 

Seroepidemiology of bovine leptospirosis and brucellosis in family farm rural properties in the State of Paraíba, northeastern Brazil

 

 

Robério Macedo de OliveiraI; Maria Luana Cristiny Rodrigues SilvaI; Meire Maria Silva MacêdoI; Severino Silvano dos Santos HiginoI; Lilia Marcia PaulinII; Clebert José AlvesI; Maria das Graças Xavier de CarvalhoI; Sérgio Santos de AzevedoI,*

IUniversidade Federal de Campina Grande (UFCG) - Patos (PB), Brasil
IIInstituto Biológico de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil

 

 


RESUMO

Este trabalho teve como objetivo determinar a frequência de rebanhos positivos e de animais soropositivos para leptospirose e brucelose bovina em propriedades rurais de agricultura familiar da mesorregião do Agreste, estado da Paraíba, bem como identificar fatores de risco. Foram colhidas amostras de sangue de 771 animais procedentes de 130 rebanhos em cinco municípios. Para o diagnóstico sorológico da leptospirose, utilizou-se o teste de soroaglutinação microscópica (SAM), com 24 sorovares de Leptospira spp. como antígenos, e para brucelose, o teste do antígeno acidificado tamponado (AAT) como prova de triagem e o teste do 2-mercaptoetanol (2-ME) como prova confirmatória. Para leptospirose, a frequência de propriedades positivas e animais soropositivos foi de 18,4 e 3,6%, respectivamente; para brucelose, 7,7% das propriedades e 1,9% dos animais foram positivos. O sorovar de Leptospira spp. mais frequente foi o Hardjo. A compra de bovinos foi identificada como fator de risco para brucelose bovina (odds ratio = 5,25; p = 0,044). Sugere-se a necessidade de adoção e/ou intensificação de medicas de prevenção e controle com o objetivo de evitar perdas econômicas e transmissão dos agentes aos seres humanos, bem como a compra de animais precedida do conhecimento da sua condição sanitária.

Palavras-chave: Leptospira spp.; Brucella abortus; propriedades de agricultura familiar; sorologia; fatores de risco.


ABSTRACT

The aim of this investigation was to determine the frequency of positive herds and seropositive animals to bovine leptospirosis and brucellosis in family farm rural properties from the mesoregion of the State of Paraíba, as well as to identify risk factors. Blood samples were collected from 771 animals from 130 herds in five municipalities. For the serological diagnosis of leptospirosis, the microscopic agglutination test (MAT) using 24 Leptospira spp. serovars as antigens was carried out, and for brucellosis the Rose-Bengal Test (RBT) was used as screening test and the 2-mercaptoethanol test (2-ME) to confirm. For leptospirosis, the frequency of positive herds and seropositive animals was 18.4 and 3.6%, respectively; for brucellosis, 7.7% of the herds and 1.9% of the animals were positive. The most frequent Leptospira spp. serovar was Hardjo. Bovine purchase was identified as a risk factor to bovine brucellosis (odds ratio = 5.25; p = 0.044). The need for adoption and/or intensification of control and prevention measures was suggested in order to avoid economic losses and the transmission of the agents to humans, as well as the purchase of animals with known sanitary conditions.

Keywords: Leptospira spp.; Brucella abortus; family farm properties; serology; risk factors.


 

 

INTRODUÇÃO

A atividade agropecuária brasileira tem assumido, nos últimos anos, importante participação na economia, sendo um componente relevante do Produto Interno Bruto (PIB) e da geração de riqueza do país. A pecuária bovina ganhou relevância, tanto no cenário interno quanto no externo, e atualmente o Brasil possui um dos principais rebanhos comerciais do mundo (Ibge, 2006), assim como é um dos principais países produtores de leite, apresentando uma taxa de crescimento anual de 4%, superior à dos países que ocupam os primeiros lugares. Em análise retrospectiva, a produção brasileira de leite nos últimos 25 anos aumentou 150%, passando de 8 bilhões de litros no ano de 1975 para 19,8 bilhões no ano 2000, ultrapassando 26 bilhões em 2007 (Embrapa Gado De Leite, 2012).

No Censo Agropecuário de 2006 foram identificados 4.367.902 estabelecimentos de agricultura familiar no Brasil, responsáveis por 58% de todo o leite produzido no país. No estado da Paraíba, 69% do leite foi produzido em estabelecimentos de agricultura familiar (IBGE, 2006). Neste contexto, o conhecimento da frequência de ocorrência de agentes infecciosos, tais como brucelose e leptospirose, que causam diminuição da produção de leite, torna-se indispensável. Ambas as doenças estão incluídas na lista de doenças da Organização Mundial de Saúde Animal (World Organization for Animal Health [OIE]), ou seja, são doenças transmissíveis de importância socioeconômica e/ou de saúde pública e que podem ter impacto significativo no comércio internacional de animais e de seus subprodutos (Oie, 2011).

A brucelose bovina é uma doença bacteriana de evolução crônica e caráter granulomatoso difuso, caracterizada pela infecção de células do sistema mononuclear fagocitário. É causada por uma bactéria intracelular facultativa integrante do gênero Brucella, e apresentando-se em todo o mundo como problema sanitário e econômico (Paulin; Ferreira Neto, 2003). O principal agente etiológico é a Brucella abortus, cujo biotipo 1 é o mais frequente (Acha; Szyfres, 2001). As perdas diretas provocadas pela brucelose bovina são decorrentes de abortamentos, baixos índices reprodutivos, aumento do intervalo entre partos, diminuição da produção de carne e leite, morte de bezerros e interrupção de linhagens genéticas. Estimativas mostram que a infecção é responsável pela diminuição de 20 a 25% da produção de leite, 10 a 15% da produção de carne, 15% de perda de bezerros em decorrência de abortamentos, aumento de 30% da taxa de reposição de animais e aumento do intervalo entre partos de 11,5 para 20 meses. Mostram ainda que, a cada cinco vacas infectadas, uma aborta ou torna-se permanentemente estéril (Acha; Szyfres, 2001).

A leptospirose é uma zoonose bacteriana causada por espiroquetas do gênero Leptospira. Com vasta distribuição geográfica, é evidenciada em todo o mundo e particularmente prevalente em países de clima tropical e subtropical, principalmente nos períodos de altos índices pluviométricos (Acha; Szyfres, 2001) devido à elevada sobrevivência da bactéria em ambientes úmidos, o que aumenta o risco de exposição e contaminação de animais suscetíveis e seres humanos. As perdas econômicas causadas pela leptospirose estão direta ou indiretamente ligadas às falhas reprodutivas, como infertilidade e abortamento, bem como à queda da produção de carne e leite, além de custos com despesas de assistência veterinária, vacinas e testes de laboratório (Faine et al., 1999).

Considerando a importância da brucelose e da leptospirose bovina nos aspectos de saúde pública e de perdas econômicas para a produção de bovinos, o objetivo do presente trabalho foi determinar a frequência de rebanhos positivos e de animais soropositivos para ambas as infecções, bem como identificar fatores de risco em propriedades rurais de agricultura familiar do agreste do estado da Paraíba.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 771 bovinos (523 fêmeas e 248 machos) procedentes de 130 propriedades rurais de agricultura familiar em cinco municípios da mesorregião do agreste paraibano: Araruna (32 propriedades e 183 animais), Belém (43 propriedades e 297 animais), Cacimba de Dentro (35 propriedades e 211 animais), Areial (11 propriedades e 59 animais) e Massaranduba (9 propriedades e 21 animais) (Fig. 1). Não foram adotados critérios probabilísticos para a escolha das propriedades e dos animais, sendo esta baseada no consentimento dos proprietários.

O trabalho de campo foi conduzido de julho a agosto de 2011, e incluiu a colheita de sangue e aplicação de questionário epidemiológico. As amostras de sangue foram colhidas de machos e fêmeas com idade igual ou superior a oito meses, em volumes de 10 mL, pela punção da veia jugular com agulha descartável e tubo com vácuo (sem anticoagulante) com capacidade de 15 mL. Após dessoramento, o soro foi transferido para microtubos e congelado. O transporte das amostras para o laboratório foi feito em caixas isotérmicas.

O diagnóstico sorológico da leptospirose foi realizado com a técnica de Soroaglutinação Microscópica (SAM), de acordo com Galton et al. (1965) e Cole et al. (1973), utilizando uma coleção de antígenos vivos que incluiu os sorovares Castellonis, Javanica, Tarassovi, Whitcombi, Australis, Autumnalis, Bataviae, Bratislava, Canicola, Copenhageni, Grippotyphosa, Hardjo, Hebdomadis, Pomona, Icterohaemorrhagiae, Sentot, Wolffi, Pyrogenes, Butembo, Cynopteri, Panama, Shermani, Andamana e Patoc. Os soros foram triados na diluição de 1:100, e aqueles que apresentaram 50% ou mais de aglutinação foram titulados pelo exame de uma série de diluições geométricas de razão dois. O título do soro foi a recípRoca da maior diluição que apresentou resultado positivo. Os antígenos eram examinados ao microscópio de campo escuro, previamente aos testes, a fim de verificar a mobilidade e a presença de autoaglutinação ou de contaminantes.

Para o diagnóstico sorológico da brucelose bovina, o teste do Antígeno Acidificado Tamponado (AAT) foi utilizado como prova de triagem, e os soros que reagiram positivamente foram submetidos à prova confirmatória do 2-mercaptoetanol (2-ME) (Brasil, 2006). Paralelamente ao teste do 2-ME, foi realizado o teste de Soroaglutinação Lenta em Tubos (SALT).

Uma propriedade foi considerada positiva quando apresentou pelo menos um animal soropositivo. Para a leptospirose, dentro da propriedade, o sorovar mais frequente foi aquele que apresentou o maior número de animais soropositivos. Para a análise de fatores de risco, foram formados dois grupos de propriedades - positivas e negativas - que, quando comparadas entre si quanto às variáveis pesquisadas no questionário epidemiológico, permitiu medir a força da associação dessas variáveis com a presença das doenças. As variáveis analisadas foram: tipo de criação (confinado, semiconfinado, extensivo), tipo de exploração (corte, leite e misto), número de vacas em lactação, produção diária de leite e tamanho do rebanho (mediana como ponto de corte), presença de outros animais na propriedade (caprino/ovinos, equídeos, suínos, aves, cães e gatos), ocorrência de abortamento, compra de bovinos com finalidade de reprodução, aluguel de pastos, compartilhamento de pastos, presença de áreas alagadiças, posse de piquetes de parição e assistência veterinária.

A análise de fatores de risco foi efetuada em duas etapas: análise univariada e análise multivariada. Na análise univariada, cada variável independente foi cruzada com a variável dependente (condição sanitária da propriedade). Aquelas que apresentaram valor p ≤ 0,2 pelo teste de qui-quadrado (Zae,1999) foram selecionadas e usadas na análise multivariada, utilizando a regressão logística múltipla (Hosmer; Lemeshow, 2000). O nível de significância adotado na análise múltipla foi de 5%, e todas as análises foram realizadas com o programa SPSS 20.0 for Windows.

 

RESULTADOS

Das 130 propriedades investigadas, 24 (18,4%) apresentaram pelo menos um animal reagente na SAM para qualquer um dos 24 sorovares de Leptospira spp. empregados (Tabela 1). O sorovar Hardjo foi o mais frequente, com 29,16% de propriedades positivas, seguido pelos sorovares Patoc, Pomona e Australis, com 25, 12,5 e 12,5% de propriedades positivas, respectivamente (Tabela 2). Dos 771 animais investigados, 28 (3,6%) foram soropositivos (Tabela 1). Dentre as fêmeas e machos, 17 (3,3%) e 11 (4,4%) animais foram soropositivos, respectivamente, sem, contudo, haver diferença estatística (p = 0,411). O sorovar mais frequente nos animais também foi o Hardjo, com 35,7% das reações, seguido pelos sorovares Patoc, Pomona e Australis, com 25, 10,7 e 10,7% das reações, respectivamente (Tabela 2). Também foram observadas reações para os sorovares Sentot, Shermani e Copenhageni.

Para brucelose, 10 propriedades (7,7%) apresentaram animais soropositivos (Tabela 3). Dos 771 animais, 15 (1,9%) foram soropositivos nos testes de triagem e confirmatório. Nenhum animal apresentou resultado inconclusivo. O município de Araruna apresentou a maior frequência de propriedades positivas (12,5%) e de animais soropositivos (3,8%). Dentre as fêmeas e machos, 13 (2,5%) e 2 (0,81%) animais foram soropositivos, respectivamente, sem, contudo, haver diferença estatística (p = 0,163).

Na análise univariada para os fatores de risco associados à ocorrência de propriedades positivas para leptospirose, as variáveis selecionadas (p ≤ 0,2) foram (Tabela 4): presença de gatos (p = 0,112), ocorrência de abortamentos (p = 0,097) e compra de bovinos (p = 0,184). No entanto, não foram identificados fatores de risco na análise múltipla.

 

 

Para brucelose, as variáveis selecionadas na análise univariada foram (Tabela 5): tipo de criação (0,078), presença de equídeos (p = 0,100), compra de bovinos (p = 0,095) e assistência veterinária (p = 0,181). Na análise de regressão logística (Tabela 6), comprar bovinos foi identificado como fator de risco (odds ratio = 5,25; IC95% 1,05 - 26,35; p = 0,044).

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A aplicação da SAM para a detecção de anticorpos anti-Leptospira spp. em 771 bovinos provenientes de 130 propriedades rurais de agricultura familiar no agreste paraibano permitiu a visualização da abrangência e da disseminação da infecção por leptospiras na região e, principalmente, os sorovares prevalentes. Foi observado que em 18,4% das propriedades e em 3,6% dos animais foram detectados anticorpos anti-Leptospira spp. Castro et al. (2008) examinaram, pela SAM, 8.216 fêmeas bovinas procedentes de 1.021 propriedades do estado de São Paulo e verificaram que as prevalências de propriedades positivas e de animais soropositivos foram de 71,3 e 49,4%, respectivamente. Oliveira et al. (2009), no estado da Bahia, também utilizaram fêmeas bovinas e a SAM como teste de diagnóstico, e verificaram que 1.414 propriedades 1.076 (77,93%) foram positivas, e 10.823 animais 4.253 (45,42%) foram soropositivos. No presente trabalho, as frequências de propriedades positivas e de animais soropositivos foram muito inferiores às encontradas nesses estudos. As vacinas antileptospirose disponíveis no mercado são bacterinas inativadas, baseadas na proteção dirigida ao antígeno LPS das leptospiras, ressaltando-se sua interferência na SAM por cerca de seis meses após a vacinação (Freudenstein; Hein, 1991; Nardi Júnior et al., 2007), o que poderia em algum momento deste estudo ter sido considerada como resposta sorológica positiva. Sabe-se que a vacinação contra a leptospirose bovina no Estado de Paraíba não é uma prática disseminada. Isso pode justificar a baixa frequência de positividade encontrada no presente trabalho, uma vez que as reações sorológicas provenientes de anticorpos vacinais podem influenciar a frequência de animais soropositivos (Castro et al., 2008). Apesar disso, sugere-se a necessidade de adoção e/ou intensificação de medidas de prevenção e controle, com o objetivo de evitar perdas econômicas e transmissão do agente aos seres humanos.

O sorovar Hardjo foi o mais frequente no presente estudo, tanto nas propriedades (29,1%) quanto nos animais (35,7%). Similarmente, nos Estados da Bahia e São Paulo, esse sorovar foi apontado como o mais prevalente nas propriedades e nos animais (Castro et al., 2008; Oliveira et al., 2009), confirmando os achados clássicos em bovinos. Este sorovar, também relatado como prevalente em rebanhos bovinos de outros países, tem sido reconhecido como significante causa de falhas e alterações nos parâmetros reprodutivos (Higgins et al., 1980; Slee et al. 1983; Tebrugge; Dreyer, 1985; Prescott et al., 1988; Ellis, 1994; Faine et al., 1999; Guitian et al. 1999; Chiareli et al., 2012).

Além do sorovar Hardjo, que geralmente é transmitido entre bovinos, foi observada a ocorrência de reações para os sorovares Australis, Copenhageni, Pomona, Shermani, Patoc e Sentot. Esses sorovares são considerados acidentais para bovinos, e a transmissão indireta está associada ao contato com o meio ambiente contaminado por leptospiras oriundas de espécies silvestres ou de outras espécies domésticas (Castro et al., 2008).

Apesar de não terem sido identificados fatores de risco para leptospirose, algumas variáveis merecem destaque em função da frequência de propriedades positivas. Propriedades com manejo extensivo, exploração de corte e que não realizam controle de roedores apresentaram frequências de positividade maiores em relação às outras categorias (18,6, 33,3 e 21,7%, respectivamente). De fato, em propriedades com manejo extensivo, a chance de infecção aumenta, uma vez que as possibilidades de os animais entrarem em contato com materiais contaminados com leptospiras, como pastos, água e materiais de parto e abortamento, são maiores. Da mesma forma, em propriedades com exploração tipo corte, geralmente os rebanhos são grandes e mantidos pela compra de animais de outras propriedades, sem, contudo, a realização de diagnóstico de leptospirose. A não realização do controle de roedores é um fator de risco clássico para leptospirose, pois esses animais são os principais reservatórios da bactéria (Faine et al., 1999).

Dados oficiais da brucelose bovina obtidos em inquéritos sorológicos em vários Estados brasileiros indicaram prevalência de propriedades positivas e de animais soropositivos, variando de 0,32-41,5% e 0,06-10,2%, respectivamente (Alves et al., 2009; Azevedo et al., 2009; Chate et al., 2009; Dias et al., 2009a; Dias et al., 2009b; Gonçalves et al., 2009a; Gonçalves et al., 2009b; Klein-Gunnewiek et al., 2009; Marvulo et al., 2009; Negreiros et al., 2009; Ogata et al., 2009; Rocha et al., 2009; Sikusawa et al., 2009; Silva et al., 2009; Villar et al., 2009). No presente trabalho, 7,7% das propriedades foram positivas e 1,9% dos animais foram soropositivos, o que se encontra dentro da variação das prevalências obtidas em outros Estados.

O combate à brucelose bovina pode ser dividido em quatro fases distintas (Paulin; Ferreira Neto, 2003):

(a) rebaixamento da prevalência para valores inferiores a 2%, sendo necessária, para isso, uma cobertura vacinal de 80% com a vacina B19;

(b) abandono da vacinação e adoção das medidas de diagnóstico e sacrifício sistemáticos dos animais soropositivos;

(c) solução de problemas residuais; e (d) adoção de ações de vigilância para que o retorno da infecção seja impedido, ou caso reapareça, seja rapidamente detectado e eliminado.

Com base no estudo epidemiológico realizado no Estado de Santa Catarina, no qual a prevalência de focos foi de 0,32% e a prevalência de animais soropositivos foi de 0,06% (Sikusawa et al., 2009), o MAPA publicou uma portaria em 2004 excluindo a obrigatoriedade de vacinação contra a brucelose bovina nesse estado (Brasil, 2004).

No presente trabalho, não foi realizado um planejamento amostral para a região, bem como não foram estabelecidos critérios de seleção de propriedades e animais, o que pode influenciar na determinação das frequências de propriedades positivas e animais soropositivos, de modo que se torna incoerente sugerir alguma estratégia de ação. De qualquer maneira, considerando as elevadas frequências de focos e de animais soropositivos, sugere-se que esforços sejam concentrados na intensificação da vacinação de bezerras, com o intuito de que seja alcançada uma prevalência compatível com as ações de teste e sacrifício de animais.

O município de Araruna apresentou a maior frequência de propriedades positivas e de animais soropositivos, o que pode ser justificado pelo fato de tal município estar localizado na divisa da Paraíba com o Rio Grande do Norte, situação que pode dificultar a fiscalização do trânsito de animais na região, principalmente pela existência de estradas clandestinas, contribuindo para a introdução de animais infectados.

A variável comprar bovinos foi apontada como fator de risco para a brucelose bovina. A compra de animais infectados é amplamente relatada como o principal fator de introdução de brucelose em rebanhos livres. Dos 15 Estados nos quais foram conduzidos estudos epidemiológicos como parte do Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose Bovina (PNCEBT), em seis deles (Bahia, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo) essa variável foi apontada como fator de risco (Alves et al., 2009; Dias et al., 2009a; Dias et al., 2009b; Gonçalves et al., 2009a; Klein-Gunnewiek et al., 2009; Rocha et al., 2009). Dentro dessa variável, alguns fatores podem atuar de forma independente ou em associação, como: frequência de compra, origem dos animais e histórico de realização de testes sorológicos para brucelose (Crawford et al. 1990; Alves et al., 2009). O verdadeiro problema não é a introdução de animais, prática rotineira nos rebanhos bovinos, mas sim a aquisição de animais sem cuidados sanitários, ou seja, sem a realização de testes ou o conhecimento da condição sanitária do rebanho de origem (Alves et al., 2009).

 

CONCLUSÃO

Constatou-se que, para leptospirose, 18,4% das propriedades tiveram animais reagentes e 3,6% dos animais foram soropositivos, bem como o sorovar Hardjo foi o mais frequente; para brucelose, 7,7% das propriedades foram positivas e 1,9% dos animais foram soropositivos, o que sugere a necessidade de intensificação e/ou adoção de medidas de prevenção e controle com o objetivo de evitar perdas econômicas e transmissão dos agentes aos seres humanos. Também sugere-se que a compra de animais seja precedida do conhecimento da sua condição sanitária.

 

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Recebido em: 11/04/2012
Aceito em: 12/08/2013

 

 

*Autor correspondente: sergio@vps.fmvz.usp.br

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