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Arquivos do Instituto Biológico

On-line version ISSN 1808-1657

Arq. Inst. Biol. vol.81 no.3 São Paulo July/Sept. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1808-1657000482012 

Scientific Article

Processos de tratamento de resíduos de cocheira e a redução ou eliminação de ovos e larvas infectantes do gênero Strongylus spp.

Treatment procedures for stable waste and reduction or elimination of infective eggs and larvae of the genus Strongylus spp.

Keila Youko Fujii 1   * 

João Ricardo Dittrich 1  

Edilene Alcântara de Castro 2  

Emanuel Orestes da Silveira 1  

1Departamento de Zootecnia; Universidade Federal do Paraná (UFPR) - Curitiba (PR), Brasil

2Departamento de Patologia Básica; UFPR - Curitiba (PR), Brasil

RESUMO

Objetivou-se neste trabalho caracterizar os processos de compostagem de resíduos de cocheira e avaliar a eficiência deles na redução ou na eliminação de ovos e larvas infectantes de Strongylus spp. Os tratamentos de compostagem utilizados foram: aberta sem revolvimento em menor volume (CASRm) e maior volume (CASRM); aberta com revolvimento em menor volume (CAm) e maior volume (CAM); e anaeróbica em biodigestor (CF), em três repetições. As variáveis monitoradas foram temperatura, umidade, presença de parasitos no início e no final do período experimental. No primeiro dia de avaliação, a temperatura no centro das CASRM e CAM atingiu seu máximo, próximo a 60ºC, permanecendo acima de 50ºC nos três primeiros dias. No restante do período experimental, manteve-se ao redor de 30ºC. Antes da aplicação dos tratamentos, observou-se elevada contaminação por larvas de Strongylus spp. (25,3 larvas por grama de resíduo). Ao final do período experimental, considerando o centro das compostagens, houve redução das larvas infectantes de terceiro estágio, da seguinte ordem: 97% (CAM), 87% (CAm), 90% (CASRM) e 100% (CF), e de apenas 26% para o tratamento CASRm. Na parte superficial das compostagens não foram encontrados parasitas em nenhum dos tratamentos. A umidade superficial do composto no final do experimento foi de aproximadamente 17 a 30%, e a interna, de 40 a 60%. Ovos de helmintos permaneceram viáveis, mesmo após o processo de compostagem e o tratamento térmico. Os resultados indicam que com a simples disposição dos resíduos de cocheira sem manejo adequado e em pequenos volumes, não há eliminação total de ovos e de larvas infectantes de Strongylus spp.

Palavras-Chave: compostagem; larvas infectantes; temperatura

ABSTRACT

The objective of this study was to characterize the processes of composting stable waste and to evaluate the efficiency in the reduction or elimination of infective eggs and larvae of Strongylus spp. The composting treatments were: open, without rotation, in a smaller volume (CASRm) and larger volume (CASRM); open, with rotation, in a smaller volume (CAm) and a larger volume (CAM), and anaerobic in biodigester (CF), in three replicates. The monitored parameters were temperature, moisture and presence of parasites in the beginning and at the end of the experimental period. Temperature at the center of CAM and CASRM reached ita peak on the first day, of approximately 60ºC, being higher than 50ºC only in the first three days. In the other treatments, the maximum temperature was around 30ºC. Before treatments were applied, it was possible to observe high levels of contamination by larvae of Strongylus spp. (with 25.3 larvae per gram). The reduction of infective third stage larvae in the compost at the end of the experiment was of 97% (CAM), 87% (CAm), 90% (CASRM), 100% (CF), and 26% for the CASRm treatment. On the outside it was not possible to detect the presence of the parasite. The humidity outside the compound at the end of the experiment was of approximately 17 to 30%, and internally, of 40 to 60%. Helminth eggs remained viable even after the composting process and heaingt treatment. The results indicate that the mere provision of stable waste without the proper handling and in small volumes does not lead to the total elimination of eggs and infective larvae of Strongylus spp.

Key words: composting; infective larvae; temperature

INTRODUÇÃO

A equinocultura é uma atividade que produz grandes quantidades de resíduos, principalmente provenientes do manejo de cocheiras, como fezes, urina e cama (serragem, maravalha, palhas). Locais como hípicas, hipódromos e regimentos de cavalaria, geralmente localizados em grandes centros urbanos, não apresentam recursos nem locais físicos apropriados para o tratamento correto desses resíduos; consequentemente, não há padronização de manejo. Quando dispostos inadequadamente no meio ambiente, trazem consequências indesejáveis, como problemas de controle de enfermidades parasitárias nos animais, riscos de contaminação ambiental e problemas de saúde pública.

Para STRAUCH(1987), praticamente todos os agentes causais transmissíveis podem ser encontrados nos dejetos e em seus subprodutos (chorume), ressaltando que a capacidade de sobrevivência dos agentes no ambiente é muito variada, especialmente nos dejetos e resíduos de animais, a depender de vários fatores que os condicionam e predispõem. Este fato constitui grave problema sanitário devido à possibilidade de contaminação do homem e dos animais quando em contato direto com os resíduos ou por meio dos vetores biológicos, como moscas, mosquitos, água e alimentos contaminados (via indireta) (PEREIRA NETO; LELIS, 2001).

As formas de tratamento dos dejetos empregados na produção animal antes de serem despejados no meio ambiente podem ser física, química e bioquímica. O tratamento físico consiste em separar as partículas contidas nos dejetos líquidos, obtendo-se dois produtos: fração líquida e fração sólida, por meio da decantação, peneiramento, centrifugação ou desidratação. As técnicas de tratamento químico ocorrem pela adição de produtos químicos, e a ação desses produtos pode se dar de três formas diferentes: bloqueio das fermentações indesejáveis, seleção bacteriana com orientação específica de fermentação e sobreposição de odores. Os tratamentos bioquímicos podem ser a compostagem, quando ocorre a degradação da matéria orgânica pelo processo aeróbio; lagoas de estabilização (facultativas ou aeradas); diques de oxidação, que é um sistema com aeração artificial; câmaras de aeração em circuito fechado ou contínuo; lagoas anaeróbias e digestores anaeróbios (LOVATTOet al., 1997).

A compostagem é uma das principais formas para o tratamento adequado dos resíduos de origem animal; tem baixo custo e é o mais utilizado pelo homem. É um dos mais antigos processos de reciclagem de resíduos orgânicos grosseiros, como palha e estrume, em materiais orgânicos utilizáveis na agricultura. A temperatura do processo de compostagem, assim como a umidade e o pH, determinará a sucessão das populações parasitológicas e sua representividade nas fases de degradação, sendo elas a mesofílica e a termofílica, verificando a eficiência de sanitização do material a ser compostado.

Porém, os principais problemas relacionados à compostagem é à contaminação devido à presença de alguns elementos químicos, como metais pesados e micro-organismos patogênicos, que não são eliminados durante esse processo. As causas da ineficiência dos processos desse tipo de tratamento, no que diz respeito à eliminação de micro-organismos patogênicos, podem estar relacionadas ao método utilizado, à eficácia das reações biofísicas e bioquímicas da degradação da matéria orgânica e às interpretações errôneas sobre o tempo e temperatura necessários para a inativação desses agentes contaminantes (PEREIRA NETO; LELIS, 2001).

Diante do exposto, o presente trabalho objetivou caracterizar os processos de compostagem de resíduos de cocheira e avaliar sua eficiência para a redução ou eliminação de ovos e larvas infectantes de Strongylus spp.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi implantado e conduzido no período de 9 de agosto a 20 de setembro de 2011, com resíduos de cocheiras (fezes, urina e serragem) de cavalos pertencentes ao regimento da Polícia Montada Coronel Dulcídio (RPMon), em Curitiba (PR). O material recém-coletado no momento da limpeza e troca de camas de oito cocheiras foi transportado para um galpão fechado no Departamento de Zootecnia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Os resíduos foram organizados em formas de compostagem (aberta - aeróbia e fechada - anaeróbia) de diferentes volumes. Os tratamentos foram: compostagem aberta sem revolvimento em menor volume (CASRm), compostagem aberta sem revolvimento em maior volume (CASRM), compostagem aberta com revolvimento em menor volume (CAm), compostagem aberta com revolvimento em maior volume (CAM) e compostagem anaeróbia em biodigestor (CF).

Para cada tratamento foram realizadas três repetições, contendo 9,5 kg de resíduos para os de menor volume e 152 kg para os de maior volume, que foram depositados sobre bandejas de metal e isolados do chão com um isopor. A altura e a largura das composteiras foram de aproximadamente 1,37 x 0,52 m e 0,60 x 0,24 m, para as de maior e de menor volume, respectivamente.

Para a compostagem anaeróbia em biodigestor, foram utilizados baldes de plástico com altura de 0,37 m, diâmetro superior de 0,30 m e diâmetro inferior de 0,26 m, e capacidade de 20 L, isolados internamente por uma manta térmica (isomanta de polietileno 2 mm). Nas tampas foram feitos dois orifícios: um central, para passagem do fio do termômetro digital, e o outro lateral, para a passagem de uma mangueira de silicone para a liberação do gás produzido durante a fermentação. Neste, a extremidade estava depositada dentro de um recipiente com água para evitar a entrada de ar. O conteúdo foi compactado e, em seguida, a tampa foi cuidadosamente vedada com silicone.

A aferição da temperatura interna e do ambiente foi realizada por meio de sensores térmicos de termômetros digitais (Termômetro Digital para Ambiente com Relógio Tr 34 Western), alocados no interior (altura média) de todas as repetições. As temperaturas eram anotadas diariamente às 8 e às 17 horas. O revolvimento manual dos processos aeróbicos (CAM e CAm) ocorriam no momento em que a temperatura interna estabilizava-se por três dias.

As amostras para análise parasitológica, umidade e pH do composto foram coletadas no início do tratamento, imediatamente antes dos revolvimentos das CAM e CAm, e no final, quando a temperatura interna se estabilizou. As amostras para as análises parasitológicas foram identificadas e armazenadas em caixas de isopor isotérmicas, em temperatura controlada, contendo gelo reciclável. Depois, foram transportadas até o Laboratório de Parasitologia Veterinária no Departamento de Patologia Básica da Universidade Federal do Paraná (UFPR). As amostras para as análises de umidade e pH foram devidamente lacradas, identificadas e, em seguida, enviadas ao Laboratório de Nutrição Animal do Departamento de Zootecnia da UFPR.

O método utilizado para a cultura das larvas foi o de ROBERTS; O'SULLIVAN (1950) e, para a identificação das larvas, utilizou-se a chave descrita por HOFFMANN (1987) e MADEIRA DE CARVALHO (2001). Fez-se a quantificação de larvas na medida em que se realizava a pesagem de cada amostra de coprocultura, permitindo calcular, posteriormente, o número de larvas por grama de resíduos (LGR) existente no composto após a contagem e identificação delas.

O cálculo de LGR foi efetuado utilizando-se a seguinte fórmula:

LGR= (N.10.V)/P (1)

LGR: larvas por grama resíduo.

N: Número de larvas em 100 μL.

V: Volume de água (mL) colocada na placa de Petri, após a coprocultura ser invertida.

P: Peso da amostra (g) para a coprocultura .

A estatística aplicada foi descritiva para as variáveis larvas por grama de fezes no início e no final do experimento, assim com temperatura (ºC) máxima entre os tratamentos. Procedeu-se a Análise da Variância (Anova) em blocos ao acaso, utilizando-se o software estatístico SAS (1996), e o mesmo software para o teste de médias (Tukey), a 5% de probabilidade.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A temperatura mínima, máxima e média do ambiente no período experimental foi de 12ºC; 25ºC e 18,5ºC, sendo que a temperatura interna das composteiras teve média inicial de 23,5ºC, e a final estabilizada em 17,6ºC (CASRm); 23,4ºC (CASRM); 18,3ºC (CAm); 22,9ºC (CAM) e 18,5ºC (CF). O pico de elevação ocorreu no primeiro dia do período experimental, quando as CASRM e as CAM apresentaram temperatura de 60,7ºC e 58,8ºC, e as CASRm, CAm e CF, de 30,9ºC; 30,4ºC e 30,03ºC; a temperatura mínima interna identificada foi de 13,5ºC (CASRm); 20,3ºC (CASRM); 15,8ºC (CAm); 20,2ºC (CAM) e 12,2ºC (CF). Nas primeiras 24 horas houve um aumento de aproximadamente 8ºC na massa para os tratamentos CASRM e CAM, mantendo-se superior a 50ºC somente nos três primeiros dias, e diminuindo 3ºC nos demais (Fig. 1). Após 40 dias, o ciclo de compostagem foi finalizado. Como base do término, considerou-se a estabilização de cinco dias das temperaturas dos tratamentos.

Figura 1  Temperatura média da massa interna observada durante o processo de compostagem do material.CAm: aberta com revolvimento em menor volume; CAM: aberta com revolvimento em maior volume; CASRm: aberta sem revolvimento em menor volume, CASRm: aberta sem revolvimento em maior volume e CF:anaeróbica em biodigestor.  

De acordo com HERBETS et al. (2005), a temperatura é considerada como o fator determinante para o processo, pois diferentes temperaturas promovem o desenvolvimento de diferentes micro-organismos. É a variável mais utilizada para realizar o monitoramento e a evolução da compostagem, além de promover a eliminação total ou parcial de muitos micro-organismos patogênicos. Estes mesmos autores descrevem que temperaturas entre 45 e 70°C fazem com que o processo de decomposição seja mais eficiente, considerando a temperatura ótima como sendo a de 60°C para a eliminação da maioria dos patógenos.

VALENTE(2008), que trabalhou com porcentagem de diferentes resíduos de abate de animais de produção, palha e serragem, mostrou que o tamanho das leiras, grandes e pequenas, influencia diretamente na temperatura, não atingindo temperaturas elevadas mesmo na fase inicial do processo. Entretanto, neste trabalho, os tratamentos CASRM e CAM com altura e largura de aproximadamente de 1,37 x 0,52 m, apresentaram temperaturas que chegaram a aproximadamente 60ºC. Isso indica que, mesmo em proporções diferentes do recomendado por KIEHL (2004), segundo o qual altura e largura da composteira devem estar entre 1,5 x 1,8 m, neste ensaio apenas as temperaturas para CASRM e CAMchegaram a ser consideradas próximas do ótimo.

Em relação aos outros tratamentos, CASRm e CAm, com altura e largura de 0,60 x 0,24 m, as temperaturas máximas ficaram em 30,9 e 30,4ºC. Isso se deve ao fato de que houve maior troca térmica entre os montes e o ambiente, o que dificultou a elevação da temperatura. Além do tamanho, a época do ano em que se realizou o experimento influenciou para que as temperaturas ficassem abaixo do ideal, já que a média da temperatura ambiente não passou de 18ºC, sendo a máxima e a mínima de 25 e 11ºC, respectivamente. Com esses dados, é possível afirmar que leira/montes de compostagem devem apresentar altura mínima para que alcancem temperaturas acima de 45ºC. VALENTEet al. (2009) afirmaram que, de acordo com o material a ser compostado, a altura das leiras deve ser estabelecida em no mínimo 0,80 m; abaixo disso não existem condições adequadas para a formação e a manutenção da temperatura.

Porém, o controle do tamanho de leira/montes, temperatura e umidade não é visto como uma prática usual na maioria das propriedades. A existência de manejo inadequado, como a disposição dos resíduos em locais inapropriados, e a falta de interesse em controlar esses principais fatores interferem diretamente no processo da compostagem. A presença de patógenos que possam causar problemas tanto ao homem como aos animais acaba sendo inevitável, uma vez que todo o processo acaba não sendo suficiente para eliminá-los.

De acordo com os resultados obtidos, a presença de larvas infectantes de terceiro estágio (L3) de Strongylus spp. em número por grama de resíduo (LGR) na amostra inicial do resíduo foi de 25,3. Após a finalização do experimento, a quantificação de L3 na parte interna da massa para cada tratamento foi de 18,6 (CASRm); 2,3 (CASRM); 3,3 (CAm); 0,7 (CAM) e 0,0 (CF). Já na região superficial da massa para todos os tratamentos não foi possível verificar a presença de larvas. Houve diferença estatística (p < 0,05) no número de larvas por grama de fezes no início e no final das amostras retiradas da região central e superficial de cada composteira, respectiva aos tratamentos, exceto para o tratamento CF, que não apresentou diferença estatística (p > 0,05) entre a região central e a superficial na última amostragem (Tabela 1).

Tabela 1 Larvas por grama de resíduo no início e no final da região central e superficial das composteiras, respectivas aos tratamentos 

Extratos Candida albicans Escherichia coli Klebsiella pneumoniae Pseudomonas aeruginosa Salmonella Typhimurium Staphylococcus aureus Bacillus subtilis
CIM CFM CIM CBM CIM CBM CIM CBM CIM CBM CIM CBM CIM CBM
Myrciaria cauliflora Etanólico 6,25 ND 0,39 0,39 0,78 3,13 0,39 0,39 0,39 0,78 12,5 ND 6,25 ND
Aquoso 12,5 ND 3,13 3,13 6,25 25 3,13 3,13 3,13 6,25 25 ND 75 ND
Psidium guajava Etanólico 12,5 ND 1,56 1,56 1,56 6,25 1,56 1,56 1,56 1,56 12,5 ND 6,25 ND
Aquoso 12,5 ND 3,13 6,25 25 50 6,25 6,25 6,25 12,5 50 ND 100 ND
Syzygium cumini Etanólico 6,25 ND 0,78 0,78 3,13 6,25 0,7 8 3,13 0,78 6,25 12,5 100 6,25 ND
Aquoso 6,25 ND 3,13 3,13 3,13 6,25 1,56 1,56 1,56 3,13 25 ND 100 ND
Cloranfenicol 0,04 0,04 0,04 0,04 0,04 0,04
Gentamicina 0,04 0,09 0,04 0,09 0,04 0,04
Nistatina 0,04 0,04

CAm: aberta com revolvimento em menor volume; CAM: aberta com revolvimento em maior volume; CASRm: aberta sem revolvimento em menor volume, CASRm: aberta sem revolvimento em maior volume e CF:anaeróbica em biodigestor

*LGR: larvas por grama de resíduo; Valores seguidos da mesma letra na mesma linha não diferem significativamente para o teste de Tukey, a 5% de probabilidade.

A presença de parasitos na parte central da massa (dos tratamentos) e a eliminação de ovos viáveis de Strongylus spp. não ocorreram de forma efetiva até o terceiro dia, por mais que as temperaturas nas CASRM E CAM se apresentassem superiores a 50ºC. Entretanto, CARRINGTON(2001) sugeriu que sete minutos a 70ºC, 30 minutos a 65ºC, duas horas a 60ºC, 15 horas a 55ºC ou três dias a 50ºC são suficientes para a inativação de ovos de helmintos.

No caso da CAM, houve diminuição de quase 57,7% das L3 na primeira semana de tratamento, e no final a redução foi de 97%. Resultados semelhantes foram obtidos por SCHROTTLE (1955), que relacionava a sobrevivência das larvas infectantes de Strongylus spp. à temperatura de 40ºC em compostagem. O autor obteve resultados de eliminação das L3 somente após 35 dias de tratamento. Este mesmo autor afirma que o aumento da temperatura para 50ºC diminuiu o tempo de sobrevivência em um terço, diferentemente CAM, em que a eliminação foi maior do que 50%.

BRIGGS et al. (2004) afirmaram que os ovos de helmintos não eclodem abaixo de 7ºC, ao passo que, acima de 30ºC ou 38ºC (KUZMINAet al., 2006; COUTO et al., 2008) as formas L1 morrem rapidamente, não suportando o calor tão acentuado. Isso possivelmente deve ter ocorrido também para o tratamento CASRM, para o qual se obteve redução de 90% de L1 ao final de 40 dias de tratamento, mas que não se aplica para o tratamento CASRm, que ainda apresentava elevado número de larvas na análise final. HAUG(1993) também mencionou que os patógenos são destruídos ou controlados por outros fatores, como relações ecológicas existentes na massa de compostagem, por exemplo, a competição.

De acordo com MADEIRA DE CARVALHO et al. (2005), a atividade das L3 aumenta consideravelmente com o aumento da temperatura, esgotando rapidamente suas reservas. Por este motivo, altas temperaturas promovem a mortalidade elevada em um curto espaço de tempo, ao passo que baixas temperaturas permitem sua sobrevivência durante meses.

Na primeira semana, para a CAm houve aumento de 18% de eclosão dos ovos de helmintos, provavelmente devido à temperatura interna, que se manteve entre 19 e 25ºC, o que não foi suficiente para sua eliminação, mas sim para seu desenvolvimento. HUTCHINSONet al. (1989) consideraram como temperatura ótima para o desenvolvimento de ciatostomíneos a faixa de 10 a 33ºC, o que não explicaria, ao final deste tratamento, a eliminação de 87% dos helmintos, sendo que a temperatura máxima foi de 30,4ºC. É importante observar que as condições ideais para o desenvolvimento das larvas não são as ideais para sua sobrevivência (MADEIRA DE CARVALHO, 2001).

Em relação ao tratamento CASRm, a diminuição na contagem das larvas infectantes ao final, na região interna do composto, foi de 26%. Nesse caso, a baixa eliminação pode ter sido causada pelas baixas temperaturas do início ao fim da compostagem, que, além de influenciarem na sobrevivência e no desenvolvimento larvar, também influenciaram no seu comportamento migratório: da extremidade para o interior da composteira. A umidade na parte superficial, que era de 17,6%, foi muito importante para que ocorresse essa migração de larvas para o interior do composto, que apresentava umidade de 54,9%, indicando o grande número na amostra final. Alguns autores afirmaram que, em condições desfavoráveis, as L3 migram para determinadas profundidades do solo, buscando refúgio (LYAKUet al., 1988). Outra consideração em relação aos helmintos são suas adaptações morfofisiológicas, que caracterizam alta resistência aos processos de sanitização (ANDREOLI; PINTO, 2001).

Neste trabalho, o único tratamento que apresentou eliminação de 100% das L3 foi a compostagem anaeróbia. Resultados semelhantes aos deste trabalho foram observados por FURLONG; PADILHA (1996), com nematoides gastrointestinais de bovinos, no qual o efeito inativante da anaerobiose chegou a quase 100% em um período de 56 dias. Porém, em outro trabalho, AMARALet al. (2004), avaliando o processo de biodigestão anaeróbia para tratamento de dejetos de bovinos, obtiveram resultados positivos para larvas L3 de Haemonchus spp, Oesophagostomum spp e Cooperia spp., mesmo após 40 dias de tempo de retenção. Segundo OLSON; NANSEN (1987), a digestão anaeróbia mesofílica (35°C) e a termofílica (53°C) aceleraram o processo de inativação de nematoides em relação ao tempo de sobrevivência desses parasitos no armazenamento convencional. CHERNICHAROet al. (2003) afirmaram que, em digestores anaeróbios, ovos de helmintos se apresentam como os mais resistentes, por isso, especificamente no que se refere à eficiência de sanitização, ovos de helmintos têm sido recorrentemente empregados como principais indicadores da eficiência de tal processo. Portanto, a sanitização do tratamento CF foi eficiente, pois no composto não foram identificados ovos e L3 de helmintos.

Na parte superficial das composteiras, na amostra final para todos os tratamentos, os achados de L3 foram negativos. O principal fator que contribuiu para este resultado, além da temperatura ambiente, que interferia diretamente nesta região dos montes, foi a umidade. De acordo com COUTOet al. (2008), para que haja desenvolvimento larvar, a umidade mínima deve ser de 30%. No caso dos tratamentos CASRm, CASRM e CAm, a umidade era baixa, de 17,55%; 20,27% e 29,41%, o que contribuiu para que as larvas migrassem para o interior da massa, que apresentava umidade superior a 40%, ou porque a sensibilidade de ovos e larvas de helmintos apresentassem dessecação, quando encontrados no meio (REY, 1991).

Os valores de pH neste trabalho não foram suficientes para a eliminação de ovos e larvas de Strongylus spp. Entretanto, alguns autores (ILHNFELD et al., 1999) citaram-no como eficiente ferramenta para destruição e/ou inativação, e também como o principal responsável pela sanitização absoluta do composto, com relação aos ovos de helminto com valores de pH acima de 10 por um período de 60 dias.

Para o eficaz controle ou eliminação de parasitos nesses tipos de processos aos quais materiais com potencial de contaminação estão sendo submetidos, a presença de temperaturas elevadas é imprescindível, além do controle de umidade, tamanho dos montes e o próprio revolvimento. É necessário padronizar o manejo de resíduos provenientes de centros de treinamento e realizar mais estudos a respeito das melhores formas de eliminação dos parasitas.

CONCLUSÃO

Os resultados indicam que com a simples disposição dos resíduos de cocheira sem manejo adequado e em pequenos volumes, não há eliminação total de ovos e larvas de parasitas.

Fatores como revolvimento e tamanho dos montes mostraram-se essenciais para a eliminação dos ovos de Strongylus spp.

O processo de biodigestão anaeróbia em biodigestor mostrou-se ,mais eficiente em comparação aos processos de compostagem abertos, com ou sem revolvimento.

AGRADECIMENTOS

Aos professores João Ricardo Dittrich e Edilene Alcântara de Castro, da Universidade Federal do Paraná, Emanuel Orestes da Silveira e ao REUNI (Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), pela concessão de bolsa de produtividade em pesquisa.

REFERÊNCIAS

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Received: May 04, 2012; Accepted: May 27, 2014

*Autor correspondente: keilafujii@me.com

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