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Arquivos do Instituto Biológico

Print version ISSN 0020-3653On-line version ISSN 1808-1657

Arq. Inst. Biol. vol.82  São Paulo  2015  Epub Nov 03, 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1808-1657000342013 

SCIENTIFIC COMMUNICATION

Ocorrência natural de Beauveria bassiana (Bals.) Vuill. (Moniliales: Moniliaceae) e patogenicidade sobre Protortonia navesi Fonseca (Hemiptera: Monophlebiidae) na cultura da mandioca, em Marechal Cândido Rondon, Paraná

Natural occurrence of Beauveria bassiana (Bals.) Vuill. (Moniliales: Moniliaceae) and pathogenicity on Protortonia navesi Fonseca (Hemiptera: Monophlebiidae) in cassava plantation, in Marechal Cândido Rondon, Paraná

Tânia Mari Vicentini Prestes1  * 

Vanda Pietrowski2 

Agostinho Zanini1 

Marina Andressa Formentini3 

Luis Francisco Angeli Alves3 

1Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) - Medianeira (PR), Brasil

2Laboratório de Controle Biológico, Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Campus de Marechal Cândido Rondon - Marechal Cândido Rondon (PR), Brasil

3Laboratório de Biotecnologia Agrícola, UNIOESTE, Campus de Cascavel - Cascavel (PR), Brasil

RESUMO:

O objetivo deste estudo foi registrar a primeira ocorrência natural e patogenicidade da associação entre Beauveria bassiana e Protortonia navesi na cultura da mandioca. Para isso, ninfas e adultos de P. navesi infectados foram coletados em amostragens realizadas quinzenalmente, na área do Instituto Agronômico do Paraná, em Marechal Cândido Rondon, de janeiro a dezembro de 2012. Amostras foram analisadas e, utilizando-se meio de cultura seletivo de aveia, foi isolado o fungo a partir dos cadáveres, sendo identificado como Beauveria bassiana (Bals.) Vuill., armazenado na Coleção de Fungos Entomopatogênicos do Laboratório de Biotecnologia Agrícola, sob o código Unioeste 78. Para comprovar sua patogenicidade, foi adotado o postulado de Koch, aplicando-se o fungo (109conídios/mL) sobre ninfas e adultos de P. navesi obtidos da criação de laboratório. Após 10 dias de incubação, verificou-se 18% de mortalidade confirmada, sendo considerada baixa a atividade sobre a cochonilha P navesi.

PALAVRAS-CHAVE: controle biológico; fungo entomopatogênico; cochonilha

ABSTRACT:

The objective of this study was to record the first natural occurrence and pathogenicity of the association between Beauveria bassiana and Protortonia navesi in the cassava crop. Infected P. navesi nymphs and adults were collected in samples fortnightly in the Agronomic Institute of Paraná, in Marechal Cândido Rondon, from January to December 2012. Samples were analyzed at the Laboratory of Agricultural Biotechnology. The entomopathogenic fungus was isolated from corpses using selective oatmeal culture medium, and multiplied for sporulation being identified as Beauveria bassiana (Bals.) Vuill. The fungus was stored in the Collection of Entomopathogenic Fungi Laboratory of Agricultural Biotechnology, identified as Unioeste 78. To prove the pathogenicity of the found isolate, bioassays were performed following the postulate of Koch, the fungi suspension was sprayed (109conídios mL), on nymphs and adults of P. navesiobtained from laboratory rearing. After 10 days of incubation there was 18% mortality confirmed, being considered low actgivity on mealybugs Protortonia.

KEYWORDS: biological control; entomopathogenic fungus; mealybugs

Protortonia navesi Fonseca (Hemiptera: Monophlebiidae) é uma cochonilha nativa do Brasil, com ocorrência registrada na cul tura da mandioca e nas plantas daninhas no Distrito Federal e na região oeste do estado do Paraná (Oliveira et al., 2008; Pietrowski et al, 2010).

A espécie foi descrita com potencial de danos elevados na cultura da mandioca, principalmente pela redução do poder germinativo das manivas em torno de 30%, redução do acú mulo de reserva, diminuição da estatura das plantas, redução da área foliar e do peso das raízes, em média, de 70%, cau sando morte de 80% das plantas (Oliveira; Fialho, 2005).

A disseminação da cochonilha ocorre principalmente pelas manivas infestadas, no transporte de máquinas e imple mentos, vestuário de pessoas que circulam em áreas infestadas e pelas formigas doceiras, as quais se encontram associadas (Oliveira et al., 2005).

Devido ao hábito críptico de desenvolvimento das cocho- nilhas, os métodos convencionais de controle são ineficazes, sendo mais utilizadas as práticas de rotação de culturas, con trole biológico, plantas sadias e eliminação de hospedeiros alternativos (Haji et al., 2004), não sendo recomendado o uso de inseticidas de contato ou sistêmico na área foliar, pois tais produtos não apresentam bons resultados, devido à reinfestação pelas cochonilhas que estão nas raízes (Oliveira et al., 2005).

O controle biológico com o fungo Beauveria bassiana(Bals.) Vuill. é considerado eficiente no controle de diver sas pragas (Alves, 1998). No entanto, para a cochonilha P. navesi, não foram encontrados estudos com esse entomopa- tógeno, havendo, contudo, trabalhos com outras cochonilhas, como a pesquisa com a raiz do cafeeiro, Dysmicoccus texensis(Tinsley) (Hemiptera, Pseudococcidae), realizada por Andaló et al. (2004), os quais verificaram que os isolados de B. bassiana(UEL 114) causaram mortalidade (62%) em relação às demais espécies testadas. Também para a cochoni lha do abacaxizeiro, D. brevipes, para a qual foi confirmado que B. bassiana mostrou-se com potencial para utilização no controle, pois em laboratório causou mortalidade de 53% (Santos et al., 2013).

Foi verificada a viabilidade do uso de B. bassiana no controle da cochonilha ortezia (Praelongorthezia praelonga)(Douglas, 1891) (Hemiptera, Orthziidae), praga-chave dos citros, apresentando resultados promissores (Benvenga et al., 2011). Ainda na mesma cultura esse entomopatógeno é citado para o controle de ninfas de 2° ínstar de Planacoccus citri (Risso, 1803) (Hemiptera, Pseudococcidae) em labora tório (Mascarin et al., 2011).

Na cultura da mandioca, em estudo com a cochoni- lha Phenacoccus manihoti(Matile-Ferrero) (Hemiptera, Pseudococcidae), verificaram-se baixa atividade de B. bas siana sobre ninfas dessa cochonilha (Barilli et al., 2011).

Assim, diante dos poucos métodos de controle dispo níveis e da escassez de trabalhos científicos para essa praga, este estudo teve como objetivo registrar a primeira associação natural entre B. bassiana e P. navesi na cultura da mandioca e verificar a patogenicidade do fungo ao inseto.

Durante a realização do estudo de bioecologia na área do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), localizada no distrito de Porto Mendes, Marechal Cândido Rondon (PR) (24° 30'32,36" S, 54° 18' 43,87"0, altitude 241 m), foram coletados cadáveres de cochonilhas com sinais do fungo. Esses cadáveres foram individualizados em frascos de vidro com tampa e avaliados no Laboratório de Biotecnologia Agrícola da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNI0ESTE) de Cascavel.

O fungo entomopatogênico foi isolado dos cadáveres, utilizando-se o meio de cultura seletivo de aveia-Dodine (g/1.000 mL de água destilada): 20 ágar; 5,0 extrato de leve dura; 4,6 mistura de sais; 10 glicose (Alves et al., 1998), incubado em 26 ± 1°C e 12 horas de fotofase, durante 7 dias. Após, foi feita a raspagem dos conídios, sendo acondicio nados em microtubos tipo Eppendorf e mantidos a -10°C. A multiplicação dos conídios foi feita em meio para esporulação (Alves, 1998). Inocularam-se os conídios nas placas que foram incubadas a 25 ± 1°C e fotofase de 12 horas, por um período de 8 a 10 dias, para a obtenção da esporulação do fungo. Coletaram-se amostras do fungo, raspando-se a superfície dos meios de cultura e lâmina de vidro contendo Amann lactofenol com cotton blue (0,5%), observou-se ao microscópio de luz (400x). O fungo foi identificado como B. bassiana com base nos conídios globosos e fiálides com a parte basal dilatada terminando em zigue-zague (Alves, 1998; Humber, 2012).

Armazenou-se o isolado em tubos de vidro fechados com filme de PVC, em refrigeração (-10°C), cadastrado na Coleção de Fungos Entomopatogênicos do Laboratório de Biotecnologia Agrícola da UNIOESTE (CFEUnioeste) (http://splink.cria.org.br/manager/detail?setlang=pt&resource=CFEUnioeste), denominado Unioeste 78.

A fim de comprovar a patogenicidade do isolado encon trado, foram realizados bioensaios seguindo o postulado de Koch (Alves et al., 1998). Para isso, o isolado foi novamente multiplicado conforme descrito anteriormente. Após esse período, os conídios foram coletados, raspando-se a superfí cie do meio de cultura, transferindo-os para tubos de vidro esterilizados acrescidos de solução de água destilada contendo Tween(r) 80 (0,01%). A suspensão foi padronizada na con centração de 109 conídios/mL, com o auxílio de uma câmara de Neubauer.

Cochonilhas de P. navesi de terceiro ínstar e adultas pro venientes da criação do laboratório foram coletadas e trans feridas, com o auxílio de pincel umedecido, para segmentos de raízes de mandioca, com oito meses de desenvolvimento, previamente escovados, lavados com água e hipoclorito de sódio a 1%, revestidos com parafina líquida e acondiciona dos em caixas do tipo gerbox de acrílico. Logo após, 1 mL da suspensão fúngica foi pulverizado, utilizando-se Torre de Potter (10 kgf/cm2). Na testemunha, pulverizou-se água des tilada + Tween 80 (0,01%). Após a pulverização, as caixas de gerbox foram mantidas em sala climatizada (26 ± 1°C, U.R. 60 ± 10%, no escuro). Diariamente, durante 10 dias, foram realizadas as avaliações, retirando-se os cadáveres que foram desinfestados por imersão em solução alcoólica 70% e água destilada e mantidos em câmara úmida em 26 ± 1°C e 12 horas de fotofase, para confirmação da mortalidade pelo fungo. O experimento foi realizado segundo delineamento inteiramente casualizado com 3 repetições, sendo cada repe tição uma caixa gerbox contendo segmentos de raízes de man dioca com 15 cochonilhas.

Em todas as amostragens de campo foram encontradas cochonilhas infectadas pelo fungo B. bassiana, registrando-se maior número nos meses de março a junho, quando as médias de precipitação e temperaturas mínimas e máximas do período foram de 130 mm, 16 e 27°C, respectivamente, proporcionando, com isso, a manutenção da umidade no solo (Fig. 1). A temperatura influencia a germinação dos conídios de B. bassiana, sendo determinada a temperatura de 26°C como limite para a germinação, pois a de 32°C é totalmente inibida (Alexandre et al., 2006).

Figura 1: Número de cochonilhas infectadas, no período de janeiro a dezembro de 2012, na cultura da mandioca da variedade fécula branca, em Porto Mendes, Marechal Cândido Rondon, Paraná. 

A mortalidade média confirmada do isolado Unioeste 78 foi de 18 ± 16,2. Resultados semelhantes de baixa pato genicidade (20%) foram obtidos para P. eitri com isolados de B. bassiana (ESALQ - 447) na cultura de citros (Mascarin et al., 2011). Entretanto, resultados superiores de patogenici dade foram obtidos por Andaló et al. (2004), que verificaram mortalidade para D. texensis de 50 a 65% para isolados de B. bassiana. Na cultura do abacaxizeiro, com a cochonilha D. brevipes, o mesmo fungo causou mortalidade de 53,2% (Santos et al., 2013).

Este é o primeiro estudo que registra a ocorrência de B. bassianainfectando P. navesi em raízes de mandioca. Contudo, a patogenicidade do isolado testado tenha sido baixa sobre a cochonilha. Sugere-se que outros estudos sejam realizados com a utilização de diferentes isolados de B. bassiana para o controle dessa espécie.

REFERÊNCIAS

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Received: May 06, 2013; Accepted: March 04, 2015

*Autor correspondente: taniaprestes@hotmail.com

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