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Arquivos do Instituto Biológico

versão impressa ISSN 0020-3653versão On-line ISSN 1808-1657

Arq. Inst. Biol. vol.83  São Paulo  2016  Epub 01-Dez-2016

https://doi.org/10.1590/1808-1657000522014 

SCIENTIFIC ARTICLE

Efeito da extração de compostos fenólicos sobre a atividade antioxidante e antibacteriana in vitro de cogumelo-do-sol

Effect of extraction of phenolic compounds on the in vitro antioxidant and antibacterial activity of sun mushroom

Flávia Santi Stefanello1  * 

Carlos Pasqualin Cavalheiro1 

Fernanda Luísa Ludtke1 

Mariana Santos da Silva1 

Liana Inês Guidolin Milani1 

Ernesto Hashime Kubota1 

1Departamento de Tecnologia e Ciência dos Alimentos; Centro de Ciências Rurais; Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) - Santa Maria (RS), Brasil.


RESUMO:

O cogumelo-do-sol (Agaricus blazei Murril) é amplamente consumido, por conta de suas propriedades medicinais. Este estudo teve como objetivo determinar a atividade antioxidante e antibacteriana in vitro dos extratos de cogumelo do sol, mediante diferentes tempos e temperaturas de extração. As amostras foram analisadas quanto à composição centesimal, determinação do teor de fenólicos totais e atividade antioxidante e antibacteriana in vitro. Os resultados demonstram que esse tipo de cogumelo aparece como um agente antioxidante potencial, obtendo-se melhores resultados na temperatura de 70ºC durante 60 minutos de extração hidroetanólica. Esse extrato não aponta atividade antibacteriana para os micro-organismos em teste.

PALAVRAS-CHAVE: extratos; tempo; temperatura; agente antioxidante; micro-organismos

ABSTRACT:

The sun mushroom (Agaricus blazei Murril) is widely consumed due its medicinal properties. This study aimed to determine in vitro antibacterial and antioxidant activities of sun mushroom, through different times and temperatures of extraction. The samples were analyzed for proximate composition, determination of total phenolic content and in vitro antibacterial and antioxidant activities. The results show that this kind of mushroom appears as a potential antioxidant agent, obtaining best results in the temperature of 70ºC for 60 minutes in hydroethanol extraction. This extract shows no antibacterial activity for microorganisms under test.

KEYWORDS: extracts; time; temperature; antioxidant factor; microorganisms

INTRODUÇÃO

A implicação do estresse oxidativo na etiologia e na progressão de várias doenças, tais como o câncer e doenças cardiovasculares e neurodegenerativas, leva à sugestão de que os antioxidantes naturais podem ter benefícios à saúde como agentes profiláticos (Ferreira et al., 2009). Além disso, podem ser usados em aplicações dermatológicas, como cosméticos e também como suplementos na indústria de alimentos (Heleno et al., 2010).

Da mesma forma, extratos naturais com ação antimicrobiana apresentam-se como uma alternativa terapêutica, em razão de nas últimas décadas o uso irracional de antimicrobianos ter determinado o surgimento de cepas de micro-organismos multirresistentes, impulsionando a comunidade científica para a descoberta de novas opções desses agentes (Lund et al., 2009).

Nesse contexto, vários estudos têm evidenciado os potenciais antioxidantes e antimicrobianos de uma grande variedade de frutas e de vegetais. Consequentemente, compostos obtidos de fontes naturais, tais como grãos, sementes oleaginosas, especiarias, frutas, vegetais e cogumelos comestíveis, têm sido investigados (Asolini et al., 2006, Vaz et al., 2011).

Os cogumelos são alimentos de alto valor nutricional, com baixos níveis energéticos e grandes quantidades de minerais, aminoácidos essenciais, vitaminas e fibras (Firenzuoli et al., 2008). Ademais, acumulam uma variedade de metabólitos secundários, tais quais compostos fenólicos, polipeptídeos, terpenos e esteroides possivelmente envolvidos em seus efeitos medicinais (Turkoglu et al., 2007). Perante esse cenário, a possibilidade de incluir cogumelos na dieta pode fornecer benefícios desejáveis para a saúde, para além da nutrição básica.

O cogumelo brasileiro Agaricus blazei Murill (AbM) provoca interesse da mídia e da comunidade científica, já que atingiu o topo do ranking dos melhores cogumelos medicinais (Firenzuoli et al., 2008). Conhecido como cogumelo-do-sol no Brasil, é consumido pela população como alimento e chá medicinal para combater diversas doenças (Luiz et al., 2003). O Brasil destaca-se como o maior produtor mundial de cogumelo-do-sol (AbM) - este é espécie nativa do país -, apresentando condições climáticas favoráveis (Tomizawa et al., 2007), de maneira que a expansão do cultivo do cogumelo tem sido verificada em várias regiões do país, visando abastecer o mercado internacional e nacional, o qual vem aumentando motivado pelo interesse da população brasileira em seus benefícios (MendonçA et al., 2005).

Esse cogumelo tem sido amplamente estudado nas áreas de ciência dos alimentos, medicina, biotecnologia e farmacologia (Largeteau et al., 2011). Trabalhos têm relatado que o AbM apresenta atividade antibacteriana, como, por exemplo, na avaliação in vitro contra agentes patogênicos orais para humanos, tais como Streptococcus mutans (Lund et al., 2009), além de atividade antioxidante (Soares et al., 2009), antidiabética (Kim et al., 2005), forte atividade imunoestimulante (Yuminamochi et al., 2007), bem como efeitos antitumorais e anticâncer (Yu et al., 2009), entre outros.

Os antioxidantes encontrados em cogumelos são principalmente compostos fenólicos, tendo sido quantificados em diferentes espécies encontradas em todo o mundo (Vaz et al., 2011). Quanto ao acúmulo desses compostos, o conteúdo de fenólicos totais e atividade antioxidante foram estimados e comparados em fases jovens e maduras de corpos de frutificação de AbM, não obtendo-se diferença entre elas (Soares et al., 2009). Por outro lado, a composição nutricional e os componentes antioxidantes do AbM, incluindo os fenólicos totais, podem diminuir quando submetidos a tratamentos térmicos (Sun et al., 2011).

Em relação à atividade antibacteriana de compostos fenólicos, ela tem sido avaliada em estudos farmacêuticos e em alimentos. Alguns compostos fenólicos achados em plantas, tais como os de sálvia, alecrim, tomilho, lúpulo, coentro, cravo e manjericão, são conhecidos por possuírem efeitos antimicrobianos contra patógenos alimentares (Ahn et al., 2007).

Dessa maneira, o objetivo deste artigo foi determinar a atividade antioxidante e antibacteriana in vitro dos extratos de cogumelo-do-sol (AbM) cultivado na região central do Rio Grande do Sul, mediante diferentes tempos e temperaturas de extração.

MATERIAL E MÉTODOS

As amostras de cogumelo-do-sol (AbM) foram fornecidas por um estabelecimento produtor localizado na cidade de Santa Maria, região central do Rio Grande do Sul, Brasil (coordenadas -29º41'03" +53º48'25"), sob a forma de basidiocarpos imaturos previamente desidratados. Elas foram moídas em moinho analítico refrigerado (4ºC) (Quimis, modelo Q 298A21, Diadema, Brasil), classificadas em sistema de peneiras para partículas de 0,5 mm de diâmetro e acondicionadas em recipientes fechados, ao abrigo da luz e em freezer (-12ºC) até o momento de sua utilização.

Para a determinação da composição centesimal, as amostras de AbM foram submetidas à secagem em estufa a 105ºC para a análise de umidade, para cinzas a 550ºC e proteínas pelo método de Kjeldahl, segundo metodologia descrita pela Association of Official Analytical Chemists (AOAC, 2005). Os lipídios totais foram quantificados em conformidade com o método descrito por Bligh; Dyer (1959), e todas essas análises foram conduzidas em triplicata.

Os extratos de AbM foram preparados do pó previamente moído, pesado (6 g) em um béquer e adicionado o álcool de cereais 80% (60 mL) na proporção 1:10 (p/v). Em seguida, a mistura foi levada a dois banhos ultratermostatizados (Solab, modelo SL-152/10, Piracicaba, Brasil), um com temperatura de 50ºC e outro com temperatura de 70ºC, e submetida à agitação constante por intermédio de agitador mecânico (Marconi MA-039, Piracicaba, Brasil), variando o tempo de extração em 15, 30 e 60 minutos. Depois disso, os seis extratos foram filtrados em papel-filtro e as soluções resultantes acondicionadas em frascos âmbar e armazenados em freezer (-12ºC) até o momento das análises, ressaltando que cada extração foi realizada em triplicata.

Para a estimativa de fenólicos totais, utilizou-se o reagente de Folin-Ciocalteu, descrito por Singleton et al. (1999). Em um balão volumétrico, os extratos foram diluídos em álcool de cereais 80% na proporção 1:25 (v/v). Posteriormente, uma alíquota (0,2 mL) da solução foi misturada a 1 mL de reagente de Folin-Ciocalteu 0,2 N. Aguardaram-se 8 min no escuro e adicionou-se 0,8 mL de solução de carbonato de sódio (Na2CO3) 7,5%. Após incubação à temperatura ambiente (25ºC) por 2 horas, a absorbância foi medida a 765 nm em espectrofotômetro (SP-220, Biospectro, São Paulo, Brasil).

A absorbância da amostra foi comparada com a curva padrão de ácido gálico (concentrações de 0 a 70 mg de ácido gálico 100 mL-1), e aplicou-se a Equação 1:

Em que:

Y

= absorbância,

x

= concentração;

R2

= 0,9986. Coeficiente de determinação da equação, uma medida de ajustamento de um modelo estatístico linear generalizado em relação aos valores observados. O R² varia entre 0 e 1, indicando em percentagem o quanto o modelo consegue explicar os valores alcançados.

O conteúdo total de fenólicos foi expresso em mg de fenólicos totais por g de extrato seco de cogumelo-do-sol (mg fenólicos totais/g cogumelo-do-sol), baseado na curva de calibração expressa em equivalentes de ácido gálico. As análises aconteceram em triplicata para os seis extratos hidroetanólicos de AbM, e os valores são apresentados como a média (± desvio padrão).

A atividade antioxidante dos compostos presentes nos extratos de cogumelo-do-sol foi determinada por meio da capacidade sequestrante do radical livre DPPH (2,2-difenil-1-picril-hidrazil), segundo metodologia descrita por Brand-Williams et al. (1995). A técnica consistiu na incubação por 30 min de 5 mL de solução etanólica (80% v/v) de DPPH 0,1 mM com 5 mL de soluções contendo concentrações crescentes de extrato hidroetanólico de AbM (0,3; 0,6; 1,25; 2,5; 5; 10; 15; 20; 25; 30; 35 e 40 mg.mL-1).

A solução controle era composta de DPPH 0,1 mM em etanol 80% (v/v), e a solução branco, de solvente etanol 80% (v/v). Após incubação, foram realizadas as leituras das amostras em espectrofotômetro (SP-220, Biospectro, São Paulo, Brasil) em comprimento de onda de 517 nm. A porcentagem de atividade antioxidante (AA%) foi calculada mediante o percentual de captação do radical DPPH, conforme a Equação 2:

Depois disso, calculou-se a concentração necessária para capturar 50% do radical livre DPPH (IC50) por intermédio de equação da reta obtida dos valores da absorbância (AA%) das concentrações crescentes de extrato hidroetanólico de cogumelo-do-sol, substituindo o valor de Y por 50, obtendo-se o valor de X como a concentração correspondente. As análises foram realizadas em triplicata para os seis extratos hidroetanólicos de AbM.

Com base nos resultados da determinação de fenólicos totais e atividade antioxidante in vitro, elegeu-se o extrato de melhor desempenho para a determinação da atividade antibacteriana in vitro. Com esse extrato, o solvente foi totalmente eliminado em rotaevaporador (Fisatom(r) 802, Fisatom, São Paulo, Brasil) com vácuo de -760 mmHg e temperatura da água do banho a 60ºC (± 1ºC), e a parte sólida remanescente foi ressuspensa em água destilada esterilizada na concentração de 10 µg.µL-1.

As cepas bacterianas foram adquiridas da coleção americana American Type Culture Collection (ATCC). A atividade antibacteriana do extrato de cogumelo-do-sol foi avaliada no tocante às bactérias gram-positivas: Staphylococcus aureus (ATCC 25.923), Bacillus cereus (ATCC 14.579) e Enterococcus faecalis (ATCC 19.433); e gram-negativas: Escherichia coli (ATCC 25.922), Pseudomonas aeruginosa (ATCC 10.145), Salmonella enterica subsp. enterica serovar Enteritidis (ATCC 13.076), Salmonella enterica subsp. enterica serovar Choleraesuis (ATCC 10.708), Salmonella enterica subsp. enterica serovar Typhimurium (ATCC 14.028) e Enterobacter aerogenes (ATCC 13.048).

Foi realizado o teste de difusão em disco, conforme os procedimentos descritos pelo National Committee for Clinical Laboratory Standards (NCCLS, 2003). Com culturas recentes dos micro-organismos em teste, foi preparada suspensão em solução fisiológica estéril (NaCl 0,85%), a qual foi padronizada para 0,5 da escala McFarland. As suspensões foram semeadas na superfície do ágar Mueller-Hinton, em placas de Petri, com auxílio de swab estéril. Posteriormente, discos de papel com 6 mm de diâmetro foram impregnados com 10 µL dos extratos em teste e plaqueados no ágar previamente inoculado com o micro-organismo teste.

Para controle negativo, os discos de papel foram embebidos em água destilada esterilizada, e, para o controle positivo, usaram-se discos com 30 µg de cloranfenicol. Após 24 h de incubação a 36ºC, foi medido o diâmetro dos halos de inibição de crescimento nas placas.

Obtiveram-se os resultados como médias de análises em triplicata. Os dados foram submetidos à análise de variância (ANOVA) e regressão por meio do programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) 17.0. Quando os dados não se ajustaram aos modelos de regressão, as médias foram comparadas pelo teste de Tukey, utilizando nível de significância de 5%.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A composição centesimal do cogumelo-do-sol desidratado está representada na Tabela 1. O teor de proteína bruta foi de 31,31 g% (± 0,006) e o de lipídios foi de 4,05 g% (± 0,007), configurando elevado teor de proteínas e baixo de lipídeos, não diferindo de outros cogumelos comestíveis (Agahar-Murukar; Subbulakshmi, 2005). Os cogumelos frescos chegam a apresentar umidade inicial de 85 a 95% e, quando desidratados, de 5 a 20% (Sampaio; Queiroz, 2006), valores confirmados pelo resultado encontrado neste estudo, em que o valor da umidade do cogumelo desidratado foi de 5,86 g% (± 0,001).

Tabela 1: Composição centesimal do cogumelo-do-sol (Agaricus blazei Murril) desidratado. 

Médias ± desvio padrão de análises em triplicata.

Os cogumelos desidratados também são excelente fonte de fibras alimentares (Tabela 1), o que é representado pelo valor de 29,79 g % (± 0,006), além de minerais (6,91 ± 0,001 g%), corroborando com outros resultados da literatura (Chang, 2008). Assim, diversos estudos, assim como este, têm comprovado que o valor nutritivo de cogumelo-do-sol é de qualidade para uma dieta balanceada, indicando a sua utilização como alimento funcional, o que vem aumentando expressivamente nos últimos anos.

Por outro lado, a busca de um método de extração de compostos fenólicos prático e eficiente é um processo constante nas avaliações de compostos bioativos, em que diversos parâmetros devem ser observados, podendo ser influenciados pelo solvente, pelo tempo e pelas altas temperaturas (Carvalho et al., 2007).

Os valores de fenólicos totais do extrato hidroetanólico do AbM - expresso em mg fenólicos totais/g cogumelo-do-sol desidratado - estão representados na Figura 1A, considerando as variações de tempo e temperatura empregadas durante a extração.

Figura 1: Fenólicos totais (A) e atividade antioxidante in vitro representada pela concentração necessária para capturar 50% do radical livre 2,2-difenil-1-picril-hidrazil (DPPH) - IC50 (B) de extratos hidroetanólicos de cogumelo-do-sol obtidos em temperatura de 50º e 70ºC nos tempos de 15, 30 e 60 min de extração. 

De acordo com os resultados (Fig. 1A), pode-se observar que o tempo de extração de 60 min foi o que apresentou nos cogumelos o maior teor de fenólicos totais para ambas as temperaturas aplicadas (50º e 70ºC), em relação aos tempos de 15 e 30 min de extração.

Portanto, levando-se em conta o tempo de extração de 60 min, os teores de compostos fenólicos totais não diferiram entre as temperaturas de 50 (4,41 ± 0,533) e de 70ºC (5,34 ± 0,048) aplicadas. Em concordância com os resultados obtidos, a melhor condição de tempo de extração de compostos antioxidantes do AbM foi 60 min, independentemente da temperatura utilizada (Mourão et al., 2011).

Foi encontrado valor de 2,55 mg de fenólicos totais/g de extrato de cogumelo-do-sol utilizando solvente metanol 50% com tempo de extração de 24 horas à temperatura ambiente (Sun et al., 2011), enquanto, com o solvente metanol 70% no mesmo tempo de extração (24 horas) à temperatura ambiente, foram achados valores de 0,83 a 42,21 mg de fenólicos totais/g de extrato para diferentes cogumelos comestíveis (Pleurotus porrigens, Hygrocybe conica, Xerula furfuracea, Schizophyllum commune, Polyporus tenuiculus e Pleurotus florida), representando oscilação bastante acentuada, conforme cada tipo de cogumelo avaliado (Wong; Chye, 2009).

As variações alcançadas nos teores dos compostos fenólicos totais ocorrem por conta das diversas variações nas condições da extração, como tipo e concentração de solvente, proporção de amostra-solvente, temperatura e tempo de extração (Mata et al., 2007). As diferenças de valor também podem estar relacionadas a fatores como o clima e o substrato de cultivo, além do tipo de cogumelo, entre outros (Soares et al., 2009).

Os resultados obtidos na determinação da atividade antioxidante in vitro dos extratos de cogumelo-do-sol demonstrados por meio da concentração capaz de sequestrar 50% do radical DDPH (IC50) estão representados na Figura 1B.

Quanto menor o valor de IC50, maior a atividade antioxidante do extrato, já que esse valor representa a quantidade de extrato necessária para reduzir em 50% a atividade do radical livre, de forma que valores de IC50 acima de 25 mg mL-1 são considerados de baixo potencial antioxidante (Campos et al., 2005).

Os resultados (Fig. 1B) para as análises in vitro realizadas com os extratos de cogumelo-do-sol demonstraram valores de IC50 menores para a temperatura de 70ºC independentemente dos tempos de extração. Dessa forma, tendo em vista essa temperatura de extração, o valor mais baixo do IC50 foi para o tempo de 60 min (15,80 mg mL-1).

Nessas condições a atividade antioxidante aumentou com a elevação da temperatura de extração de 50º para 70ºC, diferindo de outros trabalhos, em que o tratamento térmico reduziu a quantidade de fenólicos totais, bem como alterou os tipos e a quantidade relativa desses compostos (Sun et al., 2011). Entretanto, esta pesquisa corrobora com resultados de outros estudos, que determinaram a temperatura de 70ºC como o limite máximo a ser empregado no processo extrativo para evitar a degradação, a polimerização e a oxidação de compostos fenólicos, fatores que resultariam na redução destes (Peixoto Sobrinho et al., 2010).

A capacidade antioxidante do cogumelo-do-sol foi avaliada anteriormente apresentando valor de IC50 de 3 mg de extrato mL-1 (Soares et al., 2009), representando capacidade antioxidante mais eficiente do que a constatada neste trabalho. Todavia, para cogumelos selvagens comestíveis, classificação que engloba o cogumelo estudado, a concentração de extrato necessária para capturar 50% do radical livre DPPH (IC50) foi em média de 20 mg de extrato mL-1 (Wong; Chye, 2009), representando um valor aproximado ao encontrado, de 17,13 mg de extrato mL-1, considerando condições de extração semelhantes.

Cabe salientar que diferentes autores têm apresentado valores de IC50 de antioxidantes naturais com grandes diferenças, dificultando a comparação dos resultados, provavelmente pelo fato de haver diferenças nas metodologias utilizadas para a elaboração de extratos.

O extrato hidroetanólico de cogumelo-do-sol avaliado nas concentrações de 1, 2 e 4% não apresentou atividade antibacteriana sobre Staphylococcus aureus, Bacillus cereus, Enterococcus faecalis, Escherichia coli, Pseudomonas aeruginosa, Salmonella enterica subsp. enterica serovar Enteritidis, Salmonella enterica subsp. enterica serovar Choleraesuis, Salmonella enterica subsp. enterica serovar Typhimurium nem Enterobacter aerogenes, segundo o teste de difusão em disco. Na Figura 2, pode-se observar o halo de inibição do crescimento microbiano em relação ao disco impregnado com cloranfenicol 30 µg (C+), utilizado como controle positivo no teste de difusão em disco.

Figura 2: Placa de Petri com halo de inibição do crescimento microbiano em relação ao disco impregnado com cloranfenicol 30 μg (controle positivo, C+), discos com o extrato em três repetições (100 μg cada disco, R) e disco com água destilada (controle negativo, C-). 

Na avaliação da atividade antimicrobiana de extratos metanólicos de três espécies de Agaricus, os autores verificaram que as bactérias gram-positivas foram mais sensíveis ao extrato de cogumelo do que as bactérias gram-negativas quando empregado 200 µg de cogumelo (Öztürk et al., 2011), o que não ficou evidente neste trabalho quando utilizado 100 µg de cogumelo.

Os resultados obtidos no teste de difusão em disco sugerem ausência de atividade antibacteriana das substâncias presentes no extrato hidroetanólico de AbM, ou pequena concentração, não atingindo a concentração inibitória mínima para os micro-organismos em teste.

CONCLUSÕES

Nas condições deste estudo, o extrato hidroetanólico de cogumelo-do-sol (Agaricus blazei Murril) apresentou-se como um potencial agente antioxidante in vitro. O melhor resultado de extração foi obtido em temperatura de 70ºC durante 60 min, apresentando-se numa relação diretamente proporcional entre o conteúdo de fenólicos totais e a capacidade antioxidante in vitro. O mesmo extrato não apontou atividade antibacteriana para os micro-organismos em teste.

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Recebido: 26 de Maio de 2014; Aceito: 30 de Agosto de 2016

* Autor correspondente: flaviass_vet@hotmail.com

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