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Coluna/Columna

Print version ISSN 1808-1851

Coluna/Columna vol.9 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1808-18512010000100008 

ARTIGO ORIGINAL ORIGINAL ARTICLE

 

Determinantes clínicos com influência no prognóstico da discectomia lombar: análise multifatorial

 

Clinical determinants' influence on lumbar discectomy prognosis: multi-factor analysis

 

Determinantes clínicos que influyen en el pronóstico de la disectomía lumbar: análisis multifactorial

 

 

Paulo Jorge Da Rocha CarvalhoI; Paulo Jorge Correia De SáII; Rolando Manuel Bezerra FreitasIII; João Pedro Maia GonçalvesIV; Sara Lemos Costa Lobo MacedoV; José De Morais NevesVI

IMD, Interno Complementar de Ortopedia e Traumatologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, Espinho EPE, Portugal
IIMD, PhD, Professor de Farmacologia da Faculdade Ciências Médicas Abel Salazar; Hospital de Santo António, Portugal
IIIMD, Chefe de Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, Espinho EPE, Portugal
IVMD, Assistente de Ortopedia e Traumatologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, Espinho EPE, Portugal
VMD, Interna Complementar de Ortopedia e Traumatologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, Espinho EPE, Portugal
VIMD, Director de Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, Espinho EPE, Portugal

Correspondência

 

 


RESUMO

A seleção e o agendamento temporal inadequados dos pacientes permanecem as causas mais importantes de insucesso da cirurgia discal lombar.
OBJETIVO: Este trabalho pretende avaliar os resultados clínicos e os factores preditivos que influenciam o prognóstico dos pacientes submetidos à discectomia lombar através de um modelo analítico multifatorial.
MÉTODOS: Apresentamos uma série prospectiva de 68 pacientes com hérnias discais lombares que foram submetidos à discectomia entre 2003 e 2007. O seguimento médio foi de 3,9±0,1 anos. Os resultados clínicos foram avaliados utilizando o escore JOA (Japonese Orthopaedic Association Assessment Scoring System) (JOA=29).
RESULTADOS: Resultados pós-operatórios bom e excelente foram obtidos em 75% dos casos. Pacientes do sexo masculino e a preponderância de sintomas subjectivos sobre sintomas clínicos estiveram associados com os melhores resultados clínicos e com o retorno mais precoce à actividade laboral. O tempo de espera pela cirurgia não teve influência no resultado final. A necessidade de cirurgia foi questionada na ausência de défices neurológicos significativos (JOA para resultados clínicos >3/6). Um valor JOA pré-operatório >15 (debilidade inicial baixa) está correlacionado com piores resultados clínicos pós-operatórios.
CONCLUSÕES: O escore JOA é de fácil aplicação para clínicos e pacientes, uniformiza dados subjectivos e apresenta valor preditivo para os resultados dos pacientes submetidos à discectomia lombar.

Descritores: Deslocamento do disco intervertebral/cirurgia; Dor lombar; Vértebras lombares/patologia


ABSTRACT

Inappropriate patient selection and timing for lumbar disc surgery are still the the major causes of failures.
OBJECTIVE: We evaluated the clinical outcome and predictive factors that influence the prognosis of patients submitted to lumbar discectomy using a multivariate analysis model.
METHODS: We report a prospective series of 68 patients with herniated lumbar disc who underwent limited discectomy during 2003 to 2007. The average follow-up period was 3.9±0.1 years. Clinical findings were evaluated using Japonese Orthopaedic Association Assessment Scoring System (JOA=29).
RESULTS: Excellent and good postoperative improvement rates were obtained in 75% of the patients. Male gender and preponderance of subjective symptoms over clinical signs were associated with better clinical outcomes and faster return to work. Waiting time for surgery had no consistent effect on the outcome. The need for immediate surgery was questionable in the absence of significant neurological disturbance (JOA for clinical signs >3/6). JOA scoring had predictive value for preoperative assessment for lumbar disc surgery, i.e. preoperative JOA >15 (low initial disability) correlated with poor surgery outcome.
CONCLUSIONS: JOA scoring is easily performed for patients and clinicians, standardizes subjective data and presents high predictive value of patients' outcome after lumbar discectomy

Keywords: Intervertebral disk displacement/surgery; Low back pain; Lumbar vertebrae/pathology


RESUMEN

La selección y la agenda temporal inadecuada de los enfermos permanecen como las causas más importantes de la falta de éxito en la cirugía discal lumbar.
OBJETIVO: este trabajo pretende evaluar los resultados clínicos y los factores predictivos que influyen en el pronóstico de los pacientes sometidos a la discectomía lumbar por medio de un modelo analítico multifatorial.
MÉTODOS: se presenta una serie prospectiva de 68 pacientes con hernias discales lumbares, los cuales fueron sometidos a la discectomía entre 2003 y 2007. El seguimiento promedio fue de 3.9±0.1 años. Los resultados clínicos fueron evaluados utilizando el JOA (Japonese Orthopaedic Association Assessment Scoring System) score (JOA=29).
RESULTADOS: los resultados postoperatorios buenos y excelentes fueron obtenidos en 75% de los pacientes. Enfermos del sexo masculino y la preponderancia de síntomas subjetivos sobre síntomas clínicos estuvieron asociados con los mejores resultados clínicos y con el regreso más precoz a la actividad laboral. El tiempo de espera para la cirugía no influyó en el resultado final. La necesidad de cirugía fue cuestionada en la ausencia de déficits neurológicos significativos (JOA para resultados clínicos >3/6). Un valor JOA preoperatorio > 15 (debilidad inicial baja) está correlacionado con los peores resultados clínicos postoperatorios.
CONCLUSIONES: el JOA score se presenta de fácil aplicación para clínicos y enfermos, uniformiza datos subjetivos y presenta un valor predictivo para los resultados de los pacientes sometidos a la discectomía lumbar.

Descriptores: Desplazamiento del disco intervertebral/cirugía; Dolor de la región lumbar; Vértebras lumbares/patología


 

 

INTRODUÇÃO

Estima-se que entre 60 e 80% da população adulta tenha queixas de lombalgia baixa, 2 e 5% anualmente. A vasta maioria, provavelmente maior do que 90%, recupera-se das queixas lombares sem necessidade de tratamento cirúrgico. Apenas 2 a 3% da população com lombalgia tem hérnia discal lombar e cerca de 1% apresenta compressão de uma raiz1. Na maioria dos casos, as queixas álgicas melhoram espontaneamente com tratamento conservador em 4 a 6 semanas, com períodos de repouso (<5 dias), com a utilização de anti-inflamatórios não-esteroides, exercícios aeróbicos e medidas higieno-dietéticas (incluem alterações de actividade física)2. Quando as queixas álgicas persistem (cerca de 2% dos casos) ou a radiculopatia permanece (10 a 25% dos casos), afigura-se como necessário o tratamento cirúrgico para menos de 0,5% da população3.

O papel da cirurgia no tratamento das hérnias discais lombares sintomáticas tem sido matéria de debate na literatura. Alguns autores defendem que a cirurgia tem um papel puramente paliativo, enquanto outros demonstram que os pacientes submetidos à discectomia lombar apresentam melhores resultados durante o primeiro ano e que se mantêm com o tempo4. Contudo, os maiores benefícios do tratamento cirúrgico, nas hérnias discais lombares sintomáticas, aparentam ser um alívio mais rápido da dor relativa à compressão radicular e uma aceleração da melhoria das alterações neurológicas em relação ao tratamento conservador.

Os exames pré-operatórios podem apresentar dificuldades de interpretação ou resultados falso-negativos/positivos. Sabe-se que 35% dos indivíduos assintomáticos apresentam uma alteração discal na mielografia, tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RMN), sendo que, em 20% dos casos com idade <60 anos, evidencia-se herniação discal5. Complementando os exames com a avaliação de sinais neurológicos ou factores psicológicos, verifica-se melhor correlação com os achados cirúrgicos, e melhoram significativamente as indicações da discectomia6. A electromiografia (EMG) apresenta pouca utilidade a menos que seja detectada uma neuropatia periférica. Por outro lado, estudos prospectivos provaram que os resultados iniciais da EMG não têm significado prognóstico na determinação do resultado da cirurgia discal lombar aos cinco anos de seguimento7.

A selecção e o agendamento temporal inadequados permanecem as causas mais importantes de insucesso da cirurgia discal lombar. Os estudos de avaliação de resultados da cirurgia discal lombar documentam uma taxa de sucesso que varia entre 49 e 90%, quando usados critérios de avaliação adequados2,8-10. Vários autores concluíram que a utilização de um sistema de avaliação objectivo melhora os resultados clínicos após discectomia selectiva11. Embora os factores psicossociológicos sejam reconhecidamente factores preditivos negativos dos resultados da cirurgia discal lombar12, a eficácia dos testes psicológicos requer o preenchimento de longos questionários e/ou a realização de entrevistas exaustivas, que são dificilmente exequíveis na prática clínica diária. Nesta perspectiva, o nosso objectivo foi a avaliação, através de um modelo analítico multifatorial facilmente aplicável, dos resultados clínicos e dos factores preditivos que influenciam o prognóstico a longo termo (>3 anos) dos pacientes submetidos à discectomia lombar seletiva.

 

MÉTODOS

Pacientes e procedimentos cirúrgicos

Oitenta e oito pacientes com hérnias discais lombares (confirmadas por TC ou RMN), cujo tratamento conservador falhou, foram submetidos, pela primeira vez, à discectomia lombar selectiva, no Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, entre 2003 e 2007.

Cinquenta e quatro pacientes eram do sexo masculino e 34 do sexo feminino, com média de idade, na altura da cirurgia, de 39±5 anos (idades entre 19-59 anos).

Vinte (22,7%) dos 88 pacientes não foram possíveis de contactar, resultando num valor total de doentes semelhante ao apresentado em outros estudos5,13, suficiente para avaliação com objectivo de análise estatística. Os restantes 68 doentes foram incluídos no presente estudo.

O tratamento conservador consistiu em breves períodos de repouso (<5 dias), anti-inflamatórios nãoesteroides, fisioterapia e medidas dietéticas. Com o insucesso deste tipo de tratamento ao fim de oito semanas, os pacientes foram inscritos para tratamento cirúrgico.

Doentes com cirurgias lombares anteriores, doenças sistémicas ou outros factores de comorbilidade associados, fumadores ou toxicodependentes não foram incluídos nesta série.

O procedimento cirúrgico utilizado foi a microdiscectomia com laminotomia parcial. A intervenção foi realizada por uma equipa de três cirurgiões da coluna experientes.

O tempo de espera para a cirurgia variou de 3 a 15 meses. L4-L5 foi o espaço envolvido em 49% dos pacientes, L5-S1 em 47% e L3-L4 em 1%. Em 3% dos pacientes, verificou-se envolvimento de mais do que 1 nível.

Seguimento

Um investigador independente avaliou os pacientes prospectivamente, depois de estabelecida a indicação da discectomia. O período de seguimento médio foi de 3,9±0,1 anos (variação de 3 a 5 anos). Quatorze pacientes foram seguidos durante 5 anos, 24 durante 4 anos e 30 durante 3 anos (Tabela 1).

 

 

Os dados clínicos pré-operatórios e os resultados foram avaliados segundo o Japanese Orthopaedic Association Assessment Scoring System (escore JOA - Tabela 2)5, que inclui sintomas subjectivos (9 pontos), sinais clínicos (6 pontos) e restrição das actividades da vida diária (RAQ, 14 pontos). A avaliação da melhoria pós-operatória (IR) resultou do quociente: [(escore JOA pós-op - escore JOA pré-op)/(29 - escore JOA pré-op)] E 100%. O resultado foi classificado como excelente quando IR >80%, bom quando IR entre 65 e 80%, suficiente quando IR entre 50 e 65% e insuficiente quando IR <50%.

Análise multifatorial e análise estatística

Os dados da análise multifatorial incluíram a idade do paciente na altura da cirurgia, sexo, peso, tempo de espera para o procedimento, complicações, retorno à actividade laboral e taxa de melhoria clínica pós-operatória (IR). Foram calculadas as frequências em valor absoluto e percentual para as variáveis contínuas, assim como as médias e os desvios padrões das variáveis discretas.

Os dados foram apresentados como ±S.E.M. para n observações. O significado estatístico das diferenças foi avaliado pela análise da variância (ANOVA) seguida pelo teste t de Dunnett modificado. O valor de p<0,05 foi considerado significativo.

 

RESULTADOS

Resultados pré e pós-operatórios

O valor médio pré-operatório do JOA score foi de 14,8±4,2 para os 88 pacietnes inicialmente incluídos no estudo. Este valor não foi significativamente diferente (p>0,05) do valor do escore JOA dos 68 pacientes restantes que foram contactados (14,5±4,3), indicando portanto que os dois grupos eram homogéneos. Por outro lado, após análise dos registros pós-operatórios dos pacientes (que não foram possíveis de contactar para a entrevista de seguimento), verificou-se que os parâmetros variáveis, como a idade na data da cirurgia (38±5 anos), quociente entre sexos (1,5) e complicações associadas (12%), não foram significativamente diferentes do grupo entrevistado. Praticamente todos os participantes apresentavam lombalgia com radiculopatia associada (58,85%) como sintoma inicial; 9 pacientes (13%) apresentavam somente dor radicular no membro inferior envolvido e 1 paciente (2%) apresentava unicamente lombalgia.

A taxa média de melhoria pós-operatória (IR) após discectomia lombar selectiva foi de 73%, correspondendo a um resultado global médio bom (Figura 1); O valor JOA pós-operatório (25,4±2,8, n=68) foi significativamente (p<0,05) superior ao valor pré-operatório (14,5±4.3, n=68). Como evidenciado na figura 1, a taxa de melhoria geral percentual, quando comparados os escores JOA pré e pós-operatório, foi significativamente superior para sintomas subjectivos, principalmente lombalgia e dor radicular, em relação aos sinais objectivos, nomeadamente alterações sensitivas e motoras, que apresentaram apenas melhorias discretas no pós-operatório. A melhoria das funções sensoriais das fibras nervosas pode demorar mais de um ano, e depende da gravidade da lesão e do diâmetro das fibras nervosas11. Como já foi enfatizado por outros autores14, a melhoria pós-operatória do teste de Lassègue apresenta uma forte correlação com a redução da dor radicular e a melhoria da capacidade da marcha, sugerindo um bom resultado cirúrgico. Apresentaram também francas melhorias na capacidade de realização de actividades quotidianas restritas antes da cirurgia.

 

 

Em relação à taxa IR pós-operatória, 51% dos pacientes apresentaram um resultado excelente (IR=90,1±7,9%, n=36), 24% bom (IR=68,6±2,7%, n=16), 16% suficiente (IR=58,3±3,0%, n=10) e 9% insuficiente (IR=10,5±4,0%, n=6) (Tabela 1). O JOA score apresenta valor preditivo para a decisão pré-operatória para cirurgia discal lombar, uma vez que os resultados insuficientes foram significativamente correlacionados com baixa debilidade pré-operatória, isto é, escore JOA pré-operatório >15 (19,3±2,7) (Figura 2).

 

 

Análise multifatorial

A Tabela 1 sumariza a análise multifatorial dos grupos no fim do período de seguimento. Para identificar factores preditivos relevantes, a quantidade de variáveis relativas à anamnese, assim como ao exame clínico, foram descritas e as diferenças testadas entre os subgrupos. Não foram encontradas diferenças significativas percentuais nos grupos com seguimento de 3, 4 e 5 anos em relação à população total (Tabela 1). Adicionalmente, não houve diferenças significativas nas idades médias na data da cirurgia nestes subgrupos. Os resultados indicaram que o sexo masculino esteve associado a melhores resultados clínicos e a regresso mais célere à actividade laboral. Resultados excelentes estiveram associados a um quociente B&/@& de 6.7, o qual foi significativamente (p<0,05) superior em relação ao quociente B&/@& da população total (1.6).

Outro parâmetro introduzido na análise multifatorial foi o tempo de espera para a cirurgia (Tabela 1); 67% dos doentes foram operados nos primeiros seis meses após a indicação para cirurgia. O atraso para a cirurgia esteve inversamente correlacionado com a intensidade dos sinais clínicos pré-operatórios, isto é, a cirurgia foi mais atrasada nos pacientes com menores défices neurológicos inicialmente (sinais clínicos pré-operatórios >3). Não foi encontrada correlação significativa entre a debilidade subjectiva inicial e o atraso para a cirurgia (dados não publicados). Piores resultados foram alcançados quando o atraso para a cirurgia foi superior a um ano. Contudo, a cirurgia precoce (0-6 meses) também não aumentou significativamente o resultado. Estes dados sugerem que a indicação cronológica ideal para a cirurgia não é previsível por esta abordagem.

Dos 68 entrevistados, 8 foram reoperados durante o período de seguimento. Destes, 7 foram devido a recorrências da hérnia discal no mesmo nível, enquanto um caso foi devido a um erro inicial na identificação do espaço discal afectado. Um doente teve uma infecção tecidular superficial, resolvida com drenagem e antibioterapia dirigida. Não houve quaisquer outras complicações cirúrgicas descritas, tais como lesões durais ou da raiz, síndrome da cauda equina ou espondilólise2. A comparação dos resultados bom e excelente dos subgrupos ao resultado insuficiente revelou uma taxa de reintervenção cirúrgica significativamente superior (p<0,05) no último subgrupo (cerca de 50%) (Tabela 1). Embora a taxa de complicações seja universalmente superior nos grupos com piores resultados, é pertinente realçar que 5 dos 7 casos de recorrência e a infecção superficial ocorreram nos subgrupos com resultados excelente e bom. Destes últimos pacientes, apenas um não voltou à actividade laboral e outro teve de mudar para um trabalho com funções mais leves.

Como era de se esperar, o retorno à prévia actividade laboral foi significativamente superior entre pacientes com resultados bom e excelente, em comparação à reduzida capacidade de trabalho (25%), daqueles que obtiveram resultados piores. Oito dos pacientes acompanhados não regressaram ao trabalho; três deles, com idade superior a 50 anos, reformaram-se, um apresentava concomitantemente uma coxartrose, e outro continuava desempregado no final do estudo. A necessidade de mudar de emprego por incapacidade de execução das funções que exerciam previamente ocorreu com cinco pacientes.

O escore JOA pré-operatório aumentou gradualmente (Figura 3) para cada parâmetro avaliado nos pacientess com resultados bom e excelente, sugerindo que a debilidade inicial alta (score inicial baixo) está positivamente correlacionada com melhores resultados ao final do seguimento. Particularmente, em relação aos sintomas subjectivos (lombalgia, radiculalgia e incapacidade de marcha), estes mostraram valores mínimos nos grupos com melhores resultados em comparação com o grupo com piores resultados, indicando que o escore JOA pré-operatório para sintomas subjectivos correlaciona-se inversamente com o resultado da discectomia lombar. Os resultados levantaram questões acerca da necessidade de cirurgia imediata quando a soma do escore JOA pré-operatório para os sinais clínicos (teste de Lassègue, alterações sensitivas ou motoras) for superior a 3 (isto é, debilidade objectiva inicial baixa), uma vez que, nesta situação, foram obtidos resultados bom e excelente mesmo quando a cirurgia teve um atraso superior a um ano.

 

 

Pela análise multifatorial, as restrições às actividades da vida quotidiana e a preponderância dos sintomas subjectivos sobre os sinais clínicos, foram associados com melhores resultados clínicos.

 

DISCUSSÃO

Em contraste com os resultados de várias publicações sugestivos de que a cirurgia de discectomia lombar é essencialmente paliativa10, a série apresentada demonstra que a microdiscectomia lombar selectiva em pacientes com hérnia discal lombar sem melhoria clínica após 8 semanas de tratamento conservador conduziu a resultados bom e excelente em mais de 75% dos casos. Estes resultados apresentam taxas de sucesso semelhantes às publicadas por outros autores15,16. Os critérios de selecção dos doentes parecem ser determinantes para a obtenção de bons resultados finais. Os critérios de exclusão, na nossa série, incluíram a existência de patologias associadas da coluna lombar, doenças sistémicas, fumadores e toxicodependentes, uma vez que tais factores podem influenciar clinicamente o resultado da discectomia6,12. A idade média dos doentes foi de 40 anos, não influenciando, aparentemente, o prognóstico da discectomia lombar, uma vez que uma idade semelhante foi homogeneamente encontrada entre todos os subgrupos. Similarmente a outras publicações17 o género feminino esteve associado a pior prognóstico.

A utilização da cirurgia como forma de tratamento para hérnia discal lombar varia enormemente entre países. Acredita-se que a razão principal de insucesso seja a má selecção de candidatos à cirurgia. Na literatura, discute-se frequentemente a necessidade de avaliação psicossocial, na tentativa de prever um resultado bom ou ruim, especialmente em pacientes sem indicação formal para a cirurgia.

Doentes com queixas clínicas moderadas, principalmente patologias psíquicas (p. e., hipocondria, histeria, paranoia e esquizofrenia)18, que também têm problemas laborais ou estão a receber subsídios17, apresentam maiores dificuldades de lidar com a patologia e revelam pior satisfação pós-operatória. Estes trabalhos indicam que o uso de sistemas de classificação objectivos reduz a incidência de achados negativos aquando da cirurgia, assim como melhores resultados clínicos após discectomia selectiva. Todos os doentes incluídos na nossa série apresentavam hérnia discal lombar confirmada por tomografia computorizada ou ressonância magnética. A maior parte (85%) teve radiculalgia com défice neurológico associado durante um mínimo de 6 semanas, que se apresentam indicações formais para cirurgia, por outro lado evitando proposição para cirurgia de pacientes com queixas psicossociais não relacionadas a hérnias discais lombares.

Quanto mais elevado o escore JOA pré-operatório (>15), maior a probabilidade de o paciente obter um pior resultado. A eficácia da previsão dos resultados ruins é significativamente aumentada se o somatório do escore JOA pré-operatório, para sinais objectivos, for superior a 3. Este facto deve questionar a necessidade de cirurgia imediata em doentes com queixas neurológicas escassas. Embora a maioria dos doentes tenham ocasionalmente tido, após a cirurgia, lombalgia ou radiculalgia, a descrição da sua capacidade de marcha foi praticamente normal, e a maioria tolerou bem estes sintomas de intensidade moderada. Outro ponto de interesse reflecte-se na capacidade de realização de actividades da vida quotidiana, que também podem estar relacionadas com fenómenos psicossociais. Paralelamente aos nossos achados, a avaliação prévia de questionários subjectivos mostrou que uma debilidade inicial baixa correlaciona-se negativamente com o resultado final17,19.

A nossa série demonstra também claramente que o atraso da cirurgia superior a um ano correlaciona-se com piores resultados. Contudo, a cirurgia precoce (0-6 meses) também não melhorou o prognóstico dado, tendo sido encontrada uma distribuição percentual semelhante entre todos os grupos quando comparados à população total. Alguns autores sugerem melhores resultados nos pacientes operados imediatamente após indicação formal20,21. O atraso da cirurgia pode agravar problemas laborais ou de subsídios, o que, em última análise, aumentará a insatisfação. É de realçar que, nesta série, 20 dos 23 pacientes cuja cirurgia sofreu um atraso superior a 6 meses tenham obtido excelentes ou bons resultados clínicos. A percentagem de pacientes que regressaram ao trabalho anterior foi notavelmente relacionada com a taxa de melhoria percentual calculada a partir do ecore clínico JOA pré e pós-operatório, reforçando o valor objectivo deste sistema de avaliação na previsão da posterior capacidade laboral.

A taxa de nova intervenção (11,7%) foi semelhante à encontrada noutras publicações22,23. Embora a percentagem de complicações fosse inversamente correlacionada com a melhoria da situação (Tabela 1), os resultados indicam igualmente que a sua frequência não justifica piores resultados, uma vez que 5 das 7 recidivas, assim como a infecção superficial, ocorreram nos grupos com resultados bons e excelentes. Estes dados apontam que outras variáveis, para além das complicações, devem ser consideradas para justificar resultados pobres das discectomias lombares. Adicionalmente, estes achados sugerem que as recidivas não afectam o prognóstico a longo prazo, embora seja necessária uma nova intervenção cirúrgica.

 

CONCLUSÃO

Os resultados desta análise multifatorial sugerem que o uso clínico do escore JOA é facilmente exequível a clínicos e pacientes. Permite uniformizar dados subjectivos e apresenta elevado valor preditivo dos resultados da discectomia lombar.

 

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Correspondência:
Paulo Jorge da Rocha Carvalho
Serviço de Ortopedia e Traumatologia
Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia
Rua Dr. Francisco Sá Carneiro
4400-129 Vila Nova de Gaia - Portugal
E-mail: pjrcarvalho@gmail.com

Recebido: 19/5/2009
Aprovado: 25/2/2010

 

 

Trabalho realizado no Serviço de Ortopedia e Traumatologia, Centro Hospitalar VN Gaia, Espinho EPE, Vila Nova de Gaia, Portugal.