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Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

Print version ISSN 1808-8694On-line version ISSN 1808-8686

Braz. j. otorhinolaryngol. (Impr.) vol.75 no.3 São Paulo May/June 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1808-86942009000300010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Otomicoses: um estudo retrospectivo

 

 

Zélia Braz Vieira da Silva PontesI; Anna Débora Ferreira SilvaII; Edeltrudes de Oliveira LimaIII; Márcio de Holanda GuerraIV; Neuza Maria Cavalcanti OliveiraV; Maria de Fátima Farias Peixoto CarvalhoVI; Felipe Sarmento Queiroga GuerraVII

IDoutor, Professor
IIFarmacêutica Bioquímica
IIIDoutora, Professora
IVEspecialista, Médico
VMestre, Farmacêutica Bioquímica
VIEspecialista, Farmacêutica Bioquímica
VIIFarmacêutico, Acadêmico de Análises Clínicas

 

 


RESUMO

Otomicose é uma infecção fúngica do conduto auditivo externo com poucos estudos sobre sua real frequência no Brasil.
OBJETIVO: Avaliar a frequência e características das otomicoses em pacientes com suspeita clínica de otite externa.
DESENHO DO ESTUDO: Estudo retrospectivo com corte transversal (2000-2006).
MATERIAL E MÉTODOS: 103 pacientes foram atendidos para diagnóstico micológico (exame microscópico direto e cultivo).
RESULTADOS: Otomicoses foram diagnosticadas em 19,4% dos pacientes. A idade desses pacientes variou de 2 a 66 anos (média de 23,5 anos) e 60% das otomicoses foram observadas em mulheres entre 2 a 20 anos de idade. Otite crônica, antibioticoterapia prévia e ausência de cerume foram os fatores predisponentes e prurido otológico, otalgia, otorreia e hipoacusia os sintomas relatados pelos pacientes. As espécies mais frequentemente isoladas foram C. albicans (30%), C. parapsilosis (20%), A. niger (20%), A. flavus (10%), A. fumigatus (5%), C. tropicalis (5%), Trichosporon asahii (5%) e Scedosporium apiospermum (5%).
CONCLUSÃO: Otomicose é endêmica em João Pessoa - PB. O acompanhamento clínico e o diagnóstico micológico são importantes uma vez que a sintomatologia de otomicose não é específica.

Palavras-chave: aspergillus, candida, otite externa.


 

 

INTRODUÇÃO

Estima-se que as otites externas constituam 5 a 20% das consultas otológicas, sendo a maioria causada por bactérias, e destas 9 a 25% são causadas por fungos e denominada otite fúngica ou otomicose1,2. É uma infecção que afeta o epitélio escamoso do conduto auditivo externo, caracterizada por prurido, ocasionalmente otalgia e hipoacusia3,4.

Fatores predisponentes como falha nos mecanismos defensivos (alteração do epitélio de revestimento, mudanças de pH, modificação qualitativa e quantitativa do cerume), a presença de infecção bacteriana, o uso de aparelhos de amplificação sonora individual ou prótese auditiva, trauma autoinduzido (uso de bastonetes para a limpeza do ouvido), natação, antibioticoterapia de amplo espectro, uso de corticoides e citostáticos, neoplasias, alterações imunitárias ou enfermidades debilitantes podem tornar o hospedeiro susceptível ao desenvolvimento da otomicose2,5,6.

Após exame clínico (otoscopia e biomicroscopia) é possível confirmar o diagnóstico através dos exames micológicos. As espécies dos gêneros Aspergillus e Candida são as mais implicadas. Estes fungos são de caráter oportunista e geralmente de patogenicidade variada, fazendo parte da microbiota normal de partes do corpo7,8.

As recomendações de tratamento vão desde a eliminação ou controle dos fatores predisponentes, ao debridamento local (microaspiração) e/ou ao uso de antimicrobianos (tópicos/sistêmicos)9,10.

Apesar de a otomicose ser uma patologia de distribuição mundial, poucos são os estudos sobre a sua real frequência no Brasil4,11-13, particularmente em João Pessoa-PB. Este trabalho tem como objetivo avaliar os sintomas e a frequência de otomicoses, em pacientes encaminhados ao Laboratório de Micologia para diagnóstico micológico.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O estudo retrospectivo, do tipo descritivo com análise quantitativa, foi realizado no período de janeiro de 2000 a dezembro de 2006 a partir de registros do Laboratório de Micologia do Departamento de Ciências Farmacêuticas com aprovação (0019/08) do Comitê de Bioética do Centro de Ciências da Saúde de uma Instituição de Ensino Superior Federal. Neste período foram atendidos 103 pacientes com suspeita clínica de otite externa, provenientes do Ambulatório de Otorrinolaringologia de um Hospital Universitário na cidade de João Pessoa-PB.

O procedimento de coleta do material biológico foi inócuo, não implicando riscos aos pacientes. Considerando o ouvido interno e médio estéreis e que o externo contém microbiota comensal cutânea, antes da coleta foi realizado uma limpeza do conduto auditivo com swab estéril umedecido. No caso de secreção, usou-se o swab estéril para coleta e as escamas de pele foram coletadas com o auxilio de alça estéril.

As amostras foram processadas através de exame microscópico direto (KOH 20% Quink Parker 51 permanente (2:1)14 e cultura em ágar Sabouraud dextrose com cloranfenicol (0,05 mg/mL). Os cultivos foram incubados a 25-37ºC com observação semanal durante 30 dias.

Os isolados com características morfológicas de leveduras foram identificados segundo os critérios de Lodder (1971)15 pela produção de tubo germinativo, hidrólise a ureia, formação de pseudofilamentação e de clamidoconídios e assimilação e fermentação de carboidratos. Os isolados com características de fungos filamentosos foram identificados baseados no critério de Hoog e Guarro (1999)16 pelo microcultivo.

 

RESULTADOS

Um total de 103 pacientes foi encaminhado para diagnóstico micológico de otomicose, com média de 12,7 requisições por ano. Em 19,4% dos pacientes o diagnóstico clínico de otomicose foi confirmando pelo exame microscópico direto e cultivos positivos repetidos.

A idade dos 20 pacientes variou de 2 a 66 anos (média de 23,5 anos de idade) estando 60% deles entre 2 a 20 anos e pertenciam ao sexo feminino (Tabela I).

Foi observado 40% de infecções bilaterais e 57% no ouvido direito. Otite crônica (30%), antibioticoterapia prévia (30%), ausência de cerume (20%) e manipulação do conduto auditivo (15%) foram os fatores predisponentes mais relevantes e os sinais clínicos mais relatados foram prurido (60%), otalgia (45%), otorreia (30%) e hipoacusia (30%) (múltipla resposta).

Como agentes etiológicos destes casos de otomicoses o gênero Candida foi mais frequente (55%), seguido de Aspergillus (35%), Trichosporon (5%) e Scedosporium (5%). Das espécies identificadas 30% foram C. albicans, 20% C. parapsilosis, 20% A. niger, 10% A. flavus, 5% A. fumigatus, 5% C. tropicalis, 5% T. asahii e 5% S. apiospermum (Tabela I).

 

DISCUSSÃO

Otomicose alcança frequências elevadas em países de clima tropical, devido umidade e calor2,17-19. Em São Paulo - SP, Brasil de 736 casos de otite, 2,7% corresponderam a otomicoses20. No entanto, poucos são os estudos de otomicose no Brasil4,11-13. Em João Pessoa - PB, Brasil, de 103 pacientes com suspeita clínica de otite externa em 19,4% foram diagnosticados otomicose.

Usualmente, otomicose pode ser diagnosticada por exame clínico; no entanto, é requerido alto índice de suposição, cujo sintoma mais frequente é inicialmente prurido e nas fases mais avançadas relata-se otalgia, otorreia e/ou hipoacusia7,10,21. No entanto, neste estudo o diagnóstico foi baseado na sintomatologia e exames laboratoriais, sendo o prurido, otalgia, otorreia e/ou hipoacusia os sintomas mais relatados pelos pacientes. Estes sintomas podem ser atribuídos a fatores como a alta umidade e calor registrados em João Pessoa, bem como a ausência de cerume por lavagem do conduto auditivo externo e/ou manipulação do mesmo relatada pelos pacientes, sem esquecer que a maioria dos pacientes apresentava baixo status socioeconômico.

A frequência de otomicoses bilateral é muito baixa4,7,17. Ho et al.10 observaram comprometimento bilateral em 7% dos pacientes, enquanto que neste estudo foi de 20%.

As mulheres (60%) deste estudo foram mais acometidas por otomicose, dados próximos aos observados por Zaror et al.4 (65%). No entanto, estes dados discordam com os achados de Kaur et al.,7, Ho et al.10 e Yenia et al.17 que observaram respectivamente 60%, 56% e 52,5% em pacientes do sexo masculino. A otomicose foi observada em pacientes com idade entre 2 a 66 anos. Contudo, 50% dos casos foram diagnosticados nos pacientes na faixa etária de 2 a 15 anos de idade. Frequências de 70% a 41,1% foram observadas em pacientes na faixa etária de 16 a 30 anos de idade4,7,17.

Espécies de Aspergillus e Candida são as mais comumente identificadas como patógenas de otomicose. Estudos observaram uma maior frequência de espécies de Aspergillus (A. niger, A. fumigatus, A. flavus e/ou Aspergillus spp.) como agentes de otomicose7,17,18,22-25. Jaiswal et al.26 e Navarrete et al.21 observaram respectivamente 46% e 35% por Candida spp. Em São Paulo, como agentes de otomicose foram 75% espécies de Aspergillus e 20% de Candida4. Os dados observados neste estudo foram de 55% dos isolados de espécies de Candida (C. albicans, C. parapsilosis e C. tropicalis) e 35% de Aspergillus (A. niger, A. flavus e A. fumigatus).

T. asahii e S. apiospermum foram também identificadas como agentes destes casos de otomicose. Reiersöl27 relatou o primeiro caso de otomicose por T.cutaneum. O gênero Scedosporium compreende um grupo de fungos filamentosos isolados de água, solo, água estagnada ou poluída em todo mundo. Duas espécies causam infecção humana: S. apiospermum (anamorfo assexual de Pseudoallescheria boydii) e S. prolificans (S. inflatum). Considerados infrequentes, mas importantes como patógenos humano, principalmente em pacientes imunocompromentidos28,29.

Uma revisão de cinco casos no Norte Britânico incluiu 3 pacientes com otite que tiveram cultura polimicrobiana, incluindo P. boydii28. Yao e Messer30 diagnosticaram otite externa maligna por Scedosporium apiospermum em paciente com AIDS. Em pacientes imunocompetentes o fungo acomete os tecidos, ossos ou infecção de articulações após traumatismo. Otite média e externa por S. apiospermum foi diagnosticada em menino imunocompetente (oito anos de idade)31 e em mulher imunocompetente (62 anos de idade) que apresentou sintomas de otorreia e otomastoidite crônica32. Neste estudo, S. apiospermum foi isolado do conduto auditivo externo esquerdo de menino com cinco anos de idade e imunocompetente.

 

CONCLUSÃO

A otomicose é, efetivamente, uma doença endêmica em João Pessoa-PB, cidade de clima tropical.O acompanhamento clínico e o diagnóstico micológico são importantes uma vez que a sintomatologia (prurido, otalgia, otorreia e hipoacusia) não é específica.

 

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Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da BJORL em 29 de dezembro de 2007. cod. 5652
Artigo aceito em 23 de junho de 2008

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