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Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

versão impressa ISSN 1808-8694

Braz. j. otorhinolaryngol. (Impr.) vol.77 no.1 São Paulo jan./fev. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1808-86942011000100003 

ORIGINAL ARTICLE

 

Perfil etiológico dos pacientes implantados do Programa de Implante Coclear

 

 

Clara Maria Dias Ferreira CalháuI; Luiz Rodolpho Penna Lima JúniorII; Ana Maria da Costa dos Santos ReisIII; Ana Karla Bigois CapistranoIV; Danielle do Vale Silva Penna LimaV; Ana Carolina Dias Ferreira CalháuVI; Fábio de Alencar Rodrigues JúniorVII

IEspecialista em otorrinolaringologia, Professora titular de Otorrinolaringologia da Universidade Potiguar
IIEspecialista em otorrinolaringologia, Chefe do programa de implante coclear de Natal
IIIFga. Mestrado em Administração pela Universidade Potiguar, Diretora do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Potiguar
IVFga. Especialista em Audiologia e Motricidade Oral, Professora de Audiologia da Universidade Potiguar
VFga. Especialista em Audiologia, Fga. do programa de implante coclear de Natal
VIGraduanda, Discente do curso de Medicina da Universidade Potiguar
VIIGraduando, Discente do curso de Medicina da Universidade Potiguar

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Averiguar os principais agentes etiológicos que causaram a surdez nessa população em estudo é de grande relevância para o prognóstico do tratamento e serve de amostragem para futuras ações de saúde pública.
OBJETIVO: Verificar as diferentes etiologias da deficiência auditiva dos pacientes implantados do programa de implante coclear; realizar o levantamento das etiologias encontradas; correlacionar a etiologia com a idade.
MATERIAL E MÉTODO: Estudo de coorte histórico longitudinal com base na análise de 200 prontuários dos pacientes submetidos à cirurgia de Implante Coclear, realizada no período de agosto de 2000 a maio de 2008. Os dados coletados foram referentes a: idade, sexo, estado de origem, etiologia da deficiência auditiva.
RESULTADOS E CONCLUSÃO: Pode-se afirmar que a etiologia desconhecida continua prevalecendo, o que indica a necessidade da realização de estudos genéticos nos casos de surdez neurossensorial congênita sem causa aparente com objetivo de chegar a um real perfil etiológico. A rubéola foi a segunda causa mais encontrada e para essa etiologia já existem medidas preventivas igualmente à meningite. Mesmo assim as incidências dessas patologias continuam altas. Na correlação entre as diferentes etiologias e faixas etárias, constatamos etiologias variadas principalmente na comparação de crianças; adultos jovens; adultos e idosos.

Palavras-chave: diagnóstico, implante coclear, perda auditiva.


 

 

INTRODUÇÃO

A deficiência auditiva é uma das patologias que mais incapacitam o indivíduo com relação à comunicação, interferindo em diversos aspectos de sua vida: emocional, social, psicológico e intelectual.

Dados da American Academy of Pediatrics (AAP - 1999) sustentam que a surdez está presente em 1 a 3 de cada 100 recém-nascidos saudáveis, e em 2 a 4 de cada 100 lactentes em acompanhamento em unidade de terapia intensiva neonatal. Em 28 de setembro de 2004 foi publicada a Portaria nº 2.073/GM, que dispõe sobre a saúde auditiva, afirmando que a deficiência auditiva é um problema de saúde pública que necessita de medidas governamentais de implementação, avaliação e controle da atenção à pessoa portadora dessa deficiência.

Averiguar os principais agentes etiológicos que causaram a surdez nessa população em estudo é de grande relevância para o prognóstico do tratamento, e serve de amostragem para futuras ações de saúde pública.

O objetivo deste trabalho foi verificar as diferentes etiologias da deficiência auditiva dos pacientes implantados do Programa de Implante Coclear, realizar o levantamento das etiologias encontradas e correlacionar a etiologia com a idade.

 

MATERIAL E MÉTODO

Realizou-se um estudo de coorte histórico longitudinal, com base na análise de 200 prontuários dos pacientes submetidos à cirurgia de implante coclear, no período de agosto de 2000 a maio de 2008. Os dados coletados foram referentes à idade, ao sexo, ao estado de origem e à etiologia da deficiência auditiva. Além disso, foram tabulados e analisados. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética, CAAE, 0209.0.052.000-09.

 

RESULTADOS

A faixa etária dos pacientes que participaram deste estudo compreendeu as idades de 1 a 73 anos, sendo que a maior parte se encontra entre 3 e 4 anos, como descrito na Figura 1.

 

 

Com relação à distribuição por sexo, foi observada uma prevalência de pacientes do sexo masculino (62,5%), como observado na Figura 2.

 

 

Dos 200 pacientes implantados, 68 provieram do Rio Grande do Norte, 41 de Brasília, 22 de Pernambuco e 19 do Ceará. No entanto, houve pacientes oriundos de todas as regiões do Brasil, conforme consta na Figura 3.

 

 

Nos 200 prontuários analisados, a etiologia mais encontrada foi a desconhecida (40%), seguida da rubéola materna (11%), genética (10%) e prematuridade (9%), como observado na Figura 4.

 

 

Na faixa etária entre 21 anos e 1 mês e 30 anos, o traumatismo crânio-encefálico (TCE) foi a patologia mais encontrada, como observado na Figura 5.

 

 

Na faixa etária entre 40 anos e 1 mês e 50 anos, a etiologia mais encontrada foi o traumatismo crânio-encefálico, totalizando 50% dos casos, como observado na Figura 6.

 

 

Na faixa etária entre 30 anos e 1 mês e 40 anos, a etiologia desconhecida foi a mais encontrada, como observado na Figura 7.

 

 

Na faixa etária entre 70 anos e 1 mês e 80 anos, encontramos 100% de etiologia desconhecida, como mostra a Figura 8.

 

 

Na faixa etária entre 1 ano e 2 anos de idade, observamos que a etiologia desconhecida foi a predominante, segundo consta na Figura 9.

 

 

Na faixa etária entre 2 anos e 1 mês e 3 anos, a etiologia desconhecida foi a mais encontrada, seguida da hipóxia perinatal, como observado na Figura 10.

 

 

Na faixa etária entre 3 anos e 1 mês e 4 anos, a etiologia desconhecida continua mantendo-se como a mais encontrada (55%). Nesse grupo etário foi observado o maior número de pacientes implantados, como descrito na Figura 11.

 

 

Na faixa etária entre 4 anos e 1 mês e 5 anos, a etiologia desconhecida permanece como a de maior incidência, com 37%, seguida da prematuridade, com 21%, como mostra a Figura 12.

 

 

Na faixa etária entre 5 anos e 1 mês e 12 anos, a etiologia mais encontrada foi a desconhecida, seguida da meningite, como observado na Figura 13.

 

 

Na faixa etária entre 50 anos e 1 mês e 60 anos, a causa desconhecida foi também a preponderante, com 40%, seguida da otosclerose, como observado na Figura 14.

 

 

Na faixa etária entre 60 anos e 1 mês e 70 anos, a etiologia desconhecida também foi a mais encontrada, em 50% dos casos, seguida da causa genética, do ototóxico e da otite média crônica (OMC), como observado na Figura 15.

 

 

Na faixa etária entre 12 anos e 1 mês e 18 anos, as etiologias encontradas foram rubéola e meningite, na mesma proporção, como observado na Figura 16.

 

 

Na faixa etária entre 18 anos e 1 mês e 21 anos, a etiologia mais encontrada foi a meningite, com 67%, conforme a Figura 17.

 

 

DISCUSSÃO

Na pesquisa realizada, foram analisados 200 prontuários do Programa de Implante Coclear, no período de agosto de 2000 a maio de 2008, compreendendo a faixa etária de 1 ano a 73 anos (Figura 1), sendo 125 do sexo masculino (62,5%) e 75 do sexo feminino (37,5%), o que coincide com os achados de estudos nacionais e internacionais1-3 (Figura 2).

Os sujeitos são oriundos de todas as regiões do Brasil, com representantes de 19 estados (Figura 3). O diagnóstico etiológico foi obtido por meio de anamnese realizada com os pais, familiares e os próprios pacientes nos casos dos adultos jovens e idosos.

Foram abordados aspectos relevantes, tais como: intercorrências durante a gestação, até o parto e o pós-parto, fatores hereditários ou concernentes à história da doença atual. Entre os 200 prontuários analisados, encontramos 19 etiologias para a perda auditiva (Figura 4).

Mesmo com uma minuciosa anamnese, a causa mais encontrada em nosso estudo foi a desconhecida, com 40% entre os 200 prontuários, corroborando pesquisas anteriores: 44%4; 40,7%2; 37,5%5; 37,31%6; 36,6%1; 34,3%7; 32%8 e 31,9%9.

O segundo fator mais encontrado foi a rubéola materna, com 11%, diferente dos achados das pesquisas citadas anteriormente, nos quais a rubéola materna ocupou várias posições, exceto no estudo2 e na pesquisa10 realizados em São Caetano do Sul, numa escola especializada para deficientes auditivos.

Nesse caso, foi observada a mesma ordem do presente estudo no tocante à incidência: a etiologia desconhecida em primeiro lugar e a rubéola materna em segundo. Em terceiro lugar encontramos a etiologia genética, em 10% dos prontuários analisados. Em todos eles existiam outros casos relatados de perda auditiva na família, sendo que esse achado difere dos trabalhos1,6,8,9 onde a etiologia genética foi a segunda causa mais encontrada.

A prematuridade (que é uma situação multifatorial) foi a quarta etiologia mais encontrada da nossa pesquisa, com 9%, igualando-se ao estudo11 realizado em Salvador, numa instituição especial para deficientes auditivos.

A meningite bacteriana foi a quinta etiologia mais encontrada, com 7,5%. Porém, como observado em estudos anteriores1,8,12,13, entre as causas adquiridas é a que tem o maior número de casos.

A hipoxia perinatal apareceu como sexta etiologia mais encontrada, com 7,5% dos casos, como referido em vários estudos nacionais2,8,12,14. No entanto, em alguns estudos internacionais9,7,13, aparece como a terceira causa mais encontrada, sendo que em um destes4 aparece como o segundo fator de maior incidência.

O uso de medicamentos ototóxicos ocupou a sétima posição, com 4%, igualando-se a alguns estudos6,8.

Na oitava posição encontramos o traumatismo crânio-encefálico (TCE), com 3,5%, que em nosso estudo foi a etiologia mais observada na faixa etária entre 21 anos e 1 mês e 30 anos, com 40% (Figura 5), e na faixa etária entre 40 anos e 1 mês e 50 anos, com 50% dos casos (Figura 6).

Na nona posição encontramos o citomegalovírus, com 1,5%, cujo número de casos ultrapassa o constante em alguns estudos7,8,10 e permanece aquém do encontrado num determinado estudo13.

Na faixa etária entre 30 anos e 1 mês e 40 anos, a etiologia desconhecida foi a mais encontrada, com 60% dos casos (Figura 7).

Na faixa etária entre 70 anos e 1 mês e 80 anos, encontramos a etiologia desconhecida, com 100% dos casos (Figura 8). Dos 200 prontuários analisados, encontramos 1% da Síndrome de Waardenburg e 1% da Síndrome do Aqueduto Vestibular Alargado. Outras etiologias apareceram com 0,5%, tais como: má-formação coclear, caxumba (abaixo do número de casos encontrado no estudo10), Síndrome de Usher, otosclerose, otite média crônica (OMC), hiperbilirrubinemia (bem abaixo do que em determinado estudo10), consanguinidade (apresenta 2,5% num estudo específico10) e desnutrição intrauterina.

Quando foi analisada a etiologia de acordo com a faixa etária, observamos que a etiologia desconhecida foi a mais encontrada na faixa etária entre 1 ano e 12 anos de idade, segundo as Figuras 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15.

Na faixa etária entre 12 anos e 1 mês e 18 anos, não houve predomínio das patologias encontradas (Figura 16). Contudo, na faixa etária entre 18 anos e 1 mês e 21 anos a patologia mais encontrada foi a meningite, com 67% (Figura 17).

Foi observado que, no adulto jovem e no idoso, as etiologias mais encontradas são as adquiridas.

 

CONCLUSÃO

De acordo com os resultados obtidos, pode-se afirmar que a etiologia desconhecida continua prevalecendo, o que indica a necessidade da realização de estudos genéticos, nos casos de perda auditiva neurossensorial congênita sem causa aparente, com o objetivo de chegar a um real perfil etiológico.

A rubéola foi a segunda causa mais encontrada, e para essa etiologia já existem medidas preventivas, à semelhança da meningite. Mesmo assim, as incidências dessas patologias continuam altas. Diante deste fato, sugerem-se estudos que abordem o conhecimento, o acesso e a efetividade dessas ações preventivas.

Na correlação entre as diferentes etiologias e faixas etárias, constatamos etiologias variadas, principalmente na comparação entre crianças e adultos jovens e entre adultos e idosos. Como se nota em algumas faixas etárias, os hábitos de vida influenciaram esse resultado. Nos adultos jovens, por exemplo, o TCE foi mais encontrado.

 

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Endereço para correspondência:
Rua Dr. José Gonçalves 1963
Lagoa Nova 59056-570

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da BJORL em 31 de janeiro de 2010. cod. 6914
Artigo aceito em 5 de maio de 2010.

 

 

Hospital do Coração de Natal.

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