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Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

Print version ISSN 1808-8694

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.78 no.4 São Paulo July/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1808-86942012000400004 

ORIGINAL ARTICLE

 

Efeito da estimulação acústica nas habilidades do processamento temporal em idosos antes e após a protetização auditiva

 

 

Maria Madalena Canina PinheiroI; Karin Ziliotto DiasII; Liliane Desgualdo PereiraIII

IDoutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação Humana da Universidade Federal de São Paulo (Professora Adjunta do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Catarina)
IIDoutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação Humana da Universidade Federal de São Paulo (Professora colaboradora do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de São Paulo. Diretora do NESF - Núcleo de Estudos Fonoaudiológicos)
IIILivre Docente e Doutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação Humana da Universidade Federal de São Paulo (Professora Doutora Associada e Livre Docente do Departamento de Fonoadiologia da Universidade Federal de São Paulo)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O envelhecimento pode ocasionar alterações no processamento temporal, afetando a percepção da fala.
OBJETIVO: Comparar as respostas auditivas do processamento temporal em idosos candidatos e novos usuários de próteses auditivas.
MATERIAL E MÉTODO: Participaram do estudo 60 idosos com perda auditiva neurossensorial bilateral. Os procedimentos selecionados foram o Teste Padrão de Duração e Teste de Detecção de gaps no Ruído (GIN), no qual foram analisadas as respostas de identificação correta e o limar de acuidade temporal antes e após a adaptação das próteses auditivas. Forma de Estudo: Pesquisa clínica e experimental com amostra não probabilística por conveniência.
RESULTADOS: Os idosos usuários de prótese auditiva apresentaram menor limiar de acuidade temporal, maior reconhecimento de gaps e de discriminação do padrão de duração em relação ao momento em que eram candidatos.
CONCLUSÃO: Houve deterioração das habilidades do processamento temporal, independentemente do grau da perda auditiva. O efeito de estimulação acústica pelo uso de prótese auditiva melhorou as habilidades de ordenação e resolução temporal.

Palavras-chave: audição, idoso, percepção auditiva, testes auditivos.


 

 

INTRODUÇÃO

A presbiacusia é a perda auditiva relacionada ao processo do envelhecimento, que se caracteriza por uma perda auditiva neurossensorial bilateral, com configuração descendente e acarreta sérios problemas, tanto na comunicação quanto na sociabilização dos idosos1.

Os indivíduos com presbiacusia apresentam dificuldade para discriminar pistas acústicas, que auxiliam na compreensão da fala, especialmente em ambientes acusticamente desfavoráveis2-4. Além dos agravos no sistema auditivo periférico, decorrentes do envelhecimento, as vias auditivas do sistema nervoso central são acometidas, ocasionando dificuldades na decodificação fonêmica, transmissão inter-hemisférica e codificação dos estímulos verbais e não verbais5-8. Uma vez que o envelhecimento afeta o processamento neurológico da informação auditiva, a imagem mental do evento acústico processada pelo idoso será de má qualidade, com manifestações de inabilidades auditivas.

Vários trabalhos trazem evidências de que, entre as habilidades do processamento auditivo, as do processamento temporal são as mais afetadas pelo processo de envelhecimento9-13.

A função do processamento temporal na fala é a discriminação de pistas sutis e de palavras semelhantes. O processamento temporal compreende os aspectos de resolução temporal, mascaramento temporal, integração temporal e ordenação temporal14.

A habilidade auditiva de resolução temporal é importante para a compreensão da fala humana, sendo um pré-requisito para a leitura13,15. Os seres humanos são capazes de detectar gaps com intervalos de 2 a 3 ms apresentados monoauralmente, sendo os neurônios do córtex auditivo responsáveis pela detecção do limiar de acuidade temporal16. Esta habilidade envolve a capacidade de detectar intervalos de silêncios entre sons consecutivos9,10,17 e pode ser avaliada por meio dos testes de detecção de gaps5,18. O teste de detecção de gaps no ruído (GIN) tem sido recomendado nas pesquisas atuais como um instrumento precursor para avaliar a habilidade auditiva de resolução temporal em crianças, adultos jovens e idosos18-21.

A habilidade auditiva de ordenação temporal envolve a participação de vários processos perceptuais e cognitivos22, além da estimulação dos hemisférios direito e esquerdo e as vias inter-hemisféricas, pois o indivíduo deve, primeiramente, reconhecer e discriminar dois ou mais sons em sua ordem de ocorrência no tempo e, após, nomear o padrão do estímulo23.

Esta habilidade pode ser analisada por meio de testes que envolvam o reconhecimento do padrão temporal de tons puros, como o Teste Padrão de Duração (TPD), o qual é considerado um instrumento sensível para identificar lesões do sistema SNAC, bem como não sofre interferência da perda auditiva periférica23,24.

A melhora no reconhecimento da fala pelo uso da prótese auditiva costuma surgir entre seis a 12 semanas após o uso da amplificação, período denominado de aclimatização25, porém, as mudanças podem não ocorrer nos idosos com alteração das habilidades auditivas do processamento auditivo, em especial, dos aspectos temporais relacionados à frequência, intensidade e duração do estímulo sonoro26.

A aplicação da tecnologia digital e o avanço do processamento do sinal têm trazido grandes benefícios na comunicação dos pacientes com presbiacusia. A presença de microfones direcionais, supressores de ruído e a amplificação não linear melhoraram consideravelmente a inteligibilidade do sinal na presença de ruídos competitivos27. No entanto, ainda há poucas evidências de melhora nas habilidades auditivas relacionadas aos aspectos temporais pela exposição à amplificação sonora.

Com este estudo, espera-se ampliar o conhecimento dos efeitos da aclimatização no processamento neurológico da audição, por meio da aplicação de testes comportamentais do processamento auditivo em idosos candidatos e usuários de próteses auditivas.

Desta forma, o objetivo do presente estudo foi verificar e comparar as respostas do processamento temporal em idosos candidatos e usuários de próteses auditivas, além de analisar se a escolaridade e idade influenciam nas habilidades do processamento temporal.

 

MATERIAL E MÉTODO

Este estudo caracterizou-se por ser uma pesquisa experimental com amostra não probabilística por conveniência.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa em Seres Humanos da instituição, sob o protocolo de número CEP 1953/08. Todos os sujeitos incluídos na pesquisa assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido autorizando a sua participação voluntária no estudo.

Os participantes desta pesquisa foram selecionados entre os pacientes idosos atendidos no NIAPEA, candidatos à seleção e adaptação de prótese, conforme os critérios da Portaria Atenção à Saúde Auditiva-nº 587, de 07/10/200428.

Foram considerados idosos os indivíduos com idade superior a 60 anos, com base no Estatuto Nacional do Idoso29, que preconiza essa faixa etária como início da terceira idade.

A amostra inicial foi composta por 65 idosos, com faixa etária entre 61 e 85 anos. Durante as avaliações, dois pacientes foram excluídos da amostra por apresentarem, no dia da avaliação, alterações condutivas e três optaram por não participar do estudo por dificuldade de realizar avaliações longitudinais. A amostra final foi composta por 60 idosos, sendo 20 do sexo masculino e 40 do sexo feminino. Os indivíduos foram reunidos em dois grupos, denominados de Grupo I (GI) e Grupo II (GII), baseados no grau da média das frequências sonoras de 500 a 4000 Hz do audiograma. No GI, os indivíduos apresentavam média de 41 a 50 dBNA na faixa de frequências de 500 a 4000 Hz e, no GII, a média variou de 51 a 70 dBNA.

Os indivíduos incluídos na amostra deveriam apresentar os seguintes critérios: ausência de evidências de alterações neurológicas que impedissem a compreensão das tarefas solicitadas, ter o português falado no Brasil como língua materna, apresentar perda auditiva neurossensorial bilateral simétrica com limiares de audibilidade de 41 a 70 dBNA na faixa de frequência de 500 a 4000 Hz, curvas timpanométricas do tipo A bilateralmente30 e ser novo usuário de próteses auditivas intra-aurais sem nenhuma experiência anterior de audibilidade.

Os dois grupos participantes foram avaliados com os procedimentos selecionados para este estudo em dois momentos. O primeiro momento foi antes da adaptação da prótese auditiva, denominado de Primeira Avaliação. O segundo momento foi após um tempo de uso efetivo da prótese auditiva, denominado de Reavaliação. Para garantir que a prótese auditiva estava sendo utilizada, foram agendados acompanhamentos, entre a Primeira Avaliação e a Reavaliação, com um profissional da instituição responsável por verificar a adaptação da prótese auditiva desses pacientes.

A avaliação do processamento temporal consistiu na realização do teste padrão de duração (TPD) e teste de detecção de gap no ruído (GIN). Os testes temporais foram aplicados em dois momentos: na primeira avaliação, antes da seleção e adaptação das próteses auditivas, e, na segunda, após no mínimo três meses de uso dessas próteses.

A função medida com o TPD23 é a discriminação de padrões sonoros. O estímulo do teste são três tons de 1000 Hz, compostos por 30 sequências, sendo que cada sequência contém três tons com diferenças na duração do tom. A frequência do tom é mantida em 1 KHz, e a duração dos tons é variada, sendo um de 250 mseg, denominado de curto, e o outro de 500 mseg, denominado de longo. O intervalo interestímulo é mantido em 300 mseg entre os tons sucessivos nas sequências, e o tempo de subida-descida é mantido em 10 mseg. As sequências do teste foram apresentadas na intensidade de 30 dBNS, com base na média dos limiares auditivos nas frequências de 500 a 2000 Hz de forma binaural e com fones auriculares TDH-39. O paciente foi instruído a nomear a sequência de três tons na mesma ordem ouvida.

O teste GIN31 teve como objetivo determinar a porcentagem de detecção de gaps e o limiar de acuidade temporal. A gravação em CD foi apresentada com a utilização de fones de ouvido, sendo que o nível de apresentação do teste foi de 30 dBNS, com base na média dos limiares auditivos das frequências de 500, 1000 e 2000 Hz. Foi utilizada a faixa dois para realizar o treinamento, e as faixas três e quatro foram utilizadas para avaliar as orelhas direita e a esquerda, respectivamente. Cada faixa contém estímulos de seis segundos de white noise, com cinco segundos de intervalo entre os estímulos. Os gaps estão inseridos no white noise em posições e com durações diferentes, podendo ser de 2, 3, 4, 5, 6, 8, 10, 12, 15 ou 20 ms. Com esse procedimento, foi possível avaliar a capacidade de detectar e discriminar pequenas diferenças entre sinais acústicos, ou seja, a habilidade auditiva de resolução temporal. Utilizou-se o termo "reconhecimento" na quantidade de vezes em que os participantes demonstraram ter identificado o estímulo. A quantidade de vezes que o estímulo foi detectado foi expressa em porcentagem e denominada "porcentagem de reconhecimento de gaps". O valor mínimo que o indivíduo percebeu o gap em pelo menos 4 dos 6 estímulos apresentados foi denominado "limiar de acuidade temporal". Os critérios de normalidade seguidos para esse teste foram de acordo com Dias21. Cabe lembrar que os indivíduos que apresentaram o GIN_Li maior do que 20 ms foram representados por limiar de 22 ms para fins de tratamento estatístico.

Antes da reavaliação dos testes, foi utilizada uma ferramenta disponível no software de adaptação de uma empresa de prótese auditiva, denominado Data Logging. Essa ferramenta possibilitou avaliar a média de horas de uso da prótese auditiva desde o dia da primeira adaptação. Caso o paciente não tivesse feito uso efetivo, era verificado o problema na adaptação e agendado novo acompanhamento. Nesses casos, a reavaliação só foi feita após um tempo de uso efetivo de no mínimo três meses. Na reavaliação, o paciente realizou os testes fazendo uso das próteses auditivas e o transdutor permaneceu sendo o fone de ouvido TDH 39. Foi desligado o supressor de ruído, para que o mesmo não interferisse nas respostas durante a aplicação do teste GIN.

Os testes especiais do processamento auditivo foram todos apresentados em um Compact Disc, modelo D-152 K, marca Sony, acoplado a um audiômetro de dois canais, modelo GSI 61 Clinical Audiometer, marca Grason-Stadler, com fones de ouvido TDH 39 P e coxim MX-41 AR, calibrados segundo a norma ANSI 69.

Em todos os testes estatísticos utilizados, foi fixado o nível de significância de 0,05. Os valores estatisticamente significantes foram assinalados com um asterisco [*] sobrescrito. Em caso de tendência para resultados significantes, o valor calculado foi assinalado com um símbolo denominado jogo da velha [#].

 

RESULTADOS

Os testes selecionados para avaliar o processamento temporal foram aplicados antes da adaptação das próteses auditivas e após um período mínimo de três meses de uso e, máximo, de dez meses. Nos casos em que a reavaliação foi realizada em um período superior a três meses, foram verificadas intercorrências, como problemas técnicos com a prótese auditiva, presença de cerúmen no meato acústico externo impossibilitando o uso da prótese auditiva intra-aural, além de dificuldade de adaptação ou manipulação da prótese auditiva. Na reavaliação, houve três indivíduos faltantes, totalizando 57 indivíduos.

Na Tabela 1 são apresentados os valores das médias das estatísticas descritivas para a porcentagem de acertos no TPD por Avaliação e Grupo.

Verificou-se que houve diferença significante entre a média da porcentagem de acertos na situação de reavaliação comparada com a da primeira avaliação. A diferença entre as médias nas duas avaliações é a mesma nos dois grupos (p = 0,132). A estimativa da média da diferença nas duas avaliações é 5,7% (Intervalo de Confiança de 95%: [2,1;9,5]).

Na primeira avaliação, um indivíduo do GI e dois indivíduos do GII não discriminaram nenhuma das sequências que avaliavam o aspecto da duração entre tons puros. Na reavaliação, dois indivíduos do GII permaneceram com o mesmo desempenho.

O teste GIN foi estudado em relação à porcentagem de reconhecimento de gaps e quanto ao limiar de acuidade temporal em ms. Para facilitar a apresentação dos resultados, a porcentagem de reconhecimento de gaps foi identificada como GIN_%, e o limiar de acuidade temporal como GIN_Li.

As médias das estatísticas descritivas do teste GIN em relação a GIN_% são apresentadas nas Tabelas 2 e 3.

Verificou-se que houve diferença significante entre as médias do GIN_% na reavaliação em relação à primeira avaliação. O aumento que ocorreu na porcentagem de reconhecimento de gaps é o mesmo nos dois grupos. A média da diferença entre as duas avaliações é 5,6% para o Intervalo de Confiança de 95% [3,2;8,1]. Não houve diferença entre as médias da porcentagem de reconhecimento de gaps no ruído nos dois grupos (p = 0,362), sendo este resultado válido para as duas avaliações (p = 0,128).

Foi avaliada a concordância entre as respostas nas duas orelhas, tanto na primeira avaliação quanto na reavaliação. Os diagramas de dispersão das porcentagens de acertos nas duas orelhas e nas duas avaliações são apresentados na Figura 1.

 

 

Verificou-se que tanto no GIN_Li como no GIN_% houve forte concordância entre as duas orelhas. Os coeficientes de correlação intraclasse para o GIN_Li foram na avaliação 0,88 (Intervalo de Confiança [0,80;0,93]) e na reavaliação 0,92 (Intervalo de Confiança [0,87;0,95]). No GIN_%, o coeficiente de correlação intraclasse na primeira avaliação foi de 0,92 [0,86;0,95] e, na reavaliação, de 0,90 [0,84;0,94].

Na Tabela 3 são apresentados os resultados GIN_Li (ms) por Orelha, Avaliação e Grupo. Na primeira avaliação, seis indivíduos do GI e oito indivíduos do GII não reconheceram o gap em seu valor Máximo no teste; já na reavaliação, apenas um indivíduo do GI e quatro do GII não identificaram o valor Máximo de gap do teste GIN, isto é, 20 milissegundos.

Observa-se que houve diferença significante entre as médias do GIN_Li nas duas avaliações, sendo a média na reavaliação menor que na primeira avaliação. O decréscimo médio que ocorre no Limiar é de -2,2 ms (Intervalo de Confiança de 95%: do [-2,8;-1,5]), sendo igual nos dois grupos. Não houve diferença entre os grupos nas médias do limiar de acuidade temporal, sendo este resultado válido para as duas avaliações (p = 0,373).

Verificou-se que no GIN_Li houve concordância entre as duas orelhas. Os coeficientes de correlação intraclasse foram: na avaliação 0,88 (Intervalo de Confiança [0,80;0,93]) e na reavaliação 0,92 (Intervalo de Confiança [0,87;0,95]).

Na Tabela 4, são apresentados os resultados da associação entre a porcentagem de acertos do TPD e GIN com a Idade e Escolaridade.

 

 

Verificou-se que houve correlação positiva entre a escolaridade e a porcentagem de acertos do TPD. Houve tendência de correlação negativa entre o GIN_Li com a escolaridade.

As distribuições da porcentagem de acertos nas duas avaliações e faixas de escolaridade podem ser observadas na Figura 2.

 

 

DISCUSSÃO

Os novos usuários de prótese auditiva desta pesquisa foram acompanhados por um período mínimo de 12 semanas de uso para analisar os efeitos da aclimatização. Isso foi feito baseando-se no estudo de Gatehouse25, que verificou melhora no reconhecimento da fala após um período mínimo de seis a 12 semanas de uso da prótese auditiva.

Neste estudo, o grau da perda auditiva não influenciou no desempenho do teste TPD. Os indivíduos do G1 identificaram três sons em sequência rápida, semelhantemente aos indivíduos do GII (Tabela 1). Verificou-se grande variabilidade nos resultados em cada um dos grupos.

As pesquisas mostram que o desempenho no TPD em população de adultos jovens e idosos com e sem perda auditiva foi pior em idosos do que em indivíduos jovens nesta tarefa, sem influência da perda auditiva de grau leve a moderado e com piora do desempenho em lesão em vias auditivas do Sistema Nervoso Central e cérebro23,32-36. Os estudos da literatura especializada mostram que, nos idosos, a média de identificação correta de uma série de três sons breves em sequência (TPD tonal) variou de 43,75% a 69%33,35,36. Já nos adultos23,32, verificou-se um desempenho melhor, com valores médios de identificações corretas maiores do que 83%.

Assim, os estudos mostram que o processo de envelhecimento causa deterioração no processo de ordenação temporal33-36 e a perda auditiva coclear de grau leve a moderado não interfere no desempenho desta tarefa13,23,33.

No presente estudo, a perda auditiva de grau moderado ou moderadamente-grave não influenciou no desempenho dos idosos nesta tarefa de reconhecimento do padrão de duração, e os valores médios encontram-se dentro da faixa de valores médios dos trabalhos com idosos compulsados na literatura33-36.

Diversos estudos relatam que o processo de seleção e adaptação de próteses auditivas deve levar em consideração os DPA (C) causados pelo efeito da idade, como a dificuldade de discriminar pistas temporais que identificam os contrastes da fala2,3,26. Ainda não há um consenso na literatura especializada se apenas o uso da prótese auditiva proporciona a melhora nas habilidades auditivas ou se é necessário realizar treinamento auditivo para que ocorra mudança no comportamento auditivo. As pesquisas indicam que a prótese auditiva proporciona melhores informações acústicas, porém, não é capaz de modificar as conexões neurais26,37. Já outro estudo mostra melhora na habilidade auditiva de ordenação temporal apenas com o uso de próteses auditivas com tecnologia digital34.

Na presente pesquisa, verificou-se que após um período de uso diário da prótese auditiva, houve melhora no reconhecimento do padrão de duração tanto no GI (média 68,1%) como no GII (média de 59,3%), concordando com estudo da literatura especializada34. A média da diferença entre as duas avaliações no TPD foi de 5,7%.

No teste GIN (Tabelas 2 e 3), o grau da perda auditiva não influenciou nos resultados do limiar de acuidade temporal e percentual de reconhecimento de gaps do teste GIN.

Os estudos da literatura nacional e internacional mostram que os idosos apresentam menor porcentagem de reconhecimento de gaps e maior limiar de acuidade temporal do que as crianças e jovens18,19,21,35,38-40. Nos estudos da literatura compulsados em idosos21,35,39, observou-se que o reconhecimento de gap no ruído variou de 39,1% a 57,6% e o limiar de acuidade varia de 7,3 a 10,2 ms. Já nas crianças, jovens e adultos, o limiar de reconhecimento é superior a 70% e o limiar de acuidade temporal variou de 3,9 a 5,38 ms15,18,19,20,38,40.

Em idosos com perda auditiva, este limiar pode ser mais elevado do que nos idosos sem perda auditiva17,35. No entanto, outros trabalhos não encontram influência da perda auditiva no limiar de detecção de gaps4,5,13,41. Assim, recomenda-se que sejam realizados mais estudos para verificar os efeitos da idade e perda auditiva na habilidade auditiva de resolução temporal15.

No presente estudo, a média da porcentagem de reconhecimento de gaps foi inferior e o limiar de acuidade temporal superior aos achados da literatura em idosos21,35,39. Observou-se que não houve influência do grau da perda auditiva na habilidade auditiva de resolução temporal (Tabelas 2 e 3), corroborando com os achados da literatura especializada4,5,13,41.

Vários trabalhos apontam que não há diferença entre o limiar de acuidade temporal e a porcentagem de reconhecimento de gap segundo a variável orelha15,18,19,21,35,40.

Na presente pesquisa, verificou-se que tanto no GIN_% como no GIN_Li houve forte concordância entre as orelhas (Figura 1), concordando com os estudos da literatura especializada compulsados. Sugere-se a aplicação binaural deste teste, uma vez que não foram encontradas diferenças entre as orelhas.

Uma das principais queixas dos idosos com perda auditiva é a dificuldade de compreensão da fala no ruído. Várias pesquisas mostram que a resolução temporal é afetada pelo processo de envelhecimento e causa dificuldade para compreensão da fala no ruído1,27,42,43. Os trabalhos apontam que o processo de seleção e adaptação de prótese auditivas não deve considerar apenas a melhora quantitativa dos limiares auditivos, pois muitos indivíduos não apresentam benefícios devido à alteração nas habilidades auditivas relacionadas ao processamento temporal2,37,41.

A inclusão de testes que avaliam o Processamento Auditivo Central no processo de seleção e adaptação de próteses auditivas tem sido cada vez mais recomendada por diversos autores da literatura especializada37.

No presente estudo, a porcentagem de reconhecimento de gaps aumentou e o limiar de acuidade temporal diminuiu após um período de uso da prótese auditiva. Verificou-se que na reavaliação houve melhora estatisticamente significante da habilidade auditiva de resolução temporal, sendo que o limiar de acuidade temporal teve decréscimo de 2,2 ms e a porcentagem de reconhecimentos de gaps no ruído aumentou 5,6% tanto no GI como no GII.

Cabe salientar que, na primeira avaliação, 14 indivíduos não detectaram os gaps na faixa de ruído, sendo representados com o limiar de 22 ms. Na reavaliação, apenas cinco indivíduos permaneceram com limiar de 22 ms. Estes achados sugerem que houve efeito da estimulação acústica no processamento das informações no SAC após o uso da prótese auditiva.

No presente estudo, a média do limiar de acuidade temporal do teste GIN foi alta, tanto na primeira avaliação (média 14 ms) como na reavaliação (12 ms), e o percentual de reconhecimento de gaps foi baixo (média 29%), comparado com estudos da literatura especializada realizados em jovens18,19,38. Da mesma forma, o TPD apresentou baixo percentual de reconhecimento do padrão de duração na primeira avaliação (média 58,3%) e na reavaliação (média 63,8%), comparado com estudos em populações jovens23,32. No entanto, na atual pesquisa, não houve correlação entre o limiar de acuidade temporal e o percentual de reconhecimento de gaps com a idade, nem do reconhecimento do padrão de duração com a idade (Tabela 4). Acredita-se que o envelhecimento causa alteração nas habilidades de resolução e ordenação temporal. No entanto, não houve correlação no desempenho dos idosos do presente estudo nos testes do processamento temporal com o aumento da idade na faixa etária de 61 a 85 anos de idade.

Verificou-se, na amostra da pesquisa, correlação positiva da escolaridade com o desempenho no TPD, ou seja, que quanto mais anos de escolaridade melhor o desempenho no TPD (Tabela 4). Na reavaliação, verificou-se que tanto os indivíduos com baixa escolaridade como os de alta apresentaram melhor reconhecimento do padrão de duração (Figura 2) com o uso da prótese auditiva. Já em relação ao GIN, há uma tendência de correlação negativa (p = 0,058) entre o limiar de acuidade temporal e a escolaridade, ou seja, conforme aumenta a escolaridade, há um decréscimo no limiar de acuidade temporal.

Estudos que avaliaram as habilidades de resolução e ordenação temporal em idosos, com escolaridade superior ao presente estudo, mostraram melhor desempenho, tanto no TPD como no GIN_Li21,35. Confrontando estes dados com o presente estudo, pode-se inferir que a escolaridade influencia nas tarefas que envolvam participação das habilidades auditivas de resolução e ordenação temporal.

Acredita-se que a aplicação do teste GIN e o TPD pode ser uma importante ferramenta para auxiliar no monitoramento dos benefícios da adaptação de próteses auditivas em idosos.

 

CONCLUSÕES

• No que diz respeito ao processamento temporal/habilidade de ordenação temporal e de resolução temporal, houve deterioração das habilidades, independentemente do grau da perda auditiva, mostrando o efeito idade originado pelo envelhecimento;

• Houve efeito da estimulação acústica no processamento das informações no Sistema Auditivo Central, após a aclimatização com a prótese auditiva, pois os indivíduos apresentaram melhora na habilidade auditiva de ordenação temporal e resolução temporal;

• Verificou-se que a escolaridade influenciou as tarefas de resolução e ordenação temporal em idosos.

 

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Endereço para correspondência:
Maria Madalena Canina Pinheiro
Rua Eurico Hosterno, 204, Santa Mônica
Florianópolis - SC. CEP: 88035-400

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da BJORL em 28 de março de 2011. cod. 7669
Artigo aceito em 11 de outubro de 2011

 

 

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