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Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

Print version ISSN 1808-8694

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.79 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2013

http://dx.doi.org/10.5935/1808-8694.20130035 

ORIGINAL ARTICLE

 

Comparação do corticoide inalatório e oral no tratamento da disfonia aguda

 

 

Andréa Moreira Veiga de SouzaI; André de Campos DupratII; Rejane Cardoso CostaIII; Janaína de Oliveira PimentaIV; Fernanda Fonseca de Sá AndradeIV; Fernanda Ferreira da SilvaIV

IMD MSc (Otorrinolaringologista - Espaço da voz - MG - Brasil)
IIMD PhD (Otorrinolaringologista - Professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo)
IIIMD (Otorrinolaringologista - Instituto de Otorrinolaringologia de Minas Gerais - Brasil)
IVMSc (Fonoaudiologa do Espaço da Voz - MG - Brasil). Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A disfonia aguda é um quadro comum na prática clínica. Seu tratamento, principalmente em adultos, não é bem definido na literatura. O corticoide é o tratamento medicamentoso mais recomendado. Os estudos existentes, entretanto, não são suficientes para a determinação da superioridade entre diferentes corticoides e a melhor forma de administração.
OBJETIVO: Este estudo clínico prospectivo teve como objetivo comparar o efeito do corticoide inalatório na forma de pó seco com o efeito do corticoide oral, no tratamento da disfonia aguda.
MÉTODO: Foram avaliados 32 pacientes adultos, divididos em dois grupos de 16 pacientes para cada um dos tratamentos, antes e após sete dias do uso da medicação. Os pacientes foram submetidos à videolaringosocpia e avaliação perceptiva e acústica da voz.
RESULTADOS: O tratamento inalatório e oral reduziram significativamente a hiperemia, o edema e melhorou o movimento muco-ondulatório; entretanto, a redução do edema foi estatisticamente mais significativa (p = 0,012) nos pacientes tratados com a forma inalatória. A comparação dos valores da análise perceptiva auditiva e das medidas acústicas após tratamento entre os grupos, entretanto, não apresentou significância estatística.
CONCLUSÃO: Houve melhora significativa da laringite aguda nas avaliações realizadas, em todos os pacientes estudados, com os dois tratamentos. O tratamento com corticoide inalatório foi significativamente mais efetivo na redução do edema.

Palavras-chave: corticosteróides; disfonia; laringite; resultado de tratamento.


 

 

INTRODUÇÃO

A disfonia aguda interfere na comunicação oral, podendo levar a vários tipos e graus de limitações que repercutem tanto na vida social como na profissional. Nesta situação, é cada vez mais frequente na prática clínica pacientes que procuram atendimento médico, ansiosos por uma intervenção rápida e efetiva que possibilite a normalização da voz e o retorno às suas atividades o mais breve possível.

A disfonia aguda pode ocorrer por vários fatores como processos inflamatórios, traumatismos, paralisias laríngeas, fatores psicológicos e outros. A laringite, inflamação dos tecidos da laringe que se caracteriza basicamente por edema e/ou hiperemia da mesma, é o achado mais frequente no exame clínico desses pacientes1-3. Nas formas aguda e subaguda, o início é geralmente abrupto e o curso da doença é menor que três semanas4.

O repouso vocal é básico no tratamento da disfonia aguda por laringite2, mas, para a maioria dos pacientes que procuram o atendimento médico, não é possível ser realizado, sendo necessárias outras terapias.

A terapia com corticoide é descrita como fundamental no tratamento medicamentoso da laringite aguda, principalmente quando há comprometimento da respiração em crianças e da voz em adultos5-9. O objetivo é diminuir a inflamação, aliviar a dor e restabelecer a fisiologia da mucosa. Os estudos existentes, entretanto, não são suficientes para a determinação da superioridade entre diferentes corticoides, a dose e a melhor forma de administração.

Os corticoides orais têm potente efeito anti-inflamatório e sua indicação no tratamento das doenças inflamatórias e no edema da laringe é bem conhecida5-8,10. Quando usados por curtos períodos (até duas semanas) apresentam baixa possibilidade de ocasionar efeitos colaterais. Os corticoides orais são tão efetivos quanto os injetáveis, não justificando o uso de corticoides injetáveis em pacientes com via oral possível11.

Os corticoides tópicos são hoje o tratamento de escolha para processos inflamatórios das vias aéreas como rinite e asma, sendo largamente usados. Têm potente ação anti-inflamatória e na redução do edema. Por agir diretamente no local da inflamação, podem ser usados em doses menores. Em tratamentos curtos, apresentam menos efeitos colaterais e têm melhor perfil de segurança que os corticoides sistêmicos12,13. Estão indicados em afecções laríngeas como no tratamento de crianças com crupe e laringotraqueítes e nos casos de edema laríngeo pós-extubação endotraqueal. Não há, entretanto, relatos de seu uso no tratamento das laringites agudas em adultos.

Alguns estudos descreveram casos de disfonia e lesões laríngeas em pacientes adultos em uso crônico de corticoides e outros medicamentos inalatórios para tratamento de asma, assim como irritação faríngea, tosse e candidíase orofaríngea14-20. As lesões descritas estão associadas a vários fatores, como dose da medicação, tempo de uso, tipo de inalador, propelente e outras substâncias presentes na medicação, tosse, refluxo gastroesofágico e/ou tabagismo associado e doença ou grau de processo inflamatório existente na via aérea17. Em todos estes estudos, os pacientes estavam em uso de medicação inalatória havia no mínimo duas semanas e a disfonia e as lesões foram reversíveis após interrupção do uso da medicação.

Baseados nesses efeitos colaterais, alguns autores não recomendam o uso de corticoides inalatórios em profissionais de voz2,19. Isto talvez justifique o fato de haver na literatura apenas um artigo mostrando a efetividade do corticoide inalatório na laringite aguda20.

Essa escassez de estudos publicados, aliada à demanda de casos de pacientes adultos com disfonia associada à laringite aguda, às repercussões da perda aguda da voz na vida social e profissional e à necessidade de padronização e normatização dos tratamentos existentes, motivou o desenvolvimento deste estudo.

Este estudo teve como objetivo avaliar e comparar o efeito do corticoide inalatório (fluticasona inalatória) na forma de pó seco com o efeito do corticoide oral (prednisolona) no tratamento da disfonia associada à laringite aguda.

 

MÉTODO

Esta metodologia foi baseada no protocolo proposto por Dejonckere et al.20 para a avaliação funcional de vozes alteradas e seus tratamentos e foi aprovado pelo Comitê de Ética, projeto nº 501/07.

Foram selecionados, no período de janeiro de 2007 a setembro de 2008, 32 pacientes adultos com quadro de disfonia aguda por laringite, atendidos na clínica particular, especializada em voz profissional. Foram excluídos: pacientes tabagistas, com alterações mentais, psicológicas, e motoras; portadores de paralisias ou alterações laríngeas estruturais ou com antecedentes de cirurgia laríngea; pacientes em uso de medicação anti-inflamatória ou antirrefluxo gástrico. Indivíduos com hipersensibilidade à fluticasona ou prednisolona ou contraindicações para seu uso foram excluídos, assim como aqueles com indicação do uso de outra medicação, como antibióticos, antitussígenos, antitérmicos ou expectorantes, para o tratamento da laringite. Foram excluídos os pacientes com hematoma de prega vocal, uma vez que o repouso vocal nestes casos seria mandatório e o repouso vocal não foi uma orientação específica dada a estes pacientes.

Os pacientes foram divididos em dois grupos de forma aleatória. O primeiro grupo recebeu fluticasona inalatória 50 mcg, duas vezes ao dia, e o segundo prednisolona oral, 20 mg, duas vezes ao dia, ambos por 7 dias. Nenhum paciente foi orientado a realizar repouso vocal. Todos os pacientes mantiveram suas atividades vocais.

Todos os pacientes foram avaliados por videolaringoestroboscopia e análise perceptiva (GRBAS) e acústica da voz no primeiro e no sétimo (último) dia de tratamento. Ao final do tratamento (7º dia), também foi solicitado a todos responder a um questionário.

O corticoide inalatório escolhido foi a fluticasona por ser descrita como o corticoide inalatório de maior potência, maior tempo de permanência na mucosa e menor absorção sistêmica13,21,22. A aplicação por inalador de pó seco, por ser a que apresenta menor possibilidade de provocar danos à laringe22,23 e a dose de 100 mcg/dia por ser a menor dose efetiva e não existir relatos de efeitos colaterais locais e sistêmicos nesta dose, em tratamentos de curta duração.

A prednisolona foi escolhida por ser um dos corticoides sistêmicos mais utilizados, ter meia-vida intermediária e provocar menos efeitos colaterais12. A dose de 40 mg/dia foi a média das doses recomendadas em outros estudos2,3,6-8.

Avaliação videolaringoestroboscópica

A videolaringoestroboscopia com laringoscópio JC Biocam foi realizada sempre pelo mesmo otorrinolaringologista, no primeiro e no 7º dia.

Estes exames foram gravados em gravador de DVD Philips, para registro e posterior análise dos seguintes dados: presença ou ausência de hiperemia das pregas vocais, presença ou ausência de edema das pregas vocais e movimento muco-ondulatório (MMO) das pregas vocais: normal ou alterado. Considerou-se MMO alterado qualquer alteração na regularidade e/ou simetria do mesmo.

Avaliação vocal

Após a realização do exame videolaringoestroboscópico, foi realizada a gravação da voz por um fonoaudiólogo, especialista em voz.

A captação da voz foi realizada em ambiente silencioso, com ruído inferior a 50 db, usando microfone Shure SM 10A, condensado unidirecional, posicionado a 45º e a 5 cm de distância da boca do indivíduo. Este, então, foi conectado a uma mesa de áudio Eurorack UB502 e interligado diretamente ao computador laptop Toshiba Pentium 5, placa de som Sound Blaster 32 da creative labs. O paciente era solicitado a realizar as seguintes atividades fonatórias:

• Emitir três vezes a vogal [a] o mais prolongado possível (sustentada numa só expiração), em tom habitual, para medida do tempo máximo de fonação e para avaliação perceptiva utilizando a escala GRBAS.

• Emitir três vezes a vogal [e] sustentada, para análise acústica.

Para esta análise acústica, visando à análise quantitativa do sinal sonoro, foi utilizado o programa computadorizado DR Speech versão 3.1 e mensuradas as médias da frequência fundamental (Fo), jitter, shimmer, neutralized noise energy (NNE) e harmonic noise ratio (HNR), utilizando o trecho médio da emissão da vogal [e] sustentada, vogal essa a base do programa DR Speech.

Questionário

No 7º dia de tratamento, foi solicitado aos pacientes dos dois grupos que respondessem a um questionário escrito, relatando se houve melhora da voz com o tratamento (sim ou não), qual o dia de melhora da voz (1 ao 7) e relatar efeitos colaterais relacionados ao tratamento.

Análise dos dados

Os registros videolaringoestroboscópicos de cada sujeito foram apresentados para dois otorrinolaringologistas com experiência em laringologia e exames laringológicos (de forma cega em relação ao grupo ao qual o exame pertencia). Os exames foram apresentados de forma cega pré e pós-tratamento, aleatória em relação ao paciente e data do exame.

A análise perceptiva das amostras vocais foi feita por três fonoaudiólogas, especialistas em voz, em avaliações cegas pré e pós-tratamento, aleatórias em relação ao paciente e à data do exame das amostras da vogal sustentada [a]. Foi utilizada a escala GRBAS.

Para determinar o tempo máximo de fonação, utilizou-se a média, em segundos, das três amostras coletadas da vogal [a], o mais prolongado possível (sustentada numa só expiração), em tom habitual.

Para análise acústica, utilizou-se a média das medidas extraídas do programa computadorizado DR Speech versão 3.1, a partir das três amostras da emissão média da vogal sustentada [e], pré e pós-aplicação dos tratamentos.

Os resultados das análises acima e dos questionários foram então tabelados e submetidos à análise estatística.

 

RESULTADOS

A comparação estatística das variáveis sexo, idade, profissão, dos dados da videolaringoestroboscopia e das avaliações perceptiva-auditiva pela escala GRBAS e acústica da voz, dos dois grupos antes do tratamento, mostrou que os grupos eram inicialmente semelhantes.

A videolaringoscopia evidenciou nos dois grupos, após tratamento, redução significativa da hiperemia, do edema e melhora do movimento mucoondulatório das pregas vocais. A redução do edema foi estatisticamente mais significativa nos pacientes tratados com a fluticasona inalatória (Tabela 1).

Na avaliação perceptiva da voz, houve, nos dois grupos, melhora significativa da qualidade global da voz, rugosidade e soprosidade. A tensão não variou significativamente nos dois grupos e astenia não foi detectada em nenhum dos casos analisados (Tabela 1).

A análise acústica computadorizada detectou melhora significante no shimmer e NNE nos pacientes tratados com prednisolona oral e no jitter e NNE nos pacientes tratados com fluticasona inalatória. A comparação das medidas após tratamento os dois grupos não mostrou significância estatística (Tabela 2).

Nos questionários todos os pacientes relataram melhora até o 5º dia de tratamento. O valor da estatística de logrank gerou um valor p = 0,627, indicando que não existe diferença entre o tempo de melhora dos pacientes que usaram prednisolona e aqueles que usaram fluticasona (Figura 1).

 

 

Dos pacientes que usaram prednisolona, quatro relataram efeitos colaterais (dor no estômago e náusea) e um dos pacientes que usou fluticasona relatou vontade de tossir ao aplicar a medicação.

 

DISCUSSÃO

A disfonia aguda que limita a comunicação oral e impede as atividades normais do dia-a-dia é um motivo comum de busca ao atendimento médico, em especial em pacientes profissionais da voz. Antes de começar a discussão propriamente dita, cabe ressaltar que neste trabalho tivemos dois grupos fazendo uso de medicação (inalatória e oral) e nenhum grupo controle sem medicação. Isto permitiria responder o quanto da evolução destes casos seria diferente em pacientes não tratados. Por se tratar de uma amostragem em sua maioria de profissionais da voz, o uso de um grupo placebo causou uma limitação importante na adesão à participação dos sujeitos. Pacientes com necessidade de uma melhora rápida não se sentiam confortáveis com a possibilidade de estar sendo tratados com placebo. Frente a isto, fizemos a opção de estudar estas duas formas terapêuticas, comparando a eficácia dos tratamentos mais citados na literatura nesta situação.

Sinais de processo inflamatório agudo (hiperemia e edema da laringe e alterações no movimento muco-ondulatório das pregas vocais) estiveram presentes em todos os pacientes disfônicos avaliados pela videolaringoestroboscopia, neste estudo, antes do tratamento. Após os sete dias de tratamento com corticoide inalatório (fluticasona) e oral (prednisolona), houve melhora destes sinais em todos os pacientes (100%), nos dois grupos. A redução do edema, entretanto, foi significativamente maior com o corticoide inalatório.

A eficácia do corticoide oral no tratamento das disfonias por laringites agudas é conhecida em adultos e foi descrita por alguns autores:

Mishra et al.1 citaram os corticoides orais e intramusculares como o tratamento medicamentoso de primeira linha para cantores com disfonia por laringite, embora relatassem que não encontraram nenhum estudo criterioso sobre a eficácia dos mesmos em adultos. Estes autores encontraram apenas estudos de tratamentos baseadas em melhoras subjetivas e efeitos positivos em pacientes pediátricos, o que também observamos em nossa revisão da literatura.

Spiegel et al.6 sugeriram os corticosteroides sistêmicos como potentes agentes anti-inflamatórios para o manejo das disfonias associadas a laringites agudas. Relataram, entretanto, que muitos otorrinolaringologistas usam doses baixas (citaram a metilprednisona 10 mg) e que doses maiores, usadas por curto período de tempo, são mais efetivas.

Sataloff et al.7 e Watts et al.8 relataram casos de profissionais da voz, com quadro agudo de disfonia por laringite, que necessitavam fazer uma importante apresentação, tratados com sucesso com corticoide oral.

Klein et al.2 sugeriram o uso de corticoides injetáveis ou orais no tratamento do edema laríngeo e de distúrbios vocais agudos.

Klassen10 e Pedersen et al.11 descreveram o corticoide inalatório como uma melhor opção de tratamento medicamentoso anti-inflamatório para vias aéreas, devido à alta potência tópica e afirmaram ser este o tratamento ideal, por produzir mais rápida redução do processo inflamatório, da permeabilidade vascular e do edema da mucosa. Nenhum trabalho realizou um estudo comparando as duas formas de tratamento. Na literatura, os trabalhos se limitavam a relatos de caso e citações, mas sem realizar uma comparação entre diferentes formas.

A melhora da qualidade vocal nos parâmetros avaliação global da voz, rugosidade e soprosidade, em ambos os grupos, após o tratamento, era o esperado como consequente à melhora do processo inflamatório observado nas avaliações videolaringoestroboscópicas. Já o parâmetro tensão apresentou melhora após o tratamento nos dois grupos, mas esta melhora não foi estatisticamente significativa em nenhum deles. Este resultado pode ser justificado pelo processo inflamatório agudo na região da laringe. A tensão é associada ao esforço vocal por aumento da adução glótica (hiperfunção adutora) o que, em casos de laringite aguda, pode estar limitado por gerar incômodo e dor.

O esperado das medidas acústicas nos pacientes estudados após redução do processo inflamatório era um aumento da média da Fo, do TMF e do HNR e diminuição dos valores de Jitter, Shimmer e NNE. O esperado ocorreu em todas as medidas, em ambos os tratamentos, quando se analisaram seus valores médios. As alterações, porém, foram estatisticamente significativas apenas para as variáveis: NNE nos dois grupos, shimmer no grupo que usou prednisolona e jitter no grupo que usou fluticasona.

A falta de uma remissão total do processo inflamatório após o tratamento em alguns pacientes e uma possível influência de um processo inflamatório recente poderiam justificar as diferenças não significativas. Além disso, sabe-se que a confiabilidade da avaliação acústica depende da qualidade dos registros24. Pacientes com laringite aguda apresentam grande alteração da qualidade vocal associada à irregularidade fonatória, o que dificulta a captação da voz e torna estas medidas mais sujeitas a erros. A NNE, em nosso estudo, detectou significativamente a melhora após os tratamentos nos dois grupos avaliados. A NNE mede o ruído da onda sonora, o que é altamente correlacionado com a percepção auditiva de disfonia e aspereza. Por ter como base o componente ruído em si, é citada por Dejonckere20 e Pinho & Camargo25 como uma das medidas acústicas mais sensíveis na avaliação de vozes disfônicas.

Alguns poucos autores avaliaram medidas acústicas em pacientes com laringite.

Plante et al.26 avaliaram a efetividade de alguns parâmetros da análise acústica objetiva durante e após uma laringite infecciosa em quatro pacientes e compararam com um grupo controle de quatro pacientes saudáveis. Os parâmetros estudados foram jitter, GNE (glotal to noise excitation) e normalised error prediction (NEP). Este estudo utilizou diferentes programas e mostrou que é possível, usando estes três parâmetros, separar sujeitos com voz rouca de sujeitos com voz normal ou após recuperação da laringite. Esses autores discutiram a variabilidade dos parâmetros encontrada entre sujeitos do mesmo grupo e mostram que esta comparação é muito difícil. Cada sujeito tem um aparelho fonador e fisiologia própria, o que introduz variações no sinal. A monitorização da qualidade vocal no mesmo sujeito é mais fácil e fidedigna, pois é o mesmo aparelho fonador, o que também observamos em nosso estudo. As análises comparativas individuais apresentaram variações estatísticas significativas em nosso estudo no antes-depois dos dois tratamentos (shimmer e NNE para prednisolona e Jittter e NNE para fluticasona), mas essas diferenças desapareceram quando analisamos estatisticamente as medidas finais dos dois grupos.

Ng et al.27 estudaram o efeito da laringite aguda nas medidas aerodinâmicas acústicas e perceptivas em 11 pacientes com laringite aguda, antes e após 7 a 10 dias de evolução e compararam com indivíduos normais. A frequência fundamental reduziu nos quadros de laringite, sugerindo o aumento de massa das pregas vocais nas laringites. Os valores aerodinâmicos diferiram nos casos de laringite, sugerindo hipofunção laríngea. Os dados perceptivos evidenciaram a rouquidão nos pacientes com laringite, o que também observamos neste estudo.

Watts et al.13 realizaram um estudo em um paciente com laringite aguda, tratado por 6 dias com corticoterapia oral, com o objetivo de avaliar a efetividade do tratamento pelas medidas acústicas nos dias 1, 3, 5 e 7. Seus resultados mostraram significativo aumento da frequência fundamental, diminuição do jitter, shimmer e da variabilidade da amplitude. Estas medidas não foram sempre lineares, apresentando algumas oscilações contrárias ao esperado em alguns dias, o que também observamos em alguns de nossos pacientes. Estas oscilações ocorreram, como já descrito acima, pelas dificuldades de captação da voz e pela instabilidade fonatória próprias dos pacientes com laringite aguda.

Na avaliação dos questionários, todos os pacientes estudados nos dois grupos relataram melhora após tratamento, correlacionando com o observado nas avaliações pela videolaringoestroboscopia e na avaliação vocal. Todos relataram melhora até o 5º dia de tratamento, com pico de melhora no 3º dia e não houve diferença estatística entre o tempo de melhora dos pacientes que usaram corticoide inalatório (fluticasona) e oral (prednisolona). Estes dados nos levam a repensar o tempo de tratamento. Seriam suficientes cinco dias?

Spiegel et al.6 relataram que para o tratamento das laringites agudas em adultos, doses maiores, usadas por curto período de tempo, são mais efetivas e sugeriram 60 mg de prednisona por 3 a 6 dias. Watts et al.8 usaram em um profissional da voz com quadro de disfonia por laringite aguda 24 mg de metilprednisolona no 1º dia e redução de 4 mg ao dia até o 6º dia e Franco & Andrus3 citaram 16 mg/dia de metilprednisolona com redução de 4 mg/dia por 7 dias. A dose ideal da medicação oral ou inalatória ainda é incerta e estudos com foco na comparação de diferentes dosagens terapêutica ainda são necessários.

Na amostra estudada, quatro (25%) dos 16 pacientes que usaram o corticoide oral (prednisolona) relataram efeitos colaterais (dor no estômago e náusea) e um (6,3%) dos 16 pacientes que usaram corticoide inalatório relatou vontade de tossir ao aplicar a medicação. Estes resultados concordam com os relatos de Roland et al.15, que afirmaram que os efeitos colaterais dos corticoides inalatórios, quando comparados aos sistêmicos, são considerados infrequentes e menores. Spiegel et al.6 e Abaza et al.17 citaram a irritação gástrica como um dos efeitos adversos mais comuns associadas ao uso do corticoide oral. O uso concomitante de antiácidos, como recomendado por Abaza et al.17, durante o tratamento com corticoides orais é uma sugestão para a prevenção dos efeitos gástricos.

Não observamos em nenhum dos pacientes que usaram o corticoide inalatório as alterações laríngeas descritas nos pacientes asmáticos em uso crônico de corticoide inalatório14-19. Acreditamos, como descreveu Watts13, que estas alterações não ocorrem quando usadas doses baixas, poucas vezes ao dia e por curto período de tempo. Os benefícios superam os riscos potenciais e os corticoides inalatórios podem ser usados com significativa segurança. O receio dos efeitos adversos pode resultar na privação de um tratamento efetivo e de menor risco. Cabe ressaltar que muitos pacientes, principalmente os profissionais da voz, podem apresentar episódios de laringite com maior frequência3 e maior necessidade do uso de corticoides.

Quanto à forma de administração do corticoide inalatório (tipo de inalador), concordamos com Selroos et al.23 e Castro et al.22 que afirmaram que os inaladores de pó seco podem ser mais seguros. Eles não requerem propelentes (que podem causar irritações), pois é o esforço inspiratório do paciente que leva à dispersão da droga na via aérea. O paciente deve ser orientado a lavar a boca com água após a inalação, para evitar os efeitos colaterais nesta região e também pode ser orientado a fazer uma inalação de média intensidade, pois o objetivo é que a medicação atinja a região da laringe, com pouco impacto.

Achamos interessante citar a revisão de Mash et al.28 que, apesar de avaliar estudos de pacientes adultos com asma, teve objetivo semelhante ao nosso ao comparar o corticoide inalatório (de diferentes tipos) com a prednisolona oral. Esta revisão avaliou 1285 estudos e resumos que compararam os corticoides inalatórios até 2000 mcg/dia com oral (especificamente a prednisona ou prednisolona oral até 60 mg/dia) no tratamento de adultos com asma. Apenas oito estudos preencheram os critérios de inclusão. Em seis estudos, a prednisolona pareceu ser tão eficaz quanto o corticoide inalatório. Em dois ensaios, o corticoide inalatório foi mais efetivo que a prednisona. Todas as doses de corticoides inalatórios foram mais eficazes que a prednisolona em doses de até 60 mg em dias alternados. Os dados de efeitos adversos informados foram muito variáveis para permitir comparações. Foi relatada uma incidência de 30% com pacientes que receberam prednisolona em um estudo e não houve relatos de efeitos adversos com corticoides inalatórios.

Por fim, enfatizamos as recomendações de Spiegel et al.6 e Abaza et al.17 sobre a necessidade de orientação, principalmente dos profissionais de voz, para evitar o abuso no uso dos corticoides. Estes medicamentos produzem ótimo efeito clínico, com relativamente poucos efeitos colaterais quando usados por pouco tempo e em doses baixas no tratamento dos distúrbios vocais por processos inflamatórios, mas os riscos de efeitos adversos podem aumentar com o uso frequente.

 

CONCLUSÃO

Houve melhora significativa da laringite aguda nas avaliações realizadas, em todos os pacientes estudados, com os dois tratamentos após os 7 dias. O tratamento com corticoide inalatório (fluticasona) foi significativamente mais efetivo na redução do edema e produziu menos efeitos colaterais que o tratamento com corticoide oral, neste estudo.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
André de Campos Duprat
Av. 9 de Julho, nº 5519, cj 71. Jardim Europa
São Paulo - SP. Brasil. CEP: 01407-200
Fax: (11) 3168-6644
E-mail: adcduprat@gmail.com

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) do BJORL em 2 de agosto de 2012. cod. 9876.
Artigo aceito em 29 de novembro de 2012.

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