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Fisioterapia e Pesquisa

Print version ISSN 1809-2950

Fisioter. Pesqui. vol.15 no.2 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1809-29502008000200013 

PESQUISA ORIGINAL ORIGINAL RESEARCH

 

Intervenção psicomotora em crianças de nível socioeconômico baixo

 

Psychomotor intervention on children of low socioeconomic status

 

 

Ana Carolina de CamposI; Luiz Henrique SilvaII; Karina PereiraIII; Nelci Adriana Cicuto Ferreira RochaIV; Eloisa TudellaIV

IFisioterapeuta; mestranda no Programa de PG-FT - Pós-Graduação em Fisioterapia da UFSCar
IIFisioterapeuta; aprimorando em Ortopedia e Traumatologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP, Ribeirão Preto, SP, Brasil
IIIProfa. Dra. do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário de Araraquara, Araraquara, SP, Brasil
IVProfas. Dras. do Programa de PG-FT da UFSCar

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Visou-se identificar o perfil psicomotor de crianças de baixo nível socioeconômico e verificar o efeito nelas de um programa de intervenção psicomotora. Participaram do estudo seis crianças do sexo masculino, na faixa de 10 a 12 anos (11,5±0,92). Os participantes foram avaliados utilizando-se uma bateria psicomotora que avalia sete fatores psicomotores: tonicidade, equilibração, lateralização, noção do corpo, estruturação espaço-temporal, praxia global e fina; de acordo com o desempenho da criança, os fatores são pontuados de 1 a 4; o escore 1 refere-se ao perfil apráxico, 2 ao dispráxico, 3 ao eupráxico e 4 ao hiperpráxico. Com base nas dificuldades detectadas foi elaborado um programa de intervenção psicomotora, aplicado durante três meses, em 16 sessões de uma hora de duração, duas vezes por semana. Ao término da intervenção os participantes foram reavaliados. Pela avaliação inicial, o perfil dos participantes foi predominantemente eupráxico nos fatores equilibração, lateralização, noção do corpo, praxia global e praxia fina; nos fatores tonicidade e estruturação espaço-temporal o perfil foi predominantemente dispráxico. Após o programa de intervenção houve aumento estatisticamente significativo (p<0.05) na pontuação nos fatores tonicidade, equilibração, estruturação espaço-temporal, praxia global e praxia fina, sugerindo que o programa de intervenção psicomotora aplicado beneficiou o desempenho psicomotor de crianças de baixo nível socioeconômico.

Descritores: Criança; Desempenho psicomotor; Fatores socioeconômicos


ABSTRACT

This study aimed at outlining the psychomotor profile of socioeconomically disadvantaged children and at verifying the effect on them of an assessment-based psychomotor training program. Participants were six 10-to-12 year-old children (mean age 11.5±0.92), who were evaluated before and after the program by means of a psychomotor battery which assesses seven categories: tonus, equilibrium, lateralisation, body perception, time-space orientation, gross and fine praxis; scores range from 1 to 4, determining the following profiles: 1, apraxic; 2, dyspraxic; 3, eupraxic; 4, hyperpraxic. By drawing on children's difficulties, a psychomotor playing program was applied during 3 months, in 16 one-hour sessions, twice a week. The initial evaluation showed participants profile to be predominantly eupraxic in equilibrium, lateralisation, body perception, gross and fine praxis; profile was mostly dyspraxic as to tonus and time-space orientation. After the program, scores significantly improved in tonus, equilibration, time-space orientation, gross, and fine praxis (p<0.05), thus suggesting that the program applied was able to benefit psychomotor performance of low socioeconomic status children.

Key words: Child; Psychomotor performance; Socioeconomic factors


 

 

INTRODUÇÃO

Na criança, a motricidade e a inteligência se desenvolvem como resultado da interação de fatores genéticos, culturais, ambientais e psicossociais. Um dos modos de avaliar o resultado da ação conjunta desses fatores é determinar o perfil psicomotor da criança, que indica a qualidade do desenvolvimento psicomotor, especificando as habilidades motoras mais e menos elaboradas adquiridas até o momento1.

A organização do sistema nervoso é ricamente estimulada pela interação entre o indivíduo e o ambiente, que proporciona sensações de origem interoceptiva, proprioceptiva e exteroceptiva. No entanto, caso a integração com o meio não forneça os estímulos sensório-motores suficientes, é possível que a motricidade apresente desenvolvimento insatisfatório1.

Diversos autores apontam que fatores socioculturais exercem influência negativa sobre o desenvolvimento da criança2-5. Barros et al.2 destacam a baixa condição socioeconômica da família como aspecto fortemente prejudicial. Para Bowman e Wallace3, o ambiente pode influenciar negativamente o desenvolvimento da função vestibular, da integração visomotora, da força manual e da praxia. O nível de educação materno, o envolvimento dos pais e a estruturação familiar são outros itens que afetam o desenvolvimento psicomotor da criança4-6.

O efeito das condições ambientais sobre o desenvolvimento psicomotor é um objeto de estudo bastante explorado, porém ainda com diversas lacunas. É consenso na literatura que o ambiente tem influência sobre a qualidade das aquisições da criança, uma vez que pode limitar suas possibilidades de interação. No entanto, o período de 10 a 12 anos permanece pouco discutido na literatura, tanto no que concerne à forma como o ambiente - especificamente, as condições socioeconômicas - podem afetar o desenvolvimento psicomotor das crianças nessa faixa5 quanto às possibilidades de atuação sobre as dificuldades apresentadas por essas crianças.

A identificação de fatores deficitários pela avaliação do perfil psicomotor é importante para traçar diretrizes de intervenção direcionadas à população em questão, seja para fins de prevenção ou de reeducação, no ambiente escolar ou terapêutico. Com base no perfil, podem ser elaborados programas de educação ou reeducação psicomotora, visando proporcionar motricidade espontânea, coordenada e rítmica e tornar o cérebro da criança um órgão com maior capacidade para captar, integrar, armazenar, elaborar e expressar informações1.

A intervenção psicomotora foi eficazmente aplicada em diversos estudos. Rintala et al.7, utilizando para avaliação o teste de desenvolvimento motor global, compararam os efeitos da educação física convencional e de um programa de intervenção psicomotora durante dez semanas, aplicados a crianças de 6 a 12 anos com desordens de linguagem. Os autores relatam aprimoramento das habilidades motoras globais após ambos os programas, mas a intervenção psicomotora exerceu maior influência sobre o resultado encontrado.

De acordo com Taneja et al.8, um programa de intervenção com duração de três meses é capaz de acelerar o desenvolvimento motor, mental e social de bebês e crianças institucionalizados. Kelly et al.9 e Connor-Kuntz & Dummer10 verificaram aprimoramento de habilidades motoras globais em pré-escolares após a intervenção motora. As habilidades motoras finas também podem ser significativamente aprimoradas em pré-escolares com atraso no desenvolvimento11.

Os relatos encontrados na literatura concentram-se no efeito da intervenção realizada precocemente, possivelmente porque se verifica que, quanto menor a idade das crianças, maior é o efeito positivo da estimulação8-11. Porém, poucos estudos esclarecem se crianças que não tiveram oportunidade de estabelecer desenvolvimento psicomotor adequado no início da infância podem ser estimuladas posteriormente ou estão fadadas a conviver com dificuldades. Conhecer o perfil psicomotor dessas crianças e as modificações que podem ocorrer por meio da intervenção psicomotora pode auxiliar educadores e terapeutas a elaborar estratégias de intervenção adequadas para estimular seu desenvolvimento.

Diante do exposto, o presente estudo teve como objetivo identificar o perfil psicomotor e verificar o efeito de uma intervenção psicomotora em crianças de baixo nível socioeconômico na faixa de 10 a 12 anos.

 

METODOLOGIA

O estudo foi desenvolvido com 22 crianças que freqüentam o Projeto SOS Bombeiros no Resgate da Cidadania, dedicado ao atendimento socioeducativo de crianças e adolescentes de baixo nível socioeconômico. Todos os participantes tinham passado por avaliação socioeconômica prévia para poder freqüentar a instituição. Do total, apenas seis crianças do sexo masculino, com idade média de 11 anos e 6 meses, concluíram o programa de intervenção psicomotora, sendo quatro pertencentes ao nível socioeconômico C e dois ao nível D, de acordo com o critério da Abipeme - Associação Brasileira de Pesquisa de Mercado. Foram incluídas no estudo as crianças com idades entre 10 e 12 anos que participassem do Projeto acima mencionado e cujos responsáveis consentissem com sua participação no estudo, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Além daquelas que apresentassem transtornos no desenvolvimento, foram excluídas as crianças cujos responsáveis não assinaram o termo de consentimento, ou as que deixaram de freqüentar o Projeto SOS no período de intervenção psicomotora proposto neste estudo. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de São Carlos.

Instrumento de avaliação

O instrumento de avaliação aplicado foi a Bateria Psicomotora (BPM) de Fonseca1. Esse instrumento, o mais adequado para atingir os objetivos aqui propostos, é de baixo custo e fácil aplicação, tendo sido empregado em alguns estudos visando caracterizar o perfil psicomotor e verificar efeitos de intervenção12,13.

Trata-se de um conjunto de testes que avalia o desenvolvimento da criança em sete fatores psicomotores: tonicidade, equilibração, lateralização, noção do corpo, estruturação espaço-temporal, praxia global e praxia fina, constituindo no total 42 tarefas. Cada fator é pontuado de 1 a 4 de acordo com o desempenho da criança, sendo 1 referente ao perfil apráxico, 2 ao dispráxico, 3 ao eupráxico e 4 ao hiperpráxico. Somando-se as pontuações dos sete fatores, obtém-se o escore que permite classificar o perfil psicomotor geral em deficitário (7 a 8 pontos), dispráxico (9 a 13 pontos), normal (14 a 21 pontos), bom (22 a 26 pontos) ou superior (27 a 28 pontos), ou seja, quanto maior o escore, melhor é o perfil psicomotor da criança.

Procedimentos

Previamente, foram coletados dados sobre o desenvolvimento neurossensório-motor dos participantes utilizando-se ficha de avaliação elaborada especificamente para este estudo, e dados sobre o nível socioeconômico da família por meio do questionário da Abipeme. O estudo consistiu em avaliação Inicial, intervenção e reavaliação, como exposto a seguir.

Avaliação individual: consistiu na aplicação da BPM a cada criança, com duração de 50 minutos, em uma sala oferecida pelo Projeto SOS. Antes do início da avaliação, os pesquisadores interagiam com a criança, explicando o que aconteceria durante a avaliação, para que ficasse familiarizada e tranqüila. A criança deveria estar vestida com roupas confortáveis e as tarefas da BPM eram apresentadas de forma lúdica, a fim de obter maior interesse e participação por parte da criança.

Intervenção: após a análise do perfil obtido pela BPM, foi elaborado um programa de intervenção psicomotora, de atividades que pudessem favorecer o aprimoramento das dificuldades detectadas.

O programa de intervenção psicomotora teve a duração de três meses, aplicado em duas sessões semanais de uma hora de duração (total de 16 sessões). Cada sessão foi subdividida em três fases: preparação, atividades motoras e retorno às condições de repouso. As atividades eram desenvolvidas de forma lúdica para envolver e motivar os participantes:

Fase 1 (10 minutos), preparação: nessa etapa eram realizados alongamentos preparatórios gerais, incluindo da musculatura de membros superiores, membros inferiores e tronco;

Fase 2 (40 minutos), atividades motoras: realizavam-se aí atividades lúdicas, incluindo jogos individuais ou em grupo, elaboradas com base na literatura referente à intervenção psicomotora14,15. O Quadro 1 sintetiza as atividades para cada fator psicomotor.

 

 

Fase 3 (10 minutos), retorno à condição de repouso: as crianças eram conduzidas em atividades de alongamento e relaxamento visando controle tônico e emocional, melhora da concentração e da auto-imagem.

Reavaliação: ao final do programa de intervenção psicomotora, as crianças foram reavaliadas empregando-se a mesma bateria de testes.

Análise estatística

Para verificar o efeito do programa de intervenção psicomotora, comparou-se a pontuação obtida na reavaliação com aquela obtida na avaliação inicial, por meio do teste t de Student para a pontuação em cada fator psicomotor e à somatória da pontuação em todos os fatores (p=0,05). Também foi feita uma análise descritiva, incluindo valores percentuais, para observação da distribuição dos perfis psicomotores pré e pós-intervenção.

 

RESULTADOS

Na avaliação inicial, constatou-se predomínio do perfil psicomotor eupráxico nos fatores equilibração (84%), lateralização (67%), noção do corpo (84%), praxia global (84%) e praxia fina (67%). Por outro lado, constatou-se perfil psicomotor dispráxico nos fatores tonicidade (50%) e estruturação espaço-temporal (67%).

Na reavaliação, ou seja, após o programa de intervenção, constatou-se que no fator equilibração manteve-se o predomínio do perfil eupráxico (67%), porém não houve participantes com perfil dispráxico (como anteriormente), e sim participantes apresentando perfil hiperpráxico (33%). No fator lateralização, a reavaliação revelou aumento na porcentagem de participantes com perfil hiperpráxico (50%). No fator noção do corpo não se verificou alteração na distribuição dos perfis. O fator praxia global o perfil evoluiu de predominantemente eupráxico para predominantemente hiperpráxico (67%); no fator praxia fina, embora o perfil tenha permanecido eupráxico, nenhum participante revelou perfil dispráxico, e outros passaram a apresentar perfil hiperpráxico (33%). Quanto aos fatores tonicidade e estruturação espaço-temporal, a reavaliação permitiu constatar que todos os participantes atingiram o perfil eupráxico. O Gráfico 1 sumariza os resultados da avaliação inicial e da reavaliação.

 

 

As diferenças de pontuação foram estatisticamente significativas nos fatores tonicidade (p=0,008), equilibração (p=0,01), estruturação espaço-temporal (p=0,05), praxia global (p=0,0006) e praxia fina (p=0,03).

O perfil psicomotor geral (escore correspondente à soma das pontuações nos sete fatores) foi significativamente diferente após o programa de intervenção psicomotora (t=7,52, gl=6, p<0,001), conforme se observa no Gráfico 2. A média da pontuação antes da intervenção psicomotora foi 19,46 pontos (±1,7), classificando o perfil geral como normal e, após o programa de intervenção psicomotora, foi 22,83 pontos (±1,1), classificando o perfil geral como bom.

 

 

DISCUSSÃO

O presente estudo buscou verificar o efeito de intervenção psicomotora em crianças de baixo nível socioeconômico, constatando diferenças no perfil após a intervenção. Na avaliação inicial, predominou o perfil eupráxico na maioria dos fatores, exceto tonicidade e estruturação espaço-temporal, em que as crianças apresentaram perfil dispráxico, ou seja, abaixo do esperado para a faixa etária. No estudo de Pereira16, o perfil psicomotor eupráxico predominou em crianças saudáveis de 7 anos de idade, freqüentadoras da rede particular de ensino. Assim, seria esperado que na faixa de 10 a 12 anos houvesse predomínio do perfil hiperpráxico, ou que, ao menos, crianças nessa idade estivessem passando por uma transição do perfil eupráxico para o hiperpráxico.

Na reavaliação, manteve-se o predomínio do perfil eupráxico na maioria dos fatores, porém já delineando uma transição para o perfil hiperpráxico, visto que nos fatores equilibração e praxia fina houve participantes que passaram a apresentar perfil hiperpráxico e, no fator praxia global, passou a haver predomínio do perfil hiperpráxico. No fator tonicidade todos os participantes passaram a apresentar perfil eupráxico, o que pode proporcionar uma base estável para o desempenho psicomotor nos outros fatores, uma vez que a organização tônica é um suporte para toda a atividade motora1. Da mesma forma, o aprimoramento da equilibração favorece que o indivíduo possa realizar atividades motoras com baixo gasto energético. Com isso, o desempenho motor de forma geral é favorecido1.

Após a intervenção psicomotora, a maior diferença foi notada no desempenho no fator estruturação espaço-temporal. Este era o fator com maior porcentagem de participantes com perfil dispráxico e todos evoluíram para o perfil eupráxico. O aprimoramento observado nas habilidades de estruturação espaço-temporal permite movimentos rítmicos e organizados, sendo crucial no desempenho coordenado de qualquer ato motor17. O resultado observado pode, ainda, favorecer a capacidade de aprendizagem das crianças, uma vez que a má estruturação espaço-temporal está associada com dificuldades de aprendizagem escolar18.

Na praxia global, o perfil médio das crianças evoluiu de predominantemente eupráxico para hiperpráxico, favorecendo a habilidade na execução das atividades motoras. Este resultado concorda com o de Valentini19, que também verificou, após intervenção motora, ganho qualitativo nas habilidades motoras globais, como chutar e arremessar, em crianças em idade escolar que apresentavam atraso motor em relação a sua faixa etária. O resultado observado quanto à praxia fina sugere transição para o perfil hiperpráxico, fato que pode ter impacto positivo no desempenho escolar dos participantes18. Além disso, de acordo com Piek et al.20, crianças com desempenho motor fraco estão em risco de dificuldades sociais, emocionais e comportamentais, o que justifica a importância de intervir nas dificuldades motoras apresentadas.

Quanto ao fator lateralização, apesar de não se ter observado diferença estatisticamente significativa, observou-se evolução no perfil psicomotor dos participantes. Com relação ao fator noção do corpo, não se verificou alteração com o programa de intervenção. Macedo et al.21 observaram, em escolares de baixo nível socioeconômico, grande prevalência de dificuldade na formação do esquema corporal, independentemente da participação em programas de estimulação. No entanto, considerando-se que essa habilidade está em constante adaptação ao longo da vida do indivíduo, sugere-se que uma intervenção mais especificamente direcionada para a noção corporal possa resultar em aprimoramento.

Considerando-se a pontuação geral, verificou-se que a intervenção psicomotora aplicada favoreceu significativamente o aprimoramento do perfil psicomotor dos participantes, que passou de normal para bom. Diversos estudos confirmam o fato de que programas de intervenção psicomotora exercem importante contribuição no desenvolvimento de crianças expostas a fatores de risco. Para Goodway e Branta22 as habilidades de locomoção e controle de objetos (como lançar e chutar a bola) podem ser aprimoradas com programas de intervenção direcionados a pré-escolares com atraso motor. Pré-escolares típicos também podem se beneficiar da intervenção, como relatado por Kelly et al.9, o que sugere que a reeducação é viável e benéfica no ambiente escolar, onde se encontram tanto crianças expostas a fatores de risco quanto crianças com desenvolvimento saudável.

Além dos benefícios citados, a expansão das habilidades promovida pela intervenção psicomotora representa um resultado importante também pelos efeitos psicossociais proporcionados à criança. De acordo com Miller et al.23, dificuldades motoras na infância podem ter impacto negativo sobre a autopercepção de competência, resultando em prejuízo ao autoconceito, baixa auto-estima, problemas comportamentais e desajuste social. Como as dificuldades motoras são potencialmente modificáveis, a identificação e tratamento dos défices motores são importantes para amenizar os possíveis efeitos negativos dessas dificuldades. Para crianças de baixo nível socioeconômico, acrescenta-se a possibilidade de promover maior inclusão social, contribuindo para reduzir as barreiras sociais que interferem em seu desenvolvimento.

Os resultados obtidos sugerem que a amostra estudada apresentava desempenho inadequado para a faixa etária, pois espera-se que crianças a partir de 8 anos não tenham dificuldades com habilidades psicomotoras básicas1,17, mas que o programa de intervenção foi capaz de induzir mudanças em seu perfil psicomotor. Tendo em vista que nesta faixa etária as mudanças não são tão rápidas como as ocorridas em crianças mais jovens17, considera-se que os resultados observados em tão curto período de tempo refletem efeitos positivos do programa de intervenção.

 

CONCLUSÃO

Os resultados sugerem que o programa de intervenção foi capaz de beneficiar o desempenho psicomotor dos participantes. Novos estudos são necessários, com amostra maior e maior período de intervenção psicomotora, porém o fato de os participantes terem apresentado evolução no perfil psicomotor sugere que, na faixa de 10 a 12 anos, ainda é possível intervir, promovendo aprimoramento no perfil psicomotor das crianças. Desse modo, programas de intervenção psicomotora devem ser incentivados, principalmente em comunidades de baixo nível socioeconômico, a fim de permitir as melhores oportunidades possíveis para um desenvolvimento saudável e amenizar os efeitos desfavoráveis das condições socioeconômicas sobre o desenvolvimento infantil.

 

Agradecimentos

À equipe do Projeto SOS Bombeiros no Resgate da Cidadania, do município de São Carlos/SP, pela valiosa contribuição para o desenvolvimento do estudo.

 

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Endereço para correspondência:
Ana Carolina de Campos
R. Dona Alexandrina 1106 Centro
13566-290 São Carlos SP
e-mail: campos.anacarol@gmail.com

Apresentação jan. 2008
Aceito para publicação maio 2008
Este estudo teve apoio de Bolsa de Iniciação Científica da Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

 

 

Estudo desenvolvido no Depto. de Fisioterapia da UFSCar - Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil
Trabalho apresentado no XIII Congresso de Iniciação Científica da UFSCar e no XIII Simpósio de Fisioterapia da UFSCar, com publicação de resumo.