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Fisioterapia e Pesquisa

versão impressa ISSN 1809-2950

Fisioter. Pesqui. vol.21 no.4 São Paulo out./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.590/1809-2950/13223421042014 

Pesquisas Originais

Fatores associados à capacidade funcional de idosos cadastrados na Estratégia Saúde da Família

Débora de Melo Trize 1  

Marta Helena Souza de Conti 2  

Márcia Aparecida Nuevo Gatti 2  

Natasha Mendonça Quintino 1  

Sandra Fiorelli Almeida Penteado Simeão 2  

Alberto de Vitta 2  

1Curso de Fisioterapia, USC - Bauru (SP), Brasil

2USC - Bauru (SP), Brasil

RESUMO

O objetivo deste estudo foi verificar o nível de capacidade funcional em indivíduos de 60 anos ou mais da Estratégia Saúde da Família "Vila São Paulo", em Bauru, São Paulo, e sua associação com as variáveis sociodemográficas, comportamentais, ergonômicas e de saúde referidas. Realizou-se um estudo transversal com 363 idosos amostrados no local da análise, pela técnica de conglomerado em dois estágios, entrevistados nos domicílios pelo instrumento multidimensional (sóciodemográficos, comportamentais, ergonômicas e de saúde referida); pelo questionário Nórdico e pelas escalas de Katz e Lawton. Análises descritiva, bivariada e multivariada por regressão logística foram utilizadas. Notou-se que 36,9% dos idosos eram dependentes nas atividades de vida diária e 51,0% nas atividades instrumentais de vida diária; a incapacidade funcional para as atividades de vida diária foi associada à faixa etária, aos movimentos repetitivos, ao sedentarismo, ao número de doenças referidas e à dor musculoesquelética, enquanto que anos de estudo, movimentos repetitivos, número de doenças referidas e sedentarismo mostraram associação com a diminuição das atividades instrumentais de vida diária. As características identificadas que se relacionaram à incapacidade para as atividades de vida diária e instrumentais de vida diária sugerem uma complexa rede causal, sendo necessárias ações preventivas especificamente voltadas para certos fatores, propiciando benefícios à qualidade de vida dos idosos.

Palavras-Chave: Envelhecimento; Saúde do Idoso; Fatores de Risco

INTRODUÇÃO

O envelhecimento é um processo natural que compromete os aspectos físicos e cognitivos, desencadeando a dependência nas atividades básicas e instrumentais, como sair de casa, tomar banho, urinar, entre outras1.

A capacidade funcional (CF) se refere à potencialidade para desempenhar as atividades de vida diária ou determinado ato sem necessidade de ajuda2, imprescindíveis para uma melhor qualidade de vida3. A escala de Katz para as atividades de vida diária (AVD) e as de Lawton para as atividades instrumentais de vida diária (AIVD) são as medidas frequentemente utilizadas para avaliar a CF do indivíduo.

Estudos mostram que faixa etária mais elevada, sexo feminino, situação conjugal (viuvez), baixa situação econômica, baixo nível de escolaridade, sedentarismo, equilíbrio e mobilidade prejudicados, depressão e déficit cognitivo estão relacionados às incapacidades de vida diária e instrumentais1 , 4 - 7.

A avaliação da CF é relevante em Gerontologia como um indicativo da qualidade de vida do idoso, sendo que o desempenho das AVD é considerado um parâmetro utilizado por profissionais da saúde para avaliar diversos graus de dependência dos indivíduos8. Por meio de avaliação da CF, é possível programar um levantamento de dados para que gestores do Sistema Único de Saúde promovam políticas locais de ações em saúde, visando à manutenção da CF, diretriz vigente da Política Nacional de Saúde do Idoso9.

Dessa forma, este estudo teve como objetivo verificar o nível da CF em indivíduos de 60 anos ou mais e sua associação com as variáveis sóciodemográficos, comportamentais, ergonômicas e de saúde referida.

METODOLOGIA

Estudo transversal com indivíduos de 60 anos ou mais nas áreas circunscritas às das Estratégias Saúde da Família (ESF) na região Norte de Bauru, no Estado de São Paulo, com duas equipes. Essa unidade foi escolhida por ser de atuação da Universidade Sagrado Coração (USC) na Atenção Básica. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da USC (238/11).

A população acima de 60 anos cadastrada na ESF é de 643 sujeitos. O tamanho amostral foi calculado a partir da população (643), da prevalência estimada de 29% de baixa CF do erro amostral de 3% e do nível de confiança de 95%10.

Foi utilizada uma amostra por conglomerados em dois estágios. No primeiro, as Unidades de Saúde da Família foram selecionadas como básicas de seleção. Nelas, realizou-se a amostragem estratificada proporcional à quantidade de idosos cadastrados por área de abrangência de cada agente comunitário e sexo. No segundo, o idoso foi considerado a unidade amostral, escolhido randomicamente a partir do cadastro das famílias atendidas pelo agente.

As entrevistas foram realizadas nos domicílios dos idosos sorteados, tendo sido excluídas as pessoas incapacitadas para responderem o questionário. Quando o morador não estava presente, após três tentativas ou impossibilidade de resposta, sorteou-se outro idoso. O supervisor realizou o controle de qualidade, que consistiu na aplicação de questionários com número reduzido de questões a 10% dos entrevistados.

Foi utilizado um questionário pré-codificado, composto por variáveis demográficas (sexo, idade, estado civil e cor da pele), socioeconômicas (escolaridade e renda), comportamentais (nível de atividade física e tabagismo), ergonômicas (trabalho sentado, em pé, agachado, deitado, ajoelhado, vibração e/ou trepidação, carregamento de peso, movimento repetitivo), dor musculoesquelética e morbidade referida. Todas elas foram consideradas independentes.

O tabagismo foi coletado nas categorias de não fumante, ex-fumante (parou há mais de seis meses) ou fumante atual (um ou mais cigarros por dia há mais de um mês). O nível de atividade física foi avaliado pelo Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ)11.

As doenças relatadas foram documentadas por meio de entrevistas, nas quais o sujeito escolheu entre as alternativas: hipertensão, osteoporose, diabetes, osteoartrose, doenças da pele, gastrintestinal, respiratória, do pâncreas ou fígado, sistema genital e urinário, como aquela(s) que corresponde(m) a diagnóstico(s) que tenha recebido de algum médico, nos últimos 12 meses. A dor musculoesquelética foi reportada por meio do questionário Nórdico12.

A variável dependente (CF) foi declarada por meio das escalas de Katz13 e Lawton14. Optou-se por estes instrumentos em função de sua ampla utilização em pesquisas e seu reconhecimento para a avaliação funcional da pessoa idosa10.

Para a análise dos dados, utilizou-se o programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 10.0 (SPSS Inc., Chicago, Estados Unidos). Foram feitas as distribuições das frequências absoluta e relativa para variáveis categóricas e a análise bivariada, por meio do teste de Pearson. A análise multivariada foi realizada por regressão logística binária, seguindo o modelo hierárquico, introduzindo as variáveis em forma de blocos, permanecendo no modelo subsequente apenas aquelas que tiveram significância estatística (p<0,05) no anterior. O critério de saída em cada um deles foi p<0,10. No fim, chegou-se a um modelo final de regressão com apenas as variáveis com maior significância estatística. O método adotado foi o backward stepwise. Considerou-se um nível de significância de 5% e intervalo de confiança de 95% (IC95%), com cálculo do Odds Ratios ajustado15.

RESULTADOS

Foram estudados 363 idosos, considerando 3,2% de recusas e 1,2% de exclusões, média de idade de 70,04 (±7,89) anos. Na Tabela 1 notam-se, em ambos os sexos, concentrações na faixa etária de 60 a 69 anos, com idosos casados, brancos, com três a quatro anos de estudo, ganhando de dois a cinco salários-mínimos e até duas doenças e sedentários.

Tabela 1. Distribuição das frequências dos idosos segundo as variáveis sociodemográficas, as doenças relatadas e a atividade física dos idosos 

Fator Sexo
Masculino
n (%)
Feminino
n (%)
Idade
60–69 116 (54,5) 80 (53,3)
70–79 72 (33,8) 54 (36,0)
>80 25 (11,7) 16 (10,7)
Estado conjugal
Casado 94 (44,1) 116 (77,3)
Viúvo 89 (41,8) 10 (6,7)
Solteiro 10 (4,7) 5 (3,3)
Separado 20 (9,4%) 19 (12,7)
Raça
Branca 106 (49,8) 65 (43,3)
Preta 30 (14,1) 24 (16,0)
Parda/mulata 77 (36,2) 61 (40,7)
Anos de estudo
1 90 (47,0) 36 (33,3)
2 20 (9,4) 20 (13,3)
3 a 4 66 (31,0) 55 (36,7)
5 a 8 27 (12,7) 25 (16,7)
Renda
Até 1 SMN 71 (33,3) 35 (23,3)
De 2 a 5 SMN 142 (66,7) 115 (76,7)
Doenças relatadas
Até 2 116 (54,5) 87 (58,0)
3 ou mais 97 (45,5) 63 (42,0)
Atividade física
Sedentário 181 (85,0) 99 (66,0)
Ativo 32 (15,0) 51 (34,0)

SMN: salário-mínimo

Em relação à capacidade do idoso em executar as AVD, observou-se que 36,9% eram dependentes e 63,1% independentes, enquanto que, para as AIVD, 51,0% eram dependentes e 49% independentes.

Na Tabela 2 observou-se relação significativa das AVD com faixa etária, sexo, raça, anos de estudo, doenças relatadas, sedentarismo e dor musculoesquelética e as AIVD associaram-se à idade, aos anos de estudo, às doenças relatadas, ao sedentarismo e à dor musculoesquelética.

Tabela 2. Análise bivariada entre as características sociodemográficas, as doenças relatadas e o nível de atividade física, as atividades de vida diária e instrumental de vida diária em idosos 

Fatores AVD AIVD
D
n (%)
I
n (%)
Valores do χ2 e p D
n (%)
I
n (%)
Valores do χ2 e p
Idade (anos)
60 a 69 63 (47,0) 133 (58,1) 4,1660,02 91 (49,2) 105 (59,0) 3,507
0,03
70 ou mais 71 (53,0) 96 (41,9)  94 (50,8) 73 (41,0)
Sexo
Feminino 45 (33,6) 105 (45,9) 5,248 0,01  73 (39,5)  77 (43,3) 0,540
0,26
Masculino 8 (66,4) 124 (54,1)  112 (60,5)  101 (56,7)
Raça
Branco 66 (49,3) 105 (45,9) 0,393
0,30
 87 (47,0)  84 (47,2) 0,935
0,54
Preta/Parda 68 (50,7) 124 (54,1)  98 (53,0)  94 (52,8)
Estado civil
Casados 75 (56,0) 135 (59,0) 0,308
0,32
 103 (53,7)  107 (60,1) 0,732
0,22
Viúvos, solteiros, separados 59 (44,0) 94 (41,0)  82 (44,3)  71 (39,9)
Anos de estudo
0 a 4 anos 78 (58,2) 112 (48,9) 2,931
0,05
 119 (64,3)  71 (39,9) 21,716
0,0001
5 a 8 anos 56 (41,8) 117 (51,1)  66 (35,7)  107 (60,1)
Renda em salários-mínimos
Até 1 43 (32,1) 63 (27,5) 0,857
0,21
 55 (29,7)  51 (28,7) 0,061
0,45
De 2 a 5 91 (67,9) 166 (72,5)  130 (70,3)  127 (71,3)
Doenças relatadas
Até 2 47 (35,1) 6 (49,8) 9,492
0,001
 77 (41,6)  126 (70,8) 31,304
0,0001
3 ou mais 45 (33,6) 115 (50,2)  108 (58,4)  52 (29,2)
Nível de atividade física
Sedentário 122 (91,0) 158 (69,0) 24,838
0,0001
 160 (86,5)  120 (67,4) 19,872
0,0001
Ativo 12 (8,9) 71 (31,0)  25 (13,5)  58 (32,6)
Dor
Até 2 regiões 62 (46,3) 141 (61,6) 8,032
0,003
 93 (50,3)  110 (61,8) 4,890
0,01
3 ou mais regiões  72 (53,7) 88 (38,4)  92 (49,7)  68 (38,2)

AVD: atividades de vida diária; AIVD: atividades instrumentais de vida diária; D: dependente; I: independente

As AVD (Tabela 3) associaram-se com movimentos repetitivos, transporte e carregamento de peso, posições sentada e sentada inclinando o corpo. Já as AIVD se relacionaram com movimentos repetitivos, posições ajoelhada e sentada erguendo peso.

Tabela 3. Análise bivariada entre as variáveis relacionadas ao trabalho e às atividades de vida diária e instrumental de vida diária em idosos 

Fatores AVD AIVD
D
n (%)
I
n (%)
Valores do χ2 e p D
n (%)
I
n (%)
Valores do χ2 e p
Movimentos repetitivos
Nunca/raramente 53 (39,6) 11 (4,8) 4,166
0,02
23 (12,4) 41 (23,0) 3,507
0,03
Geralmente/Sempre 81 (60,4) 218 (95,2) 162 (87,6) 137 (77,0)
Vibração
Nunca/raramente 79 (59,0) 129 (56,3) 0,238
0,35
107 (57,8) 101 (56,7) 0,045
0,45
Geralmente/Sempre 55 (41,0) 100 (43,7) 78 (42,2) 77 (43,3)
Transporte e carregamento de peso
Nunca/raramente 37 (27,6) 88 (38,4) 4,380
0,02
59 (31,9) 66 (37,1) 1,108
0,17
Geralmente/Sempre 97 (72,4) 141 (61,6) 126 (68,1) 112 (62,9)
Posição ajoelhada
Nunca/raramente 65 (48,5) 101 (44,1) 0,666
0,24
75 (40,5) 91 (51,1) 4,094
0,02
Geralmente/Sempre 69 (51,5) 128 (55,9) 110 (59,5) 87 (48,9)
Posição sentada
Nunca/raramente 105 (78,4) 148 (64,6) 7,545
0,004
124 (67,0) 129 (72,5) 1,273
0,15
Geralmente/Sempre 29 (21,6) 81 (35,4) 61 (33,0) 49 (27,5)
Sentada erguendo peso
Nunca/raramente 120 (89,6) 191 (83,4) 2,602
0,07
152 (82,2) 159 (89,3) 3,793
0,03
Geralmente/Sempre 14 (10,4) 38 (16,6) 33 (17,8) 19 (10,7)
Sentada inclinando o corpo
Nunca/raramente 100 (74,6) 135 (59,0) 9,099
0,002
115 (62,2) 120 (67,4) 1,097
0,17
Geralmente/Sempre 34 (25,4) 94 (41,0) 70 (37,8) 58 (32,6)
Posição em pé
Nunca/raramente 5 (3,7) 17 (7,4) 2,024
0,11
12 (6,5) 10 (5,6) 0,120
0,45
Geralmente/Sempre 129 (96,3) 212 (92,6) 173 (93,5) 168 (94,4)
Posição em pé inclinando o corpo
Nunca/raramente 12 (9,0) 21 (9,2) 0,005
0,55
16 (8,6) 17 (9,6) 0,089
0,45
Geralmente/sempre 122 (91,0) 208 (90,8) 169 (91,4) 161 (90,4)

AVD: atividades de vida diária; AIVD: atividades instrumentais de vida diária; D: dependente; I: independente

Na Tabela 4 verificou-se combinação das AVD com movimentos repetitivos, sedentarismo, doenças relatadas e dor musculoesquelética e, na Tabela 5, anos de estudo, movimentos repetitivos, doenças relatadas e sedentarismo associaram-se com a diminuição das AIVD.

Tabela 4. Análise multivariada de regressão logística para associações independentes com as atividades de vida diária 

Fator Valor p OR ajustado*/ IC95%
Faixa etária
60 a 69 anos 0,02 1,00
70 anos ou mais 1,85 (1,08–3,12)
Movimentos repetitivos
Nunca/raramente 0,0001 1,00
Geralmente/sempre 10,8 (6,27–30,55)
Doenças relatadas
Até 2 0,008 1,00
3 ou mais 2,09 (1,21–3,62)
Nível de atividade física
Ativo 0,001 1,00
Sedentário 3,89 (2,03–7,39)
Dor
Em até 2 regiões 0,006 1,00
3 ou mais regiões 2,12 (1,23–3,70)

ajustado por sexo, escolaridade, renda e atividade instrumental de vida diária; OR: Odds Ratio; IC: intervalo de confiança

Tabela 5. Análise multivariada de regressão logística para associações independentes com as atividades instrumentais de vida diária 

Fator Valor p OR ajustado*/ IC95%
Anos de estudo
5 a 8 0,001 1,00
0 a 4 3,12 (1,92–5,26)
Movimento repetitivos
Nunca/raramente 0,006 1,00
Geralmente/sempre 2,80 (1,45–5,32)
Doenças relatadas
Até 2 0,0001 1,00
3 ou mais 3,83 (2,35–6,24)
Nível de atividade física
Ativo 0,0001 1,00
Sedentário 3,25 (2,03–5,19)

*ajustado por sexo, faixa etária, renda e atividade de vida diária; OR: Odds Ratio; IC: intervalo de confiança

DISCUSSÃO

Neste estudo, observou-se uma maior frequência de idosos, de ambos os sexos, na faixa etária entre 60 e 69 anos e com renda de dois a cinco salários-mínimos, casados e com até quatro anos de estudo, corroborando com outros estudos5 , 16 , 17.

Dos idosos analisados, 36,9% eram dependentes nas AVD, coincidindo com os dados de Goiânia4, enquanto que, em Pelotas, no Rio Grande do Sul1, os percentuais foram inferiores. Com relação às AIVD, 51% dos participantes eram dependentes, sendo que este total em Pelotas1 foi de 28% e em Goiânia4 de 72,6%.

A prevalência das AVD foi 10,8 vezes maior nos idosos que realizavam atividades ocupacionais que exigiam movimentos repetitivos. Os fatores de risco do trabalho geram degeneração das fibras musculares e diminuição da condução nervosa, com consequências na limitação da amplitude do movimento, perda da força muscular e perturbações da percepção sensorial, o que contribui para a diminuição da CF do indivíduo ao envelhecer18.

Os idosos que relataram mais de uma doença apresentaram cerca de duas vezes mais chances de incapacidade funcional para AVD e 38% mais para AIVD, semelhante aos espanhóis6 holandeses19 e mexicanos20. As morbidades comprometem decisivamente a autonomia e a CF do idoso, podendo serem grandes riscos para as saúdes desta população e, consequentemente, favorecerem o desenvolvimento de incapacidades, as quais contribuem para diminuir a longevidade21.

Os idosos que relataram maior número de dores musculoesqueléticas tiveram maior dependência para realizar as AVD, fato semelhante aos do México20 e em Jequié, na Bahia22. A dor tem um impacto negativo na funcionalidade, favorece a redução dos arcos de movimento articular e fraqueza muscular, diminuindo os níveis de atividade física e, consequentemente, a qualidade de vida23 , 24.

Idosos sedentários tiveram 38 e 32% de mais chances de incapacidade funcional para AVD e AIVD, respectivamente, corroborando com os estudos em São Paulo24 e em Guatambu, em Santa Catarina25. A prática regular da atividade física vem sendo considerada como protetora das limitações, demonstrando também um melhor beneficio em relação à capacidade física nas idades mais avançadas25.

No presente estudo, os idosos mais velhos tiveram 18% mais chances de diminuição das AVD, o que foi confirmado por estudos na Inglaterra5, na Malásia7, no México20, em Jequié (BA)22, no Japão26 e nos Estados Unidos27. À medida que ocorre o avanço da idade, as limitações físico-orgânicas levam às repercussões sobre as funções física, intelectual e social, comprometendo as AVD e AIVD1 , 28.

A prevalência das AIVD foi 3,12 vezes maior em idosos com até quatro anos de escolaridade, confirmados por estudos1 , 7 , 10 , 17. A baixa escolaridade limita o entendimento das informações recebidas por profissionais de saúde e outros meios, interferindo na capacidade de autocuidado e adesão às intervenções, e o acesso aos serviços de saúde, devido à relação entre baixa escolaridade e renda3.

As principais limitações deste estudo foram: as medidas foram baseadas em autorrelatos de uma parte da cidade, não representando todos os idosos; a fonte de dados foi o cadastro da unidade de saúde e não os domicílios; não foi aplicado um teste de cognição como forma de critério de inclusão, como o Minimental; não foi utilizado o modelo proposto pela Organização Mundial de Saúde, que é a abordagem psicossocial; por se tratar de uma análise transversal, não é possível demonstrar relação de causalidade.

Um ponto favorável desta investigação foi a utilização de questionários validados para a população brasileira, assim como ter coletado dados de idosos circunscritos na mesma região geográfica e caracterizados com o nível de renda sem diferenças significativas.

CONCLUSÃO

Os resultados mostraram que 36,9% dos idosos foram classificados como dependentes nas AVD e 51% nas AIVD e que os principais fatores associados às AVD foram faixa etária, movimentos repetitivos, sedentarismo, doenças relatadas e dor musculoesquelética, enquanto que anos de estudo, movimentos repetitivos, doenças relatadas e sedentarismo se associaram com a diminuição das AIVD.

O presente estudo reforça a importância de estratégias voltadas à manutenção da saúde e de uma vida livre de incapacidade. Nesse sentido, a Fisioterapia possui papel central, pois é de sua prática profissional organizar e executar atividades individuais e coletivas de promoção da saúde e prevenção de morbidades, em todos os níveis de saúde.

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Estudo desenvolvido na Estratégia Saúde da Família da "Vila São Paulo" e Universidade do Sagrado Coração de Bauru (USC) - Bauru (SP), Brasil.

Fonte de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - Fapesp (processo 2011/18848-0)

Apresentação em evento científico: VI Congresso Internacional de Fisioterapia (2012) - Parecer de aprovação no Comitê de Ética nº 238/11.

Recebido: Abril de 2014; Aceito: Setembro de 2014

Endereço para correspondência: Alberto De Vitta - Rua Irmã Arminda, 10-50 - Jardim Brasil - CEP: 17011-160 - Bauru (SP), Brasil - E-mail: albvitta@yahoo.com.br

Conflito de interesses: nada a declarar

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