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Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação

versão impressa ISSN 1809-5844versão On-line ISSN 1980-3508

Intercom, Rev. Bras. Ciênc. Comun. vol.43 no.2 São Paulo maio/ago. 2020  Epub 04-Set-2020

https://doi.org/10.1590/1809-5844202023 

Artigos

OBJETOS DA COMUNICAÇÃO

Discursos diplomáticos: objeto de pesquisa da Comunicação Política?1

Discursos diplomáticos: ¿objeto de investigación de la Comunicación Política?

1(Universidade Federal do Paraná, Setor de Ciências Sociais Aplicadas, Programa de Pós-Graduação em Administração. Curitiba – PR, Brasil).

2(Universidade Federal do Paraná, Setor de Artes, Comunicação e Design, Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Curitiba – PR, Brasil).


Resumo

O discurso diplomático, com suas narrativas estratégicas, possui características que envolvem persuasão, dissimulação e convencimento. Neste sentido, é um dos elementos que colaboram com a formação da imagem pública das nações, posicionando-as no contexto mundial. Partindo deste enfoque, nos perguntamos acerca da ênfase dada pelo campo da Comunicação à análise dos discursos diplomáticos enquanto Comunicação Política. Para isso, mapeamos sete bancos de dados nacionais e internacionais. Como resultados, destacamos que, dadas as disputas de poder imbrincadas nas relações internacionais, os discursos diplomáticos emergem como parte de um processo estratégico de comunicação internacional mais amplo por parte de Estados e governos. Embora consideremos esses discursos um objeto de Comunicação Política, constatamos a existência de uma escassa literatura sobre o tema na área de Comunicação e apresentamos sugestões para futuras pesquisas.

Palavras-chave Comunicação Política; Discursos Diplomáticos; Comunicação Internacional; Imagem Pública

Resumen

El discurso diplomático, por sus narrativas estratégicas, posee características como la persuasión, la disimulación y el convencimiento. De ser así, es uno de los recursos que apoyan la formación de la imagen pública de las naciones, posicionándolas mundialmente. De ese modo, nos preguntamos si el campo de la comunicación considera los discursos diplomáticos como objeto de estudio de la comunicación política. Investigamos siete directorios de informaciones académicas de Brasil e internacionales para verificar cómo los discursos diplomáticos son considerados en el área. Los resultados nos muestran que ellos forman parte de estrategias de comunicación internacional por parte de Estados y gobiernos. No obstante, consideramos los discursos diplomáticos objeto de investigación de la comunicación política, todavía hay poca literatura especializada en el área de comunicación, por eso, intentamos presentar algunas sugerencias para futuras investigaciones.

Palabras clave Comunicación Política; Discursos Diplomáticos; Comunicación Internacional; Imagen Pública

Abstract

The main characteristics of any strategic narrative developed by diplomatic discourses involve persuading, dissimulating and convincing. Diplomatic discourses are, thus, one of the elements that contribute to the creation of nations’ public images and position them in the world. What is the emphasis given by the Political Communication field to the analysis of such discourses? Aiming at understanding whether diplomatic discourses can be taken as an object of research, we mapped seven national and international databases. As a result, we highlight that given the power struggles entangled in international relations, diplomatic discourses emerge as part of a broader strategic process of international communication by states and governments. Although we understand these discourses as an object of Political Communication research, we noticed the scarce literature regarding this object in the area of Communication and therefore we make suggestions for further researches.

Keywords Political Communication; Diplomatic Speeches; International Communication; Public Image

Introdução

Pesquisas com objetivo de inventariar o estado do conhecimento no campo da Comunicação vêm recebendo crescente atenção desde a década de 1990. Tais estudos emergem, especialmente, com o intuito de investigar a produção acadêmica sobre determinados objetos, possibilitando, assim, diagnosticar, delimitar, classificar e compreender as dimensões privilegiadas, ou não, em determinados períodos e regiões (FERREIRA, 2002, GOMES, 2016).

Segundo Gomes (2016), a atenção acadêmica é um indicador do nível e da intensidade que envolvem determinado campo de estudo. Logo, ao compreender os discursos diplomáticos como uma das formas de comunicação internacional realizada entre diferentes países, e amparado nos diagnósticos de Carvalho (2011), Gomes (2011) e Oliver (1950), autores que afirmam haver escassez nos estudos desse gênero discursivo, traçamos como objetivo deste trabalho avaliar como as pesquisas no campo da Comunicação, especialmente a Comunicação Política, têm trabalhado esse objeto.

Assim, realizamos uma pesquisa inventariante em sete bancos de dados científicos, nacionais e internacionais, para arrolar os estudos que tratassem de discursos diplomáticos e explorar as principais aplicações dadas a esses discursos nos diversos campos científicos. Amparados nesse inventário, destacamos algumas dessas pesquisas a fim de identificar e descrever os principais conceitos, métodos e abordagens de análise empregados. Por fim, utilizamos esses elementos para responder se é possível tratar esses discursos como objeto construído e constituído dentro do campo da Comunicação Política.

Dessa forma, este artigo está dividido em cinco seções. Após esta introdução, são apresentados os discursos diplomáticos como uma das formas de efetivação da comunicação na esfera internacional. Em seguida, é realizada a investigação do objeto de pesquisa propriamente dito, isto é, observamos a produção acadêmica relativa aos discursos diplomáticos. Na seção seguinte, refletimos acerca de como é possível situar esses discursos como objeto da Comunicação Política. Por fim, na última seção, tecemos as considerações finais relativas aos resultados encontrados.

A comunicação internacional e os discursos diplomáticos

No contexto das relações entre nações, os discursos diplomáticos aparecem como um meio pelo qual líderes mundiais desenvolvem narrativas e enredos que dão significado a suas ações, as quais reverberam e ampliam o seu alcance nos meios de comunicação. Não apenas isso, sob a ótica da comunicação política, esses discursos articulam jogos de disputas e/ou manutenção de poder. Há, assim, a expressão individual de um Estado, capaz de lidar com uma miríade de interesses fragmentados, a respeito de questões coletivas que virão a ser negociadas ou até mesmo impostas por meio de distintas relações de poder (FOUCAULT, 2001, MATOS E NOBRE; GIL, 2013, PUTNAM, 2010).

O espaço de atuação diplomática integra decisões de política externa manifestadas pelo ato discursivo, o qual acaba extrapolando “o plano meramente diplomático e integrase, de forma implícita ou explícita, ao discurso jornalístico e político e, mesmo, colore as imagens da política interna” (SANTOS, 2014, p. 11). Uma vez proferidos, os discursos diplomáticos compõem um espaço territorializado de disputas argumentativas, isto é, de disputas pela elaboração e prevalência de enquadramentos de sentido em que diferentes campos do saber-poder se articulam e se desarticulam de acordo com interesses e objetivos específicos.

A comunicação internacional realizada por meio desses discursos abrange disputas em que há articulações iterativas entre ao menos dois níveis de interesses e objetivos; aqueles que dizem respeito a discussões sobre política nacional entre grupos domésticos, e aqueles que se dão pela barganha entre negociadores em nível internacional, como bem apresenta Putnam (2010). No caso de democracias liberais, de um lado há a pressão de uma constelação de atores fragmentados, nacionais ou transnacionais, que precisam ser acomodados sob distintos arranjos institucionais. De outro, há a representação desses atores por meio dos discursos diplomáticos, os quais serão colocados por um líder nacional em espaços internacionais e que estarão condicionados ao poder de barganha desse Estado frente a outros atores.

Desse modo, o discurso do representante de um país possibilita compreender a lógica criada ao elogiar, criticar ou permanecer neutro diante da conjuntura internacional e/ou das ações de seus pares, pois as “circunstâncias modelam a criação da ideia que, uma vez introduzida no discurso diplomático, passa a ser uma circunstância que passa a delimitar a própria atividade diplomática” (SANTOS, 2014, p. 19). Em outras palavras, a atividade diplomática se desenvolve contingenciada a interesses domésticos e internacionais que se articulam e se apresentam nos e pelos discursos diplomáticos.

Esse aspecto da atividade diplomática traz, em si, inúmeras técnicas argumentativas e retóricas que, estrategicamente, servem para posicionar um país no mundo, de modo a aproximá-lo ou afastá-lo de outras nações, agentes transnacionais ou não-governamentais. Ainda, a construção de narrativas diplomáticas tem em sua lógica os modos como elas se tornam legíveis e visíveis pela circulação em distintos veículos e plataformas. A fala, portanto, pressupõe persuasão, dissimulação e convencimento, e é na amálgama entre a retórica e as lógicas de dispositivos de visibilidade que um Estado é dimensionado no cenário internacional e desenvolve tanto sua identidade quanto sua imagem pública.

O estudo da construção e da disputa de narrativas que envolve a manifestação da política externa perpassa disciplinas como as Relações Internacionais, a Ciência Política, a Linguística, a História e a própria Comunicação. No caso do campo de pesquisa que configura interseções entre Comunicação e Política, é possível verificar a abrangência de campos e metodologias que articulam e promovem intercâmbios entre variados campos do saber (MARQUES; MIOLA, 2018, PANKE; CERVI, 2011).

Ao que interessa o argumento desse trabalho - o posicionamento de discursos diplomáticos como objeto de pesquisa em Comunicação Política -, é possível observar pontos de convergência com a área em questão e, principalmente, o preenchimento de lacunas observadas em trabalhos que tratam do estado da arte na pesquisa em Comunicação Política (ALDÉ; CHAGAS; BASTOS DOS SANTOS, 2013, FRANÇA et al, 2018, MARQUES; MIOLA, 2018).

No que diz respeito às convergências, conforme mencionado, entendemos os discursos diplomáticos como um gênero discursivo que ilustra e configura as negociações políticas e que possibilita a identificação dos jogos de alianças e barganhas que as compõem. Não apenas isso, mas o uso estratégico de discursos também trata de questões de identidade e imagem pública em um complexo de sentidos partilhados por diversos sujeitos políticos (GOMES, 2004, FRANÇA et al, 2018).

Ao que tange às, dada a abrangência de investigações na área em questão e a dificuldade em delimitar objetos de estudo (MARQUES; MIOLA, 2018), ao longo deste trabalho buscamos posicionar e justificar a existência de um deles; os discursos diplomáticos. Além disso, verificamos que é possível situar a utilização de discursos diplomáticos realizada por diferentes agentes em diversas categorias temáticas propostas por Aldé, Chagas e Bastos dos Santos (2013), caso da Comunicação Institucional e Imagem Pública, Propaganda e Marketing Político, Políticas de Comunicação, ou Comunicação e Democracia, por exemplo.

Dada a existência de diferentes abordagens epistemológicas e ontológicas concernentes aos termos comunicação e discurso (JIAN; SCHMISSEUR; FAIRHURST, 2008, MARCHIORI et al, 2010, PUTNAM, 2008), tomamos como pressuposto de análise neste trabalho o entendimento de que discursos são um dos meios disponíveis para que a comunicação seja constituída como processo social de significação. Deste modo, compreendemos que os discursos são dinâmicos, com significados sendo construídos em uma constante inter-relação entre os integrantes do processo, o contexto, os signos utilizados, o tom e as bagagens socioculturais envolvidas. Esse é o caso, por exemplo, de um diplomata que se recusa a negociar com um interlocutor de posição inferior; uma escolha tanto racional quanto simbólica, que está entretecida dos diversos elementos mencionados (PUTNAM, 2010).

Ainda que o ato de fala traga oportunidades de conexão e, quiçá, reciprocidade entre atores, elas não estão isentas dos fluxos de poder oriundos de contextos políticos e históricos (JIAN; SCHMISSEUR; FAIRHURST, 2008). Consequentemente, é justamente nas negociações de sentidos entre constelações de atores e de interesses que se evidenciam tensões e contradições derivadas do ato discursivo, pois a dimensão relacional de poder se apresenta como aspecto inerente dessas trocas (FOUCAULT, 2001).

São essas relações que possibilitam que eventuais interações entre diferentes gêneros discursivos - entre os quais se situa o diplomático - sejam aproximadas para investigação por meio de distintos aparatos teórico-metodológicos. A avaliação desses discursos possibilitaria não apenas evidenciar fluxos e dinâmicas de controle, mas também de situar atores diplomáticos como agentes políticos de transformação em práticas social constituídas por essas trocas (BERGER; LUCKMANN, 1985, JIAN; SCHMISSEUR; FAIRHURST, 2008).

Relativo ao escopo internacional, Donahue e Prosser (1997) explicam que a comunicação ocorre essencialmente de duas maneiras, as quais atuam de forma específica e complementar. Os autores definem a primeira como a comunicação entre grupos que é partilhada por diferentes culturas coletivas. Já a segunda forma de comunicação internacional, também intercultural, é realizada por indivíduos que falam em nome de um Estado e, para isso, servem-se de discursos.

Na esfera internacional, Estados se apresentam como principais atores políticos nos processos de interação (CASTRO, 2012, MEARSHEIMER, 1995, 1994), os quais ocorrem por meio de inúmeras relações que “atravessam, caracterizam e constituem o corpo social e [...] não podem se dissociar, se estabelecer nem funcionar sem uma produção, uma acumulação, uma circulação e um funcionamento do discurso” (FOUCAULT, 2001, p. 101). Assim, os discursos diplomáticos suplantam as barreiras dos grandes foros internacionais ou de palanques montados ocasionalmente, pois imbricam relações de poder no contexto das lutas políticas.

Em sociedades cujo acesso aos meios de comunicação é amplo, a política também é feita pensando qualquer evento com a possibilidade de ser comentado e analisado tanto por adeptos, quanto por opositores de determinado sujeito político. O apogeu disso seria, então, quando “o líder de uma nação, ou o candidato prestes a tornar-se líder, fala em qualquer fórum público” (WILLIAMS; YOUNG; LAUNER, 2012, p. 1744 – Tradução nossa)2. É nesse momento em que a atenção de diversos públicos está voltada para o orador.

No caso dos discursos diplomáticos, objeto ao qual interessa a nossa análise, quando um chanceler, presidente ou primeiro ministro de uma nação vai à tribuna de uma organização internacional ou à mídia, ele está materializando a voz do país representado por ele (PANKE, 2010). É próprio da atividade diplomática a eliminação simbólica de si mesmo, a representação e a apresentação de um outro sujeito em seu lugar (SOFER, 1997).

Nesse momento, há o que Castro (2012) chama de estatalidade individual, isto é, a materialização do Estado por meio de uma pessoa comissionada por esse Estado para determinadas funções. Assim, embora não seja totalmente possível dissociar a corporeidade do sujeito de seu enunciado, da forma de enunciação ou dos seus trejeitos linguísticos, no ato da fala de um diplomata não se objetiva apresentar a pessoa X ou Y, mas o posicionamento, objetivos e posicionamentos da nação por ele representada.

Ainda que haja diversos níveis de barganha entre os atores políticos envolvidos em negociações internacionais, que podem conter low ou high politics3, as interações realizadas nos discursos, na troca de ideias e na palavra antifônica tornam possível “resolver as situações conflitantes sem aniquilar fisicamente o adversário” (FIORIN, 2015, p. 26). As negociações na esfera política apresentam interseções na forma como argumentos são articulados e, no caso dos discursos diplomáticos, entendemos que eles partem daquilo que existe e é socialmente construído, empregando argumentos e estratégias retóricas para, como objeto da comunicação política, articular jogos de disputa ou manutenção de poder, ocupando o espaço institucionalizado da tomada de decisões e reverberando nos meios de comunicação (MATOS E NOBRE; GIL, 2013).

Consonante com Riorda e Elizalde (2013, p. 9 – Tradução nossa) entendemos que “não é possível colocar em funcionamento, transformar uma estratégia em algo real, em algo que tenha efeitos, se não se utilizam diferentes níveis e dispositivos de comunicação”4. Há diversos elementos que devem ser considerados como essenciais para uma estratégia discursiva bem-sucedida; compreender as idiossincrasias do país representado pelo orador, quem são os seus interlocutores, qual é o seu lugar de fala, qual é a plataforma utilizada, e como diferentes códigos de comunicação podem reverberar a partir daquilo.

O poder político se manifesta, então, como resultado da dialética entre dois componentes da atividade humana, a saber, “o do debate de idéias [sic] no vasto campo do espaço público, lugar onde se trocam opiniões; [e] o do fazer político no campo mais restrito do espaço político, onde se tomam decisões e se instituem atos” (CHARAUDEAU, 2015, p. 22). Conforme afirma Riorda (2013), ainda que a comunicação não seja mais importante que as decisões de gestão, ela é condição sine quae non para o fazer política. Em outras palavras, não se faz política sem comunicação.

Discursos são planejados e produzidos para gerar efeitos junto à opinião pública; sempre serão intencionais. Nesse sentido, Monasterio (2013, p. 189 – Tradução nossa) 5 pondera sobre a importância dos discursos como estratégia de comunicação política que “poderia nos impulsionar ao topo do poder ou nos enterrar num poço de lama”. Logo, é necessário entender que oradores se baseiam em postulados para defender interesses das nações por eles representadas, partilhando o que é prioritário, afirmando sua soberania e se posicionando frente a outros Estados e instituições (CARVALHO, 2011).

Para Panke (2010, p. 25), os discursos políticos são a “manifestação pública e linguística, sobre a polis ou o espaço público, realizada por indivíduos, partidos, governos, sujeitos institucionais ou grupos organizados”. A autora menciona, ainda, algumas características adjacentes a esse tipo de discurso. Os discursos políticos (1) tratam de questões relacionadas à vida em sociedade; (2) podem apresentar problemas e apontar para soluções; (3) podem se apresentar de forma oral; (4) os seus oradores são legitimados para falar em nome de um grupo ideológico; (5) se projetam em relação ao futuro e tomam o passado como referência; 6) possuem caráter essencialmente persuasivo.

Diante disso, verificamos que discursos diplomáticos não são apenas uma das funções da prática diplomática, mas também podem ser entendidos como uma das modalidades de discursos políticos, bem como os discursos eleitoral, governamental, partidário, sindical, entre outros (PANKE, 2010). O que caracteriza o discurso diplomático é seu gesto político: ele versa retoricamente sobre um posicionamento oficial, buscando exercitar a existência de dissensos por meio do diálogo a fim de favorecer o viés do seu orador.

Em outras palavras, uma vez que o gesto político presente no discurso diplomático se dá ao considerar o dissenso, ou o conflito, como elemento inerente à atividade política (LEBRUN, 1981), compreender essa lógica leva-nos a perceber que sempre haverá um viés a favor da exploração de determinados tipos de conflitos (SCHATTSCHNEIDER, 1975). A diplomacia como prática dos Estados combina, portanto, a “técnica e arte das negociações, das pressões, das chantagens, da persuasão” (ALMEIDA apud CASTRO, 2012, p. 28).

Outras características dos discursos diplomáticos, elencadas por Oliver (1950), nos mostram que há uma racionalização da fala que dá espaço para a ambiguidade e para autocontradição, elementos que devem estar presentes no caso de mudança de políticas e posicionamentos de governo. Tal qual os discursos políticos, a despersonalização do orador se dá no momento em que ele fala em nome de um governo e não por si mesmo. Para o autor, os discursos diplomáticos não são necessariamente conciliatórios, pois a sua linguagem poderia ser brusca e dirigir a mudanças. Portanto, o orador deve saber expressar exatamente o grau de hostilidade, amizade ou indiferença relativa a um governo.

O fato de discursos diplomáticos serem empregados para mediar relações entre nações potencializa a sua força como meio de transmissão, disseminação e ampliação de mensagens (HUNT, 2015). Podemos verificar, então, a existência de interseções entre discursos políticos e diplomáticos, podendo estes serem considerados uma das subcategorias dos discursos políticos a partir de “três Rs”: representação, racionalidade e referência.

Em primeiro lugar, ambos gêneros discursivos têm em seu orador um representante legitimado por um grupo social para falar sobre questões relativas à vida em sociedade, somente apontando problemas ou propondo soluções. Segundo, é a partir da racionalização da fala que os discursos expressam vieses desses grupos a fim de garantir que o seu ponto de vista seja favorecido. Terceiro, esses discursos utilizam como fundamento as referências que os oradores e seus grupos possuem no e do contexto em questão.

Amparados nesse aparato teórico, e dada a relevância dos discursos diplomáticos para a comunicação política internacional, trazemos na seção seguinte um levantamento da produção acadêmica deste tema.

A produção acadêmica de estudos sobre discursos diplomáticos

Ainda em 1950, Oliver (1950) afirmou que o campo de estudos que abrange os discursos diplomáticos era largamente indefinido e negligenciado tanto por linguistas, como por estudiosos das Relações Internacionais. Em consonância, enquanto Gomes (2011) afirmou que a análise desses discursos na área de Relações Internacionais permanece uma seara subexplorada, Carvalho (2011) reconheceu que a linguagem diplomática não vinha recebendo atenção apropriada em estudos linguísticos ou históricos.

Diante da relevância dos discursos para a Comunicação Política, buscamos avaliar se isso também se confirma na área da Comunicação. Para isso realizamos uma varredura em bancos de dados científicos nacionais e internacionais e inventariamos pesquisas que tratam de discursos diplomáticos. Baseados em Gomes (2016), adotamos como premissa para o estado da arte que a atenção acadêmica é um indicador de interesse que envolve determinado campo de estudo.

Para isso realizamos a coleta dos metadados a partir de sete fontes distintas, contemplando buscas desde 1980 até 20186: (1) o Banco de Teses e Dissertações da Capes (BTDC)7; os artigos publicados e indexados nas plataformas (2) EBSCOhost8, (3) ScienceDirect9 e (4) SciELO; e em anais de três dos principais congressos científicos da área de Comunicação realizados em território brasileiro, a saber, o da (5) Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica)10, o da (6) Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós)11 e (7) o Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom)12.

As buscas foram realizadas tomando como referência quatro expressões que poderiam estar presentes no título, nas palavras-chave ou nos resumos dos artigos, sendo elas (1) discurso diplomático, (2) diplomatic discourse, (3) diplomatic address, (4) diplomatic speech. A partir disso encontramos os resultados apresentados no quadro a seguir (Quadro 1).

Quadro 1 Publicações sobre discursos diplomáticos por base de dados e período de análise 

Base de Dados Quantidade de Trabalhos Período de Abrangência
BTDC 22 1997-2018
EBSCOhost 63 1988-2018
SciELO 5 1998-2018
ScienceDirect 16 1980-2018
Compolítica - 2006-2017
Compós - 2000-2018
Intercom - 1994-2018

Fonte: elaborado pelos autores.

Ainda que haja publicações anteriores às coletadas nos bancos de dados em questão13, a quantidade de pesquisas científicas referentes aos discursos diplomáticos ainda é baixa, em especial na área da Comunicação no Brasil, pois três importantes congressos científicos de âmbito nacional da área – Compolítica, Compós e Intercom – não apresentaram sequer uma publicação em seus anais ao longo dos anos. Quanto aos anais desses congressos, as pesquisas encontradas sobre discursos versam sobre questões epistemológicas, discurso político, eleitoral, midiático, jornalístico, publicitário e questões de gênero, mas passam ao largo dos discursos diplomáticos.

Diante deste diagnóstico, nos questionamos quais seriam os motivos dessa baixa adesão a esta linha de estudo. Isso seria apenas resultado da falta de interesse dos pesquisadores da área? Assim, apresentamos no Gráfico 1 a produção nacional e internacional por área. Quanto à produção nacional, as áreas de Ciência Política e Relações Internacionais são as que mais trazem pesquisas sobre discursos diplomáticos no Banco de Teses e Dissertações da Capes (BTDC), representando um total de 68%. Em relação à plataforma SciELO, foram raspados apenas cinco artigos contendo as palavras-chave, sendo três deles na área de Ciência Política e Relações Internacionais, e o restante em Sociologia.

No contexto internacional, a plataforma EBSCOhost foi a que mais trouxe estudos no tema, com um total de 63 artigos produzidos entre os anos de 1988 e 2018. Desses, as áreas que mais produzem são a Ciência Política e Relações Internacionais (44%), seguida de Letras e Linguística (24%). Já a plataforma ScienceDirect publicou 16 pesquisas que foram desenvolvidas em campos de conhecimento diversificados, conforme ilustrado no gráfico a seguir (Gráfico 1).

Fonte: elaborado pelos autores.

Gráfico 1 Publicações sobre discursos diplomáticos por base de dados e área de conhecimento 

Interessa-nos notar que, no caso do BTDC, a ênfase é dada à área de Ciência Política e Relações Internacionais, o que talvez possa ser justificado pelo fato de esses discursos poderem ser empregados como mobilizadores de conceitos e práticas políticas no cenário internacional, como é o caso da própria atuação diplomática Brasil, que possui voz ativa em diversos foros internacionais como as Nações Unidas.

As plataformas internacionais (EBSCOhost e ScienceDirect), por outro lado, apresentam uma diversidade de estudos mais fragmentada, dando prioridade às áreas de Ciência Política e Relações Internacionais, e Letras e Linguística. Quanto a estas, talvez a justificativa se ampare na necessária compreensão dos aspectos linguísticos tangentes ao objeto. Igualmente, aproximações antropológicas, sociológicas e jurídicas também carecem de estudos, pois apresentam pesquisas de modo bastante incipiente nos bancos de dados avaliados.

Os estudos específicos da área de Comunicação estão apenas no BTDC e na plataforma EBSCOhost, exibindo uma (5%) e quatro pesquisas (6%), respectivamente. Isso mostra que o campo de estudos em questão permanece não apenas pouco explorado, mas indica potencial para o desenvolvimento de pesquisas e para a aplicação de distintas metodologias. Entretanto, uma justificava para esta baixa adesão poderia ser encontrada na análise do escopo dos principais grupos de pesquisa nacionais e internacionais que trabalham com comunicação política.

A fim de compreender de que forma as pesquisas aproximam os discursos diplomáticos e auxiliar no desenvolvimento de futuras pesquisas, a seguir descrevemos algumas delas. Donahue e Prosser (1997) afirmam ter publicado o primeiro trabalho com propostas para a análise de discursos diplomáticos nas Nações Unidas. Os autores revisam diferentes métodos para dar conta desse tipo de discurso e abrem espaço para aplicações da Análise do Discurso e da Análise da Retórica. Por se apresentar como uma obra precursora, os autores propõem possibilidades de estudos sem, necessariamente, defender uma tese senão a da importância desse tipo de investigação.

Há, contudo, estudos anteriores, caso das publicações de Robert T. Oliver na década de 1950 (OLIVER, 1950, 1951, 1954) e de Claudio A. Cioffi-Revilla, de 1979. Oliver (1950, 1951, 1954) expõe mais prognósticos de pesquisa, sob a forma ensaística, do que resultados em sua publicação. O autor traz quatro propostas para pesquisas, sendo a primeira a análise da fala de diplomatas que tornaria possível: (a) avaliar diferentes considerações a respeito de determinado tema; (b) observar métodos de apelo a diferentes públicos; (c) avaliar o sucesso em julgar e atrair o público em direção aos seus interesses; e (d) definir e delimitar a racionalização feita pelo orador.

A segunda proposta do autor é a análise de discursos relativos a quaisquer problemas diplomáticos, como a tentativa de estabelecer um acordo de paz entre as Coreias do Norte e do Sul, por exemplo. Uma vez que organizações internacionais possuem línguas oficiais para as quais os discursos são traduzidos, também existe a possibilidade de comparar os discursos de diferentes países a partir de fontes oficiais. A título de ilustração, no caso da Organização das Nações Unidas, poderíamos realizar uma comparação entre as traduções de discursos para o árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e/ou russo.

A terceira possibilidade é a análise da recepção e enquadramento em diferentes países e/ou referente a distintos discursos. Hodiernamente, isso poderia ser feito pelo estudo de cobertura midiática e de repercussão internacional. A quarta possibilidade é a análise de uma política governamental desde a sua apresentação, passando pelo seu desenvolvimento, ou florescimento como coloca Oliver (1950), culminando em sua conclusão ou abandono.

O estudo de discursos diplomáticos realizado por Cioffi-Revilla (1979) se dá sob uma ótica instrumental e traz três perspectivas principais: canais, sinais-mensagens e redes. O autor propõe um complexo modelo para descrever o fluxo de comunicação produzido por discursos diplomáticos, que é descrito como não linear e sujeito a ruídos. Ainda que a comunicação internacional por discursos diplomáticos esteja sujeita a interpretações e julgamentos, há a importância de dois processos em sua discussão: a codificação realizada pelo emissor e a decodificação realizada pelo interlocutor.

Ao analisar a diplomacia como comunicação e a linguagem como um meio ativo para criar ideias, Gorenc (2011) avalia diferenças entre discursos diplomáticos e políticos, advogando que enquanto estes empregam uma linguagem “colorida” e rica em metáforas, aqueles deveriam utilizar uma linguagem neutra e menos implícita, de modo a evitar desentendimentos entre interlocutores. Diferentemente de Oliver (1950), Gorenc (2011) não divisa a possibilidade de contradições e de uma linguagem voltada para o conflito nessa modalidade discursiva. A percepção do autor, contudo, parece-nos descolada de uma realidade em que discursos são efetuados visando, inclusive, provocar e desqualificar adversários políticos e desestabilizar somente com o uso da palavra, como quando o premiê israelense Benjamin Netanyahu afirmou em seus discursos na Assembleia Geral da ONU que o Irã possuía depósitos secretos de armas nucleares14.

O estudo de Yang (2014), por sua vez, defende que a imagem favorável de um país é um valor intangível que pode fortalecer a confiança e coesão de um povo. Com isso, o autor apresenta a construção da imagem nacional chinesa por meio de elementos culturais e avalia as distintas plataformas pelas quais essa imagem foi construída, incluindo os discursos diplomáticos. Há, ainda, o estudo de Wiethoff (1981), que mede as principais práticas dos discursos diplomáticos descritos pelo clássico da ciência política Nicolau Maquiavel, enfatizando características e estratégias retóricas da comunicação política.

Autores como Cervo e Bueno (2012) e Almeida (2006) utilizam os discursos brasileiros como elementos de referência ao longo dos seus estudos sobre a Política Externa Brasileira. As análises dos autores são qualitativas e não-estruturadas. Semelhantemente, Corrêa (2007) apresenta os discursos brasileiros nas Nações Unidas entre os anos de 1946 e 2006. Essa obra é recomendada como base para uma visão histórica da diplomacia brasileira, pois o autor compilou, transcreveu, contextualizou e analisou os discursos. A publicação traz uma valiosa contribuição à histografia brasileira, pois fornece uma contextualização das circunstâncias internas e externas nas quais o Brasil esteve imerso ao longo dos anos.

Machado (2006), por sua vez, toma os discursos diplomáticos brasileiros proferidos nos governos de José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, isto é, entre 1985 e 1999, para identificar operações ideológicas em função da inserção internacional do Brasil. A conclusão do autor é que ao longo dos quinze anos houve continuidade na condução da política externa brasileira no que diz respeito a operações ideológicas, especialmente ligadas ao apoio de políticas neoliberais e ao discurso de legitimação de um processo de abertura econômica.

O método de Análise do Discurso, instrumentalizado por Santos (2006), visa avaliar processos de construção de identidades, relações sociais e representações sociais a partir dos discursos diplomáticos brasileiros. A partir da análise de formações discursivas, em especial nas declarações finais de cúpulas presidenciais sul-americanas e na imprensa escrita, a autora avalia que há uma ressignificação narrativa do fenômeno “América do Sul” colocada como uma espécie de nova região do mundo, diferente da América Latina e que faz parte de um projeto de integração regional envolvendo aspectos econômicos, físicos, políticos e culturais.

Por meio da análise qualitativa descritiva dos discursos diplomáticos brasileiros durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Rodrigues (2015, p. 6) “propõe uma reflexão sobre como o discurso diplomático estabelece um enredo para identidade nacional e colabora para a construção de uma narrativa de país”. Para demonstrar as inter-relações entre o discurso e a identidade nacional no desenvolvimento do mito nacional brasileiro, o autor desenvolve sua pesquisa a partir de quatro categorias, a saber: América Latina; Brasil Africano; Brasil Emergente; e Autoestima. Seriam esses os quatro principais eixos encontrados pelo autor nos discursos relativos à identidade brasileira.

Também por meio de uma análise qualitativa, Barbosa (2011) investiga a importância atribuída ao sul-americanismo na política externa do Brasil nos discursos diplomáticos dos governos de Lula da Silva (2003-2010). A autora conclui que “a consolidação da América do Sul, no entendimento do governo brasileiro, seria um processo chave na qualidade da inserção internacional do Brasil” (BARBOSA, 2011, p. 5).

A título de ilustração, os discursos diplomáticos brasileiros podem ser classificados em dois períodos distintos, que são marcados pela atuação internacional do governo de Lula da Silva. Se até o fim do governo Cardoso houve uma ênfase discursiva ao neoliberalismo, a partir de Lula da Silva o destaque passa aos países emergentes, em especial às Américas do Sul e Latina e ao continente africano, sendo que o Brasil se apresenta como potência e uma espécie de porta-voz dessas regiões.

Não obstante, dos estudos inventariados nesta pesquisa, percebemos a preferência dos autores por métodos qualitativos, caso da Análise do Discurso, francesa ou norte-americana. Através da busca nos bancos de dados encontramos apenas um trabalho que emprega método de análise quantitativo; Castro (2015) realiza uma Análise de Conteúdo para estudar o uso da palavra paz nos discursos do presidente egípcio Anwar Al-Sadat relativos ao Tratado de Paz entre Israel e Egito em 1978, revelando mudanças no uso do termo que foram condicionadas às intenções políticas do presidente em exercício.

Discursos diplomáticos: uma proposta de análise

A comunicação política compreende processos de articulação que visam o alcance ou a manutenção do poder, teoricamente para que as decisões tomadas sejam em benefício da sociedade como um todo. Destacamos a expressão teoricamente, pois, ainda que nos refiramos às democracias liberais, o sistema mantém as elites políticas nos cargos decisivos o que pode deixar interesses privados favorecidos em detrimento dos interesses públicos. Quando as democracias avançarem para sistemas efetivos de deliberação há possibilidade de outras vozes serem representadas.

De qualquer maneira, os discursos políticos interferem nas negociações desses grupos. É uma prática inerente às atividades sociais como as ações governamentais, as midiáticas (compreendendo produtos jornalísticos, publicitários, propagandísticos e entretenimento veiculados nas mais distintas plataformas), as eleitorais e as de terceiro setor. Neste sentido, a diplomacia se incorpora como uma das formações necessárias para a negociação política, não apenas internacional, mas também nas esferas mencionadas anteriormente.

No campo teórico, entretanto, os discursos diplomáticos se configuram como a especificidade de análise das interações entre nações, atuando não apenas como mediador em caso de conflitos, mas como articulador de interesses. Deste modo, o entendimento da atuação diplomática compondo o campo da Comunicação Política deve levar em consideração fatores como os contextos econômico, social e cultural dos envolvidos, o posicionamento macro do país, o local e a ocasião onde são proferidos os discursos. São fatores primordiais da análise em comunicação verificar se são midiatizados por recortes jornalísticos ou se estão disponíveis integralmente em canais de comunicação do governo ou de organizações internacionais.

Sugerimos, portanto, a seguinte sequência metodológica: escolha do corpus: países a serem analisados (aqui históricos e contextos devem estar contemplados); período de análise (justificativa de eventual conflito, episódio, evento ou mudança relacional); fonte do discurso (líder político pessoalmente, seja diplomata, chefe de Estado ou chefe de governo, ou instituição governamental); veiculação (recorte midiático jornalístico, transcrição ou veiculação na íntegra); local (cerimônia, sede governamental, sede neutra, evento popular), conteúdo (temas do discurso15) e argumentação. Cada um destes passos merece aprofundamento para a devida adequação das pesquisas, entretanto, reforçamos que, metodologicamente, o diferencial do discurso diplomático incorporado ao campo da Comunicação Política se refere ao fato de destacar o cenário internacional e os elementos envolvidos no cenário analisado, buscando entender o emaranhado de interesses difusos envolvidos nas relações internacionais.

Considerações finais

Os discursos diplomáticos podem disseminar e ampliar mensagens junto à opinião pública e projetar a imagem internacional de um país no cenário internacional (GOMES, 2004, HUNT, 2015, PANKE, 2010, WILLIAMS; YOUNG; LAUNER, 2012). Dessa forma, tomamos como objetivo deste artigo verificar o estado das investigações no campo da Comunicação Política e posicionamos os discursos diplomáticos como objeto de pesquisa.

A disputa de narrativas no ambiente internacional a partir dos discursos diplomáticos é uma questão incipiente que ainda demanda estudos mais profundos. Assim, o emprego de discursos diplomáticos como ações políticas e parte das disputas internacionais traz em si a necessidade de uma compreensão sob o viés da Comunicação, em especial da Comunicação Política.

Como diagnóstico inicial de pesquisa e amparado em referências bibliográficas (CARVALHO, 2011, GOMES, 2011, OLIVER, 1950), constatamos a escassez de estudos que analisem esta categoria discursiva em diversos campos de estudo, sejam a Linguística, Ciência Política, Relações Internacionais, História ou Antropologia. A fim de verificar se esse diagnóstico se repete na área da Comunicação, realizamos uma busca em sete fontes distintas, a saber, o Banco de Teses e Dissertações da Capes (BTDC), as plataformas EBSCOhost, SciELO e ScienceDirect, e anais publicados em três dos principais congressos científicos da área: Compolítica, Compós e Intercom.

Verificamos que estudos que versam a respeito de discursos diplomáticos na área de Comunicação representam somente 5% e 6% do total nas plataformas BTDC e EBSCOhost, respectivamente. Dessas, a ênfase metodológica recai sobre estudos com aproximação qualitativa, caso da Análise do Discurso. Também constatamos a inexistência de pesquisas sobre esse gênero discursivo nos três eventos científicos avaliados – Compós, Compolítica e Intercom.

De um lado, isso demonstra a ausência de interesse por parte da academia na análise da comunicação internacional efetuada por diferentes sujeitos políticos, como por exemplo, por países, presidentes, primeiros-ministros e embaixadores. De outro lado, emerge a possibilidade de abertura para um campo de estudos ainda incipiente nas teorias e análises de Comunicação. Especialmente na área de Comunicação Política, entendemos que discursos diplomáticos são um objeto de estudo extremamente relevante, tendo em consideração as disputas de poder imbricadas e o cenário internacional cada vez mais dependente de boas relações. Não obstante, essa escassez também traz a possibilidade de aproximações deste objeto sob outros enfoques metodológicos, como é o caso de análises quantitativas que ultrapassem a mera descrição de dados.

Ainda, para além do quantitativo, vislumbramos diversos caminhos a serem percorridos e questões a serem respondidas em futuras pesquisas. Ao pensar discursos diplomáticos como objeto da Comunicação Política, é possível investigar as técnicas argumentativas que estruturam esses discursos para, então, comparar com outros discursos institucionais e sociais. Seria possível, então, identificar a interação entre os dois níveis propostos por Putnam (2010)? Não apenas isso, é possível verificar a despersonalização do orador (SOFER, 1997) enquanto representante do seu país? Os discursos diplomáticos se configurariam como comunicação de Estado ou de governo?

Questionamos, ainda, a possibilidade de identificar tensões ideológicas trazidas pelos oradores dos discursos diplomáticos. De que modo repertórios de ação e demandas de reconhecimento e legitimidade seriam articuladas para além do convencimento e persuasão? É possível identificar processos dialéticos que articulam diferentes atores, textos e contextos? Pode-se investigar, portanto, a evolução histórica de diferentes discursos de um mesmo país em conferências que tratam de temáticas específicas, caso, por exemplo, da Conferências de Cúpula das Nações Unidas sobre Direitos Humanos, a Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável e a Cúpula do Clima da Organização das Nações Unidas.

Não apenas isso, mas, ao contemplar os discursos sob uma perspectiva mais ampla que o ato da fala, é possível investigar diferentes códigos de comunicação que compõem uma mensagem. Para além de mecanismos enunciativos linguísticos, as possibilidades de análise abrangem, por exemplo, avaliar a entonação utilizada, movimentos e expressões físicas do orador ao posicionar-se no púlpito, a organização e uso do espaço físico durante a fala, o contato visual com seus interlocutores, e aspectos visuais do orador (aparência, tipo físico, gênero e vestimentas).

Por fim, dada a necessária articulação da Comunicação Política com outras áreas de conhecimento (MARQUES; MIOLA, 2018), esperamos que este trabalho possa contribuir efetivamente para o desenvolvimento de pesquisas ao utilizar os discursos diplomáticos como objeto de estudo. E, de forma mais abrangente, esperamos que este esforço, mesmo que inicial, aponte para horizontes que colaborem com o eventual aperfeiçoamento e consolidação da área como um todo.

1Os autores agradecem as contribuições dos dois revisores anônimos.

2No original: “[...] when the leader of a nation, or a candidate to become that leader, speaks in any public forum”.

3Embora ambos sejam conceitos passíveis de contestação pela sua maleabilidade (RIPSMAN, 2006), via de regra, enquanto temas de high politics envolvem a soberania dos Estados (poder, guerra e paz), os de low politics tratam de temas como bem-estar, justiça, meio ambiente etc. (BEITZ, 1999).

4No original: “No es posible poner en funcionamiento, transformar una estrategia en algo real, en algo que tenga efectos, si no se utilizan diferentes niveles y dispositivos de comunicación”.

5No original: “nos podría impulsar a la cima del poder o enterrar en la última sima del fango”.

6Apenas os anais da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica) foram raspados até o ano de 2017, pois este é um evento bienal.

7Disponível em: http://bancodeteses.capes.gov.br/banco-teses/. Acesso em: 19 ago. 2017.

8A EBSCOhost é um banco de dados internacional que fornece tanto textos completos como a indexação de periódicos acadêmicos. Disponível em: http://web.b.ebscohost.com/ehost/search/. Acesso em: 19 ago. 2017.

9A ScienceDirect é o banco de dados internacional gerido pela Elsevier. Disponível em: http://www.sciencedirect.com/. Acesso em: 19 ago. 2017.

10Disponível em: http://www.compolitica.org/. Acesso em: 19 ago. 2017.

11Disponível em: http://www.compos.org.br/anais_encontros.php. Acesso em: 19 ago. 2017.

12Disponível em: http://portalintercom.org.br/. Acesso em: 11 jul. 2018.

13A menção a esses trabalhos se dá como resultado de buscas que ocorreram de forma não estruturada em outras plataformas. Dada a sua importância para o campo de estudos em questão, optou-se por manter a referência a elas nesta pesquisa, ainda que fujam do universo presente nos bancos de dados analisados.

15Sugerimos as categorias implementadas e aplicadas pelo Grupo de Pesquisa Comunicação Eleitoral, disponíveis em http://www.comunicacaoeleitoral.ufpr.br/index.php/metodologias/ Acesso em: 7 jan. 2020.

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Recebido: 20 de Dezembro de 2018; Aceito: 23 de Janeiro de 2020

Professor substituto do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Doutorando em Administração (PPGADM/UFPR) e mestre em Comunicação (PPGCOM/UFPR). É organizador dos livros “As eleições estaduais no Brasil: estratégias de campanha para TV” (EDUEPB, 2019) e “O Brasil vai às urnas: as campanhas eleitorais para presidente na TV e internet” (Syntagma Editores, 2019). E-mail: professorchapaval@gmail.com.

Professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), na graduação (Publicidade e Propaganda) e no Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Pós-doutorado na linha de Comunicação Política - Universidad Autónoma Metropolitana - (UAM-México) e doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Vice-Presidente da Asociación Latinoamericana de Investigadores en Campañas Electorales, publicou mais de 10 livros e 50 capítulos de livros no Brasil e no exterior, é autora dos livros “Lula do sindicalismo à reeleição. Um caso de comunicação, política e discurso” (México - UAM, 2015; Brasil, Unicentro 2010 1a. ed; Brasil, Nova Consciência, 2ª.ed. 2014); “Campañas electorales para mujeres - retos y tendencias” (Argentina - La Crujia, 2018; Brasil - Editora UFPR, 2016; México - Editorial Piso 15, 2015). E-mail: panke@ufpr.br.

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