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Ciência Animal Brasileira

Print version ISSN 1518-2797On-line version ISSN 1809-6891

Ciênc. anim. bras. vol.17 no.3 Goiânia July/Sept. 2016

https://doi.org/10.1590/1089-6891v17i334876 

MEDICINA VETERINÁRIA

COMPOSIÇÃO DO LEITE DE CABRAS SAANEN INFECTADAS EXPERIMENTALMENTE COM Staphylococcus aureus E SUBMETIDAS A DOIS PROTOCOLOS DE TRATAMENTO

MILK COMPOSITION OF SAANEN GOATS EXPERIMENTALLY INFECTED BY Staphylococcus aureus AND SUBJECTED TO TWO TREATMENT PROTOCOLS

Rodolfo de Moraes Peixoto1  * 

Renata de Moraes Peixoto Araújo2 

Luciana Jatobá e Silva Peixoto1 

Werônica Souza Rocha2 

Maria da Conceição Aquino de Sá2 

Mateus Matiuzzi da Costa2 

1Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano, Petrolina, PE, Brasil.

2Universidade Federal do Vale do São Francisco, Petrolina, PE, Brasil.


Resumo:

Neste estudo, objetivou-se avaliar a composição química do leite após a infecção e tratamento da mastite induzida por S. Aureus. Foram utilizadas 10 fêmeas caprinas da raça Saanen. Fez-se a infecção experimental em 20 glândulas mamárias, formando-se quatro grupos experimentais, sendo cada um composto por cinco glândulas mamárias. Um grupo foi tratado com antimicrobiano comercial e outro com pomada à base de extrato natural de planta. Os demais grupos foram constituídos controles. Os valores obtidos para gordura, lactose, proteína, sólidos totais e produção leiteira foram analisados ao longo dos momentos experimentais, comparando-os entre si e entre os grupos experimentais. A mastite foi diagnosticada 24 horas pós inoculação, utilizando-se a lactocultura. Os animais não apresentaram alterações nos parâmetros clínicos avaliados. Para os percentuais de gordura, proteína e sólidos totais, observou-se uma elevação ao longo dos momentos experimentais, sem variação entre os grupos experimentais. Tendo em vista a importância da terapia antimicrobiana convencional e a crescente utilização de antimicrobianos naturais, os resultados obtidos mostram igualdade entre as duas opções terapêuticas, principalmente no aspecto de manutenção dos principais componentes do leite.

Palavras-chave: cabras; composição do leite; terapia; mastite

Abstract:

This study aimed to evaluate the chemical composition of milk after infection and treatment of mastitis caused by Staphylococcus aureus. Ten Saanen goats were used. Experimental infection was performed in 20 mammary glands, forming four groups, each consisting of five mammary glands. One group was treated with commercial antimicrobial and another with natural plant extract-based ointment. The other groups were constituted as control. The values ​​obtained for fat, lactose, protein, total solids, and milk production were analyzed through the experimental moments, comparing them among each other and between experimental groups. Mastitis was diagnosed by milk microbiology after 24 hours of inoculation. The animals showed no changes in the clinical parameters evaluated. For the percentage of fat, protein, and total solids, there was an increase over the experimental moments. However, there was variation among the experimental groups. Given the importance of conventional antimicrobial therapy and the increased use of natural antimicrobials, obtained results showed equality between the two treatment options, especially regarding the maintenance of the main milk components.

Keywords: goat; milk composition; therapy; mastitis

Introdução

O efetivo caprino na região Nordeste brasileira representa mais de 90% do rebanho nacional(1), sendo a produção leiteira uma importante fonte de renda para o produtor rural. Diversos fatores têm contribuído para melhoria da cadeia produtiva do leite de cabra; no entanto, ainda existem algumas limitações em decorrência dos poucos estudos voltados para composição do leite desta espécie. Os principais componentes utilizados na avaliação da qualidade da matéria-prima são: lactose, proteína, gordura e sólidos totais(2).

Estudos com rebanhos caprinos leiteiros revelaram variação nos teores de gordura e proteínas no leite de diferentes raças(3-5), em virtude de fatores genéticos, nutricionais, sistema de produção, fase da lactação, ano e estação do ano(2,6). Níveis elevados da produção de leite foram associados com menor concentração de sólidos totais, em especial, teor de gordura. Estudos apontam que os teores de proteínas do leite não apresentam variação em diferentes períodos de lactação, mas a lactose e a gordura podem variar com o avanço da lactação(7,8).

O componente material genético e o aporte de nutrientes também têm uma influência direta sobre a produção de leite e a concentração dos seus principais constituintes(8). Além disso, têm-se os fatores relacionados à sanidade do rebanho, destacando-se a mastite, uma enfermidade frequente em rebanhos leiteiros e que traz uma série de prejuízos, dentre estes, a redução da produção leiteira e alteração dos principais componentes do leite(9-12). Programas eficazes e econômicos de controle de mastite devem direcionar suas ações para as medidas preventivas, em virtude dos ganhos obtidos com a produção de leite; contudo, a intervenção terapêutica também constitui uma parte importante de um programa de controle de mastite(13).

São escassos os estudos que avaliam a composição do leite após terapias antimicrobianas, principalmente a partir de extratos naturais. É sabido que a composição do leite é um importante requisito para se avaliar a qualidade do leite que será enviado à indústria de laticínios(2).

Tendo em vista que o conhecimento da composição do leite é fundamental para a determinação de parâmetros qualitativos, além de definir propriedades organolépticas e industriais, realizou-se um este estudo com o objetivo de se avaliar a composição química do leite após a infecção com S. aureus e terapia antimicrobiana convencional e natural.

Material e Métodos

Foram utilizadas dez fêmeas caprinas da raça Saanen, com faixa etária variando entre 1,5 e 4 anos, entre primeira e segunda ordem de parto. Os animais estavam entre o sexto e nono mês de lactação, com produção leiteira variando entre 0,5 e 1,4 L/dia, sendo a média diária igual a 0,960 L. O período de adaptação dos animais às novas instalações da UNIVASF foi de oito meses. Todas as fêmeas foram negativas para a pesquisa de anticorpos anti-lentivírus da CAE, utilizando-se a imunodifusão em gel de agarose (IDGA). Antes da fase experimental, todas as fêmeas foram vermifugadas e submetidas ao casqueamento. Após o parto, as crias permaneceram em aleitamento natural durante três meses. As fêmeas foram submetidas à ordenha manual (1x ao dia).

O presente trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Estudos Humanos e Animais, da Universidade Federal do Vale do São Francisco, sob número de protocolo 0005/131211. Após a aprovação, desenhou-se o seguinte delineamento experimental para os estudos in vivo: foram formados quatro grupos, cada qual constituído por cinco glândulas mamárias. No grupo um (G1), as metades mamárias do lado direito foram infectadas e tratadas com pomada à base de extrato de Hymenaea martiana. A metade mamária esquerda do mesmo animal também foi infectada, porém foi considerada "controle" (não tratada), constituindo o grupo dois (G2). No grupo três (G3), as metades mamárias do lado direito foram infectadas e tratadas com antibiótico à base de gentamicina na metade direita. A metade mamária esquerda foi considerada "controle" (não tratada), sendo identificada como grupo quarto (G4). No total, fez-se a infecção experimental em 20 metades mamárias, em que cada grupo era composto por cinco metades mamárias. O fármaco utilizado foi determinado pelo teste de sensibilidade aos antimicrobianos. Antes da inoculação, foram estabelecidas as informações clínicas, as características físico-químicas e celulares do leite, mediante a realização de uma ordenha no período da manhã. Os animais foram negativos em três lactoculturas consecutivas, sendo adotado um intervalo de setes dias entre as coletas realizadas na fase pré-infecção. Para infecção experimental, utilizou-se uma cepa de campo oriunda de um caso de mastite subclínica em cabra e identificada de acordo com suas características bioquímicas(14).

Após a obtenção dos índices das variáveis do momento inicial, as duas metades mamárias de cada fêmea foram infectadas, utilizando-se a via intramamária, por meio de uma sonda uretral nº 4 acoplada a uma seringa plástica estéril. Antes da inoculação, fez-se ordenha completa e anti-sepsia em ambos os tetos com álcool 70º GL. Após a inoculação (01 mL), na parte proximal da cisterna, foi realizada massagem com movimentos ascendentes para o inóculo se distribuir na glândula mamária. A dose infectante utilizada foi de 1,2 x 108 UFC/mL.

A partir deste instante os animais foram acompanhados diariamente, mediante avaliação clínica (temperatura retal, frequência cardíaca e respiratória e dinâmica ruminal) e análise do leite em uma ordenha diária(15).

A mastite foi reconhecida no momento em que surgiram as evidências das alterações de características do leite, utilizando-se a lactocultura e o California Mastitis Test (CMT). Foram estabelecidos os seguintes momentos experimentais:

  • - M0 - anterior à infecção (0h);

  • - M1 - 48 horas pós infecção;

  • - M2 - 72 horas pós infecção/início do tratamento;

  • - M3 - 06 dias pós infecção/03 dias após o início tratamento;

  • - M4 - 09 dias pós infecção/final do tratamento;

  • - M5 - 12 dias pós infecção/06 dias após o final do tratamento;

  • - M6 - 25 dias pós infecção/16 dias após o final do tratamento;

  • - M7 - 41 dias pós infecção/32 dias após o final do tratamento;

O tratamento foi instituído 36 horas após a infecção. No G1, a metade mamária direita de cada fêmea foi tratada com pomada à base de H. martiana na dose de 05 mL, via intramamária, durante seis dias consecutivos, logo após a ordenha da manhã. No G3, as metades mamárias foram tratadas com uma pomada comercial à base de gentamicina (15 mg/mL), via intramamária, durante seis dias consecutivos. Em cada animal, a metade mamária esquerda (grupos G2 e G4) foi considerada controle e recebeu solução fisiológica (0,9% NaCl) na dose de 5 mL.

Baseando em resultados de outros estudos, utilizou-se o extrato etanólico bruto da H. martiana para preparação da terapia intramamária(16,17). Foram realizados testes de compatibilidade entre as diferentes bases e o extrato da planta. Realizaram-se testes de compatibilidade com as bases "creme" e "pomada", sendo observada a separação de fases quando utilizou-se a base creme. A partir daí, os testes seguiram com a base pomada. Observou-se, também, que os antimicrobianos comerciais têm em sua formulação de base "pomada". A pomada contendo extrato de H. martiana apresentou uma concentração final de 5%.

Fórmula:

  • - Extrato de H. martiana (jatobá) --------------- 2,5 g

  • - Lanolina ------------------------------------------ 15,0 g

  • - Vaselina sólida q.s.p. --------------------------- 50,0 g

Inicialmente, o extrato foi solubilizado em propilenoglicol. Em seguida, procedeu-se à manipulação da pomada com lanolina e vaselina, obtendo-se uma concentração final de lanolina de 30%.

Para a determinação da composição do leite (gordura, proteína, lactose e sólidos totais), utilizou-se o espectrômetro FTIR - LactoScope FTIR Analyser, fabricado pela Delta Instruments, sendo empregado o método secundário de espectroscopia de infravermelho - Transformada de Fourier (FTIR).

Os valores obtidos para gordura, lactose, proteína, sólidos totais e produção leiteira foram analisados ao longo dos momentos experimentais, comparando-os entre si e entre os grupos experimentais, tendo a média como medida de tendência central, empregando-se os testes não paramétricos de Friedman para a comparação dos momentos dentro de cada grupo e de Kruskal-Wallis para a comparação dos grupos dentro de cada momento experimental.

Resultados

A mastite foi diagnosticada após 24 horas da inoculação, utilizando-se a lactocultura. Os animais não apresentaram alterações nos parâmetros clínicos avaliados.

Na avaliação dos componentes do leite, para gordura, observou-se maior percentual ao longo dos momentos experimentais em G1 e G2. No grupo tratado com antibiótico (G3) e seu respectivo controle (G4) não foram observadas alterações significativas. Este percentual não apresentou variação entre os grupos tratados e o controles (Tabela 1).

Tabela 1 Média de cinco repetições do teste de composição de leite para a variável percentual gordura em cabras infectadas experimentalmente com Staphylococcus aureus 

M0 M1 M2 M3 M4 M5 M6 M7
G1 1,82 Aa 2:64 ABa 2,52 ABa 2,54 ABa 2,76 ABa 2,69 ABa 3,13 Ba 3,18 Ba
G2 1,92 Aa 2,73 ABa 2,44 ABa 2,57 ABa 2,74 ABa 2,78 ABa 3,20 Ba 3,19 Ba
G3 2,08 Aa 2,20 Aa 2,24 Aa 2,15 Aa 2,69 Aa 2,61 Aa 2,82 Aa 2,93 Aa
G4 2,20 Aa 2,38 Aa 2,31 Aa 2,22 Aa 3,20 Aa 2,68 Aa 2,80 Aa 3,03 Aa

G1: metades mamárias tratadas com extrato de H. martiana;G2: metades mamárias não tratadas;G3: metades mamárias tratadas com antibiótico comercial à base de gentamicina;G4: metades mamárias não tratadas;Para cada grupo, valores seguidos por letras maiúsculas iguais não diferiram entre si (P > 0,05);Para cada momento, valores seguidos por letras minúsculas iguais não diferiram entre si (P > 0,05);M0 - anterior à infecção (0h); M1 - 48 horas pós-infecção; M2 - 72 horas pós-infecção/início do tratamento; M3 - 06 dias pós-infecção/03 dias após início do tratamento; M4 - 09 dias pós-infecção/final do tratamento; M5 - 12 dias pós-infecção/03 dias após o final do tratamento; M6 - 25 dias pós-infecção/16 dias após o final tratamento; M7 - 41 dias pós-infecção/32 dias após o final do tratamento.

Para proteínas, também observou-se maior percentual ao longo dos momentos experimentais, sem variações entre os grupos (Tabela 2).

Tabela 2 Média de cinco repetições do teste de composição de leite para a variável percentual proteína em cabras infectadas experimentalmente com S. aureus 

M0 M1 M2 M3 M4 M5 M6 M7
G1 2,88 Aa 3,30 ABa 3,32 ABa 3,40 Ba 3,32 ABa 3,27 Ba 3,03 ABa 3,08 ABa
G2 2,87 Aa 3,22 ABa 3,13 ABa 3,22 ABa 3,20 Ba 3,23 Ba 3,03 ABa 3,08 ABa
G3 3,06 Aa 3,27 ABa 3,21 ABa 3,21 ABa 3,41 Ba 3,43 Ba 3,21 ABa 3,19 ABa
G4 3,05 Aa 3,24 ABa 3,19 ABa 3,24 ABa 3,63 Ba 3,39 Ba 3,21 ABa 3,17 ABa

G1: metades mamárias tratadas com extrato de H. martiana;G2: metades mamárias não tratadas;;G3: metades mamárias tratadas com antibiótico comercial à base de gentamicina;G4: metades mamárias não tratadas;Para cada grupo, valores seguidos por letras maiúsculas iguais não diferiram entre si (P > 0,05);Para cada momento, valores seguidos por letras minúsculas iguais não diferiram entre si (P > 0,05);M0 - anterior à infecção (0h); M1 - 48 horas pós-infecção; M2 - 72 horas pós-infecção/inicio do tratamento; M3 - 06 dias pós-infecção/03 dias após inicio do tratamento; M4 - 09 dia3 pós-infecção/fínal do tratamento; M5 - 12 dias pós-infecção/03 dias após o final do tratamento; M6 - 25 dias pós-infecção/16 dias após o final tratamento; M7 - 41 dias pós-infecção/32 dias após o final do tratamento.

Para o percentual de lactose, não foram observadas variações ao longo dos momentos experimentais. Por outro lado, observou-se diferença entre os grupos, porém em apenas dois momentos (Tabela 3).

Tabela 3 Média de cinco repetições do teste de composição de leite para a variável percentual lactose em cabras infectadas experimentalmente com S. aureus 

M0 M1 M2 M3 M4 M5 M6 M7
G1 4,29 Aa 4,03 Aa 4,05 Aa 3,87 Aa 4,08 Aa 4,10 Aa 4,30 Aa 4,16 Aa
G2 4,30 Aa 4,13 Aa 4,22 Aa 4,23 Aa 4,38 Aab 4,16 Aa 4,34 Aa 4,16 Aab
G3 4,43 Aa 4,32 Aa 4,29 Aa 4,39 Aa 4,56 Aa 4,36 Aa 4,41 Aa 4,42 Aab
G4 4,47 Aa 4,37 Aa 4,34 Aa 4,39 Aa 4,54 Aab 4,41 Aa 4,45 Aa 4,44 Ab

G1: metades mamárias tratadas com extrato de H. martiana;G2: metades mamárias não tratadas;G3: metades mamárias tratadas com antibiótico comercial a base de gentamicina;G4; metades mamárias não tratadas;Para cada grupo, valores seguidos por letras maiúsculas iguais não diferiram entre si (P > 0.05);Para cada momento, valores seguidos por letras minúsculas iguais não diferiram entre si (P > 0.05);M0 - anterior à infecção (0h); M1 - 48 horas pós-infecção; M2 - 72 horas pós-infecção/inicio do tratamento; M3 - 06 dias pós-infecção/03 dias após início do tratamento; M4 - 09 dias pós-infecção/final do tratamento; M5 - 12 dias pós-infecção/03 dias após o final do tratamento; M6 - 25 dias pós-infecção. 16 dias após o final tratamento; M7 - 41 dias pós-infecção/32 dias após o final do tratamento.

Para os sólidos totais, observou-se maior percentual ao longo dos momentos experimentais. Este percentual não apresentou variação entre os grupos tratados e o controle (Tabela 4).

Tabela 4 Média de cinco repetições do teste de composição de leite para a variável percentual sólidos totais em cabras infectadas experimentalmente com S. aureus 

M0 M1 M2 M3 M4 M5 M6 M7
G1 9,93 Aa 10,92 ABa 10,83 ABa 10,79 ABa 11,14 ABa 11,05 ABa 11,44 Ba 11,40 Ba
G2 10,03 Aa 11,02 ABa 10,74 ABa 10,97 ABa 11,28 ABa 11,15 ABa 11,56 Ba 11,41 Ba
G3 10,5 Aa 10,72 Aa 10,68 Aa 10,69 Aa 11,60 Aa 11,37 Aa 11,42 Aa 11,51 Aa
G4 10,66 Aa 10,93 Aa 10,76 Aa 10,78 Aa 12,31 Aa 11,45 Aa 11,42 Aa 11,61 Aa

G1: metades mamárias tratadas com extrato de H. martiana;G2: metade: mamária: não tratadas;G3: metades mamárias tratadas com antibiótico comercial à base de gentamicina;G4: metade: mamária: não tratadas;Para cada grupo, valores seguidos por letras maiúsculas iguais não diferiram entre si (P > 0.05);Para cada momento, valores seguidos por letras minúsculas iguais não diferiram entre si (P > 0,05);M0 - anterior à infecção (0h); M1 - 48 horas pós-infecção; M2 - 72 horas pós-infecção/inicio do tratamento; M3 - 06 dias pós-infecção/03 dias após início do tratamento; M4 - 09 dias pós-infecção/final do tratamento; M5 - 12 dias pós-infecção/03 dias após o final do tratamento; M6 - 25 dias pós-infecção/16 dias após o final tratamento; M7 - 41 dias pós-infecção. 32 dias após o final do tratamento.

Os dados obtidos no controle leiteiro demonstraram um decréscimo na produção em todos os grupos ao longo do período pós-infecção. Entre os grupos não foram observadas alterações significativas (Tabela 5).

Tabela 5 Média de cinco repetições do controle leiteiro (L/dia) realizado em cabras infectadas experimentalmente com S. aureus 

M0 M1 M2 M3 M4 M5 M6 M7
G1/G2 0,94 Ca 0,78 ABa 0,74 Aa 0,83 ABCa 0,91 BCa 0,84 ABCa 0,81 ABCa 0,74 Aa
G3/G4 1,012 Aa 0,9 Aa 0,92 Aa 1,0 Aa 1,0 Aa 0,99 Aa 1,08 Aa 0,88 Aa

G1: metades mamarias tratadas com extrato de H. martiana;G2: metades mamárias não tratadas;G3: metades mamárias tratadas com antibiótico comercial à base de gentamicina,G4: metades mamárias não tratadas;Para cada grupo, valores seguidos por letras maiúsculas iguais não diferiram entre si (P > 0,05);Para cada momento, valores seguidos por letras minúsculas iguais não diferiram entre si (P > 0.05):M0 - anterior à infecção (0h); M1 - 48 horas pós-infecção; M2 - 72 horas pós-infecção/inicio do tratamento; M3 - 06 dias pós-infecção/03 dias após inicio do tratamento; M4 - 09 dia: pós-infecção/final do tratamento; M5 - 12 dias pós-infecção/ 03 dias após o final do tratamento; M6 - 25 dias pós-infecção/16 dias após o final tratamento; M7 - 41 dias pós-infecção/32 dias após o final do tratamento.

Discussão

A utilização de antimicrobianos naturais na Medicina Veterinária vem crescendo, devido, principalmente, ao fenômeno da resistência aos antimicrobianos comerciais(18). O potencial antimicrobiano de extratos de plantas do gênero Hymenaea já foi comprovado em alguns estudos(16,19), em função da presença de flavonoides e terpenos(17).

É sabido que a mastite é um dos principais fatores que afetam a composição e qualidade do leite enviado à indústria de laticínios, sendo o Staphylococcus aureus um dos patógenos mais importantes da mastite em fêmeas caprinas(20). Além disso, a realização do presente delineamento experimental foi motivada pela ausência de informações acerca da estabilidade das concentrações dos principais constituintes do leite de cabras, após a infecção e terapia com extratos naturais e fármacos comerciais.

Observou-se aumento nos teores de gordura, proteína e sólidos totais, logo no primeiro momento pós infecção experimental (M1). No entanto, incrementos não foram observados ao longo dos demais momentos. Quanto à comparação dos grupos em cada momento experimental, não foram observadas variações, à exceção da variável lactose que apresentou maior percentual no grupo tratado com antibiótico comercial (G3), quando comparado ao grupo tratado com o antimicrobiano natural (G1) ao final da terapia (M4). No momento sete (32 dias após término da terapia) menor percentual de lactose também foi observado para o grupo tratado com H. martiana quando comparado com o controle. Estes resultados não diferiram daqueles encontrados por Vilanova et al.(21), em trabalho realizado com a mesma raça e período de lactação similar, porém com animais negativos para a mastite.

Isto indica que estes fatores não foram afetados pela inoculação experimental dos animais com o S. aureus. De modo geral, as inferências acerca das variações dos principais componentes do leite devem ser feitas com bastante cautela, em virtude da existência de outras variáveis que influenciam o percentual destes constituintes no leite, tais como genética, manejo alimentar, regime de ordenha, estágio de lactação e ordem de parto(21-23).

Para os constituintes gordura, proteína e sólidos totais pesquisados, não foram observadas alterações entre os grupos tratados com a pomada à base de H. martiana e o grupo que recebeu antimicrobiano comercial, corroborando com os achados de Karzis et al.(10). Esses autores, realizando um estudo similar em cabras leiteiras, não observaram diferenças estatisticamente significativas nos percentuais de gordura, proteína e lactose antes, durante e após o tratamento com antibióticos. Isto constitui um achando relevante, uma vez que vários grupos de pesquisa estão desenvolvendo estudos com antimicrobianos naturais, dada a elevada resistência dos patógenos envolvidos na mastite aos diversos antimicrobianos comerciais e a preservação das características do leite após a terapia com extrato natural constitui um aspecto relevante.

Neste estudo, a concentração média de gordura aumentou imediatamente após a infecção. Ma et al.(24) e Ogola et al.(25) também observaram aumento de ácidos graxos durante os processos infecciosos da mastite. Leitner et al.(26) realizaram estudos sobre a mastite subclínica em ovinos e observaram que a percentagem de gordura era mais baixa em glândulas não infectadas do que nas infectadas, atribuindo esta alteração à redução no volume de leite. O aumento na concentração de ácidos graxos afeta negativamente as características sensoriais como sabor, odor e cor(27), além de afetar outras propriedades tecnológicas, tais como a estabilidade durante a armazenagem(28).

Para o percentual de lactose, não foram observadas variações ao longo dos momentos experimentais. Outros autores demonstraram a redução dos teores de lactose após a mastite infecciosa(12), devido à injúria no tecido mamário. De modo geral, a lactose é considerada um dos nutrientes mais estáveis na composição química do leite, estando diretamente relacionada à regulação da pressão osmótica, de modo que uma maior produção de lactose determina maior produção de leite(23).

Com relação aos dados do controle leiteiro, não foram observadas alterações entre os grupos experimentais. Por outro lado, observou-se um decréscimo na produção de leite oriunda dos animais que formaram os grupos G1 e G2 (tratados com a pomada de H martiana e controle, respectivamente), sendo este um achado comum durante o curso das infecções intramamárias, em decorrência das alterações na fisiologia da glândula mamária, resultando, por conseguinte, na diminuição na produção de leite e modificações na composição do leite(12). Contudo, tendo em vista que não houve variação da produção de leite entre os quatro grupos, a redução da produção em G1 e G2 ao longo dos momentos experimentais pode estar relacionada ao fator animal.

Conclusões

Os trabalhos acerca das alterações que ocorrem na composição do leite de cabras fornecem informações importantes sobre o processo infeccioso da mastite e podem revelar-se bons bioindicadores da doença. Observou-se aumento das concentrações de gordura, proteína e sólidos totais após a infecção experimental, mantendo-se constante antes, durante e após a terapia. A ausência de diferenças para os percentuais dos principais constituintes do leite entre os grupos experimentais (pomada a base de H. martiana, antimicrobiano comercial e controles) avaliados constitui um achado relevante, dada a quantidade de estudos conduzidos na área de produtos naturais. Este estudo demonstra a possibilidade do uso de terapias alternativas sem o comprometimento de parâmetros que são utilizados pela indústria de laticínios.

Agradecimentos

À FACEPE pela concessão da bolsa de pós-graduação e ao MCT-INSA/CNPq pelo auxílio financeiro na compra de materiais e equipamentos utilizados nesta Pesquisa, via projeto aprovado no edital MCT-INSA/CNPq/CT-Hidro/Ação Tranversal N º 35/2010.

Referências

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Recebido: 04 de Julho de 2015; Aceito: 01 de Fevereiro de 2016

*Autor para correspondência - rmpeixoto.vet@gmail.com

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