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Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia

Print version ISSN 1809-9823On-line version ISSN 1981-2256

Rev. bras. geriatr. gerontol. vol.10 no.3 Rio de Janeiro Sept./Dec. 2007  Epub Oct 24, 2019

https://doi.org/10.1590/1809-9823.2007.10036 

Artigos originais

O idoso asilado: a subjetividade intramuros

The institucionalized elderly: the subjectivity on the other side

Nayara de Paula Faleiros a  

José Sterza Justo b  

aGraduada e licenciada em Psicologia. Universidade Estadual Paulista – Faculdade de Ciências e Letras de Assis. Assis, SP, Brasil.

bProfessor Assistente no Departamento de Psicologia Social, Evolutiva e Escolar. Universidade Estadual Paulista – Faculdade de Ciências e Letras de Assis. Assis, SP, Brasil. E-mail: justo@assis.unesp.br


Resumo

O processo de envelhecimento humano desperta interesse como objeto de estudo desde o século VI a.C., quando os filósofos da Antigüidade já utilizavam um sistema periódico para descrever a vida. Porém, ainda há poucos estudos sobre idosos asilados. Esta pesquisa se propôs a investigar como os idosos residentes em uma instituição asilar de Assis/SP representavam a si mesmos e o lugar em que viviam. Procuramos também mapear as possíveis relações entre essas representações e o processo de institucionalização. Para tanto, entrevistamos 21 idosos (13 homens e oito mulheres). A análise das entrevistas mostrou que a percepção que idosos asilados têm de si mesmos e da instituição asilar é heterogênea. Apesar de reconhecerem o processo de institucionalização pelo qual passam, poucos o apontaram claramente, nomeando os aspectos positivos e negativos. Em geral, utilizaram assertivas curtas ou a contraposição da vida anterior à entrada no asilo à vivida atualmente no mesmo para demarcar as diferenças que sentiram.

Palavras-Chave: envelhecimento; idoso; auto-imagem; percepção social; institucionalização instituição de longa permanência para idosos; Assis/SP

Abstract

The process of human aging has been considered an interesting study subject since the 6th century BC, when ancient philosophers used a periodical system to describe life. However, there are few studies on elderly living in nursing homes. This research aimed to investigate how elders living in a nursing home in Assis/SP (Brazil) feel about themselves and about the place they live. We have also tried to find potential relationships between those portrayals and the institutionalization process. To do so, 21 elderly were interviewed (13 men and eight women). When the interviews were analyzed, we came up to the conclusion that the elderly living in nursing homes have a heterogeneous perception of themselves and of the institution. Although aware of the institutionalization process they are subjected to, few of them were able to describe it clearly, stating the positive and negative aspects. In general, they used short assertions or comparisons against the life they used to live before being admitted to the nursing home, in a way to point out the differences they felt.

Key words: aging; aged; self concept; social perception; institutionalization; homes for the aged; Assis/SP

INTRODUÇÃO

As pesquisas desenvolvidas atualmente nas áreas geriátrica, gerontológica e da Psicologia do desenvolvimento têm, em sua grande parte, procurado desinstitucionalizar o conceito de envelhecimento populacional conhecido até então, seja pela reafirmação deste como processo integrante da experiência vivencial dos indivíduos, seja pela desconstrução dos estereótipos a ele imprimidos.

A descrição da vida humana por meio de períodos delineados é uma prática utilizada desde o século VI a.C. pelos filósofos jônicos. Ariès1 comenta que este sistema das “idades da vida” foi posteriormente adotado nos escritos bizantinos da época medieval e nos primeiros livros científicos datados do século XVI. Nestes últimos, a periodização da vida esboçava praticamente todas as características afirmadas já no século XIV: era representante das diferentes etapas biológicas e das funções sociais a elas atribuídas.

A partir do século XVIII, baseada na associação do cientificismo evolucionista e da modernização ocidental, as concepções de juventude e velhice como pólos opostos foram constituídas dentro de um campo de valores “de acordo com suas possibilidades para produção e reprodução de riqueza (...) não tendo mais a possibilidade de produção de riqueza, a velhice perderia também o ser valor simbólico”.4

Em conseqüência dessa lógica maquínica, a juventude e o processo de escolarização, o adulto e as relações de trabalho e a velhice e o momento da aposentadoria foram fixadas como três categorias socialmente funcionais, parte da segunda etapa de investimento sensível na idade cronológica dentre as três sucessivas investigadas por Moody (apud Debert).9 A primeira se refere à pré-modernidade, em que o status familiar é mais relevante que a datação cronológica para atuar como ratificador do nível de maturidade e gerenciamento de poder. A terceira é a pós-modernidade, que procura desconstruir a obrigatoriedade do vínculo geracional do curso de vida dos indivíduos com a criação de “um estilo unietário”, em que “o curso de vida transforma-se em um espaço de experiências abertas e não de passagens ritualizadas de uma etapa para a outra”, conforme Giddens (apud Debert).9

Nessa perspectiva, promete-se a possibilidade de novas normas, expectativas e comportamentos em determinada idade e a descaracterização de estereótipos, fomentando redefinições nas categorias etárias vigentes.

Apesar de essas novas imagens existirem como parte de um momento de reformulação do discurso científico sobre o processo de envelhecimento, a realidade vivida pelos idosos residentes em instituições asilares parece estar a margem desse contexto, na continuidade de uma dinâmica que aparenta lhes ser própria. “Talvez a visibilidade das instituições asilares se deva a isso, em parte, visto que os velhos institucionalizados dificilmente se encaixam nas imagens da terceira idade”.13

No Brasil, a primeira instituição voltada para os cuidados da velhice foi o Asilo São Luiz para a Velhice Desamparada, em 1890, na Cidade do Rio de Janeiro/RJ, conforme Groisman.13 Essa instituição asilar não abrigaria apenas os idosos pobres, prosseguindo numa óptica filantrópico-assistencialista do início do século XIX, mas também àqueles que tinham recursos financeiros. Para estes, foi criada uma ala especial na referida instituição em 1909, onde residiam mediante pagamento de mensalidade.

A prática da institucionalização no Brasil do século XIX perpassou mudanças nos valores socioculturais vigentes, sendo agrupadas por Groisman13 em três momentos. Num primeiro, o indigente, visto como incapaz para o trabalho, era considerado parte da sociedade e, por isso, “protegido” pela caridade das famílias abastadas. Os idosos já se encontravam em meio a esses pobres, porém não como população diferenciada. O segundo momento é marcado pelo fortalecimento do discurso higienista da medicina social que, associada à filantropia, interveio sobre a organização do espaço urbano por uma “sociedade sadia”, controlando, separando e categorizando os pobres, além de criticar a caridade realizada até então. O terceiro momento pode ser caracterizado pela “laicização”, quando as instituições se tornaram especializadas: “(...) os mendigos considerados inválidos eram encaminhados ao Asilo São Francisco de Assis (novo nome do Asilo de Mendicidade), os loucos ao Hospício Nacional, os menores aos institutos correcionais”. 13

O espaço asilar parece não ter sofrido grandes transformações...

O INTRAMUROS

Desde seu início, a função do espaço asilar não era promover a recuperação do indivíduo ali residente e incentivar sua volta ao convívio social mais amplo, como acontece nos hospitais, por exemplo. Era, e continua sendo, uma instituição depositária, tuteladora de indivíduos idosos, oferecendo apenas os cuidados “suficientes às pessoas que estejam em seus últimos dias de vida”. 8

Em geral, a instituição asilar possui uma estrutura, tanto física quanto dinâmica, que pouco oferece espaços de lazer e promoção de saúde para os residentes, entendendo-se como promoção de saúde uma proposta de cuidados que procure capacitar o idoso a viver com qualidade de vida e de forma autônoma.

Além disso, raramente possui um grupo de cuidadores que não associem doença e velhice, resultando em práticas infantilizadoras e exacerbantes. “(...) o mais comum é que, sob muitos aspectos, o idoso seja tratado com aquele misto de condescendência e impaciência característico de grande parte das relações adulto-criança”.14

Outro fato preponderante é a relação que os idosos residentes mantêm entre si. Fornós10 descreve bem esse quadro: “En general, el contacto entre ellos era escasso, apenas si conocían los unos a los otros, se comunicaban muy poco entre si cada cual parecía vivir aisladamente”.

A manutenção rígida do cotidiano asilar em detrimento de estímulos à sociabilização entre os internos, a indisposição dos indivíduos, a condição física dificultadora que diminui a freqüência dos contatos interpessoais e a evitação de relações identificatórias com o outro que representa “a minha velhice”, são alguns motivos que reforçam a continuidade dessa situação.3,14

Dentro desse contexto e apoiados na literatura concernente, desenvolvemos uma pesquisa com idosos residentes numa instituição asilar na cidade de Assis/SP. Nosso objetivo foi verificar, através da fala dos próprios idosos, as representações que tinham a respeito de si mesmos e da instituição em que viviam – por meio de imagens, idéias e sentimentos. Procuramos também mapear as possíveis relações entre essas representações e o processo de institucionalização pelo qual passam.

MÉTODO

Para tanto, atuamos como observadores participantes e utilizamos a entrevista semi-estruturada como principal instrumento para a coleta dos dados, compreendendo-a como importante técnica investigativa e facilitadora da emergência de fatos fundamentais da situação do entrevistado. Por meio dela, pode-se estabelecer uma relação afim entre este e o entrevistador.11 Entrevistamos 21 sujeitos, oito mulheres e 13 homens, com idades entre 55 e cem anos, moradores efetivos da instituição asilar – que, naquele momento, abrigava cerca de 45 residentes – que atendiam ao critério de pleno domínio de fala e cognição e concordaram em participar da pesquisa nos termos da Resolução CNC nº 196/96.

Formulamos as questões das entrevistas com o intuito de promover um conhecimento e uma compreensão adequada da pessoa entrevistada e da situação que pretendíamos estudar, dividindo-as em dois momentos: no primeiro, primamos pela identificação e caracterização dos sujeitos, questionando-os sobre a composição familiar originária, rotina e convivência social. No segundo momento, os questionamos sobre a trajetória de vida, buscando apreender seus conceitos de vida/morte e sociabilidade/solidão enquanto indivíduos asilados. As entrevistas foram gravadas em fita para que detalhes verbais como hesitações, por exemplo, não fossem omitidos no decorrer da pesquisa.

Conseguimos realizar cada entrevista com um interstício de três dias, que se mostrou bem adequado por permitir a retomada do encontro anterior sem prejuízo da motivação, além de evitar situações contraproducentes provocadas por acontecimentos próprios da rotina institucional como cultos religiosos, visitas de voluntários e familiares, consultas médicas e outros.

O contato inicial e o estabelecimento do rapport foram bastante facilitados pelo fato de conhecermos a instituição e seus usuários há certo tempo. Desde o ano de 2003, desenvolvemos um projeto de estágio nesse espaço, onde, por meio de intervenções semanais, realizamos oficinas de expressão com recursos diversos: pintura, escultura, fotografia, atividades físicas, entre outros.

Tivemos cuidado de esclarecer o melhor possível que as entrevistas individuais que faríamos eram uma atividade diferente daquelas que realizávamos habitualmente com eles, apesar de estarem ancoradas em toda nossa experiência anterior de contato com os idosos.

Mantivemo-nos atentos aos aspectos éticos da pesquisa e acompanhamos as emergências emocionais deflagradas em algumas entrevistas. Cumpre esclarecer que alguns tópicos abordados, como o momento de internação, reacendem conteúdos emocionais fortes; mas foi possível fornecer suporte a todos os sujeitos que se mostraram mais emotivos sem a necessidade de recorrer a outros profissionais.

A análise de conteúdo dos dados coletados foi baseada em Bardin2 que propõe três etapas para sua realização. Na primeira, a pré-análise, fizemos uma leitura prévia para conhecimento dos conteúdos das entrevistas, organizamos os dados coletados e sistematizamos as idéias iniciais com vistas a um plano de análise. Elaboramos também, orientados pelos objetivos da pesquisa, os indicadores, fazendo os recortes necessários para que os dados pudessem ser categorizados. Na segunda etapa, a exploração do conteúdo, transformamos os dados brutos colhidos nas entrevistas em representações claras do conteúdo destas e, a partir de suas características principais, procuramos categorizá-los, ou seja, agrupá-los por analogia segundo o campo de significação delimitado em cada categoria. Por último, no tratamento dos resultados, fizemos a interpretação dos dados, com o objetivo de mapear as representações expressas pelos sujeitos.

O presente estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências e Letras/UNESP Assis, por meio do processo 02162/2004 e registro nº 003/2004. Os dirigentes da instituição asilar estudada e os idosos residentes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Preservou-se a identidade da organização.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A partir da análise das entrevistas e tomando-se por unidade mínima para a análise as palavras e segmentos de palavras dos sujeitos que compunham um tema, construímos as categorias abaixo relacionadas:

1. Motivos e iniciativa para o asilamento

Nesta categoria, agrupamos as unidades que diziam respeito não só às razões que os idosos apresentaram para sua institucionalização, mas também à indicação do sujeito dessa iniciativa: familiares, amigos, ex-patrões etc.

Dos 21 entrevistados, apenas dois disseram ter ido para o asilo por vontade própria, sendo que 11, dentre os outros 19 entrevistados que foram encaminhados para lá por outras pessoas, apontaram um familiar como o agente da iniciativa para a institucionalização.

“(...) Fiquei cinqüenta dias no (...) no (...) hospital. E (...) que que eu ia falar? [então os filhos da senhora a trouxeram para cá?] Aí (...) eu (...) a (...) eles trouxeram porque, pra eu não dar trabalho mais (...)” (D.Marília)

O meu sobrinho. [por que ele trouxe a senhora?] (...) não sei (...) [repeti a pergunta] pra passear (...) e agora não quer me levar (...) [risos]” (D. Malvina)

O contato dos idosos residentes com esses familiares em geral é escasso. Poucos idosos mencionaram serem visitados assiduamente por eles. Percebemos que mesmo aqueles que possuem familiares próximos – na mesma cidade ou em cidades contíguas – se sentem extremamente dependentes dos cuidados do asilo, abandonados pela sociedade, pela família e a caminho da morte. Junto com as perdas sociais já sofridas pelo envelhecer, o rompimento dessa rede relacional – de forma abrupta ou não – acentua a tendência ao isolamento psicossocial dos internados, que têm poucas trocas afetivas também em relação aos outros moradores.8,14

As visitas de voluntários, amigos e curiosos costumam ser a maioria no caso da instituição em estudo, conforme nossa experiência de trabalho lá desenvolvida. Os motivos do afastamento familiar, após a institucionalização de boa parte dos entrevistados, não foram evidenciados em nenhuma das respostas dadas. Segundo nosso ponto de vista, seria necessário um acompanhamento sistemático dos envolvidos – idosos e familiares – para melhor compreensão dessa dinâmica e motivações, o que requeriria um estudo específico.

Quatorze entrevistados apontaram o adoecimento como principal motivo para suas internações. A doença tira-lhes a autonomia pessoal e exige maiores cuidados, o que a família não pode proporcionar pela falta de recursos financeiros, pela falta de tempo ou por seus membros não se acreditarem qualificados o suficiente frente às exigências.10,14

2. Mudanças sentidas pelo asilamento

Esta categoria se refere à confrontação da vivência após a institucionalização e a anterior a esta, ponderando-se as distinções sentidas e percebidas.

A maioria dos idosos entrevistados desenvolvia alguma atividade laborativa antes de ingressar no asilo, geralmente relacionada à agricultura, serviços domésticos, serviços gerais – pedreiro, pintor etc. – e outras áreas diversificadas. Esta passagem da situação de labor, na qual eram agentes, à de “descanso”, quando são considerados inativos, foi apontada por alguns como a grande diferença percebida entre a vivência asilar e a anterior a esta.

Não, ai (...) ara (...) eu achava bão eu que tava trabaiando, né. Eu andava pra qui, pra li (...) eu ia passeá e (...) aqui é parado, né (...) aqui, parece que fica mais doente do que quando tá trabaiando (...) ” (Sr. Oswaldo)

Ao consolidar o trabalho como meio de subsistência humano, o capitalismo o constituiu como uma das atividades que nos é característica. Nessa ótica, a vida não tem valor se não é completamente dedicada ao trabalho, à produção de riquezas. Chegado o momento da aposentadoria, de desligar-se dessa “linha de montagem” a que se reduziu a vida, o idoso sente-se pesaroso, uma vez que este sistema de vida mutilador se tornou, praticamente, a única maneira de se viver. 3,7

Uma outra parte dos idosos entrevistados considerava a vivência asilar melhor que a anterior, seja porque agora, no asilo, têm uma condição de vida mais favorável, seja porque a vivência anterior era conflituosa.

“Aqui [no asilo] parece que tá mió, né. Porque eu não preciso fazer nada, num (...) eu fazia comida, lavava roupa, tudo, né (...)” (Sr. Leopoldo)

“Aqui tá melhor. [por que?] porque tá melhor porque eu tô sozinho (...) livra de eu passar nervoso junto com a minha fia lá (...) que ela brigava muito” (Sr. Mauro)

3. Relacionamento estabelecido com a estrutura asilar

Nesta categoria, evidenciamos os sentimento de pertença ou não-pertença dos idosos à instituição asilar e os possíveis vínculos afetivos que lá são desenvolvidos entre os residentes e entre estes e os funcionários.

Em geral, grande parte dos entrevistados apontou apenas os positivos do asilo, nomeando como parâmetros de análise os recursos médicos disponibilizados, a alimentação oferecida, as pessoas, o repouso etc. Destes, três entrevistados relacionaram os pontos positivos ao fato de terem se acostumado com a institucionalização.

“O que a senhora poderia dizer que é bom no asilo?

Ah (...) só (...) as coisas que a gente tem (...) tem recurso, né, tem médico, tem enfermeiro que dá insulina (...) são muito bonzinhos, né, então (...) a gente vai aceitando, né.

O que a senhora acha que é ruim no asilo e gostaria que mudasse?

(...) não tem não (...) não tem problema não (...)” (D. Nélia)

Quando questionados quanto à vontade de sair do asilo, nove entrevistados disseram já ter pensado em fazê-lo, sendo que oito gostariam de retornar às condições de habitação que possuíam antes da internação. Pudemos verificar que entre aqueles que afirmaram não terem pensado em se mudar, o motivo preponderante é terem adquirido o costume de permanecer no lugar em que já estão, deixando subentendido, muitas vezes, um sentimento de impotência.

“Ah? [O senhor já pensou em sair do asilo?] (...) eu já entrei aqui memo (...) o que é que eu faria (...) já acostumei (...) tem é que acostumar mais, né (...)” (Sr. Venâncio)

Essa situação é semelhante à encontrada por Jordão Netto14 em sua pesquisa realizada em São Paulo/SP, em 1973, quando boa parte dos sujeitos estudados por ele também afirmou estar satisfeita com a instituição, apesar das diversas condições negativas então relacionadas pelo autor.

Vimos que mesmo com as mortificações do Eu12 sofridas durante o processo de asilamento, esses idosos apresentam poucas queixas em relação a isso. Quanto aos vínculos relacionais, a maioria dos idosos comentou ter uma boa relação com os demais internos e com os funcionários da instituição, principalmente pelos cuidados assistenciais prestados.

4. Contato mantido com o mundo externo

Nesta categoria, apresentamos as atividades que direta ou indiretamente aproximam os residentes do cotidiano exterior à instituição.

Uma das atividades é a visitação no asilo, que ocorre durante o período comercial todos os dias da semana. Apenas dois residentes disseram não receber visitas, seja de parentes, amigos, voluntários ou curiosos.

Consideramos a participação nas atividades promovidas pelo núcleo de estágio da Universidade Aberta à Terceira Idade da Unesp/Assis, instituição à qual somos vinculados, citadas anteriormente, como uma segunda forma de contato com o exterior. Três idosos comentaram que não participam dessas atividades. Os demais afirmaram participar e gostar das oficinas realizadas, por estas lhes proporcionarem momentos de diversão e distração.

Quanto a passeios pela cidade, 12 idosos disseram não fazê-lo por dificuldades físicas para locomoção, cansaço, possibilidade de atraso nos horários da alimentação ou simplesmente por não se sentirem à vontade em sair.

5. Perspectivas futuras

Reunimos nesta categoria as representações que os idosos fizeram em relação ao porvir. Percebemos que foi aquela que obteve maior variedade e conseqüente distribuição de unidades expressivas.

Sete entrevistados não apresentaram qualquer projeto de vida para o futuro, restringindo suas expectativas à cotidianidade. Quatro entrevistados disseram que gostariam de voltar a trabalhar. Seis entrevistados gostariam de sair da instituição asilar e “voltar para casa”, e três manifestaram a vontade de morrer o mais breve possível, percebendo a morte como resolução dos sofrimentos vivenciados.

Ah (...) [pausa longa] Eu já tô muito desanimado da vida, vixi (...) desanimado da minha doença (...) não sara a dor na perna (...) que o probrema da perna qui é (...) treme direto. Já fui no médico, o médico disse é (...) causa de derrame que eu tive (...) [pausa longa] [O que o senhor pensa em fazer daqui para frente?] Ah, não tenho por enquanto não (...) não tenho não, não tenho não [a voz foi baixando até sussurrar].” (Sr. Mauro)

Futuro? Ficar bom e trabaiá.” (Sr. Juvenal)

“(...) No futuro? Eu espero só que Deus me leve. Quanto mais perto (...) porque eu tenho que pensar na minha alma, senão eu já tinha (...) terminado com a vida.” (D. Amanda)

A partir do exposto, acreditamos que a concepção da velhice asilada como um processo de constantes perdas, que traz ao indivíduo a sensação de não poder mais viver suas potencialidades de forma plena e relacionar-se com o porvir, é uma representação da maioria dos residentes. Apesar de a velhice estar ainda vinculada às construções das idéias de morte e declínio das funções vitais, vimos a importância de não reduzirmos o envelhecimento à homogeneização, pois há aqueles que percebem o asilo como mais um local de passagem, assim como outros já vividos. E, embora saibam das dificuldades – físicas, financeiras, entre outras – a que estão expostos, nutrem a esperança de saírem de lá em algum momento.

Um fato que nos intrigou bastante foi que a maioria dos idosos afirmou não ter recordações dos primeiros tempos na instituição. Alguns disseram apenas que se acostumaram rapidamente e que agora estava “tudo bem”. Segundo Goffman,12 todos nós temos uma “cultura aparente” fomentada pela convivência familiar, em que adquirimos hábitos e maneiras próprias de agir que são aceitas por esse grupo que nos acolhe. Porém, quando se chega a uma instituição total, se é despojado dessa vida comum e, pelas “boas-vindas”, novas regras e condutas são ditadas, impondo-se um “rearranjo do eu”. Os primeiros dias na instituição asilar representam esse momento de passagem, quando o já residente passa a conhecer o cotidiano e o funcionamento institucional: as regras, as atitudes esperadas e os pequenos privilégios que se pode obter mediante a obediência.

Essa falta de comentários, e mesmo o silêncio proposital, nos sugeriu duas possibilidades de compreensão: ou realmente eles se esqueceram desse momento, seja pelos sofrimentos trazidos ou pelo tempo já passado – o tempo médio de asilamento varia entre dois a três anos, chegando a dez anos em alguns casos – ou se sentem de alguma forma pressionados a não fazerem qualquer reclamação sobre o ocorrido, por medo de punições por parte da equipe dirigente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pelas considerações prévias, podemos dizer que os idosos entrevistados percebem o processo de institucionalização a que são expostos e procuram demonstrá-lo em suas repostas utilizando assertivas curtas ou a contraposição das cotidianidades – anterior e posterior à institucionalização.

Um dos fatos que mais chamou nossa atenção foi uma grande parte dos idosos ter afirmado estar satisfeita com a instituição asilar, com os recursos e serviços lá oferecidos, com os funcionários e com os outros residentes, sendo que, em contrapartida, demonstram apatia durante a realização de atividades como alimentação ou conversas. Comentaram ainda o ressentimento que têm frente ao afastamento do mundo externo, visível pelas poucas visitas que recebem e passeios que fazem. Em geral, observamos que procuram se isolar das coisas que estão ao redor, ao mesmo tempo em que enfatizam suas supostas passagens pela fase terminal de suas doenças – que em muitos casos não apresentam tal gravidade.

Esses discursos de aparente satisfação ou resignação podem ser problematizados a partir dos questionamentos de Jordão Netto,14 que propõe as seguintes disposições de idéias, não excludentes entre si: ou o idoso sente-se receoso em criticar a instituição por crer que isto poderá prejudicá-lo, de alguma forma, junto aos dirigentes; ou o fato de terem sido, em geral, pessoas social, política e economicamente pouco participativas faz com que percebam o asilo como um prolongamento dessa situação, onde possuem ainda estabilidade e segurança.

Acreditamos que o processo de institucionalização se relaciona intimamente com essa representação conflituosa de si. Por um lado, sentem-se acolhidos pela instituição porque não ocupam mais um lugar na rede relacional comunitária em que estavam inseridos, recebendo cuidados essenciais à sua sobrevivência;6 por outro, se sentem marginalizados em relação a esse mesmo meio social, carentes do contato com os outros e de exercerem ativamente sua cidadania, liberdade de ir e vir, de se expressar, de tomar decisões etc.

Poucos idosos entrevistados desenvolvem alguma atividade que lhes desperta prazer ou que lhes exige certa dose de esforço pessoal e perspectivas futuras. Aqueles que possuem algum afazer se encontram em claro contraste com uma estrutura estagnante, que cultiva a idéia de que o asilo é apenas um “lugar de descanso” e estar lá significa “estar fora do mundo”, não restando mais o que fazer.

Vale ressaltar aqui que essa oposição – válidos e inválidos – foi uma das justificativas utilizadas no início do século XX no Brasil para a consolidação do asilo como instituição de assistência aos velhos “desamparados”, pessoas que, por terem suas condições físicas para o trabalho diminuídas, não poderiam mais realizá-lo da forma como até o momento tinham feito.13

Muitos idosos abraçam essa idéia de invalidez e mergulham num estado depressivo ao visionarem apenas as perdas e faltas constantes e procuram, então, se reafirmar a partir da própria doença.

A partir desta pesquisa, podemos concluir que a percepção dos idosos asilados sobre a instituição asilar e sobre si mesmos é referida de forma heterogênea nas respostas às entrevistas feitas. Apesar de reconhecerem o processo de institucionalização por que passam, poucos o apontaram claramente, nomeando os aspectos positivos e negativos, como “a comida é que é ruim”, “o isolamento é a parte ruim”, “os cuidados médicos são bons”, entre outros. Procuraram, em geral, apresentar comparações entre a vida anterior à entrada no asilo e a vivida atualmente associadas a expressões indefinidas como “tudo mudou”, “muita coisa”, “nada é melhor”, “tudo é pior” etc., para demonstrar que percebiam as diferenças ocorridas em suas vidas, mesmo que silenciosa e passivamente.

AGRADECIMENTOS

A todos os idosos que participaram da pesquisa, e a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização deste trabalho

REFERÊNCIAS

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Trabalho financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo-FAPESP, Processo nº 04/15471-0.

Recebido: 14 de Março de 2007; Aceito: 10 de Julho de 2007

Correspondência / Correspondence Nayara de Paula Faleiro R. Edith Junqueira de Azevedo Marques, 169 apto térreo – Horto do Ypê – 05782-390 - São Paulo, SP E-mail: nayarapfaleiros@yahoo.com.br

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