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Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia

Print version ISSN 1809-9823On-line version ISSN 1981-2256

Rev. bras. geriatr. gerontol. vol.18 no.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1809-9823.2015.14216 

Artigos Originais

Qualidade de vida e morbidades associadas em idosos cadastrados na Estratégia de Saúde da Família do município Senador Guiomard, Acre

Thatiana Lameira Maciel Amaral1 

Cledir de Araújo Amaral2 

Patrícia Rezende do Prado1 

Nathália Silva de Lima1 

Patrícia Vasconcelos Herculano1 

Gina Torres Rego Monteiro3 

1Universidade Federal do Acre, Centro de Ciências da Saúde e do Desporto. Rio Branco, Acre, Brasil.

2Instituto Federal do Acre. Rio Branco, Acre, Brasil.

3Fundação Oswaldo Cruz - Escola Nacional de Saúde. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

RESUMO

Objetivos:

Verificar a prevalência de baixa qualidade de vida e analisar as morbidades a ela associadas em idosos cadastrados na Estratégia de Saúde da Família.

Método

: Estudo transversal realizado com idosos cadastrados na Estratégia de Saúde da Família residentes na zona urbana do município de Senador Guiomard, Acre. A comparação entre homens e mulheres quanto às morbidades referidas e qualidade de vida foi realizada pelo teste Qui-quadrado de Pearson. As associações dos tercis da qualidade de vida com as morbidades referidas foram estimadas pela razão de chance (OR) por meio de análise de regressão logística multivariada.

Resultados

: Homens e mulheres apresentaram diferenças quanto ao relato de hipertensão (p=0,015), diabetes (p=0,033), no domínio psicológico (p=0,009) e da qualidade de vida total (<0,001). Os idosos classificados no tercil inferior do domínio físico e social da qualidade de vida tiveram maior chance de sofrer de hipertensão, distúrbios cardiovasculares e anemia. Os pertencentes ao tercil inferior do domínio psicológico também tiveram maior chance de sofrer de hipertensão, distúrbios cardiovasculares e insônia, além da anemia. Os idosos pertencentes ao tercil inferior total tiveram maior chance de sofrer de hipertensão, distúrbios cardiovasculares, insônia e anemia. Não houve associação estatisticamente significativa no domínioambiental.

Conclusão

: A qualidade de vida total e os domínios físico, psicológico e social da qualidade de vida podem ser considerados bons indicadores de morbidades referidas em idosos, exceto para o domínio ambiental.

Palavras-Chave: Morbidade; Qualidade de Vida; Idoso

INTRODUÇÃO

O envelhecimento é compreendido como um processo natural de diminuição progressiva da reserva funcional dos indivíduos, sendo chamado de senescência. No entanto, se ocorrer condições patológicas que requerem assistência, tem-se a senilidade.1

A chegada da velhice inclui as limitações de um corpo muito vivido sem a mesma vitalidade, rapidez de raciocínio, percepção sensorial e motora ou cognitiva.² Além disso, o idoso pode ser acometido por doenças crônicas durante o processo de envelhecimento que influenciarão no seu bem-estar.1

Dentre as modificações biológicas nesse processo, estão a atrofia da musculatura esquelética, redução da água intracelular, aumento e redistribuição de gordura, diminuição da concentração de albumina sérica, redução da taxa do metabolismo basal, alteração no sistema de regulação da temperatura e diminuição da imunidade celular, que favorecem o aparecimento de doenças, se não houver uma educação para o envelhecimento.3

A partir da década de 1960 desencadeou-se, mundialmente, a transição da estrutura etária.4 A expectativa de vida no Brasil tem aumentado rapidamente nas últimas décadas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), passando de 70,4 anos, em 2000, para 73,4 anos em 2010.5 Este aumento na expectativa de vida ocorreu de modo gradual e foi possível graças a melhorias nas condições sociais, de saneamento básico, além do uso de antibióticos e de vacinas que influenciaram positivamente na prevenção e tratamento de doenças infectocontagiosas.6 Assim, a população idosa passou de 3 milhões em 1960, para 7 milhões em 1975 e 14 milhões em 2002. Estima-se que este número alcance 32 milhões de idosos em 2020.7 Dentre as regiões do país, a região Norte apresentou a menor porcentagem (5,3%) de idosos.8

Quanto à presença de doenças, segundo o IBGE, 77,4% dos idosos declararam possuir doenças crônicas. Para aqueles de 75 anos ou mais de idade, essa proporção aumenta para 80,3%. Quase metade (48,9%) dos idosos sofria de mais de uma doença crônica. Entre as doenças crônicas mais referidas está a hipertensão arterial, que se destaca em todos os subgrupos de idosos, com proporções em torno de 50%. As doenças musculoesqueléticas aparecem, também, com bastante frequência (35,1%) entre as pessoas de 60 anos ou mais de idade.8

Estudos apontam que a presença de morbidades influencia de forma negativa a qualidade de vida dos indivíduos.9 A Ciência sempre buscou conceituar o termo "qualidade de vida" e, nessa busca, acredita não ter um único significado.10O termo qualidade de vida, geralmente, inclui uma variedade potencial de mais condições que podem afetar a percepção do indivíduo, seus sentimentos e comportamentos relacionados com o seu funcionamento diário, incluindo, mas não se limitando, a sua condição de saúde e as intervenções médicas.11 O conceito de qualidade de vida é pessoal e depende das necessidades e preferências de cada indivíduo e do que é importante para ele, por isso, nem sempre o nível socioeconômico é sinônimo de qualidade de vida, sendo o tema muito subjetivo.12

A boa qualidade de vida na idade madura deve ser vista por múltiplos aspectos, ou seja, uma velhice satisfatória não será atributo do indivíduo biológico, psicológico ou social, mas resulta da interação entre pessoas em mudança, vivendo em sociedade e de suas relações intra, extraindividuais e comunitárias.13

Nesse contexto, a Estratégia de Saúde da Família, prioritária para a organização da atenção básica e estruturação do sistema de saúde, trabalha com práticas interdisciplinares buscando uma atenção integral e humanizada a ser oferecida à população nela cadastrada, levando em consideração a realidade local e valorizando as diferentes necessidades dos diversos grupos populacionais.

No ano de 2006, foi estabelecida a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), portaria GM nº 2.528/2006, definindo que a atenção à saúde dessa população terá como porta de entrada a Atenção Básica/Saúde da Família. O objetivo dessa iniciativa ministerial foi oferecer à pessoa idosa e à sua rede de suporte social uma atenção humanizada com orientação, acompanhamento e apoio domiciliar.14

São grandes os desafios na área da saúde para atender a essa demanda tão específica e que requer intervenções de custos elevados e de tecnologia avançada.15 Atualmente no Brasil vários estudos vêm abordando o tema "idosos", visando definir as condições de saúde e verificar as morbidades que podem gerar incapacidades e dependência.

Assim, o presente estudo objetivou verificar a prevalência de baixa qualidade de vida e analisar as morbidades a ela associadas em idosos cadastrados na Estratégia de Saúde da Família do município de Senador Guiomard, Acre.

METODOLOGIA

Estudo transversal com amostra probabilística de idosos atendidos pela Estratégia de Saúde da Família do município de Senador Guiomard, Acre. A amostragem foi selecionada assumindo um erro amostral de 5% e nível de confiança de 95%, com uma prevalência esperada para doenças crônicas de 50%, levando a uma amostra de 235 sujeitos, acrescidos 15% para eventuais perdas ou recusas, totalizando a necessidade de uma amostra de 271 indivíduos. No ano de 2010, a Estratégia de Saúde da Família de Senador Guiomard cobria 100% da população da zona urbana do município.

A amostra foi selecionada por meio de um sorteio aleatório do número de cadastro dos idosos (ficha A) obtido junto à Secretaria Municipal de Saúde e Meio Ambiente das quatro Unidades de Saúde da Família existentes no município.

Foram excluídos os idosos com comprometimento cognitivo que inviabilizassem responder às questões da entrevista. Totalizaram sete perdas ou recusas, representando 2,9% da amostra. A amostra final foi composta por 264 idosos de ambos os sexos com idade entre 60 e 102 anos.

A coleta dos dados foi realizada entre os meses de agosto e outubro de 2010 por entrevistadores treinados, sendo que cerca de 10% das entrevistas foram refeitas pela coordenação da pesquisa para garantir o controle das informações obtidas e corrigir possíveis divergências entre os resultados dos avaliadores. Não foi observada diferença.

Para obtenção dos dados, foram realizadas entrevistas estruturadas em um formulário contendo dados de identificação, demográficos, socioeconômicos e condição de saúde, além das escalas para classificação econômica16 e de Qualidade de Vida - WHOQOL-Bref.17

A presença de morbidade foi avaliada como variável dependente, tendo sido obtida pelo autorrelato do idoso sobre o diagnóstico feito por profissional de saúde da presença de alguma das seguintes morbidades: hipertensão, diabetes, distúrbio cardiovascular (acidente vascular encefálico e problema cardíaco), distúrbio musculoesquelético (problema na coluna, reumatismo, artrite/artrose e osteoporose), insônia, catarata, anemia, distúrbios gastrintestinais e urinários.

A variável independente qualidade de vida foi mensurada pelo instrumento conhecido por WHOQOL-Bref (The World Health Organization Quality of Life Assesment),17proposto pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e amplamente utilizado em diferentes países e em 20 idiomas. Disponível no Brasil, o questionário faz um inventário das atividades desenvolvidas nas duas últimas semanas, apresentando-se em duas versões, a versão longa (100 questões) e a versão curta (26 questões). Essa última versão foi composta retendo da primeira as questões que obtiveram melhor desempenho psicométrico, contemplando os domínios total, físico, psicológico, social e ambiental, sendo identificados níveis satisfatórios de consistência interna, validade discriminante, validade de critério, validade concorrente e fidedignidade teste-reteste.17 Os escores dos domínios da qualidade de vida foram analisados em tercis, sendo o tercil inferior a categoria que demonstra os menores escores de qualidade de vida e o superior, com maiores escores e, consequentemente, maior chance de boa qualidade de vida.

As covariáveis sexo, idade, escolaridade, situação conjugal e classificação econômica também foram investigadas. A idade foi categorizada em "60 a 69 anos", "70 a 79 anos" e "80 anos e mais". A situação conjugal, em "com companheiro" e "sem companheiro". A escolaridade foi categorizada em "Analfabeto/3ªsérie fundamental" e "4ª série fundamental ou mais". A classificação econômica foi obtida por meio do Critério Brasil de Classificação Econômica,17 que considera o poder de compra das pessoas nas seguintes classes: A1, A2, B1, B2, C1, C2, D e E. O critério atribui pontos em função de cada característica domiciliar e realiza a soma desses pontos, cada classe corresponde a um intervalo numérico. No presente estudo, optou-se por dividir em duas classes, "B/C" e "D/E", ou seja, somaram-se os valores de ambas, criando assim uma categoria que inclua os pertencentes das duas classes. Ressalte-se que nenhum idoso foi categorizado na classe A.

Os dados foram duplamente digitados para corrigir possíveis erros de digitação e validados com o software Epi Info 6.04 (Centers for Disease Control and Prevention, Atlanta, Estados Unidos). Na análise descritiva, foram verificadas as frequências absolutas e relativas de todas as variáveis analisadas por sexo, sendo estimadas as diferenças nas frequências entre os idosos segundo sexo quanto às morbidades referidas e a qualidade de vida, pelo teste de Qui-quadrado de Pearson (p<0,05). Também foram estabelecidas médias com seus respectivos desvios-padrão para os domínios da qualidade de vida, onde foram testadas as diferenças das médias entre os indivíduos com e sem morbidade por meio do teste t Student para amostras independentes (p<0,05).

Modelos de regressão logística multivariada não pareada estimaram a magnitude de associação em Odds Ratio (OR), com seus respectivos intervalos de confiança em 95% (IC95%), entre a variável dependente morbidade autorreferida com os domínios da qualidade de vida em tercis, tendo o tercil superior de cada domínio como referência. Inicialmente, foi realizada análise bivariada, que verificou associação de cada morbidade autorreferida com os domínios da qualidade de vida. As associações que apresentaram valor dep<0,20 foram incluídas no modelo multivariado. O modelo foi ajustado pela idade, sexo, escolaridade, classificação econômica e situação conjugal. As magnitudes de associações com valores de p igual ou abaixo de 0,05 foram consideradas estatisticamente significantes. Os dados foram analisados com o auxílio do software SPSS(Statistical Package for the Social Sciences), versão 17.0.

Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Acre sob o protocolo nº 23107.021442/2010-68, em 2010. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

Participaram da pesquisa 264 idosos, sendo a maioria mulheres. O grupo etário predominante foi de 60 a 69 anos, de baixa escolaridade, sem companheiro, com renda menor ou igual a um salário mínimo e pertencente à classe socioeconômica D/E (tabela 1).

Tabela 1. Características socioeconômicas e de qualidade de vida. Senador Guiomard, AC, 2010.  

Variáveis TotalN (%) Homensn (%) Mulheresn (%) p-valor
Grupo etário 0,044
60 a 69 anos 126(47,7) 39(37,9) 87(54,0)
70 a 79 anos 90(34,1) 41(39,8) 49(30,4)
80 anos e mais 48(18,2) 23(22,3) 25(15,5)
Escolaridade 0,919
Analfabeto/3ªsérie fundamental 211(79,9) 82(79,6) 129(80,1)
4ª série fundamental ou mais 53(20,1) 21(20,4) 32(19,9)
Situação conjugal 0,049
Com companheiro(a) 111(42,0) 51(49,5) 60(37,3)
Sem companheiro(a) 153(58,0) 52(50,5) 101(62,7)
Renda (salário mínimo)* 0,138
De 0 a <1 SM 90(58,2) 52(53,1) 90(61,6)
De 1 ou mais SM 102(41,8) 46(46,9) 56(38,4)
Classificação econômica 0,588
B/C 95(36,0) 37(35,9) 58(36,0)
D/E 169(64,0) 66(64,0) 113(64,0)

*Salário mínimo vigente em 2010= R$ 510,00.

Os menores escores da qualidade de vida foram obtidos nos domíniosambiental e psicológico, com média, respectivamente, de 50,4(±7,97) e 63,8(±10,56). O maior escore foi obtido no domínio qualidade de vida total com média de 63,5(±15,00).

Observa-se que os domínios da qualidade de vida psicológico e total apresentam uma diferença estatisticamente significativa entre os sexos, sendo que a maioria dos indivíduos do sexo masculino obteve um escore melhor no tercil superior da qualidade de vida (tabela 2).

Tabela 2. Escores da qualidade de vida. Senador Guiomard, AC, 2010. 

Domínios da qualidade de vida (QV) TotalN (%) Homensn (%) Mulheresn (%) p-valor
Físico 0,145
Tercil superior 108(40,9) 48(46,6) 60(37,3)
Tercil intermediário 79(29,9) 24(23,3) 55(34,2)
Tercil inferior 77(29,2) 31(30,1) 46(28,6)
Psicológico 0,009
Tercil superior 130(49,2) 56(54,4) 74(46,0)
Tercil intermediário 62(23,5) 14(13,6) 48(29,8)
Tercil inferior 72(27,3) 33(32,0) 39(24,2)
Social 0,265
Tercil superior 138(52,3) 48(46,6) 90(55,9)
Tercil intermediário 69(26,1) 32(31,1) 37(23,0)
Tercil inferior 57(21,6) 23(22,3) 34(21,1)
Ambiental 0,798
Tercil superior 112(42,4) 44(42,7) 68(42,2)
Tercil intermediário 85(32,2) 31(30,1) 54(33,5)
Tercil inferior 67(25,4) 28(27,2) 39(24,2)
Total <0,001
Tercil superior 131(49,6) 56(54,4) 75(46,6)
Tercil intermediário 93(35,2) 23(22,3) 70(43,5)
Tercil inferior 40(15,2) 24(23,3) 16(9,9)

Com relação ao autorrelato de doenças, as mais frequentemente foram distúrbios musculoesqueléticos (73,1%), hipertensão (63,4%), insônia (46,8%) e distúrbios cardiovasculares (42,0%) (tabela 3). Ressalte-se que homens e mulheres diferem de forma significativa quanto à prevalência de diabetes e hipertensão, sendo suas prevalências maiores nas mulheres (tabela 3).

Tabela 3. Morbidades autorreferidas. Senador Guiomard, AC, 2010.  

Variáveis TotalN (%) Homensn (%) Mulheresn (%) p-valor
Hipertensão* 0,015
Não 96(36,6) 47(45,6) 49(30,8)
Sim 166(63,4) 56(54,4) 110(69,2)
Diabetes* 0,033
Não 218(83,2) 92(89,3) 126(79,2)
Sim 44(16,8) 11(10,7) 33(20,8)
Distúrbio cardiovascular 0,555
Não 153(58,0) 62(60,2) 91(56,5)
Sim 111(42,0) 41(39,8) 70(43,5)
Insônia* 0,190
Não 140(53,2) 60(58,3) 80(50,0)
Sim 123(46,8) 43(41,7) 80(50,0)
Distúrbio musculoesquelético* 0,132
Não 71(26,9) 33(32,0) 38(23,6)
Sim 193(73,1) 70(68,0) 123(76,4)
Incontinência intestinal/urinária 0,101
Não 223(84,8) 92(89,3) 131(81,9)
Sim 40(15,2) 11(10,7) 29(18,1)
Catarata* 0,421
Não 162(62,1) 59(59,0) 103(64,0)
Sim 99(37,9) 41(41,0) 58(36,0)
Asma/bronquite* 0,729
Não 237(90,1) 92(89,3) 145(90,6)
Sim 26(9,9) 11(10,7) 15(9,4)
Anemia* 0,801
Não 226(86,6) 89(87,3) 137(86,2)
Sim 35(13,4) 13(12,7) 22(13,8)

*Número menor que 264 devido ao desconhecimento por parte do idoso da presença de morbidades.

Ao avaliar a presença de morbidades autorreferidas com os domínios da qualidade de vida, tendo como referência o tercil superior dessa, observou-se que os idosos que relataram hipertensão, distúrbios cardiovasculares e anemia obtiveram maior chance de pertencer ao tercil inferior dos domínios da qualidade de vida, com exceção do domínio ambiental, que não obteve significância estatística na associação com as morbidades. O autorrelato de insônia também aumentou a chance de pertencer ao tercil inferior dos domíniospsicológico e total da qualidade de vida (tabela 4).

Tabela 4. Associação dos tercis da qualidade de vida com morbidades autorreferidas. Senador Guiomard, AC, 2010.  

Domínios da qualidade de vida (QV) Hipertensão Distúrbio cardiovascular Insônia Anemia
OR (IC95%)* OR (IC95%)* OR (IC95%)* OR (IC95%)*
QV Domínio Físico **
Tercil intermediário 1,42(0,75;2,68) 2,01(1,07;3,79) 1,35(0,73;2,51) 2,11(0,77;5,80)
Tercil inferior 2,26(1,10;4,65) 2,53(1,26;5,10) 1,93(0,98;3,82) 3,64(1,31;10,17)
p Tendência 0,027 0,008 0,057 0,013
QV Domínio Psicológico **
Tercil intermediário 1,12(0,59;2,16) 1,35(0,71;2,57) 1,31(0,70;2,46) 2,13(0,76;5,93)
Tercil inferior 3,59(1,75;7,35) 2,22(1,19;4,13) 1,86(1,01;3,44) 4,00(1,62;9,88)
p Tendência 0,001 0,013 0,046 0,003
QV Domínio Social **
Tercil intermediário 2,00(1,05;3,80) 1,79(0,98;3,27) 1,17(0,65;2,11) 2,40(0,99;5,84)
Tercil inferior 2,77(1,34;5,75) 2,22(1,16;4,26) 1,02(0,54;1,93) 2,55(1,01;6,43)
p Tendência 0,003 0,010 0,862 0,032
QV Domínio Ambiental **
Tercil intermediário 0,89(0,49;1,62) 1,70(0,95;3,04) 0,70(0,39;1,25) 2,12(0,87;5,14)
Tercil inferior 1,56(0,79;3,10) 1,70(0,90;3,21) 1,55(0,82;2,90) 2,36(0,91;6,17)
p Tendência 0,277 0,077 0,290 0,066
QV Total **
Tercil intermediário 2,23(1,24;4,03) 1,80(1,02;3,18) 1,47(0,85;2,56) 2,66(1,07;6,58)
Tercil inferior 6,56(2,46;17,46) 6,34(2,81;14,32) 2,77(1,29;5,93) 5,29(1,89;14,79)
p Tendência <0,001 <0,001 0,008 0,001

*OR= ajustada pela idade, sexo, escolaridade, classificação econômica e situação conjugal; **tercil superior como categoria de referência.

DISCUSSÃO

A presença de morbidades é uma realidade ao envelhecer e acarreta relação com os baixos escores dos domínios da qualidade de vida, exceto para oambiental, conforme apresentado nos resultados do presente estudo. O crescimento no número de idosos ao longo dos últimos anos deve ser uma preocupação para as Estratégias de Saúde da Família em todo país.18

No Estado do Acre, os idosos correspondem a 4,3% da população, sendo que em Senador Guiomard, a população de idosos é de 7,9%.9 A cada ano no Brasil temos 650 mil novos idosos, a maior parte com doenças crônicas e alguns com limitações funcionais.19

Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), cerca de 70,0% dos idosos participantes relataram ter, pelo menos, uma doença crônica.20 A hipertensão arterial e a artrite foram as doenças crônicas mais frequentemente relatadas.21 No presente estudo, a hipertensão arterial foi a mais frequente, fato que corrobora os dados nacionais que indicaram uma prevalência de 45,4% na população.22 Outros estudos também apontam as doenças do sistema cardiovascular (angina, insuficiência cardíaca, afecções vasculares, arritmia cardíaca, acidente vascular cerebral e trombose) e as dislipidemias, todas associadas à hipertensão, em primeiro lugar, seguidas pela diabetes e pelas doenças musculoesqueléticas.23,24

A ocorrência de morbidades interfere significativamente em vários domínios da qualidade de vida dos indivíduos idosos. Para alcançar o bem-estar na velhice, deve existir um equilíbrio entre todas as vertentes da qualidade de vida.25 Quanto à percepção de qualidade de vida dos idosos da presente pesquisa, observa-se que as mulheres relataram pior qualidade de vida. Segundo Pino,26 a qualidade de vida subjetiva é melhor percebida pelos homens em relação às mulheres idosas, o que pode ser explicado pelo sentimento negativo da chegada do envelhecimento pelas mulheres, associado às mudanças físicas, surgimento de doenças e perda do companheiro. Apesar de o sexo feminino ter sobrevivência maior do que os homens, essas experimentam proporções mais elevadas de limitações funcionais e morbidades,27ponto relevante e constatado no estudo, já que em todas morbidades referidas as mulheres detinham a maioria dos menores escores de qualidade de vida.

Outros estudos também demonstraram que mulheres vivem mais, sendo este um fenômeno mundial, e bastante intenso no Brasil, onde as mulheres vivem em média oito anos a mais que os homens.28 Tal fato pode estar relacionado aos comportamentos específicos de cada sexo, pois as mulheres têm maior assiduidade no serviço de saúde por vivenciar experiências ao longo da vida em Unidades de Saúde, como: pré-natal, planejamento familiar e consultas de rotina, o que facilita a descoberta de doenças nos estágios iniciais.29,30 Por outro lado, os homens, apesar de durante a vida estarem mais expostos a acidentes de trabalho e de trânsito, além de liderarem o ranking no uso de álcool, drogas e cigarro,31 não procuram atendimento de saúde.32

Ao relacionar a presença de morbidades com uma pior qualidade de vida, verificou-se que existe uma associação dos baixos escores da qualidade de vida com a anemia, fato que pode ser explicado pelo baixo suprimento de oxigênio nas células. o que proporciona a diminuição do metabolismo do organismo. A fadiga, que é um dos principais sintomas, pode piorar a qualidade de vida do idoso e funcionar como um estressor a mais, precipitando ou agravando as percepções sobre saúde.33

A hipertensão e distúrbios cardiovasculares influenciam a qualidade de vida total. A hipertensão é um fator integrante dos distúrbios cardiovasculares. Nesse contexto, sugere-se que a qualidade de vida dos indivíduos seja prejudicada pela presença das morbidades supracitadas, já que em um contexto geral da vida diária essas causam incapacidade física, dependência medicamentosa, comprometendo o cotidiano do indivíduo.34

As desordens do sono parecem aumentar com a idade, sendo a insônia a mais prevalente. Estudos demonstram a associação de doenças com a ocorrência de insônia, com ênfase para as relacionadas às questões psicológicas, como depressão, ansiedade e demência.35-37 A privação do sono resulta em menor qualidade de vida e maiores preditores de morbimortalidade em idosos.38

Uma das limitações deste estudo foi a utilização do autorrelato das morbidades, que parece superestimar os dados, pois retratam apenas o que a pessoa apresenta sintomaticamente.39 No entanto, a utilização do autorrelato tem se mostrado uma ferramenta importante e válida, com alta especificidade e sensibilidade, em estudos epidemiológicos, devido às dificuldades técnicas e aos altos custos nas investigações populacionais.40-42 Importante destacar também que o delineamento transversal não permite fazer inferência casual para as associações observadas, devendo ser consideradas com cautela.

Os pontos positivos do estudo foram a amostra significativa de idosos acompanhados pela Estratégia de Saúde da Família de Senador Guiomard-AC e a abordagem de uma temática relevante, frente ao cenário de envelhecimento populacional e da influência de morbidades autorreferidas na qualidade de vida dos idosos ainda não pesquisada no município.

CONCLUSÃO

A maioria dos idosos atendidos pela Estratégia de Saúde da Família de Senador Guiomard-AC relata ter pelo menos uma doença crônica, com maior predomínio de hipertensão, diabetes e doenças musculoesqueléticas. Os idosos classificados no tercil inferior do domínio físico e social da qualidade de vida tiveram mais chances de sofrer hipertensão arterial, distúrbios cardiovasculares e anemia. Os pertencentes ao tercil inferior do domínio psicológico e total mantiveram os mesmos anteriormente mencionados, acrescido de insônia.

Ressalte-se que a percepção da qualidade de vida está fortemente determinada por diversos fatores externos e internos, como saúde e outras condições financeiras e sociais. Portanto, deve-se enfatizar a importância do acompanhamento holístico dos idosos acompanhados nas unidades de saúde.

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Recebido: 12 de Novembro de 2014; Revisado: 16 de Julho de 2015; Aceito: 11 de Agosto de 2015

Correspondência / CorrespondenceThatiana Lameira Maciel Amaral E-mail: thatianalameira27@gmail.com

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