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Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia

On-line version ISSN 1981-2256

Rev. bras. geriatr. gerontol. vol.20 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1981-22562017020.160151 

Artigos originais

Incapacidade cognitiva e fatores associados em idosos institucionalizados em Natal, RN, Brasil

Fabienne Louise Juvêncio Paes de Andrade1 

Joelmma Maria Rebouça de Lima2 

Kalyne do Nascimento Moreira Fidelis2 

Javier Jerez-Roig1 

Kenio Costa de Lima1 

1Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Departamento de Odontologia. Natal, RN, Brasil.

2Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Departamento de Fisioterapia. Natal, RN, Brasil.

Resumo

Objetivo:

Identificar a prevalência de incapacidade cognitiva e seus fatores associados em idosos institucionalizados.

Métodos:

Estudo transversal, realizado entre Outubro a Dezembro de 2013, nas Instituições de Longa Permanência para Idosos de Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, com 326 idosos de ambos os sexos. A avaliação do declínio cognitivo foi classificada por meio do teste de Pfeiffer. Foram aferidas informações sobre condições sociodemográficas e estado de saúde. O estado nutricional foi avaliado mediante a aplicação da Mini Avaliação Nutricional e capacidade funcional por meio do Índice de Katz. Para identificação dos fatores associados com a presença de incapacidade cognitiva moderada ou severa foi realizada a análise múltipla de regressão logística das variáveis com valor de p>0,20, utilizando-se o método Stepwise Forward.

Resultados:

Observou-se que 83,6% (IC 95%: 78,9-87,3%) dos idosos possuíam incapacidade cognitiva. O modelo final, ajustado pelo tipo de ILPI, mostrou que ter 83 anos ou mais foi considerado fator de risco para a incapacidade cognitiva moderada ou severa. Todavia, ter Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) e ter sido institucionalizado por opção própria foram considerados fator de proteção para a incapacidade cognitiva moderada ou severa.

Conclusão:

As variáveis idade, ter HAS e ter sido institucionalizado por opção estão associadas diretamente, seja como fator de risco ou proteção, à presença de incapacidade cognitiva severa ou moderada da população idosa. O diagnóstico precoce desses fatores acarreta em maior zelo para que sejam traçadas metas de prevenção e atenção à saúde, melhorando, consequentemente, a qualidade de vida dessas pessoas.

Palavras-chaves: Saúde do idoso institucionalizado; Instituição de longa permanência para idosos; Idosos fragilizados; Envelhecimento cognitivo; Estudos transversais.

INTRODUÇÃO

O rápido crescimento da população idosa serve como alerta ao governo brasileiro, para a necessidade de criar políticas públicas que preparem a sociedade para tal realidade. Além disso, esse aumento do número de idosos tem como consequências o aumento da prevalência de doenças crônico-degenerativas e a modificação do perfil epidemiológico de morbimortalidade da população, acarretando uma sobrecarga aos serviços de saúde pelos idosos, trazendo consequências sociais e econômicas à saúde pública¹.

O processo de envelhecimento caracteriza-se pelo comprometimento no funcionamento de todos os sistemas do organismo, sendo o Sistema Nervoso Central um dos mais afetados com o desenvolvimento de alterações no sistema de neurotransmissores e hipotrofia cerebral. Essas modificações acontecem preferencialmente nas regiões responsáveis pelas funções cognitivas e, consequentemente, é comum observar desde mínimos até significativos prejuízos dessa função entre os indivíduos idosos2. Durante esse processo, 15% das pessoas desenvolvem inicialmente incapacidade cognitiva progressiva. Desse total, mais ou menos 5% das pessoas acima de 65 anos e 20% acima de 80 desenvolvem demência de grau moderado a grave3.

A cognição envolve toda a esfera do funcionamento mental e implica habilidade de sentir, pensar, perceber, lembrar, raciocinar, formar estruturas complexas de pensamento e a capacidade de produzir respostas às solicitações e estímulos externos4. Alguns fatores, como socioeconômico, psicológico e de saúde, podem contribuir para o declínio gradual das funções cognitivas5.

As modificações e os deficit causados por essa perda na cognição acarretam consequências diretas sobre a qualidade de vida dos idosos, podendo levar ao declínio funcional, com diminuição e/ou perdas das habilidades para o desenvolvimento das atividades da vida diárias (AVD). Sabe-se que tanto as doenças físicas como as mentais podem levar à perda da independência e autonomia, sendo fatores de risco importantes para a mortalidade6.

Para o idoso, a perda do desempenho para o desenvolvimento das AVDs, não representa apenas um risco para a mortalidade, mas também um preditor, em muitos casos, de institucionalização. Segundo Maseda et al.7, dentre os principais preditores de institucionalização destacam-se a baixa frequência de convívio com parentes e amigos e maior idade.

Com o diagnóstico do perfil cognitivo do idoso, as instituições de longa permanência para idosos (ILPI) têm informação fundamental para planejar e guiar os cuidados individualizados daqueles que apresentam determinado grau de dependência, além de agregarem a possibilidade de aditar recursos que permitam manter esse idoso o mais ativo possível, elaborando metas objetivas, como a formação de cuidadores e traçando terapias para a melhoria na qualidade de vida do idoso8.

Desta forma, a identificação das condições de saúde dos idosos, bem como do seu estado cognitivo, podem contribuir para que sejam traçadas metas que possibilitem uma melhor assistência a essa população, contribuindo para uma melhor qualidade de vida e diminuindo a institucionalização do idoso pela falta de autonomia e independência. Assim, o objetivo do presente estudo foi identificar a prevalência de incapacidade cognitiva e seus fatores associados em idosos institucionalizados.

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal, realizado entre Outubro a Dezembro de 2013. Todos os idosos com 60 anos ou mais e que residiam em ILPI privadas ou filantrópicas da cidade de Natal, RN, Brasil, foram incluídos no estudo. Das 14 ILPI cadastradas na Vigilância Sanitária no município do Natal, RN, 10 (71,4%) ILPI concordaram em participar do estudo, sendo cinco privadas e cinco sem fins lucrativos. Os idosos que não se encontravam na ILPI por internação hospitalar, bem como aqueles residentes com deficiência auditiva ou não falavam português, que se encontrava em estado terminal, coma ou sob cuidados paliativos foram excluídos do estudo.

A variável dependente do estudo foi a presença/ausência de incapacidade cognitiva, classificada por meio do teste de Pfeiffer, que avalia a memória a longo e curto prazo, orientação, informação sobre feitos cotidianos e capacidade matemática. Tal instrumento permite a classificação do idoso em função mental intacta, incapacidade cognitiva leve, moderado ou severo, levando em consideração a escolaridade do avaliado9.

Para cada idoso foram aferidas informações sobre condições sociodemográficas (idade, sexo, escolaridade, estado civil, filhos, tipo de ILPI, motivo de institucionalização, residente por cuidador, aposentadoria e plano de saúde) e estado de saúde (doenças crônicas, histórico de queda nos últimos 30 dias, mobilidade, capacidade funcional, uso diário e número de fármacos). O estado nutricional foi avaliado mediante a aplicação da Mini Avaliação Nutricional (MAN). O mesmo é dividido em quatro partes: avaliação antropométrica [Índice de Massa Corporal (IMC), perímetro do braço, perímetro da panturrilha e perda de peso]; avaliação global (perguntas relacionadas com o modo de vida, medicação, mobilidade e problemas psicológicos); avaliação dietética (perguntas relativas ao número de refeições, ingestão de alimentos e líquidos, assim como autonomia na alimentação); e autoavaliação (autopercepção da saúde e da condição nutricional). A soma dos scores da MAN permite classificar os idosos em três grupos distintos: indivíduos com estado nutricional adequado (MAN≥24), em risco de desnutrição (MAN≥17 e <24); e com desnutrição (MAN<17).

A capacidade funcional foi avaliada por meio do Índice de Katz, instrumento validado no Brasil, que contém seis Atividades Básicas da Vida Diária (ABVD): alimentação, controle de esfíncteres, transferência, higiene pessoal, capacidade para se vestir e tomar banho10. Quanto à avaliação da mobilidade, consideraram-se os estados: caminha sem ajuda, caminha com ajuda, cadeirante e acamado. Tais informações foram obtidas nos prontuários ou foram fornecidas por funcionários das instituições (assistentes sociais, técnicos de enfermagem ou cuidadores).

O presente trabalho faz parte de um projeto intitulado "Envelhecimento humano e saúde - a realidade dos idosos institucionalizados da cidade do Natal, RN", com parecer de aprovação número 308/2012, do Comité de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Os residentes e cuidadores diretos das ILPI que aceitaram participar nesse projeto de pesquisa assinaram os correspondentes Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

A equipe de pesquisa foi composta por dois alunos de doutorado do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da UFRN e 18 alunos do curso de graduação em Fisioterapia da UFRN, que foram devidamente treinados para a utilização dos instrumentos. Foram realizadas reuniões prévias ao início da coleta de dados a fim de explicar o projeto de pesquisa e os objetivos do trabalho. Após, foram realizados treinamentos com os instrumentos de coletas de dados, especialmente com a aplicação dos questionários, objetivando assegurar a uniformidade de entendimento e aplicação dos critérios que foram avaliados na pesquisa. O estudo piloto foi realizado em duas das ILPI filantrópicas. Foram aplicados 25 questionários para revisão minuciosa das informações coletadas e detecção de possíveis vieses, dados perdidos ou discordantes.

Para a análise dos dados, inicialmente utilizou-se a análise descritiva, mediante a apresentação de valores absolutos e relativos. As variáveis quantitativas foram descritas por meio das médias, com desvio-padrão (±dp) e, posteriormente, categorizadas em variáveis dicotômicas pela mediana. Após, foi realizada a análise bivariada por meio do teste qui-quadrado (ou teste de Fisher) para as variáveis categóricas nominais. Verificou-se a magnitude da associação através da razão de odds para cada uma das variáveis independentes em relação a variável dependente.

Para identificação dos fatores associados com a presença de incapacidade cognitiva moderada ou severa foi realizada a análise múltipla de regressão logística das variáveis com valor de p igual ou menor que 0,20, utilizando-se o método Stepwise Forward. A permanência da variável na análise múltipla deu-se através do teste da razão de verossimilhança (Likelihood Ratio Test), ausência de multicolinearidade, bem como sua capacidade de melhorar o modelo através do teste de Hosmerand Lemeshow. As variáveis inatividade física, imobilidade, incapacidade funcional, quedas, incontinência urinária e fecal não foram testadas na análise múltipla em decorrência da relação de causalidade com a variável dependente. Considerou-se o nível de significância de 5%.

RESULTADOS

Das 14 ILPI cadastradas na Vigilância Sanitária (VISA) no município do Natal, RN, 10 (71,4%) ILPI aceitaram participar do estudo. Do total de idosos (n=326), 10 (3,0%) indivíduos foram excluídos do estudo: quatro (1,2%) possuíam deficiência auditiva ou não falavam português, quatro (1,2%) encontravam-se hospitalizados no período de coleta, um (0,3%) idoso em fase terminal e um (0,3%) menor de 60 anos de idade. Além disso, 12 (3,7%) recusaram a participação. Assim, a amostra total foi constituída por 304 indivíduos, a maioria do sexo feminino (76,6%), com idade média de 81,4 anos (dp±8,9). A maior parte dos residentes pertencia a instituições sem fins lucrativos, era aposentada, solteira, analfabeta ou com Ensino Fundamental I e não possuía plano de saúde. Verificou-se que 50,5% idosos tinham filhos e o tempo médio de residência foi de 60,4 meses (dp±57,9) e existiam em média 8,0 residentes por cuidador (dp±5,1) nas instituições.

Quanto ao estado de saúde, 81,6% não praticavam atividade física, 41,0% apresentavam risco de desnutrição, 37,2% caminhavam sem ajuda, e 26,3% possuíam dependência funcional total. Foi verificado que 88,2% dos residentes apresentavam doenças crônicas e 6,6% sofreram quedas nos 30 dias prévios. O uso de medicação esteve presente em 95,4% dos indivíduos e o número médio de medicamentos por idoso foi de 4,5 (dp±2,8). Observou-se que 83,6% (IC 95%: 78,9-87,3) dos idosos possuíam incapacidade cognitiva moderada ou severa.

A Tabela 1 mostra outras características sociodemográficas e relacionadas ao estado de saúde.

Tabela 1 Características dos idosos participantes (n=304). Natal, RN, 2013. 

*Os dados perdidos não foram incluídos

A Tabela 2 contém as variáveis independentes com valor de p igual ou menor que 0,20, as quais foram testadas na análise múltipla, porém não foram incluídas no modelo final.

Tabela 2 Análise bivariada entre a incapacidade cognitiva e as variáveis independentes. Natal, RN, 2013. 

Variável Incapacidade Cognitiva p RP (IC: 95%)
Sim N (%) Não N (%)
Sexo
Mulher Homem 197 (84,5) 57 (80,3) 36 (15,5) 14(19,7) 0,249 1,34 (0,67-2,66) 1,00
Estado civil**
Sem companheiro Com companheiro 206 (80,8) 37 (97,4) 49 (19,2) 1 (2,6) 0,005* 0,11 (0,01-0,84) 1,00
Aposentado**
Não Sim 9 (64,3) 244 (84,4) 5 (35,7) 45 (15,6) 0,062 0,33 (0,10-1,03) 1,00
Motivo da institucionalização: não tinha cuidador**
Sim Não 126 (88,1) 117 (78,0) 17 (11,9) 33 (22,0) 0,016* 2,09 (1,10-3,95) 1,00
Motivo da institucionalização: morava sozinho**
Sim Não 29 (70,7) 214 (84,9) 12 (29,3) 38 (15,1) 0,026* 0,42 (0,20-0,91) 1,00
Atividade física
Não Sim 213 (85,9) 41 (73,2) 35 (14,1) 15 (26,8) 0,021* 2,22 (1,11-4,44) 1,00
Índice de Massa Corporal**
Baixo peso Eutrofia-Sobrepeso 118 (89,4) 103 (76,3) 14 (10,6) 32 (23,7) 0,004* 2,61 (1,32-5,17) 1,00
Índice de Massa Corporal**
Sobrepeso Eutrofia-Baixo peso 44 (66,7) 177 (88,1) 22 (33,3) 24 (11,9) <0,001* 0,27 (0,13-0,52) 1,00
Estado nutricional**
Risco de desnutrição-Desnutrição Eutrofia 158 (87,3) 68 (73,1) 23 (12,7) 25 (26,9) 0,003* 2,52 (1,34-4,75) 1,00
Mobilidade
Cadeirante-acamado Caminha com ou sem ajuda 121 (94,5) 133 (75,6) 7 (5,5) 43 (24,4) <0,001* 5,58 (2,42-12,89) 1,00
Capacidade Funcional
Dependente Independente 202 (90,6) 52 (64,2) 21 (9,4) 29 (35,8) <0,001* 5,36 (2,83-10,16) 1,00
Queda nos últimos 30 dias
Sim Não 13 (65,0) 241 (84,9) 7 (35,0) 43 (15,1) 0,030* 0,33 (0,12-0,87) 1,00
Doenças crônicas
Sim Não 221 (82,5) 33 (91,7) 47 (17,5) 3 (8,3) 0,119 0,42 (0,12-1,45) 1,00
Número de doenças crônicas
≥ 3 0-2 55 (75,3) 199 (86,1) 18 (24,7) 32 (13,9) 0,026* 0,49 (0,25-0,94) 1,00
Diabetes
Sim Não 54 (75,0) 200 (86,2) 18 (25,0) 32 (13,8) 0,022* 0,48 (0,25-0,92) 1,00
Acidente Vascular Encefálico
Sim Não 44 (89,8) 210 (82,4) 5 (10,2) 45 (17,6) 0,139 1,88 (0,70-5,02) 1,00
Osteoporose
Sim Não 21 (65,6) 233 (85,7) 11 (34,4) 39 (14,3) 0,007* 0,32 (0,14-0,71) 1,00
Doença reumática
Sim Não 10 (62,5) 244 (84,7) 6 (37,5) 44 (15,3) 0,032* 0,30 (0,10-0,86) 1,00
Incontinência urinária
Sim Não 167 (90,3) 84 (72,4) 18 (9,7) 32 (27,6) <0,001* 3,53 (1,87-6,66) 1,00
Incontinência fecal
Sim Não 109 (86,5) 140 (81,9) 17 (13,5) 31 (18,1) 0,181 1,42 (0,74-2,69) 1,00
Doença Cardiovascular
Sim Não 14 (73,7) 240 (84,2) 5 (26,3) 45 (15,8) 0,185 0,52 (0,18-1,53) 1,00
Dislipidemia
Sim Não 39 (73,6) 215 (85,7) 14 (26,4) 36 (14,3) 0,030* 0,46 (0,23-0,94) 1,00
Número de medicamentos
≥ 5 0-4 111 (79,9) 143 (86,7) 28 (20,1) 22 (13,3) 0,075 0,61 (0,33-1,12) 1,00
Grupo A: medicamentos para o trato alimentar e metabólico
Sim Não 130 (78,8) 121 (89,0) 35 (21,2) 15 (11,0) 0,013* 0,46 (0,24-0,88) 1,00
Grupo C: medicamentos para o sistema cardiovascular
Sim Não 141 (78,8) 110 (90,2) 38 (21,2) 12 (9,8) 0,006* 0,40 (0,20-0,81) 1,00
Grupo H: medicamentos para a tiroide
Sim Não 20 (74,1) 231 (84,3) 7 (25,9) 43 (15,7) 0,138 0,53 (0,21-1,33) 1,00
Grupo M: medicamentos para o sistema musculoesquelético
Sim Não 21 (67,7) 230 (85,2) 10 (32,3) 40 (14,8) 0,018* 0,36 (0,16-0,83) 1,00
Grupo N: medicamentos para o sistema nervoso Sim Sim Não 201 (85,2) 50 (76,9) 35 (14,8) 15 (23,1) 0,084 1,72 (0,87-3,39) 1,00

*p≤0,20 (método Stepwise Forward); **Os dados perdidos não foram incluídos.

O modelo final, ajustado pelo tipo de ILPI, mostrou que ter 83 anos ou mais foi considerado fator de risco para a incapacidade cognitiva moderada ou severa. Todavia, ter Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) e ter sido institucionalizado por opção própria foram considerados fator de proteção para a incapacidade cognitiva moderada ou severa (Tabela 3). Foi identificada a presença de colinearidade entre as variáveis estado civil e ter sido institucionalizado por morar sozinho (p<0,001). Já as variáveis doenças crônicas, número de doenças, diabetes, número de medicamentos, uso de medicação do grupo A e do grupo C foram colineares com HAS. O valor do teste de Hosmer-Lemeshow foi de 0,997.

Tabela 3 Modelo final para a presença de incapacidade cognitiva em idosos institucionalizados (n=304). 

Incapacidade cognitiva
Sim N (%) Não N (%) p Bivariada OR (IC: 95%) p Multivariada OR (IC: 95%)
Idade (anos)
83 ou mais 137 (90,1) 15 (9,9) 0,002* 2,73 (1,42-5,25) 0,007* 2,62 (1,30-5,29)
60-82 117 (77,0) 35 (23,0) 1,00
Hipertensão Arterial Sistêmica
Sim 98 (78,4) 33 (25,2) <0,001* 0,32 (0,17-0,61) 0,001* 0,33 (0,17-0,64)
Não 156 (90,2) 17 (9,8) 1,00
Motivo da institucionalização: opção própria**
Sim 3 (37,5) 5 (62,5) 0,004* 0,11 (0,02-0,48) 0,009* 0,13 (0,03-0,60)
Não 240 (84,2) 45 (15,8) 1,00
Tipo de Instituição de Longa Permanência para Idosos
Sem fins lucrativos 153 (80,1) 38 (19,9) 0,024* 0,47 (0,23-0,95) 0,148 0,57 (0,27-1,22)
Com fins lucrativos 101 (89,4) 12 (10,6) 1,00

* Estatisticamente significativo (p<0,005); **Os dados perdidos não foram incluídos.

DISCUSSÃO

A prevalência de incapacidade cognitiva foi mais significativa nas classificações moderada ou severa, com 83,6% dos idosos acometidos neste estudo. Esse menor desempenho cognitivo em idosos residentes em ILPI pode sugerir que a institucionalização pode agravar esse quadro. Em sua revisão, Bertoldi et al.11 justificam em seus achados que diversos fatores podem influenciar o deficit cognitivo em idosos institucionalizados, quando comparado com os não institucionalizados, dentre eles, a idade avançada, a baixa escolaridade, o sexo feminino, a falta de atividades físicas e o isolamento social provocado pela própria institucionalização. Pelos dados obtidos no estudo de Trindade et al.12, foi possível concluir que idosos institucionalizados apresentam menor desempenho cognitivo que leva ao comprometimento das habilidades funcionais e aumento da depressão em relação a idosos que vivem na sociedade e participam de alguma atividade física.

Foi identificado, no presente estudo, que as variáveis possuir idade de 83 anos ou mais foi considerado fator de risco para a incapacidade cognitiva moderada ou severa. Esse achado também pôde ser observado no estudo de Herrera et al.13, que avaliaram os fatores associados com a funcionalidade cognitiva dos idosos residentes em lares de idosos em Cartagena, por meio do teste de Pfeiffer, encontrando que o funcionamento cognitivo dos idosos mostrou associação com a idade cronológica, contando com 192 idosos, dos quais, 80% apresentaram algum tipo de comprometimento cognitivo.

Esse declínio pode ser explicado pelo fato de que o envelhecimento é um processo cumulativo, irreversível, universal, não patológico, onde ocorre degradação do organismo, incapacitando muitas vezes o indivíduo cognitivamente e funcionalmente14. Associado a isso, a população idosa que vive em ILPI, torna-se cada vez mais sedentária perdendo muito sua autonomia e piorando cada vez mais sua capacidade cognitiva15. Esse deficit cognitivo influencia diretamente na capacidade funcional, implicando dano a independência e autonomia com procedente perda da qualidade de vida do idoso16.

Segundo Mejía-Arango17, o comprometimento cognitivo está associado ao aumento da faixa etária, assim como a diversas doenças. Em seu estudo, reportando a prevalência de comprometimento cognitivo em idosos e sua relação com fatores sociodemográficos e de saúde na população mexicana, os resultados apontaram que comorbidades como diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), doenças cerebrais, depressão e doenças cardíacas têm relação não só com o declínio cognitivo, mas também com o declínio funcional. Devido a isso, os comprometimentos representam condições que afetam diretamente a qualidade de vida dos idosos e implicam maior utilização dos serviços de saúde.

No presente estudo, também foi observado que a presença de HAS e ter sido institucionalizado por opção própria foram considerados fatores de proteção para a incapacidade cognitiva moderada ou severa. Foi identificado que 88,2% dos idosos institucionalizados no referido estudo apresentavam doenças crônicas, sendo o uso de medicação presente em 95,4% dos indivíduos. Em nossos achados, a HAS foi considerada fator de proteção para a incapacidade cognitiva. Esse achado pode ser explicado devido ao uso da medicação anti-hipertensiva, que pode ter influência na prevenção do declínio cognitivo devido ao seu efeito deletério, que age podendo levar a um menor grau de alterações nos pequenos vasos, reduzindo os riscos de lesões sobre a substância branca cerebral e na função cerebrovascular18. Já Duron e Hanon19 propõem que a hipertensão não só aumenta o risco de declínio cognitivo, mas também o risco de demência. Para esses, autores há argumentos epidemiológicos sólidos para apoiar uma associação entre a hipertensão, especialmente na meia-idade, e o desenvolvimento de transtornos cognitivos e demência, incluindo Alzheimer.

Esses achados corroboram com Chaves18 que sugere que a hipertensão não tratada poderia ser um preditor para a perda cognitiva, sendo o uso de medicamentos anti-hipertensivos um importante protetor da cognição. Porém, estudos demonstraram conclusões controversas em relação ao tratamento anti-hipertensivo na relação hipertensão e declínio cognitivo20-22. Diante dos resultados encontrados por Holanda et al.23, foi verificado que os idosos hipertensos possuem maior risco de apresentarem declínio da função cognitiva, quando comparados aos idosos normotensos. Considerando as alterações e consequências que a HAS pode ocasionar na população idosa, associada à alteração cognitiva que pode afetar diretamente sua qualidade de vida, são necessárias mais evidências no intuito de prevenção e tratamento precoce dessa disfunção.

Com relação à institucionalização, ter sido institucionalizado por opção própria, teve associação significativa com a incapacidade cognitiva moderada ou severa, sendo um fator de proteção para a sua ocorrência. Segundo Cordeiro24, diversos motivos podem levar o idoso a uma institucionalização por opção própria, seja por morar sozinho, por se considerar um fardo ou se sentir desprezado pela família ou por ter consciência de que passou a necessitar de cuidados em saúde. Duarte25 também cita os motivos para a institucionalização dos idosos que, embora possuam o convívio familiar, preferem viver na instituição por motivos como a falta do cônjuge, a independência dos filhos no papel de cuidadores formais e por maus-tratos dos familiares, porém através de uma decisão mais autônoma e não imposta por outros.

Da mesma forma, Pereira e Besse26 encontraram como resultado que os idosos institucionalizados por vontade própria apresentaram um maior nível de independência funcional em relação aos idosos que foram institucionalizados por vontade familiar e aqueles idosos que não têm família e opção de moradia. Esse achado pressupõe que os idosos que foram institucionalizados por opção própria também apresentavam melhor estado funcional, pois a cognição e a funcionalidade estão diretamente ligadas. O comprometimento cognitivo gera danos a capacidade funcional para as atividades básicas de vida diária, implicando perda na independência e autonomia. Autonomia esta que está ligada à interdependência desta com uma memória íntegra que implica capacidade individual de cuidar de si mesmo, executar tarefas que lhe permitam a adaptação psicossocial e ser responsável pelos próprios atos16. Segundo o estudo de Javier et al.27, abordando a prevalência de incapacidade funcional em idosos institucionalizados, utilizando a mesma amostra do presente trabalho, a institucionalização mostrou relação com a incapacidade funcional em idosos que foram institucionalizados por motivo de ausência de cuidador informal na comunidade. Incapacidade essa que justifica a dependência dos idosos e a sua consequente maior mortalidade.

Em relação a qualidade de vida de idosos institucionalizados por opção própria, Cordeiro24 entende que os motivos que levam a institucionalização do idoso podem provocar níveis baixos de qualidade de vida, por uma possível dificuldade de adaptação, fazendo com que ele permaneça na instituição por orgulho ou necessidade de saúde. Ao contrário, idosos portadores de morbidades ou abandonados pelos familiares, provavelmente encontram nova oportunidade de recomeço.

Dentre as limitações, o teste de Pfeiffer ainda não se encontra validado no Brasil. Porém, esse instrumento foi utilizado para avaliação da incapacidade cognitiva na presente amostra, devido à baixa complexidade das perguntas e resultando numa aplicação rápida e fácil. Além disso, foi colhida a máxima quantidade de informações por meio de entrevista com os profissionais das instituições e pela coleta de dados nos prontuários, tentando minimizar os subdiagnósticos e sub-registros.

CONCLUSÃO

De acordo com o presente estudo, podemos concluir que os indivíduos com maior idade tendem a apresentar grande probabilidade de incapacidade cognitiva moderada ou severa, devido as alterações fisiológicas decorrentes do envelhecimento. A escolha de institucionalização por opção própria, ajustado pelo tipo de ILPI, foi considerada fator de proteção para o deficit cognitivo, haja vista que idosos residentes em ILPI são mais susceptíveis ao sedentarismo e a perda da capacidade funcional e cognitiva. Já a hipertensão arterial sistêmica foi apontada como um fator de proteção, achado esse que sinaliza a necessidade de mais estudos no que diz respeito ao diagnóstico cognitivo dessa população como forma de elaborar estratégias mais especificas e que promovam um envelhecimento mais saudável.

Portanto, a incapacidade cognitiva é um tema que necessita de mais estudos, haja vista os inúmeros fatores que a predispõe e ao crescente número de idosos em nossa população. Além disso, é preciso maior atenção nas variáveis predisponentes no intuito de que sejam traçadas metas de prevenção e atenção à saúde dessa população, resultando em melhora na qualidade de vida e redução da dependência.

AGRADECIMENTOS

Aos estudantes do curso de Fisioterapia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte que contribuíram nas coletas de dados.

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Recebido: 09 de Agosto de 2016; Revisado: 08 de Fevereiro de 2017; Aceito: 22 de Março de 2017

Correspondência/Correspondence Fabienne Louise Juvêncio Paes de Andrade E-mail: fabi.louise@gmail.com

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