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Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia

On-line version ISSN 1981-2256

Rev. bras. geriatr. gerontol. vol.20 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1981-22562017020.170019 

Artigos Originais

O trabalho e a saúde de açougueiros idosos: relato de casos em um mercado municipal

Marcela Andrade Rios1 

Alba Benemérita Alves Vilela2 

Adriana Alves Nery2 

1Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação, Campus XII. Guanambi, BA, Brasil.

2Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Departamento de Saúde II, Programa de Pós graduação em Enfermagem e Saúde. Jequié, BA, Brasil.

Resumo

Este estudo teve por objetivo verificar as condições de saúde e laborais e descrever os acidentes de trabalho sofridos por sete trabalhadores idosos que desenvolvem atividades informais em um mercado municipal da Bahia, Brasil. Foi realizada uma pesquisa qualitativa, do tipo estudo de casos, junto a sete trabalhadores idosos que desenvolvem atividades laborais em açougues de um mercado municipal da Bahia. Os participantes foram homens e mulheres com poucos anos de estudo (até o ensino médio em um caso), coabitam com outras pessoas em domicílio, e estão, em média, a 31 anos no ramo de açougue. Apesar do estresse referido, de posições incômodas, de poucas folgas, todos concordaram que estão satisfeitos com o trabalho. São acometidos por doenças crônicas, especialmente hipertensão arterial. Referem conhecer os riscos presentes no processo de trabalho. Sofreram acidentes laborais, desde corte em dedos até amputações. Os trabalhadores necessitam de atividades de promoção à saúde e de proteção a eventos e agravos voltados ao processo de trabalho, com vistas a não ocorrência de problemas que transformem o processo de senescência em senilidade.

Palavras-chave: Idoso; Comorbidade; Doença Crônica; Saúde do Idoso; Polifarmácia; Autopercepção de Saúde

INTRODUÇÃO

Mudança nos padrões demográficos no Brasil, com aumento da expectativa de vida, influenciam a esfera laboral, já que uma parcela cada vez maior de pessoas idosas continua no mercado de trabalho.

As discussões em torno das relações entre trabalho e envelhecimento têm sido resultantes, em maior frequência, de um significativo aumento proporcional de idosos na população, o que tem gerado diferentes rearranjos de modos de viver e trabalhar1.

O artigo 26 do Estatuto do Idoso trata do direito do idoso ao exercício de atividade profissional, respeitadas suas condições físicas, intelectuais e psíquicas2. Entretanto, as realidades em que esses processos constroem-se revelam que as mínimas condições de permanência nem sempre são garantidas à população idosa, o que gera, em muitas vezes, a inserção ou continuação desses sujeitos no mercado informal da economia1.

O trabalho ocupa um papel importante na vida das pessoas, especialmente, como fonte de garantia da reprodução social. A forma de organização e o tipo de trabalho são fundamentais para avaliar os processos de desgaste da saúde dos trabalhadores3.

O novo modelo socioeconômico o qual abarca o setor informal é advindo, dentre outros motivos, pela influência da globalização, a qual acarretou mudanças estruturais decorrentes das práticas capitalistas, resultando numa reestruturação do mercado de trabalho, do emprego e da força de trabalho, os quais devem adaptar-se a esse novo mundo4. Neste contexto de mudanças, dispor da força de trabalho pode abranger, em sentido mais amplo, não tanto a permanência ou reinserção como empregado, mas a entrada ou permanência, tanto no trabalho autônomo, como na condição de pequeno empregador, em um mundo de trabalho heterogêneo que abriga o maior contingente de “velhos” trabalhadores5.

O setor informal abarca uma diversidade de postos de trabalho, dentre eles o comércio. Nesse tipo de atividade, o local do trabalho, muitas vezes, são as ruas das cidades ou construções específicas, como os centros de abastecimento ou mercado municipal. Nesse cenário estão inseridos os comerciantes do ramo de açougues.

Segundo estudo realizado junto a trabalhadores informais do comércio, os açougueiros apresentaram risco de acidente de trabalho quase três vezes maior quando comparados aos feirantes que comercializam alimentos prontos e bebidas6.

Neste contexto, os trabalhadores idosos açougueiros, além do desgaste natural do organismo, podem sofrer com fatores externos advindos do processo laboral, especialmente realizado de maneira informal, levando à ocorrência de acidentes de trabalho. Desta maneira, torna-se instigante estudar os idosos que continuam a desenvolver ativamente suas atividades laborais, especialmente no ramo de açougue, já que estão expostos a maior risco de sofrer acidentes de trabalho, com vistas a desvelar a complexidade dos aspectos de saúde e laborais desses trabalhadores.

Este estudo tem por objetivo verificar as condições de saúde, laborais e descrever os acidentes de trabalho sofridos por sete trabalhadores idosos que desenvolvem atividades informais em um mercado municipal da Bahia, Brasil.

MÉTODOS

Trata-se de uma pesquisa de campo, exploratória, de abordagem qualitativa, do tipo estudo de casos, na qual busca-se observar um ou poucos indivíduos com a mesma doença ou evento e, a partir da descrição dos respectivos casos, traçar um perfil de suas principais características7, possibilitando compreender um conjunto de fenômenos que, em um primeiro momento, revelam entre si certo grau de comparabilidade e que se relacionam em dado contexto8.

Participaram da pesquisa sete trabalhadores com idade igual ou superior a 60 anos de idade (considerado como pessoa idosa no Brasil)2 que desenvolvem atividades laborais como açougueiros do setor informal em um mercado municipal de cidade do interior da Bahia, Brasil. Foram elencados esses trabalhadores pelo fato de todos relatarem ter sofrido ao menos um acidente de trabalho relacionado a sua atividade laboral nos últimos 12 meses.

Foram considerados como acidentes de trabalho quaisquer relatos de eventos súbitos ocorridos no exercício de atividade laboral e que acarretou danos à saúde, potencial ou imediato, provocando lesão corporal ou perturbação funcional9.

Os dados foram coletados nos meses de janeiro e fevereiro de 2015 por meio da aplicação de formulário com questões relacionadas as características sociodemográficas, quanto ao trabalho na feira, aspectos de saúde e dos acidentes de trabalho sofridos. Um dos aspectos avaliados quanto ao trabalho diz respeito à satisfação laboral. Esta foi investigada por meio de uma escala do tipo likert com variação desde nada satisfeito até muito satisfeito. Aqueles(as) que referiram satisfeito ou muito satisfeito com o trabalho foram considerados como satisfação laboral. Também foi utilizado um diário de campo no qual foram anotadas as impressões dos pesquisadores.

Para a análise dos dados foram estabelecidas previamente três categorias a serem apresentadas e discutidas concernentes aos aspectos sociodemográficos, do trabalho na feira e do processo saúde-doença-trabalho.

Este estudo faz parte da pesquisa guarda-chuva intitulada Condições laborais e de saúde de açougueiros feirantes em cidade de médio porte, aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade do Estado da Bahia, sob CAAE n. 44126515.5.0000.0057. Todos os trabalhadores entrevistados aceitaram participar do estudo por meio da assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.

Relatos dos casos

A feira-livre do município de Guanambi teve início do século XVII, por meio da aglomeração de pessoas e suas tropas para trocas de mercadorias. Os bruaqueiros, nome atribuído aos primeiros frequentadores da feira-livre, reuniam-se em volta de um umbuzeiro, nas imediações onde hoje existe uma praça, para exercerem ali o comércio de trocas. Somente anos depois, em 1951, foi construído um barracão onde se instalou o mercado municipal. Em 1988 houve uma reforma e ampliação das instalações, abarcando alguns pavilhões onde as mercadorias são vendidas até hoje. A feira de Guanambi é considerada como uma das mais importantes do sertão baiano10.

O ramo de açougue ocupa dois pavilhões da estrutura do Mercado Municipal, abarcando, aproximadamente 97 trabalhadores, segundo contabilização realizada pelos pesquisadores, no ano de 2015, sendo destes, 12 idosos. Foram estudadas as pessoas idosas que relataram sofrer acidente de trabalho nos últimos 12 meses. DesTe modo, serão relatados sete casos (cinco homens e duas mulheres).

As idades variaram de 62 a 78 anos. As mulheres relataram 62 e 69 anos de idade e os homens, dois com 69 e os demais com 75 e 78 anos. Cinco dos trabalhadores entrevistados convivem com companheiro(a); dois são divorciados/separados; são pais e mães de famílias, pois todos possuem filhos, uma média de cinco, variando de dois a 11. Nenhum mora sozinho em casa, coabitam desde duas pessoas até seis na mesma casa.

Possuem pouco ou nenhum estudo (um nunca chegou a frequentar escola, quatro relataram até seis anos de estudo, um concluiu um ensino fundamental, ou seja, nove anos de estudo, e outro concluiu o denominado ensino médio, ou seja, 12 anos de estudo).

Descrever as características do trabalho realizado pelos açougueiros idosos é relevante para compreender a trajetória de vida e labor destes e sua interligação com o processo saúde-doença-trabalho.

Os entrevistados trabalham, em média, a 31 anos na feira, variando de 13 a 50 anos. Todos são proprietários do açougue/banca de carnes. Quatro deles (três homens e uma mulher) trabalharam anteriormente como lavradores, uma já foi professora, um sempre trabalhou como açougueiro e, outro, policial militar. Todos começaram a trabalhar com idade entre cinco a 15 anos. Acordam entre 2:00 e 6:00 horas da manhã para se deslocarem até a feira, iniciando, assim, o labor diário. Um homem e uma mulher trabalham todos os dias da semana, não possuindo folgas ou descansos.

Desenvolvem diversas atividades no açougue: todos cortam, desossam e atendem os clientes no balcão. Quatro mulheres referiram também abater animais. Um homem e uma mulher, somado a essas funções, trabalham ainda na limpeza do ambiente e referiram fazer uso de produtos químicos, como cloro, porém sem utilizar equipamento de proteção para realizar essa atividade. Na observação não participante pode-se notar como o trabalho de cortar, pesar e embalar o produto é feito de maneira rápida, atendendo ao ensejo dos clientes.

Verificou-se por meio dos dados coletados, bem como da observação, quanto o trabalho na feira pode ser desgastante. Três trabalhadores revelaram pegar peso todo tempo; cinco realizam muito movimento repetitivo; trabalham quase todo o tempo em pé; quatro referiram que o trabalho é muito estressante. Apenas dois (ambos homens) informaram que usam equipamento de proteção individual. Tal informação, o não uso de EPI, especialmente de luvas apropriadas para cortar e desossar e de óculos de proteção, foi também verificada durante a observação e posterior registro no diário de campo.

Apesar do estresse referido, de posições incômodas, de poucas folgas, todos concordaram que estão satisfeitos com o trabalho.

Para melhor compreender o processo saúde-doença-trabalho, é necessário analisar as informações gerais e específicas sobre adoecimento e acidentes do trabalho, seja esse adoecimento relacionado ao labor ou não, uma vez que a existência de patologias ou processos patológicos pode influenciar a realização das atividades laborais, bem como essas podem levar ao desenvolvimento de doenças e ocorrência de acidentes.

Analisando os aspectos de saúde dos trabalhadores estudados, duas referiram sentir dor constante nas costas e possuir diagnóstico médico de artrose. Cinco possuem diagnóstico médico de hipertensão arterial (duas mulheres e três homens), uma possui problema de audição com uso de aparelho e, outra, diabetes mellitus. Alguns informaram ainda problemas respiratórios como rinite, asma e bronquite crônica.

Quando questionados sobre os problemas de saúde que os afetam e como podem impedir o bom desenvolvimento de seu trabalho, uma açougueira acredita estar incapacitada para trabalhar, mas precisa da renda para sobreviver e sustentar a família. Essa mesma trabalhadora informou que não acredita, do ponto de vista da saúde, poder desempenhar suas atividades laborais na feira daqui a dois anos. Dois trabalhadores afirmaram não existir impedimento. Os demais apontaram que, por vezes, necessitam diminuir seu ritmo de trabalho, ou seja, sua saúde afeta o processo de trabalho e vice- versa. Quatro trabalhadores, todos homens, não procuraram nenhum serviço de saúde no último ano.

Um dos aspectos que chamaram a atenção e que foi descrito no diário de campo é a dificuldade do trabalhador em deixar o açougue/banca de carnes, especialmente naqueles estabelecimentos que possuem apenas o proprietário, sem funcionários. Eles referem que, ao deixar ou fechar o estabelecimento, deixam de vender e, desse modo, de prover o sustento.

Todos os entrevistados relataram perceber fatores de risco à saúde no desenvolvimento do trabalho: choque elétrico, corte de dedos e mãos ao manusear facas, serras elétricas e moedores/amassadores de carnes, mudanças de temperatura, estresse no trabalho, acidentes de trânsito para chegar a feira e assaltos.

Quanto aos acidentes de trabalho sofridos, um dos trabalhadores relatou uma média de 50 lesões físicas nos últimos 12 meses. Dois outros relataram um acidente, os demais relataram dois, três, quatro e cinco, respectivamente. Em apenas um trabalhador o acidente não ocasionou lesão física evidente, por se tratar de um choque elétrico proveniente de manuseio de máquina do açougue.

Visando obter informações sobre tais acidentes foram questionadas as características do último evento sofrido, sendo: fratura em membro superior, acidente este que ocasionou perda de mobilidade por atingir terminação nervosa e necessidade de hospitalização; corte com amputação de dedo; fratura em perna e cortes em mãos/dedos.

No relato dos trabalhadores, chamaram atenção os prováveis motivos que levaram à ocorrência dos acidentes, pois todos se julgaram culpados, informando como causas a falta de atenção e/ou pressa para realizar o serviço.

DISCUSSÃO

O homem, desde sua existência, é impulsionado ao trabalho contínuo, inclusive como uma forma de garantir a própria subsistência e de sua família. É através do trabalho que o homem, enquanto ser social efetiva o ato de produzir e reproduzir. Neste contexto, estar fora do mercado de trabalho é estar fora da vida, excluído das condições de reprodução social11. Assim, a pessoa idosa continua no mercado de trabalho, mesmo que informal, uma vez que sempre esteve inserido nele, provavelmente por falta de oportunidade no mercado formal, especialmente devido à baixa escolaridade.

O processo de envelhecimento não pode ser atrelado somente às perdas, pois a pessoa idosa pode apresentar um envelhecimento ativo12, o que engloba continuar no mercado de trabalho.

Indivíduos com idade igual ou acima de 60 anos, em muitos casos, ainda podem exercer atividades profissionais, por apresentarem capacidade física e intelectual para novos empreendimentos e por possuírem conhecimentos e experiências acumulados, que não podem ser descartadas13.

Essa reinserção ou continuar na feira, pode acontecer também pelo fato do trabalhador idoso, em muitas vezes ainda ser considerado arrimo de família. O baixo valor das aposentadorias na maioria dos casos não supre as necessidades básicas do trabalhador aposentado, como saúde, alimentação, medicamentos, moradia e lazer. Partindo desse pressuposto, a pessoa idosa busca retornar ou não deixar o mercado de trabalho informal, para acrescentar a renda familiar14. Neste contexto, a partir dos relatos dos casos foram verificadas duas faces quanto ao motivo para a pessoa idoso ainda trabalhar: a necessidade de renda e a necessidade de satisfação pessoal.

Em estudo desenvolvido junto a idosos14, trabalhadores informais de rua, verificou-se que eles reconhecem-se excluídos duplamente do mercado formal de trabalho: devido à idade, já está aposentado em muitos casos (portanto, aposentadoria também funcionando como elemento de exclusão) e por não ter qualificação para o atual mercado de trabalho. A pesquisa demonstrou ainda que o trabalho tem se configurado para os idosos enquanto fonte de renda, de distração e de poder doméstico. O trabalho também foi considerado fonte de orgulho14.

Porém, as atividades laborais afetam diretamente a saúde dos trabalhadores açougueiros e idosos. O indivíduo realiza o trabalho; é dele que se exige o empenho para tal; é ele quem analisa as condições que tem para realizá-lo; é ele que sofre o desgaste físico, mental e emocional; é ele que, por fim, adoece, sofre acidentes e morre15.

A citação acima resume o que foi vivenciado ao estudar os sete casos de trabalhadores açougueiros e idosos. Dedicam-se a muitos anos ao trabalho na feira, possuem baixa ou nenhuma escolaridade, necessitam ainda trabalhar para complementar, muitas vezes, a renda da família ou para se afirmarem como seres sociais. Entretanto, possuem doenças crônicas não transmissíveis ou processos dolorosos em coluna vertebral e tem a sua saúde ainda mais afetada ao sofrerem acidentes no desenvolvimento do trabalho.

Entre os grupos ocupacionais vulneráveis a doenças crônicas como a hipertensão arterial, destacam-se os feirantes, pois desenvolvem seu labor em contato direto com diferentes pessoas e produtos, em uma jornada de trabalho de 10 horas por dia ou mais, muitas vezes sem férias ou folgas semanais, instabilidade financeira com renda mensal variável, exposição a riscos físicos, além da pouca disponibilidade de tempo para cuidados com a saúde. Tais condições de vida e trabalho podem favorecer agravos à saúde humana16.

Neste sentido, o processo de trabalho está diretamente relacionado ao processo de saúde-doença, uma vez que as condições adversas de trabalho podem levar a doenças e agravos. O cotidiano dos feirantes é permeado por dificuldades e desafios, que exigem mudanças dos hábitos de vida17. Segundo pesquisadores18, os problemas de saúde diminuem a produtividade e o desempenho do trabalho e aumenta a ocorrência de acidentes e lesões.

Uma das tarefas prestadas por trabalhadores que comercializam carnes e frangos envolve o talhar e cortar as mercadorias com a utilização de ferramentas motorizadas ou não, o que pode levar ao risco de lesões nas mãos e nos dedos. Outro fator que deve ser abordado é a pressão da produtividade, visto que vendedores do comércio, em sua maioria, são os proprietários da unidade comercial e apresentam sua renda mensal de acordo com a quantidade de mercadoria vendida, ou seja, depende do valor da venda/faturamento. Tal variação de renda, a depender da produtividade pode proporcionar esgotamento tanto físico quanto psicológico, aumentando suas chances de se acidentar e de desenvolver doenças relacionadas ao trabalho19.

Apesar de sofrerem com doenças crônicas não transmissíveis e relatarem a ocorrência de acidentes de trabalho, inclusive com uma amputação, todos os trabalhadores informaram satisfação com o trabalho.

A satisfação no trabalho é um termo de difícil conceituação uma vez que se trata de um estado subjetivo, portanto, variável de indivíduo para indivíduo. O conceito mais utilizado diz respeito a emoção, ou seja, a satisfação no trabalho é um sentimento agradável que resulta da percepção de que o labor realiza ou permite a realização de valores importantes relativos ao próprio trabalho20.

A satisfação está baseada na percepção da situação atual em relação aos valores. As percepções podem não refletir com precisão total a realidade objetiva, por isso, quando a mesma não ocorre deve-se dar importância para a percepção que o indivíduo tem da situação e não para a própria situação20. Neste sentido, infere-se que, possivelmente os trabalhadores esperam do trabalho aquilo mesmo que ele é, assim, o resultado é algo esperado, levando, então à satisfação com seu labor.

É importante ressaltar a atribuição da culpa do acidente de trabalho à própria vítima do seu infortúnio, uma vez que todos os entrevistados apontaram a pressa e a falta de atenção como possíveis causas para os eventos, o que nos leva a pensar na aceitabilidade social e do próprio trabalhador do “ato inseguro”. Entretanto, do ponto de vista científico e, em particular, do estado da arte das pesquisas no campo da análise de catástrofes e acidentes do trabalho, a persistência do uso da noção de ato inseguro é inaceitável21,22. É necessária uma visualização de todo o processo de trabalho para que as causas fiquem mais visíveis.

CONCLUSÃO

As pessoas idosas, muitas vezes, continuam inseridas no mercado de trabalho mesmo que na informalidade, quer seja pela satisfação pessoal ou para complementar a renda da família. Tais trabalhadores açougueiros exerceram por um tempo outro trabalho ou possuem a tradição familiar de trabalhar no comércio. Entretanto, estão expostos a riscos presentes no processo laboral que podem levar a ocorrência de acidentes de trabalho e/ou desenvolvimento e agravamento de processos patológicos. Muitos já apresentam doenças, a exemplo das crônicas não transmissíveis.

Mesmo com a ocorrência de acidentes, os entrevistados estudados continuam satisfeitos com seu trabalho e propagam a ideia do ato inseguro como causa dos acidentes.

Tendo em vista o processo de envelhecimento populacional e, consequente, o aumento da mão de obra idosa no Brasil, aponta-se a necessidade de fortalecimento de políticas voltadas para o envelhecimento ativo e saudável, que englobem o processo de trabalho no que diz respeito à promoção da saúde e à prevenção de doenças e agravos advindos do trabalho ou agravados por este.

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Recebido: 20 de Fevereiro de 2017; Revisado: 03 de Julho de 2017; Aceito: 28 de Agosto de 2017

Correspondência/Correspondence Marcela Andrade Rios. E-mail: mrios@uneb.br

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