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Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia

Print version ISSN 1809-9823On-line version ISSN 1981-2256

Rev. bras. geriatr. gerontol. vol.21 no.3 Rio de Janeiro May/June 2018

https://doi.org/10.1590/1981-22562018021.180011 

ARTIGOS ORIGINAIS

Vivência da espiritualidade por idosos institucionalizados

Helenice de Moura Scortegagna1 

Nadir Antonio Pichler1 

Lúcia Fernanda Fáccio2 

1Universidade de Passo Fundo, Faculdade de Educação Física e Fisioterapia, Programa de Pós-graduação em Envelhecimento Humano. Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil.

2Universidade de Passo Fundo, Instituto de Ciências Biológicas, Faculdade de Enfermagem. Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil.


Resumo

Objetivo:

Conhecer o significado atribuído à vivência da espiritualidade diante das situações da vida pelos idosos residentes em uma instituição de longa permanência para idosos (ILPI).

Método:

Pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, realizada por meio de entrevista com oito idosos residentes em uma ILPI do interior do estado do Rio Grande do Sul, Brasil.

Resultados:

O que emergiu das entrevistas sofreu análise qualitativa para extração de unidades de significância e elaboração de duas categorias temáticas: Espiritualidade/religiosidade como direcionamento da vida e espiritualidade/religiosidade como sentido para vida, fonte de renovação, plenitude e felicidade.

Conclusão:

Os idosos deste estudo, ao expressarem a vivência da espiritualidade como estratégia importante de sentido para a vida, a desvelaram o como um suporte psíquico e emocional para o enfrentamento dos desafios existenciais. Essa compreensão permite aos profissionais que atuam nas ILPI investirem em práticas que incorporem a espiritualidade como elemento no cuidado integral da pessoa idosa.

Palavras-chave: Envelhecimento; Instituição de Longa Permanência para Idosos; Espiritualidade; Religião e Ciência.

Abstract

Objective:

To identify the meanings attributed to the experience of spirituality when faced with life situations among elderly persons living in a long-term care facility.

Method:

A qualitative, exploratory and descriptive survey was carried out, based on interviews with eight elderly people living in a long-term care facility for the elderly in the state of Rio Grande do Sul, Brazil.

Results:

The content that emerged from the interviews underwent qualitative analysis for the extraction of units of significance and the elaboration of two thematic categories: Spirituality/religiosity as a direction of life and spirituality/religiosity as a meaning for life and a source of renewal, fulfilment and happiness.

Conclusion:

When describing the experience of spirituality as an important strategy for finding meaning in life, the elderly persons in this study revealed it to be a psychic and emotional support for coping with existential challenges. This knowledge allows professionals working in these institutions to invest in practices that incorporate spirituality as an element of the comprehensive care of the elderly.

Keywords: Aging; Homes for the Aged; Spirituality; Religion and Science.

INTRODUÇÃO

No Brasil, o percentual de idosos, segundo o Censo Demográfico de 2015, representa cerca de 14,3% da população brasileira1. Conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 83.870 idosos vivem em mais de 3.500 instituições de longa permanência para idosos (ILPI) no Brasil. Diante desse cenário, a opção por buscar a ILPI como alternativa de cuidado ao idoso pode significar proteção e segurança para o idoso2.

A realidade contemporânea de transformação demográfica e epidemiológica da população brasileira, associada a uma acentuada transformação dos arranjos familiares, tem repercutido em demanda crescente por ILPI, como modalidade de assistência social.

Diante desse cenário, são muitos os desafios a serem enfrentados pelos profissionais da saúde, pesquisadores, gestores das ILPI, Estado, como o combate às doenças e ambientes propícios que auxiliem no desenvolvimento do cuidado integral da pessoa idosa na sua multidimensionalidade, com atenção à espiritualidade3. Neste sentido, ainda, dentre os desafios que se impõem aos profissionais e gestores de ILPI, está um atendimento qualificado, que respeite a individualidade e a heterogeneidade de cada idoso abrigado, considerando as diferentes posturas dos idosos diante da vida4.

A ILPI, considerando o preconizado pela Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa quanto à atenção multidimensional, deve contemplar, além dos fatores físicos, psíquicos, sociais e ambientais, os espirituais enquanto necessidade fundamental para essa etapa da vida5.

A espiritualidade, associada a questões de vida e saúde, remonta à época de 2000-1800 a.C., tendo sua importância permanecida vívida nas ações de cuidado até meados do século XIV, momento histórico em que houve separação entre filosofia, ciência e religião com Galileu. A partir do final do século XX, há uma retomada da aproximação dessas por meio de publicações de estudos epidemiológicos que demonstraram a relação entre espiritualidade/religiosidade com a saúde do paciente6. Corroborando esses resultados, alguns estudos sobre o tema espiritualidade encontraram desfechos favoráveis para a melhora da saúde e do bem-estar daqueles que a vivenciam7,8.

Diante dessas evidências, muitos estudos buscaram abordar a questão da espiritualidade a partir da compreensão de que essa tem influência benéfica no enfrentamento de doenças e nas situações adversas, atuando como efeito protetor para o impacto negativo das mesmas no cotidiano da vida9,10. No entanto, Thauvoye et al.11 avaliam que algumas pesquisas sobre religião e espiritualidade são inspiradas por tradições religiosas e estilos de vida, valendo-se de foco religioso unilateral para a elaboração de instrumentos incorporados em um contexto religioso específico, em geral a tradição judaico-cristã. Os mesmos autores, ainda, compreendem ser necessário aferir as três dimensões da espiritualidade: conectividade com o transcendente, com os outros e com a natureza.

A espiritualidade, embora de caráter complexo, tem revelado associação positiva com o bem-estar, se constituindo como importante preditor do funcionamento tardio, no que se refere aos cuidados de idosos. No entanto, é importante compreender como cada caminho espiritual está relacionado ao bem-estar, considerando as diferenças individuais na preferência por um ou mais tipos de conexão espiritual11.

Enquanto conceito, espiritualidade difere de religiosidade, mas ambos têm como base a presença de algo transcendente, vivenciado no cotidiano como capacidade de transformar a vida. Religião ou religiosidade vem do latim religio e significa religar o homem ao sobrenatural, como garantia de salvação, baseada num conjunto de técnicas, credos, dogmas e ritos instituídos por instituições que professam suas religiões, como judaísmo, cristianismo, islamismo. Já espiritualidade tem um sentido existencial mais abrangente que religião. Trata sobre sentido, cuidado, liberdade, amizade, fraternidade, hospitalidade, comunhão, qualidade de vida, felicidade. Seu olhar se estende “para além da dimensão biológica e pela lógica ditada pelo tempo, pela absoluta carnalidade do corpo e pela ocupação com a produção material ilimitada”12. Ainda, “a espiritualidade remete a uma questão universal relacionada ao significado e ao propósito da vida”13.

Segundo Pessini14, nesse novo milênio, a universidade e a ciência foram surpreendidas pelo “renascimento da religião”, ou seja, a emergência “das religiões em todos os âmbitos da vida humana”. Diante disso, a espiritualidade e/ou religiosidade são estratégias frequentemente utilizadas pelos idosos como reduto de segurança durante a exposição a situações estressantes, como problemas com a família, doenças, consciência da finitude existencial e do contexto da institucionalização, que, muitas vezes, ocorre contra a vontade do idoso15.

Assim, este estudo contribui para a discussão do quanto a espiritualidade/religiosidade, como uma característica intrínseca do ser, pode se revelar como mediadora para pessoas idosas institucionalizadas enfrentarem seus desafios existenciais, seus sofrimentos, angústias, suporte na fé. Além de configurar-se como subsídio para profissionais incorporarem a espiritualidade como elemento no cuidado integral com idosos.

Valendo-se da compreensão de Born16, de que o ser humano possui duas dimensões significativas na vida - a espiritual e a material - e que, com o passar dos anos ocorre o aprimoramento da primeira, emergindo a necessidade do cuidador de idosos abordar também as vivências espirituais e não somente restringir sua atenção aos aspectos físicos, o objetivo do estudo foi conhecer o significado atribuído à vivência da espiritualidade diante das situações da vida pelos idosos residentes em uma instituição de longa permanência.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa exploratória e descritiva, subprojeto do Projeto Integrado Cenários de cuidados de longa duração: Possibilidades avaliativas, interventivas e educacionais na atenção gerontológica.

O estudo foi realizado em uma ILPI, de natureza jurídica privada, localizada em município do interior do estado do Rio Grande do Sul, Brasil, com capacidade de acolhimento máxima para 30 idosos. A sua escolha foi intencional e se justifica por essa oportunizar atenção espiritual aos idosos.

Participaram deste estudo, oito (26,6%) idosos residentes, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A seleção dos participantes atendeu aos critérios de inclusão: ter idade igual ou superior a 60 anos, residir na ILPI, ser do sexo masculino ou feminino, aderir voluntariamente e ter boa compreensão cognitiva para responder questões. Foram excluídos os idosos com diagnóstico de demência e os acamados com comprometimento cognitivo, classificados como grau III para dependência17.

Para a coleta dos dados, os participantes foram abordados no interior da instituição e escolheram o espaço de sua preferência para responder a entrevista, que foi individual, no mês de abril de 2016, em data e horário disponibilizados pelo gestor da ILPI, respeitando as atividades programadas. Utilizou-se um questionário semiestruturado, com questões sobre a vivência da espiritualidade/religiosidade do idoso; a importância atribuída à mesma no enfrentamento e na compreensão das dificuldades da vida e a frequência de sua prática. O que emergiu das entrevistas sofreu análise de conteúdo na modalidade temática, de acordo com Bardin18, que se desdobrou em pré-análise, exploração do material e interpretação, permitindo a extração de unidades de significância e elaboração de categorias temáticas a partir de critérios semânticos estabelecidos com base no objetivo do estudo.

Para fins de preservar o anonimato dos entrevistados, seguindo os preceitos da ética em pesquisa estabelecidos pela Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, seus nomes foram substituídos por nomes de flores. Pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Passo Fundo (parecer nº. 393/2011).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A ILPI tem mais mulheres abrigadas do que homens, o que refletiu no perfil dos selecionados para o estudo quanto ao sexo, pois dos oito idosos participantes, sete eram mulheres e um era homem. As idades variaram de 61 a 88 anos, sendo a média de idade 75 anos. A prevalência feminina neste estudo encontra-se consonante a estudos realizados com essa parcela da população e que mostram a feminização da velhice19. Todos os entrevistados afirmaram ter religião e vivenciar a sua espiritualidade/religiosidade.

A partir da exploração do material foi possível a construção das seguintes categorias: Espiritualidade/religiosidade como direcionamento e encorajamento para a vida; espiritualidade/religiosidade como sentido para vida, fonte de renovação, plenitude e felicidade.

Vale destacar que os achados demonstram haver uma relação entre espiritualidade e religiosidade nas falas dos idosos. Isso, segundo Vitorino e Vianna15, não é exclusividade dos idosos, e sim uma mistura de conceitos que permeia boa parte da sociedade.

Espiritualidade/religiosidade como direcionamento e encorajamento para a vida

A partir do expresso pelos idosos sobre a espiritualidade e sua importância para o direcionamento da vida é possível compreendê-la como um suporte substancial para o viver bem desses idosos, segundo os ditames de sua consciência. Quando questionados sobre a importância da espiritualidade, os idosos verbalizaram palavras que remetem a compreensão da mesma como uma ferramenta para não desviar do caminho certo; permanecer firme naquilo que aprendeu, conforme depoimentos:

“Para não seguir o mau caminho [...] roubo, prostituição e aí por diante. A desonestidade. Essa geração nova, quando nasceram a responsabilidade tava de férias. Aí perde o equilíbrio. Os pais não têm culpa, já nascem desse jeito” (Rosa).

“A pessoa precisa saber o que está fazendo” (Lírio).

“Gosto dos meus filhos, não fumam, não bebem, fazem o bem” (Bromélia).

“Importante guardar a palavra de Deus no nosso coração e não pecar contra o Senhor” (Narciso).

Neste sentido, Gutz e Camargo13 identificaram que a representação social da espiritualidade para idosos está ancorada em proteção divina diante das situações cotidianas; na transcendência da existência mundana; na qualidade de pensamento, considerando a importância da honestidade no convívio interpessoal e a responsabilidade humana diante de escolhas e possíveis consequências nesta vida.

A vivência da prática religiosa em família emergiu nas falas revelando o significado da tradição, ensinada pelos seus pais, ainda na infância, como fator da presença marcante da religiosidade, mesmo em fase avançada da vida, ilustrado nas seguintes falas:

“A gente se sente bem como foi criada. Os pais falavam que a religião católica é viver com Deus, e eu quero viver com Ele” (Margarida).

“Porque não vou renegar o batismo que os meus pais me deram. É tudo” (Hortênsia).

A espiritualidade/religiosidade e sua importância no encorajamento para a vida emergiu nos depoimentos dos participantes em sentenças como “dá forças para enfrentar as dificuldades” e “dá coragem pela oração” (Lírio).

“A religião dá uma força interior” (Amarílis).

“Tendo oração tem tudo [...] dá coragem pra gente” (Rosa).

No entanto, em relação à vivência da religiosidade e da oração, as respostas foram variadas, pois diante dos obstáculos e das dificuldades da vida nem sempre é na espiritualidade/religião que os idosos encontram consolo. Narciso relatou que foi “consagrado pastor” e que seu “trabalho era como evangelizador junto a sua igreja”, antes de vir para a ILPI. Expressou que a sua religião é como uma “missão, pois faz oração pra muitos que precisam e esse é o trabalho que está fazendo agora”.

Bromélia relata que a religiosidade lhe ajudou a superar os momentos mais difíceis, como quando o marido teve um derrame. Já no caso de Azaleia e Hortênsia, o enfrentamento de perdas afetivas e da perda da autonomia se revela difícil, componente gerador de reflexão e questionamentos acerca da dimensão espiritual, conforme expresso nas falas:

“Religião não é muito importante. Sinto falta é da família. Há seis anos fiquei viúva. Transformou minha vida, para pior” (Azaleia).

“Será que vale a pena? Eu vivo aqui há três anos, contra a minha vontade” (Hortênsia).

Ainda, Hortênsia, chama atenção quando diz: “Eu rezo para morrer, estou cansada”. Essa expressão sugere que ela tem compreensão do conforto na fé em um ser superior.

A velhice, considerada a última etapa da vida, remete à finitude, e quando uma pessoa toma consciência da finitude existencial, a dimensão da espiritualidade aflora e passa a ser uma preocupação recorrente. A morte dos pais, familiares e amigos faz despertar um sentimento suprimido durante a maior parte da vida, mas que agora começa a se tornar significativo. Exalta-se ainda a importância da espiritualidade ou religião, capaz de diminuir o desespero que o indivíduo pode sentir com a proximidade do fim de sua vida biológica6,14,20.

Explorando a relação entre diferentes facetas da espiritualidade e o bem-estar mental positivo na velhice foi possível observar que o bem-estar foi predito positivamente tanto pela dimensão transcendental quanto pela dimensão dos outros. Isso revela que os idosos diante de situações estressantes podem encontrar conforto em um sentimento de conexão com algo que excede o eu, da mesma forma que encontram consolo em um sentimento de conexão com os outros, se essa for sua principal forma de experimentar a espiritualidade11.

Quando questionados sobre a frequência com que participam de celebrações religiosas ou recebem atendimento religioso, sete dos idosos responderam que o fazem mensalmente ou semanalmente, dependendo da oferta desses ritos pela instituição; apenas um relatou nunca o fazer, expressando, porém, vontade de fazê-lo. Esse resultado está consonante ao encontrado em estudo que buscou analisar se a religiosidade exerce efeito mediador na relação entre fatores sociodemográficos, multimorbidade e qualidade de vida relacionada à saúde em idosos na comunidade, no qual a prática foi semanal, exercida principalmente por mulheres idosas. A prática da religiosidade nesse estudo sugere associação à qualidade de vida pelo fato de proporcionar adesão a uma comunidade religiosa, podendo, assim, gerar suporte social21.

Em estudo que investigou a relação entre as estratégias de coping espiritual/religioso e qualidade de vida em idosos institucionalizados, a religiosidade/espiritualidade mostrou ter significativo papel na prevenção de problemas, auxiliando no enfrentamento, na recuperação ou na adaptação a situações de saúde, podendo também desempenhar um papel consolador, sendo mobilizada em casos de estresse, como a própria institucionalização do idoso15.

Muitas vezes o adoecimento e a cura são atribuídos a uma entidade superior, particular de cada religião, o que leva a estratégias cognitivas em que o indivíduo apela a Deus em busca de melhora de suas condições de saúde14. Essa busca de sentido estimula as pessoas a superar e entender as dificuldades que surgem durante a vida. Porém, observa-se que nem todas as pessoas que se declaram pertencer a alguma religião experimentam tal vivência, o que é demonstrado nas falas de Hortênsia e Azaleia, que alegam não ver na religião fonte de superação de suas dificuldades.

No entanto, os demais idosos expressaram que a vivência da espiritualidade/religiosidade ajuda muito”, pois outorgam mais importância ao plano espiritual, como Narciso quando diz: “Depois que conheci o evangelho aprendi muita coisa”. E Amarílis quando afirma: “aceito as mudanças” ou ainda Hortênsia na sua declaração contundente: “se estou aqui é por causa da minha fé, senão já teria me matado”.

Espiritualidade/religiosidade como sentido para vida, fonte de renovação, plenitude e felicidade

Quanto ao nível de espiritualidade/religiosidade, sete participantes classificaram-se como “muito religiosos e/ou espiritualizados”, destacando o papel importante das orações para servir aos outros e para sentir-se feliz.

“Espiritualidade dá muito sentido pra minha vida” (Narciso).

“A oração é importante para ajudar as pessoas” (Bromélia).

“Fazer o bem me dá paz de espírito [...] dá uma força interior para ajudar as pessoas” (Amarílis).

“Me faz bem quando eu faço o bem” (Jasmim).

“Se eu não fosse feliz na minha religião eu era triste. Assim eu sou feliz com ela né, com a minha religião” (Margarida).

Em estudo realizado na Bélgica, com 279 idosos, sobre o envelhecimento feliz e sua associação com fontes psicológicas positivas, os resultados indicaram que o bem-estar foi positivamente previsto pela espiritualidade experimentada por meio da conexão com o transcendente e com os outros11.

A espiritualidade fornece suporte para encontrar sentido para a existência, capaz de gerar forças psíquicas para enfrentar as angústias, as doenças, os dilemas que se apresentam diariamente e, especialmente, em situações de sofrimento e morte22. É possível estabelecer conexões entre espiritualidade, religião, plenitude e felicidade, como promotores de sentido para a vida e “partilhamos nossos valores com os que acreditam na realização da vocação do homem como um ser feliz [...] [e] na construção de um futuro digno e melhor para todos”14.

A velhice é um período privilegiado para enaltecer e usufruir essas qualidades motivadoras de bem-estar subjetivo. Porém, a busca e a conquista desses valores subjetivos de bem-estar são produtos decorrentes de um processo educacional. “Educar para a longevidade é uma obrigação que lança o desafio de maior compreensão sobre a condição humana existencial e finita de todos nós”12.

Em relação à prática religiosa e/ou espiritual efetivada pelos idosos desse estudo houve predomínio da oração realizada na própria ILPI. Apareceram ainda as práticas de ler o Livro Sagrado de alguma religião e de retirar-se para um local isolado para oração. Mas, Azaleia revela falta dos ritos religiosos quando afirma: “Acho importante participar das atividades da igreja”.

A compreensão da espiritualidade/religiosidade como renovação e plenitude emerge nas expressões de Narciso e Margarida:

“Porque preenche todos os vazios que eu tinha antes. Agora eu tenho Jesus no coração [...]. Eu tenho esperança de que o dia em que eu partir daqui eu vou tá com Jesus” (Narciso).

“Dá sentido sim. Muito não, bastante. A gente fica em silêncio e conversa com Deus e renova a vida” (Margarida).

Para Kuznier23, os idosos compreendem que a vida só tem sentido quando existe harmonia na convivência com os semelhantes e a espiritualidade seria ponto chave para atingir esse objetivo, possibilitando a experiência mais plena possível. Essa compreensão encontra-se consonante com os resultados evidenciados em pesquisa comparativa, realizada com 196 sujeitos, que objetivou avaliar se a percepção de qualidade de vida está associada às estratégias de enfrentamento religioso-espiritual de pacientes em cuidados paliativos. O estudo revelou que participantes saudáveis e com melhores escores de qualidade de vida tiveram melhor enfrentamento religioso-espiritual24. Outro estudo, que avaliou a qualidade de vida de pacientes renais crônicos em hemodiálise, por meio do WHOQOL-bref e WHOQOL-Spirituality, Religion and Personal Beliefs, evidenciou que os participantes apresentaram elevados escores de qualidade de vida, especificamente nas dimensões referentes à espiritualidade, religião e crenças pessoais25.

Nesse processo de envelhecer, a alegria, felicidade, esperança, motivação e propósitos ou projetos de vida, bem como sensações de tristeza, insegurança e abandono estão “intimamente ligadas à dimensão psíquica, à personalidade, ao otimismo, à resiliência, à gratidão e à presença de altos escores de emoções positivas”26.

Em síntese, a espiritualidade como promotora de renovação, plenitude e felicidade estrutura-se em torno do bem-estar subjetivo, na autonomia, a independência, a criatividade; em ser capaz de estabelecer metas e ter meios para executá-las; na estratégia de enfrentamento dos desafios da vida; agir de acordo com os valores interiores, da consciência; ter expectativas individuais ou motivacionais, ser alegre, contente e procurar superar a ansiedade, as angústias; gostar do ambiente domiciliar e cultivar a amizade; saber lidar com as perdas e exercer a resiliência; ter crenças pessoais e ser capaz de exercer o autocuidado até próximo da morte.

As limitações deste estudo estão relacionadas ao seu desenho transversal e a não generalização dos resultados a toda população idosa que reside em ILPI, ao que sugerimos a realização de estudos, visto que a vivência da espiritualidade em idosos institucionalizados e o seu significado diante das situações da vida ainda carece de aprofundamento por evidências científicas. Levantou-se ainda a possibilidade da complementação deste estudo com expansão da amostra abrangendo idosos de diferentes instituições e cidades, podendo até mesmo optar-se por expandir o instrumento utilizado neste trabalho para investigar outros aspectos da vida de idosos em ILPI e as suas relações com a espiritualidade.

CONCLUSÃO

Todos os idosos que compuseram essa amostra possuíam religião e atribuíam a ela evidente importância em suas vidas, sugerindo, por diversas vezes, a presença de uma carga cultural e de tradição, transmitida de pais para filhos, que faz com que a religião seja tão presente em suas vidas.

Os motivos apontados pelos entrevistados para dedicarem-se a sua espiritualidade/religiosidade foram diversos, predominando a visão de que a prática espiritual está relacionada a bons acontecimentos e na perseverança para encarar momentos difíceis. No entanto, como a maioria entende que a religião lhes ajuda a encarar as dificuldades, ficou evidenciado que, quando perdas afetivas estão envolvidas, a importância atribuída à religião pode ser questionada, sendo esse fato reflexo das poucas atividades religiosas oferecidas aos idosos residentes na instituição de longa permanência para idosos, em comparação com o que lhes era rotina antes da institucionalização.

Todos os participantes relataram que a espiritualidade/religiosidade proporciona sentido às suas vidas. As práticas adotadas para cultuar a religião/espiritualidade de cada sujeito do estudo podem ser diversas: orações individuais, vivência e reflexão acerca da sua própria existência.

A prática da espiritualidade em suas diferentes formas de manifestação se sublinhou, para os idosos deste estudo, como instrumentos de enfrentamento das dificuldades, das condições mórbidas e da finitude da vida, que se apresentaram, de maneira sutil, neste segmento da população de idosos institucionalizados.

A vivência da espiritualidade/religiosidade se revelou, para esses idosos, uma importante estratégia para o bem-estar diante das situações da vida, mas para uma aplicação adequada como forma de cuidado com idosos institucionalizados, é importante conhecer e compreender melhor as preferências e as práticas espirituais e sua relação ao bem-estar, considerando as subjetividades e o contexto para sua expressão.

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Recebido: 23 de Janeiro de 2018; Revisado: 14 de Abril de 2018; Aceito: 17 de Maio de 2018

Correspondência/Correspondence Nadir Antonio Pichler nadirp@upf.br

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