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Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia

Print version ISSN 1809-9823On-line version ISSN 1981-2256

Rev. bras. geriatr. gerontol. vol.21 no.4 Rio de Janeiro July/Aug. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1981-22562018021.170189 

Artigos Originais

Desenvolvimento de aplicativo como ferramenta de apoio à investigação e prevenção de osteoporose

Hélio Luiz Fernando Bernardi1 

Luciana Branco da Motta2 

1Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Programa de pós-graduação em Telemedicina e Telessaúde. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

2Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Universidade Aberta da Terceira Idade, Núcleo de Atenção ao Idoso. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

Resumo

Objetivo:

desenvolver um aplicativo para a investigação e prevenção de osteoporose para profissionais de saúde.

Método:

o desenvolvimento do aplicativo foi realizado em seis etapas: definição do público-alvo; levantamento das ferramentas de avaliação de risco para osteoporose validadas no Brasil; programação do aplicativo por meio do web progressivo; seleção de dados para elaboração das seções do formulário de avaliação e das recomendações clínicas; auditoria automatizada e avaliação do aplicativo pelos profissionais de saúde.

Resultados:

foram elaboradas três telas para o aplicativo. Essas telas foram criadas com base nos dados extraídos por meio das ferramentas Osteorisk, Sapori e Frax no que se referem aos dados sociodemográficos (idade, sexo, peso, estatura e raça), de saúde (uso de glicocorticoides, terapia de reposição hormonal, artrite reumatoide, osteoporose secundária, fratura prévia por baixo impacto, pais com história de fratura do quadril) e de comportamentos relacionados à saúde (prática de atividade física, ingestão de bebida alcoólica e tabagismo). O aplicativo seguiu o padrão de design e funcionalidades da ferramenta osteoporosis adviser (OPAD). Com relação às orientações pertinentes às recomendações clínicas, tomaram-se por base as diretrizes sobre osteoporose e prevenção de quedas em idosos do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, respectivamente.

Conclusão:

o aplicativo possibilita a identificação precoce de pacientes que apresentam fatores de risco à osteoporose e, com base nestes resultados, fornece a orientação sobre as medidas preventivas a serem adotadas, visando à diminuição de complicações decorrentes de fraturas, reduzindo internações, incapacidades e mortes.

Palavras-chave: Envelhecimento; Osteoporose; Tomada de Decisões Médicas Assistida por Computador

INTRODUÇÃO

O Brasil apresenta características como a sua grande extensão territorial, estados com municípios isolados, população multiétnica e oferta desigual de serviços médicos especializados que dificultam estudos epidemiológicos sobre a prevalência acurada de osteoporose e seu impacto nos custos para saúde pública, limitando o manejo da doença1. Esse contexto favorece a expansão da telemedicina e uma maior utilização de aplicativos e ferramentas de apoio à decisão nessa área - a ampliação de publicações na linha de pesquisa de tecnologia móvel aplicada à saúde2.

A disseminação das tecnologias de informação e comunicação, com o uso de dispositivos móveis e a expansão da banda larga no mundo, teve grande repercussão na área médica. Essa configuração tecnológica possibilitou o desenvolvimento de sistemas web e aplicativos específicos para profissionais de saúde e pacientes. Como exemplos, podemos citar: o Alzhe alert, desenvolvido para estimar o risco de uma pessoa desenvolver a doença de Alzheimer ao longo dos anos, dependendo de seus hábitos e atividades diárias3; e o ADep (Ayuda para depression em espanhol), programa de acesso livre sobre psicoeducação e intervenção cognitivo-comportamental para depressão, produzido no México4.

No Brasil, outros exemplos desses tipos de aplicativo são o Frágil Mobi, que procura identificar as características da síndrome de fragilidade em idosos5, e o aplicativo CuidarTech “Exame dos Pés”, ferramenta para auxiliar na avaliação e classificação de risco da pessoa com diabetes mellitus desenvolver pé diabético6.

Um dos grandes desafios a ser considerado no país é o envelhecimento de sua população. A osteoporose e as fraturas por fragilidade destacam-se pelos altos custos à saúde pública, impactando negativamente na qualidade de vida dos idosos. Nos estudos nacionais, a prevalência relatada de osteoporose entre mulheres pós-menopáusicas varia de 15,0% a 33,0%7. Em geral, essas pesquisas também mostram elevada prevalência de todos os tipos de fratura por fragilidade óssea, variando de 11,0 a 23,8%; e moderada incidência de fratura de quadril em indivíduos acima de 50 anos de idade8.

Estudo epidemiológico das fraturas do terço proximal do fêmur, em pacientes idosos tratados em hospital-escola na região central de São Paulo (SP), mostrou que trauma de baixa energia foi a causa de 92,9% das fraturas, com taxa de mortalidade intra-hospitalar de 7,1%9. Estima-se que 15,0% a 30,0% dos pacientes com fraturas de quadril morrem no primeiro ano, frequentemente como resultado de complicações da fratura, tais como: infecções, trombose venosa e úlceras de pressão; ou condições associadas, especialmente cardiovasculares1.

Objetivando evitar essas complicações, diversos estudos europeus, norte-americanos e asiáticos têm mostrado a relevância clínica de ferramentas de avaliação que possam ser usadas para discriminar indivíduos com maior risco de desenvolver osteoporose. Algumas dessas ferramentas como, por exemplo, a estimativa calculada simples de osteoporose (Score) e o índice belga de risco de osteoporose (Osiris)10, indicam que a identificação precoce dos fatores de risco seria a principal meta na introdução de estratégias efetivas de prevenção da osteoporose11, os quais foram considerados na elaboração deste aplicativo denominado OSTEOGUIA.

O objetivo deste estudo foi desenvolver um aplicativo web progressivo para auxiliar os profissionais da área de saúde na investigação e prevenção de osteoporose com um conteúdo baseado nas ferramentas de avaliação de risco disponíveis na literatura.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa para desenvolver um aplicativo de baixo custo, com possibilidade de implantação em qualquer serviço de saúde e de fácil instalação em dispositivos móveis.

As etapas para a construção do aplicativo envolveram a definição do público-alvo; levantamento das ferramentas de avaliação de risco para osteoporose validadas no Brasil; programação do aplicativo por meio do web progressivo; seleção de dados para elaboração das seções do formulário de avaliação e das recomendações clínicas; auditoria automatizada e avaliação do aplicativo por profissionais de saúde.

Público-alvo

Considerando que a osteoporose é uma doença associada ao envelhecimento e que, aproximadamente 75% dos brasileiros não possuem plano privado de saúde1, foi definido como público-alvo do aplicativo os profissionais de saúde atuantes nos segmentos da atenção básica, saúde da mulher e geriatria do Sistema Único de Saúde (SUS).

Levantamento das ferramentas de avaliação de risco para osteoporose validadas no Brasil

Realizou-se um levantamento das publicações científicas nas bases de dados Medline e Lilacs da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e no portal de periódicos da Capes, com o objetivo de identificar as ferramentas de avaliação de risco para osteoporose validadas no país. Os critérios de inclusão de artigos foram: publicações disponíveis on-line, em português ou inglês e publicados no período compreendido entre 2005 e 2016. Foram excluídos os estudos que descreviam ferramentas não avaliadas na população brasileira. Os descritores utilizados foram: osteoporose, fatores de risco, avaliação de risco e fraturas do quadril. Após a avaliação dos artigos foram identificadas três ferramentas (Osteorisk, Sapori e Frax) que serviram de base para a elaboração do aplicativo.

A ferramenta Osteorisk baseia-se na idade e peso, e na avaliação de amostra populacional brasileira apresentou sensibilidade geral para identificar mulheres com alto risco de osteoporose de 86,5%. A simplicidade na aplicação, seu baixo custo e a economia gerada fazem dessa ferramenta um excelente método de triagem para identificar as mulheres que estão em maior risco de osteoporose12.

A ferramenta Sapori identificou que os principais fatores de risco associados com baixa densidade óssea e fratura por baixo impacto foram: baixo peso; idade avançada; raça branca; história familiar de fratura de fêmur; tabagismo atual e uso crônico de glicocorticosteroides. A terapia hormonal após a menopausa e a atividade física regular tiveram papel protetor13.

A ferramenta Frax possui um algoritmo que calcula o risco do paciente sofrer uma fratura por fragilidade óssea em 10 anos, correlacionando os fatores de risco com o resultado da densidade mineral óssea do colo do fêmur, mensurada pela densitometria óssea. Os fatores clínicos de risco avaliados são: idade; sexo; índice de massa corpórea (IMC); fratura prévia; história familiar de fratura de fêmur; corticoterapia prolongada; tabagismo atual; ingestão de mais de três porções de bebidas alcoólicas por dia; osteoporose secundária e artrite reumatoide14.

Programação do aplicativo web progressivo

Para a programação do aplicativo foram utilizadas tecnologias de código aberto como HTML, CCS, Java script e PHP. Optou-se pelo desenvolvimento de um aplicativo web progressivo (Progressive Web App - PWA), termo usado para denotar uma nova metodologia de desenvolvimento de software. Ao contrário dos tradicionais aplicativos, um PWA pode ser visto como uma evolução híbrida entre as páginas da web regulares (ou sites) e um aplicativo móvel. Esse novo modelo de aplicação combina recursos oferecidos pelos mais modernos navegadores, com as vantagens de uso de um celular15. Ressaltamos que para o desenvolvimento desse aplicativo buscou-se atender aos preceitos contidos na engenharia de software.

Seleção de dados para elaboração da seção Formulário de Avaliação e para as recomendações clínicas

A utilização de ferramentas de avaliação de risco devem considerar o perfil de sua população pois diferenças genéticas, raciais, antropométricas contribuem para explicar divergências da incidência e prevalência de baixa densidade óssea e fraturas em diversos países do mundo13. A seleção de dados para elaboração do formulário de avaliação baseou-se nas três ferramentas de avaliação de risco para osteoporose validadas no Brasil (Osteorisk, Sapori e Frax).

Os dados de peso e idade comum as três ferramentas foram utilizados na classificação de risco do paciente para baixa densidade óssea que se baseou no algoritmo de cálculo da ferramenta Osteorisk: 0,2 *[(Peso em Kg) - (Idade em anos)]. Indivíduos são considerados de baixo risco quando o resultado do cálculo é maior que 1, médio risco quando o valor está entre -2 e 1 e alto risco quando o valo é menor que -2. Esta ferramenta possui bom desempenho conforme demonstrado nos trabalhos de Sen et al. 11 e de Steiner et al. 12, com sensibilidade de 86.5% na identificação de mulheres com alto risco para osteoporose.

Histórico familiar mais especificamente pais com história de fratura do fêmur, tabagismo atual, uso crônico de glicocorticoides e fratura prévia por baixo impacto foram dados identificados como fatores de risco associados a baixa densidade óssea pelas ferramentas Sapori e Frax sendo incorporados no aplicativo.

O uso de glicocorticoides seguiu a orientação do Frax de indicar como positivo se fosse identificado uso atual de glicocorticoide oral por mais de 3 meses com dose de prednisolona de 5 mg ou mais (ou dose equivalente de outros corticoides). Em relação ao consumo de álcool foi considerado afirmativo, conforme orientações do Frax, o uso de 3 unidades de álcool ou mais por dia. Uma unidade de álcool varia pouco entre os diferentes países e está entre 8-10 g de álcool. Isso equivale a um copo padrão de cerveja (285 ml), uma medida de drinque (30 ml), um copo médio de vinho (120 ml) ou uma medida de aperitivo (60 ml) 16.

Para a definição de osteoporose secundária o Frax considera se o paciente tiver uma doença fortemente associada à osteoporose. Isto inclui diabete tipo I, osteogênese imperfecta em adultos, hipertireoidismo não tratado, hipogonadismo ou menopausa prematura (<45 anos), má nutrição crônica ou má absorção e doença hepática crônica16.

Segundo a amostragem do estudo Sapori, terapia hormonal após a menopausa e atividade física regular no último ano tiveram papel protetor sendo orientado no aplicativo para assinalar como positivo essas afirmações somente nos casos identificados de continuidade durante o ano anterior13. Neste estudo também considerou-se a raça branca como de maior risco, sendo a definição da raça a critério do julgamento clínico do profissional de saúde.

Os dados utilizados pela ferramenta osteoporosis adviser (OPAD), sistema de suporte à decisão clínica desenvolvido na Islândia, não foram aproveitados no formulário de avaliação do OSTEOGUIA por não haver estudos sobre sua utilização e validação na população brasileira. Porém o padrão de design com campos para inclusão dos valores numéricos dos dados antropométricos e botões de opção sim ou não para os itens dos fatores de risco foram adotados, além de seguir a funcionalidade de oferecer recomendações sobre o estilo de vida, tratamento e momento de realização de exame de densitometria óssea imediatamente após submissão do formulário17.

Com relação às recomendações clínicas para a adoção de medidas preventivas a osteoporose, o aplicativo baseou-se no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Osteoporose do Ministério da Saúde (MS), Portaria n° 451/201418, e nas diretrizes sobre prevenção de quedas em idosos da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)19.

Auditoria automatizada

Para avaliação do desempenho do aplicativo foi utilizada a ferramenta automatizada de código aberto Lighthouse do Google, cujo objetivo é oferecer uma auditoria abrangente de todos os aspectos da qualidade de um aplicativo da web20. Essa ferramenta executa uma série de testes na página e gera um relatório sobre o desempenho nesses testes, apresentando as falhas e os indicadores para o aprimoramento do aplicativo. O Ligthhouse foi executado como extensão do Chrome, auditando os itens relacionados no Quadro 1.

Quadro 1 Itens do aplicativo auditados por meio da ferramenta Lighthouse. Rio de Janeiro, RJ, 2017. 

Aplicativo Web Progressivo Acessibilidade Boas Práticas
Registra um service worker Elementos usam atributos corretamente Inclui bibliotecas JavaScript front-end sem vulnerabilidades de segurança
Responde com um código 200 quando estiver off-line Atributos de ARIA seguem as melhores práticas Evita o cache de aplicativos
Contém algum conteúdo quando o JavaScript não está disponível Elementos possuem nomes discerníveis Evita o WebSQL DB
Usa https Elementos descrevem bem o conteúdo Usa https
O usuário pode ser solicitado a instalar o aplicativo da web Elementos são bem estruturados Usa http/2 para seus próprios recursos
Configurado para uma tela inicial personalizada Página especifica o idioma válido Usa ouvintes passivos para melhorar o desempenho de rolagem
A barra de endereço corresponde às cores da marca Meta Tags usadas corretamente Evita eventos de mutação em seus próprios scripts
Tem uma tag <meta name = viewport> com largura ou escala inicial O contraste da cor é satisfatório Evita document.write ()
O conteúdo é dimensionado corretamente para a viewport Abre âncoras externas usando rel = noopener
Redirecionar o tráfego http para https Evita solicitar a permissão de geolocalização no carregamento da página
O carregamento de páginas é rápido o suficiente em 3G - Evita solicitar a permissão de notificação no carregamento da página
- Evita APIs descontinuadas
- O short_name do manifesto não será truncado quando exibido na tela inicial
- Permite que os usuários colem em campos de senha
- Exibe imagens com proporção correta
- Nenhum erro do navegador registrado no console

ARIA= Aplicações Ricas para Internet Acessível.

APIs = Interfaces de Programação de Aplicativos.

Avaliação do aplicativo por profissionais de saúde

Para conhecer a opinião dos usuários profissionais de saúde em relação à funcionalidade, usabilidade e confiabilidade do aplicativo foi necessário realizar a avaliação do protótipo. Esse modelo foi apresentado e disponibilizado para uso pelos profissionais do Núcleo de Atenção ao Idoso (NAI) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no período de agosto a setembro de 2017.

Após o período de avaliação, foi disponibilizado um questionário on-line utilizando a Escala Likert com pontuação de 1 a 5, variando de discordo totalmente a concordo totalmente. Foram consideradas como adequadas as pontuações acima de 4. Os voluntários que avaliaram o OSTEOGUIA deveriam responder questões que geralmente são utilizadas em engenharia de software para a avaliação de qualidade técnica de aplicativos. Essas questões basearam-se em estudos que avaliam características como funcionalidade, confiabilidade, usabilidade, eficiência em aplicativos móveis21.

Esse questionário incluía uma questão sobre o perfil profissional dos avaliadores que poderiam ser médicos, enfermeiros, outros profissionais de saúde ou cuidadores. Para a validação desse questionário on-line buscou-se atender a NBR ISO/IEC 25062:2011 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT)22, que recomenda amostragem mínima de oito participantes na etapa dos testes.

Após a fase de avaliação do protótipo e correções da versão inicial, o aplicativo foi encaminhado para registro no Instituto de Inovação Tecnológica da Uerj. Com a finalização desse processo, o aplicativo será disponibilizado para acesso gratuito em um servidor de hospedagem segura em uma versão na Google Play Store.

CEP

O desenvolvimento deste aplicativo obedeceu as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos, em conformidade com o preconizado pela resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. O projeto foi aprovado pelo Comitê de ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Protocolo nº 2706/17). Os voluntários foram previamente orientados sobre a avaliação do aplicativo, participando apenas os que concordaram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

Foram elaboradas três telas para o aplicativo OSTEOGUIA criadas com base nos dados extraídos por meio das ferramentas Osteorisk, Sapori e Frax no que se referem aos dados sociodemográficos (idade, sexo, peso, estatura e raça), de saúde (uso de glicocorticoides, terapia de reposição hormonal, artrite reumatoide, osteoporose secundária, fratura prévia por baixo impacto, pais com história de fratura do quadril) e de comportamentos relacionados à saúde (prática de atividade física, ingestão de bebida alcoólica e tabagismo).

A tela do formulário de avaliação se baseou no design utilizado pela ferramenta OPAD com campos para preenchimento numérico dos valores de idade, peso, estatura e T-score e botões de opção sim ou não para os fatores de risco a serem avaliados.

No que se refere às orientações pertinentes às recomendações clínicas, tomaram-se por base as diretrizes sobre osteoporose e prevenção de quedas em idosos do MS e da SBGG, respectivamente.

A tela inicial apresenta um menu fixo no topo que direciona para cinco seções: três com informações interativas sobre osteoporose, fatores de risco e densitometria; uma que direciona para o formulário de avaliação e uma para o contato (Figura 1).

Figura 1 Reprodução da tela do aplicativo OSTEOGUIA. Rio de Janeiro, RJ, 2017. 

A seção Osteoporose disponibiliza botões interativos que direcionam para telas com informações sobre definição, etiologia, epidemiologia, mortalidade, quedas, e um botão com o tutorial sobre o uso do aplicativo no qual se localiza um link para a referência bibliográfica.

Na seção Fatores de Risco é detalhado cada fator de risco importante na avaliação do paciente, separados em duas colunas: fatores modificáveis e não modificáveis. Cada fator de risco representa um botão que detalha informações, inclusive com dados importantes a serem considerados no preenchimento do formulário de avaliação.

Considerando que o diagnóstico da osteoporose também pode ser estabelecido com base na medida da densidade mineral óssea pela técnica de densitometria por dupla emissão de raios-X, na seção Densitometria é apresentado as indicações para a realização do exame, segundo as diretrizes do Ministério da Saúde.

Na seção Formulário de Avaliação o profissional de saúde informa os dados gerais do paciente e os itens relacionados aos fatores de risco. (Figura 2).

Figura 2 Reprodução da tela do aplicativo OSTEOGUIA. Rio de Janeiro, RJ, 2017. 

Os dados gerais do paciente são informados nos campos de texto e os fatores de risco selecionados por meio das opções sim ou não, seguindo o padrão de design da ferramenta OPAD sendo transferidos automaticamente para os algoritmos do aplicativo. Caso o paciente tenha realizado o exame de densitometria óssea da coluna lombar, um campo do formulário solicita informar o valor numérico do T-Score obtido no segmento lombar de L1-L4.

Após o envio do formulário de avaliação o usuário é direcionado para a última tela Resultados e Recomendações clínicas em que é apresentado um relatório que informa o IMC do paciente, com alerta para pacientes com baixo peso, a classificação de risco do paciente para baixa densidade óssea e o resultado da densitometria conforme classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), categorizando como osteoporose, baixa densidade óssea (osteopenia) ou normal (Figura 3).

Figura 3 Reprodução da tela do aplicativo OSTEOGUIA. Rio de Janeiro, RJ, 2017. 

Na seção Contato é apresentado um formulário para que o usuário possa enviar uma mensagem para os desenvolvedores do aplicativo sobre dúvidas, comentários e sugestões.

Com relação à auditoria automatizada, o aplicativo apresentou desempenho de 82% nas características de PWA, 89% nas características de acessibilidade e atendeu 100% às características de boas práticas de desenvolvimento web. Os indicadores sugeridos para melhoria da acessibilidade estão relacionados às características técnicas para tornar o conteúdo acessível para um usuário de tecnologia assistencial, como, por exemplo, um leitor de tela para deficientes visuais. Para aprimorar as características de PWA foram sugeridas melhorias no acesso ao servidor, como o redirecionamento para acesso https, que é o http seguro, e melhoria na otimização de imagens para melhor experiência em conexão 3G.

Na Tabela 1 são apresentados os dados com base nas respostas das avaliações realizadas pelos profissionais do NAI/UERJ. Todos os sete quesitos avaliados foram aprovados, com destaque para facilidade no uso e confiabilidade do aplicativo, e 62,5% dos profissionais concordaram com o uso do aplicativo. Participaram dessa avaliação oito profissionais, e todos se identificaram como médicos. O questionário on-line ficou disponível no mesmo período de avaliação do protótipo.

Tabela 1 Respostas ao questionário on-line de avaliação do aplicativo OSTEOGUIA. Rio de Janeiro, RJ, 2017. 

Itens Perguntas Média (desvio-padrão)
1 Gostaria de usar este aplicativo com frequência no seu dia a dia? 4,62 (±0,51)
2 O aplicativo é fácil de usar? 5,00 (±0)
3 Conseguiu utilizar o aplicativo sozinho? 5,00 (±0)
4 As várias funções do aplicativo são bem integradas? 4,62 (±0,51)
5 O aplicativo é coerente em suas funções? 4,50 (±1,41)
6 Acredita que outras pessoas conseguirão aprender a utilizar facilmente e com agilidade o OSTEOGUIA? 4,75 (±0,46)
7 Achou confiável o uso do aplicativo? 5,00 (±0)

DISCUSSÃO

Na prática clínica diária de atenção a saúde do idoso, observamos que muitos pacientes passam a receber atenção e tratamento com relação à osteoporose, somente após um episódio de queda na qual é constatada uma fratura por fragilidade. Danachi et al.9 identificaram nos pacientes idosos com fratura do terço proximal do fêmur que medidas simples e eficazes, como diagnóstico precoce, tratamento da osteoporose e prática regular de atividades físicas, não são adotadas.

Apesar dos muitos tratamentos disponíveis para a prevenção e manejo da osteoporose, com efetividade de redução das lesões vertebrais e não vertebrais, a maioria da população brasileira ainda não tem acesso ao diagnóstico precoce e a terapêutica apropriada para a doença8. O governo brasileiro fornece medicamentos para a osteoporose por meio do SUS mas, sem conhecimento epidemiológico adequado, a implementação de programas de saúde pública é prejudicada7.

Pesquisa divulgada pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica mostrou que cerca de 72% a 93% dos médicos disseram estar muito interessados em receber informações concernentes à prevenção e tratamento de osteoporose. Na graduação médica ou em programas de pós-graduação, 64% e 79%, respectivamente, tiveram pouca ou nenhuma exposição ao tema osteoporose. Somente 22% dos médicos relataram ter conhecimento sobre guias de conduta no tratamento e prevenção de osteoporose23.

O aplicativo OSTEOGUIA foi desenvolvido para tentar suprir essa lacuna, buscando identificar as necessidades dos profissionais de saúde e trazendo informações com base científica, visando possibilitar um melhor atendimento à população que apresenta fatores de risco associados à osteoporose.

A revisão sistemática realizada constatou que existem poucos aplicativos de apoio à decisão clínica em osteoporose e que a maioria dos estudos que avaliam essas ferramentas não incorporam os três componentes principais na avaliação: fatores de risco, diagnóstico e tratamento24.

Algumas ferramentas, como Osteorisk, Sapori e Frax, permitem identificar indivíduos com maior risco para fratura, otimizando o início e a adesão ao tratamento, além de selecionar melhor os pacientes para realizar a densitometria óssea, uma vez que o médico pode solicitar o exame para quem tem maior risco, ao ponderar, quantitativamente, os fatores clínicos de risco. No estudo Score13, os autores demonstram que a solicitação desnecessária de densitometria óssea poderia ser reduzida em até 30%, e o estudo belga Osiris (Osteoporosis Index Risk) mostrou que a indicação desse exame poderia ser reduzida em 55%, se o instrumento fosse corretamente utilizado, e, portanto, não solicitado para pacientes com baixo risco13.

O aplicativo OSTEOGUIA incorpora os fatores de risco usados por essas ferramentas com as vantagens da portabilidade e fácil instalação em dispositivos móveis, se adaptando a qualquer tamanho de tela por adotar um padrão de design responsivo. Durante revisão da literatura não se identificou nenhum aplicativo on-line para uso da ferramenta Osteorisk. A ferramenta Sapori foi desenvolvida como ferramenta excel e a ferramenta Frax, apesar de acessível pela internet, sua versão mobile não é gratuita.

A utilização de ferramentas de código livre permitiu o desenvolvimento de um aplicativo de baixo custo. Além disso, o uso de linguagens web consagradas facilitam a manutenção e o aprimoramento do aplicativo, que pode ser expandido com a vinculação do formulário de avaliação ao registro em um banco de dados estruturado, permitindo uma análise estatística mais apurada com possibilidade de desenvolvimento de novas ferramentas de avaliação de risco que considerem as diferenças étnicas regionais. O impacto gerado pelo uso dessas ferramentas em longo prazo e a análise do perfil dos pacientes atendidos é uma possibilidade de extensão dessa pesquisa.

Outra característica que deve ser aprimorada no aplicativo é uma análise estatística correlacionando os fatores de risco e os resultados dos valores de densitometria óssea lombar com uma amostra populacional representativa, para a definição da sensibilidade e especificidade na identificação de risco para a osteoporose. Existe uma tendência a desenvolver esses aplicativos voltados para a experiência dos pacientes. Em uma próxima etapa do nosso estudo, almejamos que esses usuários participem da avaliação do OSTEOGUIA.

Este aplicativo web progressivo segue a nova tendência para a web móvel pela relativa facilidade de desenvolvimento e pelas vantagens na experiência dos usuários, apresentando potencial para atender à demanda de profissionais de saúde sobre a osteoporose.

Como limitações deste estudo, cabe destacar que o questionário on-line aplicado aos profissionais de saúde para a avaliação do aplicativo OSTEOGUIA carece de um protocolo de validação interna pelo setor de informática da instituição. Além disso, o baixo número de avaliadores e o fato de apenas um perfil profissional ter respondido, também limita a extrapolação dos resultados desta pesquisa.

CONCLUSÃO

A avaliação do aplicativo desenvolvido com relação à usabilidade, funcionalidade e confiabilidade apontam para uma possível incorporação dessa ferramenta na prática diária do profissional de saúde. O aplicativo OSTEOGUIA possibilita a identificação precoce de pacientes que apresentam fatores de risco para a osteoporose. Com base nestes resultados, cabe ao profissional orientá-los sobre as medidas preventivas a serem adotadas, visando melhor qualidade de vida, diminuição das complicações como fraturas, reduzindo internações, incapacidades e mortes.

Cabe ressaltar que as recomendações clínicas fornecidas pelo aplicativo são baseadas no Protocolo Clínico e nas Diretrizes Terapêuticas da Osteoporose do Ministério da Saúde e nas diretrizes sobre prevenção de quedas em idosos da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Portanto, apesar de este aplicativo ser de fácil uso e seu acesso dar-se por meio de dispositivos móveis, suas orientações são cientificamente embasadas. A implementação do aplicativo OSTEOGUIA pode trazer benefícios para a prevenção dessa doença no Brasil, possibilitando a redução do impacto socioeconômico aos serviços de saúde.

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Recebido: 29 de Novembro de 2017; Revisado: 17 de Abril de 2018; Aceito: 02 de Julho de 2018

Correspondência: Hélio Luiz Fernando Bernardi hlfbernardi@hotmail.com

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