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Revista Brasileira de Cineantropometria & Desempenho Humano

On-line version ISSN 1980-0037

Rev. bras. cineantropom. desempenho hum. vol.14 no.1 Florianópolis  2012

http://dx.doi.org/10.5007/1980-0037.2012v14n1p1 

ARTIGO ORIGINAL

 

Massa muscular de idosos do município de São Paulo – Estudo SABE: Saúde, Bem-estar e Envelhecimento

 

 

Luís Alberto GobboI; Daiana Aparecida Quintiliano S. DouradoI; Manuela Ferreira de AlmeidaI; Yeda Aparecida de Oliveira DuarteII; Maria Lúcia LebrãoIII; Maria de Fátima Nunes MarucciIV

IUniversidade de São Paulo. Faculdade de Saúde Pública. Departamento de Nutrição. Doutorandos do Programa de Pós-Graduação Nutrição em Saúde Pública. São Paulo, SP. Brasil
IIUniversidade de São Paulo. Escola de Enfermagem. Departamento de Enfermagem Médico Cirúrgica. São Paulo, SP. Brasil
IIIUniversidade de São Paulo. Faculdade de Saúde Pública. Departamento de Epidemiologia. São Paulo, SP. Brasil
IVUniversidade de São Paulo. Faculdade de Saúde Pública. Departamento de Nutrição. Programa de Pós-Graduação Nutrição em Saúde Pública. São Paulo, SP. Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A análise da massa muscular (MM) em idosos, seja total (MMT) ou apendicular (MMA), é importante para o acompanhamento deste componente ao longo do envelhecimento, sendo que estes valores são mais associados à incapacidade funcional quando ajustados pela estatura, possibilitando, assim, a análise dos índices de massa muscular total (IMMT) e apendicular (IMMA). O objetivo deste estudo foi apresentar valores normativos, expressos em médias e percentis, de MMT, MMA, IMMT e IMMA, de idosos do município de São Paulo, segundo sexo e grupos etários. A amostra foi composta por 1203 idosos de ambos os sexos, da coorte de 2006 do Estudo SABE: Saúde, Bem-estar e Envelhecimento, realizado no município de São Paulo, Brasil. As variáveis MMT e MMA foram identificadas a partir de equações preditivas, enquanto os respectivos índices, pela razão entre os valores de MM e altura, ao quadrado (em kg.m-2). Os valores médios e os desvios-padrão de MMT, de mulheres e homens, com menos de 80 e 80 anos e mais, foram, em kg, 17,7±3,6, 14,4±3,2, 26,9±3,8 e 24,1±2,9, respectivamente, enquanto os valores de MMA foram 14,4±2,1, 13,0±2,0, 21,0±2,8 e 19,4±2,3, respectivamente. Quando ajustados pela altura, os valores de IMMT foram, em kg.m-2, 7,6±1,4, 6,3±1,2, 9,8±1,1 e 8,9±0,9, e os valores de IMMA foram, 6,1±0,7, 5,7±0,7, 7,6±0,8 e 7,2±0,7, respectivamente. Todas as variáveis apresentaram alta correlação entre si (r>0,84). Homens e idosos mais jovens apresentaram maiores valores, com significância estatística, em relação aos seus pares e as diferenças entre os grupos etários são maiores entre as mulheres.

Palavras-chave: Antropometria; Envelhecimento; Índice de massa muscular; Massa muscular; Sarcopenia.


 

 

INTRODUÇÃO

A massa muscular (MM) é um componente corporal que corresponde a, aproximadamente, 35% do peso corporal total de adultos jovens1, e, com o envelhecimento, tem o seu peso reduzido em até 40%2. Em brasileiros, por exemplo, foi verificado, a partir dos 40 anos de idade, redução de aproximadamente 17% da MM, nas duas décadas seguintes3.

Essa redução, juntamente com a redução da força muscular, é denominada sarcopenia4, e pode ocasionar perda da funcionalidade, aumento do risco de quedas, fraturas5 e incapacidade física6. Em consequência, há redução da qualidade de vida e aumento do risco de mortalidade em idosos7. Recentemente, a avaliação da MM tem sido sugerida por diferentes grupos8,9 para a identificação de sarcopenia em idosos, juntamente com variáveis de força e funcionalidade.

A MM total (MMT) é mensurada em laboratórios a partir de ressonância magnética e tomografia computadorizada. A absorciometria radiológica de dupla energia (DXA) também pode ser utilizada para avaliação da MM, a partir da análise da massa isenta de gordura e osso de membros superiores e inferiores. Considerando que parte considerável desta massa isenta de gordura e osso é tecido muscular, recebe também a denominação de massa muscular apendicular (MMA), e pode ser utilizada em estudos de avaliação da MM1,6. Contudo, estas análises, apesar de apresentar maior validade, são realizadas em nível laboratorial, e com maior custo operacional. Uma alternativa a estes métodos é a utilização de métodos antropométricos.

Em antropometria, a área muscular de braço e circunferência de panturrilha são frequentemente utilizados como indicadores da MM10,11, mas são mensurados em nível periférico. Valores de MMT e MMA, estimados a partir de equações preditivas, vêm sendo propostos12,13, a fim de proporcionar estimativas mais válidas da MM. Estas equações são utilizadas a partir de medidas antropométricas, como peso, estatura e circunferência de quadril, além de variáveis sociodemográficas (sexo, idade e etnia) e da força de preensão manual. Uma vez mensurado o valor da MM, é possível estimar o índice de massa muscular total (IMMT) ou apendicular (IMMA), calculado pela razão da MMT ou MMA (em kg) pela estatura (em m), ao quadrado. Estes valores de índice de massa muscular (em kg.m-2) possuem maior associação com incapacidade funcional e morbidade, comparados aos valores de MM, e são apropriados para análise em estudos epidemiológicos6.

Uma vez que o número de pessoas com 60 anos ou mais cresce em maior proporção que outros grupos etários da população14, o conhecimento de valores de MM (total e/ou apendicular) e seus respectivos índices, pode ser útil, primeiro, na identificação de sarcopenia, tendo em vista que grande parte das classificações para sarcopenia leva em consideração o conhecimento dos valores de MM, de forma isolada6,13 ou em associação com medidas de força e funcionalidade8 e, segundo, no desenvolvimento de estratégias terapêuticas e de saúde pública, com a finalidade de preservar a MM de pessoas deste grupo etário e assim, melhorar a capacidade funcional, reduzir os riscos à saúde e aumentar a qualidade de vida de idosos.

Entretanto, para a análise qualitativa dos valores de MM ou IMM, faz-se necessário a utilização de dados normativos, baseados em amostra ampla, representativa e heterogênea15. Para o nosso conhecimento, não há, no Brasil, estudos que apresentem valores de MM e/ou IMM mensurados em idosos. Assim, o objetivo deste trabalho é apresentar valores normativos, expressos em médias e percentis de MMT, MMA, IMMT e IMMA de idosos do município de São Paulo, segundo sexo e grupos etários.

 

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

O presente trabalho foi baseado no Estudo SABE (Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento), realizado em 2000, em sete cidades da América Latina e Caribe (Barbados, Buenos Aires, Cidade do México, Havana, Montevideo, Santiago e São Paulo), e em 2006, na cidade de São Paulo. Inicialmente, coordenado pela Organização Pan Americana de Saúde (OPAS), caracterizou-se como inquérito multicêntrico, epidemiológico, internacional e de base domiciliar, com o objetivo de avaliar as condições de vida e estado de saúde de idosos.

No Brasil, foi realizado no município de São Paulo, sendo coordenado por docentes da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, apoiado pela Organização Pan Americana de Saúde (OPAS/OMS) e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e Ministério da Saúde (MS). Foi aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Saúde Pública da USP e pelo Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Protocolo nº 1930/2009).

O questionário utilizado para o estudo foi proposto pela OPAS, traduzido e adaptado para utilização no Brasil. A obtenção dos dados foi realizada em duas etapas: 1) visita domiciliar, realizada por apenas um entrevistador, abrangendo questões sobre condições clínicas de vida e estado de saúde dos idosos; 2) visita domiciliar, realizada por dois entrevistadores encarregados de realizar as mensurações antropométricas, os testes de equilíbrio, flexibilidade e força.

Os procedimentos de amostragem para o Estudo SABE foram descritos previamente16. Para o ano de 2000, tiveram por base a contagem populacional da Fundação IBGE, de 1996. A amostra foi probabilística e composta por dois segmentos: o primeiro, formado por 1.568 indivíduos e o segundo, formado por 575 indivíduos, correspondendo ao acréscimo efetuado para compensar a maior taxa de mortalidade precoce do sexo masculino e a menor densidade populacional do grupo etário ≥ 75 anos.

Em 2000, a população do SABE foi constituída por 2.143 indivíduos (coorte A), com 60 anos ou mais, de ambos os sexos, residentes no município de São Paulo, e que concordaram em participar. Em 2006, verificou-se 649 óbitos, sendo localizados 1304 idosos, residindo no município de São Paulo. Destes, 177 recusaram participar do estudo e 11 estavam institucionalizados. Paralelamente, foi iniciada a coorte B, com 400 idosos do grupo etário de 60 a 65 anos. Neste trabalho, a amostra foi composta pelos idosos sobreviventes da coorte A e os idosos da coorte B, e que foram mensurados, totalizando 1.203 sujeitos (799 mulheres e 503 homens). Foram excluídos da amostra os idosos acamados e/ou que tivessem alguma amputação de membro superior e/ou inferior. Não foram realizadas exclusões/inclusões de acordo com diferentes níveis de atividade física, e todos os sujeitos foram classificados em diferentes categorias de fragilidade (não frágil, pré-frágil e frágil). Para as análises estatísticas, os idosos foram agrupados segundo o sexo e grupo etário e foram classificados em grupos com menos de 80 anos e com 80 anos ou mais de idade.

Variáveis de estudo

Medidas antropométricas e de preensão manual, realizadas por nutricionistas previamente treinadas, além de variáveis sociodemográficas, foram utilizadas na identificação das variáveis MMT, MMA, IMMT e IMMA.

A MM foi mensurada a partir de equações preditivas de MMT e MMA, descritas no quadro 1.

Em seguida, foram estimados os valores de IMMT e IMMA, calculados pela razão entre MMT ou MMA (em kg) e estatura (em m), ao quadrado, conforme descrito a seguir:

IMMT (kg.m-2) = MMT / E2

IMMA (kg.m-2) = MMA / E2

onde E = estatura, em metros.

A MC foi medida em balança portátil, com capacidade de 150 kg e sensibilidade de ½ kg, com o indivíduo descalço e com o mínimo de roupa, e a estatura (E) foi medida em talímetro de 2 m e sensibilidade de 1 mm. Medidas de CQ foram realizadas com fita métrica inelástica, com sensibilidade de 1 mm, e de preensão manual, a partir de dinamometria (em kg), na mão dominante. As técnicas para mensuração das medidas antropométricas foram padronizadas, segundo Frisancho17 e as medidas foram realizadas em triplicata, utilizando a média de valores para as análises, exceto pela medida de preensão manual, para qual foi utilizado o maior valor obtido.

Análise estatística

Estatística descritiva (médias, desvio padrão e valores dos percentis 10, 25, 50, 75 e 90) foi utilizada na caracterização da amostra, segundo sexo e grupo etário (<80 e ≥80 anos), para as variáveis MMT, MMA, IMMT e IMMA. Foi utilizada estatística svy, para amostras complexas (ponderadas por conglomerados), e o teste de Wald foi utilizado para comparar os valores das variáveis entre os sexos e grupos etários. Coeficiente de correlação de Pearson foi utilizado para verificar a correlação entre as variáveis estudadas. Para as análises, foi utilizado o programa estatístico Stata/SE 10.0 for Windows.

 

RESULTADOS

A MMT e MMA foram mensuradas em 1203 idosos (799 mulheres e 503 homens) com idade entre 60 e 99 anos (73,9 ± 9,0 anos). O peso corporal e a estatura média foram, respectivamente, 62,9 ± 13,3 kg e 152,1 ± 6,8 cm, para as mulheres, e 69,0 ± 12,9 kg e 165,1 ± 7,2 cm, para os homens.

Na comparação entre grupos etários, tanto para mulheres (tabela 1), quanto para homens (tabela 2), foi verificado maior diferença relativa entre os grupos etários para os valores médios das variáveis MMT e IMMT, em relação à MMA e IMMA, sendo que o grupo etário mais jovem possui valores de MM superiores aos mais idosos. Para todas as variáveis, as diferenças relativas entre o grupo etário mais jovem para o mais idoso foram maiores para as mulheres (19%, 17%, 10% e 7%, para MMT, IMMT, MMA e IMMA, respectivamente) em relação às diferenças percebidas para os homens (10%, 9%, 8% e 5%, respectivamente). Da mesma forma, as diferenças relativas entre o P90 e o P10 foram maiores para as mulheres (entre 33% a 76%), em relação aos homens (entre 27% a 43%), para todas as variáveis.

Na comparação das médias entre sexo, as mulheres idosas apresentam menor quantidade de MM, sendo que, no grupo etário mais jovem, as diferenças são de -34%, -22%, -31% e -20%, para MMT, IMMT, MMA e IMMA, respectivamente. Esta diferença aumenta, quando comparados os grupos etários mais idosos (-40%, -29%, -33%, -21%, respectivamente).

Para todas as comparações descritas, verificou-se diferença estatisticamente significante, a partir do teste de comparações de Wald, para amostras complexas.

As variáveis utilizadas neste estudo como indicadores antropométricos de massa muscular, mesmo estimadas a partir de diferentes equações preditivas, apresentaram alta correlação (p<0,05) entre elas. Segundo sexo e grupo erário, com valores de r variando de 0,84 a 0,96.

 

DISCUSSÃO

Grande parte da massa magra corporal em humanos é constituída de massa músculo-esquelética, ou simplesmente, massa muscular (MM). Parte considerável da MM corporal está localizada nos membros, superiores e inferiores1, e é denominada massa muscular apendicular (MMA). Diferentes estudos vêm sendo publicados, discutindo a redução da MM, sob diferentes aspectos18, entretanto, no Brasil, pouco se tem escrito sobre o componente muscular e suas alterações em função do envelhecimento. Neste sentido, por meio de amostra representativa do Estudo SABE, realizado no município de São Paulo, este estudo teve por objetivo caracterizar idosos de ambos os sexos, em relação ao componente muscular, identificados a partir de diferentes indicadores antropométricos.

Os valores de MMT e MMA, neste estudo, foram calculados a partir de equações específicas12,13, preditas em amostras distintas das utilizadas neste estudo. Entretanto, as características das amostras se assemelham, sobretudo, pelos grupos etários utilizados nesses estudos.

Os valores médios de MMT dos idosos deste estudo são inferiores aos valores apresentados por Janssen et al.15, mensurados em idosos de 60 a 69 anos (18,4 kg e 30,2 kg, para mulheres e homens, respectivamente), e de 70 anos ou mais (18,0 kg e 27,8 kg, respectivamente). O mesmo estudo apresenta valores IMMT de 7,0 kg.m-2 e 7,3 kg.m-2, para mulheres, e de 9,6 kg.m-2 e 9,3 kg.m-2, para homens, com idade inferior e igual ou superior a 70 anos, respectivamente. Ou seja, quando a MMT é ajustada pela altura, ao quadrado, os valores entre a amostra norte-americana e brasileira são semelhantes. Entretanto, apesar de Janssen et al.15 considerar o estudo como referencial, com amostra composta 468 homens e mulheres dos EUA e Canadá, o grupo etário referente aos idosos é composto por apenas 30 idosas e 25 idosos.

Em estudos com maiores amostras, Iannuzzi-Sucich19, verificou, em 337 idosos norte-americanos com mais de 65 anos de idade, valores médios de MMA de 15,2 kg e 23,9 kg, para mulheres e homens, respectivamente. Como no estudo anterior, os valores são superiores aos valores encontrados no município de São Paulo, porém, quando ajustados pela altura ao quadrado (IMMA), os valores apresentam menores diferenças em relação ao presente estudo, sendo 6,0 kg.m-2 para mulheres e 7,8 kg.m-2 para homens. Woo et al.20, mensurando 3.153 chineses, de ambos os sexos, com mais de 65 anos de idade, identificaram valores semelhantes, seja para MMA (13,9 kg e 19,3 kg, para mulheres e homens, respectivamente), ou para IMMA (7,3 kg.m-2 e 6,1 kg.m-2, respectivamente).

Na comparação entre sexos, todos esses estudos são corroborados pelos valores identificados nos idosos do município de São Paulo, onde os homens apresentam, em média, entre 30% e 40% mais MM, seja total ou apendicular, em relação às mulheres, sendo que a diferença é acentuada nas idades mais avançadas. Quando esses valores são ajustados pela altura ao quadrado, a diferença é menor, entre 20% e 29% a mais para os homens.

Na comparação entre os grupos etários, foi possível verificar redução dos valores médios de todos os indicadores antropométricos, do grupo etário mais jovem para o mais longevo. Nas mulheres, as variáveis MMT e IMMT apresentaram maior redução de um grupo etário para o outro (19% e 17%, respectivamente), enquanto as variáveis MMA e IMMA apresentaram menor redução. Nos homens idosos, as variáveis apresentaram menor variação, entre 5% (IMMA) e 10% (MMT).

De fato, foi verificado em diferentes estudos, que a redução da MM se dá, via de regra, a partir da quinta década de vida, quando se percebe decréscimo da área muscular15, massa celular21 e qualidade celular22 juntamente com menor força muscular isométrica23,24 e isocinética25,26. Esta redução pode ser explicada, fisiopatologicamente, pela redução de miofibrilas, em especial, pelas fibras do tipo II27, diminuição da síntese de proteína muscular e alterações nas funções mitocondriais28.

Vale ressaltar que a redução da MM promove, de uma forma global, redução da força muscular, que, em conjunto com a diminuição da taxa metabólica de repouso e o consumo máximo de oxigênio, é responsável pelo menor gasto energético total. Esses fatores, associados à subnutrição crônica, a diferentes morbidades e ao próprio efeito do envelhecimento, faz com que a redução da MM total seja maior, dando início a um ciclo, denominado de ciclo de fragilidade29, que levará o idoso a maior incapacidade funcional e, consequentemente, maior dependência para a realização das atividades da vida diária, menor qualidade de vida e maior risco de mortalidade.

O presente estudo utilizou o método antropométrico para identificação de variáveis de MM, enquanto os demais aqui utilizados como referência, utilizaram métodos laboratoriais de mensuração da MM, apendicular ou total, como a ressonância magnética15 ou a absorciometria radiológica de dupla energia19,20. Esses métodos apresentam maior validade, comparado à antropometria, entretanto, outros estudos utilizaram o método antropométrico para a identificação da MM, em idosos13,30, sendo considerado um método também válido para tal fim, e com a vantagem de poder ser realizado em ambiente não laboratorial, e em amostras maiores, devido sua maior simplicidade e menor custo operacional. Vale ressaltar, também, que este estudo é de característica transversal, o que não permite inferência causal sobre as diferenças, sobretudo, entre os grupos etários.

Na análise da correlação de Pearson, é possível perceber uma alta correlação entre os indicadores antropométricos, sobretudo, entre MMT, MMA, IMMT e IMMA (R>0,84), mesmo os valores da MMT e MMA sendo calculado a partir de equações diferentes, o que é um indicativo de validade.

Em síntese, os valores de MM, independente do indicador utilizado, são menores (entre 5% e 19%) para os grupos etários mais longevos (neste estudo, identificado pelo grupo com idade superior a 80 anos). Os homens idosos têm, em média, entre 30% e 40% mais MMT que as mulheres, enquanto a amostra estudada, como um todo, apresentou menores valores dos índices utilizados em relação a amostras norte-americana19, porém, semelhante à amostra composta por chineses idosos20, de ambos os sexos.

A proposição de dados referenciais para análise da massa muscular em idosos é de grande importância para a atuação profissional, sobretudo, na identificação da sarcopenia, na qual se fará necessária a intervenção, seja por meio de tratamento medicamentoso, dieta específica ou atividade física, a fim de reverter o processo de fragilidade, permitir maior independência e autonomia, e garantir, desta forma, melhor qualidade de vida aos idosos.

Finalmente, considerando que os valores referentes aos percentis 10 e 25 indicariam maiores riscos de incapacidade física e fragilidade, sugerimos que outros estudos venham ser realizados para verificar a prevalência de baixa MM, e a associação destes percentis com variáveis sóciodemográficas, de capacidade funcional, de testes motores, de morbidade e de mortalidade em idosos brasileiros, sobretudo, com métodos laboratoriais para mensuração da massa muscular total e/ou apendicular.

 

AGRADECIMENTOS

À Organização Pan Americana de Saúde (OPAS/OMS), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Área Técnica do Idoso do Ministério da Saúde (MS) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES -Processo PDEE nº 3014-10-0).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência
Luís Alberto Gobbo
Pós-graduação Nutrição em Saúde Pública, Departamento de Nutrição
Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo
Avenida Dr. Arnaldo, 715
CEP 01.246-904. São Paulo, SP
E-mail: luisgobbo@usp.br

Recebido em 20/06/11
Revisado em 09/09/11
Aprovado em 04/10/11

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