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Ciência Florestal

Print version ISSN 0103-9954On-line version ISSN 1980-5098

Ciênc. Florest. vol.25 no.2 Santa Maria Apr./June 2015

http://dx.doi.org/10.5902/1980509818455 

Artigos

Relação solo/vegetação em ambiente de cerrado sobre influência do grupo Urucuia1

Soil-vegetation relation in cerrado enviroment under influence of the group Urucuia

Renata Botelho Machado da Silva2 

Márcio Rocha Francelino3 

Pedro Adnet Moura4 

Tom Adnet Moura4 

Marcos Gervasio Pereira5 

Camila Paula de Oliveira6 

2Engenheira Florestal, Mestre, Rua Major Rubens Vaz, 226, Gávea, CEP 22470-070, Rio de Janeiro (RJ), Brasil. renata.machado@trijuncao.com.br

3Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor Associado do Departamento de Solos, Universidade Federal de Viçosa, Av. PH Rolfs, s/n, CEP 36570-000, Viçosa (MG), Brasil. marcio.francelino@ufv.br

4Florestal, Empresa Adnet Florestal, Rua Jorge José Pedro, 1, Lumiar, CEP 28616-095, Nova Friburgo (RJ), Brasil.

5Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor Associado, Departamento de Solos, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, BR 465 km 07, CEP 23890-000, Seropédica (RJ), Brasil.

6Engenheira Florestal, mestranda do Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais e Florestais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, BR 465 km 07, CEP 23890-000, Seropédica (RJ), Brasil.

RESUMO

A vegetação de Cerrado brasileiro compreende um mosaico natural de fisionomias, de campos abertos a savanas e florestas. Acredita-se que a presença de diferentes fitofisionomias em uma região pode ser explicada em parte pela relação direta com os atributos do solo presentes na mesma. O presente trabalho objetivou estudar a relação entre solo e vegetação em uma área do Bioma Cerrado sobre influência do Grupo Urucuia. Para tanto, foi realizado um levantamento de solos e vegetação na escala 1:50.000 em uma área de aproximadamente 32 mil hectares localizada na região da tríplice divisa entre Minas Gerais, Goiás e Bahia, tendo como substrato o arenito do Grupo Urucuia. Os resultados analíticos das classes de solos foram relacionados com os dados das fitofisionomias presentes através de análise estatística comum e pela determinação dos componentes principais. Os solos da região refletiram bem o material de origem, apresentando elevados teores de areia, com predomínio de Latossolo Vermelho Amarelo distrófico típico e Latossolo Amarelo Distrófico psamítico, presentes em mais de 35% de toda a área de estudo. A fitofisionomia mais comum foi o Cerrado sentido restrito típico. A análise dos componentes principais indicou que a areia fina, a argila e o alumínio responderam por 93,7% da variabilidade da relação entre solos e as fitofisionomia.

Palavras-Chave: geoprocessamento; análise canônica; levantamento de solos

ABSTRACT

The Brazilian Cerrado vegetation comprises a mosaic of natural types, from open fields to savannas and forests. It is believed that the presence of different vegetation types in a region can be explained in part by the direct relationship with the attributes present in the same soil. The present study investigated the relationship between soil and vegetation in an area of Cerrado biome with influence of Urucuia Group. To do so, we conducted a survey of soils and vegetation in 1:50,000 scale in an area of ​​approximately 32,000 hectares located in the tri-border region of Minas Gerais, Goiás and Bahia states, with the sandstone substrate of Urucuia Group. The analytical results of soil classes were related to the present data of the physiognomies through common statistical analysis and through the determination of the main components. The soils of the region reflected well the source material, with high percentages of sand, with a predominance of Oxisol Hapludox and Oxisol dystrophic, present in over 35% of the entire study area. The most common vegetation type was Cerrado sense, restrict and typical. The principal component analysis indicated that the fine sand, clay and aluminum accounted for 93.7% of the variability of the relationship between soils and vegetation type

Key words: GIS; canonical analysis; survey of soils

INTRODUÇÃO

Dentre os fatores que interferem na formação e compreensão da paisagem, o solo desempenha papel fundamental, fornecendo suporte mecânico e disponibilizando os nutrientes essenciais para a instalação e desenvolvimento dos vegetais. O solo também possui relações, diretas ou indiretas, com as diferentes fitofisionomias de uma região que, no entanto, segundo Rossi et al. (2005), são pouco estudadas. Conhecer a vegetação natural e sua relação com os solos em que ocorrem, além de auxiliar no entendimento da biodiversidade, pode contribuir para orientar os projetos de restauração da vegetação (KOTCHETKOFF-HENRIQUES et al., 2005) e determinar áreas passíveis de atividades agrossilvipastoris, de forma a causar o menor impacto possível no ecossistema local.

Nas últimas décadas, o Cerrado se tornou uma região estratégica para o agronegócio, o que levou a instalação de um processo sistemático de desmatamento, em que parte da sua vegetação original foi substituída por monoculturas exóticas. Apesar de ser uma importante fronteira agrícola para o país, colaborando com o favorecimento da balança comercial e produzindo commodities agrícolas fundamentais para o desenvolvimento da economia, essa expansão tem sido feita de forma indiscriminada, sem levar em conta importantes áreas de alto valor ambiental. Sendo assim, antes de qualquer intervenção de cunho econômico na região deve-se considerar a variabilidade da paisagem e suas respectivas capacidades de suporte, tendo o solo como principal delimitador desses ambientes, de maneira a evitar uma visão simplista e imediatista e não mais incorporar ao processo produtivo, de maneira equivocada, extensas áreas com pouca vocação agropecuária, causando elevado prejuízo ambiental.

A vegetação de Cerrado brasileiro compreende um gradiente natural de fisionomias, de campos abertos a savanas e florestas, dependendo das condições do solo e da disponibilidade de água no local. Entre os fatores que proporcionam os diferentes tipos de vegetações do bioma estão as condições edáficas (pH, saturação por alumínio, fertilidade, entre outros), clima sazonal, condições hídricas, incluindo profundidades do lençol freático e dos solos, fenologia e forma de dispersão das espécies, herbivoria, além de ações antrópicas, incluindo as frequentes queimadas (CASTRO & KAUFFMAN, 1998; MEDEIROS, 2004; MARIMON JUNIOR e HARIDASAN, 2005). Sendo assim, o Cerrado pode ser entendido como um mosaico vegetacional, já que não possui uma fisionomia única em toda a sua extensão, apresentando desde formas campestres, como os campos limpos, até formas florestais, como os cerradões. Entre estes dois extremos fisionômicos ocorrem diversas formas intermediárias de vegetação (AGNES et al., 2007).

Nesse contexto, o presente trabalho teve o objetivo de avaliar a relação existente entre o solo e duas fitofisionomias do Bioma Cerrado sobre a influência dos arenitos do Grupo Urucuia na região Centro Oeste do Brasil.

MATERIAL E MÉTODOS

O estudo foi realizado em um complexo de diversas fazendas inseridas totalmente no bioma Cerrado, nas divisas entre os estados da Bahia, Goiás e Minas Gerais, entre as coordenadas aproximadas de 14º42' S e 45º53' O (Figura 1), totalizando 32.397,64 ha, sendo que aproximadamente 89% da área encontram-se preservados com vegetação nativa. O clima da região, de acordo com a classificação de KOPPEN, é Aw Tropical Sazonal de Inverno Seco com precipitação média mensal com grande estacionalidade e presenças de veranicos na primavera-verão. A precipitação média anual varia de 700 mm a 1400 mm (BAHIA, 1998).

Figura 1. Localização da área de estudo. 

A área objeto de estudo está inserida basicamente na unidade geomorfológica denominada Chapadão Central do Domínio do Médio São Francisco, que corresponde aos relevos planos mais elevados, compreendendo a área de ocorrência do imenso chapadão que constitui o Grupo Urucuia, que se compõe de arenitos quartzosos de cores variadas, predominando castanho-avermelhados, róseos e amarelo-esbranquiçados (LIMA, 2007). Nos fundos dos vales são encontrados depósitos fluviais arenosos recentes.

Foi utilizado o modelo digital de elevação (MDE) do SRTM (Shuttle Radar Topography Mission) obtido gratuitamente na internet (http://www2.jpl.nasa.gov/srtm/) reamostrado para resolução espacial de 30 metros utilizando o algoritmo topogrid do programa Arcgis 10, o qual foi utilizado na elaboração dos mapas temáticos de declividade, face de exposição e hipsometria que auxiliaram no delineamento das unidades de paisagem.

O mapa da vegetação foi elaborado em ambiente de Sistema de Informação Geográfica (SIG) a partir da interpretação de imagens orbitais do sensor HRC (Câmera Pancromática de Alta Resolução) do sistema CBERS-2B (Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres), com 2,7 m de resolução espacial de 16/05/2008 e do SPOT-5 com 2,5 m de resolução espacial de 30/06/2009.

Após a interpretação da imagem orbital, foram definidas unidades homogêneas que serviram de orientação para o trabalho de campo. Cada unidade previamente delimitada foi percorrida livremente por meio de caminhamento para validação do mapeamento e com auxílio de GPS de navegação, foram registradas as coordenadas das áreas onde estavam presentes as diferentes fitofisionomias e as espécies mais relevantes, conforme sugerido por Ribeiro e Walter (2008) e confirmado por observações de campo. Esses pontos foram anotados, as espécies fotografadas e quando possível coletado o material para sua identificação botânica, que foi feita através de profissionais na área utilizando literatura especializada e de comparação com as coleções dos herbários do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). A nomenclatura botânica baseou-se no sistema APG II (SOUZA e LORENZI, 2005) e na base de dados do Missouri Botanical Garden. O material vegetal coletado está depositado no herbário da UFRRJ.

Foi utilizada a caracterização da vegetação proposta por Ribeiro e Walter (2008) dividindo-a em formações florestais (Mata de galeria, Mata seca e Cerradão); savânicas (Cerrado sentido restrito, Parque de Cerrado, Palmeiral e Vereda) e campestres (Campo sujo, Campo limpo e Campo rupestre). Escolheu-se essa caracterização por possuir um perfil mais completo, além de melhor relação com a fitofisionomia encontrada na região. Os padrões espectrais encontrados para cada fitofisionomia presente na área de estudo foram então associados com os esquemas e caracterização proposta por Ribeiro e Walter (2008).

Para mapeamento dos solos foi realizado levantamento de reconhecimento de alta intensidade na escala de 1:50.000, visando à avaliação qualitativa e semiquantitativa dos solos. Foram realizados caminhamentos em toda a área, sendo registrados com aparelho GPS de navegação, de forma a facilitar a orientação dos transectos percorridos e posterior caracterização de solos e delineamento das unidades de mapeamento. Foram amostrados 25 perfis completos e cinco amostras extras, distribuídos ao longo de toda a área de estudo, cobrindo todas as diferentes feições de vegetação presentes. Os solos foram observados em sua maioria, em trincheiras (até 2 metros), sendo complementada a observação com tradagens. Ao todo foram coletadas 130 amostras de solos. As descrições foram realizadas conforme Manual de Descrição e Coleta de Solo no Campo (SANTOS et al., 2005) e os solos foram classificados conforme EMBRAPA (2006). As análises físicas (granulometria) e químicas (pH, H+, Ca2+, Mg2+, K+, Na+, P e Corg) foram realizadas segundo EMBRAPA (1997), no Laboratório de Solos da UFRRJ.

As unidades de mapeamento foram identificadas por observações e amostragem ao longo de percursos, que cruzaram diferentes padrões de drenagem, relevo, vegetação e geomorfologia. Grande parte dos limites entre unidades de mapeamento foi estabelecida por interpretação das imagens orbital, do MDE e do mapa de declividade, com posterior verificação e ajustes no campo.

Para determinar a relação da vegetação com os resultados das análises químicas e físicas dos solos foram utilizados métodos de ordenação presentes no programa Statisitca 11, criando-se valores diferentes aos variados tipos de fitofisionomias encontrados nas Fazendas, transformando-as em variáveis quantitativas, as quais foram transformadas em números e todas normalizadas com média 0 e variância 1. A análise multivariada foi realizada utilizando técnica canônica, envolvendo todas as variáveis em estudo, a partir da qual foi reduzido o conjunto de dados em combinações lineares. Foi gerado escores das duas primeiras variáveis canônicas que explicam mais de 80% da variação total, conforme recomendado por Cruz e Regazzi (1994).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Dentre as formações vegetais presente, o Cerrado sentido restrito é a fitofisionomia mais abundante na área de estudo, estendendo-se por aproximadamente 25.932,94 ha (80% do total da área) (Figura 2). Consideradas as subdivisões propostas por Ribeiro e Walter (2008), a fitofisionomia mais abundante é o Cerrado sentido restrito típico (CRT), com 21.833 ha (67,3 %), seguido pelo Cerrado sentido restrito denso (CRD) com 2.805 ha (8,65%) e Cerrado sentido restrito ralo (CRR), com 1.294,7 ha (3,99%) (Tabela 1). Além das formações savânicas, somam-se os Campos Limpos (CL) e as Veredas (VE), que representam as formações campestres e ocupam um papel secundário na formação fitofisionômica da área de estudo, ocupando 5,4% da área total. O Cerradão (CD), que representa o tipo de fitofisionomia florestal com vegetação mais adensada, é encontrado em apenas 1,5% da área. Esses resultados corroboram com Marimon Junior & Haridasan (2005), nos quais citam que a forma mais extensa, o Cerrado sentido restrito, ocupa aproximadamente 65% da área geográfica deste bioma, enquanto que o Cerradão, apenas cerca de 1%. No restante da área (34%), diversos outros tipos fitofisionômicos e usos dividem a paisagem. A classe denominada "Outros" corresponde às áreas ocupadas por edificações e estradas.

Figura 2. Coberturas vegetais observadas na área de estudo. 

Tabela 1. Distribuição das classes de cobertura do solo. 

Área
Cobertura Hectares %
Campo limpo 1292,7 3,9
Campo sujo 24,6 0,1
Cerradão distrófico 506,0 1,5
Cerrado sentido restrito denso 2915,1 8,8
Cerrado sentido restrito ralo 1530,5 4,6
Cerrado sentido restrito típico 22640,7 68,5
Mata de galeria 80,7 0,2
Silvicultura 122,8 0,4
Área agrícola 1076,6 3,3
Vereda 273,1 0,8
Lago 27,2 0,1
Pastagem 2369,5 7,2
Outros 214,2 0,6

Na área foram delimitadas 17 unidades de mapeamento, entre feições homogêneas e associações (Figura 3), essa última geralmente composta por duas classes (Tabela 2). A unidade mais representativa foi a associação entre Latossolo Vermelho-Amarelo Distrófico típico e Latossolo Amarelo Distrófico psamítico, que representa mais de 35% de toda a área da Fazenda. Os Latossolos Vermelho-Amarelos são mais argilosos e são encontrados nas partes mais elevadas em encostas com declives suaves. No terço inferior, próximo do fundo de vale aplainado, ocorrem os Latossolos Amarelos, com textura mais grosseira. A separação entre essas duas classes não obedece a um padrão distinto, sendo a associação entre elas necessária. A maioria dos solos apresentou classe textural franco-arenosa, com teor de argila em torno de 200 g kg-1.

Figura 3. Unidades de solos mapeados na área de estudo. 

Tabela 2. Unidades de mapeamento encontradas na área de estudo. 

Classe de Solo Área
Ha %
Argissolo Vermelho-Amarelo Distrófico arênico 3084,1 9,5
Argissolo Vermelho-Amarelo Distrófico arênico + Latossolo Vermelho-Amarelo Distrófico típico 3435 10,6
Gleissolo Melânico Tb Distrófico típico + Neossolo Quartzarênico Hidromórfico 24 0,07
Gleissolo Melânico Tb Distrófico típico + Organossolo Háplico 841 2,6
Gleissolo Melânico Tb Distrófico típico + Organossolo Háplico + Neossolo Quartzarênico Hidromórfico Distrófico 741,3 2,29
Latossolo Amarelo Distrófico psamítico + Latossolo Vermelho-Amarelo distrófico típico 5241,4 16,2
Latossolo Amarelo Distrófico psamítico + Neossolo Quartzarênico Órtico latossólico 2214,4 6,84
Latossolo Vermelho-Amarelo Distrófico cambissólico 49 0,15
Latossolo Vermelho-Amarelo Distrófico típico 1022,9 3,16
Latossolo Vermelho-Amarelo Distrófico típico + Argissolo Vermelho-Amarelo Distrófico arênico 940,8 2,9
Latossolo Vermelho-Amarelo Distrófico típico + Cambissolo Háplico Tb Distrófico petroplíntico 441,9 1,36
Latossolo Vermelho-Amarelo distrófico típico + Latossolo Amarelo Distrófico psamítico 11485 35,5
Latossolo Vermelho Distrófico típico 434,6 1,34
Neossolo Quartzarênico Hidromórfico + Gleissolo Háplico + Organossolo Háplico 437,4 1,35
Neossolo Quartzarênico Hidromórfico típico 9,1 0,03
Neossolo Quartzarênico Órtico típico 1965,5 6,07
Organossolo Háplico + Gleissolo Melânico Tb Distrófico típico 29,7 0,09

Em que: Corg = carbono orgânico; S = Somo de bases; V = saturação por bases.

Nos topos planos foram encontrados os Argissolos Vermelho-Amarelos, apresentando textura mais argilosa associada à areia fina.

Relação Solo/Vegetação

Na área estudada, o Cerrado sentido restrito típico foi observado principalmente sobre Latossolo Vermelho-Amarelo nos terços médio e superior, e nas partes próximas aos campos limpos, no terço inferior, sobre Neossolos Quartzarênicos. O Cerrado sentido restrito denso ocorreu principalmente sobre Latossolo Vermelho-Amarelo e Argissolos Vermelho-Amarelo nas partes mais elevadas da paisagem.

Já o Cerradão foi encontrado basicamente sobre Argissolos Vermelho-Amarelos, que apresentam teor de argila um pouco mais elevado que os demais solos. Segundo Cremon et al. (2009), a presença dessa fitofisionomia, mesmo em solos de baixa fertilidade natural, pode ter ocorrido quando em época pretérita o solo ainda podia fornecer nutrientes em quantidades maiores.

Mesmo sob uma vegetação mais densa, os solos apresentaram baixos valores de carbono orgânico, o que pode indicar uma acelerada decomposição da serrapilheira aportada, associada à lixiviação dos ácidos orgânicos de maior solubilidade oriundos do processo de decomposição, conforme observado por Loss et al. (2011). Foi também observado que o Cerradão ocorre em manchas circundadas por Cerrado sentido restrito denso e Cerrado sentido restrito típico. A transição entre essas fitofisionomias é gradual e de difícil delimitação, entretanto, a alta resolução espacial das imagens utilizadas permitiu uma separação satisfatória para os objetivos deste estudo. Todas as áreas apresentaram dossel contínuo com uma altura de aproximadamente 7 a 11 m com algumas árvores podendo atingir 14 m. A densidade de árvores estimada variou de 50 a 80% e a análise expedita da composição florística e dos solos das manchas de Cerradão indicaram que estes se enquadram nas características de Cerradão distrófico.

As Veredas ocorreram em solos hidromórficos, com alto índice de saturação hídrica durante a maior parte do ano, principalmente Organossolos, ocorrendo associadas à Mata de galeria e campos limpos úmidos ao longo dos corpos d'água e cabeceiras de drenagem, exercendo papel fundamental na distribuição dos rios e seus afluentes e na manutenção da fauna do cerrado.

O terraço fluvial do rio Formoso possui uma sequência de solos que obedece a uma sutil variação no gradiente do relevo em direção a sua calha. Nas faixas mais extensas desse terraço é possível encontrar uma associação contendo três classes de solos, partindo dos Neossolos Quartzarênicos Hidromórficos na sua borda, cobertos com cerrado sentido restrito ralo e campo limpo; seguido por Gleissolo Melânico sob campo limpo úmido na faixa intermediária e finalizando com os Organossolos Háplicos, onde a vegetação é muito semelhante à encontrada nas Veredas. É comum a presença de Campo limpo úmido circundando Veredas e Mata de galeria ocupados principalmente pela gramínea denominada capim-agreste (Trachypogon macroglossus Trin.) (Figura 4). Nas áreas mais estreitas de terraço, a sequência é diretamente dos Gleissolos Melânicos para Organossolos Háplicos. Essas áreas estão sujeitas a inundações periódicas.

Figura 4. Terraço do rio Formoso e esquema da distribuição dos solos e fitofisionomias. 

Considerando os valores médios dos elementos encontrados nas análises físicas e químicas, das amostras de solos coletadas sob as diferentes fitofisionomias, observaram-se baixos teores de Al+3 s em todas as coberturas. Porém, entre esses, os ambientes hidromórficos (Campo limpo, Campo limpo úmido e Veredas) apresentaram os teores mais elevados (Figura 5A), o que está relacionado à condição redutora desses ambientes, que permite o maior acúmulo de matéria orgânica e, conforme observado por Vance et al. (1996), a fração orgânica do solo possui a capacidade de complexar cátions, entre eles o Al+3. Essa relação pode ser verificada na Figura 5B, na qual os maiores valores correspondem às fisionomias em solos com teores de Al3+ mais elevados.

Figura 5. Média dos diferentes elementos encontrados e analisados nos solos de cada fitofisionomia presente na área de estudo. CL= Campo limpo; CD = Cerradão Distrófico; CRD = Cerrado sentido restrito denso; CRT = Cerrado sentido restrito típico; VE= Vereda; CLU = Campo limpo úmido; CRR = Cerrado sentido restrito ralo. 

As áreas de Cerrado sentido restrito denso (CRD) apresentaram teor elevado de Corg, devido à maior cobertura florestal dessa fisionomia e consequentemente maior aporte de serrapilheira. Alcântara Neto et al. (2011), também encontraram resultado semelhante, no qual o CRD apresentou teores mais elevados de Corg quando comparado a outras formações de Cerrado sentido restrito. Com esse resultado pode-se supor que a ciclagem de nutrientes é mais efetiva no ambiente de Cerradão distrófico, quando comparado com o CRD, pois, apesar da sua maior capacidade de produção de biomassa, apresentou baixo teor de Corg no solo. Isso pode estar relacionado a uma menor atividade da microbiota nos Latossolos sob CRD devido à baixa disponibilidade de nutrientes encontrados nesses solos, o que permite um maior acúmulo da matéria orgânica nesse sistema, conforme verificado por Graham et al. (2002) e Silva et al. (2010).

Na Figura 5C pode-se verificar que capacidade de troca catiônica do solo (CTC - valor T) também está diretamente relacionada com o teor de Corg, em que os valores mais elevados foram encontrados nas áreas hidromórficas, indicando baixa contribuição da fração mineral (argila) na CTC. Resultados semelhantes foram encontrados por Magnago et al. (2010) estudando relação de fitofisionomias da restinga com solos arenosos desse ambiente. Ou seja, a capacidade de acúmulo de matéria orgânica, que está relacionada em parte com o nível de encharcamento/drenagem do solo, é um dos principais processos de diferenciação entre os ambientes estudados, que juntamente com a textura, influenciam diretamente o padrão de cobertura vegetal presente na área. Em relação ao fósforo, verificaram-se valores baixos em todas as fitofisionomias. (Figura 5D).

Na Figura 5E observa-se que os solos mais argilosos encontram-se sob Cerradão e Cerrado sentido restrito denso, o que pode indicar que os solos com texturas mais argilosas permite a formação de condições favoráveis para que as fisionomias florestais se desenvolvam, principalmente em função da possibilidade de estar ocorrendo maior retenção da umidade nesses ambientes. A melhor compreensão desses mecanismos de interações pode favorecer processos de recuperação futura de áreas de Cerrado. Já a presença de solos mais arenosos confere maior permeabilidade e, consequentemente, perda de umidade e nutrientes por lixiviação mais acentuada (BRITEZ 2005), enquanto que nos solos mais argilosos esse processo não é tão intenso, promovendo maior retenção de nutrientes nestas áreas. Condições similares foram reportadas por Guedes et al. (2006), Carvalho et al. (2005) e Magnago et al. (2010). A exceção ocorre nos solos arenosos dos terraços fluviais em função da superficialidade do lençol freático.

Analisando a Figura 5F verifica-se uma distinção dos teores de silte para os solos sob Campo limpo úmido e Cerrado sentido restrito ralo. Trata-se de áreas localizadas principalmente no terço inferior da paisagem, às margens dos fundos dos vales, que se constituem ambiente deposicional. Essa situação pode ocasionar uma provável contribuição de materiais de silte transportados de posições mais elevadas, uma vez que, são formados em terrenos de recepção ou trânsito de produtos transportados.

A análise dos componentes principais buscou através do diagnóstico conjunto de combinações lineares de 17 variáveis, determinar quais respondem pela maior parte da variabilidade dos dados. Nesse caso, três componentes apresentaram valores maiores que 1 (areia fina, argila, alumínio) que juntos responderam por 93,7% da variabilidade dos dados originais (Tabela 3), ou seja, basicamente a textura do solo e os teores de Al+3, sendo que esse último está diretamente relacionado com o teor de carbono orgânico do solo.

Tabela 3. Resultado da análise dos componentes principais em relação aos atributos dos solos. 

Componente Autovalor Variância (%) Percentagem acumulada
Areia fina 8.946 52.623 52.623
Argila 5.269 30.994 83.617
Alumínio 1.713 10.077 93.694
Argila natural 0.5826 3.427 97.121
Argila total 0.4894 2.879 100.000
Areia total 8.235E-16 0.000 100.000
Ca2+ 6.197E-16 0.000 100.000
Corg 4.02E-16 0.000 100.000
H+ 2.909E-16 0.000 100.000
K+ 2.33E-16 0.000 100.000
Mg++ 8.281E-17 0.000 100.000
P 2.456E-17 0.000 100.000
pH, S, Silte, CTC, V 0.0 0.000 100.000

Considerando apenas os eixos dos componentes de maior influência, a Figura 6 confirma o fato de o teor de argila estar diretamente relacionado com a distribuição do Cerradão e do Cerrado sentido restrito típico, esse último representando a fitofisionomia mais frequente na área estudada. Já os teores de areia fina e areia total influenciam na presença do Cerrado sentido restrito denso e do Campo limpo, enquanto os teores de Al+3 tendem a estar mais relacionados à presença das Veredas, juntamente com o carbono orgânico e o H+, em função das características desse ambiente.

Figura 6. Análise canônica da relação dos atributos dos solos e as fitofisionomias. CL = Campo limpo; CD = Cerradão Distrófico; CRD = Cerrado sentido restrito denso; CRT = Cerrado sentido restrito típico; CRR = Cerrado sentido restrito ralo; Arg_n = argila natural; Arg_t = argila total; V = saturação por bases; Corg = carbono orgânico; Af = areia fina; Ag = areia grossa; At = areia total. 

CONCLUSÕES

O Cerrado sentido restrito típico é a fitofisionomia mais abundante na área de estudo, ocupando 67% do total. A Ordem de solo mais comum foi a do Latossolo, sendo a associação entre Latossolo Vermelho-Amarelo e Latossolo Amarelo a unidade de mapeamento mais representativa, presente em mais de 35% de toda a área.

O teor de matéria orgânica, que está relacionada com o nível de encharcamento/drenagem do solo, é um dos principais fatores de diferenciação entre os ambientes estudados, que, juntamente com a textura, influenciaram diretamente nas características dos solos e determinaram a distribuição das diferentes fitofisionomias na área de estudo.

A análise dos componentes principais indicou que a areia fina, a argila e o alumínio responderam por 93,7% da variabilidade das fitofisionomia em relação aos solos.

AGRADECIMENTOS

A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a CAPES e Fazendas Trijunção por todo o apoio ao desenvolvimento deste trabalho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Parte da dissertação de mestrado do primeiro autor apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais e Florestais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Brasil.

Recebido: 16 de Novembro de 2012; Aceito: 03 de Setembro de 2013

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