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Ciência Florestal

versão impressa ISSN 0103-9954versão On-line ISSN 1980-5098

Ciênc. Florest. vol.25 no.2 Santa Maria abr./jun. 2015

https://doi.org/10.5902/1980509818467 

Nota Técnica

Relação solo/paisagem e sua variação temporal em uma estação experimental de silvicultura

Soil-landscape relationship and its temporal variation in a forestry experimental station

Júlio Cesar Wincher Soares1 

Dalvan José Reinert2 

José Miguel Reichert3 

Douglas Rodrigo Kaiser4 

Jean Paolo Gomes Minella5 

Adriano Dicesar Martins de Araujo Gonçalves6 

Telmo Almansa Silva7 

Tatiane Almeida Netto8 

Vagner Carzola Bressan9 

1Engenheiro Florestal, MSc., Doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Engenharia Florestal, Centro de Ciências Rurais, Universidade Federal de Santa Maria, Av. Roraima, 1000, CEP 97105-900, Santa Maria (RS), Brasil. juliowincher@gmail.com

2Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor Titular do Departamento de Solos, Centro de Ciências Rurais, Universidade Federal de Santa Maria, Av. Roraima, 1000, CEP 97105-900, Santa Maria (RS), Brasil. dalvan@ccr.ufsm.br

3Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor Titular do Departamento de Solos, Centro de Ciências Rurais, Universidade Federal de Santa Maria, Av. Roraima, 1000, CEP 97105-900, Santa Maria (RS), Brasil. reichert@ufsm.br

4Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor do Departamento de Solos, Universidade Federal da Fronteira Sul, Rua Major Antônio Cardoso, 590, CEP 97900-000, Cerro Largo (RS), Brasil. douglasrodrigokaiser@gmail.com

5Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor do Departamento de Solos, Centro de Ciências Rurais, Universidade Federal de Santa Maria, Av. Roraima, 1000, CEP 97105-900, Santa Maria (RS), Brasil. jminella@smail.ufsm.br

6Engenheiro Agrícola, Pós-doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Engenharia Florestal, Centro de Ciências Rurais, Universidade Federal de Santa Maria, Av. Roraima, 1000, CEP 97105-900, Santa Maria (RS), Brasil. almansaflorestal@hotmail.com

7Engenheiro Florestal, MSc., Empresa Santa Maria Consultoria Florestal Ltda., Rod. BR 158, 260, Bloco A3, Apto. 208, Bairro Pinheiro Machado, CEP 97030-620, Santa Maria (RS), Brasil.

8Engenheira Florestal, Doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Geografia e Geociências, Centro de Ciências Naturais e Exatas, Universidade Federal de Santa Maria, Av. Roraima, 1000, CEP 97105-900, Santa Maria (RS), Brasil. tatianetto@gmail.com

9Engenheiro Ambiental, Centro Universitário Franciscano, Rua Silva Jardim, 1323, Conjunto II, CEP 97010-491, Santa Maria (RS), Brasil. vagnercbressan@gmail.com


RESUMO

A caracterização de componentes da paisagem e de suas relações na Estação Experimental de Silvicultura de Santa Maria - RS e o monitoramento da variação temporal solo/paisagem entre os anos de 1987 e 2009 (22 anos) foram realizados, por meio de levantamentos de campo e mapeamento digital da cobertura vegetal, relevo e solos. Cruzaram-se informações do histórico de uso e ocupação do solo, de transecções realizadas em 2009, do modelo numérico do terreno, de mapas de cobertura vegetal para 1987 e 2009 e de solos. Derivou-se assim um caráter transitório dos componentes da paisagem, entre o Rebordo do Planalto Sul-Riograndense e a Depressão Central do Rio Grande do Sul, com uma descaracterização das fitofisionomias naturais e existência de conflitos de uso do solo, bem como a influência do relevo e da gênese dos solos sobre o desenvolvimento fitofisionômico. Houve expansão, em 22 anos, dos cultivos de Eucalyptus e Pinus, e da floresta nativa sobre o campo antrópico, principalmente em áreas com Argissolos Bruno-Acinzentados e Argissolos Vermelhos.

Palavras-Chave: componentes da paisagem; geoprocessamento; variação temporal

ABSTRACT

The characterization of landscape components and their relationships for the Forestry Experimental Station of Santa Maria,Rio Grande do Sul state, Brazil, and the monitoring of soil-landscape temporal variation between the years 1987 and 2009 (22 years) were performed by means of field surveys and digital mapping vegetation, soil and topography. Crossed the historical information of use and occupation of transects conducted in 2009, the digital terrain model, maps of land cover for 1987 and 2009 and soil, thus deriving a transitory component landscape, between the plateau border Southern and Central Depression of Rio Grande do Sul state, with a distortion of the natural vegetation types and conflicts of land use, as well as the influence of topography and soil genesis on the vegetation development. There was expansion in 22 years of Eucalyptus and Pinus crops and the natural forest on the anthropic field, especially in areas with Argissolos Bruno-Acinzentados and Argissolos Vermelhos.

Key words: landscape components; geoprocessing; temporal variation

INTRODUÇÃO

Os cultivos florestais são considerados os principais agentes de transformação da paisagem, e são alvos de inúmeras controvérsias quanto aos seus efeitos no ambiente. A busca por técnicas de estudo da paisagem é, portanto, imprescindível para o monitoramento e planejamento da ocupação das terras.

A paisagem abrange os componentes naturais, os fatores de intervenção humana e as qualidades estéticas. Como componentes naturais importantes, têm-se a geomorfologia e a vegetação e, como fatores de intervenção, têm-se o manejo da vegetação. Os fatores estéticos estão relacionados à reação mental do que os olhos veem (LUCAS, 1991). Deve-se incluir, dentre os componentes (estrutura) da paisagem o solo, os componentes geológicos e o clima (DEMATTÊ, 1997); destes, os dois primeiros são poucas vezes abordados nos trabalhos de ecologia da paisagem, e atualmente estão chamando mais atenção, devido aos possíveis efeitos dos monocultivos florestais sobre a qualidade do solo e a dinâmica da água na paisagem.

Deste modo, a ecologia da paisagem é a linha da ecologia cujos resultados provêm da inter-relação entre o homem e a paisagem (PORTO; MENEGAT, 2004), os quais são obtidos principalmente com o emprego de técnicas de geoprocessamento. Com o uso de ferramentas de sensoriamento remoto e do sistema de informações geográficas (SIG), o geoprocessamento permite a visualização de áreas ou fenômenos específicos e a percepção de conexões, padrões e estruturas referentes aos objetos mapeados (KRAAK; ORMELING, 1996; YOUNG et al., 1993), o que facilita a análise de componentes geomorfológicos, da vegetação e do solo e de suas relações através da sobreposição de Planos de Informação (PIs).

Os atributos do terreno são os indicadores mais utilizados no mapeamento digital de solos (MCBRATNEY et al., 2003), sendo o relevo um dos mais importantes fatores para sua formação (JENNY, 1941). O grau de desenvolvimento dos solos, por sua vez, tem implicação na vegetação, haja vista as alterações ao longo da paisagem da disponibilidade de água, quantidade de nutrientes e textura do solo ( CLARK, 2002).

As áreas com elevada variabilidade geomorfológica, vegetal e edáfica apresentam desafios para a caracterização paisagística, principalmente na transição entre grandes biomas, como observado no município gaúcho de Santa Maria - RS. Trata-se de um limite transitório do bioma de Mata Atlântica com o Pampa, onde está localizada a Estação Experimental de Silvicultura de Santa Maria (Fepagro Florestas), importante sítio de pesquisas dos recursos florestais.

A inexistência de informações atualizadas, no que se refere aos componentes da paisagem da Fepagro Florestas, estimulou o desenvolvimento do presente estudo. Este tipo de trabalho é fundamental para dar suporte às pesquisas de solos, fauna e flora, restauração da vegetação nativa, planejamento da silvicultura e gestão integrada das terras.

Assim, este trabalho teve por objetivo caracterizar os componentes da paisagem, tais como o relevo, a cobertura vegetal e suas relações com os solos, além de avaliar a variação temporal da relação solo/paisagem entre os anos de 1987 e 2009.

MATERIAL E MÉTODOS

Meio Biofísico

O estudo foi desenvolvido na Estação Estadual de Pesquisas Florestais (Fepagro Florestas) no município de Santa Maria, Estado do Rio Grande do Sul. Com área de aproximadamente 538 ha, a estação está inserida nas coordenadas UTM 216.000 e 220.000 E, 6.713.000 e 6.717.000 S (fuso22S); o clima da região enquadra-se na classificação de Köppen como Cfa (clima subtropical úmido, com temperatura média anual de 19ºC e pluviosidade média anual de 1733 mm) (Figura 1).

Figura 1. Localização da Fepagro Florestas e dos perfis de solo descritos por Abrão et al. (1988) sobre o mapa planialtimétrico da Fepagro Florestas. 

O local apresenta características geológicas complexas, predominando a Formação Rosário do Sul, com depósitos aluvionares, areias, cascalheiras e sedimentos síltico-argilosos de planícies de inundação, terraços e depósitos de calha da rede fluvial atual e subatual, apresentando inclusões da Formação Serra Geral com rochas vulcânicas tipo: basalto e riolito, e da Formação Botucatu com arenitos eólicos (IBGE, 2003).

Na região predominam fitofisionomias classificadas como de Tensão Ecológica com Atividades Agrárias (IBGE, 2004), estabelecidas sobre Argissolos Bruno-Acinzentados, Argissolos Vermelhos, Argissolos Vermelho-Amarelos, Gleissolos Háplicos, Neossolos Flúvicos, Neossolos Litólicos, Neossolos Quartzarênicos e Neossolos Regolíticos (ABRÃO et al., 1988), em relevo suavemente ondulado a ondulado com elevações de 90 a 174 m.

Métodos de campo, laboratório e escritório

Sobre o Mapa Planimétrico da Fepagro Florestas do ano de 1987, na escala 1:5.000, foi gerada a base cartográfica (AGUIRRE, 1987).

Para a elaboração do Modelo Numérico do Terreno (MNT) foram utilizados dados da Shuttle Radar Topography Mission (SRTM), com resolução espacial de 90 m. Foram extraídas curvas de contorno dos dados SRTM, com intervalo de 15 metros visando manter a fidelidade da imagem. Dos contornos, gerou-se uma grade e a nova imagem foi submetida ao refinamento de grade regular (interpolador bicúbico), resultando na resolução espacial de 10 metros (VALERIANO, 2004). Posteriormente, foi construído o modelo de superfície, baseado na representação Triangular Irregular Network (TIN).

Durante os procedimentos de campo, o georreferenciamento dos pontos de interesse foi realizado com o receptor dos Sistemas Globais de Navegação por Satélite (GNSS), código CA (com a média de observações no ponto).

A caracterização florística, para o ano de 2009, foi realizada através de transecções com especialista botânico, identificando a ocorrência de espécies conforme APG III (2009). Os estágios sucessionais foram descritos em função do CONAMA (2012). Foram avaliados também, os aspectos da paisagem relacionados à vegetação.

Para o estudo do componente solo foram utilizados 15 perfis descritos por Abrão et al (1988) (Tabela 1), os quais foram relacionados ao relevo (Figura 1).

Tabela 1. Perfis de solo descritos por Abrão et al. (1988), e suas respectivas classes texturais. 

Classe de solo Horizonte Profundidade (m) Composição granulométrica g.kg-1 Classe Textural
Areia grossa Areia fina Silte Argila
PBAC1 Ap 0,00–0,27 250 460 140 150 Franco-arenoso
A12 0,27-0,36 220 410 170 290 Franco-argiloarenoso
B1 0,36 – 0,61 180 320 210 290 Franco-argiloarenoso
B2t 0,61 – 0,69 100 190 250 460 Argiloso
B3t 0,69 -1,12 80 180 230 510 Argiloso
IIC 1,12-1,30 50 220 560 170 Franco-siltoso
PBAC2 Ap 0,00–0,17 270 350 210 170 Franco-arenoso
A3 0,17-0,55 220 270 250 260 Argiloso
B2t 0,55 – 0,85 140 190 150 520 Argiloso
IIB3t 0,85 – 1,12 70 220 240 470 Argiloso
PBAC3 A1 0,00–0,35 200 400 200 200 Franco-argiloarenoso
IIB2t 0,35-0,62 30 220 290 460 Argiloso
IIC1 0,62 – 0,86 30 160 410 400 Franco-argilossiltoso
PBAC4 A1 0,00–0,35 260 220 190 330 Franco-argiloarenosa
IIB21t 0,35-0,55 80 90 190 640 Muito argiloso
IIB22t 0,55-0,74 40 90 220 650 Muito argiloso
IIB23t 0,74-1,00 30 110 270 590 Argiloso
IIIC1 1,00-1,25 380 240 140 240 Franco-argiloarenoso
PVA5 Ap 0,00–0,20 480 320 120 80 Franco-arenoso
A12 0,20-0,43 460 310 140 90 Franco-arenoso
A13 0,43-0,69 410 330 140 120 Franco-arenoso
A2 0,69-0,96 410 400 120 70 Franco-arenoso
BA 0,96-1,12 310 340 160 190 Franco-arenoso
B2 1,12-1,35 290 250 180 280 Franco-argiloarenoso
PVA6 Ap 0,00–0,20 380 340 150 130 Franco-arenoso
A12 0,20-0,47 310 410 150 130 Franco-arenoso
A2 0,47-0,71 300 470 160 70 Franco-arenoso
B2 0,71-1,00 240 280 180 300 Franco-argiloarenoso
PV7 Ap 0,00–0,30 400 260 120 220 Franco-argiloarenoso
A3 0,30-0,56 200 410 110 280 Franco-argiloarenoso
B21 0,56-0,85 70 430 150 350 Franco-argiloarenoso
B22 0,85-1,26 120 310 130 440 Argiloso
B3 1,26-1,50 140 240 130 490 Argiloso
PV8 A1 0,00–0,42 440 280 100 180 Franco-arenoso
B1 0,42-0,65 320 410 90 180 Franco-arenoso
B21 0,65-1,14 240 380 100 280 Franco-argiloarenoso
B22 1,14-1,40 160 380 130 330 Franco-argiloarenoso
GX9 A11 0,0–0,27 380 260 180 180 Franco-arenoso
A12 0,27-0,45 380 230 200 190 Franco-arenoso
Cg 0,45-0,65 380 230 170 220 Franco-argiloarenoso
GX10 Ap 0,0-0,15 20 50 390 540 Argiloso
A3 0,15-0,30 30 110 370 490 Argiloso
IIC1g 0,30-0,80 30 210 530 230 Franco-siltoso
IIC2g 0,80-1,0 30 250 460 260 Franco
RQ11 Ap 0,0-0,30 540 340 40 80 Franco-arenoso
A12 0,30-0,60 500 320 90 90 Franco-arenoso
A13 0,60-0,93 580 310 30 80 Arenoso
C1 0,93-1,25 560 310 40 90 Franco-arenoso
C2 1,25-1,45 700 180 30 90 Franco-arenoso
RY12 A11 0,0-0,17 120 230 260 390 Franco-argiloso
A12 0,17-0,30 60 150 350 440 Franco-argiloso
IIC1 0,30-0,38 230 280 250 240 Franco-argiloarenoso
IIIC2 0,38-0,47 50 240 270 440 Argiloso
IVC3 0,47-0,82 290 330 160 220 Franco-argiloarenoso
VC3 0,82-1,15 260 270 170 300 Franco-argiloarenoso
RL13 A1 0,0-0,50 130 580 120 170 Franco-arenoso
RL14 Ap 0,0-0,16 430 300 100 170 Franco-arenoso
A12 0,16-0,30 460 180 130 230 Franco-arenoso
RR15 A11 0,0-0,22 360 430 80 130 Franco-arenoso
A12 0,22-0,49 340 420 80 160 Franco-arenoso
AC 0,49-0,62 240 500 100 160 Franco-arenoso
C 0,62-1,10 70 700 100 130 Franco-arenoso

Em que: PBAC = Argissolos Bruno-Acinzentados; PV = Argissolos Vermelhos; PVA = Argissolos Vermelho-Amarelos; GX = Gleissolos Háplicos; RY = Neossolos Flúvicos; RL = Neossolos Litólicos; RQ = Neossolos Quartzarênicos e RR = Neossolos Regolíticos.

Foi elaborado um mapa de solos com a conversão da carta de solos de Abrão et al. (1988) para o meio digital. Posteriormente, a imagem (mapa de solos), como os demais planos de informação (PIs) foram georreferenciados com a projeção UTM no sistema geodésico SAD 69 (fuso 22 - Sul), enquanto as classes de solos foram vetorizadas e atualizadas para o segundo nível categórico do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (EMBRAPA, 2006), resultando em um PI com 3 metros de resolução espacial. Em seguida, procedeu-se a verificação de campo por meio de transecções com tradagens para a avaliação de características morfológicas do solo, conforme estabelecido pelo IBGE (IBGE, 2007).

A elaboração dos mapas de cobertura vegetal de 1987 e 2009 (PIs com resolução espacial de 3 metros) foi realizada por meio de coletas de informações sobre o histórico recente de uso do solo, da base cartográfica (Mapa Planimétrico de 1987 da Fepagro Florestas), da verificação de campo e da vetorização da imagem do sensor Quick Bird, fornecida pela empresa Digital Globe e disponível no software Google Earth (GOOGLE, 2009) de 28 de julho de 2009.

As inter-relações entre o relevo, solos e cobertura vegetal, nas diferentes datas foram realizadas com base nos cruzamentos entre os PIs: MNT (1), Mapa de Solos (2), Mapa de Cobertura Vegetal de 1987 (3) e Mapa de Cobertura Vegetal de 2009 (4) (Figura 2).

Figura 2. Esquema metodológico e integração dos resultados. 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Relação solo/paisagem

A sobreposição dos PIs 1 e 2 mostrou que os Argissolos Bruno-Acinzentados (PBAC), com textura franco-arenosa a franco-argiloarenosa no Horizonte A (espessura média de 0,28 m), ocupam 137 ha da área de estudo, possuindo perfis com 0,86 a 1,30 m de espessura. Esses solos apresentam incremento de argila em profundidade, derivando-se de siltitos e argilitos da Formação Rosário do Sul (IBGE, 2003) e ocorrem em cotas de elevação que variam de 105,6 a 160 m de altitude, em relevo suave ondulado a forte ondulado (Tabela 1, Figuras 3A e 3B). Comparando os perfis de PBAC1 a 140 m de elevação, PBAC2 a 130 m, PBAC3 a 120 m, e PBAC4 a 120 m, é possível observar a maior incorporação da argila nas camadas superficiais e subsuperficiais dos perfis desenvolvidos em áreas de deposição (Tabela 1; Figuras 1, 3A e 3B). Esse processo foi observado por Quine & Zhang (2002), durante o estudo da variação espacial da erosão e das propriedades dos solos agrícolas no Reino Unido. Observa-se, também a ocorrência de glebas com terreno ravinado associadas ao PBAC. Nessas glebas, há a depressão abrupta da altimetria, condição que contribuí para a conformação de processos erosivos na forma de grandes voçorocas, com até 4,5 m de profundidade (Figuras 3A e 3B).

Figura 3. A. Modelo numérico do terreno (MNT), B. mapa de Solos da Fepagro Florestas. 

Os Argissolos Vermelho-Amarelos (PVA) desenvolvem-se sobre arenitos da Formação Botucatu (IBGE, 2003) em 42 ha da área, com textura franco-arenosa no Horizonte A, com perfis de 1,00 a 1,35 m de profundidade, os quais apresentam um pequeno incremento de argila em profundidade. São encontrados em elevações que variam de 105,6 a 152,2 m, em relevo suave ondulado a ondulado (Tabela 1, Figuras 3A e 3B). Os Argissolos Vermelhos (PV) são encontrados em 206 ha, desenvolvendo-se em relevo suave ondulado a ondulado, em elevações que variam de 113,3 a 152,2 m, são formados a partir de arenitos da Formação Botucatu, com influência de rochas efusivas basálticas da Formação Serra Geral (IBGE, 2003). Têm textura franco-arenosa a franco-argiloarenosa no Horizonte A, apresentando incremento de argila em profundidade em perfis com 1,40 a mais de 1,50 m (Tabela 1, Figuras 3A e 3B).

Na porção norte da paisagem, sobre materiais aluviais e coluviais (IBGE, 2003) desenvolvem-se os Neossolos Flúvicos (RY) em relevo plano a ondulado, principalmente em áreas úmidas, nas cotas de elevação que variam de 105,6 a 144,4 m. Estes solos ocupam 12 ha da área e têm textura franco-argilosa no Horizonte A com perfil de solo de 1,15 m (Tabela 1, Figuras 3A e 3B). No sul foram mensurados 17 ha de Neossolos Quartzarênicos (RQ), em elevações de 144,4 a 105,6 m. Os perfis de RQ apresentam Horizonte A com textura areia-franca e profundidade de 1,45 m (Tabela 1, Figuras 3A e 3B).

As glebas com maior declividade sobre a Formação Rosário do Sul (IBGE, 2003) apresentam Neossolos Litólicos (RL) com 43 ha e Neossolos Regolíticos (RR) com 20 ha, nas cotas de elevação que variam de 144,4 a 97,8 m. Os RL desenvolvem-se sobre arenito e siltito, com 0,40 m de espessura média e textura franco-arenosa, enquanto que os RR, por sua vez, têm textura franco-arenosa, com espessura próxima a 0,50 m (Tabela 1, Figuras 3A e 3B). A espessura desses solos está associada à instabilidade geomórfica das escarpas, sendo que nessas áreas há o intenso processo de desagregação do solo e o transporte de sedimentos para as cotas mais deprimidas da paisagem. Vidal-Torrado & Lepsch (1999) observaram que há relação cronológica entre os solos e as superfícies geomórficas, sendo que superfícies menos estáveis possuem, normalmente, solos menos desenvolvidos e mais variados.

De 144,4 a 90 m de elevação, são observadas áreas úmidas sobre sedimentos aluviais, onde se desenvolvem Gleissolos Háplicos (GX) distribuídos em 52 ha, com perfis de solo com espessura de 0,65 a 1,0 m. Comparando os perfis GX9 a 130 m de elevação e GX10 a 90 m é possível constatar o incremento da argila no Horizonte A passando de franco-arenosa a argila na área mais baixa, como também no restante do perfil. Os efeitos da posição na paisagem também são observados entre os contrastes da textura no Horizonte A de PVA5, PVA6 e PV8 com GX10 e RY12, além do desenvolvimento em profundidade para a maioria dos perfis de solos descritos por Abrão (1988) (Tabela 1, Figuras 3A e 3B). Para Anjos et al. (1998), dentre os fatores de formação dos solos destaca-se o relevo, o qual coordena e direciona os fluxos de água nos perfis do solo, aliado a outro importante fator para a gênese que é o material de origem, o qual dita as condições químicas e físicas do solo.

A área de estudo apresentou classes de solo características do Rebordo do Planalto Sul-Riograndense e da Depressão Central do Rio Grande do Sul (STRECK et al., 2008), fato que confere caráter edáfico transitório à Estação Experimental.

Variação espacial da vegetação

Ao longo da paisagem, as formações campestres apresentam composição botânica envolvendo 24 espécies de 21 gêneros pertencentes a 12 famílias botânicas. Destacam-se as famílias Poaceae, com sete espécies de sete gêneros botânicos, e Asteraceae, com cinco espécies de quatro gêneros. Espécies como Eryngium sp (Apiaceae) e Cyperus sp (Cyperaceae) foram registradas principalmente em áreas úmidas sob GX (Tabela 2, Figura 4B). Além da prática de pecuária extensiva, pode ser evidenciada a descaracterização botânica do campo antrópico pela presença de Eragrostis plana (Tabela 2), espécie naturalizada à flora gaúcha (SCHNEIDER, 2007).

Tabela 2. Relação de espécies campestres registradas na Fepagro Florestas e seu ambiente preferencial. 

Espécies Família Ambiente preferencial
Eryngium horridum Apiaceae
Eryngium sp. Apiaceae área úmida associada a GX
Achyrocline satureioides Asteraceae
Baccharis sp. Asteraceae
Baccharis trimera Asteraceae
Bidens pilosa Asteraceae
Soliva pterosperma Asteraceae
Cyperus rotundus Cyperaceae
Cyperus sp. Cyperaceae área úmida associada a GX
Desmodium incanum Fabaceae
Rosmarinus officinalis Lamiaceae
Trifolium sp. Leguminosae
Sida rhombifolia Malvaceae
Phyllantus corcovadensis Phyllanthaceae
Aristida pallens Poaceae
Cynodon sp. Poaceae
Eragrostis plana Poaceae
Erianthus sp Poaceae
Paspalum notatum Poaceae
Rhynchelytrum repens Poaceae
Schizachyryum condensatum Poaceae
Rumex crispus Polygonaceae
Smilax sp Smilacaceae
Urtica dioica Urticaceae

Em que: GX = Gleissolos Háplicos.

Os fragmentos florestais apresentam 59 espécies de 50 gêneros botânicos, pertencentes a 31 famílias (Figura 4B). Destas, a família mais representativa é a Myrtaceae, com sete espécies de cinco gêneros, seguida das famílias Rutaceae, com quatro espécies pertencentes a quatro gêneros botânicos, e Mimosaceae, com quatro espécies de três gêneros (Tabela 3). Os grupos ecológicos são compostos principalmente por Pioneiras e Secundárias Iniciais, o que reforça a classificação das florestas nativas nos estágios inicial e médio de regeneração, tendo as espécies, em geral, distribuição na Floresta Estacional Decidual e na Estepe Gramíneo-lenhosa, ratificando o caráter transitório da área (SEMA, 2007; LEITE, 2002).

Tabela 3. Relação de espécies registradas nos fragmentos florestais da Fepagro Florestas e seu ambiente preferencial. 

Espécies Família Ambiente preferencial
Lithraea molleoides Anacardiaceae
Schinus molle Anacardiaceae
Schinus terebinthifolius Anacardiaceae
Rollinia sylvatica Annonaceae
Araucaria angustifolia Araucariaceae
Syagrus romanzoffiana Arecaceae
Baccharis tridentata Asteraceae
Tabebuia alba Bignoniaceae
Tabebuia chrysotricha Bignoniaceae
Tabebuia heptaphylla Bignoniaceae
Cordia trichotoma Boraginaceae
Patagonula americana Boraginaceae
Pelthophorum dubium Caesalpiniaceae
Erythroxylum deciduum Erythroxylaceae
Phyllanthus sellowianus Euphorbiaceae matas ripárias associadas a PBAC, RY, RL e RR, GX e no TR
Sebastiania brasiliensis Euphorbiaceae matas ripárias associadas a PBAC, RY, RL e RR, GX e no TR
Sebastiania commersoniana Euphorbiaceae
Dalbergia frutescens Fabaceae
Erythrina cristagalli Fabaceae áreas úmidas associadas a GX, PBAC
Machaerium paraguariense Fabaceae
Casearia sylvestris Flacourtiaceae
Xylosma venosum Flacourtiaceae
Nectandra lanceolata Lauraceae
Nectandra megapotamica Lauraceae
Ocotea puberula Lauraceae
Calliandra selloi Leguminosae matas ripárias associadas a RL e RR
Cabralea canjerana Meliaceae
Cedrela fissilis Meliaceae
Melia azedarach. Meliaceae
Acacia mearnsii Mimosaceae
Acacia bonariensis Mimosaceae
Enterolobium contortisiliquum Mimosaceae
Parapiptadenia rigida Mimosaceae
Ficus luschnathiana Moraceae
Myrsine lorentziana Myrsinaceae matas ripárias associadas a PBAC, RY, RL e RR, GX e no TR
Myrsine umbellata Myrsinaceae
Blepharocalyx salicifolius Myrtaceae
Campomanesia xanthocarpa Myrtaceae
Eucalyptus sp. Myrtaceae
Eugenia involucrata Myrtaceae
Eugenia uniflora Myrtaceae
Eugenia uruguayensis Myrtaceae
Myrcianthes gigantea Myrtaceae mata ripária associada a RR
Butia capitata Palmae
Pinus sp. Pinaceae
Hovenia dulcis Rhamnaceae
Prunus myrtifolia Rosaceae
Citrus nobilis Rutaceae
Helietta apiculata Rutaceae
Zanthoxylum fagara Rutaceae
Zanthoxylum rhoifolium Rutaceae
Allophylus edulis Sapindaceae
Cupania vernalis Sapindaceae
Matayba elaeagnoides Sapindaceae
Solanum mauritianum. Solanaceae
Luehea divaricata. Tiliaceae
Celtis iguanaea Ulmaceae
Urera baccifera Urticaceae
Vitex megapotamica Verbenaceae

Em que: PBAC = Argissolos Bruno-Acinzentados; PV = Argissolos Vermelhos; PVA = Argissolos Vermelho-Amarelos; GX = Gleissolos Háplicos; RY = Neossolos Flúvicos; RL = Neossolos Litólicos; RQ = Neossolos Quartzarênicos e RR = Neossolos Regolíticos.

A descaracterização dos fragmentos florestais foi nítida, dada a presença de espécies exóticas, como Citrus nobilis (Rutaceae), Eucalyptus sp. (Myrtaceae), Hovenia dulcis (Rhamnaceae), Melia azedarach (Meliaceae), Acacia mearnsii (Mimosaceae) e Pinus sp. (Pinaceae), mescladas à vegetação nativa (Tabela 3) principalmente em áreas já exploradas, sob sucessão natural.

A maior incidência de indivíduos de Calliandra selloi (Leguminosae) foi registrada em matas ripárias associadas à RL e RR, Erythrina cristagalli (Fabaceae) em áreas úmidas associadas a GX e PBAC, Myrcianthes gigantea (Myrtaceae) em mata ripária associada a RR, Myrsine lorentziana (Myrsinaceae) e Phyllanthus sellowianus (Euphorbiaceae) em matas ripárias associadas a PBAC, RY, RL e RR, GX e TR (Tabela 3, Figuras 3B e 4B), o que evidencia o contato vegetal do tipo ecótono (edáfico) (IBGE, 2004).

A sobreposição dos PIs 3 e 4 revela a ocorrência de seis classes fitofisionômicas no ano de 1987, sendo o campo antrópico a mais representativa com 320 ha, seguido de cultivos do gênero Eucalyptus com 92 ha, floresta nativa com 34 ha, cultivos do gênero Pinus com 34 ha, cultivos florestais diversos com 33 ha e cultivos agrícolas com apenas 5 ha. Para o ano de 2009, houve a redução para cinco classes, tendo destaque o decréscimo na ocupação do campo antrópico para 143 ha. Os 177 ha anteriormente ocupados por campo antrópico cederam espaço para floresta nativa com 138 ha, cultivos de Eucalyptus com 121 ha e cultivos de Pinus com 67 ha. Constatou-se um balanço temporal positivo para a floresta nativa, bem como a expansão dos cultivos de Eucalyptus e Pinus (Figura 4A e 4B). Essas mudanças estão atreladas principalmente à alteração na forma de exploração da Fepagro Florestas e às condições ambientais ocasionadas pelos demais elementos da paisagem.

A sobreposição dos PIs 1, 2, 3 e 4 mostra que o campo antrópico tem distribuição temporal nas diferentes classes de solo e no terreno ravinado (TR), exceto nos solos RQ para o ano de 2009. Os povoamentos florestais implantados no ano de 1987 totalizaram 159 ha, dos quais 119 ha estabelecidos sobre PBAC em altitudes variando de 105 a 162 m, e PV em relevo suave ondulado a ondulado em altitudes de 128 a 162 m. Para esses solos foi verificado, no ano de 2009, saldo positivo de 27 ha do avanço destes cultivos sobre o campo antrópico, com destaque para o cultivo de Eucalyptus sobre PV com saldo positivo de 18 ha, e cultivo de Pinus sobre PV com 7 ha (Tabela 4).

Tabela 4. Áreas mensuradas a partir dos cruzamentos entre os planos de informação: solo e cobertura vegetal para os anos de 1987 e 2009. 

1987 Área (ha) 2009 Área (ha) Saldo (ha)
Agricultura x PV 5,0 Agricultura x PV 0 -5,0
Cultivo de Eucalyptusx RY 1,0 Cultivo de Eucalyptusx RY 2,0 1,0
Cultivo de Eucalyptus x RQ 3,0 Cultivo de Eucalyptusx RQ 4,0 2,0
Cultivo de Eucalyptusx HGP 5,0 Cultivo de Eucalyptusx HGP 6,0 1,0
Cultivo de Eucalyptusx PBAC 39,0 Cultivo de Eucalyptusx PBAC 41,0 2,0
Cultivo de Eucalyptusx PV 31,0 Cultivo de Eucalyptusx PV 49,0 18,0
Cultivo de Eucalyptusx PVA 5,0 Cultivo de Eucalyptusx PVA 6,0 1,0
Cultivo de Eucalyptusx RL 4,0 Cultivo de Eucalyptusx RL 10,0 6,0
Cultivo de Eucalyptusx TR 4,0 Cultivo de Eucalyptusx TR 3,0 -1,0
Cultivos florestais diversos x PBAC 6,0 Cultivos florestais diversos x PBAC 6,0 0,0
Cultivos florestais diversos x PV 22,0 Cultivos florestais diversos x PV 22,0 0,0
Cultivos florestais diversos x PVA 1,0 Cultivos florestais diversos x PVA 1,0 0,0
Cultivos florestais diversos x RL 4,0 Cultivos florestais diversos x RL 4,0 0,0
Floresta nativa x RY 2,0 Floresta nativa x RY 6,0 4,0
Floresta nativa x RQ 2,0 Floresta nativa x RQ 4,0 2,0
Floresta nativa x HGP 6,0 Floresta nativa x HGP 14,0 8,0
Floresta nativa x PBCA 3,0 Floresta nativa x PBCA 32,0 29,0
Floresta nativa x PV 4,0 Floresta nativa x PV 49,0 45,0
Floresta nativa x PVA 2,0 Floresta nativa x PVA 9,0 7,0
Floresta nativa x RL 10,0 Floresta nativa x RL 12,0 2,0
Floresta nativa x RR 4,0 Floresta nativa x RR 9,0 5,0
Floresta nativa x TR 1,0 Floresta nativa xTR 3,0 2,0
Cultivo de Pinus x RY 3,0 Cultivo de Pinus x RY 4 1,0
Cultivo de Pinus x RQ 0,0 Cultivo de Pinus x RQ 7 7,0
Cultivo de Pinus x HGP 2,0 Cultivo de Pinus x HGP 5 3,0
Cultivo de Pinus x PBAC 12,0 Cultivo de Pinus x PBAC 12 0,0
Cultivo de Pinus x PV 9,0 Cultivo de Pinus x PV 16 7,0
Cultivo de Pinus x PVA 5,0 Cultivo de Pinus x PVA 4 -1,0
Cultivo de Pinus x RL 3,0 Cultivo de Pinus x RL 9 6,0
Cultivo de Pinus x RR 0,0 Cultivo de Pinus x RR 10 10,0
Campo antrópico x RY 6,00 Campo antrópico x RY 0,00 -6,00
Campo antrópico x RQ 13,00 Campo antrópico x RQ 2,00 -11,00
Campo antrópico x HGP 38 Campo antrópico x HGP 27 -11,00
Campo antrópico x PBAC 65 Campo antrópico x PBAC 26 -39,00
Campo antrópico x PV 127 Campo antrópico x PV 54 -73,00
Campo antrópico x PVA 29 Campo antrópico x PVA 22 -7,00
Campo antrópico x RL 22,00 Campo antrópico x RL 9,00 -13,00
Campo antrópico x RR 16 Campo antrópico x RR 1 -15,00
Campo antrópico x RT 4 Campo antrópico x RT 2 -2,00

A implantação de povoamentos florestais, principalmente sobre os PBAC e PV, está atrelada ao desenvolvimento desses solos, posição na paisagem e relevo. O maior saldo temporal dos PV é relacionado à maior profundidade do perfil e melhor drenagem, haja vista que os PBAC apresentam drenagem moderada ou imperfeita, o que os mantêm saturados com água em ambiente anaeróbico em determinados períodos do ano, havendo prejuízo ao desenvolvimento vegetal (STRECK et al., 2008). Em contraponto ao avanço dos povoamentos sobre os solos PBAC e PV, para o ano de 2009 também houve saldo positivo de 10 ha de Pinus sobre RR (Tabela 4). O sucesso deste povoamento deve-se à ausência de intervenções de manejo neste período e às características das espécies deste gênero botânico, as quais apresentam, na sua grande maioria, elevada produção de pequenas sementes, o que facilita a dispersão anemocórica a longas distâncias, viabilidade de sementes por longos períodos no solo, floração e frutificação mais prolongada, alto potencial reprodutivo por brotação, pioneirismo, alelopatia e ausência de inimigos naturais (ZILLER; GALVÃO, 2001; GROTKOPP et al., 2002).

Avaliando as classes de solos marginais e o pedoambiente deste povoamento, seu sucesso de seu efetivo estabelecimento preferencial em solos do tipo RR está ligado à baixa fertilidade característica do NQ e a fraca ou inexistente coesão entre seus agregados (STRECK et al., 2008), enquanto o GX apresenta caráter hidromórfico o que dificulta o crescimento vegetal. Comparando com o solo RL, o solo RR apresenta melhores condições para o desenvolvimento radicular, em função da presença de material alterado o que, frequentemente, confere maior fraturamento do material de origem (PEDRON, 2007), favorecendo a exploração do perfil do solo pelas raízes.

Conflitos de uso do solo por implantação de povoamentos florestais foram observados em solos GX e RL, aptos para preservação (STRECK et al., 2008), tendo os GX com cultivos de Eucalyptus saldo positivo de 1 ha e com cultivo de Pinus saldo positivo de 3 ha. Em RL o saldo temporal positivo de cultivos de Eucalyptus foi de 6 ha, mesmo valor observado para os cultivos de Pinus (Tabela 4).

A floresta nativa apresentou variação temporal positiva para todas as classes de solo, com destaque para o seu estabelecimento sobre PV com 45 ha e PBAC com 29 ha. É clara a relação desta fitofisionomia com o relevo e a classe de solo, devido à consequente variação da dinâmica da água no solo, nutrientes e textura (Tabela 4), além da alteração na forma de exploração da terra.

A partir do exposto, sugere-se para a realização de estudos futuros a utilização do receptor do GNSS/RTK (MONICO, 2008) ou de imagens geradas por LIDAR (JENSEN, 2009) no levantamento planialtimétrico das áreas. A caracterização dos solos e descrição dos processos correntes no pedoambiente deve passar pela aplicação de técnicas de mapeamento digital de solos (MCBRATNEY et al., 2003). Por fim, a aplicação de rotinas de modelagem da paisagem pode contribuir com a simulação de cenários de ocupação do solo (SOARES-FILHO et al., 2002), proporcionando subsídios para a gestão integrada das terras.

CONCLUSÕES

Há um caráter transitório nos componentes da paisagem, entre o Rebordo do Planalto Sul-Riograndense e a Depressão Central do Rio Grande do Sul, com uma descaracterização das fitofisionomias naturais;

Foram registrados conflitos de uso do solo, pela implantação de cultivos florestais em terras sob GX e RL, aptas para preservação permanente;

O relevo e a gênese dos solos foram condicionantes para o desenvolvimento fitofisionômico;

Em 22 anos houve expansão dos cultivos de Eucalyptus e Pinus, e da floresta nativa sobre o campo antrópico, principalmente nas terras com Argissolos Bruno-Acinzentados e Argissolos Vermelhos.

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Recebido: 28 de Março de 2011; Aceito: 19 de Julho de 2013

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