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Motriz: Revista de Educação Física

On-line version ISSN 1980-6574

Motriz: rev. educ. fis. (Online) vol.16 no.3 Rio Claro July/Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.5016/1980-6574.2010v16n3p638 

ARTIGO ORIGINAL

 

Bujutsu, Budô, esporte de luta

 

Bujutsu, Budô, fight sport

 

 

Carlos José Martins; Cláudia Kanashiro

Instituto de Biociências. UNESP - Univ Estadual Paulista. Campus de Rio Claro, Departamento de Educação Física, Rio Claro, SP, Brasil

Endereço

 

 


RESUMO

Este trabalho tem como objetivo analisar como se deu o processo de reconfiguração de uma das artes marciais japonesas mais conhecidas – o karate –, traçando sua história no contexto das mutações ocorridas na história do Japão.

Palavras-chave: Karate. Bujutsu. Budô. Esporte de luta. Arte marcial.


ABSTRACT

The objective of this paper is to analyze the reconfigurations process of a Japanese martial art – the Karate –, tracing its history in the context of the mutations in the Japanese history.

Key Words: Karate. Bujutsu. Budô. Fight Sport. Martial arts.


 

 

Introdução

Por mais aparentes semelhanças que uma determinada prática corporal possa ter com outras formas de manifestação corporal em outros tempos ou em culturas e civilizações, não podemos dizer apriori que são a mesma coisa. Toda e qualquer prática, e por extensão as práticas corporais, dependem da rede de relações nas quais estão inseridas. Em outras palavras, uma prática corporal se diz do contexto no qual está inserida. Por conseguinte, cabe ao pesquisador estar atento às diferentes configurações assumidas por uma determinada prática corporal de modo a circunscrever com maior fidelidade a singularidade da mesma. Tal é o caso das Artes Marciais que aqui será abordado.

Freqüentemente a história das artes marciais tem sido transmitida sem uma visão contextualizada do ponto de vista histórico e social dos fatos. As artes marciais que outrora estavam ligadas ao universo guerreiro e ético-religioso de outras culturas, originando-se daí o emprego da expressão "Arte Marcial", passaram no transcurso do tempo a ser consideradas práticas integrantes da cultura corporal com apelo esportivo e também educacional. Mas como isso de fato ocorreu? Em que condições e com que consequências?

De acordo com Campos (2004)

[...] no processo de emergência da sociedade industrial, determinadas modalidades passaram a ser regulamentadas e padronizadas. Transcorreu o que Norbert Elias definiu como processo de esportivização, com regras mais rígidas que visavam a estabelecer certa igualdade de oportunidades aos concorrentes e maior controle sobre o limite da violência e o uso da força física.

Dessa forma, há o surgimento da organização em grande escala, administrando, controlando e regularizando as competições. Essas características definitivamente podem ser observadas no que diz respeito a algumas artes marciais atuais, como o Judô, o Karate e o Taekwondo, visto que foram criadas Federações ao redor do mundo para organizar suas competições. Algumas dessas artes marciais estão até inseridas no quadro de modalidade dos Jogos Olímpicos Modernos, o que reforça a idéia de esportivização que elas sofreram.

Segundo Martins e Altmann (2007) a expressão "esporte moderno" foi utilizada pela primeira vez por Norbert Elias e Eric Dunning para demarcar a diferença com o esporte antigo e tradicional. A maioria dos esportes que conhecemos e praticamos hoje são considerados esportes modernos. Os esportes modernos possuem as seguintes características: diminuição do grau de violência, codificação de regras e das práticas, igualdade formal entre os jogadores, espaços e tempos próprios, desvinculando-se de rituais religiosos (secularização). Segundo Elias e Dunning (1992, p. 230):

o esporte é uma atividade de grupo organizada, centrada no confronto de pelo menos duas partes. Exige um certo tipo de esforço físico. Realiza-se de acordo com regras conhecidas, que definem os limites da violência que são autorizados, incluindo aquelas que definem se a força física pode ser totalmente aplicada. As regras determinam a configuração inicial dos jogadores e dos seus padrões dinâmicos de acordo com o desenrolar da prova.

Norbert Elias, sociólogo alemão, propôs a teoria do processo civilizador que segundo Gebara (2000, p. 35) é um projeto ainda em elaboração e é um processo necessariamente não planejado e imprevisível, em especial no que diz respeito às alterações de longo prazo que tem ocorrido nas figurações humanas. Para o caso aqui investigado, trata-se sobretudo de destacar desta abordagem o processo de "cortenização" ou parlamentarização dos guerreiros medievais, isto é, a violência imbricada no cotidiano dos guerreiros cede lugar ao debate e ao refinamento das atitudes dos cortesãos.

Um processo análogo pôde ser observado mais tarde no Japão, em meados do século XIX durante a Era Meiji e influenciado uma transformação e esportivização das artes marciais. Veremos que com o processo de modernização da Era Meiji, os samurais perderam o prestígio e a função que desfrutavam na sociedade japonesa tradicional. Em parte foram assimilados à nova burocracia e estrutura estatal, mas em sua grande maioria foram substituídos pelo exército tendo em vista o monopólio do uso legítimo da força pelo Estado, instauração do capitalismo no país e a centralização do poder nas mãos do imperador.

Este trabalho tem como objetivo analisar como se deu o processo de reconfiguração de uma das artes marciais japonesas mais conhecidas – o karate – resgatando sua história no contexto das mutações ocorridas na história do Japão, assim como registrar como se encontra organizada atualmente.

 

Origens do Karate

O karate é uma das artes marciais orientais mais praticadas e populares no mundo nos dias atuais. Suas técnicas utilizam basicamente as mãos, os cotovelos, os pés e os joelhos como armas de ataque e defesa. A sua criação não possui uma datação precisa, pois no início não possuíam espaços específicos nem instrutores profissionais para sua prática. Ao longo de sua história a luta se desenvolveu de forma clandestina tendo em vista a proibição do uso de armas pelos poderes em vigor. Portanto, os treinos eram secretos uma vez que proibidos. Ademais, há poucos registros escritos sobre a história do início do karate, visto que os ensinamentos eram passados através da prática, na forma oral e não escrita.

De fato, nos tempos antigos nunca houve dojos1 em Okinawa – o karate era praticado à noite, atrás dos muros de jardim, no interior das florestas ou ao longo das praias desertas. Nem havia uniforme-padrão de treinamento – os praticantes de karate de Okinawa costumavam vestir o mínimo dispensável. [...] em Okinawa quase nada era escrito, não se mantinha registros, o que tornava praticamente impossível chegar a qualquer conclusão concreta sobre a história das artes marciais na ilha. (STEVENS, 2007, p. 57)

Como afirma Tan (2004, 172), muitos relatos que envolvem a história do karate baseiam-se em lendas e mitos. Daí mais uma razão para a dificuldade de precisar sua origem. A rigor, devemos falar de origens, uma vez que diversos fatores concorreram para o seu surgimento. Uma das versões mais aceitas é que o desenvolvimento do karate ocorreu na ilha de Okinawa, através de muitos mestres de artes marciais típicas da ilha, conhecidas como Naha-te, Shuri-te e Tomari-te, respectivamente praticadas nas cidades de Naha, Shuri e Tomari.

A província de Okinawa localiza-se ao sul do Japão e constituía um reino independente até o século XIX, quando foi anexada ao império japonês. Por sua localização geográfica (situada no meio da rota comercial entre países como Japão, China, Coréia e Sudeste Asiático), Okinawa sempre foi vista como um importante ponto estratégico, sofrendo forte influência política, cultural e religiosa da China e do arquipélago japonês. (TAN, 2004)

Através desse intercâmbio, o kenpo – Arte Marcial chinesa, também conhecida como boxe chinês – foi introduzido em Okinawa tendo suas técnicas mescladas com as já conhecidas pelos mestres okinawanos, dando origem a uma nova forma de luta, que mais tarde seria conhecida como karate. É importante ressaltar que durante certo período, por volta do século XVI, Okinawa era freqüentemente atacada e invadida por clãs que proibiam o porte e a utilização de armas no território okinawano, o que impulsionou o desenvolvimento de uma forma eficaz de combate sem a utilização de armas.

Para melhor entender as origens do karate e seu aspecto filosófico-religioso, há uma necessidade do entendimento da origem do kenpo. Segundo Moreira (2003) em 520 o monge budista Bodhidharma, também conhecido como Daruma, viajou da Índia para a China para ensinar o budismo no templo Shaolin. Segundo Lima (2000 apud Moreira 2003), o templo ficava na floresta e os monges precisavam defender-se dos animais e de assaltantes. Assim sendo, criaram técnicas de autodefesa baseadas no próprio movimento dos animais e nas forças da natureza.

O mosteiro dos monges shaolins ganhou notoriedade e os monges passaram a ser considerados seres dotados de técnicas fantásticas, adquiridas por meio de exercícios baseados no budismo e capazes de aliá-las ao domínio da mente. Foi com Daruma também que o desenvolvimento do Zen teve o seu início.(SUGAI, 2000a, p.113)

As artes marciais, assim como outras artes japonesas, são consideradas caminhos para o Zen. O Zen, diferentemente de outras modalidades do budismo e do pensamento ocidental, não enfatiza a importância do conhecimento abstrato e especulativo, da lógica, dos sutras sagrados ou mesmo a leitura dos mesmos pelos eruditos. O Zen afirma que esse caminho é uma ascese pessoal, corporal e espiritual. É uma metáfora do prático, sistemático e místico, como expressão da cultura oriental. A idéia central do Zen é a súbita iluminação, essa iluminação pode advir como resultado de intensa disciplina mental e física. (LEONARD, 1973; SUGAI, 2008a). Daí sua adequação às artes marciais, consideradas como verdadeiras meditações em movimento.

Pela influência de Daruma na criação do Kenpo, arte marcial que seria a base para a criação do karate, podemos observar que o karate possui em sua essência valores que o difere de uma simples forma de combate. Há também uma busca no desenvolvimento do caráter do praticante e não apenas do seu condicionamento físico, como afirma Moreira (2003, p.8):

O budismo e o zen budismo buscam a iluminação, o desenvolvimento do caráter, com o propósito de um homem ideal ou internamente perfeito, [...] sendo seguido por diversas artes marciais como o Judô e o Karate.

Podemos verificar essa influência nos rituais de saudações para início e fim de uma aula em um dojô, como afirma Tikara (s.d, p. 13):

Nos momentos da saudação devemos afastar de nossos espíritos todas as preocupações, devemos estar certos de nos encontrarmos sinceramente libertos de tudo aquilo que possa nos prejudicar. Esses momentos são feitos para encontrarmos uma pausa que nos possa levar à serenidade. A saudação faz parte do espírito Zen e da própria finalidade da arte.

Durante esses rituais de saudação, os alunos e o professor fazem o Zazen, espécie de meditação zen na posição sentada. Durante o Zazen, procura-se acalmar a mente e elevá-la a um estado tranqüilo e límpido. Outro fator que observamos nesses rituais é o respeito, característica fundamental de um praticante de Arte Marcial e herança do bushido, código de conduta dos samurais, assunto tratado no tópico 4 deste trabalho.

Outra influência clara do zen-budismo diz respeito ao estudo do Ki pelo praticante de karate:

A palavra Ki é traduzida mais amplamente como vibração e fluxo de energia, e pode ser empregada com muitos sentidos diferentes. Refere-se a um estado de espírito, a um estado mental ou físico, e a tudo o que permeia a nossa existência, que sem o Ki não seria possível, pois é a essência cósmica da vida. Através dele podemos sentir o estado emocional de alguém, sem trocar uma palavra sequer; de sentir tristeza, alegria, inquietação e até tranqüilidade. De experimentar a textura de um objeto sem tocá-lo, estabelecer formas sutis de comunicação, como algo que aconteceu a alguém distante, que morreu sem ninguém ter nos contado. (SUGAI, 2000b, p. 125)

O verdadeiro entendimento do ki, acontece após anos de prática. O aluno iniciante dificilmente o utiliza e compreende de forma correta. A prática do karate levará o karateca à compreensão do ki ao longo dos treinamentos.

 

História do Japão

Dois períodos da história do Japão merecem ser estudados para a compreensão do processo da trajetória do karate: as Eras Tokugawa (1603-1867) e Meiji (1868- 1912).

Por volta do século XVI, o Japão atravessou uma de suas fases mais conturbadas, recheada de guerras civis que terminaram apenas em 1576, quando surge o xogunato, uma espécie de governo militar. A nação japonesa que era unificada através do imperador, passa a ser um país com o poder dividido entre poderosos daimiôs (proprietários de terras, comparados com os senhores feudais). A figura do imperador se torna meramente simbólica, e ele passa a ficar isolado no castelo em Kyoto. O título de xogum podia ser comparável ao de rei da Europa medieval, detendo grandes poderes, embora sendo considerado um chefe militar e não um monarca. O xogum governava então em nome do imperador e como unificador da nação. (COGGIOLA, 2008a; MORI; GLAUJOR, 2008)

Em 1603, após a batalha de Sekigahara, o imperador japonês outorgou o título de xogum a Ieyasu Tokugawa, e assim teve início a Era Tokugawa (também conhecida como Era Edo). Ieyasu Tokugawa e seus descendentes adotaram medidas para preservar a paz recém-conquistada no Japão. Hidetada Tokugawa, o segundo xogum da Era Tokugawa, publicou dois éditos que reforçavam a proibição do cristianismo, já que a presença dos padres jesuítas desagradava os líderes religiosos budistas e xintoístas. A ida de japoneses ao exterior também foi proibida pelo édito.

O terceiro xogum, Iemitsu Tokugawa, adotou uma política que isolou o Japão do resto do mundo por mais de dois séculos. O acesso ao Japão por estrangeiros ficou proibido e o comércio internacional ficou restrito à China, Coréia e Holanda, que podiam aportar seus navios somente na ilha de Dejima.

No governo de Ienari Tokugawa, 11º xogum da Era Tokugawa, países ocidentais como a Inglaterra, Rússia e Estados Unidos tentaram restabelecer relações comerciais com o Japão. Mas fracassaram em suas tentativas. Ienari ordenou a construção de fortes ao longo da costa japonesa, marcando assim um dos períodos de maior reclusão do Japão. O sucessor de Ienari, Ieyoshi Tokugawa, continuou a política isolacionista e em 1842 ordenou que a defesa do país atirasse em qualquer navio desconhecido que aproximasse da costa. (MORI; GLAUJOR, 2008)

Em 1853, os americanos sob o comando do comodoro Matthew Perry exigem que os portos japoneses voltem a receber navios estrangeiros ou aceitar as conseqüências de uma guerra. O comodoro Matthew Perry dá o prazo de um ano para o Japão ter sua resposta.

Os Estados Unidos estavam muito interessados na abertura dos portos japoneses, pois o Japão era uma parada estratégica para reparar seus navios e obter descanso e suprimentos para sua tripulação. Além disso, o Japão era um país que tinha abundância de carvão, mineral de extremo valor, já que a tecnologia a vapor dependia dele.

Os meses seguintes da primeira visita de Perry foram bastante confusos para o governo japonês. O xogunato iniciou um processo de consulta entre os daimiôs, pedindo opiniões sobre a melhor maneira de lidar com os estrangeiros. Muitos se mostraram dispostos a lutar, acreditando na força do império para expulsar os visitantes indesejados. Mas com medo de sair derrotado e ter de aceitar tratados desfavoráveis ou humilhantes, o Japão preferiu negociar com os Estados Unidos a guerrear. (ZACARIAS, 2008)

Em fevereiro de 1854, reforçado com mais três navios de guerra, o comodoro Perry retorna ao Japão. O contato entre as duas nações foi amistoso, chegando a um acordo comum e na assinatura do Tratado de Kanagawa, que permitia o livre acesso dos americanos a dois portos japoneses e a paz entre os dois países.

A notícia do sucesso dos Estados Unidos logo se espalha pela Europa, e os países como Inglaterra e Rússia logo atracam na costa japonesa com as suas exigências. As relações internas japonesas começam a sofrer as conseqüências da abertura do país, e o sistema de xogunato fica abalado, o que leva em 1867 a renuncia de Yoshinobu Tokugawa, marcando o fim da Era Tokugawa e dando início a um processo de modernização japonesa nos moldes capitalistas.

Dessa forma, o início da Era Meiji marca o fim do xogunato e do isolamento do Japão. E como vimos, a pressão internacional pela abertura dos portos, conseqüência do capitalismo que se expandia no mundo, foi uma das grandes causas para o enfraquecimento do poder de Tokugawa.

O poder passa para as mãos do imperador, que estava disposto a deixar na história o "sistema feudal" e modernizar o Japão. Para isso, especialistas estrangeiros são contratados para reformular as instituições japonesas com base em modelos ocidentais e introduzir novos métodos de gestão.

Segundo Coggiola (2008b, p. 16) a faceta mais visível da Restauração Meiji foi a centralização administrativa. A afirmação do poder pelo imperador avançava no sentido da centralização ao eliminar a estrutura política compartimentada do sistema Tokugawa.

O novo governo adotou medidas visando reforçar seu poder e sua estrutura, além de aumentar a capacidade do dispositivo militar. Em suma, uma política de fortalecimento do Estado (COGGIOLA, 2008b, 18). Em 1873, o serviço militar tornou-se obrigatório, visto a necessidade de se formar um exército nacional.

A Era Meiji marca um período muito importante para a trajetória do karate, pois é durante esse período que o karate deixa de ser secreto e começa a sua divulgação fora da ilha de Okinawa.

 

Samurais e bushido

O surgimento dos samurais remonta à Era Heian (794 a 1192), para suprir uma necessidade dos daimiôs, que eram os proprietários das terras, muitas vezes comparados com os senhores feudais europeus.

As propriedades dos daimiôs eram geralmente muito grandes e necessitavam de proteção para não serem invadidas por outros clãs. Os guerreiros samurais então surgem como um exército pessoal dos daimiôs. Inicialmente escolhidos por sua destreza e força, os samurais acabaram se tornando uma linhagem nobre e hereditária, e suas famílias tomavam conta do território (DALL'OLIO, 2008).

Assim como dito anteriormente, a maior herança que os samurais deixaram para a sociedade japonesa e para as artes marciais foi o estilo de vida e o código de honra pelo qual eram regidos, o bushido. Como afirma Dall'olio (2008, p.44), fosse qual fosse o xogunato em que vivesse o samurai, as armas que carregasse ou sua função e prestígio na sociedade, ele tinha sua vida regida pelos mesmos preceitos, ditados pelo bushido.

Segundo Sugai (2008a, p.185):

[..] esse código não era um documento escrito, a não ser em algumas poucas notas. Eram os princípios morais que norteavam a conduta dos guerreiros, com suas vivências e experiências aperfeiçoadas ao longo de centenas de anos e transmitidas aos mais jovens como exemplo de formação do espírito do samurai.

O samurai deveria seguir esse código de conduta, que indicava o caminho em seus hábitos diários, alertando para aspectos como ética, disciplina, respeito, lealdade e honra. Ele não deveria temer a morte, e sim encará-la como uma forma de renascimento. Ao se sentirem desonrados ou derrotados, os samurais preferiam cometer o seppuku (morte voluntária) e recuperar a sua honra a viver envergonhado e ser considerado covarde.

Sendo assim, o samurai deveria ser corajoso, não temer a morte e ser fiel ao seu daimiô. Sua rotina incluía muita disciplina para o trabalho e treinos para poder ser o melhor guerreiro que seu daimiô poderia ter, pois afinal o significado literal da palavra samurai é "aquele que serve".

O bushido, para alguns, ainda está presente na sociedade japonesa, mas de forma reconfigurada, assim como afirma Dall'olio (2008, p.45):

Os samurais deixaram um grande legado para a vida moderna japonesa. Por um lado, foram eles que prepararam o Estado para a abertura política com a Restauração Meiji. Por outro, os samurais foram responsáveis por formar o espírito de honra, respeito, autodisciplina e a noção de dever individual e social que o povo japonês carregou ao longo dos tempos.

O auge do prestígio dos samurais se deu na Era Tokugawa. Eles eram a única casta social que podia portar armas no território japonês. As castas sociais se tornaram bem definidas durante essa Era e por ordem de importância eram: os daimiôs, os samurais, os lavradores, artesãos e comerciantes.

Apesar de a Restauração Meiji não ser dirigida especificamente contra os samurais, pois alguns deles lideraram e conduziram o movimento, os samurais passaram a perder o prestígio e função que desfrutavam na sociedade japonesa antes da Era Meiji. Muitos tornaram-se ronins, samurais sem senhores. A abolição da classe dos samurais se processou com medidas legais assumidas pela nova estrutura estatal. Após várias tentativas feitas pelo novo governo, a rígida divisão de castas do período Tokugawa desaparece. Os samurais perdem seus privilégios aos poucos (YAMASHIRO, 1987). O ano de 1876 marcaria profundamente essa classe guerreira:

O ano de 1876 iria conhecer duas reformas que haveriam de precipitar a fratura entre a velha classe dos bushi (guerreiros) e o governo moderno. Visando limitar a ameaça de novas revoltas, o governo Meiji reservou o uso do sabre apenas aos oficiais do exército. Os samurais, que já haviam perdido seus feudos e privilégios, deviam agora abandonar o próprio símbolo de sua existência. (MEULIEN, 2006, p. 2)

Portanto, durante o processo de modernização da Era Meiji, os samurais perdem o prestígio e a função que desfrutavam na sociedade japonesa e deixam de ser uma casta social. Os guerreiros então são substituídos pelo exército constituído nos moldes ocidentais, mediante a conscrição de seus novos cidadãos, a maioria composta de camponeses.

 

Emergência do karate moderno

A prática do karate tornou-se pública a partir da Era Meiji e Gichin Funakoshi é muitas vezes citado como o pai do karate moderno, responsável pela introdução do karate no Japão e no mundo (BARREIRA; MASSIMI, 2002). Porém é preciso cautela ao defini-lo como único responsável pela expansão do karate pelo mundo, assim como ressalta Stevens (2007):

Apesar de Funakoshi ser reverenciado como o pai do karate moderno, por sua promoção dessa arte em Tóquio e pela ampla divulgação de seus excelentes manuais, houveram alguns outros pioneiros do karate de Okinawa que representaram um papel significativo na expansão do karate, tanto no Japão continental como no exterior. (Stevens 2007, p.73)

Podemos citar como outros principais responsáveis pela divulgação do karate fora da ilha de Okinawa: Chokki Motobu, Chojun Miyagi, Kenwa Mabuni e Kanbun Uechi, todos de certa forma relacionaram-se com Funakoshi em Okinawa, sendo que alguns até treinaram juntos Naha-te ou Shuri-te.

Mas de fato, o trabalho de Funakoshi foi fundamental para a expansão do karate pelo mundo moderno. Nascido em Shuri durante a Era Meiji, Gichin Funakoshi foi professor da rede de ensino de Okinawa e considerava o karate uma forma de aperfeiçoamento da personalidade do praticante. Ele foi o principal responsável por estabelecer a Arte Marcial de Okinawa como o caminho das mãos vazias (karate-do), alterando os ideogramas que antes significavam "mãos chinesas" para "mãos vazias" e adicionando o ideograma "do", que representa "o caminho". Ademais, o criador do Karate moderno nos declara que a oportunidade de manifestar sua discordância com relação à maneira de escrever tradicional surgiu quando a Universidade Keio constituiu um grupo de pesquisa sobre Karate e ele pode sugerir que a arte recebesse o nome de Daí Nippon Kempo Karate-dô – "Grande Caminho Japonês do Método de Punho e das Mãos Vazias" (FUNAKOSHI, 1975, p. 46).

Para Funakoshi, o ideograma de "vazio" representa o fato desta Arte Marcial não utilizar nenhuma arma, apenas o próprio corpo; mas também representa a "busca dos praticantes de karate em esvaziar o coração e a mente de todo desejo e vaidade terrenos". (FUNAKOSHI, 1975, p. 47) Portanto, para além de uma forma de combate, o karate também se constitui como uma forma de ascese.

 

Transformação de bujutsu a budô

Sendo assim, o praticante de karate passa a ter outros objetivos dentro da Arte Marcial. Os treinos que antes visavam às lutas, formas de resistência aos processos de dominação e guerras, passam a objetivar também, e sobretudo o aperfeiçoamento moral e espiritual do praticante. A luta passa a ser consigo mesmo para poder chegar ao "vazio". O karate agora faz parte do budô, filosofia das artes japonesas que possuem o caminho marcial como via de ascese e educação. Tal como o kendo, kyudo, iaido, judo, aikido, entre outras, baseado em alguns dos princípios do antigo bushido, no entanto, atenuando seu caráter letal.

O Budô grafado pelos caracteres significa caminho ou via marcial. Trata-se das artes ou caminhos marciais de origem japonesa considerados como a versão moderna do antigo Bujutsu (técnica marcial), denominadas artes marciais clássicas, ou, tradicionais.

O Bujutsu era um conjunto de disciplinas marciais que podiam ser treinadas apenas pelos bushi ou samurais visando seu uso em batalha. No entanto, com a unificação, estabilização e pacificação do Japão, a partir do século XVII (Xogunato Tokugawa), o Bujutsu começa a sofrer uma transfiguração de arte de guerra passando a ganhar progressivamente uma conotação mais de ascese corporal e espiritual, formação educacional e posteriormente esportiva. Com o advento da Restauração Meiji, que determinou o fim do Xogunato, da sociedade estratificada em castas, e a consequente extinção da casta dos bushi (guerreiros samurai) desapareceram as antigas condições que sustentavam aquela configuração sócio-cultural.

De modo a preservar o espírito das artes marciaisl japonesas tradicionais fizeram-se necessárias mudanças para se adequar aos novos tempos do japão moderno. Tal mudança designava uma nova finalidade que não poderia ser mais a guerra nos moldes antigos, bem como o estilo de vida guerreiro encarnado pelos samurais, uma vez que o contato com as superpotências ocidentais transformou radicalmente as técnicas, os equipamentos e armamentos revolucionando o paradigma da guerra nos termos modernos.

A nova finalidade consistia em imprimir um caráter formador, educacional e esportivo em detrimento da busca pela eficiência letal para o combate bélico. Através do treino das técnicas se cultivaria corpo, mente e espírito para o auto-desenvolvimento. Nesta nova configuração sua prática foi aberta para toda a população não sendo mais exclusividade dos samurais. Por essas razões, muitas técnicas foram adaptadas e algumas eliminadas. Pois, não deveriam ser mais, técnicas que visavam a eliminação do inimigo, mas caminhos educacionais e esportivos para o aperfeiçoamento humano que estavam ao alcance do cidadão comum.

Além de especificar um nome para a Arte Marcial de Okinawa, Funakoshi – educador de profissão – preocupou-se em modificar e adequar o ensino do karate de modo a que este pudesse vir a ser incluído na educação física universal inserida nas escolas públicas da época, visto que a sociedade encontrava-se em um período de mudanças, devido à Restauração Meiji:

Com esperança de ver o karate incluído na educação física universal ensinada em nossas escolas públicas, dediquei-me a revisar os katas2 de modo a simplificá-los o mais possível. Os tempos mudam, o mundo muda e obviamente as artes marciais também devem mudar. O karate que os alunos de segundo grau praticam hoje não é o mesmo que era praticado há dez anos, e é bem grande a distância que o separa do karate que aprendi quando era criança em Okinawa. (FUNAKOSHI, 1975, p. 47)

O karate passa a ter também um uniforme (kimono ou karate-gi) para a prática, assim como uma graduação, utilizando-se o sistema de faixas para designar o grau de desenvolvimento técnico do karateca, semelhante ao adotado por Jigoro Kano no judô, já que os mestres de karate eram amigos deste mestre do judô, que foi um entusiasta para a divulgação do karate no Japão, convidando os mestres de karate para apresentações e encorajando-os a ensinar a arte nas faculdades japonesas.

Os novos alunos iniciam a prática do karate portando a faixa-branca e então com seu desenvolvimento técnico vão trocando de faixa até chegarem à faixa-preta, ao chegar na preta ainda há os graus (dan) que vão do 1º ao 10º. O uniforme adotado é mais leve que o do judô, permitindo maior mobilidade para os braços e pernas. A cor branca do kimono, simboliza a busca do praticante de karate pela pureza da alma.

 

 

As aulas de karate passam a ser ministradas em espaços próprios, os dojôs e a clandestinidade do karate chega ao fim. Demonstrações de karate tornam-se comuns em Okinawa e no Japão. Em 1917, Funakoshi recebe convite para dar uma demonstração do karate no Butoku-den, o grande pavilhão de Artes Marciais de Kyoto, e essa foi a primeira demonstração de karate fora de Okinawa que foi patrocinada oficialmente.

Embora tivesse conquistado alguns admiradores, o karate inicialmente enfrentou algumas dificuldades para se firmar no Japão. Por ser originário de Okinawa, o karate era considerado por muitos japoneses como algo de segunda classe, já que Okinawa era uma província que possuía costumes e até dialetos diferentes do Japão continental.

Não seria fácil convencer um japonês continental de que uma arte vinda de Okinawa pudesse ter algum valor real, especialmente uma que ele considerava derivada do boxe chinês. A sociedade samurai japonesa estivera sempre direcionada para as armas, assim, considerava que as artes não armadas eram para gente comum. (STEVENS, 2007, p. 70)

Nas décadas de 20 e 30, há uma grande demanda de mestres okinawanos para ensinar o karate nas universidades japonesas, impulsionando a expansão da Arte Marcial neste novo formato. Surgem as primeiras associações e clubes para se estudar o karate e unificar a prática do mesmo como a Japan Karate Association (JKA).

Após a II Guerra Mundial, o karate começa a se expandir pelo mundo. Durante a ocupação americana no território japonês, o karate era a única Arte Marcial não proibida pelas autoridades, porque era considerado simplesmente um tipo de boxe e não uma Arte Marcial nacionalista. Os americanos ao retornarem para seu país contribuíram para a disseminação das Artes Marciais nos Estados Unidos, muitos deles foram instruídos pelo próprio Funakoshi.

Antes da guerra, muito poucos não-japoneses sabiam alguma coisa sobre o karate, ou tinham o desejo de aprendê-lo. Os que acharam o caminho para meu dojô eram repórteres ou instrutores de educação física que tinham ouvido falar do interesse japonês pelo karate. O fim da guerra trouxe a ocupação, e então muitos soldados americanos começaram a visitar-me e a solicitar instrução. (FUNAKOSHI, 1975, p. 130)

Com a propagação do karate, surgiram os campeonatos e com o tempo um conflito de gerações entre Funakoshi e seu filho, que também era instrutor de karate. Os praticantes de karate passaram a treinar apenas para competições, deixando o treinamento com princípios do budô:

Nas aulas de Funakoshi pai a ênfase estava no treino dos kata, visando o pleno desenvolvimento de todos os músculos e reflexos. O treino de luta era baseado na premissa de que um único golpe devia decidir tudo. [...] Funakoshi pai permitia alguns treinos livres de luta, mas só depois que os fundamentos do karate fossem completamente compreendidos. Nas aulas de Funakoshi filho, por outro lado, as posturas eram mais fluidas e direitas para facilitar a velocidade de ataque, e os pontapés de extensão total eram freqüentemente utilizados – elementos valiosos para a contagem de pontos nas competições livres. [..] as coisas já não eram mais as mesmas. Depois da guerra, Funakoshi pai admitiu que tonou-se dolorosamente consciente do quase irreconhecível estado espiritual do karate nos dias de hoje. Então, continuou a enfatizar o treino de kata e a ética do karate, mas suas aulas eram pouco freqüentadas [...]. Os jovens praticantes estavam interessados em competição, em marcar pontos, em movimentos rápidos. (STEVENS, 2007, p.80-3)

 

Os estilos

Por não haver um único criador como ocorreu com o judô de Jigoro Kano e o Aikidô de Morihei Ueshiba, e por sua prática ser secreta durante muito tempo, o karate se difundiu em diversos estilos. A principal diferença entre os estilos deve-se ao fato de suas técnicas serem advindas das escolas dos mestres okinawanos das cidades de Shuri ou Naha.

 

 

Mestres da linhagem de Shuri-te3

Para Gichin Funakoshi, o karate era um só, apesar das diferenças técnicas. Ele próprio não se considerava o fundador do estilo shotokan: "Já ouvi [...] pessoas atribuírem a mim e a meus colegas a denominação de escola shoto-kan, mas me oponho firmemente a essa tentativa de classificação. Minha convicção é que essas escolas deveriam fundir-se numa única, permitindo assim ao karate-do evoluir de maneira organizada e benéfica na direção do futuro do homem". (FUNAKOSHI, 1975, p. 50)

 

 

Atualmente os estilos reconhecidos pela World Karate Federation (WKF) são os estilos: Shotokan, Goju-ryu, Shito-ryu e Wado-ryu.

O estilo Shotokan, como dito anteriormente, foi desenvolvido por Gichin Funakoshi. O nome Shotokan surgiu quando os alunos de Funakoshi construíram um dojô e para homenageá-lo decidiram que o nome do edifício seria "casa de Shoto", pois Shoto (onda de pinheiros) era como Funakoshi assinava seus poemas e Kan significa casa. Suas técnicas são advindas do Shuri-te, visto que Funakoshi foi aluno de dois grandes mestres dessa arte: Asato e Itosu. As técnicas do estilo Shotokan dão prioridade à velocidade, força e combates com uma distância maior do adversário.

 

Mestres da linhagem de Naha-te4

O estilo Goju-ryu foi criado por Chojun Miyagi, aluno do mestre de Naha-te Kanryo Higaonna. O significado de Goju é go: rígido, duro e ju: flexível, suave; que são as características desse estilo, que se baseia na filosofia do Yin Yang, isto é, os opostos que se completam. No estilo Goju-ryu observa-se técnicas de combate a curtas distâncias e a presença de movimentos circulares.

O estilo Shito-ryu foi fundado por Kenwa Mabuni, que mesclou técnicas do Shuri-te de Itosu e do Naha-te de Higaonna e recebeu esse nome pois é a combinação dos primeiros ideogramas dos nomes dos seus mestres, sendo que em vez de lê-los Itohiga, lê-se Shito, já que os ideogramas japoneses possuem mais de uma forma de leitura. Pode-se dizer que o karate Shito-ryu é uma combinação de técnicas presentes no karate Shotokan e no karate Goju-ryu.

O estilo Wado-ryu foi desenvolvido por Hironori Otsuka, que mesclou técnicas do jiu-jitsu e do karate shotokan, já que antes de se tornar aluno de Gichin Funakoshi, Otsuka já era graduado no jiu-jitsu. Traduzindo, Wado significa o caminho da harmonia. Suas técnicas diferenciam-se pela utilização de esquivas e projeção.

Além desses estilos reconhecidos pela WKF, existem os estilos Shorin-ryu, criado por Chochin Chibana, Uechi-ryu formulado por Kanbun Uechi e o Kiyokushin de Masutatsu Oyama que também são bastante populares no mundo.

 

Karate esportivo

Devido à popularidade mundial do karate como esporte, a formação de uma federação internacional de karate tornou-se necessária. Em 1970, a União Mundial das Organizações de Karate (WUKO) foi criada. Desde então, todos os esforços têm sido feitos para incluir o karate nos Jogos Olímpicos. No dia 06 de junho de 1985, a WUKO foi oficialmente reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Em 1993, na Argélia, para adaptar-se às regras do Comitê Olímpico Internacional, a Federation Mondiale de Karate (FMK), também conhecida como World Karate Federation (WKF), absorveu a antiga WUKO. No dia 18 de Março de 1999 o COI confirmou o reconhecimento em caráter definitivo da WKF como a federação mundial dirigente da modalidade karate (CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE KARATE, 2008).

Atualmente existem diversas federações organizando o esporte, cada uma com regras específicas. Vou discursar sobre a WKF, pois como dito antes é a única reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional, entidade mundial máxima do esporte moderno.

As competições de karate são divididas em duas modalidades: kata e kumitê. No kata temos a demonstração das técnicas sem um adversário, é como se fosse uma luta imaginária. Cada estilo de karate possui duas listas de katas para serem executados nas competições, sendo uma lista de kata obrigatório (shitei kata) e outra de katas livres (tokui kata). Dependendo do número de atletas na competição há a necessidade de se executar os katas obrigatórios (se o número for maior que 8 atletas). Cinco árbitros avaliam os katas dos atletas que disputam entre si num sistema de chaves. Dessa forma, um atleta se apresenta com faixa vermelha e o seu adversário com faixa azul. Após a execução dos atletas, os árbitros, que portam duas bandeiras nas mãos (uma azul e outra vermelha) levantam aquela que representa a cor do atleta que na opinião deles apresentou o kata da melhor forma. São avaliadas as técnicas, a força, a potência, o equilíbrio, a movimentação entre outros aspectos. As competições podem ser individual ou em equipe, com 3 atletas apresentando o mesmo kata em sincronia.

As competições no kumitê são divididas por categorias de peso. Os atletas também competem em sistemas de chaves e portando as faixas vermelha ou azul, assim como no kata. O objetivo é marcar 8 pontos de diferença no adversário, ou a maior pontuação em 3 minutos de luta. Os atletas obrigatoriamente utilizam protetores de mão, canela, pé e boca, sendo opcional o uso de coquilha para os homens e protetor de peito para as mulheres. Um árbitro central é auxiliado por 3 árbitros que se possuem duas bandeiras (vermelha e azul) e assinalam com elas possíveis pontos ou infrações dos atletas, porém apenas o árbitro central pode validar o ponto. Os golpes dividem-se em 3 categorias de pontuação: ippon (um ponto), nihon (dois pontos) e sanbon (três pontos). As competições também podem ser por equipes (5 atletas) ou individual. Em ambas modalidades (kata e kumitê) as disputas se dão em uma área demarcada de 8mx8m.

Apesar não fazer parte do quadro de modalidades dos Jogos Olímpicos, o karate faz parte dos Jogos Sul-americanos e dos Jogos Pan-americanos. Além disso, anualmente existem as competições sul-americana e pan-americana de karate. O campeonato mundial de karate é realizado a cada dois anos.

 

Considerações Finais

Este trabalho teve como objetivo analisar como se deu o processo de esportivização do karate, resgatando sua história no contexto das transformações do Japão e registrando como se encontra organizado atualmente. Pudemos, então, observar que o karate foi aos poucos sofrendo um processo de esportivização ao passo que se desenrola uma mudança no modelo civilizador no Japão com a passagem do Xogunato ao Estado Moderno.

Gichin Funakoshi, que nasceu no mesmo ano do início da Era Meiji – período no qual o Japão unificou-se e configurou-se como um Estado Nacional nos moldes ocidentais – foi um dos principais responsáveis pelo processo de expansão do karate no Japão e no mundo, sendo considerado o pai do karate moderno. Por conseguinte, compreende-se melhor porque recebe está alcunha, quando a ele pode-se atribuir um papel fundamental na reconfiguração do karate em um formato que se tornou mais assimilável ao mundo porquanto ser mais adequado às práticas corporais e esportivas ocidentais.

Pode-se dizer que o karate apresentou três configurações em sua história. A primeira caracterizava-se pelo fim guerreiro e ético-religioso que a Arte Marcial possuía no período pré-moderno e ao qual, pelas razões expostas, é mais adequado atribuir o conceito de Bujutsu, tendo sido uma Arte Marcial proibida durante certo período, sua prática foi temporariamente secreta. Na segunda configuração encontramos o karate moderno proposto por Funakoshi e outros mestres okinawanos, surgindo o karate como método educacional mesclado aos princípios do Zen na forma do Budô, de maneira a constituir a função identitária do conjunto das novas práticas da educação física no novo país. Daí a antiga Arte Marcial remodelada se popularizar pelo Japão e depois pelo mundo associada às práticas ocidentais, tal como o caso do boxe pelos americanos durante a ocupação pós segunda guerra. Neste sentido, estavam dadas as condições para sua última configuração, qual seja a do karate como esporte de combate, com suas federações e competições.

Como afirma Pimenta (2007), a necessidade belicosa das Artes Marciais foi aos poucos sendo substituída e a obrigação do treinamento corporal visando à abstração do mundo pela elevação espiritual (características das Artes Marciais orientais) foi sendo abandonada para dar entrada a valorização do treinamento metódico, calculado, visando vitórias no campo esportivo.

Atualmente, o karate como esporte é o mais difundido no mundo, com regras, espaço próprio para a sua prática e acima de tudo com diminuição do grau de violência. Porém é possível encontrar professores de karate que enfatizam o lado tradicional da Arte Marcial. Assim como demonstram os trabalhos de Rocha (1992) e Lage et al (2007), os mestres de karate apenas descobriram o karate como modo de vida ou como o caminho das mãos vazias, após anos de prática e que a competição é apenas uma parte do karate.

Portanto, o karate nem sempre se apresentou como se encontra atualmente. Com a transformação da sociedade e cultura japonesas, sua prática também mudou. Atualmente pode ser considerada uma prática corporal moderna, visando a competição como esporte de alto rendimento, e em alguns casos como prática corporal tradicional, na forma de ascese voltada para a busca do equilíbrio espiritual e corporal do praticante.

 

Referências

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Endereço:
Carlos José Martins
Depto. de Educação Física UNESP – Rio Claro
Av. 24 A, 1515 Bela Vista
Rio Claro SP Brasil
13506-900
Tlefone: (19) 3526-4320 Fax (19) 3526-4321
e-mail: carlosjmartins@hotmail.com

Recebido em: 10 de fevereiro de 2009.
Aceito em: 03 de abril de 2009.

 

 

Esse artigo foi apresentado em Sessão Temática no VI Congresso Internacional de Educação Física e Motricidade Humana e XII Simpósio Paulista de Educação Física, realizado pelo Departamento de Educação Física do IB/UNESP Rio Claro, SP de 30/4 a 03/5 de 2009.
1 Dojo: local de treinamento das artes marciais
2 Katas: sequência de técnicas do karate
3 Disponível em: http://www.wonder-okinawa.jp
4 Disponível em: http://www.wonder-okinawa.jp

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