SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.18 issue1Olympic medal-winning swimmers: the Brazilian context of developmentNeuromuscular responses of the lower limb muscles during vertical jumping in volleyball athletes author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Motriz: Revista de Educação Física

On-line version ISSN 1980-6574

Motriz: rev. educ. fis. vol.18 no.1 Rio Claro Jan./Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1980-65742012000100015 

ARTIGO ORIGINAL

 

O ethos inglês e a identidade local: o cricket e o golfe em Cabo Verde1

 

The English ethos and the local identity: the cricket and the golf in Cape Verde

 

 

Victor Andrade de Melo

Programa de Pós-Graduação em história Comparada, Laboratório de História do Esporte e do Lazer (Sport), Escola de Educação Física e Desporto, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Endereço

 

 


RESUMO

Em Cabo Verde, podemos identificar que precocemente se estabeleceram as bases da organização do campo esportivo: foi significativo o número de agremiações fundadas entre o quartel final do século XIX e as décadas iniciais do século XX. Partindo do princípio de que a experiência do arquipélago constitui-se em tema interessante para refletir sobre a difusão do esporte pelo mundo, esse artigo tem por objetivo discutir a conformação do campo esportivo em Cabo Verde, especificamente do cricket e do golfe, relacionando-os tanto à influência estrangeira/britânica quanto a movimentos identitários locais.

Palavras-chave: História. Esportes. Cabo Verde.


ABSTRACT

In Cape Verde, we can identify early the organization of the sports field: there was a significant number of associations founded between the end of 19th century and 20th century beginning. Assuming that the experience of the archipelago is an interesting topic to think about spreading the sport around the world, this article aims to discuss the conformation of the sports field in Cape Verde, especially cricket and golf, relating it both to foreign/British influence as the local identity movements.

Keywords: History. Sport. Cape Verde.


 

 

Introdução

A mediação das relações sociais por meio de símbolos culturais, formas e eventos, tem sido um tema poderoso em estudos recentes da vida sob o regime colonial. Dicotomias simples de tradição e modernidade, dominação e resistência têm fracassado conforme os estudiosos têm procurado compreender o colonialismo como uma arena de negociação em que todos os tipos de transformações políticas, culturais e sociais foram elaborados (MARTIN , 1995, p.1).

O esporte, a princípio uma "invenção inglesa" que se sistematizou no formato moderno na transição dos séculos XVIII e XIX, rapidamente se espraiou pelo planeta no seio dos contatos materiais e simbólicos que marcaram fortemente o período. Pelo convés das embarcações, iam as modalidades que marcavam o caráter imperialista das elites britânicas, incorporadas aos hábitos de oficiais: cricket e golfe, por exemplo. Pelos porões, junto com os subalternos, iam aquelas que rapidamente tinham sido apreendidas pelos mais populares: futebol, notadamente. Nesse processo, as influências não foram lineares, lidaram com as peculiaridades históricas e culturais locais (MELO , 2010a).

Em Cabo Verde, colônia de Portugal até 1975, podemos identificar que precocemente se estabeleceram as bases da organização do campo esportivo. Foi significativo o número de agremiações fundadas entre o quartel final do século XIX e as décadas iniciais do século XX, no contexto do que SILVA e COHEN consideram: "um verdadeiro boom cultural produzido pela sociedade civil", que "organiza-se por sua conta e risco para pôr em pé instituições de ensino e de divulgação cultural" (2003, p.52).

Por que o "colonizado" caboverdiano se envolveu tão rápida e enfaticamente com a "novidade"? Não parece adequado somente aventar a ideia de que se tratou de um processo "mimético". Vale a pena tentar compreender a especificidade do caso do arquipélago2.

De um lado, há traços comuns com outras colônias africanas. A transição de uma sociedade eminentemente rural para outra com características mais urbanas ocasionou a paulatina conformação de uma dinâmica social marcada por um maior controle dos tempos sociais, algo que contribuiu para a conformação de uma nova organização dos divertimentos. Como lembra Martin (1995), até mesmo por isso, "enquanto europeus mais duros defendiam medidas punitivas, liberais investiam no conhecimento técnico das atividades de lazer, como o esporte e as novas formas de música" (p.71).

De outro lado, há especificidades. Uma delas é o fato de que os caboverdianos aprenderam a bem lidar com a dubiedade colonial de Portugal, que sobrepunha as noções de império e nação, postura relacionada à necessidade de manutenção dos seus territórios em África, à peculiaridade do desenvolvimento econômico da metrópole (a colonização portuguesa não foi fruto da industrialização) e à própria construção da ideia de uma nação que extravasava o continente europeu, algo que tinha mesmo relação com as características geográficas e com a trajetória histórica do país.

Como afirma Pimenta (2010): "o nacionalismo português teve uma expressão sobretudo colonial, no sentido em que procurou o seu fundamento na expansão colonial e na conquista de um novo Império em África" (p.21). Foi a partir das brechas e contradições dessa compreensão, o Império como nação, que foi se constituindo uma protonação com aspirações modernas no meio do Atlântico: Cabo Verde (FERNANDES , 2006).

Portugal, na verdade, até mesmo por sua condição semiperiférica (SANTOS , 1985), teve menos influência no desenvolvimento das novas práticas do que aquela nação que era mesmo quase um colonizador do colonizador, a Inglaterra. Aliás, na metrópole ainda claudicava a consolidação dos esportes.

Não era uma característica costumeira dos britânicos impor, onde se estabeleciam, todos os seus traços culturais, entre os quais os esportes, em muitas oportunidades, inclusive, considerados por eles "inacessíveis" para aqueles que não dispunham, numa visão colonial, dos mecanismos sensórios e intelectuais para entender o seu refinado funcionamento (especialmente os ideais de cavalheirismo e fair play)3. Tampouco, pelo menos em Cabo Verde, os portugueses tinham o claro intuito de usar a prática esportiva como instrumento de controle e de disciplinarização. No máximo, com muitas ressalvas, os clubes se constituíram em espaços de autoidentificação dos colonos em territórios insulares.

Qual terá sido, então, a peculiaridade da introdução e consolidação do esporte no caso caboverdiano? Partindo do princípio de que a experiência do arquipélago constitui-se em tema interessante para refletir sobre a difusão da prática pelo mundo, esse artigo tem por objetivo discutir a conformação do campo esportivo em Cabo Verde, especificamente do cricket e do golfe, relacionando-os tanto à influência estrangeira/britânica quanto a movimentos identitários locais.

 

A "civilização" caboverdiana e o esporte

A rápida adesão ao esporte observável no arquipélago parece ter relação com o conjunto de iniciativas que visava subverter a consideração do colonizador de que o nativo se tratava de "alguém menor":

Os caboverdianos, ao mesmo tempo em que dialogavam com um processo macro, deram uma solução específica: não esperaram iniciativas de "civilização" por parte do colonizador, trataram eles próprios de se mostrar "civilizados". Devemos lembrar que essa condição, em certa medida, era reconhecida pela própria metrópole, que concedia a Cabo Verde certas exceções no tratamento colonial.

Essa postura terá sido possível porque, em função das características históricas específicas do arquipélago, desde o século XVIII gestou-se uma elite crioula que, na transição dos séculos XIX e XX, na articulação com o desenvolvimento de um precoce sistema de educação e de uma imprensa ativa, passou a ser conformada por uma intelectualidade local que forjou um discurso próprio sobre o ser caboverdiano: a caboverdianidade, que com o decorrer do tempo logrou alto grau de penetração e aceitabilidade entre os diversos estratos sociais do arquipélago (FERNANDES , 2006).

Progressivamente passou a ser construída "a ideia de que o caboverdiano desenvolveu um ethos próprio que o distingue dentro do contexto regional africano e universal" (GRAÇA , 2007, p.40). Como bem resume Anjos (2006):

A narrativa dominante sobre a identidade nacional caboverdiana pode ser formulada em poucas palavras: Cabo Verde era um arquipélago despovoado até a chegada dos portugueses no século XVI; colonos portugueses e escravos originários de várias etnias africanas se misturaram ao longo de cinco séculos dando origem a uma raça e cultura específicas - a cultura crioula, e o mestiço como tipo humano essencialmente diferente tanto do europeu como do africano (p.21).

Era necessário materializar a autorrepresentação em construção com um conjunto de elementos simbólicos e materiais, entre os quais podemos situar a língua (o crioulo), a música e a prática esportiva. Por isso pode-se compreender porque a importância da classe letrada, segundo França (apud GRAÇA , 2007, p.50), tinha exatamente como um dos indicadores "o elevado número de associações de natureza recreativa e cultural fundadas em todas as ilhas".

Podemos supor, então, que a adoção de novas práticas esportivas se tratava de uma postura emancipatória? De certa forma sim, todavia no caso caboverdiano a reivindicação básica não era a autonomia jurídica, mas sim o pleno reconhecimento como parte do "glorioso império português". Como bem lembra Fernandes (2006), tratava-se, nesse momento de: "Uma luta não propriamente contra a soberania nacional, mas contra o trato colonial. Ou seja, aceitam os pressupostos nacionalizantes, mas propugnam a eliminação dos marcos diferenciais legitimadores das práticas coloniais" (p.42).

Nesse quadro, o esporte ter-se-á constituído como uma "prática deslizante", uma das ferramentas que contribuiu para a "reavaliação das bases de legitimação e lealdade nacionais, para a reinterpretação dos seus sentidos e prática para a (re)emergência de novos sujeitos" (FERNANDES , 2006, p.33).

Assim, da articulação entre o contexto português (o liberalismo monárquico; os movimentos pela república; a necessidade de referendar o controle nas colônias africanas), o quadro internacional (as novidades da modernidade que desembarcavam no mundo, ainda mais nos países que tinham portos em situação privilegiada) e o cenário interno (uma elite local letrada que desejava provar seus parâmetros civilizados), desenvolveu-se uma nova dinâmica social na qual as atividades esportivas encontraram terreno fértil para se instalar e se desenvolver como em poucas colônias africanas parece ter ocorrido.

Entre as ilhas de Cabo Verde, as práticas esportivas organizaram-se pioneiramente em São Vicente, que na transição dos séculos XIX e XX exibia uma vitalidade cultural, em função de possuir um dos mais importantes portos do Atlântico. Falemos de Mindelo, a capital.

 

Os ingleses em Mindelo

Cabo Verde foi um local estratégico na constituição do Atlântico como espaço de circulação. A ocupação da Ribeira Grande, a primeira capital, e de Praia, a segunda e atual capital, ambas localizadas na Ilha de Santiago, tem relação direta com essa condição: "Se por um lado suficientemente próxima dos mercados, de modo a funcionar como base de rápidas incursões comerciais à costa, a ilha, por outro, situava-se distante o bastante para compensar os perigos de uma possível instalação comercial" (SILVA , 1998, p.8).

A ocupação de São Vicente teve, todavia, peculiaridades que marcariam as diferenças entre as duas principais ilhas do arquipélago:

Se a Ribeira Grande havia sido produto de um Atlântico quinhentista ordenado politicamente pelo Tratado de Tordesilhas e dominado pelo tráfico negreiro, a cidade do Mindelo é, ao inverso, filha da hegemonia inglesa e do ordenamento político saído da Convenção de Viena de 1815. Do ponto de vista tecnológico, a vela e o correio marítimo são parcialmente substituídos pelo vapor e a telegrafia por cabo submarino. Esse novo enquadramento reinventa o arquipélago de Cabo Verde, tendo no centro a cidade do Mindelo de São Vicente (SILVA , 1998, p.33).

No decorrer do século XIX, com a expansão do comércio internacional que fazia uso de navios a vapor, tornou-se necessário o estabelecimento de entrepostos para abastecimento de carvão. A Baía de Mindelo, que estava no caminho de várias importantes rotas navais, tinha boas condições para receber embarcações de maior porte.

A princípio, como lembra Silva (2000), os movimentos de ocupação definitiva de São Vicente tinham a ver tanto com repercussões da independência brasileira quanto com os desdobramentos do liberalismo em Portugal. Mas foi mesmo o novo quadro internacional e as demonstrações de interesse da Inglaterra que funcionaram como agentes motivadores de fundamental importância.

De fato, as relações entre Portugal e Inglaterra já eram fortes e desiguais desde o Tratado de Methwen, assinado em 1703. A Revolução Industrial e as Guerras Napoleônicas tornaram ainda maior a dependência da nação lusitana; as tentativas de reduzir a influência britânica, como por ocasião da Revolução Liberal de 1820, não lograram sucesso. Em 1842, um novo tratado acaba por ampliar para os ingleses os proveitos dos contatos comerciais entre os países. Nesse percurso, não foram poucos os que consideraram Portugal como um "quintal" da Grã-Bretanha.

É nesse contexto que os britânicos acabam por conseguir aquilo que os portugueses não haviam antes alcançado: a ocupação e o desenvolvimento econômico de São Vicente (SILVA , 2000). No decorrer da segunda metade do século XIX, em Mindelo se instalam, ligadas à navegação e ao carvão, muitas companhias de capital inglês. Além disso, nas décadas de 1870 e 1880, a Western Telegraph instalou linhas telegráficas entre Cabo Verde, o Brasil e a Europa:

Assim, o arquipélago de Cabo Verde transforma-se num importante pólo do sistema telegráfico mundial, com evidentes repercussões no desenvolvimento local e no aumento de empregos para os nacionais, a par de significativa presença inglesa em S. Vicente (BARROS , 2008, p.23).

Dessa maneira, na segunda metade do século XIX: "Quase todos os fluxos de mercadorias e de homens, quase todos os circuitos de comunicação (...), em suma, quase tudo o que atravessa o imenso Atlântico está condenado a utilizar a ilha de S. Vicente e o seu Porto Grande" (SILVA , 2000, p.16).

É consenso que, nesse processo, a influência dos britânicos ultrapassou os aspectos comerciais, se transformou em oportunidades de interrelações e trocas culturais, tendo deixado como marcas certos costumes que se estabeleceram como símbolos identitários.

José Augusto Martins, narrando uma viagem que fizera à ilha de São Vicente, na década final do século XIX, a bordo de um paquete da Empresa Nacional Portuguesa, observa que, desde o navio, de nacional só mesmo a bandeira e uma parte da tripulação; de resto, tudo era inglês.

Ele observa que Mindelo era uma cidade bastante diferente das outras localidades africanas:

E é aí, na comunidade e ao impulso do exemplo inglês, que o seu povo tem adquirido com os hábitos do trabalho e da dignidade da vida, e com o gozo das comodidades experimentadas, o estímulo de ambições que o impelem a progredir. E tudo o quanto é São Vicente hoje, e toda a benéfica influência que ela exerce nos destinos de Cabo Verde, é devida direta ou indiretamente aos ingleses, é preciso dizê-lo com justiça (MARTINS , 1891, p.87).

Martins, todavia, faz ressalvas, lançando um olhar crítico para a ferocidade dos ingleses no que se refere aos negócios:

Hoje, esta ilha verdadeiramente não é nossa, ou é-o apenas naquilo e pela maneira que os ingleses querem que ela seja. A quase totalidade dos terrenos do litoral, tanto do Porto Grande como da Bia da Matiota, onde se podiam estabelecer depósitos de carvão, foram concedidos imprevidente e criminosamente aos ingleses (1891, p.87).

Outro que ressaltou a presença britânica, de forma mais entusiasmada, foi Francisco Xavier da Cruz, o B.Léza, um dos grandes nomes da música de Cabo Verde, que celebrou tal relacionamento no livro Razão da amizade caboverdiana pela Inglaterra. Para além de demonstrar pontualmente a existência de elementos culturais dos ingleses no arquipélago, o compositor argumenta que houve influências na personalidade do caboverdiano, notadamente no que se refere a uma postura cosmopolita.

Na visão de Manuel Lopes , o reflexo desse cosmopolitismo "na maneira de ser do povo daquelas ilhas, na sua educação, na sua cultura, no seu caráter, na sua sensibilidade", transformaram São Vicente na "sala de visitas do arquipélago crioulo" (1959, p.10). Segundo ele:

Por influência do Porto Grande, que lhe deu a possibilidade de um convívio permanente com outros povos e outras terras, o caboverdiano é sensível ao que se passa mundo afora (...). A mocidade ama também o desporto, que é praticado em grande escala (p.11).

Discutamos a influência dos ingleses no desenvolvimento dos esportes em Cabo Verde.

O esporte como influência inglesa

Era habitual, nas diversas localidades em que os britânicos se instalavam, a criação de clubes que ofereciam, para os que se encontravam distantes de Londres, atividades que funcionavam como elementos de status e distinção, alternativas de encontro e autoidentificação, oportunidades para "combater a monotonia". Entre essas, a prática esportiva era muito apreciada.

Na verdade, o ethos esportivo já marcava as lideranças inglesas desde as public schools, como mostra Richard Holt (1989) e enfatiza Kirk-Greene (1987):

a qualificação de ser um bom esportista (sempre como um amador, nunca um profissional, com todas as nuances de classe inerentes a tal status) era de uma só vez um produto integral das public schools, bem como uma abertura social e um cartão de apresentação profissional. Em termos gerais, a partir de 1850, certamente até 1939, e frequentemente até os anos 1950, o sucesso no esporte escolar e universitário forneceu o denominador comum entre a gentry, as profissões da cidade e a fidalguia colonial (p.84).

Se a habilidade esportiva se tratava de uma qualidade relevante para os que vislumbrassem ocupar postos de importância no Império Britânico, Kirk-Greene sugere que era algo ainda mais considerado para os que iriam trabalhar na África, em função da compreensão de que eram mais rígidas as exigências no que se refere às condições da natureza e estruturais locais.

Os ingleses, portanto, levaram alguns de seus hábitos para as localidades em que se estabeleceram; mas se eram seletivos, como se deu a difusão do esporte? Em alguns casos, a prática foi utilizada como forma de estabelecer relações com a elite local. Em outras oportunidades, por motivos diversos, não havendo possibilidade de organizar jogos exclusivos, convidavam-se alguns nativos a participar. Em muitas ocasiões, os locais aproveitavam os espaços de interrelação para aprender os fundamentos das "novidades".

Ramos (2003) nos dá alguns indícios de que algo semelhante ocorreu em São Vicente, onde os ingleses também organizaram suas atividades esportivas:

Devo esclarecer que os ingleses possuíam, cá no Mindelo, 5 courts de tênis espalhados pela cidade e 2 estrados de cimento armado para a prática do cricket, sendo um na chã de Alecrim e outro na antiga Salina, hoje Praça Estrela. Desses 5 courts, o primeiro foi construído no século passado no Quintalão da Vascónia, mesmo junto ao citado Pavilhão da Salina, e, além disso, eles construíram também 2 campos de golfe nos arredores da cidade (p.95).

Segundo seu olhar, discorrendo sobre a influência britânica no desenvolvimento de hábitos esportivos entre os habitantes da ilha:

apesar dos britânicos viverem isolados do povo, havia sempre nacionais que os acompanhavam no seu dia-a-dia, por exemplo, como serventes, ajudantes, como caddies no golfe, no tênis, apanha-bolas no futebol, aprendendo, imitando os costumes e o estilo característico dos ingleses, transmitindo simultaneamente à geração...Eles deixaram profundas raízes e marcas indeléveis, quer nos grandes da sociedade e também nos habitantes humildes de São Vicente (...) No desporto, então, é que nos deixaram profundamente vincados, em todo desporto praticado em S. Vicente, desde o futebol, o tênis, o cricket, o golfe, o basebol (o chamado rodeada pau ou corrida pau), o footing, a natação, o cross, o uso constante do short branco e camisola e meias altas da mesma cor (RAMOS , 2003, p.92).

Esses espaços de contato, portanto, parecem ter sido fundamentais para que o esporte, a princípio uma prática de europeus, fosse se espraiando e enraizando na ilha. Um exemplo: no dia de Natal, era comum que os ingleses promovessem festas populares, oportunidades de encontros com os nativos; o mesmo se passava nas festividades do dia 22 de janeiro, data comemorativa do município. Nessas ocasiões era comum a organização de atividades esportivas entre britânicos e os caboverdianos.

Outro exemplo. Ingleses, funcionários das empresas carvoeiras, estiveram entre os primeiros habitantes da Praia da Matiota. Por lá fundaram um clube de tênis, instalaram uma agremiação de cricket e construíram um trampolim de saltos. Ainda que os nativos achassem, à época, distante essa parte do litoral, para lá se dirigiam para acompanhar os britânicos praticando esportes, oportunidades em que tinham contato com as novas atividades. Não surpreende saber que durante muitos anos esse balneário foi utilizado pelos caboverdianos para a prática esportiva.

Enfim, como fruto desses encontros, paulatinamente os caboverdianos foram adquirindo novos hábitos. Criavam-se inclusive estratégias para que as práticas dos ingleses fossem reproduzidas, a despeito da escassez de material:

os meninos da rua entretinham-se a jogar futebolim com bola de meia, ou então tênis com raquetes feitas de tabuinhas de caixote de petróleo. Outras vezes, jogávamos o cricket com tacos de tona de rama de coqueiro e bola dura forrada de linha de fieira (RAMOS , 2003, p.165).

Entre os esportes que se desenvolveram por influência dos ingleses, dois merecem destaque por terem sido apreendidos nas construções identitárias das lideranças intelectuais do arquipélago: o cricket e o golfe.

 

O cricket

Segundo informa Barros (1998), o primeiro a organizar uma equipe de cricket no arquipélago foi o inglês John Miller, da companhia Miller's & Cory's, no que logo foi seguido por funcionários da Wilson & Sons e da Western Telegraph. Em 1879, os jogos eram disputados em um campo construído pela Cory Brothers, na antiga Salina. Esse espaço tornou-se:

o campo oficial de futebol e era onde se praticava atletismo e todas as modalidades desportivas, desde o futebol, cricket, corridas de velocidade, saltos à vara e em altura, lançamento do dardo e do disco, enfim, uma autêntica escola do desporto mindelense! (RAMOS , 2003, p.16).

Com o decorrer do tempo, passaram a ser acompanhados com interesse os tradicionais torneios de cricket, que seguiam o ritual britânico, inclusive com o "five o'clock tea":

Os espectadores lá fora à volta do campo eram o povo em geral que apreciava bastante esse desporto e ia aprendendo e aperfeiçoando os seus conhecimentos por essa modalidade desportiva praticada pelos britânicos em São Vicente. Com muita atenção fixavam a técnica de "bowler", do "wicket keeper", da colocação do "bat" na marca do tapete e na dos jogadores ao largo do estrado (RAMOS , 2003, p.94).

Não tardou para que os mindelenses começassem a também organizar seus jogos, seja aproveitando os horários vagos das canchas inglesas (algo nem sempre visto com bons olhos pelos estrangeiros) seja criando seus espaços próprios (ainda bem precários, é verdade). Logo estavam disputando partidas contra equipes de tripulações de navios que atracavam no Porto Grande.

Em 1913, conforme informam Papini (1982) e Ramos (2003), Jonatham Willis e George Smalcomb solicitaram um terreno para a construção de um pavilhão de cricket no Alto da Matiota, localidade que depois ficou mais conhecida como Chã d'Alecrim ou Chã do Cricket, lá instalando o St. Vicent Cricket Club. O campo da Salina ficou para os mindelenses realizarem seus jogos.

Poucos anos após, os naturais criaram suas agremiações próprias: o Clube Africano de Cricket (1915), o Grêmio Sportivo Caboverdiano (1916) e o Club Sportivo Mindelense (1922). Com isso, aumentaram as rivalidades entre os estrangeiros e os da terra, como lembra o músico B.Léza:

Ainda nos lembramos aquelas saudosas tardes cheias de sol doirado, em que os ingleses desembarcavam na ponte da Alfândega ou no cais número um, trazendo as bandas de música que enchiam de alegria as ruas do Mindelo até o Campo da Salina ou da Matiota, onde se disputavam os desafios de cricket ou de futebol, entre caboverdianos e ingleses (apud Barros , 1998, p.11).

Se o cricket foi, em Cabo Verde, o grande esporte da transição dos séculos e primeiras décadas do século XX, a partir da década de 1920 a prática entra em decadência. Para Barros (1998), dois foram os motivos principais: a redução do número de ingleses em Mindelo, em função da diminuição do movimento do porto; e o fim do Campo da Salina, com a sua substituição por uma base militar.

Entre as décadas de 1920 e 1940, os ingleses ainda organizavam jogos esparsos de cricket, mas pareciam mesmo mais interessados no golfe. Baltasar Lopes e Antonio Gonçalves promoveram algumas partidas. Houve disputas eventuais entre equipes locais. Sob a presidência de Joaquim Ribeiro, a Associação Desportiva de Barlavento organizou o primeiro e único campeonato da modalidade em São Vicente, com a participação de quatro clubes: Mindelense, Castilho, Acadêmica e Amarante. Houve algumas contendas entre agremiações locais e de times de navios que chegavam a Mindelo. Foram promovidos alguns eventos em homenagem a personalidades esportivas, como Luis Terry e B. North Lewis, na ocasião em que voltaram a seus países de origem. Alguns praticantes, especialmente funcionários da Fábrica Favorita4, tentaram improvisar campos no Estádio da Fontinha, no Campo do Dji D'Sal, na Cova Inglesa, na Amendoeira, no Chã do Cemitério; jamais, contudo, recuperou-se um espaço adequado.

Uma notícia sobre disputas entre equipes do Mindelense, do Castilho, do Sporting e da Acadêmica, realizadas em setembro de 1946, dá o tom do que ocorria: "O desaparecimento prolongado a que o cricket foi votado fez com que os elementos perdessem algumas qualidades"5.

Jornalistas e intelectuais assumiram a vanguarda da defesa e da promoção da prática. Lembrando de sua suposta contribuição para o forjar de um jeito caboverdiano de ser (obviamente trata-se de uma construção discursiva), cobram que as autoridades entabulem esforços para a manutenção de um hábito que faz parte da história de Cabo Verde. Seria em vão. O reinado do cricket chegara ao fim.

De qualquer forma, o esporte deixara marcas na construção identitária de Cabo Verde, fora apreendido como um dos indicadores que demonstrava a cultura elevada dos caboverdianos, ainda mais dos mindelenses, que se julgavam não poucas vezes como exemplos do sucesso da expansão da cultura lusa pelo mundo. Muitos anos depois, lembraria com saudade Baltasar Lopes:

Como será do conhecimento, mais ou menos documentado, de todos, o cricket foi o que hoje se chama o desporto-rei de São Vicente até as duas ou três primeiras décadas neste século. Com os dois "campos" a ele destinados (o esteirado da Salina e o da Chã de Cricket, no Alto da Matiota) o magnífico desporto ("jogo", para ser mais fiel à terminologia vernácula) enchia de sadio entusiasmo as tardes mindelenses. Os seus ases eram outros tantos herois populares (apud Barros , 1998, p.67).

 

O golfe

A prática do golfe sempre teve um sentido bastante inusitado na Ilha de São Vicente, tão curioso que a destacou mundialmente. Um dos aspectos mais peculiares é o fato de que, em função das condições climáticas, das características do solo e da escassez de água, e logo das consequentes dificuldades para cultivar grama, os campos nunca foram exatamente "greens", mas sim "browns". O Clube de Golfe de São Vicente até hoje segue sendo o único do mundo que disputa suas provas em um campo de terra.

Outro aspecto curioso é que comumente se argumenta que no arquipélago, especificamente em São Vicente, trata-se o golfe de uma prática popular, acessível a todos. Vejamos como Baltasar Lopes se refere ao tema no prefácio do livro de Barros (1981):

Como se sabe, o golfe pertence ao número das atividades desportivas reservadas ao escol social, definido, em regra, pelas suas disponibilidades financeiras. Ora, em São Vicente assiste-se (assistiu-se sempre no que creio poder afirmar) ao fato curioso de a prática do golfe ter sido sempre livre, isto é, aberta a todas as camadas da população, bastando apenas o gosto pela modalidade e o mínimo de aparelhagem técnica (p.5).

Segundo Lopes, isso se tornou possível porque quem vivia próximo dos campos de golfe aproveitou para aprender o jogo, criando alternativas para praticá-lo:

Refiro-me ao fato de, então, os garotos terem os seus "campinhos" espalhados por toda a cidade e adjacências: era cavar um buraco no chão, para meter a bola num plôche - crioulização de approach, e com o único pau para todo serviço (era o lofta) já estava o jogo instalado e implantado (apud Barros , 1981, p.6).

Com o golfe teria ocorrido um processo semelhante ao que se dera com o cricket: se a princípio era uma prática exclusiva e restrita, logo os nativos se aproximaram e se apropriaram.

Será que isso pode ser mesmo observado ou trata-se de mais uma construção ideal relacionada aos sentidos e significados que adquiriu a caboverdianidade no decorrer da história? O tema deve ser analisado na interface das duas alternativas.

Segundo Barros (1981), já no século XIX um grupo de ingleses construiu um campo na Ilha de São Vicente, onde eram disputados jogos com certa constância. Provavelmente o autor se refere aos terrenos da Praia da Galé, que solicitaram, em 1853, Thomas e George Miller e George Rendall, onde depois instalaram um clube de golfe e um campo de futebol (Papini , 1982). Maior referência merece a criação, na década de 1920, do St. Vicent Golf Club, cujo campo de 18 buracos foi instalado próximo à Cova da Inglesa.

Em 1933, da fusão dessa agremiação com outros clubes fundados pelos britânicos no decorrer das primeiras décadas do século XX, foi criado o St. Vicent Golf Cape Verde Island and Lawn Tennis Club, restrito a ingleses.

Em 1938, estimulados pelo sucesso de um campeonato aberto, alguns mindelenses fundaram uma sociedade própria, o Lord Golf Club. Na verdade, já existia um clube de futebol chamado Lord, que muda de perfil e passa exclusivamente a se dedicar ao cricket e ao golfe (Barros , 1981). Nesse momento já havia também competições entre os sócios de outras agremiações locais (o Clube Sportivo Mindelense e o Grêmio Recreativo Castilho, por exemplo) e disputas festivas que procuravam seguir o ritual inglês da prática.

Segundo Barros , na ocasião, em Mindelo, três grupos praticavam o golfe: "Os ingleses utilizavam o Campo da Amendoeira (Big Tree) e parte do antigo Campo da Cova Inglesa; os 'portugueses' (grupo liderado por Virgílio Malheiros) e os jogadores do Lord utilizavam esse ultimo campo" (1981, p.18).

Aproveitando que os ingleses do St. Vicent mudaram de sede (da Cova para a Amendoeira), para se afastarem ainda mais dos nativos e dos funcionários públicos portugueses, de forma a manter o sentido de exclusividade, os ligados ao governo colonial, liderados pelo Capitão Ferreira Pinto, administrador de São Vicente, fundaram, em 1940, uma nova agremiação: o Clube de Golfe de São Vicente.

Com isso, os mindelenses, que já encontravam restrições para jogar, foram impedidos de frequentar o antigo campo da Cova Inglesa. Os membros do Lord, então, conseguiram autorização governamental e construíram, em poucos meses, com seus recursos, um campo de 18 buracos, onde ficaram por quatro anos.

Ao comentar o que considerou um grande esforço e exemplo de organização de todos que contribuíram para tal empreitada, Barros afirma que o fizeram por "amor à terra natal". Mas amor a uma terra que lhe tirava os terrenos (Portugal)? Ou aqui se refere a Cabo Verde? Ou tratava-se mesmo de uma declaração de amor ao esporte que tanto significava para os envolvidos?

Ao fim, Barros (1981) lembra: "o golpe do Capitão Ferreira Pinto estava condenado a um fracasso, na medida em que o golfe tinha raízes muito profundas na massa popular do Monte, Dji de Sal e Monte Sossego" (p.19). Os caboverdianos foram convidados a integrar o Clube de Golfe de São Vicente, já que os portugueses não davam conta de mantê-lo; com isso deixa de existir o Lord.

A construção de narrativas heróicas ao redor do golfe é uma ocorrência comum na história do arquipélago. Elas se articulam plenamente com a mobilização identitária desse esporte: a difusão da prática por entre vários estratos da população teria ocorrido, na representação mais comum, porque o caboverdiano, educado o suficiente para entender o valor do jogo, teria constantemente lutado para garantir algo que lhe parecia um direito, uma postura que construíra no próprio processo de forja do seu jeito peculiar de ser.

O golfe, ao contrário do cricket, seguirá bem estruturado, ainda que tenha enfrentado dificuldades na década de 1960. O clube dos ingleses, inclusive, solicitou à administração a aprovação de mudanças em seus estatutos, para que fossem aceitos sócios não britânicos, uma expressão de que tinha na ocasião um número menor de membros.

Aproximadamente na mesma época, a Associação Desportiva de Barlavento chamava a atenção das autoridades sobre a necessidade de incentivos para manutenção da outra agremiação:

Ao contrario das generalidades dos clubes locais, cuja fundação partiu de iniciativa particular, o Club de Golf de São Vicente foi fundado por determinação do governo da província (...). Esta circunstancia é suficientemente eloquente quanto ao reconhecimento por parte do governo local da conveniência, não só sob o ponto de vista desportivo como também no que ao interesse turístico se refere (...). É verdade que o numero de estrangeiros em trânsito pelo porto de São Vicente que tem utilizado o campo de golfe local não tem sido aquilo que seria para desejar, circunstância que depende dos vários fatores que infelizmente até hoje tem contribuído para que o turismo nesta ilha ainda esteja longe de atingir o mínimo que as nossas condições poderiam justificar. Estamos certos, contudo, de que uma vez que sejam melhoradas as condições de atração de turistas a esta ilha, e que o Club de Golf de São Vicente tenha conseguido os auxílios de forma condigna, a sua existência virá a traduzir-se em um valioso elemento a colaborar com os restantes fatores de valorização turística de nosso meio6.

Em 1969, o St. Vicent Cape Verde Golf and Lawn Tennis (formado majoritariamente por britânicos) e o Clube de Golfe de São Vicente (formado por nativos e portugueses) fundiram-se, dando origem ao Clube Anglo-Português de Golfe de São Vicente.

Curiosa essa união. Quando se observa as fotos das duas agremiações se percebem as grandes diferenças. As imagens do antigo Lord Golf e do Clube de Golfe de São Vicente são marcadas pela majoritária presença de crioulos, com nomes portugueses; praticamente não há mulheres. Já os instantâneos do St. Vicent são marcados pela presença quase exclusiva de brancos, com nomes ingleses; há muitas mulheres e crianças.

Se um dos alegados motivos da união foi a redução da presença de britânicos na Ilha, segundo o olhar de Barros (1981) houve ainda outra razão relevante, que merece ser discutida por referir-se a uma construção identitária. Uma divergência interna no clube de crioulos teria levado à presidência José Duarte Fonseca e Mário Matos, que, de acordo com a visão do autor, promovendo um elitismo incomum na história da agremiação, tramaram com o governo central a possibilidade de junção, aproveitando um momento em que, por motivos diversos, muitas antigas lideranças esportivas se encontravam fora de São Vicente ou mesmo de Cabo Verde. Para o autor, tratou-se de um desvio da tradição, uma verdadeira traição à trajetória do golfe caboverdiano.

É nessa época que ocorre uma história que entrou para a memória do arquipélago. Quando Adriano Moreira, Ministro do Ultramar que tinha simpatia pela ideia de transformar Cabo Verde em ilhas adjacentes a Portugal, esteve em Mindelo, teria sido marcado um almoço no Clube de Golfe. A PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) informou que faria uma inspeção nas instalações, o que levou a direção a tentar cancelar a recepção, ultrajada que se sentira pela desconfiança.

Ao saber dessa decisão, por intermédio do governador da província, Silvino Silvério, Moreira determinou que a PIDE não se envolvesse. Segundo Barros (1981), o órgão acabou, como vingança, os incomodando durante meses. A representação propalada é de dupla ordem: o caboverdiano não pode se tratado como suspeito; o caboverdiano tem fibra e sempre resistiu.

A visita de Moreira a Mindelo foi cercada de tensão e rejeição. A questão não era mais só a velha reivindicação de que Cabo Verde era Portugal, o que seria conformado com a adoção da adjacência, mas sim a necessidade de resolver definitivamente os problemas das ilhas, especialmente da decadente São Vicente. Além disso, o pensamento de uma nova geração de intelectuais já estava sendo semeado, apontando a independência, ou ao menos uma maior autonomia administrativa, como diretriz a ser buscada.

No novo momento da história de Cabo Verde, que começa em 1975, quando a colônia se torna independente, se em um primeiro instante o Clube de Golfe enfrenta dificuldades por ser considerado elitista pela nova administração governamental, que adotara o modelo de partido único de viés socialista, logo o esporte será recuperado como expressão da identidade caboverdiana, até hoje dramatizando as tensões do país (Melo , 2010b).

 

Conclusão

Nem todos os esportes, a despeito de serem praticados por ingleses, se consolidaram em Cabo Verde. Ramos (2003), por exemplo, lembra que entre os britânicos a prática da natação e das regatas era comum. Nas fontes com as quais trabalhei, encontrei ocorrências dessas modalidades como prática informal ou como estratégia de formação de entidades juvenis, mas não muitos exemplos de competições estruturadas, o que sempre me pareceu curioso, já que o arquipélago, a princípio, forneceria todas as condições para estimulá-las, inclusive porque muitos caboverdianos se destacaram como bons profissionais da área náutica.

Pelos jornais, eventualmente apareceram mesmo reflexões sobre essa ausência. Em 1980, quando Cabo Verde sagrou-se vitorioso nessas modalidades, em um torneio internacional realizado com a Guiné-Bissau e com o Senegal, o jornalista de Voz di Povo comentara ironicamente que o país vencera exatamente naquilo em que se encontrava menos desenvolvido7. Aliás, no ano anterior, em um número especial desse periódico, dedicado ao esporte, uma matéria discutia o tema: "Desportos náuticos: uma vocação de Cabo Verde"8.

Uma vez mais se constatava a ausência de competições: "Não estivesse o mar, todos os dias, a banhar-nos a cara, e o corpo de alguns de seus amantes desportistas ali e acolá, e teríamos esquecido da sua presença para a prática da máxima romana, mente sã em corpo são" (p.17). No decorrer da matéria ficamos sabendo que quando ocorriam provas de remo sequer se utilizavam os barcos adequados, mas sim botes de pesca, "por ser o tipo disponível".

Nesse mesmo número informa-se que o governo pretendia fundar um Clube Náutico, que deveria assumir a função de "núcleo dinamizador para o ressurgimento do desporto náutico", responsável por "incentivar o interesse de nosso público pelo mar" (p.17). A título de comparação, o Clube Naval de Luanda foi fundado em 1883, permanecendo ativo até os dias de hoje.

De outro lado, o futebol, também uma influência dos britânicos, tornou-se a principal modalidade do arquipélago. De qualquer maneira, jamais alcançou, no âmbito dos discursos, o grau de respeitabilidade do cricket e do golfe, esportes que foram e por muitos segue sendo considerados como uma perfeita expressão do alto grau civilizado da cultura caboverdiana, uma leitura que nos mostra como é mesmo o seu caráter "glocal" (GIULIANOTTI ; ROBERTSON, 2009) uma das chaves que ajuda a entender a grande difusão e popularidade da prática esportiva: ela dialoga com o internacional, mas é constantemente relida pelas lentes locais.

 

Referências

ANJOS, J. C. G. Intelectuais, literatura e poder em Cabo Verde: lutas de definição da identidade nacional. Porto Alegre: UFRGS Editora, 2006.         [ Links ]

BARROS, A. Subsídios para a história do golf em Cabo Verde. São Vicente: Clube de Golfe de S. Vicente, 1981.         [ Links ]

BARROS, A. Subsídios para a história do cricket em Cabo Verde. Praia: COC/CPV, 1998.         [ Links ]

BARROS, M. E. L. São Vicente: prosperidade e decadência (1850-1918). Porto: CEA/UP, 2008.         [ Links ]

FERNANDES, G. Em busca da nação: notas para uma reinterpretação do Cabo Verde crioulo. Florianópolis: Editora da UFSC, 2006.         [ Links ]

GIULIANOTTI, R. Os estudos do esporte no continente africano. In: MELO, V. A.; BITTENCOURT, M.; NASCIMENTO, A. (orgs.). Mais do que um jogo: o esporte no continente africano. Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.         [ Links ]

GIULIANOTTI, R.; ROBERTSON, R. Globalization and football. Londres: Sage, 2009.         [ Links ]

GRAÇA, C. Q. L. Cabo Verde: formação e dinâmicas sociais. Praia: IIPC, 2007.         [ Links ]

HOLT, R. Sport and the British: a modern history. New York: Oxford University Press, 1989.         [ Links ]

KIRK-GREENE, A. Imperial administration and the athletic imperative: the case of the district officer in África. In: BAKER, W. J.; MANGAN, J. A. (Eds.). Sport in Africa: essays in social history. Nova Iorque: African Publishing Company, 1987. p. 81-113.         [ Links ]

LOPES, M. Reflexões sobre a literatura cabo-verdiana. In: JUNTA DE INVESTIGAÇÕES DO ULTRAMAR. Colóquios cabo-verdianos. Lisboa: Centro de Estudos Políticos e Sociais, 1959.         [ Links ]

MARTIN, P. M. Leisure and society in colonial Brazzaville. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.         [ Links ]

MARTINS, J. A. Madeira, Cabo Verde e Guiné. Lisboa: Livraria de Antonio Maria Pereira, 1891.         [ Links ]

MELO, V. A. M. Esporte e lazer: conceitos: uma introdução histórica. Rio de Janeiro: Apicuri, 2010a.         [ Links ]

MELO, V. A. M. "Que desporto..." ou "Por um desporto novo": o esporte e o pós-independência em Cabo Verde (1975-1982). In: CONGRESSO IBÉRICO DE ESTUDOS AFRICANOS, 7., 2010, Lisboa. Anais... Lisboa: CEA-IUL, 2010b.         [ Links ]

PAPINI, B. Linhas gerais da história do desenvolvimento urbano da cidade do Mindelo. Mindelo: MHOP, 1982.         [ Links ]

PIMENTA, F. T. Portugal e o século XX: Estado-Império e descolonização (1890-1975). Lisboa: Edições Afrontamento, 2010.         [ Links ]

RAMOS, M. N. Mindelo d'outrora. Mindelo: Gráfica do Mindelo, 2003.         [ Links ]

SANTOS, B. S. Estado e sociedade na semiperiferia do sistema mundial: o caso português. Análise Social, Lisboa, v. 21, n. 87-89, 1985.         [ Links ]

SILVA, A. L. C. Nos tempos do Porto Grande do Mindelo. Lisboa: CNCDP, 1998.         [ Links ]

SILVA, A. C. Espaços urbanos de Cabo Verde: o tempo das cidades-porto. Mindelo: Centro Cultural Português, 2000.         [ Links ]

SILVA, A. C.; COHEN, Z. O sistema colonial português e a gênese do movimento protonacionalista em Cabo Verde. In: PEREIRA, A. O meu testemunho: uma luta, um partido, dois países. Lisboa: Notícias, 2003. p. 38-70.         [ Links ]

 

 

Endereço:
Victor Andrade de Melo
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Largo de São Francisco, nº 1, sala 311 (secretaria), Centro
200051-070, Rio de Janeiro - RJ, Brasil
Telefone: (21) 2562-6808
e-mail: victor.a.melo@uol.com.br

Recebido em: 9 de dezembro de 2010.
Aceito em: 9 de setembroo de 2011.

 

 

1 Estudo desenvolvido com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
2 Cabo Verde é um arquipélago de nove ilhas localizado na costa oeste da África.
3 Como lembra Giulianotti (2010), normalmente havia uma motivação interna: "clubes e associações providenciavam cruciais laços pessoais, simbólicos e socioculturais com o lar (Inglaterra) e um foco para a vida social e de lazer" (p.13).
4 Trata-se da primeira fábrica de moagem e panificação da Ilha de São Vicente, a única até Jonas Wahnon criar a sua Fábrica Sport.
5 Notícias de Cabo Verde, ano 15, número 237, 11 de setembro de 1946, p.3.
6 Documento disponível no Fundo da Repartição Provincial do Arquivo Histórico de Cabo Verde.
7 Voz di Povo, ano 5, número 225, 5 de março de 1980.
8 Voz di Povo, ano 5, número especial, 1 de julho de 1979.