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Motriz: Revista de Educação Física

On-line version ISSN 1980-6574

Motriz: rev. educ. fis. vol.18 no.3 Rio Claro July/Sept. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1980-65742012000300007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Habitus e prática da dança: uma análise sociológica1

 

Habitus and dance practice: a sociological analysis

 

 

Silvana dos Santos SilvaI; Cristina Carta Cardoso de MedeirosII; Wanderley Marchi JúniorII

IMestranda, Departamento de Educação Física, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
IICEPELS e Departamento de Educação Física, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil

Endereço

 

 


RESUMO

O presente texto relata o estudo que consistiu em uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa cujo objetivo foi investigar quais disposições e capitais influenciam adolescentes para a prática da dança na cidade de Toledo - PR. A partir de um recorte específico procurou-se descrever os tipos de capitais que influenciam os agentes sociais para a prática da dança e para a escolha de diferentes modalidades, relatando os sentidos e significados que os dançarinos, como agentes sociais, atribuem à dança e discutindo o efeito da dança na incorporação de disposições e na formação do habitus dos indivíduos. Como referencial teórico-metodológico elegeu-se a teoria sociológica de Pierre Bourdieu, enfatizando-se a utilização instrumental de alguns de seus conceitos tais como habitus, capital cultural, capital social, capital econômico, capital simbólico e campo. A amostra foi composta por sessenta e oito indivíduos entre doze e dezessete anos para os quais foi aplicado, como instrumento de coleta de dados, um questionário com perguntas abertas e fechadas. A investigação revelou que a constituição das disposições artísticas para a dança e a escolha das modalidades são influenciadas pelo capital econômico, capital social, capital simbólico e capital cultural, em suas três formas (incorporado, institucionalizado e objetivado). Os resultados apontaram que os agentes enfrentam algumas dificuldades para a manutenção da prática, porém, incorporam por meio da dança novas disposições que os levam a se organizar e mobilizar esforços, inclusive de seus familiares, para manterem-se no "universo da dança", como praticantes e como apreciadores.

Palavras-chave: Dança. Habitus. Diferentes capitais.


ABSTRACT

The present text relates the study which consisted of a descriptive research with qualitative approach, whose objective was to investigate which dispositions and capitals influence teenagers on the dance practice in the city of Toledo - PR. From a specific clipping, the kinds of capitals which influence social agents for the dance practice and the choice of different modalities was described, relating the senses and meanings that the dancers, as social agents, attribute to dance, and discussing the effect of dance in the incorporation of dispositions and formation of the habitus of those individuals. As methodological-theorical reference, the sociological theory of Pierre Bourdieu was elected, emphasizing the instrumental using of some of his concepts, such as habitus, cultural capital, social capital, economical capital, symbolic capital and field. The sample consisted of sixty-eight individuals between the ages of twelve and seventeen. The instrument of data gathering consists of a questionnaire with open and closed questions. The investigation revealed that the constitution of artistic dispositions for dance and modality choice are influenced by cultural capital, in its three forms (incorporated, institutionalized and aimed). The results show that the agents go through some difficulty in the maintenance of practice, but they incorporate through dance new dispositions, which lead them to organize and mobilize efforts, including family ones, to keep themselves in the "dance universe", as dancers and as appreciators.

Keywords: Dance. Habitus. Different capitals.


 

 

Introdução

O homem utiliza-se de diferentes formas para se expressar, se comunicar e se relacionar. Cada povo que compreendeu a importância do corpo humano e, principalmente, a necessidade desse corpo de extravasar suas emoções, de relacionar-se consigo, com os outros, que compreendeu a sua infinita capacidade de mover-se, de criar, de desenvolver seus domínios motores, sociais, afetivos e cognitivos, certamente cultivou a dança e utilizou-se dela como um meio de expressar suas características culturais, de comunicar-se, de educar-se, de distinguir-se e de aprimorar-se.

Esta manifestação corporal, também entendida como cópia ou interpretação de movimentos e ritmos inerentes ao ser humano, pode revelar a cultura de uma civilização se a considerarmos como uma disposição herdada dos antepassados que se manifesta em diversos grupos humanos, com múltiplos objetivos e de diferentes formas, tais como: danças sagradas, danças populares, danças teatrais, entre outras. Enquanto manifestação cultural e canal de expressão, desde as mais remotas organizações sociais, passando pelas Antigas Civilizações e aportando na sociedade atual, contemplou diferentes necessidades entre elas a de exteriorização do espírito do homem e a busca de realizações estéticas centradas na corporalidade, conforme aponta Caminada (1999).

Assim sendo, a dança pode ser abordada, analisada e compreendida por diferentes aspectos de análise, atribuindo-lhe diferentes sentidos e significados e, como ressalta Barreto (2004), pode ser praticada como forma de expressão artística, expressão humana, expressão de sentimentos e expressão da sociedade; como forma de aquisição de conhecimentos, de práticas de lazer, de prazer, como libertação da imaginação, desenvolvimento da criatividade e da comunicação e como veículo de socialização.

Partindo destes pressupostos, percebe-se a dança como um fenômeno social que esteve presente na sociedade ao longo da história na medida em que se constata, segundo Rangel (2002), que por todas as etapas pela qual ela passou - da primitiva à contemporânea - retratou épocas e graus do desenvolvimento social, econômico, cultural, político e religioso, materializou as técnicas, os valores e os significados das civilizações nas quais se fez presente, bem como questionou e documentou seu contexto histórico, refletindo e revivendo os fatos por meio da representação das vivências do homem no mundo e das influências que o mundo lhe apresentava. Assim, configurou-se como um campo com leis próprias, com funções específicas, demonstrando seu potencial enquanto fenômeno social no processo de renovação, transformação e significação da sociedade.

Como fenômeno social, esta prática tornou-se objeto de estudo sociológico e, neste sentido, suscitou o interesse para uma investigação que versasse sobre quais disposições e capitais influenciam adolescentes para a prática da dança na cidade de Toledo - PR.

A partir dos resultados da pesquisa de campo, pretendeu-se responder e compreender algumas das questões norteadoras deste estudo que se iniciou com a delimitação do campo da dança na referida cidade e, a partir de um recorte específico, procurou descrever os tipos de capitais que influenciam os agentes sociais para a prática da dança e para a escolha das diferentes modalidades, relatando igualmente os sentidos e significados que os dançarinos, como agentes sociais, atribuem à dança e discutindo o efeito da dança na incorporação de disposições e na formação do habitus dos indivíduos.

Para responder tais inquietações se fez necessário a realização de uma pesquisa de campo que investigasse essas questões à luz de um referencial teórico. Para tanto, se elegeu a teoria sociológica de Pierre Bourdieu, um dos mais importantes sociólogos do século XX, que se interessou, entre outros assuntos, pela Arte e estruturou um quadro teórico-metodológico de análise a partir do conhecimento praxiológico do mundo social edificando alguns conceitos tais como: habitus, capital cultural, capital social, capital simbólico, capital econômico e campo que deram o aporte necessário para estabelecer articulação entre a dança, como modalidade de ordem corporal, social e cultural e as Ciências Sociais, tanto para a inferência dos dados colhidos no campo empírico como para a contribuição na ampliação das discussões sociológicas sobre as práticas físicas e sua abrangência social.

 

Metodologia

O presente estudo consistiu em uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa caracterizada pela busca de dados diretamente da fonte de origem, do tipo pesquisa de campo, como aponta Mattos (2004).

Para compor a amostra que representou o campo de interesse, visando à consecução dos objetivos da pesquisa, estabeleceram-se, intencionalmente, os seguintes critérios: (1) Tempo mínimo de atuação no cenário da dança toledana de cinco anos; (2) Grupos/escolas constituídos como pessoas jurídicas ou ligados às instituições de ensino, filantrópicas ou associação; (3) Grupos/escolas que atendam adolescentes e (4) Grupos/escolas pertencentes às diferentes classes socioeconômicas e culturais. A faixa etária envolvida foi intencional uma vez que esta tem autonomia para responder ao questionário e para realizar suas escolhas de acordo com os seus interesses, garantindo uma maior agilidade na coleta dos dados e principalmente por ser fonte das inquietações dos pesquisadores. A opção por investigar diferentes extratos socioeconômicos justifica-se pelo interesse em abranger praticantes de porções específicas da sociedade, permitindo o entrecruzamento dos dados e visando melhor identificar os fatores que influenciam a prática da dança e verificar se há diferenças e/ou similitudes entre os tais extratos sociais. Quanto aos demais critérios, considerou-se que, pelo fato dos grupos/escolas constituírem-se como pessoas jurídicas ou serem ligadas a alguma instituição e por terem um tempo de atuação significativo, apontariam um trabalho consolidado o que poderia garantir a preservação da amostra em um tempo longitudinal necessário para a conclusão da pesquisa.

Uma vez delimitado os subcampos da dança e a faixa etária, a escolha dos entrevistados foi realizada de forma aleatória, por adesão, tendo como critério de participação a entrega do termo de consentimento livre esclarecido, assinado pelo responsável, autorizando a participação do adolescente na pesquisa.

Nestes termos, a amostra constituiu-se de sessenta e oito indivíduos entre doze e dezessete anos, distribuídos em três grupos da seguinte forma: vinte e um participantes de um grupo de dança pertencente a uma instituição filantrópica (G1), vinte e três de um centro de tradições gaúchas (G2) e vinte e quatro de uma escola especializada em dança de caráter privado (G3). Com o intuito de preservar a privacidade dos participantes optou-se por não apresentar o nome das escolas/grupos de dança, aqui denominados: G1, G2 e G3.

A pesquisa de campo in loco foi realizada por meio da aplicação de um questionário, com perguntas abertas e fechadas, aos adolescentes em seus respectivos horários de aulas/ensaios, instrumento este validado por um Comitê de Ética.

 

Resultados

O presente estudo agregou dançarinos adolescentes que ocupam diferentes posições no espaço social da cidade de Toledo - PR.

A amostra, do G1 e do G2, foi composta, em sua maioria, e a do G3, em sua totalidade, por integrantes do sexo feminino apresentando uma significativa diminuição de praticantes conforme se aproxima da idade adulta. A maioria dos indivíduos é nascida e residente na cidade de Toledo - PR.

Mediante os resultados tornou-se possível perceber as posições sociais dos diferentes grupos quando se analisou o volume dos seus respectivos capitais culturais e capitais econômicos. Ressalta-se que na teoria sociológica de Bourdieu compreende-se o capital cultural como o conjunto das qualificações intelectuais produzidas pela família e pelas instituições de ensino, figurando sob três formas: capital cultural incorporado, capital cultural objetivado e capital cultural institucionalizado. Já o capital econômico é constituído pelos diferentes fatores de produção e pelo conjunto dos bens econômicos. Neste sentido, ou seja, no volume desses capitais, constatou-se que os integrantes do G1 ocupam uma posição inferior, os indivíduos do G2 uma posição intermediária e os entrevistados do G3 a posição superior.

Em termos de capital cultural incorporado transmitido pela família, observou-se que no G1 seu volume é reduzido, na medida em que se constatou o baixo nível de instrução dos seus ascendentes, percebido pela pouca escolaridade dos seus pais e avós. O mesmo aconteceu quando se referiu ao capital cultural institucionalizado dos entrevistados, visto que, eles apresentaram um alto índice de atraso escolar. Entretanto, o volume destes capitais aumentou conforme se avançou nos diferentes extratos sociais na medida em que se percebe que há uma gradativa elevação no nível de instrução dos ascendentes, bem como, pelo insignificante índice de atraso escolar dos entrevistados.

Em consequência, percebeu-se a conversão do capital cultural em capital econômico uma vez que os pais dos entrevistados desempenham funções profissionais condizentes com os seus respectivos graus de escolaridade resultando em poder aquisitivo proporcionais aos mesmos. Essa diferenciação pode ser percebida quando se observou que as residências dos entrevistados do G1 situam-se na periferia da cidade e que a maioria deles (95%) estuda em escolas públicas da mesma localidade. Conforme se avança nos extratos sociais verificou-se um número maior de indivíduos matriculados em escolas particulares, G2 (30%) e G3 (87%), e as residências localizadas em bairros de classe média e alta.

Ao analisar as práticas culturais dos indivíduos, atuais e pretéritas, no que concerne à prática do teatro, da música e das artes plásticas, constatou-se que atualmente, entre os entrevistados pertencentes ao G1, a prática destas atividades é significativamente maior do que entre os indivíduos dos demais grupos. Entretanto, quando se trata das mesmas práticas pretéritas essa diferença diminuiu a ponto do índice do G3 ser igual ao do G1. Ao entrecruzar os resultados das práticas, pretéritas e atuais, se observaram que houve, nos três grupos, uma significativa diminuição da prática destas atividades, sendo mais expressiva no G3 e no G2, respectivamente. Ao que se referiu aos gostos relativos a tais práticas, percebeu-se uma diferenciação entre os indivíduos do G1 e dos demais entrevistados uma vez que, estes demonstraram grande interesse pela música, tanto nas práticas pretéritas quanto nas práticas atuais, e aqueles migraram da prática das artes plásticas para a prática do teatro. Outra diferença foi observada quando se considerou a manutenção das práticas, verificando que o G1, apresentou um número maior de entrevistados que sempre praticaram outra atividade artística além da dança; sendo que, o mesmo índice reduz expressivamente no G3 e se anula no G2.

No que diz respeito à frequência de programas culturais, os resultados revelaram algumas diferenças e similitudes entre os grupos. As similitudes foram percebidas em relação à total adesão dos entrevistados aos espetáculos de dança; à frequentação reduzida nas exposições de artes pelos entrevistados do G1 e do G2 e à companhia predominante dos amigos para estas práticas entre os indivíduos do G2 e do G3 e com menor incidência a companhia dos pais/familiares entre os sujeitos dos três grupos. Já as diferenças se revelaram em relação ao aumento do volume de frequência dos programas culturais e à diminuição do índice dos indivíduos que declararam que nunca frequentaram os mesmos programas elencados, conforme se avançou nos diferentes extratos sociais; a reduzida frequência dos integrantes do G3 nos espetáculos de música e à companhia predominante dos professores para estas práticas entre os agentes do G1.

A pesquisa revelou informações sobre os hábitos de consumo cultural dos entrevistados por meio da mídia, apontando que todos os integrantes do G1 e do G2 consomem, predominantemente, a mídia televisiva e os indivíduos do terceiro grupo declararam dar preferência ao uso da internet. As dessemelhanças foram evidenciadas no que concerne aos gostos dos entrevistados mediante tal consumo: dentre os instrumentos de leitura mais utilizados, predominou os livros no G2 e no G3 e as revistas no G1; quanto ao gênero musical mais apreciado no G1 predominou o Funk; no G2, o Sertanejo Universitário e no G3, o Pop. Entretanto, semelhanças entre os três grupos foram observadas na medida em que se constatou que os programas mais assistidos na televisão são as novelas e que os sites mais acessados na internet são os de relacionamentos.

Ao investigar o envolvimento da família dos entrevistados com a dança atestou-se que, em nível de prática, o envolvimento dos familiares dos integrantes do G1, se restringe às pessoas que possivelmente frequentaram ou frequentam a instituição, visto que, o grau de parentesco sugere que sejam crianças, adolescentes ou jovens e que não há casos de pais praticantes. No G2 e no G3, percebeu-se um aumento no índice de envolvimento dos familiares adultos nesta atividade, principalmente dos pais.

No que se refere aos incentivos que os entrevistados recebem da família para manter-se praticando a dança, foi possível verificar que no G1, a porcentagem dos indivíduos incentivados é menor que nos outros dois grupos e quando acontece se restringe, quase que exclusivamente, à frequência dos familiares nas apresentações. No grupo G2, que se notou um alto índice de incentivo, o mesmo acontece com maior expressividade sob a forma de acompanhamento do desenvolvimento do aluno no curso. No G3, observou-se uma participação expressiva da família por meio de investimentos financeiros e apreciação das apresentações dos entrevistados.

Em relação ao apoio que os entrevistados receberiam da família, caso quisessem fazer da dança sua profissão, as justificativas demonstraram que no G2 e no G3 a grande maioria das famílias apoiaria a decisão dos entrevistados em tornar-se um profissional da dança, contudo, o fator mais relevante que os levam a tal apoio está ligado ao respeito que a família tem pelas escolhas dos indivíduos, permitindo aos mesmos tomarem suas decisões e traçarem sua carreira profissional como melhor lhes convier. Já no caso dos praticantes do G1, que apresentou apoio familiar unânime, além da família respeitar a escolha profissional dos entrevistados, percebe-se que a dança é vista como uma profissão.

Como resultado da investigação no que concerne o envolvimento do sistema de ensino no processo de constituição das disposições artística para a prática da dança, os dados empíricos provaram que as escolas, principalmente as públicas da periferia da cidade, estão negligenciando as Diretrizes Curriculares do Paraná (2008) e os Parâmetros Curriculares Nacionais (2000) uma vez que estes estabelecem que a dança seja conteúdo das disciplinas de Educação Física e de Artes e, portanto, deve ser trabalhada em todas as escolas; que o maior índice de escolas que trabalham a dança como componente curricular são aquelas que atendem a classe média; que a diversidade das modalidades de dança ofertada nas atividades curriculares aumenta conforme se migra para escolas mais centrais e privadas; a diferença entre atividades curriculares e complementares não está clara para o corpo discente, a ponto de considerar um evento tradicional da escola - como o festival de dança - resultado de ensaios ocorridos nas aulas de Educação Física, como uma atividade complementar; há grande interesse dos entrevistados em participar das atividades curriculares quando é ofertada pela escola; não há interesse dos integrantes do G3 em participar das atividades complementares ofertadas pela escola.

A pesquisa revelou que os sites da internet sobre dança são acessados mais pelos indivíduos do G2; a leitura de livros ou revista sobre o assunto é mais realizada pelos integrantes do G3 e a apreciação de filmes, vídeos e programas televisivos sobre dança são os prediletos dos entrevistados do G1. Entretanto, o veículo de comunicação mais utilizado para ter acesso às informações referentes à dança, pelos indivíduos dos três grupos, é a televisão, seja em forma de filmes, programas sobre dança ou projeção de vídeos. Observou-se que os praticantes do G1 e do G2 têm pouco acesso aos livros e às revistas que abordam o assunto.

Em relação ao primeiro contato com a dança, os resultados revelaram que a maioria dos indivíduos do G1, teve este contato por meio da mídia televisiva, e que entre a maioria dos entrevistados do G2 e do G3, o mesmo foi realizado de forma mais significativa por meio da escola. Verificou-se que, no G1 e no G3 o primeiro contato aconteceu na maioria dos casos na infância, porém, apresentaram casos ocorridos na adolescência e no G2, todos os casos aconteceram na infância.

O tempo de prática da dança variou entre um e sete anos no G1, entre dois meses e oito anos no G2 e entre oito meses e quatorze anos no G3. Ao realizar uma correlação entre o tempo de prática e as respectivas idades dos entrevistados, observou-se que todos os praticantes do G1 e a maioria do G2 e do G3 iniciaram a prática da dança na infância.

Os fatores que influenciaram os entrevistados a se matricularem em uma escola/grupo de dança revelaram uma similitude entre os grupos na medida em que todos os praticantes consideram o gosto pela dança o fator preponderante, porém, perceberam-se algumas diferenças quando se analisa os demais fatores. No G1, a dança é vista pelos entrevistados como uma atividade complementar à sua formação. No G2, a dança sugere um aspecto de tradicionalidade uma vez que os indivíduos recebem um grande incentivo de familiares. No G3, a dança está ligada à promoção da saúde uma vez que é vista como uma atividade física.

Em relação aos objetivos dos entrevistados com a prática da dança, foi possível inferir que os entrevistados assemelham-se quando atribuem significativa importância aos aspectos físicos e motores e a sua atuação como bailarinos em eventos. Observaram-se similitudes também pela ínfima relevância atribuída à promoção da disciplina e da socialização por meio da dança. Entretanto, constatou-se que o G1 difere-se dos demais quando apresentou um maior número de indivíduos que percebem a dança como uma profissão.

Atualmente, as modalidades de dança praticadas pelos entrevistados, bem como as suas respectivas frequências, variam de acordo com a oferta do grupo/escola aos quais eles pertencem. No G1, a Dança Folclórica Brasileira é a modalidade praticada por todos os participantes com frequência de duas vezes semanais. Entre os entrevistados do G2, a mais praticada é a Dança Folclórica Gaúcha, sendo que a frequência semanal variou entre uma e cinco vezes. Já no G3, a preferida é o Jazz com frequência semanal entre uma a três vezes. Os resultados revelaram que, nos três grupos, existem indivíduos que praticam mais de uma modalidade concomitantemente, que a frequência predominante foi de duas vezes semanais e que há tendência, entre os entrevistados, em praticar somente as modalidades ofertadas pela escola/grupo aos quais pertencem, havendo pouca procura de outras modalidades em outros grupos, como apontados pelos os indivíduos do G1 e do G2.

No que se referem aos fatores predominantes que influenciaram na escolha da modalidade de dança praticada, os resultados apontaram que os indivíduos do G1, praticam a modalidade de Dança Folclórica Brasileira por ser a opção ofertada pela instituição. Por sua vez, no G2 e no G3, os praticantes escolhem a modalidade que mais gostam e se identificam, por conta de sua técnica e do seu ritmo.

No que concerne à prática pretérita de outras modalidades de dança, o G1 apresentou maior número de praticantes que tiveram experiências com outras modalidades. Na medida inversa o G2, apresentou menor número de indivíduos que tiveram a mesma experiência, entre estes, um índice significativo praticaram a Dança de Salão. No G3, o índice destes indivíduos ocupou uma posição intermediária em relação aos demais grupos, porém, os mesmos tiveram contato com um leque maior de opções que os outros indivíduos. Observou-se que os três grupos apresentaram evasão das modalidades pretéritas com menos de um ano de prática, entretanto, perceberam-se diferenças entre eles na medida em que se constatou que a evasão diminui e o tempo de prática aumenta conforme se avança para as classes superiores.

A análise voltada às modalidades de dança pretendidas pelos entrevistados revelou que, 90% dos integrantes do G1, expressaram o desejo de praticar uma nova modalidade de dança, reforçando que o fator predominante que influencia na escolha da modalidade de dança praticada atualmente, está relacionado com a questão da oferta e não dos gostos. No G2 o mesmo interesse reduz para 39%, sendo que entre estes se observou que desejam aprender uma modalidade mais próxima das características daquela já praticada, como por exemplo, a Dança de Salão. No G3, que apresentou um número significativo de interessados (71%), observou-se que a diversidade de modalidades aumenta. Percebeu-se, no primeiro e no terceiro grupo, uma inversão de interesses dos praticantes uma vez que se verificou que o interesse decresce para as modalidades pretéritas e aumenta em relação àquelas nunca praticadas. Um dado relevante está relacionado com o fato da Dança de Rua ter figurado como modalidade de interesse pelos entrevistados dos três grupos com índices relativamente altos.

O fator preponderante que influenciou os entrevistados no momento de escolher o grupo/escola para praticar a dança entre os integrantes do G1 e do G3 foi o fato deles conhecerem a qualidade do trabalho que a instituição desenvolve e considerá-la uma instituição de distinção. No caso do G2, o fator mais importante foi a recomendação de alguém, figurando com significativa porcentagem a influência dos familiares nesta escolha.

A investigação sobre a influência do capital econômico na prática da dança mostrou que os praticantes do G1, não fazem nenhum investimento financeiro para praticar a atividade, fato que se justifica pelo grupo pertencer a uma instituição beneficente, isentando-os, portanto, de qualquer despesa. No G2 e no G3, constatou-se que um indivíduo de cada grupo está isento das despesas, todavia, todos os demais integrantes, de ambos os grupos, investem em pelo menos um tipo de despesa, podendo variar em até quatro tipos de investimentos concomitantes, entre eles: custeio de mensalidades do curso, aquisição de sapatos e trajes para as aulas e os ensaios, aquisição de figurinos para as apresentações e custeio de viagens para dançar como: transporte, alimentação e estadia.

No que se referem às dificuldades encontradas pelos indivíduos para manter-se praticando a atividade, os resultados revelaram semelhanças entre os grupos na medida em que os entrevistados consideram dificultoso conciliar a atividade com responsabilidades escolares e com outras atividades complementares. Entretanto, diferenças foram observadas no que diz respeito ao índice de praticantes que encontram dificuldades e na variedade das dificuldades uma vez que se percebeu um aumento destes na medida em que se avança nas classes sociais.

 

Discussões

Os resultados evidenciaram que a prática da dança não está condicionada simplesmente à vontade ou a uma qualidade nata de seus praticantes, mas principalmente a uma rede de relações que influenciam na constituição das disposições artísticas necessárias para a sua prática. Neste sentido constataram-se diferenças e similitudes, entre os grupos pesquisados, na medida em que se identificou o volume e a influência das diferentes espécies de capitais: cultural, econômico, social e simbólico e do campo na incorporação de disposições e na constituição do habitus dos entrevistados para esta prática, compreendendo-se o habitus como as maneiras de ser, pensar, sentir e fazer e consequentemente como o conjunto de comportamentos e atitudes dos agentes determinado pelas estruturas sociais em campos específicos e pelos capitais.

A transmissão do capital cultural incorporado realizada pela família pode ser percebida pelo êxito escolar dos entrevistados que, segundo Bourdieu (2007, 2008d), pode ser medido pelo nível de escolaridade dos seus ascendentes uma vez que a família transmite aos seus herdeiros, seja por vias indiretas ou diretas, certo capital cultural e um sistema de valores profundamente interiorizados que interferem nas experiências escolares e consequentemente nas taxas do êxito escolar. O mesmo tipo de capital é evidenciado na medida em que se observa que a constituição das disposições artísticas para a prática da dança, na maioria dos casos, inicia-se no seio da família, uma vez que se encontram familiares praticantes da modalidade, sejam crianças, adolescentes, jovens ou adultos.

A influência da família se evidencia também por meio dos incentivos familiares que os indivíduos recebem para a manutenção da atividade, na escolha das modalidades praticadas e na escolha do grupo/escola de dança, bem como, para transformar esta prática em sua atividade profissional. Tais constatações ratificam os apontamentos de Bourdieu (2008f), que afirma que a acumulação inicial do capital cultural só começa pelos membros das famílias dotadas de forte capital cultural que é transmitido por meio da socialização.

Percebe-se também que o fato da maioria das famílias apoiarem os indivíduos na escolha da dança como profissão, pode indicar algum tipo de influência para a manutenção da prática, pois para Bourdieu (2008d), as condições objetivas que definem as atitudes dos pais e dominam as escolhas importantes em relação aos seus herdeiros, dominam também as atitudes destes diante das mesmas escolhas.

Ao correlacionar a influência do capital cultural incorporado com o capital econômico constatou-se que quanto maior for o volume destes capitais maior é o investimento no sistema escolar e na educação complementar, uma vez que, conforme se avança nos diferentes extratos sociais, os pais proporcionam aos seus filhos a oportunidade de frequentarem escolas formais de melhor qualidade, de se manterem em um grupo/escola de dança e de terem condições de realizar investimentos com deslocamentos para que os entrevistados possam estudar e praticar a dança. Tais atitudes revelam o sistema de valores implícitos ou explícitos dos indivíduos das diferentes posições sociais e uma reconversão do capital econômico em capital cultural institucionalizado confirmando os estudos de Bourdieu (2007), que constataram que os investimentos aplicados na carreira escolar dos filhos (estratégias educativas) integram-se no sistema das estratégias de reprodução, visto que, por meio destes investimentos é possível transmitir às próximas gerações os privilégios que as gerações anteriores detêm, levando o grupo a manter ou melhorar sua posição no espaço social. Neste sentido, Bourdieu (2008c), aponta que a família tem um papel determinante na manutenção da ordem social, ou seja, na reprodução da estrutura do espaço social e das relações sociais, pois acumula e transmite diferentes tipos de capitais entre as suas gerações, tornando-se o agente principal das estratégias de reprodução.

No que concerne ao capital cultural institucionalizado, o sistema de ensino, como aponta Bourdieu (2002), contribuiu para ratificar, sancionar e transformar em mérito escolar o capital cultural incorporado transmitido pela família, bem como conferiu aos entrevistados um capital cultural institucionalizado capaz de consagrar de maneira durável a posição ocupada na estrutura da distribuição de capitais. Os resultados corroboram com o estudo de Bourdieu (2008d) que aponta, que a ação direta da escola continua fraca no que diz respeito ao ensino artístico, ratificando desta forma a reprodução das desigualdades sociais.

Em relação à incorporação do capital cultural e das disposições artísticas para a dança por meio das práticas culturais, dos programas culturais e do consumo cultural por meio da mídia, os dados revelaram que a mesma estrutura das classes sociais se apresenta quando estes são medidos, principalmente aqueles que exigem uma disposição cultivada como é o caso das práticas investigadas neste estudo (Bourdieu, 2007). Neste sentido, as obras culturais permanecem como privilégio das classes cultivadas uma vez que a familiaridade com elas só pode advir do nível de instrução que faculta ao indivíduo uma competência artística (controle dos códigos de apropriação) capaz de decifrá-las. À medida que aumenta a origem social do entrevistado aumenta também o seu capital cultural (incorporado e institucionalizado) e sua necessidade cultural, resultando em maior assiduidade nas práticas e nos programas culturais e maior consumo cultural por meio de um acesso mais seleto das mídias, bem como, maior variedade de suas práticas, correspondendo a um modo de ser, quase exclusivo, das classes cultas.

Assim, observa-se uma reprodução da estrutura do capital cultural entre os extratos sociais uma vez que as leis da transmissão cultural fazem com que o capital cultural retorne às mãos do capital cultural, conforme aponta Bourdieu (2008a, 2008d, 2007) e Bourdieu; Darbel (2007). No que se refere à companhia da família aos programas culturais entre os indivíduos do G2 e do G3 confirmam os apontamentos de Bourdieu; Darbel (2007) e Bourdieu (2007), que afirmam que os herdeiros das famílias que acompanham seus pais nas práticas culturais acabam por lhes tomar por empréstimo sua disposição em relação às tais práticas e que os indivíduos que recebem da família uma iniciação precoce para as mesmas práticas são aqueles que pertencem a classe social com nível de instrução superior.

As influências do capital social se revelaram por meio da companhia dos amigos e dos professores nos programas culturais e na influência dos mesmos nas escolhas das modalidades praticadas e do grupo/escola frequentado. Relembra-se que no quadro teórico de análise de Bourdieu (2008e) o capital social é o conjunto das relações sociais de que dispõe um indivíduo ou grupo e que o seu volume depende da extensão da rede de relações que cada indivíduo pode efetivamente mobilizar e do volume das demais espécies de capitais que cada um daqueles a quem ele está ligado possuem.

A influência do capital simbólico é percebida quando se constata que o fator predominante para a escolha do grupo /escola, da maioria dos praticantes do G1 e do G3, está relacionado ao fato deles conhecerem a qualidade do trabalho que a instituição desenvolve e considerá-la uma instituição de distinção. Ressalta-se que na teoria sociológica de Bourdieu o capital simbólico corresponde ao conjunto de rituais como as boas maneiras e padrões de comportamentos ligados à honra e ao reconhecimento. A relevância deste capital, como fator influenciador nas escolhas dos entrevistados, é apontada por Bourdieu (2009, 2008b, 2004, 2008c), na medida em que o considera como um crédito, um poder atribuído àqueles que obtiveram reconhecimento suficiente para ter condição de impor o reconhecimento, pois, possui a legitimidade conferida àqueles que dão aos agentes maior número de garantias materiais e simbólicas, funcionando como um dos mecanismos que fazem que o capital atraia o capital.

No que concerne à influência do capital econômico na prática da dança, observaram-se algumas peculiaridades de acordo com cada grupo. O G1, que se revelou como pertencente a uma classe menos favorecida economicamente, a ausência deste capital não foi capaz de privá-los de tal atividade pelo fato deles pertencerem a uma instituição beneficente. Entretanto, a escassez deste capital, de certa forma, interfere no que diz respeito às suas escolhas uma vez que eles não têm condições de pagar o curso de seu interesse em uma escola de dança particular que proporciona a oferta de uma diversidade maior de modalidades. O G2 e o G3, que revelaram pertencer às classes, gradativamente, mais abastadas e investir financeiramente para manter-se praticando a modalidade, apontaram que detêm um capital econômico capaz de manter as despesas ligadas à atividade e de satisfazer suas preferências.

Os gostos revelados pelos agentes no que concerne à prática da dança, às práticas culturais, ao seu consumo cultural e o uso da mídia estão intimamente ligados aos seus capitais revelando uma distinção entre os grupos. De acordo com Bourdieu (2008c, 2008a), o gosto é uma tendência e uma aptidão para a apropriação de práticas que são classificadas e classificantes na medida em que cada classe de gosto é produzida pelos condicionamentos sociais correspondentes à posição social que os agentes pertencem e ao seu nível de instrução. Desse modo, a arte e o consumo cultural estão predispostos a desempenhar uma função social de legitimação das diferenças sociais. Ressalta-se que de acordo com Bourdieu (2008a), os gostos efetivamente realizados dependem do sistema de bens oferecidos e quando há mudança no sistema de bens há mudança nos gostos.

Os agentes apresentaram diferenças e similitudes na abordagem sobre os sentidos e significados que eles atribuem à dança. Neste sentido, constatou-se que todos os entrevistados atrelam a prática da dança ao prazer, evidenciada pelo fato de considerarem o gosto que eles têm pela modalidade como fator predominante para a sua matrícula em uma escola. Por sua vez, o "gostar de dançar" relatado pelos praticantes apresenta-se atrelado à sua performance como dançarinos, apontando a atividade como uma forma de expressão artística e de expressão humana. Entretanto, percebem-se diferenças entre os grupos evidenciadas pelo fato dos entrevistados do G1 considerarem a dança como uma atividade complementar à sua formação, ou seja, como uma forma de aquisição de conhecimentos, e alguns a perceberem como uma profissão. Entre os indivíduos do G2, a dança é vista como uma forma de expressão da sociedade, quando se considera a preservação da tradição tão fortemente apresentada nas análises. Já entre os praticantes do G3, a dança é vista como uma atividade prazerosa e de lazer estreitamente vinculada à atividade física e consequentemente à promoção da saúde.

As investigações contribuíram para confirmar as hipóteses propostas neste estudo, na medida em que se constatou que os diferentes tipos de capitais influenciam na incorporação de disposições e na constituição do habitus para a prática da dança por adolescentes, bem como, em suas respectivas escolhas entre as modalidades. Embora, perceba-se variação no volume das diferentes espécies de capitais entre os agentes, conforme se avança nas classes sociais (subcampos da dança), tal diferença não foi capaz de privar os agentes a manter-se praticando a atividade.

Assim sendo, na constituição das disposições artísticas para a dança ressalta-se que nos três grupos, observada as diferentes proporções, verificaram-se a influência do capital cultural, em suas três formas, mobilizado pela família, pela mídia, pela escola, pelas práticas culturais além da dança, pela frequentação de programas culturais e pelo consumo cultural. Por sua vez, a influência do capital econômico é percebida entre os entrevistados do G2 e do G3 que realizam investimentos financeiros para prática da dança e para uma melhor educação formal, porém, em sentido contrário, a sua escassez, embora, não inviabilize a prática dos indivíduos do G1, torna-a condicionada à oferta da instituição no que concerne à escolha da modalidade. O capital social é evidenciado pela companhia dos amigos e dos professores nos programas culturais e pela influência dos mesmos na escolha da escola de dança e em alguns casos na modalidade praticada. E o capital simbólico é evidenciado pela distinção que os diferentes grupos representam aos seus praticantes.

A investigação revelou que os agentes enfrentam algumas dificuldades para a manutenção da prática, porém, incorporam por meio da dança novas disposições que os levam a se organizar e mobilizar esforços, inclusive de seus familiares, para manterem-se no "universo da dança", como praticantes e como apreciadores.

A partir deste estudo foi possível sanar muitas das inquietações que motivaram o início das investigações, porém, os resultados derivados do mesmo também produziram novos questionamentos que podem servir como propostas e incentivo para estudos futuros. Uma pesquisa posterior significativa seria ao que se refere à grande rejeição dos praticantes pelo balé clássico, inclusive por aqueles que já praticaram a modalidade. Esta constatação leva a questionar se este posicionamento dos adolescentes está atrelado às suas disposições artísticas, que podem não ser condizentes com esta prática, à metodologia utilizada pelos professores que não a tornam atrativa ou se há problemas na formação dos professores, acarretando um trabalho equivocado e sem qualidade e consequentemente no desinteresse dos praticantes. Outra proposta de estudo está relacionada ao grande interesse, da maioria dos entrevistados dos diferentes extratos sociais, em praticar a dança de rua, embora nunca tenham praticado. Neste sentido, empreendem-se questionamentos sobre quais são os fatores que influenciam neste anseio, tendo como hipótese a influência de modismos e da mídia.

Refletindo sobre os significados desta pesquisa, seus desdobramentos e futuros empreendimentos investigativos com relação ao tema aqui apresentado, ressalta-se a relevância de pesquisas similares ou complementares a esta, uma vez ser perceptível que poucas são as pesquisas de cunho sociológico realizadas no campo da dança, especificamente na educação complementar. Por conta das leituras realizadas percebeu-se que os temas dos trabalhos científicos, em sua grande maioria, volta-se para a aplicação da dança na educação formal, principalmente àquelas viabilizadas por meio das aulas de Educação Física e Artes, bem como, no que está relacionado à formação destes professores. Entretanto, esta investigação mostrou que há problemas significativos com a prática desta atividade na educação formal e que ela está sendo aplicada de forma efetiva no espaço da educação complementar. Tais constatações e alguns achados no transcorrer deste estudo sugerem que pesquisas voltadas para o campo da dança sejam realizadas podendo abordar vários temas, como por exemplo, a formação dos professores, a profissionalização da dança, o consumo da dança por profissionais e amadores, analisando as ofertas e as demandas, entre outros.

Neste sentido, os profissionais da área devem estar atentos à teia de relações e às disposições que mobilizam seus alunos para a prática da dança, evitando, dessa forma, esforços estéreis ao propor ações que não atendem seus anseios e suas necessidades. Na mesma medida, ressalta-se a importância das instituições sociais como a família, o sistema de ensino, a mídia e os grupos/escolas de dança em promover ações de qualidade e com a seriedade necessária para contribuir de forma efetiva na constituição das disposições artísticas para a dança.

Enfim, o campo da dança em diferentes contextos sempre trará alguma inquietação, passível de ser desvelada por pessoas que se dedicam a esta prática milenar. Vale ressaltar que quem escreve sobre esta prática, em sua maioria, não são os profissionais da área. Ressalvada a devida importância destes trabalhos, deve-se considerar que estes profissionais não possuem os códigos de apropriação adquiridos por meio da prática da atividade e pelo longo período de permanência em seu espaço social. Partindo destes pressupostos e considerando os apontamentos de Bourdieu (2004), torna-se imperativo que os profissionais da área se mobilizem no sentido de produzir trabalhos que contribuam para constituir uma Sociologia que leve também à compreensão das práticas da dança, das suas disposições e de seu valor distintivo, no contexto dos espaços sociais. Afinal, uma prática cultural que acompanha a humanidade desde os tempos primitivos, sempre retratando as mudanças sociais, culturais, políticas e econômicas, constituindo-se como um fenômeno social, merece fazer parte, com maior ênfase, do rol dos temas dos estudos sociológicos.

 

Referências

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Recebido em: 7 de fevereiro de 2011.
Aceito em: 26 de julho de 2012.

 

 

1 O presente artigo é um extrato da dissertação de mestrado intitulada "HABITUS E PRÁTICA DA DANÇA: uma análise sociológica dos fatores que influenciam a prática da dança na cidade de Toledo - PR" desenvolvida no Programa de Pós Graduação Mestrado Interinstitucional em Educação Física do Departamento de Educação Física da UFPR e UNIPAR.