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Motriz: Revista de Educação Física

On-line version ISSN 1980-6574

Motriz: rev. educ. fis. vol.18 no.3 Rio Claro July/Sept. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1980-65742012000300019 

ARTIGO ORIGINAL

 

A lipofobia nos discursos de mulheres praticantes de exercício físico1

 

Lipophobia in the speeches of physical exercise female practitioners

 

 

Fábio Luís Santos TeixeiraI; Clara Maria Silvestre Monteiro de FreitasII; Iraquitan de Oliveira CaminhaIII

IUniversidade Federal de Pernambuco, Centro de Educação, Recife, PE, Brasil
IIUniversidade Federal de Pernambuco, Escola Superior de Educação Física, Recife, PE, Brasil
IIIUniversidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Educação Física, João Pessoa, PB, Brasil

Endereço

 

 


RESUMO

Atualmente a valorização da magreza tem contribuído para a formação de sujeitos lipofóbicos pautados num regime de verdade sobre o corpo que expressa ideais biopolíticos de maximização econômica. Recorremos à teoria de Foucault para analisar as formas de problematização produzidas e reproduzidas pelos sujeitos lipofóbicos acerca do corpo gordo, a partir das falas de 30 mulheres praticantes de exercício físico em academias de ginástica da cidade do Recife. Para coletar os discursos utilizamos um roteiro de entrevista composto por imagens (photo elicitation). A análise seguiu a proposta arqueológica foucaultiana. Os pensamentos sobre o corpo gordo revelaram três manifestações da lipofobia (medo da gordura, medo de engordar e medo de ser improdutivo). O discurso médico, a mídia e a moda produzem discursos e práticas que desencadeiam efeitos sociais de lipofobia. Os resultados demonstram a necessidade de expandir as investigações sobre a produção de verdades acerca do corpo e seus possíveis regimes de existência.

Palavras-chave: Exercício Físico. Gordura. Medo. Mulheres.

ABSTRACT: Currently, the valuation of thinness has contributed to the formation of lipophobic subjects oriented in a regimen of truth that expresses biopolitical ideals. In this study we used Foucault's theory to analyze how lipophobic subjects produced and reproduced thoughts about body fat, from the speech of 30 women-exercising in gym clubs of the city of Recife. To collect the discourses we used an interview guide composed of images (photo elicitation). The analysis followed Foucault's archaeological proposal. Thoughts on the fat body showed three manifestations of lipophobic attitudes (fear of fat, fear of fat and fear of being unproductive). The medical discourse, media and fashion produces discourses and practices that triggers social lipophobic effects. The results demonstrate the need to expand investigations into the production of truths about the body and their possible systems of existence.

Keywords: Physical Exercise. Fat. Fear. Women.


 

 

Introdução

Nos últimos anos, a valorização da beleza corporal nas culturas ocidentais tem contribuído para a compreensão da magreza como expressão verdadeira de saúde e produtividade. Consolidando esta representação de corpo, dissemina-se a formação de sujeitos lipofóbicos regidos pelos princípios da velocidade de produção, e da utilização biopolítica da saúde e da agilidade física (ATELLA et al., 2008; SWAMI et al., 2008; KORTT; LEIGH, 2010).

Situado entre a sedução das aparências e os exageros da ditadura da beleza, o sujeito lipofóbico considera a magreza como uma via para atender às expectativas sociais construídas sobre a lógica do controle-estimulação - segundo a qual o controle tecnológico do corpo representa a principal estratégia para potencializar a vida (FOUCAULT, 2006a).

Concomitantemente, busca-se registrar coletivamente a eficácia corporal exibindo magreza para alcançar posições de destaque nos jogos de poder - posições estas pautadas no autocontrole corporal, demasiadamente socialmente (DELEUZE, 1996; COSTA, 2004).

Para além destes aspectos, os sujeitos lipofóbicos parecem ser influenciados por relações de exclusão instauradas sobre o corpo gordo as quais carecem de ser verificadas no nível das condições de seu nascimento e funcionamento, ou seja, na esfera da criação cultural de verdades sobre o corpo. Mediante esta lacuna, procuramos através desta investigação estimular um debate sobre a formação dos sujeitos lipofóbicos e suas formas de produzir verdade sobre o corpo gordo tendo como pano de fundo a teoria do filósofo Michael Foucault.

Foucault (2002), pensador francês que estudou a genealogia dos processos de subjetivação nas sociedades ocidentais, concebe a verdade como a construção de um determinado regime de existência caracterizado por posições e relações políticas as quais, num nível coletivo, fazem aparecer formas convencionadas de viver e de conhecer.

O contraponto foucaultiano à idéia de "verdade absoluta" aponta para a existência de vários lugares a partir do quais diferentes regimes de verdade podem ser formulados. Cada regime de verdade, contudo, se sustenta através da formação de modelos de subjetividade capazes de expressar as particularidades de seu contexto original. Tal processo depende de dois movimentos simultâneos que são a transformação do sujeito em objeto de saber, ou objeto para o pensamento, e a formação de um estilo de pensamento que se perpetua socialmente através de relações de poder, posições de controle e estados de dominação. Foucault (2006b, p. 242) designa este duplo movimento de problematização:

Problematização não quer dizer representação de um objeto preexistente, nem tampouco a criação pelo discurso de um objeto que não existe. É o conjunto das práticas discursivas e não discursivas que faz alguma coisa entrar no jogo do verdadeiro e falso e o constitui como objeto para o pensamento (seja sob a forma da reflexão moral, do conhecimento científico, da análise política etc.).

Tendo em vista que os diferentes regimes de verdade se apóiam em formas específicas de problematização, cujas características coincidem com as dos sujeitos produzidos em cada contexto, traçamos como objetivo geral do estudo analisar como os sujeitos lipofóbicos problematizam o corpo gordo na atualidade a partir dos discursos de 30 mulheres praticantes de exercício físico em academias de ginástica da cidade do Recife/PE.

Com base no conceito foucaultiano de problematização, objetivamos, especificamente, identificar as práticas discursivas e não-discursivas que fundamentam a lipofobia, compreender como estas são produzidas e perpetuadas socialmente, bem como discutir os pensamentos construídos pelos sujeitos lipofóbicos sobre o corpo gordo no atual regime de verdade.

Restringimos nossas reflexões abordando o micro-espaço das academias de ginástica, ambiente especializado na produção tecnológica da aparência corporal, e que é frequentado por indivíduos que buscam a magreza do corpo por meio de exercícios físicos (MARKULA, 1995; COLLINS, 2002). Com isso pretendemos contribuir para uma ampliação do debate sobre as condições de possibilidade que permitem, ainda hoje, a reprodução de uma verdade sobre o corpo que não admite outro modelo, senão o da magreza, socialmente aceitável.

A seguir apresentamos a trajetória metodológica para, depois, discutir os principais resultados da pesquisa à luz das falas das participantes. No momento final, apresentamos as conclusões e direcionamentos para trabalhos futuros.

 

Metodologia

Este estudo qualitativo de campo foi realizado com 30 mulheres de 23 a 81 anos (média = 46 anos) praticantes de exercício físico (tempo médio de prática = 11 anos), as quais foram escolhidas em 6 academias de ginástica da cidade do Recife selecionadas randomicamente. A pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade de Pernambuco (#213/08) (CEP/UPE) e 0191.0.097.000-08 (CAEE). Todas as voluntárias assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Para garantir o anonimato dos sujeitos pesquisados, adotou-se o uso de nomes fictícios.

Para se ter acesso aos discursos das mulheres, optou-se pela técnica photo elicitation (EPSTEIN et al., 2006) com apoio de um tópico guia formado por questões referentes à construção da estética corporal. Utilizou-se como instrumento um roteiro de entrevista constituído por 15 imagens selecionadas na internet que foram testadas previamente numa etapa de familiarização com o instrumento. As falas foram gravadas utilizando o gravador do tipo MP3 da marca DL modelo MW 141. O tempo das entrevistas variou entre 30 min. e 1h50min.

O recorte de gênero realizado na pesquisa justifica-se pelo vínculo histórico entre a mulher e a produção da beleza. Nas culturas ocidentais, estruturadas sobre a autoridade masculina, os papéis sociais relegados à mulher estiveram, durante muito tempo, voltados à função reprodutora e aos cuidados com o ambiente familiar. Tal condição corroborou para a estigmatização da mulher cuja beleza passou a representar sinal de virtude e feminilidade (DEL PRIORE, 2007; RAGO, 2007).

Considerando que nas sociedades contemporâneas a associação entre beleza e dever moral norteia o imaginário feminino, procuramos selecionar os discursos das mulheres uma vez que elas investem sobre a melhoria da aparência corporal independente das diferenças econômicas e sócio-culturais (COELHO; FAGUNDES, 2007).

A análise dos enunciados ocorreu em duas fases. Inicialmente, isolamos os operadores de dominação - elementos textuais que expressam relações de poder, e as atitudes desempenhadas pelos sujeitos no contexto da produção estética do corpo (FOUCAULT, 2005), e identificamos a sua regularidade. Na segunda fase, realizamos a identificação de enunciados de acordo com os critérios estabelecidos por Foucault (2008), materialidade, sujeito, referencial, campo associado. Após verificar as semelhanças, diferenças e regularidades entre os enunciados, procuramos formar categorias enunciativas confrontando os temas oriundos da análise dos operadores de dominação com os núcleos temáticos presentes nos enunciados de maior destaque.

No próximo momento, discutimos os pensamentos produzidos sobre o corpo gordo e opiniões sobre as práticas não-discursivas, ou seja, ao conjunto de técnicas voltadas à produção tecnológica da aparência física. Em seguida, chegamos aos discursos que valorizam o combate ao corpo gordo, demonstrando seus mecanismos de produção e perpetuação.

 

Resultados e Discussão

Os pensamentos sobre o corpo gordo

Iniciamos a discussão no sentido de entender como os sujeitos lipofóbicos transformam o corpo gordo em objeto de saber. Focalizamos os discursos de nossas entrevistadas de maneira a analisar: 1- os pensamentos produzidos sobre o corpo gordo; 2- as opiniões emitidas sobre o uso de práticas de correção corporal (práticas não-discursivas) consideradas pelo grupo investigado como legítimas.

Os discursos emitidos sobre as práticas de modificação corporal permitem verificar que o grupo investigado valoriza o uso de tecnologias voltadas ao emagrecimento. Em relação à cirurgia plástica, por exemplo, percebemos que apenas 7% declararam abertamente que não realizariam nenhum tipo de intervenção estética. Em contrapartida, 73% das participantes relatam ter vontade de realizar intervenções cirúrgicas sobre o corpo e 20% relatam já ter recorrido algum tipo de cirurgia plástica.

Constatamos, assim, que a maioria das depoentes relata o desejo de experimentar intervenções cirúrgicas que vão desde a redução de estômago, a lipoaspiração, redução de mamas até a colocação de próteses de silicone, plástica abdominal, o uso de botox e o implante de fios no rosto. Apesar de este quadro representar um universo restrito de sujeitos, consideramos que eles condizem com a realidade do mercado da beleza no Brasil, país em que foram registradas cerca de 1.252 cirurgias estéticas entre setembro de 2007 e agosto de 2008, o que resultou num total de 547 mil cirurgias realizadas por dia neste período de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (2010).

Segundo Poli Neto; Caponi (2007), a crescente utilização destas práticas de embelezamento nos últimos anos pode estar associada à busca por uma aparência melhor e à propagação dos benefícios que uma melhoria da aparência pode promover para a vida dos sujeitos.

Interessa-nos, contudo, perceber que a aceitação destas práticas revela aspectos do pensamento produzido pelos sujeitos lipofóbicos sobre o corpo gordo. Destacamos que os discursos manifestam preocupações condizentes à aceitação social associada a sentimentos de receio construídos em relação à diminuição da saúde - em especial ao adoecimento ligado ao excesso de peso e acúmulo de gordura corporal - e ao enfeamento da aparência corporal.

O medo de engordar associado ao adoecimento representa o temor de que as funções biológicas do corpo diminuam graças à adoção de estilos de vida que favorecem o desenvolvimento de patologias associadas "à falta de disciplina alimentar", como a obesidade. Verifiquemos a fala de Tereza (67 anos):

"[...] se você tem um peso acima do que você precisa estar, já dá problemas nas coronárias, entupimento de veias, tudo isso por causa do acúmulo de gorduras. Então não é interessante a gente viver com o peso acima do normal".

No que concerne ao receio de adoecer, estudos científicos realizados por Eiber et al. (2002) apresentam evidências de que as preocupações com o aumento do peso corporal estão vinculadas ao aparecimento de distúrbios da imagem e, até mesmo, ao desenvolvimento de sintomas patológicos de fobia à alimentação com implicações sobre o funcionamento do organismo.

Na mesma perspectiva, Ashmore et al. (2008) ressaltaram a associação entre estigmatização social baseada no peso corporal, estresse psicológico e desenvolvimento de transtornos alimentares em adultos obesos. Os pesquisadores observaram que as experiências de estigmatização e preconceito possuem um significativo potencial para desencadear desordens alimentares e psicológicas, sendo que o agravamento destes sintomas parece estar vinculado ao reforço negativo provocado por críticas e atitudes de lipofobia (antifat attitudes).

Destacamos o fato de que as entrevistadas consideram o excesso de peso e o acúmulo de gorduras como sinônimos sem se dar conta de que estes conceitos são epidemiologicamente diferentes. Esta associação nos levou a suspeitar de que o medo de engordar encontra-se fundamentado em certas representações sociais referentes ao excesso e ao desalinhamento corporal, as quais foram construídas no seio das culturas ocidentais sobre argumentos econômicos, fisiológicos e patológicos (SOARES, FRAGA, 2003; FOUCAULT, 2006a).

Tais representações sociais asseguram a continuidade do corpo gordo na esfera dos corpos desviantes, ao mesmo tempo em que reforçam a transformação dos excessos corporais em objeto de saber. Consequentemente, a dominação exercida sobre os "corpos excessivos" parece se intensificar na medida em que estes fogem às normas instituídas, fato que os insere na esfera da indisciplina e da periculosidade social (FOUCAULT, 2006a).

Ampliando esta análise, Fischler (2005) e Sudo; Luz (2007) revelam que as representações sociais do corpo gordo encontram-se envolvidas num clima de suspeita que, paradoxalmente, situa as pessoas gordas em territórios de tolerância e aceitação, ao mesmo tempo em que as estigmatiza, pois, a forma corporal apresentada por esses sujeitos "[...] denuncia um culto a um tipo de prazer que é, em grande parte, negado na sociedade contemporânea" (SUDO; LUZ, 2007, p. 13).

No caso do enfeamento, também concebido como obstáculo para aceitação social, as mesmas representações do corpo gordo e pesado parecem estar presentes. Vejamos a declaração de Denise (46 anos):

Ai, o peso pra mim é algo muito mal. O peso é mal porque afeta em todos os aspectos no físico, no psíquico, e na saúde porque o peso, a gordura vai influenciar no nosso organismo trazendo conseqüências maléficas.

A negatividade estampada nesta declaração reflete que o excesso de peso corporal é avaliado negativamente, aspecto que confirma as idéias de Fischler (2005) e Sudo; Luz (2007). No entanto, o que sustenta esta negatividade? Porque a totalidade de opiniões obtidas sobre o excesso de peso assumiu o tom de crítica ou de receio?

Suspeitamos que o medo de engordar representa uma aversão à feiúra, a qual na nossa sociedade é compreendida como manifestação de patologia, estado de tristeza, de imobilidade ou falha moral. Por outro lado, os pensamentos sobre o medo de engordar denunciam o receio de perder o controle disciplinar sobre o próprio corpo, aspecto que contradiz os princípios da rapidez, da produtividade e da estimulação que caracterizam as atuais sociedades de controle (DELEUZE, 1992). A fala de Glenda (29 anos) exemplifica este fato:

[Engordar] representa o medo de que um dia esse 1 kg se torne mais 2kg, no outro dia se torne 3kg e no outro dia 4kg e acabe perdendo o controle da situação. Tem muitas mulheres que querem perder 2kg pra depois poder engordar 1kg. Só precisa perder 1kg mas quer perder 2kg pra ficar mais tranqüila. Muitas usam isso. Eu mesmo uso isso. Acho que é mais o medo de engordar 1kg e depois engordar 2kg e na semana que vem engordar 4kg.

A perda da disciplina corporal parece apresentar sérias implicações subjetivas. Neste caso, o sentimento de aflição ocasionado pelo afrouxamento do autocontrole se origina na fraqueza pessoal e na impossibilidade de autodomínio (COSTA, 2004). Fica evidente, no entanto, que a disciplina, além de se apresentar como exercício de dominação, também é compreendida como qualidade pessoal representada pela persistência e pela tranqüilidade de "perder 2kg" quando se é necessário "perder apenas 1kg".

No contexto das falas analisadas, verificamos que a disciplina é pensada como hábito a ser cultivado, estilo de vida e comportamento a ser reproduzido. É interessante constatar que a disciplina corporal parece atuar como valor moral, passando a ser auto-regulada pelos sujeitos no nível da visibilidade. Isso significa que, na atualidade quanto mais se amplificam as exigências sobre a reprodução de comportamentos disciplinados, mais a exibição das qualidades estéticas através da aparência corporal se afirma como expressão das qualidades disciplinares dos sujeitos (FOUCAULT, 2004).

A visibilidade das qualidades estéticas, associada aos comportamentos disciplinares no âmbito profissional, revelam uma relação entre a performance econômica e as formas corporais. Emanuelle (34 anos) declara: "[...] A pessoa gorda é desleixada, é mais lenta e se preocupa mais com comida do que com trabalho. A gordura não é sinônimo de saúde. Ela vai dar mais trabalho pra empresa do que lucro".

No âmago destas considerações, é possível verificar a importância da boa apresentação e a sua relação com o desempenho e com a disposição para o trabalho. Reconhece-se aqui a perpetuação social do discurso que vincula a beleza do corpo a qualidades voltadas ao rendimento e à capacidade de produção.

Esta associação tem sido investigada em alguns estudos científicos os quais abordam os impactos da aparência física sobre a remuneração em contextos de trabalho formal. Brunello e D'Hombres (2007) encontraram uma relação significativa entre peso corporal e salários reduzidos em noves países da Europa. Da mesma forma, O'Brien et al. (2008), em estudo conduzido na Austrália, encontraram fortes evidências de discriminação contra pessoas obesas relacionadas ao emprego. Em ambos estudos, as atitudes "anti-gordura" (antifat attitudes) estiveram associadas às idéias de preguiça, descuido e solidão, categorias também encontradas nas falas emitidas sobre a falta de disciplina.

Ainda em relação à disciplina corporal, outro aspecto merece ser discutido. Trata-se da atuação de um poder normativo constatado a partir das declarações emitidas sobre arquétipos de beleza magra, medições, cálculos e esquadrinhamentos corporais. De acordo com Foucault (2004, p. 148), o poder normativo "[...] se auto-sustenta por seus próprios mecanismos e substitui o brilho das manifestações pelo jogo ininterrupto de olhares calculados".

Contudo, sua ação não se limita apenas à aplicação de técnicas individualizadas de exame e vigilância sobre si mesmo. Sua finalidade é estabelecer referências a partir das quais relações de hierarquização e exclusão podem ser desencadeadas. Isso nos leva a acreditar que, se por um lado a crença de que a reprodução de um padrão regulador da aparência corporal está diretamente associada a um menor risco de exclusão, por outro, o medo do preconceito e do sofrimento ratificam a disciplina como valor social. Vejamos como isso se dá a partir do discurso de Verônica (55 anos):

[...] as pessoas notam a dificuldade de caminhar, respirar, de dormir bem. Elas têm colesterol alto, depressão também. E o gordo pra mim, aquele gordo que tem dificuldade de caminhar da uma certa aflição de ver uma pessoa tão sacrificada pelo próprio peso.

Neste caso, o incômodo ocasionado pelo excesso de peso desencadeia o desejo de se afastar deste modelo corporal. É possível perceber fatores associados à saúde, mas um destaque pode ser conferido às dificuldades que o corpo gordo enfrenta na realização de atividades cotidianas.

O medo do enfeamento do corpo se associa ainda ao medo de perder a disciplina sobre os cuidados com o corpo. De acordo com as falas analisadas, a perda da disciplina acentua preocupações com a manutenção de uma boa forma corporal, todavia, este aspecto parece estar relacionado ao esforço despendido na construção da aparência corporal desejada, e ao sentimento de prejuízo e desperdício de tempo - nos casos em que se deseja retornar a uma condição de beleza física que se perdeu. Carol (23 anos) revela tais sentimentos na seguinte declaração:

Perder peso não é fácil. É uma eterna briga com a balança. Minha mãe diz que eu estou melhor agora. Pelo menos agora eu estou me pesando. Se eu engordo 100 gramas mesmo que minha mãe diga "Menina isso é apenas líquido. Vai embora quando você for ao banheiro", ainda me preocupa. Eu já passei por tanta coisa que só sabe quem passou.

A eterna luta contra a balança pode ser compreendida como metáfora do esforço corporal, mas também revela um traço característico dos sujeitos contemporâneos para quem dominar o corpo representa poder e autoconhecimento. Nesse caso, o constante exame de si remete à necessidade de buscar recursos de controle cada vez mais intensos. Assim, quanto maior o número de informações e quanto mais efetivo for o periciamento da forma do corpo, maior segurança os sujeitos conseguem construir sobre si mesmos.

Para finalizar, ressaltamos que os três tipos de pensamento sobre o corpo gordo (medo do adoecimento, fenecimento da beleza e perda de autocontrole), revelam três entendimentos sobre a lipofobia que são o "medo da gordura", o "medo de engordar" e o "medo de ser improdutivo". No primeiro caso, a gordura está associada à doença. No segundo caso, engordar está associado ao medo de se tornar feio, desproporcional, desalinhado. No terceiro caso, a gordura está relacionada ao temor de se perder o auto-controle, que está vinculado à incapacidade de produzir. É interessante constatar que estas três condições, ser doente, ser feio, ser improdutivo, indicam um tipo exclusão social que está ligado à incompetência na gestão do tempo-espaço corporal, aspecto tão valorizado nas sociedades ocidentais (FOUCAULT, 2004).

No próximo momento refletimos sobre os mecanismos de produção e perpetuação de discursos lipofóbicos a partir das categorias "discurso médico", "mídia" e "moda", evidenciadas na análise de enunciados.

O discurso médico entra em cena

Transitando para uma reflexão acerca dos espaços a partir dos quais são produzidos os discursos sobre a lipofobia, ressaltamos que as participantes do estudo vinculam o medo de engordar a certas representações sociais as quais transferem aos indivíduos que estão acima do peso um grau de exigência simbólica determinante para a aceitação social.

Esta exigência simbólica pode ser observada através das categorias "aumento do peso corporal" e "acúmulo de gordura", as quais remetem ao conhecimento de conceitos provenientes de discursos especializados sobre as dispersões corporais. A análise arqueológica dos enunciados permitiu-nos perceber que esta exigência simbólica parece se originar a partir de uma verdade produzida pelo saber médico o qual usufrui de destaque histórico no âmbito dos discursos de dominação sobre o corpo (FOUCAULT, 2006a).

Atualmente, não são raros os argumentos médicos que procuram conferir um significado à gordura e ao excesso de peso. De fato, ao longo dos últimos 30 anos, estudos desenvolvidos pela Medicina apresentam evidências de que o excesso de peso e os altos níveis de gordura corporal atuam como fatores de risco associados ao desenvolvimento de síndromes metabólicas e doenças hipocinéticas (ALVAREZ et al, 2008; OLIVEIRA et al, 2009). Vale ressaltar que, na atual ordem do discurso sobre as patologias, o excesso de peso associado ao acúmulo de gordura corporal, adquire status independente de doença crônica, ou seja, de doença com forte caráter comportamental e de evolução prolongada (DUMITH et al., 2008).

No âmbito dos jogos de poder, contudo, os discursos sobre a patologização do excesso peso e da gordura não se limitam apenas à esfera biológica, mas apresentam implicações políticas que precisam ser levadas em consideração. Nesse caso, torna-se necessário questionar o discurso médico que, de acordo com Foucault (2006a) e Canguilhem (2000), exerce um papel determinante na construção de representações epistemológicas e sociais referentes ao corpo e ao comportamento dos sujeitos.

Mas como é possível verificar a ação destas representações no nível dos jogos da verdade? A resposta pode ser obtida a partir dos efeitos de subjetivação desencadeados por um dado regime de verdade.

De fato, ao longo da história o discurso médico tem atuado politicamente através de efeitos subjetivos de verdade peculiares. À luz da teoria de Foucault (2006a), estes efeitos verdade podem ser entendidos como tecnologias de poder que tem por objetivo vincular aos sujeitos uma autoridade constituída a partir de um saber legítimo sobre a saúde. A legitimidade deste saber depende da apropriação racional dos fenômenos patológicos e transformação destes em objetos de conhecimento, mas se consolida a partir de relações de exclusão, desencadeadas por meio daquilo que o filósofo denomina de "oposição entre verdadeiro e falso".

Sendo assim, estes efeitos parecem operacionalizar formas de exclusão na medida em que os sujeitos apresentam regularidades ou dispersões em relação ao saber socialmente concebido como verdadeiro. Tal aspecto confere uma posição de destaque aos "sujeitos que conhecem", ao mesmo tempo em que promove uma mobilização técnica daquele saber para dotá-lo de verificabilidade e utilidade.

Neste estudo, os efeitos de verdade desempenhados pelo discurso médico podem ser verificados, principalmente, pelo amplo reconhecimento das determinações médicas enquanto verdades absolutas sobre o corpo. Observemos como este aspecto se manifesta nesta declaração de Tereza (67 anos), para quem os padrões de peso corporal definidos pela Medicina servem como forma de mensurar níveis de saúde em função da faixa etária:

De acordo com a sua idade você tem que estar dentro dos limites isso ainda é estabelecido. [...] Então já existem determinados padrões de acordo com a idade e você procura se enquadrar nos padrões [...] é aquilo que eu falei da coisa padronizada já dita pelos médicos, não é? Então pra sua saúde isso também é importante.

Apesar de apontar a vaidade como motivação para o controle do peso corporal, a entrevistada declara que a saúde deve ser preservada através de uma vigilância sobre si mesma, sendo a padronização médica a principal referência para se obter ou permanecer num estado saudável. Por trás desta padronização, contudo, constata-se a existência de valores de normalização determinados em função das demandas fisiológicas e sócio-culturais peculiares a uma dada população.

Não obstante o fato de que Tereza se referir ao controle do peso corporal como forma de garantir saúde e independência física, aspectos geralmente valorizados por indivíduos de idade mais avançada - conforme apontam evidências da literatura especializada (GOMES; NEVES, 2010; SILVA JÚNIOR et al., 2011) -, opiniões sobre a pertinência do discurso médico foram identificadas nas falas de outras voluntárias, independente da faixa etária.

Obtivemos respostas reveladoras sobre os efeitos de verdade operacionalizados pelo discurso médico quando questionamos as entrevistadas acerca das referências de controle aplicadas ao domínio do peso corporal:

O limite que eu devo seguir e que foi imposto para evitar que eu esteja abaixo ou acima é determinado pela Sociedade Brasileira dos médicos que delimita de acordo com tanto a tanto se o peso está errado ou então se é sobrepeso (CAROLINA, 23 anos).

Da mesma forma, a fala de Glenda (29 anos) revela que os efeitos de verdade existentes sobre o peso corporal encontram subsídios em áreas de conhecimento voltadas à identificação, construção de diagnósticos e formas de classificação de corpos anormais:

Acho que até os próprios médicos, e a Educação Física tem formas de avaliar o percentual de gordura, sobrepeso, níveis de obesidade. Também tem os endocrinologistas. Realmente tem pessoas que trabalham para definir para dar esse diagnóstico.

Estas declarações não apenas ratificam a valorização do discurso médico como também sustentam a validade da Nutrição (dietas) e da Educação Física (avaliação física) como áreas do saber que divulgam informações e produzem técnicas de controle do peso corporal.

Poderíamos considerar que os efeitos subjetivos do discurso médico se manifestam no âmbito simbólico (representado pela apropriação discursiva da padronização do peso corporal como verdade "absoluta" e reconhecimento de modelos corporais como ideais de saúde) e no âmbito concreto (representado pela utilização de tecnologias como a mensuração antropométrica e a organização quanti-qualitativa dos alimentos a serem consumidos). Dessa forma, o discurso médico parece reforçar sua posição de poder ora individualizando a responsabilidade de evitar doenças, ora tomando para si o poder de controlar o corpo (FOUCAULT, 1999).

Apesar do discurso médico aparecer como produtor de verdade sobre a saúde e a doença, as entrevistadas atribuem à mídia e à moda uma importância significativa no que se refere produção de informações sobre o corpo gordo e divulgação de valores lipofóbicos em larga escala. Tratemos destes fenômenos no próximo tópico.

A mídia e a moda no jogo das belezas "verdadeiras"

Ao longo da análise dos resultados observamos que as categorias "mídia" e "moda" apresentaram uma frequência significativa - destacam-se os discursos emitidos frente ao sétimo cenário do estudo (respectivamente 52% e 20% dos operadores de dominação identificados). À luz dos depoimentos, constatamos que a mídia é compreendida como um mecanismo disseminador de padrões de beleza, enquanto que a moda é considerada uma tecnologia de poder que reforça representações sociais negativas sobre o corpo gordo para se obter lucro e mercado.

Apesar de a regularidade enunciativa ter revelado estas funções, percebe-se que as entrevistadas centralizaram suas opiniões na ação e nos efeitos desempenhados pela mídia e pela moda, sobretudo no que se refere às maneiras de cuidar e se relacionar com o corpo. Em relação à lipofobia, alguns relatos destacam que a mídia e a moda são responsáveis por disseminar a idéia de magreza corporal como um valor social positivo.

Muito embora, o problema da valorização social da magreza corporal apareça ligado à esfera dos cuidados intensivos com o corpo, as informantes revelaram opiniões que apontam para a ação de uma indústria do culto ao corpo. Referências à comercialização de técnicas corporais como o exercício físico e a lipoaspiração - que podem ser utilizados pra "ficar durinha", "definida" e com a "cintura fina" - e opiniões sobre o mercado da beleza - o qual oferece recursos para se conquistar o corpo dos sonhos "dividindo o valor das cirurgias plásticas em até 10 vezes" - revelam uma redução do corpo ao status de propriedade passível de ser modificada de acordo com a vontade do sujeito ou em função das leis de mercado.

Acreditamos que a atual possibilidade de produzir a beleza em "escala industrial" está fundada em dois aspectos importantes. O primeiro diz respeito à consolidação da idéia de corpo rascunho defendida por Le Breton (2003), segundo a qual o corpo é considerado inacabado e rico de imperfeições que podem ser corrigidas biotecnologicamente. O segundo aspecto refere-se à ascensão de uma moral somática centrada na produção de modelos imagéticos cuja aparência deve ser reproduzida para atingir certos níveis de sucesso e prazer (COSTA, 2004).

Outra questão importante que se relaciona à indústria do culto ao corpo belo é seu poder de sedução, característica já ressaltada por Lipovetsky (2006), para quem a própria moda assume forma de lei associada à obsolescência, à diversificação e renovação da vida nas sociedades contemporâneas, e por Foucault (1999, p. 83), que entende a sedução como característica irredutível das relações de dominação:

[...] se o poder só tivesse a função de reprimir, se agisse apenas por meio da censura, da exclusão, do impedimento, do recalcamento, à maneira de um grande superego, se apenas exercesse um modo negativo, ele seria muito frágil. Se ele é forte, é porque produz efeitos positivos a nível do desejo - como se começa a conhecer - e também a nível do saber.

Aprofundemos nossa análise sobre o funcionamento da mídia e da moda na difusão da lipofobia. Depoimentos realizados sobre a mídia revelam que ela desempenha funções discursivas que ultrapassam a simples propagação de imagens capazes de "chamar atenção". Nas palavras de Foucault (2008), seria possível dizer que a mídia produz tipos de discurso e consequentemente tipos de subjetividade uma vez que o discurso precede o sujeito.

Para as entrevistadas, a mídia modifica a relação que se têm como o próprio corpo, criando "novos tipos de obsessão" ao mesmo tempo em que estimula a procura por investimentos tecnológicos voltados ao aprimoramento da forma física. Nessa perspectiva, ressaltamos que o caráter sedutor das imagens midiáticas torna-se particularmente mais poderoso quando existe uma identificação entre o sujeito que observa e o "corpo-objeto de consumo" veiculado na propaganda. A declaração a seguir ilustra esta situação:

Muitas [mulheres] olham o corpo de uma atriz ou de uma atleta e pensam "Eita eu queria ter aquele corpo, aquele bumbum, aquelas pernas!" Muitas desejam ter a estética da outra mulher que tem o corpo mais definido e escultural (GLENDA, 29 anos).

Nota-se que a mudança corporal é determinada por relações de comparação e reprodução. Entretanto, a reprodução de detalhes corporais ou mesmo a modificação total da aparência física em função de um parâmetro midiático pode promover uma homogeneização das identidades ao invés de contribuir para a construção de uma identidade diferenciada e particular.

O fato de que esta homogeneização, denominada pelas depoentes como padronização, é mediada por imagens virtuais, trazem à tona uma interrogação referente ao distanciamento entre uma imagem ideal, geralmente produzida tecnologicamente, e as condições concretas a partir das quais é possível intervir sobre o corpo (SANTAELLA; NÖTH, 2008). Por outro lado, a padronização viabilizada pela mídia remete a um processo de objetivação da beleza corporal, ou seja, de transformação do corpo em objeto de consumo. Acreditamos, com base na teoria de Foucault (2004), que essa transformação está ligada ao dispositivo de visão, que potencializa o poder da imagem exposta na medida em que sua exposição se torna mais freqüente.

Pode-se considerar que a reprodução de uma aparência padronizada representa, também, uma busca pela aquisição dos mesmos valores simbólicos, econômicos e políticos expressos por aquela imagem. Costa (2004) reitera essa hipótese ao considerar que a comparação com os protagonistas da mídia e da moda representa uma estratégia para se obter destaque social uma vez que os investimentos corporais funcionam como referência de poder sobre os outros. Além disso, o destaque social viabilizado pela mídia aparece associado à possibilidade de transitar nas entrelinhas daquele espaço. Neste caso, adquirir beleza corporal pode implicar em compensação financeira:

Querendo ou não tem o lado do dinheiro e por outro lado a mídia exige que você fique no auge. Então para veicular sua imagem, se você é conhecida e quer fazer algum tratamento, a própria mídia te chama para você ser garota propaganda e aí você ganha uma série de coisas de graça e aí tem que saber aliar o útil ao agradável (FERNANDA, 40 anos).

Todavia, por trás da compensação financeira a mídia desempenha uma função de dominação imprescindível, ou seja, a mídia transforma corpos em objetos de apreciação cujas características estéticas devem revelar o máximo de controle.

Uma última consideração sobre a mídia consiste nos efeitos lipofóbicos que ela desempenha nas relações consigo mesmo e com o outro. Efeitos que provocam um direcionamento para a construção da magreza cinematográfica, correlata de credibilidade e de qualidade moral:

Você vê um gordinho fazendo propaganda? [...] A mídia quer passar sempre uma imagem, eles nunca botam um gordinho, um feinho, para poder chamar atenção. Eles pregam que todo mundo tem que ser magro, bem feito. Acho que (isso) passa uma credibilidade, eles acreditam, como eu falei, que a pessoa gorda não tem força de vontade de investir ou de tomar uma decisão. (MARIA CAROLINA, 23 anos).

No que diz respeito ao papel da moda na difusão da lipofobia, resta salientar sua proximidade funcional com a mídia. Estrategicamente a moda parece atuar quando dita comportamentos a serem seguidos e quando usa a linguagem visual das passarelas e revistas para exibir um padrão corporal controlado. Para demonstrar estas questões, recorremos às declarações de Emanuele (34 anos), uma empresária da indústria da moda que pratica exercício físico em academias de ginástica há 9 anos. Em sua fala Emanuele revela que a moda atua sobre a esfera dos desejos, mas limitando o consumo de seus produtos às pessoas magras:

A indústria da moda, como eu te disse, faz um mercado sempre voltado para os magros. E aí, infelizmente tem isso, se você tem uma confecção como uma marca, com um nome já estabelecido no mercado, para a sua roupa cair bem e para que as pessoas olhem para a roupa e não para quem está usando, neste caso realmente o magro é que serve (EMANUELE, 39 anos).

De acordo com ela, a moda funciona a partir da construção de roupas "conceito", "inspiradas em algum tema para fazer uma coleção", que são expostas nos desfiles para ditar as tendências sobre o que se deve usar. A situação do desfile representa o momento de exibição das criações. Nesse contexto, o corpo magro que tem a função de mostrar a criação acentuando a visibilidade da própria roupa, se torna secundário, pois o que deve ser ressaltado é apenas a roupa a ser comercializada.

Funcionando como "cabide", o corpo magro é o que melhor se adéqua às necessidades da moda. Consequentemente ele é o que mais circula na mídia e é justamente através dessa circulação que a moda exerce influência sobre os sujeitos. Nesse sentido, Emanuele ressalta que a moda constrói imagens "ideais" para serem reproduzidos em corpos "reais", pois, os manequins utilizados para confeccionar as vestimentas nem sempre reproduzem as dimensões humanas reais. "[...] Um manequim, desses que a gente usa na faculdade para aprender modelagem, que é o tamanho 38, se você for ver uma pessoa real que veste 38, ela não cabe naquele formato". Em função disso, a moda representa um espaço de exclusão da gordura, pois, transmite valores lipofóbicos sem os quais não é possível conquistar visibilidade social. Este fato confirma a opinião de Foucault (1999), segundo a qual o corpo só pode ser exibido se expressar uma imagem de autocontrole.

Por fim, registramos que moda e mídia desempenham funções mais complexas do que a exposição de produtos e criação de mercados. Tanto a mídia quanto a moda produzem discursos e práticas que são essencialmente lipofóbicos. Uma possível explicação para isso talvez seja a de que o corpo "cabide", ou seja, objeto de consumo tem na administração de sua imagem um recurso para obtenção de poder político, simbólico e econômico.

 

Considerações Finais

Nesta investigação procuramos chamar atenção para a ascensão de uma cultura lipofóbica nas sociedades ocidentais, cultura que se apóia num regime de verdade caracterizado por estratégias de problematização desenvolvidas por sujeitos cujos pensamentos revelam temores em relação à improdutividade, à feiúra e à doença.

Verificamos que o saber médico estabelece uma verdade sobre o corpo gordo determinante para a aceitação social. Sua ação pode ser verificada através de conhecimentos e técnicas que possibilitam aos sujeitos uma vigilância progressiva sobre os excessos do corpo. Por outro lado, a mídia e a moda agem propagando socialmente imagens ideais de corpo e produzindo obsessões ligadas ao consumo e à estimulação do corpo, aspectos que contribuem para uma homogeneização e objetivação das formas corporais. Não se trata, contudo, de considerar os sujeitos lipofóbicos como marionetes do saber médico, da mídia e da moda. Os pensamentos e atitudes lipofóbicas representam uma opção de existência que encontra condições de possibilidade na atual moral de controle-estimulação.

Do ponto de vista metodológico a estruturação da pesquisa seguindo as etapas de familiarização com o instrumento, coleta e análise de dados permitiu que o tratamento dos discursos acontecesse de forma sistematizada minimizando erros na aplicação da técnica photo elicitation. Tal fato também corroborou para identificação e interpretação mais clara das categorias enunciativas.

A partir destas informações destacamos a importância de realizar estudos sobre a produção de verdade sobre o corpo gordo em outros espaços sociais com o objetivo de discutir formas de problematização que privilegiem a inclusão social dos diferentes sujeitos, demanda sobre a qual nos debruçaremos em estudos futuros.

 

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Apoio: CAPES.

Recebido em: 16 de maio de 2011.
Aceito em: 19 de julho de 2012.

 

 

1 Este trabalho é derivado de dissertação de mestrado produzida junto ao programa de mestrado associado em Educação Física UPE/UFPB.