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Motriz: Revista de Educação Física

On-line version ISSN 1980-6574

Motriz: rev. educ. fis. vol.19 no.2 Rio Claro Apr./June 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1980-65742013000200024 

ARTIGO ORIGINAL

 

Atividades de aventura e educação ambiental como foco nos periódicos da área de Educação Física1

 

Adventure activities and environmental education in Physical Education journals

 

 

Juliana de Paula Figueiredo; Gisele Maria Schwartz

Instituto de Biociências, UNESP - Univ Estadual Paulista, Campus de Rio Claro, Departamento de Educação Física, Laboratório de Estudos do Lazer, Rio Claro, SP, Brasil

Endereço

 

 


RESUMO

Este estudo, de natureza qualitativa, objetivou analisar os artigos que tratam sobre as diferentes abordagens e estratégias metodológicas relacionando as temáticas atividades de aventura e educação ambiental, em periódicos da área de Educação Física. A pesquisa exploratória foi realizada nos periódicos da área com estrato "A", na avaliação WebQualis CAPES 2011. Os resultados evidenciam que esta relação é pouco explorada na área e os estudos privilegiam apenas alguns aspectos, necessitando, assim, novas reflexões.

Palavras-chave: Educação Física. Atividades de Aventura. Educação Ambiental.


ABSTRACT

This qualitative study aimed at analyzing the articles that deal with different approaches and methodological strategies linking the themes of adventure activities and environmental education in journals of Physical Education area. An exploratory research was conducted in journals with "A" concept in 2011 WebQualis CAPES platform. The results show that this relationship is few explored in the area and the studies emphasize only some aspects, requiring therefore new approaches.

Keywords: Physical Education. Adventure Activities. Environmental Education.


 

 

Introdução

A área de conhecimento relativa à Educação Física apresenta uma grande abrangência de conteúdos, dentre eles o lazer, o qual ganhou forças na era industrial e se tornou cada vez mais valorizado como campo de estudo, sobretudo a partir da vinda do sociólogo francês Dumazedier, em 1973, cujas ideias embasaram o pensamento de estudiosos nacionais, para a compreensão desse fenômeno, o lazer. Com o passar dos tempos e as inúmeras conquistas a respeito dos benefícios do lazer, este passou a ser reconhecido como de direito, porém, nem sempre vivenciado de fato.

A abrangência das possibilidades de vivências no campo do lazer é imensa e, na contemporaneidade, as opções que recebem grande demanda versam sobre a procura por novas experiências e, consequentemente, avivando o desejo de explorar novos lugares e emoções, refletindo no aumento do fluxo de viagens, especialmente para a vivência de atividades no ambiente natural. Nesta perspectiva e diante desse desejo cada vez maior dos seres humanos de fugir das grandes cidades aos finais de semana e feriados e de estabelecerem um reencontro com a natureza, entre outros motivos, aumenta-se, gradativamente, a oferta de atividades de aventura.

De acordo com Betrán e Betrán (1995), as atividades físicas de aventura na natureza (AFAN) caracterizam-se por serem vivenciadas durante o tempo livre, permeadas pelos aspectos imaginários, podendo proporcionar sensações e emoções, em contato com um ambiente natural. A vivência dessas aventuras e emoções está pautada no risco controlado, pelo fato de existirem vários equipamentos de segurança e inúmeros procedimentos a serem seguidos (SCHWARTZ, 2006). Atualmente, este aspecto está cada vez mais sendo levado em consideração, diante das normatizações e procedimentos de segurança que são exigidos das empresas que atuam no mercado da aventura.

Ainda no que se refere ao risco presente nestas atividades, Le Breton (2009) ressalta que é justamente este elemento que proporciona momentos de total prazer aos participantes e agrega valores pessoais, os quais remetem à superação de limites. A internalização de valores como estes pode acarretar numa transposição para o cotidiano, levando as pessoas a pensarem mais nos outros e em si mesmas, diante de novos desafios.

Além dessas características, estas vivências utilizam-se, cada vez mais, das tecnologias para aprimorar as atividades oferecidas e podem ser realizadas sem a necessidade de treinamentos intensivos (MARINHO, 2004a). Isso garante a oportunidade de uma vivência lúdica e descompromissada, a qual oportuniza a experimentação de diversas modalidades, sem, necessariamente, estar preparado para tal.

Sendo assim, a aventura, atrelada aos aspectos de sensações e emoções, liberdade e oportunidade de desafios, pode proporcionar vivências significativas aos indivíduos durante os momentos destinados ao lazer. Essas experimentações podem, ainda, contemplar diferentes valores, sejam eles pessoais, educativos, ambientais, entre outros.

Diversos pesquisadores, em diferentes áreas, buscam compreender melhor alguns aspectos presentes nestas atividades. Ao se focalizar especificamente o campo da Educação Física, interesse desse estudo, diferentes abordagens já são contempladas sobre as atividades de aventura. As características que envolvem estas atividades já permeiam estudos como os de Lavoura, Schwartz e Machado (2008), evidenciando o seu potencial de oferta de sensações e emoções prazerosas e significativas, e de Bruhns (2003), a qual ressalta o potencial destas atividades na construção de valores pessoais e sociais. Outro aspecto importante nesta caracterização é o possível favorecimento destas atividades no processo de educação ambiental, podendo modificar atitudes cotidianas e o repensar sobre a valorização do meio ambiente (KUNREUTHER, 2011).

Sendo assim, uma das possibilidades que se apresenta é a de que as vivências dessas atividades de aventura na natureza contribuam para a construção de novos valores e condutas pró-ambientais. Estas temáticas relativas à educação ambiental têm sido mais focalizadas, sobretudo, em estudos das áreas de Ecologia e Educação. Entretanto, o estudo do meio ambiente, englobando as considerações sobre educação ambiental, representa um tema transversal, o qual foi sugerido pelos Parâmetros Curriculares Nacionais para ser trabalhado nas diversas áreas do conhecimento (BRASIL, 1998), ainda que esteja restrito a abordagens em áreas específicas.

A associação do ambientalismo, movimento ideológico e social, o qual promove ações em busca da conservação ambiental, com a ação educativa é que define a educação ambiental, uma vez que esta sintonia favorece a construção de estratégias mais eficientes e capazes de sensibilizar os indivíduos (CASCINO, 1999). Nesse sentido, a transdisciplinaridade se torna cada vez mais necessária nesta construção do processo educacional referente aos valores ambientais, na qual os diversos campos de estudo podem contribuir com seus conhecimentos e estratégias de ensino, no sentido de despertar a atenção dos aprendizes para a adoção de condutas pró-ambientais.

De acordo com Guimarães (1995), a educação ambiental tem como importante função despertar a percepção da necessária integração do ser humano com o meio ambiente. Nesta perspectiva, as vivências de atividades em ambiente natural, permeadas pela aventura, podem favorecer a reaproximação dos indivíduos com a natureza (BRUHNS, 1997). Isto reitera a perspectiva de ampliação do campo de visão da área de Educação Física, para se apropriar de seus recursos e construir novos significados.

A maneira como são desenvolvidas as atividades no âmbito de ação da Educação Física e os objetivos estabelecidos em cada vivência podem contribuir para reavivar atitudes e condutas positivas em relação ao meio natural. No que se refere à perspectiva da construção de atitudes ambientais, Schultz et al. (2004) enfatizam que estas se relacionam às crenças dos indivíduos, ao afeto e à intenção de comportamentos estabelecidos por meio da abordagem de questões referentes ao meio ambiente e/ou da realização de atividades nestes espaços.

Quanto à conduta pró-ambiental, Corral-Verdugo (2000) ressalta que ela é concretizada com a união de ações direcionadas, decididas e efetivas, as quais correspondem às condições ambientais e pessoais, para a proteção do meio. Dessa maneira, torna-se necessário, criar estratégias diferenciadas e significativas, permeadas por valores positivos, para despertar nos indivíduos intenções de ações em favor do meio ambiente e para serem construídas novas atitudes. A partir desta perspectiva, os indivíduos poderão ser sensibilizados para perceber o que está ao seu alcance diante da realidade em que vivem e poderão suscitar decisões em prol de uma sociedade sustentável, refletindo, inclusive, em novas condutas.

No campo de estudo referente à Educação Física no Brasil, alguns autores já discorrem sobre a educação ambiental, utilizando como estratégia as atividades de aventura (MARINHO, 2004a; TAHARA; DIAS; SCHWARTZ, 2006). Esses autores abordam, em seus estudos, questões referentes à afetividade necessária durante as atividades de aventura, para que esta possa contribuir efetivamente para a educação ambiental, pelo fato de poder potencializar novas reflexões aos participantes, fazendo-os protagonistas na construção de uma sociedade mais sustentável.

No entanto, esses autores também ressaltam a presença de aspectos negativos com a prática constante e sem critérios éticos dessas atividades no ambiente natural, o que promove a degradação e a destruição desses espaços de fruição. Esses estudos salientam, ainda, a premência de ações capazes de suscitar novas possibilidades de construção da sensibilidade para a conservação do meio ambiente e revigorar a qualidade na interação ser humano-natureza.

Entretanto, estes conhecimentos, dentre outros, já produzidos acerca da relação atividades de aventura e educação ambiental encontram-se esparsos, o que configura ação individualizada, perdendo sua força como estratégia de mudança rumo à sustentabilidade e comprometendo as discussões e possíveis aprofundamentos na área, com ressonâncias, inclusive, na inadequação de algumas aplicações práticas desses aprendizados e na escassez de políticas públicas voltadas a esta temática. Dessa forma, surgem alguns questionamentos, tais como: o que é abordado nos estudos publicados nas principais revistas nacionais de Educação Física focalizando a relação atividades de aventura e educação ambiental? Quais terminologias são utilizadas para referenciar estas temáticas? Quais são os públicos participantes dos estudos? Em quais objetivos os estudos se fixam? Quais os métodos e instrumentos utilizados para o desenvolvimento das pesquisas? Quais são os principais resultados destas pesquisas?

Na perspectiva de buscar compreender algumas destas inquietações e aprimorar a gestão do conhecimento acerca das possibilidades envolvendo as atividades de aventura e suas relações com a educação ambiental, na área de estudo da Educação Física, é que se propôs esta reflexão. Neste sentido, ao realizar esta gestão do conhecimento acerca desse referido assunto, o estudo visa colaborar para aglutinar significativas informações, realizando um balanço do que já existe acerca desta temática, podendo embasar novas pesquisas e ações, bem como, favorecer a sistematização e disseminação dessas informações. Sendo assim, este estudo teve por objetivo analisar os artigos que tratam sobre as diferentes abordagens e estratégias metodológicas relacionando as temáticas atividades de aventura e educação ambiental, em periódicos da área de Educação Física.

 

Método

Este estudo tem uma natureza qualitativa, por entender, como Stake (2010) que este método se adéqua para o desenvolvimento de estudos que buscam compreender diferentes nuances, relativa a uma temática exposta na produção bibliográfica de atores sociais de determinado campo de conhecimento. O estudo compreendeu duas etapas, sendo a primeira referente a uma revisão bibliográfica sobre os estudos publicados acerca da temática em questão. A revisão sistemática da literatura sobre determinado tema, para Stake (2010) representa a possibilidade de ampliar as reflexões, tendo por base o que já está produzido sobre a temática, buscando alavancar outros conhecimentos.

A segunda etapa é relativa a uma pesquisa exploratória, a qual foi desenvolvida para se penetrar mais densamente no universo pesquisado, ampliando-se as vantagens na promoção de novas reflexões (LEECH; DELLINGER, 2012). Esta pesquisa foi realizada com base nos periódicos nacionais da área de Educação Física, classificados no estrato "A" na avaliação WebQualis CAPES 2011, área 21, no período de 3 a 10 de janeiro de 2012. Para a pesquisa exploratória, primeiramente, foi feita uma busca dos periódicos nacionais de Educação Física no WebQualis CAPES 2011 - área 21, iniciando-se pelo estrato "A1", no qual não se obteve nenhuma ocorrência. Em seguida, pesquisou-se o estrato "A2", resultando em dois periódicos, sendo eles: Motriz (Universidade Estadual Paulista – Campus de Rio Claro) e Movimento (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), os quais foram selecionados para a realização da pesquisa.

Nesta perspectiva, realizou-se um levantamento dos artigos completos nos dois periódicos, utilizando como termo de busca a expressão "atividades de aventura e educação ambiental". Os critérios de inclusão adotados na pesquisa versaram sobre artigos completos, originais, sem limitação de tempo, que abordassem especificamente a relação das atividades de aventura com a educação ambiental e apresentassem pesquisa exploratória, com sujeitos envolvidos nas atividades de aventura, a fim de adentrar nas discussões da relação dessas temáticas, pautadas nos resultados dessas vivências. Foram excluídos os artigos publicados nos suplementos da revista Motriz, os quais se referiam às publicações do Simpósio Paulista de Educação Física e Congresso Internacional de Educação Física e Motricidade Humana, promovidos pela instituição.

A partir da coleta realizada online, com o termo de busca, foram encontrados vinte e seis (26) artigos, sendo dezenove (19) na revista Motriz e sete (7) na revista Movimento. Entretanto, desse total de artigos encontrados, quatorze (14) foram excluídos, após uma leitura minuciosa, por não focalizarem a relação das atividades de aventura com educação ambiental, mesmo sendo filtrados inicialmente.

Dos doze (12) artigos restantes, apenas seis (6) foram selecionados para a discussão, por apresentarem pesquisa exploratória com sujeitos envolvidos em atividades de aventura e, assim, se enquadrarem em todos os critérios de inclusão. Na pesquisa exploratória, a inclusão apenas de artigos que envolvessem coleta de dados com sujeitos participantes, se justifica pela possibilidade de enriquecimento de informações, opiniões e relatos provenientes desses indivíduos, podendo, assim, contribuir para o aprofundamento do conhecimento acerca da vivência com as atividades de aventura e o processo de educação ambiental.

Foram selecionados, portanto, cinco (5) artigos da revista Motriz e um (1) da revista Movimento. Após esta seleção dos artigos, procedeu-se à revisão sistemática dos mesmos, para se perceber os meandros dos resultados apresentados e compreender os enfoques dados a esta relação.

Para a análise desses dados, utilizou-se a Técnica de Análise de Conteúdo (BARDIN, 2010), a qual focaliza apenas o que é realmente relevante para o estudo, elencando-se categorias de análise. Para Krippendorff (2012), corroborando Bardin, esta técnica permite adentrar na realidade do universo pesquisado, descrevendo os resultados do estudo de modo sistemático e objetivo.

Segundo Franco (2008), as categorias podem ser elaboradas de duas formas: a priori ou a posteriori, em relação à coleta de dados. No caso deste presente estudo, as categorias foram determinadas juntamente com a análise dos artigos utilizados na pesquisa exploratória, ou seja, a priori. Como explica a autora, ao utilizar esta forma de elaboração, "[...] as categorias e seus respectivos indicadores são pré-determinados em função da busca a uma resposta específica do investigador." (FRANCO, 2008, p. 60). Neste estudo, foram formuladas cinco categorias para a análise dos artigos sobre atividades de aventura e educação ambiental, com o intuito de aprofundar nos conhecimentos disseminados e nas informações desejadas, sendo assim distribuídas: 1- Objetivos, 2- Diferentes terminologias utilizadas, 3- Métodos, técnicas de análise de dados e instrumentos utilizados, 4- Público envolvido nas pesquisas exploratórias, 5- Principais resultados.

 

Resultados e Discussão

Os resultados evidenciam que, em relação à categoria 1- Objetivos, o estudo de Tahara, Carnicelli-Filho e Schwartz (2006) objetivou compreender sobre as práticas de aventura em contato com o ambiente natural. O estudo de Cardoso, Silva e Felipe (2006) focalizou as sensações e emoções vivenciadas pelos praticantes de AFAN, as possibilidades educativas dessas práticas, os motivos de permanência e a relação do contato do corpo com a natureza. A pesquisa elaborada por Brasil e Carvalho (2009) teve como objetivo analisar o significado das interações de pescadores artesanais e surfistas em relação à natureza. O estudo de Gomes e Isayama (2009) focalizou os motivos de adesão de pessoas às práticas esportivas e de lazer na natureza, em particular às corridas de aventura. No artigo elaborado por Moreira e Schwartz (2010), o objetivo foi investigar as atitudes capazes de despertar comportamentos pró-ambientais, durante uma caminhada. A pesquisa de Romariz, Guimarães e Marinho (2011) apresentou como objetivo a investigação da qualidade de vida relacionada à prática de atividade física de surfistas.

Pode-se perceber que os objetivos dos estudos focalizados salientam apenas alguns aspectos subjetivos, como significados das interações e motivos de adesão e permanência nas atividades, demonstrando o restrito conhecimento que se tem ainda sobre este universo temático. Devido à abrangência de significados e possibilidades de compreensão referentes às vertentes que permeiam as atividades de aventura, muitas lacunas do universo das subjetividades ainda necessitam ser preenchidas, carecendo novas investigações.

Bruhns (2003) salienta que a íntima relação com o ambiente natural contribui para novos exercícios dos sentidos, o que permite evidenciar a complexidade dos elementos subjetivos, ainda pouco explorada nas pesquisas. Costa (2000) e McDermott (2004) também apontam a configuração de diversas emoções excitantes atreladas às vivências nas atividades de aventura, cuja compreensão representa desafios a serem superados.

Além dos aspectos subjetivos, os enfoques referentes à possibilidade de reflexão sobre os elementos educativos e de qualidade de vida fizeram parte dos objetivos nos estudos analisados. Palmberg e Kuru (2000) também evidenciaram a aquisição de novos aprendizados, especialmente no que se refere à valorização do ambiente natural e melhoria nas interações sociais e morais, em decorrência dessas práticas. Na relação das atividades de aventura e a qualidade de vida, Tahara e Schwartz (2003) traçam elementos dessa associação, em função de o envolvimento com estas práticas em contato com a natureza oportunizar a revisão de valores e a busca de alternativas sobre a identidade pessoal. Segundo os autores, isto pode facilitar a individualização, autoconsciência e a interação com o outro, possibilitando, assim, a construção de novos conhecimentos e o aprimoramento nos níveis de qualidade de vida.

Diante do contexto analisado, percebe-se o interesse dos autores em procurar desvelar os complexos meandros ligados à subjetividade, além de investirem esforços nas investigações acerca das relações educativas e de qualidade de vida. Entretanto, muitos outros temas são passíveis de novos estudos, evidenciando a limitada compreensão que se tem ainda sobre estas vivências e a necessidade de pesquisas que investiguem e complementem os conhecimentos sobre os diversos aspectos ligados às emoções, sensações, assim como, à formação e atuação profissional, elementos psicofisiológicos, dentre outros, diretamente envolvidos, ao se focalizar o universo das atividades da aventura.

Na categoria 2, referente às diferentes terminologias adotadas nos estudos sobre atividades de aventura e educação ambiental, pode-se constatar que no artigo de Tahara, Carnicelli-Filho e Schwartz (2006), os autores adotam os termos Atividades Físicas de Aventura na Natureza (AFAN) e atividades de aventura. Para se referir à educação ambiental, utilizam a expressão "consciência com o compromisso de mudanças atitudinais e de valores" (TAHARA; CARNICELLI-FILHO; SCHWARTZ, 2006, p. 62).

Na pesquisa desenvolvida por Cardoso, Silva e Felipe (2006), estes autores também fazem uso da terminologia AFAN. Sobre as diferentes terminologias para referenciar a educação ambiental, os autores utilizam os termos conscientização ambiental e ética ambiental.

No artigo de Brasil e Carvalho (2009), as autoras não apresentam terminologias relacionadas às atividades de aventura, pois fazem menção somente à modalidade surfe. Em relação à terminologia educação ambiental, também não fazem citações, embora explorem as possibilidades de preservação do meio ambiente pelos surfistas e pescadores, apontando a preocupação com a problemática ambiental.

Quanto às terminologias adotadas na pesquisa de Gomes e Isayama (2009), aparecem as denominações atividades na natureza, atividades de aventura e AFAN, porém, os autores não adotam uma única terminologia, utilizando-as aleatoriamente no decorrer do artigo. Em relação à educação ambiental, estes autores também utilizam o termo "ética ambiental".

Na pesquisa de Moreira e Schwartz (2010), as autoras utilizam os termos AFAN, atividades na natureza e atividades de aventura, podendo ser observada uma preferência pelo termo AFAN. Para se referirem à educação ambiental, as terminologias utilizadas foram: conscientização e sensibilização para a problemática ambiental.

No estudo de Romariz, Guimarães e Marinho (2011), para fazer menção às atividades de aventura, as autoras utilizam a denominação atividades de aventura na natureza. Para se referirem à educação ambiental, o termo adotado pelos autores foi conscientização ambiental.

De acordo com a análise desses artigos, nota-se uma diversidade de termos nos quais os autores se pautam para se referenciarem às atividades de aventura e à educação ambiental, não havendo uma conceituação consolidada. Alguns estudos, até mesmo, buscam subsidiar a preferência por um termo específico, enquanto outros os utilizam como sinônimos.

No que se refere às terminologias adotadas para as atividades de aventura, embora praticamente todos os estudos analisados tenham utilizado o termo AFAN - Atividades Físicas de Aventura na Natureza, sugerido inicialmente por Betrán (1995), há discussões, na literatura, que questionam sua utilização de modo generalizado. Esse aspecto foi destacado por Marinho (2004a, p. 4), a qual considera que o termo "físicas", inserido na expressão, soa como um pleonasmo, quando associado às atividades, sugerindo, assim, a utilização do termo atividades na natureza.

Entretanto, a terminologia que privilegia o uso do termo natureza, como, por exemplo, atividades de aventura na natureza ou, simplesmente, atividades na natureza, por sua vez, deixa de abranger as atividades realizadas no meio urbano ou em locais com estruturas artificiais, como ginásios, quadras poliesportivas e academias com atividades indoor. Ao se considerar que estas atividades não são, necessariamente, desenvolvidas apenas no ambiente natural, estes termos voltam a ser questionados.

Por outro lado, o ambiente natural tem sido um grande fator de motivação para qualificar a relação ser humano-natureza. Autores como Lavoura, Schwartz e Machado (2008) e Bruhns (1997) reiteram que a natureza propicia a experimentação de sensações e emoções significativas, as quais podem ser capazes de potencializar o reencontro dos indivíduos com sua própria natureza e com o entorno. Nessa perspectiva, a terminologia atividades de aventura parece ser a mais próxima de uma compreensão clara e abrangente sobre esta temática, ainda que não tenha sido a mais adotada pelos autores estudados.

Os próprios termos envolvidos (atividades e aventura) já denotam caracterizações diferenciadas e instigam novos desafios, no intuito de esclarecer esses entraves referentes à terminologia mais adequada para nomear estas vivências. Ao preconizar o uso do termo atividades de aventura, pode-se abarcar uma diversidade de vivências do universo da aventura, sejam elas no meio natural, urbano ou artificial, com características turísticas, recreativas ou físicas e, até mesmo, educativas.

No que concerne à terminologia educação ambiental, os autores utilizam algumas expressões que, embora não se aproximem do conceito de educação ambiental, apresentam estreita relação à sua função de levar os indivíduos a perceberam a necessidade de integração com o meio ambiente (GUIMARÃES, 1995), a exemplo dos termos conscientização ambiental e ética ambiental, explorado em quase todos os artigos analisados.

No caso da ética ambiental, esta se sustenta de maneira a reorientar os indivíduos em suas ações com o meio ambiente e indicar quais são as condutas eticamente corretas no que se refere à conservação, preservação e relação a ser estabelecida com a natureza e os demais elementos, apresentando, inclusive, o limite do que é considerado adequado (GRÜN, 2007). Nesse sentido, procura atingir uma relação de harmonia entre os seres humanos, a natureza e os demais seres, e não de superioridade e dominação. Da mesma maneira, outro termo utilizado, a sensibilização ambiental, possui uma conotação semelhante, entretanto, guarda singularidade no que diz respeito ao fato de que esta viabiliza o despertar para a conscientização, representando um momento que antecede a etapa de tomada de consciência.

A sensibilização permite o envolvimento com as atitudes e valores, os quais podem catalisar a permanência, em forma de conscientização, levando a possíveis alterações de condutas (SCHWARTZ, 2001). Isto se processa devido ao fato de que experiências significativas podem desencadear reflexões, novas formas de avaliação e revisão de condutas, no caso, pró-ambientais.

Da mesma maneira em que não há consenso sobre a terminologia adequada para se referir às atividades de aventura, as nomenclaturas utilizadas em referência à educação ambiental assumem diferentes conotações. Entretanto, parece haver concordância maior em relação ao uso do termo conscientização, sendo este adotado, por vezes, no sentido de caracterizar uma das etapas do processo de educação ambiental. Diegues (2001) salienta que a corrente conservacionista tem como princípio propagar a utilização dos recursos naturais pelo ser humano de maneira adequada e racional, preocupando-se em garantir os mesmos para as futuras gerações. Nesse sentido, o conservacionismo prevê a integração do ser humano à natureza, prezando pela sustentabilidade.

Em relação à categoria 3 – Métodos, técnicas de análise de dados e instrumentos utilizados, cinco dos estudos analisados apresentaram uma natureza preponderantemente qualitativa, sendo que apenas um se referiu à natureza quantitativa (ROMARIZ; GUIMARÃES; MARINHO, 2011). Este predomínio por interesse de dados qualitativos pode ter relação direta com a temática abordada e com o interesse de ampliar as reflexões, de forma mais aprofundada, acerca desse universo pesquisado. O método qualitativo parece adequar-se a este tipo de estudo sobre esta temática, pelo fato de associar elementos racionais e intuitivos no trato da compreensão do fenômeno em questão (POPE; MAYS, 1995).

No caso da utilização do método quantitativo, Romariz, Guimarães e Marinho (2011) buscaram as relações de nexo causal para a compreensão de temas bastante abrangentes, como a questão do envolvimento dos surfistas com a natureza e suas ressonâncias no nível de qualidade de vida. Geralmente, análises estatísticas utilizadas em estudos compreendendo grande número de sujeitos são adequadas para a verificação da normalidade dos dados, além de que, os elementos numéricos ilustram claramente as discussões presentes nestes estudos (SERAPIONI, 2000). Isso corrobora a opção dada pelo autores citados para o emprego do método quantitativo, uma vez que a pesquisa realizada envolveu duzentos e dois surfistas, procurando compreender a relação do surfe com a qualidade de vida, demonstrando, assim, uma complexa relação a ser investigada e compreendida.

De acordo com as técnicas de análise de dados utilizados nos artigos investigados, houve predomínio da Técnica de Análise de Conteúdo, incluindo sua variante referente à Técnica de Análise de Conteúdo Temático, em quatro dos estudos analisados. Neste tipo de técnica são elaboradas categorias em relação às unidades recorrentes constantes no texto, propiciando uma palavra ou expressão que seja mais representativa na mensagem (CAREGNATO; MUTTI, 2006). Este aspecto auxilia o pesquisador a interpretar e discutir os dados obtidos de maneira prática e objetiva, de modo a colocar em evidência os objetivos específicos pretendidos na pesquisa. Conforme salienta Krippendorff (2012), esta técnica tem demonstrado ser bastante eficiente em pesquisas envolvendo opiniões, haja vista que promove o aprofundamento nas ideias dos respondentes, salientando o que tem de mais importante nos discursos ou nas mensagens.

Em um dos estudos analisados foi utilizada a estatística descritiva (ROMARIZ; GUIMARÃES; MARINHO, 2011) e, em outro artigo, desenvolvido por Brasil e Carvalho (2009), foram seguidas as orientações propostas por Minayo (1993). Porém, neste último estudo, não aparece, especificamente definida, a técnica utilizada, conquanto a descrição permita perceber as estruturas recorrentes nas narrativas dos sujeitos da pesquisa, assemelhando-se aos procedimentos relativos à técnica de análise de conteúdo.

No que tange aos instrumentos utilizados para coletas de dados nas pesquisas exploratórias, quatro artigos adotaram questionários e dois artigos aliaram a utilização de entrevistas e observações. Este dado evidencia que a utilização de questionários parece permitir maior facilidade de aplicação, tendo em vista que este pode conter perguntas abertas, fechadas ou mistas, dependendo da característica do estudo. Entretanto, Thomas, Nelson e Silverman (2007) alertam que este tipo de instrumento deve ser elaborado cuidadosamente, a fim de efetivamente assegurar a validade dos dados, solucionar os problemas a serem investigados e atingir os objetivos propostos.

Entre as vantagens da utilização de questionário, Boni e Quaresma (2005) salientam a possibilidade de este ser aplicado sem a presença do pesquisador, além de poder atingir maior número de pessoas ao mesmo tempo, ou uma abrangência geográfica mais ampliada. Outro aspecto bastante interessante referente ao uso de questionário, ressaltado pelos autores, é a liberdade maior para responder, haja vista o anonimato do respondente, podendo-se obter respostas mais precisas e rápidas.

No caso das entrevistas, elas representam uma técnica clássica para obtenção de informações, especialmente quando se focalizam temas nas áreas de ciências sociais e ciências humanas. Esta técnica permite explorar percepções e experiências individuais, as quais auxiliam na estruturação das abordagens em diferentes temáticas (DEMO, 2001), como foi o caso dos estudos em questão. Existem diversas formas de entrevista, porém, as que foram utilizadas nos estudos analisados referem-se à entrevista semiestruturada, adotada no artigo de Cardoso, Silva e Felipe (2006), e à entrevista livre, utilizada por Brasil e Carvalho (2009). Esses tipos de organização das entrevistas permitem participação mais ativa dos sujeitos, ampliando a exploração de informações e de conteúdo dos dados.

Quanto à técnica de observação, foram utilizadas a observação participante, no estudo de Cardoso, Silva e Felipe (2006), e a observação direta, na pesquisa de Brasil e Carvalho (2009). A observação, geralmente, é utilizada para "[...] identificar e obter provas a respeito de objetivos sobre os quais os indivíduos não têm consciência, mas que orientam seu comportamento." (LAKATOS; MARCONI, 1996, p. 79).

Todos esses métodos e técnicas utilizados nos estudos analisados dependem do olhar do pesquisador para selecionar o que for mais adequado, com vistas a atingir seus objetivos. Isto depende de conhecimento, de perspicácia e de sensibilidade do pesquisador para tomar a decisão mais acertada. Torna-se importante a escolha adequada dos métodos e técnicas a serem selecionados, para que sejam eficazes no intuito de apreensão de dados para subsidiar esses tipos de estudos.

Na categoria 4, referente ao público envolvido nas pesquisas exploratórias, o estudo de Tahara, Carnicelli-Filho e Schwartz (2006) investigou vinte indivíduos adultos, de ambos os sexos, adeptos há mais de um ano nas diferentes modalidades de atividades de aventura, na cidade de Brotas/SP. A pesquisa de Cardoso, Silva e Felipe (2006) envolveu dez praticantes de atividades de aventura, de ambos os sexos, do grupo de excursionismo da ESFA - Escola Superior São Francisco de Assis/ES, os quais possuíam, no mínimo, dois anos de experiência nestas atividades. O estudo de Brasil e Carvalho (2009) investigou oito pescadores do sexo masculino e um do sexo feminino, nas praias de Caraguatatuba/SP e seis surfistas do sexo masculino, residentes na capital paulista, entrevistados na praia de Itamambuca/SP. A pesquisa de Gomes e Isayama (2009) envolveu vinte e um praticantes de corrida de aventura, de ambos os sexos, participantes das provas realizadas pelo Circuito Estrada Real de Corridas de Aventura. O estudo de Moreira e Schwartz (2010) abrangeu sete adultos participantes de uma caminhada longa, de ambos os sexos e adeptos às atividades realizadas em ambiente natural. Por fim, a pesquisa de Romariz, Guimarães e Marinho (2011) investigou duzentos e dois surfistas brasileiros, de ambos os sexos, cadastrados na Federação Catarinense de Surfe (FECASURF).

Evidencia-se uma grande diversificação do público e das modalidades investigadas. Porém, ainda que os estudos analisados tenham ampliado a compreensão sobre os diversos praticantes e sua relação com a perspectiva ambiental, outras esferas da sociedade deixaram de ser evidenciadas, referentes, por exemplo, aos empresários do mercado da aventura, aos condutores das atividades e aos demais profissionais envolvidos, como o professor de Educação Física e, inclusive, outras fases do desenvolvimento humano, como crianças e idosos.

O envolvimento dos sujeitos com o meio ambiente, nos estudos focalizados, se processa de maneira diferenciada, haja vista que os condutores de atividades de aventura e outros profissionais envolvidos nesta área possuem uma relação intensa com a natureza, ao passo que os praticantes se envolvem, na maioria das vezes, de modo esporádico e superficial com o ambiente natural (BEEDIE, 2003). Isto pode desencadear maior ou menor grau de atenção para com o ambiente e condutas pró-ambientais, devido a fatores como o tempo de exposição ao ambiente natural, a possível visualização dos benefícios que o contato com a natureza proporciona, entre outros.

Novos estudos necessitam ser desenvolvidos, contemplando outros tipos de populações pouco exploradas, quando o foco recai na investigação do envolvimento com as atividades de aventura, a fim de compreender as repercussões dessa experiência. Os desafios são ainda mais evidentes, quando se propõe a superação dos entraves acerca da aquisição do conhecimento sobre os aspectos subjetivos envolvendo a construção e mudanças de valores e atitudes de cada uma dessas diferentes populações.

Na categoria 5 - Principais resultados, entre os diversos resultados obtidos nas pesquisas exploratórias dos seis estudos analisados, foram destacados apenas aqueles que apresentavam relação direta entre as atividades de aventura e a educação ambiental. Sendo assim, no estudo desenvolvido por Tahara, Carnicelli-Filho e Schwartz (2006), no que refere ao significado da participação nas atividades de aventura, para a maioria dos sujeitos participantes da pesquisa, representando 31,8% da amostra, o envolvimento significa vivenciar momentos que possam favorecer a completa revisão de valores e atitudes. Além disso, 16% dos participantes relataram que o respeito pelo meio natural tornou-se mais incidente depois que começaram a praticar as atividades de aventura.

No estudo realizado por Cardoso, Silva e Felipe (2006), no que concerne aos principais resultados, quando os participantes foram questionados se as atividades de aventura possuíam um caráter educativo, todos responderam afirmativamente. Ao ampliar o questionamento, seis dos dez participantes apontaram a possibilidade de trabalhar a educação ambiental.

Outro aspecto relevante refere-se ao questionamento sobre a interação do corpo com a natureza, ou seja, na visão dos sujeitos de como o corpo reage diante dela, a fim de investigar a qualidade da relação ser humano-natureza. Os resultados apontaram que 50% dos participantes citaram o respeito com a natureza como elemento principal, em uma relação de igualdade, sentindo-se como parceiros da natureza para a atividade e, até mesmo, como parte da natureza.

Ao verem a natureza como parceira, os indivíduos parecem valorizá-la, ampliando-se as perspectivas de adoção de condutas de preservação, para que seja possível, inclusive, o retorno, em outro momento, para a prática das atividades de aventura. Sendo assim, os autores apontam que, apesar de os participantes prezarem pela conservação, os mesmos retratam que têm por finalidade a utilização das atividades para satisfação própria, ou seja, demonstram, ainda, uma visão antropocêntrica.

Em relação aos principais resultados obtidos na pesquisa elaborada por Brasil e Carvalho (2009), de acordo com as observações e relatos dos indivíduos, as pesquisadoras apontam que, na visão dos pescadores, é a natureza que proporciona o conhecimento para que o corpo se expresse nesse ambiente, o que os leva a ter grande respeito e valorização pela natureza. No que se refere aos surfistas, a relação com a natureza se dá pela necessidade de se conectarem a ela, para irem além, entrando em conexão com o infinito. Nesta perspectiva, o envolvimento dos surfistas com a natureza, em específico com o mar, está relacionado com um desejo íntimo, ou mesmo, uma necessidade pessoal de sentir seus corpos na água, buscando o equilíbrio e, ao mesmo tempo, superando limites.

Nesse sentido, as autoras citadas anteriormente apontam que, diante dessa percepção dos surfistas, carece chamar a atenção para a necessidade de se atentar o olhar para os valores que permeiam a relação entre o ser humano e a natureza. Ainda de acordo com estas pesquisadoras, este fato é algo ainda pouco explorado pela área de conhecimento da Educação Física.

No estudo de Gomes e Isayama (2009), quanto aos resultados obtidos, os autores apontam que os praticantes de corrida de aventura possuem um perfil psicológico diferenciado, apresentando, dentre outras características, maior ética relacional e respeito consigo próprio, com os outros e com a natureza. Ainda destacam que, geralmente, estes indivíduos transportam estes conceitos para seu cotidiano. Em um dos relatos dos sujeitos participantes da pesquisa, isso pode ser evidenciado, quando esse participante expôs que considera a corrida de aventura muito semelhante à vida, refletindo, inclusive, os acontecimentos das provas no seu dia a dia.

Quando os participantes da pesquisa de Gomes e Isayama (2009) foram questionados sobre os motivos que os levam a buscar experiências com as corridas de aventura, nove praticantes citaram o fato de estarem em contato com a natureza, porém, a perspectiva de educação ambiental não foi mencionada. Sendo assim, os autores assinalam que, entre as justificativas dessa distorção, pode-se destacar o tempo de prática dos sujeitos e as características competitivas envolvidas na modalidade corrida de aventura, levando os indivíduos a privilegiarem outros elementos, tais como, superação de limites e trabalho em equipe.

O artigo elaborado por Moreira e Schwartz (2010), evidencia que, quando os praticantes foram questionados se a caminhada poderia ajudar a pensar na preservação do ambiente, todos concordaram afirmativamente. Outro aspecto interessante, apresentado por meio da observação e relato dos caminhantes, referiu-se ao fato de que os moradores da região da caminhada, assim como os próprios caminhantes, se incomodam com atos de degradação contra o meio ambiente. Nesse sentido, nota-se a existência de uma pressão social para a preservação.

De acordo com Moreira e Schwartz, pode-se concluir, a partir dos resultados, que as atividades de aventura mostram-se como facilitadoras para a internalização de valores e construção de novas atitudes ambientais. Além desses aspectos, as autoras apontam que os estados emocionais positivos envolvidos na atividade também colaboraram para novas reflexões. Nesta perspectiva, as novas atitudes construídas a partir das vivências na natureza apresentam-se como possíveis catalisadoras do comportamento pró-ambiental.

Na pesquisa de Romariz, Guimarães e Marinho (2011), embora as autoras tenham apresentado, na introdução do estudo, uma abordagem sobre os aspectos positivos relacionados à possível conscientização por meio das vivências nas atividades de aventura, nos resultados da pesquisa exploratória não foram evidenciadas respostas que enfatizavam a questão da educação ambiental associada às atividades de aventura. Os surfistas envolvidos na pesquisa ressaltam os aspectos de tranquilidade e paz que podem ser proporcionados pelo contato com a natureza, o que, segundo eles, pode favorecer a qualidade de vida, no sentido de melhorá-la e prolongá-la.

Ao retomar o resultado do estudo de Brasil e Carvalho (2009), anteriormente comentado, as autoras apregoam que os surfistas estabelecem relação com a natureza de maneira diferenciada, geralmente não privilegiando os valores, mas sim, as sensações, o alcance de outras dimensões, a oportunidade de estar longe da cidade e da rotina. Esta perspectiva corrobora os dados encontrados por Romariz, Guimarães e Marinho (2011), uma vez que os surfistas investigados em ambos os estudos tendem a não estabelecer como prioridade, durante as vivências, a reflexão sobre valores.

Diante dos resultados obtidos nas pesquisas exploratórias dos artigos analisados, notou-se, em quatro deles, uma tendência à reflexão e revisão de valores e atitudes por meio do envolvimento com as atividades de aventura e, nos outros dois, a ausência de atenção sobre os valores, ainda que apontem, em suas considerações, a necessidade de se reforçar a atenção dos indivíduos para os valores que podem estar atrelados a estas práticas. Isso reflete a complexidade acerca da construção de valores e condutas pró-ambientais, a qual pode sofrer influências pessoais, educacionais, sociais, entre outras.

Conforme salienta Marinho (2004b), o simples contato com o ambiente natural não é o único fator decisivo para desencadear mudanças de atitudes e condutas conservacionistas. O envolvimento com a natureza durante estas práticas pode se dar pela simples utilização da mesma como cenário para as vivências, não se obtendo, dessa forma, ressonâncias positivas em relação à mudança de valores.

Ainda que os sujeitos possam refletir sobre suas atitudes, Thompson e Barton (1994) ressaltam a dificuldade de as pessoas manterem regras de condutas conservacionistas, pois, nem sempre, elas agem ou se comportam de acordo com suas atitudes. Nesse sentido, pode existir a intenção ou tendência (atitude), porém isto não se traduz, necessariamente, em uma conduta (comportamento) pró-ambiental. Para que efetivamente ocorram mudanças, torna-se necessário levar em consideração vários aspectos, entre eles os estados emocionais presentes nas atividades, o significado pessoal das vivências, a maneira como os profissionais conduzem as atividades e abordam a questão dos valores, além da própria perspectiva informal de promoção da educação ambiental.

 

Considerações Finais

Com base nos resultados referentes à investigação das temáticas atividades de aventura e educação ambiental, em artigos publicados em periódicos nacionais da área de Educação Física, pode-se perceber que estes temas ainda são pouco explorados neste campo de estudo, quando são focalizados os periódicos específicos da área em questão, com qualificação "A", entre os indexados no WebQualis, aspecto que foi adotado como critério de inclusão para a pesquisa. As temáticas envolvendo mudanças de valores e atitudes pró-ambientais ainda representam lacunas, quando o enfoque recai sobre a associação desses aspectos subjetivos com estas vivências.

Embora a maioria dos estudos apresente resultados positivos na relação dos seres humanos com o ambiente natural, proporcionadas por estas atividades, ficaram evidentes, em alguns dos estudos analisados, sujeitos e grupos que não foram sensibilizados por este envolvimento, estabelecendo, dessa maneira, o contato com a natureza simplesmente para satisfazer uma necessidade própria, sem a preocupação com os valores ambientais. Este fato representa um desafio a ser vencido, sendo fundamental que os profissionais envolvidos estejam atentos aos valores e atitudes que podem ser construídos durante essas práticas, não apenas oferecendo a atividade com um fim em si mesma, mas sim, valorizando o conteúdo educativo a elas associado.

Cabe ressaltar que os próprios condutores das atividades ou outros profissionais envolvidos podem ainda não estar sensibilizados diante das contribuições dessas atividades. Isto parece dificultar, ainda, a possibilidade de construção de novos valores junto aos praticantes e o ensino para adoção de condutas pró-ambientais, por meio dessas vivências.

Nos artigos analisados, também foi possível perceber a restrita variedade de público participante dos estudos. Torna-se premente que novas investigações busquem compreender outras populações específicas, com o intuito de ampliar as informações decorrentes da participação humana com as atividades de aventura.

A área de Educação Física, por permitir uma variedade ampla de estratégias de ensino e diversificados conteúdos, pode representar um elo importante na corrente que promove a construção de novos valores pró-ambientais, com vistas a uma sociedade sustentável. Torna-se imprescindível que os cursos de graduação e pós-graduação promovam novas reflexões, a fim de incentivar a ampliação da produção acadêmica sobre estas temáticas, com o intuito de cumprir com seu compromisso social de difusão do conhecimento.

 

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Apoio financeiro: CAPES.

Recebido em: 26 de janeiro de 2012.
Aceito em: 16 de maio de 2013.

 

 

1 Artigo derivado da dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação stricto senso em Ciências da Motricidade, da Universidade Estadual Paulista, Campus de Rio Claro, defendida em 14/12/2012 e intitulada Atitudes de condutores de atividades de aventura e a perspectiva de disseminação da sensibilização ambiental.

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