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Alfa: Revista de Linguística (São José do Rio Preto)

Print version ISSN 0002-5216On-line version ISSN 1981-5794

Alfa, rev. linguíst. (São José Rio Preto) vol.61 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2017

https://doi.org/10.1590/1981-5794-1704-2 

ARTIGOS ORIGINAIS

IDEOLOGIA, FORÇAS PRODUTIVAS E PROCESSOS DE SIGNIFICAÇÃO: A PALAVRA SELFIE COMO SIGNO IDEOLÓGICO

Luiz Rosalvo COSTA* 

*USP – Universidade de São Paulo. Grupo de Pesquisa Diálogo e Grupo de Estudos do Discurso. São Paulo – SP – Brasil. 05508-900 – luizrosalvo@uol.com.br


RESUMO

Assumindo o pressuposto de que as bases da teoria linguística do Círculo de Bakhtin (resultante da conjugação dos trabalhos de Volóchinov, Medviédev e Bakhtin) constroem-se em diálogo com tradições teóricas entre as quais o marxismo ocupa papel importante, o presente artigo discute aspectos sobre o modo como a compreensão desse grupo acerca do estatuto das relações entre infraestrutura e superestruturas e articula com a concepção de signo ideológico. A partir daí, apoiado nas noções de reflexo e refração, focaliza a palavra selfie com o intuito de analisá-la na condição de signo em que se condensam ideias, sentidos e valores associados a processos de reorganização das forças produtivas na contemporaneidade e, nessa linha de raciocínio, propõe a conclusão de que esse vocábulo, ao ilustrar exemplarmente proposições do Círculo a respeito dos nexos entre a existência socioeconômica e a consciência social, pode ser visto como um território sígnico no qual se refletem e se refratam traços fundamentais da sociedade atual.

Palavras-Chave: Ideologia; Discurso; Círculo de Bakhtin; Signo ideológico; Infraestrutura; Superestrutura

ABSTRACT

Based on the assumption that the foundations of the linguistic theory of the Bakhtin Circle (which results from the combination of Voloshinov, Medvedev and Bakhtin works) are constructed in dialogue with theoretical traditions among which Marxism plays an important role, this paper discusses aspects related to the way the understanding of this group about the status of relations between infrastructure and superstructure is linked to the concept of ideological sign. Considering that and using mainly the notions of reflection and refraction, the paper focuses on the word selfie, trying to analyze it as a sign in which ideas, meanings and values are condensed, associated with reorganization processes of the productive forces in the contemporary world and, in this line of reasoning, the paper proposes the conclusion that this word, illustrating exemplary propositions of the Circle about the linkages between the socio-economic life and the prevailing ideas in society, can be seen as a territory of signs in which fundamental features of the contemporary society are reflected and refracted.

Key words: Ideology; Discourse; Bakhtin Circle; Ideological sign; Infrastructure; Superstructure

Introdução

A reflexão desenvolvida pelo grupo conhecido no mundo ocidental como Círculo de Bakhtin1 tem se tornado nos últimos anos uma das mais importantes fontes teóricas para estudos interessados no discurso enquanto atividade de linguagem constituída em e por processos de interação desenvolvidos no âmbito de práticas sociais historicamente situadas. Dado que as bases dessa reflexão se constituem em diálogo com diferentes tradições presentes no contexto intelectual da Rússia no início do século XX, minha intenção neste artigo, que retoma e elabora proposições sugeridas em Costa (2014), é discutir a interlocução do Círculo com a tradição marxista e explorar a ideia de que um dos principais eixos da concepção de linguagem proposta pelo grupo, na qual se postula a natureza ideológica do signo, assenta-se em um determinado entendimento das relações entre, de um lado, as formas e os processos de produção e reprodução da existência material e, de outro, as ideias, imagens, valores, significados e sentidos em circulação nas diversas esferas da vida social, ou seja, o que na tradição marxista se denomina infraestrutura e superestrutura. Seguindo linhas de análise sugeridas por essa concepção, focalizo mais adiante o vocábulo selfie, com a intenção de mostrar aspectos a partir dos quais essa palavra, na qualidade justamente de signo ideológico, articula-se com a questão das relações entre as forças produtivas e os processos de significação na sociedade.

A ciência das ideologias e o diálogo com o marxismo

A presença da questão infraestrutura-superestrutura na obra do Círculo aparece de modo visível particularmente nos textos de Medviédev e Volóchinov e enuncia-se de imediato no fato de esses autores nortearem o trabalho desenvolvido por eles na década de 1920 pelo projeto de construção de uma ciência das ideologias. Tal projeto, sintonizado com a agenda do Instituto de História Comparada de Literaturas e de Línguas do Ocidente e do Oriente – ILI a ZV2, onde os dois estudiosos atuaram, é nitidamente explicitado, no caso de Medviédev, em O método formal nos estudos literários (MEDVIÉDEV, 2012 [1928]). No caso de Volóchinov, alusões a esse propósito encontram-se, por exemplo, no Rapport d’activité à L’ILJAZV pour l’année académique 1927-1928 (VOLOSHINOV, 2010 [1928]) e em Marxismo e filosofia da linguagem (VOLOSHINOV, 2002 [1929]).

Embora no decorrer do empreendimento eles incorporem à sua concepção de linguagem uma compreensão própria do fenômeno ideológico, em certos aspectos afastada do marxismo ortodoxo, uma das referências iniciais desse trabalho é a maneira pela qual a tradição marxista (difundida na Rússia nesse momento principalmente pelas obras de autores como Plekhânov (1978 [1908]; 1987 [1897]) e Bukhárin (1970 [1921]) concebe a relação entre os sistemas de ideias, valores e significados (morais, filosóficos, estéticos, científicos, religiosos etc.) e a realidade socioeconômica, ou, em outros termos, entre as superestruturas ideológicas e a base material da sociedade.3

A deferência a essa tradição é estampada logo nas primeiras páginas de O método formal nos estudos literários (1928), em que Medviédev apresenta o quadro teórico ao qual se filia a proposta da ciência das ideologias:

Os fundamentos dessa ciência das ideologias foram profunda e solidamente alicerçados no marxismo, que formulou uma definição geral das superestruturas ideológicas, de suas funções na unidade da vida social, de suas relações com a base econômica e, em parte, também da relação interna entre elas (MEDVIÉDEV, 2012 [1928], p.43, grifos meus).

Mais adiante, a adesão ao cânone marxista volta a ser afirmada, quando, reiterando um dos princípios básicos desse cânone, Medviédev enfatiza a ideia de que as formas de consciência são determinadas pela existência material e sustenta que o meio ideológico corresponde à

[...] consciência social de uma dada coletividade, realizada, materializada e exteriormente expressa. Essa consciência é determinada pela existência econômica e, por sua vez, determina a consciência individual de cada membro da coletividade (MEDVIÉDEV, 2012 [1928], p.56, grifos meus).

No mesmo texto, no entanto, Medviédev marca o afastamento do Círculo em relação a posições da ortodoxia, ao recusar a ideia de que essa determinação se dê de forma mecânica e que, portanto, a superestrutura seja um reflexo direto da infraestrutura. Para ele,

Os marxistas frequentemente subestimam a união concreta, a singularidade e a importância do meio ideológico e passam apressados demais e de maneira imediata do fenômeno ideológico isolado às condições do meio socioeconômico de produção. Nesse caso, perde-se de vista o fato de que o fenômeno isolado é somente parte dependente do meio ideológico concreto e é determinado de forma direta por ele de modo mais imediato. Pensar que as obras particulares e separadas da união do mundo ideológico sejam determinadas, em seu isolamento, de forma direta por fatores econômicos é tão ingênuo quanto considerar que uma rima ajusta-se com outra rima e uma estrofe com outra dentro dos limites de um poema sob o efeito da ação imediata da causalidade econômica (MEDVIÉDEV, 2012 [1928], p.57-58).

Posição afinada com a de Medviédev é assumida por Volóchinov, que dedica todo o segundo capítulo de Marxismo e filosofia da linguagem (1929) justamente ao estudo da “Relação entre a infraestrutura e as superestruturas”. Aí, tal como Medviédev, Volóchinov também toma como parâmetro o referencial marxista e, desenvolvendo proposições já presentes em O método formal nos estudos literários (1928), refuta a ideia de que as relações entre infraestrutura e superestrutura possam ser explicadas por uma causalidade mecânica. Para ele, uma adequada compreensão dessas relações não pode deixar de levar em conta as especificidades e a influência recíproca das diferentes esferas ideológicas, nas quais, sob a ação de diferentes mediações, refletem-se e refratam-se os condicionamentos da infraestrutura.

Ao mesmo tempo, portanto, em que faz da matriz epistemológica marxista o interlocutor privilegiado para a formulação de suas proposições acerca de como a linguagem se articula com o problema das relações entre as formas de produção e reprodução da existência social material e as superestruturas ideológicas, Volóchinov (a exemplo de Medviédev) não se furta a marcar o seu afastamento do marxismo ortodoxo em aspectos cruciais. Primeiro, ao assinalar a reciprocidade de condicionamento entre infraestrutura e superestrutura.4 Segundo, ao afirmar que as determinações da estrutura econômica não apenas se refletem, mas também se refratam no signo.

Este, aliás, um ponto fundamental em que o Círculo singulariza a sua visão de ideologia e assinala a especificidade do seu entendimento quanto à controvertida dicotomia infraestrutura-superestrutura, a qual, manuseada inicialmente por Marx e Engels para combater o idealismo (em que se atribuía às ideias o papel de protagonistas dos processos históricos) e sustentar o caráter determinante da existência material e das relações de produção na configuração do todo social, em desenvolvimentos ulteriores acabou se transformando em um modelo excessivamente esquemático e reducionista de descrição da sociedade, entendida, a partir da aplicação mecânica desse modelo, como uma realidade linear e vertical formada por dois planos, níveis ou camadas sobrepostas: uma base material e, acima e depois dela, uma superestrutura ideológica que seria o reflexo posterior (invertido ou não) das relações travadas no nível dessa base. Tal caminho, como salienta Williams (1979), acabou por enfraquecer o potencial crítico do construto de Marx e, sucumbindo ao “dualismo ingênuo do materialismo mecânico” (WILLIAMS, 1979, p.64), perdeu de vista a explicação do real como uma totalidade na qual as ideias e a consciência, conquanto determinadas pela existência social material, são também, simultânea e indissoluvelmente, constituintes dessa existência.

Uma das formas pelas quais esse reducionismo ganhou expressão foi a tendência a enxergar na forma de similitudes as correspondências entre os fenômenos da superestrutura e os elementos da infraestrutura de que eles seriam o reflexo. Exemplos desse procedimento podem ser encontrados mesmo na obra de marxistas de grande estatura, como Bukhárin (1970 [1921], p.194) (na passagem em que ele compara a divisão entre corpo e alma, no plano religioso, com a divisão entre diretores e executantes, no plano da produção fabril) e Plekhánov (1978 [1908], p.66) (quando afirma que “a filosofia de Descartes reflete muito vivamente as necessidades da evolução econômica” ou que “a curva do movimento intelectual toma uma direção paralela à curva do desenvolvimento econômico e à do desenvolvimento social e político, condicionado também pelo precedente”).

Em diálogo crítico com essa tradição, o trabalho do Círculo preferiu explorar elementos do marxismo sem necessariamente aderir às inclinações mecanicistas de algumas de suas correntes e, no que diz respeito às relações entre a realidade socioeconômica e as superestruturas ideológicas, isso se exprimiu, por exemplo, no entendimento de que as determinações de uma sobre as outras se realizam por meio de operações não apenas de reflexo mas também de refração. Nessa perspectiva, conhecer os modos pelos quais isso se dá consiste justamente em uma das tarefas do estudo das ideologias:

De fato, a essência deste problema, naquilo que nos interessa, liga-se à questão de saber como a realidade (a infraestrutura) determina o signo, como o signo reflete e refrata a realidade em transformação (VOLÓCHINOV, 2002 [1929], p.41, grifo no original).

É no interior desse quadro que, durante os anos 1920, o entendimento do Círculo acerca das relações entre infraestrutura e superestrutura vai se ligar intimamente à sua concepção de signo ideológico.

Signo ideológico e psicologia social

Em discordância, pois, com a posição predominante no marxismo mais vulgarizado na época, o Círculo propõe um modo de compreender as relações entre infraestrutura e superestrutura que, ao associar à noção de reflexo a ideia de refração, concebe a ideologia da sociedade como um conjunto de significados e sentidos materializados em objetos-signo e em enunciados concretos nos quais se refletem e se refratam as determinações emanadas das estruturas econômicas e políticas da sociedade.5

Inseridos em práticas discursivas e sociais em diferentes esferas de atividade e de comunicação, esses objetos-signo e enunciados concretos constituem, assim, territórios em que (sob a ação de diversas mediações, entre as quais as dos gêneros discursivos) manifestam-se, de maneira refletida e refratada, as negociações, os embates e, consequentemente, a correlação das forças em disputa na existência social material.

Uma das originalidades dessa concepção reside justamente no fato de pensar o signo (e por extensão, o enunciado) como um terreno inerentemente atravessado pelo conflito, dado que a realidade material (o ser) que nele se manifesta é o resultado dialético de um processo de contradições e antagonismos. Nas palavras de Volóchinov (2002 [1929], p.46, grifos no original):

O ser, refletido no signo, não apenas nele se reflete, mas também se refrata. O que é que determina esta refração do ser no signo ideológico? O confronto de interesses sociais nos limites de uma só e mesma comunidade semiótica, ou seja: a luta de classes.

Nessa perspectiva, os objetos-signo e os enunciados nos quais e pelos quais se constitui a ideologia são também arenas em que transfiguradamente se desenrolam lutas sociais e embates entre as posições em confronto na sociedade.

Também aqui se vê uma total sintonia com a reflexão desenvolvida por Medviédev, que, em O método formal nos estudos literários (1928), argumenta:

Suponhamos o seguinte caso. Dois grupos sociais inimigos dispõem de um mesmo material linguístico, isto é, de um léxico absolutamente idêntico, e das mesmas possibilidades morfológicas e sintáticas, e assim por diante.

Nessas condições, se as diferenças de nossos dois grupos sociais estiverem condicionadas pelas premissas socioeconômicas fundamentais de sua existência, as mesmas palavras terão entonações profundamente diferentes; nas mesmas construções gramaticais gerais, elas serão inseridas em combinações semânticas e estilísticas profundamente diferentes. As mesmas palavras irão ocupar um lugar hierárquico diferente na totalidade do enunciado, como ato social concreto.

Uma combinação de palavras em um enunciado concreto ou em uma apresentação literária é sempre determinada pelos seus coeficientes de avaliação e pelas condições sociais de realização desse enunciado (MEDVIÉDEV, 2012 [1928], p.187).

Levando ainda mais longe esse raciocínio, Volóchinov entende que, da mesma forma que a ideologia, o signo (e, por extensão, o enunciado) constitui-se não como uma mera representação (ou reflexo) da realidade, mas como uma instância na qual a imagem da realidade que se projeta é uma imagem disputada, negociada, atravessada por lutas e acentos apreciativos conflitantes e, por isso, uma imagem refratada, virtualmente transfigurada.

Um outro aspecto igualmente importante para Volóchinov no tocante à relação infraestrutura-superestrutura é o papel desempenhado pelas mediações, entre as quais merece grande destaque a psicologia social, que, presente já nas sistematizações de Plekhânov e Bukhárin, é entendida como o conjunto difuso de crenças, “noções fragmentárias”, ideias dispersas, “valores não refletidos”, “modos de pensar”, “opiniões correntes”, “gostos”, “julgamentos variados”, “representações não refletidas” (BUKHÁRIN, 1970 [1921], p.244) ainda não organizadas nos sistemas ideológicos constituídos (moral, ciência, filosofia, religião etc.).

Vê-se, assim, que para esses autores há uma contiguidade e uma implicabilidade entre a psicologia social e a ideologia: esta é a depuração daquela. Nesse sentido, diz Bukhárin (1970 [1921], p.253, grifos no original):

A psicologia social é de certa maneira um reservatório para a ideologia [...] Vimos no princípio deste parágrafo que a ideologia se distingue por uma maior sistematização de seus elementos, isto é, dos pensamentos, sentimentos, sensações, imagens etc. Que é que a ideologia sistematiza? Ela sistematiza aquilo que está pouco sistematizado ou que não está absolutamente sistematizado, isto é, a psicologia social. As ideologias são as cristalizações da psicologia social.

Praticamente a mesma concepção aparece em Volóchinov, para quem a psicologia social, denominada também de ideologia do cotidiano,6 mantém com os sistemas ideológicos uma relação orgânica. Uma diferença digna de nota, como salienta Tihanov (1998), é que, enquanto Bukhárin parece conceder um papel de superioridade à ideologia, em detrimento da psicologia social, Volóchinov confere a esta uma grande importância, considerando-a um alimento vital das ideologias constituídas. Numa formulação que ao mesmo tempo retoma e ultrapassa Bukhárin, ele sustenta que

[...] os sistemas ideológicos constituídos da moral social, da ciência, da arte e da religião cristalizam-se a partir da ideologia do cotidiano, exercem por sua vez, em retorno, uma forte influência e dão assim o tom a essa ideologia. Mas ao mesmo tempo, esses produtos ideológicos constituídos conservam constantemente um elo orgânico com a ideologia do cotidiano; alimentam-se de sua seiva, pois fora dela morrem, assim como morrem, por exemplo, a obra literária acabada ou a ideia cognitiva se não são submetidas a uma avaliação crítica viva (VOLÓCHINOV, 2002 [1929], p.119).

Assim, no tocante ao modo como Volóchinov concebe as relações entre a infraestrutura e as superestruturas ideológicas, a psicologia social (ou ideologia do cotidiano) tem uma importância capital, pois, “por um lado, ela está diretamente vinculada aos processos de produção e, por outro lado, diz respeito às esferas das diversas ideologias especializadas e formalizadas” (VOLÓCHINOV, 2002 [1929], p.37).

Nessa condição de instância intermediária, é nela que se gestam os grandes processos e movimentos de ideias depois organizadas e formalizadas nos sistemas ideológicos constituídos. É aí que se encontram as formas embrionárias dos sentidos e significados que vão ganhando corpo até se cristalizar nas ideias, valores e padrões estabelecidos na sociedade. “Conversas de corredor”, “trocas de opiniões”, interações fortuitas e demais modalidades de comunicação da vida cotidiana constituem, para Volóchinov, a matéria-prima, as formas submersas da criação ideológica ininterrupta. É nesse tipo de comunicação que se acumulam “mudanças e deslocamentos quase imperceptíveis que, mais tarde, encontram sua expressão nas produções ideológicas acabadas” (VOLÓCHINOV, 2002 [1929], p.42).

A importância da palavra e o método de estudo do signo ideológico

Compreender os modos pelos quais a estrutura socioeconômica se relaciona com o universo ideológico, sem deixar de levar em conta as mediações da ideologia do cotidiano e os processos de reflexo e refração do ser no signo é, pois, uma das tarefas básicas da ciência das ideologias e pressupõe certas condições e procedimentos. Para começar, não se deve ignorar que o signo é o resultado de processos de luta e de negociação entre indivíduos socialmente organizados e em interação, razão pela qual, diz Volóchinov, suas formas (as dos signos) “são condicionadas tanto pela organização social de tais indivíduos como pelas condições em que a interação acontece” (VOLÓCHINOV, 2002 [1929], p.44, grifos no original).

Assim, mudanças na organização social material dos indivíduos hão de se fazer sentir nos signos em circulação. Segundo Volóchinov, somente uma abordagem atenta a essa correlação

[...] pode dar uma expressão concreta ao problema da mútua influência do signo e do ser; é apenas sob esta condição que o processo de determinação causal do signo pelo ser aparece como uma verdadeira passagem do ser ao signo, como um processo de refração realmente dialético do ser no signo (VOLÓCHINOV, 2002 [1929], p.44).

O caminho para esse trabalho de compreensão dos processos de determinação do signo pelo ser, isto é, pela existência social material, não se encontra pronto de antemão. Trata-se de uma construção, para a qual Volóchinov (2002 [1929], p.44) sugere alguns passos, algumas “regras metodológicas”. Em primeiro lugar, diz ele, é necessário “não separar a ideologia da realidade material do signo” (VOLÓCHINOV, 2002 [1929], p.44, grifo no original), situando-a, como faz o subjetivismo idealista, no plano da consciência individual ou em “qualquer outra esfera fugidia e indefinível” (VOLÓCHINOV, 2002 [1929], 2002 [1929], p.44). Em segundo lugar, é preciso “não dissociar o signo das formas concretas da comunicação social” (VOLÓCHINOV, 2002 [1929], p.44, grifos no original), ou seja, não deixar de considerá-lo no interior de um sistema de comunicação histórica e socialmente situado, fora do qual o signo não passa de um objeto físico. Em terceiro lugar, é indispensável “não dissociar a comunicação e suas formas de sua base material (infraestrutura)” (VOLÓCHINOV, 2002 [1929], p.44, grifos no original).

A necessidade de não dissociar o signo dos processos de comunicação em que ele se situa é um ponto recorrente na argumentação de Volóchinov e reforça a ideia de que objetos-signo e enunciados concretos são elos integrantes de uma grande rede, produzidos e postos em circulação no interior do fluxo discursivo e da cadeia de comunicação da sociedade. É no quadro dessa rede de comunicação social que se dão os processos de interação verbal e se dá, consequentemente, a produção e circulação de enunciados. A comunicação verbal, dirá Volóchinov em seu texto La structure de l’énoncé, de 1930, “não é senão uma das numerosas formas do devir da comunidade social onde tem lugar, no nível do discurso, a interação (verbal)...” (VOLÓCHINOV, 1981 [1930], p.288)7. E mais adiante, no mesmo texto: “a verdadeira essência da linguagem é o acontecimento social que consiste em uma interação verbal e que se concretiza em um ou vários enunciados” (VOLÓCHINOV, 1981 [1930], p.288, grifos no original)8.

A exemplo do que indica em Marxismo e filosofia da linguagem (1929), também nesse texto de 1930 Volóchinov propõe um entendimento da produção enunciativa com base na sua relação com a infraestrutura e, reproduzindo, mutatis mutandis, a fórmula de cinco pontos usada por Plekhânov9, apresenta um esquema a partir do qual deve ser estudada a unidade concreta da comunicação discursiva: o enunciado. Na base desse esquema está a organização econômica da sociedade. Sobre essa base encontram-se, em um nível, as relações que constituem a comunicação social e, em outro, a interação verbal. Em seguida vêm os enunciados, e, por fim, as formas gramaticais da linguagem.

Entendido o enunciado, nessa concepção, como o território privilegiado de reflexo e refração dos condicionamentos da organização material da sociedade, não poderia deixar de ser de grande importância o estatuto conferido à palavra. Não, é claro, à palavra em estado de dicionário, mas à palavra-enunciado. Nesse ponto, pode-se notar uma grande convergência entre os autores, incluindo Bakhtin, que, em seu texto sobre os Problemas da obra de Dostoiévski, de 1929, mostra-se em completa sintonia com as posições de Medviédev e Volóchinov, ao afirmar que:

A palavra não é uma coisa, mas o ambiente eternamente móvel, eternamente mutável do intercâmbio social. Ela nunca é suficiente a uma só voz, uma só consciência. A vida da palavra está na passagem de boca em boca, de um contexto a outro, de um grupo social a outro, de uma geração a outra [...] É por isso que a orientação da palavra entre palavras, os diversos modos de perceber a palavra dos outros e os diversos modos de reagir a ela são, talvez, os problemas essenciais da sociologia da palavra – de toda palavra, aí compreendida a palavra artística (BACHTIN, 1997 [1929], p.210-211).10

Em Volóchinov, a importância da palavra é especialmente destacada por uma série de características que fazem dela o signo ideológico por excelência: pureza semiótica, neutralidade ideológica,11 participação na comunicação humana ordinária, possibilidade de funcionar como signo interior e presença obrigatória em todo ato humano consciente. Além disso, a palavra tem papel fundamental na interação verbal que se dá no plano da psicologia social, ou seja, da ideologia do cotidiano, pois, segundo ele, “o material privilegiado da comunicação na vida cotidiana é a palavra. É justamente nesse domínio que a conversação e suas formas discursivas se situam” (VOLÓCHINOV, 1981 [1930], p.37).

Em razão da sua ubiquidade social, a palavra penetra em todas as relações sociais e, por isso, ela

[...] será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais, mesmo daquelas que apenas despontam, que ainda não tomaram forma, que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados. A palavra constitui o meio no qual se produzem lentas acumulações quantitativas de mudanças que ainda não tiveram tempo de adquirir uma nova qualidade ideológica, que ainda não tiveram tempo de engendrar um forma ideológica nova e acabada. A palavra é capaz de registrar as fases transitórias mais íntimas, mais efêmeras das mudanças sociais (VOLOSHINOV, 2002 [1929], p.41).

Tal caracterização é realizada em um contexto no qual Volóchinov está discutindo a conexão da palavra (enquanto signo) com o problema da relação entre infraestrutura e superestrutura. É aí que ele dirá que “o estudo do signo linguístico permite observar mais facilmente e de forma mais profunda a continuidade do processo dialético de evolução que vai da infraestrutura às superestruturas” (VOLOSHINOV, 2002 [1929], p.47).

Nessa perspectiva, nada melhor que ela, a palavra, para indicar processos históricos que, relacionados a transformações no mundo das forças produtivas e das relações socioeconômicas, também se façam sentir no universo das ideias e da comunicação discursiva na sociedade.

O vocábulo selfie como índice de transformações contemporâneas

Com base nessas proposições teóricas e metodológicas, creio ser possível focalizar a palavra selfie como um signo bastante representativo do modo como mudanças nas formas de organização da produção se relacionam com alterações nos processos interacionais e nas referências e padrões éticos, estéticos e cognitivos em vigência na contemporaneidade.

Que esse signo alcançou grande importância nos processos de comunicação na sociedade atual (e principalmente naqueles situados na comunicação da vida cotidiana) é demonstrado pela distinção conferida pelo Dicionário Oxford, da Inglaterra, que, em 2013, outorgou a selfie o título de ‘palavra do ano’, justificada tal honraria pelo avassalador sucesso do vocábulo: no referido ano, a frequência do seu uso aumentou 17.000%.12

Na busca das origens, o mesmo dicionário, conforme Carpim (2014), rastreou o uso da palavra até o ano de 2002, quando um homem com ferimentos na face causados por um acidente doméstico tirou uma foto do próprio rosto e a divulgou em um fórum online australiano, dizendo se tratar de uma selfie. Independentemente de essa ter sido ou não a primeira ou uma das primeiras ocorrências do vocábulo, o fato é que, de lá para cá, tanto a palavra quanto o seu referente têm estado intimamente ligados aos processos interacionais que se desenrolam por meio da utilização das novas tecnologias de informação e de comunicação. Assim, selfie não se confunde com autorretrato. A despeito dos laços de parentesco entre os dois signos, os elementos da realidade para os quais eles apontam são diferentes. Enquanto autorretrato designa de modo geral a imagem, pintura ou fotografia que alguém faz de si mesmo, selfie e seu referente são essencialmente fenômenos do mundo contemporâneo, indissociáveis de práticas sociais, interacionais e discursivas características das comunicações em rede e dos ambientes virtuais e plataformas tecnológicas. Não por acaso o seu significado é descrito pelo Dicionário Oxford como “fotografia que alguém tira de si mesmo, normalmente com um smartphone ou uma webcam, e compartilha via mídia social”13. O próprio significado de selfie, pois, já situa a palavra em um espaço-tempo histórico-social específico, recobrindo um conjunto de traços característicos desse espaço-tempo, como a virtualidade, a tecnologização, a fluidez e as comunicações online.

Base concreta sobre a qual se constrói essa caracterização, a estrutura morfossemântica da palavra também diz coisas importantes. Primeiro, por meio do morfema self,14 diz que o dado do real do qual se fala é um si mesmo, o que remete a um certo primado do eu na contemporaneidade. Segundo, por meio do sufixo ie (também grafado y, na variante selfy) diz que a esse si mesmo, substantivado, são acrescidos semas de afetividade e de informalidade,15 o que compatibiliza a palavra com processos de interação situados principalmente na esfera da comunicação cotidiana, instância na qual, conforme entende o Círculo, encontram-se as formas embrionárias que podem se converter nas ideologias cristalizadas em sistemas organizados. Outro dado importante que também se dá a ver pela fisionomia da palavra é o fato de ser uma forma usada no mundo inteiro no idioma original, sem tradução, evidenciando se tratar de um vocábulo globalizado, típico de uma sociedade conectada pelo entrelaçamento de múltiplas redes.

Assim, consideradas as situações de comunicação em que normalmente a palavra é usada, o simples manuseio do signo selfie já mobiliza uma série de imagens, percepções, ideias e apreciações de valor intrinsecamente ligadas à sociedade atual. Associadas ao progresso tecnológico e inerentemente ligadas a novos modos de construção de identidades e de configuração do corpo nas interações mediadas por computador e por outros dispositivos tecnológicos, tais apreciações, inscritas nos sentidos em circulação no fluxo discursivo da sociedade, são tendencial e predominantemente positivas e incidem principalmente sobre o sentimento de protagonismo do sujeito, a velocidade e a precisão do mecanismo de captação da imagem, a rapidez do processo de comunicação e a sensação de conexão e trafegabilidade nas redes, entre outras.16

Tomados, pois, os termos do Círculo tais como formulados por Volóchinov, pode-se, a partir dessa caracterização, falar de uma constituição sígnica na qual se veem, em diversos elementos da palavra, reflexos/refrações da organização produtiva da sociedade que fazem de selfie uma boa ilustração dos modos como a ideologia e a existência material se entrecruzam e se articulam na linguagem. Atestando a natureza imanentemente ideológica dos significados e sentidos em circulação na sociedade, a palavra selfie pode, dessa maneira, ser vista como um grande exemplo dos nexos que ligam as determinações do sistema econômico às formas de significar e atribuir sentidos à realidade. Nela se encontram cristalizados elementos que, originalmente associados ao universo da produção material e das relações de produção, atuam como determinantes também nos sistemas de interação, nas formas de sociabilidade, nos esquemas cognitivos, nas referências espaço-temporais e, por extensão, nos modos de compreensão e de representação da existência humana inscritos nas práticas sígnicas e enunciativas pelas quais se reproduz e se legitima a ordem social e econômica configurada na maior parte do mundo nas últimas quatro ou cinco décadas.

Nesse pequeno vocábulo se enfeixam processos que, desencadeados no âmbito de uma grande reorganização do sistema produtivo, operam também em outras instâncias da sociedade e ensejam transformações na criação e circulação de signos e enunciados nas mais diversas esferas de atividade e de comunicação. Ancoradas no grande desenvolvimento das tecnologias de informação e de comunicação e em determinadas formas de apropriação da ciência e de incorporação do conhecimento à vida econômica e social, essas transformações se efetivam em uma produção discursiva da qual a palavra selfie e as práticas interacionais a ela associadas representam uma amostra bastante expressiva.

Desse ponto de vista, para além dos limites circunscritos pelo seu referente imediato, selfie aponta para uma realidade muito mais ampla, traduzida por modos de significação e de produção de sentidos condicionados por uma série de processos entre os quais podem ser destacados:

  • O desenvolvimento de formas de organização do trabalho e da produção baseadas na compressão do tempo e do espaço;

  • A consolidação de um regime produtivo alimentado por um movimento ininterrupto de inovações tecnológicas;

  • O vertiginoso avanço da microeletrônica, da telemática, da tecnologia digital e da comunicação sem fio.

  • A intensificação do desempenho e da produtividade;

  • A exacerbação do individualismo e da competição.17

Ao mesmo tempo em que condiciona o ritmo dos sistemas produtivos e das formas de gestão do trabalho, do tempo e do espaço típicas da vida econômica na contemporaneidade, esse conjunto de processos, que reorganiza em novos patamares o domínio do capital sobre a vida social como um todo, reflete-se e refrata-se na produção de signos e enunciados em praticamente todas as esferas de atividade e de comunicação, e aparece de maneira particularmente nítida em traços do significado da palavra selfie, tais como:

  • imagem obtida em dispositivos eletrônicos digitais de alta tecnologia;

  • caráter imediato do processo de obtenção da imagem;

  • possibilidade de circulação e propagação instantânea da imagem obtida;

  • destinação da imagem para processos de interação virtuais.

Os próprios componentes sêmicos da palavra indicam, como se pode ver, uma sugestiva homologia entre as características dos processos interacionais integrados ou referidos por ela e as formas de organização da produção econômica contemporânea, que também se assentam no fluxo incessante de inovações tecnológicas, na grande velocidade de movimentações (financeiras, administrativas, materiais etc.), na instantaneidade de negócios e transações de variados tipos e na virtualização de espaços, ambientes e operações.

Bastante sintomático dessa correspondência entre os modos de regulação econômica e as referências incorporadas à produção sígnica é o recrudescimento do individualismo que, estampado de imediato na superfície da palavra por meio do morfema self, remete a um modelo de organização no qual a performance competitiva do indivíduo, reafirmada como princípio básico de funcionamento do sistema, é medida principalmente pela capacidade de prover a si mesmo com as mercadorias apropriadas à satisfação das necessidades do momento e participar de uma teia de relações (a que o significado da palavra não deixa de aludir) marcadas pela hipertrofia do eu e pela espetacularização de eventos pessoais, que permeiam os processos de interação em plataformas virtuais e em redes de relacionamento nas quais selfies e outros signos correlatos transitam freneticamente.

Um dos dados fundamentais para os quais essas correspondências chamam a atenção é que, na sociedade contemporânea, os paradigmas espaço-temporais, os padrões de raciocínio e os modelos de ação e de representação próprios do tipo de racionalidade instalada no mundo da produção econômica estenderam-se para as mais diversas dimensões da vida social, de modo a determinar (em alguns aspectos, à sua imagem e semelhança) as referências estéticas e cognitivas, os modos de pensamento e as formas de consciência consubstanciadas nos significados e sentidos que se constituem e circulam em enunciados de diferentes esferas ideológicas.

Inscritas, dessa forma, na produção sígnica e enunciativa, a velocidade, a fluidez, a volatilidade, a fragmentação, a instantaneidade e a exigência do desempenho e da produtividade (características da lógica econômica) convertem-se em dados ‘naturais’ da existência e consagram a desvalorização do comportamento e do pensamento não subordinados a finalidades produtivas, competitivas ou performáticas. Expressões dessa tendência verificam-se tanto na vida cotidiana como nas esferas ideológicas constituídas (arte, religião, direito, mídia, ciência etc.), onde se disseminam significados, práticas e valores pelos quais se consolida uma atmosfera de aceleração, ansiedade, fluidez e velocidade na qual a referência espaço-temporal determinante é o aqui-agora.

Como vários outros campos, também a ciência é atingida em cheio por esse processo, o que se pode ver refletido e refratado em selfie principalmente por meio do traço da tecnologização, que, inscrita semicamente no plano do conteúdo do signo, remete ao modo de incorporação do conhecimento à vida contemporânea, caracterizado em grande medida pela subsunção do saber científico a uma lógica de produção de mercadorias conduzida pelo imperativo da produtividade e da inovação tecnológica.

Não é de estranhar, em vista disso, que os discursos em alguma medida ligados à esfera da ciência, como o discurso de divulgação científica, constituam campos privilegiados de reflexo e de refração de todo esse conjunto de transformações.

Assim, a notoriedade alcançada por selfie, evidenciando o papel da palavra enquanto signo ideológico e, portanto, enquanto índice de processos histórico-sociais em desenvolvimento, aponta direta ou indiretamente para os modos pelos quais as transformações nas formas de organização da produção podem se refletir e se refratar no universo sígnico e enunciativo e nos processos de interação na sociedade.

Conclusão

O que a argumentação desenvolvida nas páginas precedentes espera ter demonstrado é, em primeiro lugar, que, por conta da forte presença da tradição marxista como interlocutor privilegiado no diálogo que os autores do Círculo (particularmente Volóchinov e Medviédev) travam com diferentes matrizes teóricas presentes no ambiente intelectual da Rússia no início do século XX, a concepção de linguagem elaborada por eles comporta uma visão de ideologia à qual se associa uma determinada compreensão das relações entre a organização econômica da sociedade e as ideias, valores, significados e sentidos predominantes na vida social. Nessa concepção, os objetos-signo e os enunciados concretos que se produzem e circulam em cada esfera de atividade ou de comunicação socioideológica (religião, moral, direito, mídia, educação, ciência etc.) e também na comunicação da vida cotidiana representam territórios nos quais, sob o efeito de diversas mediações, refletem-se e refratam-se os embates, as negociações e os arranjos operados pelas forças que disputam o controle econômico (vale dizer, o controle da produção e distribuição das riquezas) na sociedade.

Em segundo lugar, na linha de sugestões proposta por essa concepção no tocante ao papel da palavra (pensada como signo pleno de sentidos e historicamente situado), espera ter mostrado também que a palavra selfie, revestida de grande importância em processos de interação na sociedade contemporânea, pode ser vista como um signo extremamente representativo do modo como nesta sociedade elementos da linguagem se relacionam com as formas de organização da produção e da realidade socioeconômica, ou, nas palavras de Volóchinov, sobre o modo como o ser se reflete e se refrata no signo.

No que diz respeito ao modo como os reflexos e as refrações se projetam no signo, vale a pena ressaltar que a interpretação aqui defendida é que isso se dá de uma maneira na qual os sentidos, percepções e valores aos quais o vocábulo selfie é normalmente associado (a velocidade, a alta tecnologia, a instantaneidade, o protagonismo do eu, a fluidez, a flexibilidade etc.) são envolvidos por uma apreciação valorativa positiva, da mesma forma que o são na esfera da organização produtiva. O ingrediente ao qual se pode atribuir uma força transfiguradora nesse caso é o ocultamento dos embates pressupostos na construção desses sentidos e, consequentemente, o apagamento do fato de que apreciações contrárias a essas foram subjugadas, vencidas ou silenciadas. A celebração dos sentidos vencedores reforça, desse modo, o domínio das forças também vitoriosas no plano da organização produtiva e das relações de produção.

Dito de outro modo, a lógica do capital que, ao se reorganizar, inventa e torna vitoriosas novas formas de autovalorização, de expansão e de exploração do trabalho, vence também a luta pelos sentidos, imprimindo uma aparência de estabilidade, harmonia e unidade a processos históricos atravessados por lutas, vitórias e derrotas.

Assim, se algo parecido com uma ciência das ideologias ainda fizer sentido, um dos objetivos de tal projeto poderia ser o de buscar articular a teoria a uma metodologia capaz de contribuir decisivamente para tornar visíveis esses ocultamentos e tornar audíveis as vozes silenciadas.

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1 Não poderia caber nas dimensões e propósitos deste texto a abordagem das controvérsias relativas ao Círculo, que envolvem desde a autoria dos chamados textos disputados até a efetiva existência de um círculo em torno de Bakhtin e o verdadeiro papel desempenhado por ele no grupo. Em benefício da clareza da argumentação aqui desenvolvida, cabe, no entanto, registrar que, em consonância com posições defendidas em Costa (2014), os trabalhos de Medviédev, Volóchinov e Bakhtin são tomados neste artigo como produções individuais articuladas por preocupações compartilhadas e por uma concepção de linguagem de fundo comum. Nessa perspectiva, tomam-se por autores das obras aqui discutidas aqueles sob cujos nomes elas foram originalmente publicadas. Para uma ampla discussão sobre as aludidas controvérsias, podem ser consultados, entre outros, Sériot (2010), Bronckart; Bota (2012), Vasilev (2006) e Morson; Emerson (2008).

2 Instituição de pesquisa de Leningrado, onde, durante os anos 1920, realizavam-se diversos estudos linguísticos e literários e onde atuaram, além de Medviédev e Volóchinov, pesquisadores como Boris Eichenbaum, Boris Tomachevski, Vladimir Shishmarev, Viktor Zhirmunski, Lev Shcerba e Lev Iakubinski. Sobre a importância do instituto no cenário intelectual soviético, conferir Brandist (2006; 2012).

3 Nexos entre a obra do Círculo de Bakhtin e autores marxistas como, por exemplo, Bukhárin, Plekhânov e Lukács já foram objeto de interesse de vários estudiosos, entre os quais merecem destaque Brandist (2000; 2002) e Tihanov (1998; 2000). Sobre o diálogo do Círculo com o marxismo a partir da dicotomia gêneros primários-gêneros secundários, vale a pena conferir Grillo (2008).

4 Esse entendimento é apresentado no texto, por exemplo, na seguinte passagem: “O problema da relação recíproca entre a infraestrutura e as superestruturas...” (MEDVIÉDEV, 2002 [1929], p.41, grifo no original).

5 Para uma discussão detalhada sobre as ideias de reflexo e de refração na Rússia, no início do século XX, conferir Bondarenko (2008).

6 Nas palavras do próprio Volóchinov: “[...] podemos dizer que a ideologia do cotidiano corresponde, no essencial, àquilo que se designa, na literatura marxista, sob o nome de ‘psicologia social’” (2002 [1929], p.119).

7 Trecho original: “[...] la communication verbale n’est elle-même qu’une des nombreuses formes du devenir de la communauté sociale où a lieu, au niveau du discours, l’interaction (verbale).”

8 Trecho original: “L’essence véritable du langage, c’est l’événement social qui consiste en une interaction verbale, et se trouve concretisé en un ou plusieurs énoncés.”

9 Fórmula de cinco pontos, ou piatichlenka, é a expressão pela qual ficou conhecida, segundo Tihanov (1998, p.603), o esquema utilizado por Plekhânov (1978 [1908], p.62) para descrever, em níveis, o funcionamento da sociedade a partir da relação entre forças produtivas e superestruturas ideológicas.

10 Trecho original: “La parola non é una cosa, ma l’ambiente eternamente mobile, eternamente mutevole dello scambio sociale. Essa non è mai suficiente a una sola voce, una sola coscienza. La vita della parola è nel passagio di bocca in bocca, da un contesto all’altro, da un coletivo sociale all’altro, da una generazione a un’altra generazione ... É per questo che l’orientamento della parola altrui e i diversi modi di reagire ad essa sono, forse, i problemi essenziali della sociologia della parola – di ogni parola, ivi compressa quella artística.”

11 A neutralidade da palavra, para Volóchinov, refere-se ao fato de ela poder operar como signo em qualquer função e em qualquer esfera ideológica: “...a palavra não é somente o signo mais puro, mais indicativo; é também um signo neutro ... pode preencher qualquer espécie de função ideológica: estética, científica, moral, religiosa” (VOLOSHINOV, 2002 [1929], p.36-37, grifo no original).

12 Ver, por exemplo, os endereços: <blog.oxforddictionaries.com_press-releases_oxford-dictionaries-word-of-the-year-2013>; <www.bbc.co.uk_portuguese_noticias_2013_11_131119_selfie_oxford_fn> e <www.dn.pt_inicio_globo_interior.aspx_content_id=3540144>.

13 Trecho original: “A photograph that one has taken of oneself, typically one taken with a smartphone or webcam and shared via social media”. Cf. <http://www.oxforddictionaries.com. Acesso em: 20 abr. 2016>.

14“A person’s essential being that distinguishes them from others, especially considered as the object of introspection or reflexive action”. Cf. <http://www.oxforddictionaries.com>. Acesso em: 20 abr. 2016.

15 A afetividade e a informalidade são atestadas pelo fato de se tratar, ainda segundo o mesmo dicionário, de um sufixo formador de diminutivos, apelidos e hipocorísticos (tais como nightie, auntie, Tommy, foodie, Francie etc.). Cf. <http://www.oxforddictionaries.com>. Acesso em: 20 abr. 2016.

16 Sobre as relações entre as tecnologias de informação e comunicação e as formas de construção identitária, bem como de uso da imagem na configuração do corpo e das subjetividades no mundo virtual, podem ser consultados, entre outros, Recuero e Rebs (2013), Sibilia (2004), Lemos (2002), Recuero (2009) e Santaella (2008).

17 Entre os muitos trabalhos que, dedicados ao estudo da sociedade contemporânea, possibilitam a identificação desses processos, podem ser apontados: Featherstone (1995), Harvey (2008; 2010), Jameson (1996), Levy (1996; 1999), Oliveira (2005; 2008), Lipovetsky (2004a; 2004b) e Rubim (2000).

Recebido: Maio de 2016; Aceito: Agosto de 2016

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