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Alfa: Revista de Linguística (São José do Rio Preto)

Print version ISSN 0002-5216On-line version ISSN 1981-5794

Alfa, rev. linguíst. (São José Rio Preto) vol.61 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2017

https://doi.org/10.1590/1981-5794-1704-3 

ARTIGOS ORIGINAIS

INTERAÇÃO CORPORIFICADA: MULTIMODALIDADE, CORPO E COGNIÇÃO EXPLORADOS NA ANÁLISE DE CONVERSAS ENVOLVENDO SUJEITOS COM ALZHEIMER

Fernanda Miranda da CRUZ* 

*UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo. Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Guarulhos – SP – Brasil. 07111-080 – fernanda.miranda.cruz@gmail.com


RESUMO

Este artigo procura explorar, teórica e analiticamente, como construímos os espaços interacionais multimodalmente, ou seja, como uma ação (verbal ou não) é construída graças a uma ecologia (GOODWIN, 2010a,b) de sistemas de signos, estruturalmente distintos entre si, mas intrinsecamente relacionados. Para isso, trazemos alguns referencias teóricos do campo dos estudos interacionais que concebem a interação social e a cognição humana de forma corporificada (embodied interaction, STRECK et al., 2011), como uma organização temporal, espacial, corporal e materialmente coletiva. Propomos essa discussão com base na análise de dois excertos de conversas envolvendo sujeitos com Alzheimer. Os dados analisados foram extraídos do corpus audiovisual DALI (Doença de Alzheimer, Linguagem e Interação). Inspiradas nas pesquisas em vídeo-análises (MONDADA, 2008, KNOBLAUCH et al., 2012), as análises trazidas permitem destacar o papel do corpo e dos gestos na construção de um espaço interacional. O enfoque analítico recai sobre os chamados gestos mínimos localizados no curso da interação e sobre os momentos em que é possível apontar uma sincronia entre a cadeia da fala e os gestos. Como potencial contribuição, a discussão promovida aqui procura refletir sobre uma infinidade de recursos cognitivos que são ou podem ser mobilizados e analisados na construção de nossa fala-em-interação.

Palavras-Chave: Interação corporificada; Patologias; Gestos; Vídeo-análises; Ecologia; Corpo; Cognição

ABSTRACT

STREECK et al., 2011 MONDADA, 2008 KNOBLAUCH et al., 2012

Key words: Embodied interaction; Gestures; Videoanalysis; Ecology; Body; Cognition; Pathologies

Uma breve introdução ao campo empírico de investigação das patologias que afetam a interação social

Si le face-à-face invente le langage…1

A proposta mais geral deste trabalho é a de explorar os elementos em jogo em um espaço interacional cujas ações realizadas na construção do sentido ordenam-se temporal e espacialmente a partir de um trabalho colaborativo entre os participantes em suas interações face a face. Essas ações implicam falas, gestos, elementos corporais, objetos do espaço físico, objetos de um espaço discursivo, que se orquestram na construção dos significados e das ações sociais produzidas face a face. De forma mais específica, gostaria de explorar a análise dos elementos que compõem esse espaço e esse tempo da interação a partir de dois excertos de situações interativas que possuem uma característica em comum: referem-se a situações interativas nas quais os participantes presentes interagem com a linguagem afetada por uma patologia. Essa formulação “os participantes interagirem com a linguagem afetada por uma patologia” quer marcar uma forma de conceber e investigar o contexto patológico no que diz respeito à linguagem, às ações comunicativas, verbais ou não-verbais, e às ações sociais de uma forma geral.

Muitas investigações e reflexões realizadas com base em contextos de patologia têm nos oferecido possibilidades de rever e ressignificar as fronteiras entre normalidade e patologia. Podemos aqui mencionar alguns trabalhos de pesquisa e de prática clínica, em que a noção de clínica, por exemplo, recebe um sentido mais amplo, tais como os trabalhos de Pál Pélbart (2014), nas fronteiras entre arte e filosofia; os de Kastrup (2007), no campo da psicologia; os de Lier-De-Vito (2005), no campo dos estudos em fonoaudiologia de base psicanalítica; os trabalhos de Coudry (1996) e Morato (2013), no campo dos estudos da linguagem; dentre outros. Essas reflexões vêm da filosofia, das artes, das ciências, das práticas terapêuticas, da literatura e mesmo das próprias experiências dos sujeitos com os estados patológicos. Trabalhos nesta direção nos oferecem elementos importantes para a compreensão e a reflexão sobre a linguagem, os possíveis e potenciais modos de existência humana e suas formas criativas de reorganização diante de uma patologia.

Sabemos que a linguagem não é algo que acontece só. Há sempre um sujeito que se relaciona com o mundo, com os outros e com a própria linguagem. O mesmo vale, claro, para a linguagem patológica, ou para as patologias que afetam a linguagem. É com “essa linguagem” que se constroem as práticas cotidianas. Soma-se ainda que todos os envolvidos em uma interação relacionam-se com “essa linguagem” ou com as condições colocadas por uma patologia e não apenas o sujeito acometido por uma patologia. É esse desenho. Então, que me interessa aqui traçar, ou seja, como estão relacionados alguns elementos que compõem um espaço interacional atravessado por patologias que afetam essas interações. A isso chamarei de olhar para o mínimo, que se interessa pelo constante trabalho de invenção da linguagem que fazemos quando estamos em uma situação face a face.

O olhar para o mínimo: os corpora audiovisuais de patologias como Alzheimer e autismo

Parte da reflexão trazida neste artigo é fruto de algumas prévias análises ou observações que pude fazer até aqui com base nas minhas tentativas de constituição e análise de corpora audiovisuais, construídos na linha das pesquisas em videoanálises desenvolvidas, dentre outros, por Mondada (2008) e Knoblauch et al. (2012). O campo da videoanálise é esse que, de forma geral, se dedica à elaboração de ferramentas de coletas, transcrições, representações e análises de interações sociais registradas em vídeo, a partir de uma perspectiva videográfica (KNOBLAUCH, 2012), para fazer alusão direta à metodologia etnográfica dos estudos da interação.

Dentre essas análises que pude realizar, destaco aquelas dedicadas a algumas características específicas de linguagem observadas em dois corpora: o corpus DALI – Doença de Alzheimer, Linguagem e Interação (CRUZ, 2008; 2015) referente a situações interativas das quais participam sujeitos com Alzheimer, e o corpus CELA (Corpus para Estudos da Linguagem no Autismo)2, referente a situações interativas das quais participam uma criança com autismo e seu entorno familiar.

Antes de prosseguirmos na descrição das análises prévias, vale fazer um apontamento importante sobre o estudo dessas patologias mencionadas aqui, Alzheimer e autismo. Em termos nosológicos ou clínicos, elas não são necessariamente comparáveis. No entanto, aqui, elas são justapostas a partir de um critério muito distinto do critério clínico-biomédico. Nas interações envolvendo sujeitos com algum tipo de patologia que afeta a fala ou a interação social, portanto, ou Alzheimer ou autismo ou outra ainda, a interação, de fato, pode não ser construída através de uma presença central da fala.

No caso da Doença de Alzheimer, ao investigar, por exemplo, as ocorrências de repetições e fala ecolálica em sujeitos com Alzheimer, pude verificar que ocorrências dessa natureza eram presentes na fala do sujeito com Alzheimer, como comumente encontramos descrito na literatura clínica, neurolingúistica ou do campo da linguística clínica (CULLEN et al., 2005; HWANG et al., 2000). Mas também pude observar que uma análise dessas ocorrências e de seu impacto sobre a organização da interação e sobre a fala do outro, pareciam apontar para o fato de que também o sujeito sem Alzheimer, ao lidar com aquelas produções, compunha, naquela ecologia, um papel particular, e que o arranjo de turnos e sequências orquestravam-se, então, àquelas produções ecolálicas ou de natureza desviante com relação aos descritores de usos normais da linguagem. Se, de certo modo, estamos relativamente familiarizados com formulações do tipo “linguagem patológica”, “linguagem desviante”, talvez estranhássemos bastante uma formulação do tipo uma “interação patológica” ou “interação desviante”. Em alguns dados, vide por exemplo (CRUZ, 2005; 2010), pude observar como uma repetição ecolálica, presente na fala de um sujeito com Alzheimer e também na de seu interlocutor, servia de ambiente ou substrato para ações de modificações semânticas ou de gestão de turnos de fala. Essa “materialidade linguística excedente” da ecolalia deveria, então, ser considerada, em termos analíticos, como um elemento componente da sequencialidade, da dinâmica da troca de turnos, do tempo e do ritmo (AUER et al., 1999) daquela interação, ou seja, compunha, então, uma ecologia e o ambiente interacional configura-se a partir dali com todas as ações que o compõem.

Outro exemplo diz respeito às interações envolvendo uma criança com autismo, que compõe o corpus CELA. Quando a fala de um dos participantes não está presente ou não se configura como central em uma interação, como é o caso dessas interações, há toda uma reorganização que se mostra visível na produção de sentidos e da qual participam todos os presentes, sejam eles falantes com plenas habilidades de fala ou não. Ali os corpos, os gestos, os objetos e um conjunto infinito de movimentos, inclusive verbais, compõem um tempo e um espaço próprios àquelas interações. Talvez esses elementos não-verbais pudessem ser deixados em um segundo plano em uma análise linguístico-interacional de situações cujo papel da fala seria um organizador central da interação. No entanto, em interações como essas3, uma análise exclusivamente pautada nos elementos verbais, que é possível e produtiva, como tem mostrado nossa longa tradição de estudos de dados linguísticos, poderia ser limitante ou deixar de fazer ver aspectos importantes.

Cotejando esse material audiovisual do CELA com as produções audiovisuais e escritas de Fernand Deligny (1913-1996) sobre crianças autistas interagindo com outras pessoas e com o ambiente, vimos uma potencial linha de análise dessas interações. Este pensador francês tem uma inquietação em compreender essas interações não pela ausência da fala, mas pela presença potente dos gestos e das ações, ou, em seus termos, do agir. Deligny, cuja obra tem sido organizada por Toledo (2007), microanaliticamente, faz ver o gesto mínimo, às vezes reflexo de uma comunicabilidade ou sociabilidade particular entre os participantes sensíveis a outros sistemas semióticos e menos presos, talvez, à estruturação da fala.

Ao observarmos e tentarmos transcrever minuciosamente os modos interativos existentes envolvendo sujeitos com autismo, somos provocados, o todo tempo, enquanto pesquisadores, a rever a tentação de tomar a fala como organizador central da comunicação e das interações humanas. Talvez não sejam à toa os tantos elogios aos silêncios que encontramos declarados por aí, em performances, textos filosóficos, poesias…

Uma questão que colocamos, então, sobre analisar a linguagem afetada por uma patologia seria: se de um lado não é possível desprezar ou ignorar a importância das descrições de ocorrências e características da linguagem afetadas por certas patologias, por outro, parece-nos instigante atentarmos para a forma como os sujeitos falantes, com ou sem patologia, se relacionam com a linguagem e como as interações se dão diante de todo e qualquer elemento que faça parte de um campo de relações (ou seja, de uma ecologia). Ou seja, apesar da “ausência da fala”, um espaço interacional existe e é analiticamente visível na rede de relações estabelecidas ecologicamente (GOODWIN 2010a,b).

Para seguirmos nossas análises nessa direção, valemo-nos de uma perspectiva situada e contingente dessas ações (MONDADA, 2002; 2011) como prisma para observar as interações envolvendo sujeitos com patologia. Em uma instância de interação, a análise das práticas de linguagem refere-se à linguagem dos participantes em um lugar e um momento específicos, ou seja, a ação é situada e contingente a determinadas condições. Isso nos permite supor que se há, dentre os participantes, um ou mais sujeitos com uma patologia que afeta a linguagem, aquela interação como um todo será, de alguma forma, afetada, inclusive no que diz respeito aos padrões linguísticos dos sujeitos sem patologia. Dito de outro modo, as patologias aqui não são isoladas como categoria clínica, mas investigadas na vida cotidiana4.

Uma análise nesta direção não estaria interessada em mostrar, a priori ou exclusivamente, elementos descritivos próprios da linguagem em uso em alguma patologia específica, como a linguagem da demência, da esquizofrenia, do autismo, dentre outras. Ou ainda, não estaria comprometida exclusivamente em destacar características descritivas dessas linguagens ou comportamentos linguístico-comunicativos como ecolalias, repetições, atrasos enunciados sem sentido, parafasias, pausas, silêncios. Tampouco se quer desconsiderar ou apagar o impacto das patologias na linguagem e nas ações dos sujeitos. Mas antes, estaria voltada para a tarefa de recompor, descritivamente, uma ecologia da dinâmica interacional, levando em consideração o tempo, o espaço e os elementos em relação nas ações que formam esse tempo e espaço determinados.

Notas sobre uma perspectiva ecológica, sobre multimodalidade e sobre a noção de interação corporificada

Comecemos por tentar compreender essa noção de ecologia de uma dinâmica interacional, já mencionada algumas vezes aqui. De forma geral, a noção de ecologia é muito produtiva, pois refere-se à interação entre seres vivos e ambiente. E ela implica a ideia de sistemas, de níveis de organização, de redes de interações, de leis e regras e de uma dinâmica complexa de mudanças, variáveis e constantes em jogo na interação.

Podemos conceber que nossas ações humanas e, dentre elas, a fala-em-interação, compõem uma ecologia de sistema de signos ou sinais, estruturalmente distintos entre si, mas intrinsecamente relacionados (GOODWIN, 2010a,b). Assim, os sujeitos constroem seus espaços interacionais de uma forma multimodal, em que multimodal quer dizer que uma ação (verbal ou não, linguística ou não), é construída e finalizada graças à conjunção desses sistemas de signos estruturalmente distintos entre si. Nos anos 60, Erving Goffman, em The neglected situation (1964), descreve aquilo que seria uma órbita microecológica em que as ações sociais se constroem. O trecho referente a essa passagem, publicado em português em 2002, A situação negligenciada (GOFFMAN, 2002), merece atenção e tem sido inclusive destacado por alguns estudiosos em suas publicações sobre multimodalidade:

Primeiro, apesar de o substrato de um gesto derivar do corpo de quem o executa, a forma do gesto pode ser intimamente determinada pela órbita microecológica na qual o falante se encontra. Para descrevermos o gesto, e nem sequer estamos falando em desnudar seu significado, talvez tenhamos que apresentar o cenário material e humano no qual o gesto é feito. Por exemplo, é preciso haver um consenso de que a altura do som de uma afirmação pode ser avaliada somente quando se sabe, antes de mais nada, a que distância o falante está de seu receptor. O indivíduo gesticula usando seu ambiente imediato, não apenas seu corpo. Portanto, devemos apresentar o ambiente de forma sistemática. Em segundo lugar, os gestos que um indivíduo utiliza como parte da fala são muito semelhantes aos gestos que utiliza quando quer tornar patente que não irá, de forma alguma, se envolver em conversa àquela altura. Em certos níveis de análise, então, o estudo do comportamento enquanto se fala e o estudo do comportamento dos que estão em presença uns dos outros mas não estão engajados em falar, não podem ser separados analiticamente. (GOFFMAN, 2002, p.15).

A noção de órbita microecológica me parece fundamental. Órbita implica espaço em movimento e microecológica implica elementos mínimos em relação. No que diz respeito às interações sociais, Goffman sugere que quando a fala ocorre, ela ocorre dentro de um arranjo social (op.cit., p.18). Isso também nos indica que, por vezes, ela não ocorre durante nossas ações. O que as interações humanas parecem mesmo indicar, como diria Goffman, é que em toda situação é atribuída uma significação a diversos elementos que não estão necessariamente associados a trocas verbais, como, por exemplo, elementos corporais, mas que ainda assim, fazem parte de uma certa forma de comunicação, dentro de arranjo social. Como formulará Pasquier (2008), ao tentar sistematizar o conceito de corpo na obra de Goffman e investigar, a partir daí, as dimensões da corporalidade nas relações sociais: “O corpo fala. Nós somos obrigados a nos haver com isso mais ou menos espontaneamente nas nossas relações face-a-face”5.

Então, se nos voltarmos para o que constitui esse arranjo, nos voltamos para a ação conjunta (ou seja, envolvendo pelo menos duas pessoas) de construir o universo de signos e sinais que compõem essa órbita, essa espécie de espaço em movimento. A noção de ação conjunta evoca a tradição de estudos sobre ações ou processos colaborativos (CLARK; WILKES-GIBBS, 1986; CLARK, 1992; 2005; TOMASELLO, 2008; 2009; LEVINSON; ENFIELD, 2006, para citar alguns). Assim, como reforçam autores dedicados ao campo das análises multimodais das interações, como Goodwin (2010a,b), Erickson (2010), Streeck (2010) e Mondada (2012), dentre outros, uma ecologia não implicaria apenas em ocupar o mesmo espaço e tempo na interação, mas em construir, colaborativamente, esse ambiente.

Streck et al. (2011), por exemplo, na tarefa de apresentar e sistematizar os estudos e pesquisas a partir de uma perspectiva da interação corporificada (embodied interaction, op.cit., p. 6), consideram que aquela primeira passagem acima extraída do artigo publicado por Goffman em 1964 seria uma espécie de presságio para o terreno comum das pesquisas contemporâneas voltadas para interação corporificada e multimodal.

Sabemos que a fala-em-interação tem sido esse lugar privilegiado para um estudo mais minucioso e detalhado da construção dessas ações. Em termos metodológicos e analíticos, a conversa e as dinâmicas de trocas verbais de turnos, componente universal da ação humana (STIVERS et al., 2009), favorecem uma empreitada analítica sociológica e/ou linguística, por conta, dentre outros aspectos relacionados a sua sistematicidade e organização, à possibilidade de serem registradas em áudio, transcritas, analisadas e reanalisadas em detalhe. A conversa nos diz muito sobre a organização social e sobre a forma como os falantes organizam suas ações. E sobre isso temos, felizmente, um legado importante no campo dos estudos linguísticos-interacionais (para citar algumas referências, temos, GARFINKEL, 1984; SACKS, 1972, 1992; ATKINSON; HERITAGE, 1984; DURANTI, 1997; e no Brasil, temos, dentre outros, os trabalhos de OSTERMANN, 2002; SILVEIRA; GAGO, 2005; GARCEZ, 2006; ALENCAR, 2007; OSTERMANN; OLIVEIRA, 2015, cujas análises da fala como uma ação são aplicadas a diferentes domínios empíricos, como interações em contextos de ensino, consultas médicas, teleatendimentos, audiências jurídicas).

Mas há também uma gama de espaços interacionais estruturalmente organizados em termos temporais e sequenciais em que, embora a fala ou a linguagem verbal inscreva-se como mais um elemento dentre vários outros sistemas de sinais, seu isolamento, em termos metodológicos e analíticos, nos deixaria escapar um conjunto de variáveis ou pistas centrais para o entendimento da construção colaborativa das ações. Nesse sentido, não têm sido poucos os autores/analistas que têm se dedicado a descrever e analisar a interação social concebida multimodalmente, ou seja, como uma organização temporal, espacial, corporal e materialmente coletiva. Temos aqui os estudos pioneiros dedicados a ações constitutivas e organizadoras da fala-em-interação: como o direcionamento do olhar (GOODWIN, 1979); o papel dos gestos com as mãos (KENDON, 1983; GOODWIN, M.; GOODWIN, C., 1986); gestos em geral (GOODWIN, 2007; STIVERS; SIDNEY, 2005; MONDADA, 2004; DUNCAN, 2002). Também merecem destaque os estudos que empregam uma análise multimodal que, partindo da fala, promovem contornos muito distintos a noções chaves do próprio campo da análise da fala-em-interação, das interações verbais, como: tomadas de turno, sequencialidade e indexicalidade, como indicam os estudos empreendidos por Mondada (2004, 2013).

Dentre esses autores dedicados a uma dimensão multimodal da interação humana, encontramos, por vezes, uma crítica a um certo logocentrismo que tomaria a fala ou a comunicação verbal como privilegiada na análise da interação social. Historicamente, parece ter havido, na década de 70, no cenário da pesquisa norte americana, um lamento sobre a separação artificial entre comportamento verbal e não-verbal, como apontarão Streck et al. (2011). Esse poderia ser, sem dúvida, um tópico que merece mais atenção em nossas pesquisas sobre interação no Brasil e tem implicações importantes inclusive na agenda das pesquisas interacionais; na construção de novos campos empíricos e estudos, e nas práticas de transcrição e apresentação de dados audiovisuais interacionais, para citar apenas algumas.

Sem desconsiderar a presença da fala em nossas ações cotidianas, analiticamente talvez possamos tomá-la como mais um sistema de signos em meio a tantos outros. Assim, uma perspectiva multimodal6 das ações humanas estaria centrada nesse caráter simultâneo e de natureza estrutural distinta de sistemas de signos. O foco analítico estaria em tentar entender como os participantes fazem uso simultaneamente de diferentes de tipos de recursos semióticos, que tem, por sua vez, propriedades estruturais diferentes e que estariam instanciados em diferentes tipos de materiais semióticos, como apontam Streck et al. (op.cit., p. 22): estrutura linguística no fluxo da fala ; sinais, tais como o gesto de apontar exibido através do corpo; a construção e a operação com referentes e objetos do espaço em interações envolvendo atividades de trabalho, como geógrafos, arquitetos, cirurgiões, etc.

Uma análise multimodal seria, então, uma análise de um mínimo fundamental, daquilo que sincroniza fala, gesto, espaço e outras ações na construção da interação e que permite ver, na sequencialidade e na temporalidade dessas ações, como as interações sociais e os significados se desenham.

Finalmente, voltando-me para dados de interação das quais participam sujeitos com alguma patologia, como Alzheimer, gostaria de mostrar alguns elementos desse espaço em movimento nessas interações, através do olhar para o mínimo. Essa metodologia do olhar para o mínimo dialoga diretamente com os estudos multimodais e com a tradição de estudos da interação de inspiração etnometodológica (ver, por exemplo, a publicação “Doing Conversation Analysis”, TEN HAVE, 1995; GARCEZ et al., 2014), atenta à natureza dos dados, aos registros audiovisuais, à transcrição minuciosa e detalhada, à descrição “linha por linha” (remissão à forma como se apresentam as transcrições, mas também à dinâmica de sequências encadeadas de ações que compõem a interação), e à temporalidade das ações.

Apresentação dos dados e notação de transcrição: algumas palavras prévias à análise

Apresentaremos um quadro (Quadro 1) com uma notação de transcrição e 2 excertos transcritos (Excerto 1 e Excerto 2) de interações envolvendo sujeitos com Alzheimer, extraídos do corpus audiovisual DALI. Um aspecto fundamental e uma ferramenta analítica importante é a transcrição de dados audiovisuais. Muitas vezes, elementos importantes para o entendimento da estruturação e da organização das situações se constituem multimodalmente, tais como aberturas e fechamentos das interações ; hesitações ; pares mínimos (de perguntas e respostas); dinâmica de alternância de turnos; reparos, etc. Em corpora audiovisuais, esses traços podem ser visíveis, transcritos e analisados detalhadamente em termos sequenciais, através de movimentos das mãos, do corpo, do olhar, de gestos de apontar e da referência gestual a objetos presentes no espaço. No entanto, a transcrição de elementos multimodais nem sempre é uma tarefa fácil de se realizar. Em situações de apresentações orais de dados, como cursos, conferências etc., o vídeo pode ser um bom recurso ou suporte para dar visibilidade a um dado. No entanto, ainda assim, ele não suprime a necessidade do trabalho de transcrição, que já é em si uma atividade analítica (OCHS, 1979; MONDADA, 2000; TEN HAVE, 2002). Transcrever é assim uma atividade de “fazer ver através”, de transver os potenciais elementos analíticos de uma interação.

Quadro 1 – Sistema de notação de transcrição 

Informações gerais Cada participante é indicado por duas letras iniciais (MA, MH e AN, para o Excerto 1 e ME, PA, AC, para o Excerto 2).
As letras iniciais em maiúsculo indicam a fala.
As letras iniciais em minúsculo indicam gestos.
Em caso de referência ao participante no interior do turno de fala por outro participante, opta-se pelo uso de pseudônimo correspondente às iniciais indicadas.
No texto de análise do dado, opta-se pelo uso de pseudônimo.
Cada linha da transcrição é numerada e não corresponde necessariamente aos turnos de fala.
Cada participante recebe um símbolo gráfico indicador de seus gestos. No caso do Excerto 1: + gestos de MH; * gestos de MA; # gestos de AN. No caso do Excerto 2: + gestos de PA.
Para destacar, do ponto de vista gráfico, as falas dos gestos, aquelas são apresentadas em negrito e a descrição destes últimos em itálico.
Segmento ininteligível Xxx
Fenômeno sequencial: marca a continuação do turno de fala pelo mesmo locutor após uma quebra da linha da transcrição para introduzir a descrição de um gesto de outro interlocutor &
Pausas . (micro pausas, inferiores a 0,3 segundos, não medidas)
(x,x s) pausas medidas com ajuda do programa (software livre) para edição de áudio Audacity versão 1.2.6.
Fenômenos segmentais : alongamento silábico
.h marca a inspiração do locutor
Entonação- Prosódia / e \ entonação ascendente e descendente
// entonação de pergunta (ascendente)
Segmento sublinhado: ênfase particular (intensidade, acento)
Segmento em maiúscula: volume forte de voz
° ° volume baixo, murmúrio de voz
↑: Subida na curva entoacional, em sílabas nucleares (posicionada antes da sílaba)
↓: Descida na curva entoacional, em sílabas nucleares.
→ Neutralidade na curva entoacional, em sílabas nucleares.
Descrição e marcação de ações como (gestos, direcionamento do olhar e postura +----+ delimitação da ação descrita relacionada à fala transcrita na linha superior.
A fala transcrita comporta os símbolos gráficos indicadores de gestos (+, *, #) posicionados no momento em que são realizados com relação à fala.
,,,, indica que a ação descrita é contínua
-----> (linha x) indica que a ação descrita continua até determinada linha
----->+ indica o momento exato, em que, numa ação continua descrita, há uma outra ação pontual; ou quando há uma ação num momento preciso do turno de fala.

Fonte: elaboração própria.

Excerto 1 – Corpus DALI 

Excerto 2 – Corpus DALI 

Os dados reunidos neste artigo trazem, em sua forma apresentada, algumas questões colocadas acima. Eles foram transcritos utilizando-se um sistema de notação de transcrição que teve por base elementos da proposta por Mondada (2004). O que justifica as adaptações é que tanto a prática de transcrição quanto a notação adotadas são sensíveis aos efeitos teórico e analiticamente configurantes dessa prática. No quadro 1, que se segue, apresento a notação de transcrição utilizada.

Análises: o silêncio e o corpo em interações envolvendo sujeitos com Alzheimer

No excerto 1, temos uma interação da qual participam Maria Helena (MH), uma senhora que recebera o diagnóstico de Alzheimer; Márcia (MA), sua nora, e André (AN), seu neto. Os dados relativos à Maria Helena foram coletados entre 2006 e 2007 e correspondem a um conjunto relativamente variado de interações cotidianas das quais participa Maria Helena em seu ambiente familiar. Maria Helena recebera o diagnóstico de Alzheimer há aproximadamente 10 anos da data da coleta desses dados.

Nessas interações, nem sempre temos indícios ou evidências de fala ou de uma participação expressa verbalmente por parte de Maria Helena. Algumas características descritas em estudos clínicos sobre linguagem em quadros de Alzheimer ou em descrições sobre o comportamento linguístico de sujeitos com Alzheimer confirmam que, no quadro evolutivo da demência, há uma perda progressiva das iniciativas de fala, silenciamentos e mesmo mutismo (FERRIS; FARLOW, 2013). O silêncio, de uma forma muito geral, é por vezes associado à ideia de lacuna ou falta. Aqui, gostaria de explorar analiticamente uma situação em que identificamos “o silêncio” de um sujeito com Alzheimer. Como ele se integra na órbita ecológica de uma interação? E ainda, o que a proposta de um olhar para o mínimo nessas interações poderia fornecer de subsídios de análise para uma exploração dos recursos sociocognitivos dos sujeitos?

No excerto abaixo, estão os três participantes sentados à mesa, almoçando. Márcia dirige-se ao filho, chamando sua atenção para a comida caindo na roupa (referência à Figura 1).

Fonte: elaboração própria.

Figura 1 – Corpus DALI 

Nesta situação interativa, as trocas verbais, que, então, restringirei ao uso da fala (linhas 01, 03, 05, 08, 1 0, 12, 14, 16, 23), acontecem entre Márcia e André ao mesmo tempo em que os três participantes fazem uma refeição. Vimos que Márcia, mãe de André, chama-lhe repetidamente a atenção para a comida que cai do prato. Durante essas intervenções, Márcia solicita um atendimento ou resposta, em termos de ações, para André. Esse tipo de troca foi analisada como uma sequência interacional do tipo sequências corporificadas de diretivas (no original, embodied directive sequences), por Goodwin (2006) e Cekaite (2010), em que a mãe/pai ou um adulto solicita algo ao filho/criança que, por sua vez, responderá ou não, com uma ação corporal, estruturando, dessa forma, um par adjacente pergunta-resposta. Assim, arrumar-se na mesa/ajeitar o prato/comer formam uma sequência de pedidos de Márcia para André. Da forma como se organizam essas sequências nesta interação, há uma temporalidade marcada pela espera de Márcia pelo atendimento dos pedidos dirigidos a André. Essa temporalidade da espera, se assim podemos dizer, é espacialmente visível na construção multimodal da atenção conjunta dos participantes para o problema: a comida caindo do prato. Essa atenção conjunta é mutualmente construída através de recursos verbais: “André/ a ô macarrão caindo na sua ca- no seu prato aí (0.3) Andre” (linhas 03-05), com a presença de forma dêitica (a ô= olha o, estrutura do tipo olhar +X, na proposta do estudo de Bernardo (2005), por exemplo). Mas também gestuais: “Márcia aponta para André” (linha 06).

A cada pedido de Márcia e a cada nova informação desta construção da atenção conjunta para o problema, Maria Helena indica, com o direcionamento do olhar, a dinâmica de trocas desses pares de pedido-resposta entre Márcia e André. Nesse caso, Maria Helena participa dessa construção conjunta da atenção seguindo e antecipando, através do direcionamento do olhar, a dinâmica da troca desses turnos. Em outros termos, podemos dizer que Maria Helena, sem expressar-se verbalmente, acompanha a organização sequencial dessa atividade através do direcionamento do olhar e de sua postura corporal.

As ações realizadas pelos três participantes para completar esse tipo de sequência (embodied directive) fornece uma dimensão situada da socialização da criança através de práticas corporais e de movimentos neste espaço interacional. Esta é uma das análises propostas por Ceikate (2010), interessada especialmente em interações envolvendo crianças. Para o excerto 01 em análise, podemos depreender alguns aspectos que dialogam com uma análise sobre processos de sociabilidade e o que eles indicam sobre os recursos utilizados (ou não) por sujeitos com perdas cognitivas. Vejamos: em termos metodológico-analíticos, muitas variáveis poderiam e podem ser mobilizadas para compreendermos uma situação interativa ou uma ação sendo co-construída entre sujeitos, tais como: idade; grau de familiaridade entre os participantes; conhecimentos de mundo compartilhados; motivações de várias ordens, como afetivas, psicológicas, ideológicas, etc.; finalidade da interação; competências e habilidades; aspectos cognitivos, culturais; ambiente, e tantas outras quanto imaginarmos ou pudermos descrever ao observarmos uma interação, considerando as condições que são próprias a cada situação.

Em meio a esse vasto conjunto de possibilidades de explorar analiticamente essas ações, elegemos aqui uma perspectiva êmica da interação e das práticas humanas, ou seja, aquela que adota o ponto de vista dos integrantes ou participantes de uma interação (ver DURANTI, 1997; GARCEZ, 2008). Isso tem uma implicação direta na forma de olhar e analisar as interações. Significa assumir, por exemplo, que a relevância ou pertinência dos recursos mobilizados pelos sujeitos é dada no momento de uma determinada interação, pelos próprios participantes e pelas circunstâncias que contingenciam aquela ação em questão. Assim, o que se pretende destacar não é apenas o fato de que durante nossas interações cotidianas acionamos um conjunto variado de recursos e ações para produzirmos sentido. O enfoque está justamente em apontar como os elementos dessa arquitetura intersubjetiva (HERITAGE, 1984; SCHEGLOFF, 1992) estão organizados no espaço e no tempo daquilo que se delimita como uma dinâmica interacional e como os participantes dão conta disso, publicamente, em suas ações (ver as noções de accountability (HERITAGE, 1984) e explicabilidade (GARCEZ, 2008)).

O que está em jogo nesta explicabilidade é justamente um campo complexo para ser decomposto analiticamente envolvendo coordenações de ações e movimentos. Podemos dizer que Maria Helena, portadora de Alzheimer, também acompanha e constrói ativamente aquela coordenação de ações, desempenhando um papel distinto do de Márcia, mãe da criança, que atua nas solicitações dessas ações. Maria Helena, diferentemente, acompanha essa coordenação de ações e as trocas de turnos desses pares de solicitações e respostas através de um alinhamento das ações de Márcia e André, ou seja, acompanhando cada momento destes movimentos com o direcionamento do olhar. A construção desse alinhamento entre as ações dos participantes, marcado temporalmente, se completa justamente quando as sequências de solicitações e respostas terminam (linhas 25 e 25) e quando todos os três participantes, finalmente, voltam a comer (linha 26).

Uma perspectiva da interação corporificada tem reforçado que o lugar primordial para a organização da ação humana, da cognição, da linguagem e da organização social consiste de uma situação em que os vários participantes estão conjuntamente construindo um espaço interacional, ao mesmo tempo em que constroem, em conjunto com outros, as ações que definem e moldam seu mundo social. E mais, tudo isso é feito enquanto orientam-se mutualmente para a organização detalhada da fala em curso; para os eventos relevantes no ambiente e para as múltiplas atividades nas quais estão engajados (HADDINGTON et al., 2013).

Em termos de coordenação de ações, temos aqui uma interação social envolvendo multiatividades, que basicamente se define como atividades simultâneas, cuja organização deixa ver como os sujeitos interagem uns com outros ao mesmo tempo em que têm sua atenção e o tempo voltados para outra(s) atividades (comer, educar uma criança, conversar...).

No caso de situações interativas das quais participam sujeitos com Alzheimer, acredito que esse é um nicho interessante de questões, por mobilizar, sobretudo, a pergunta sobre o que poderíamos destacar analiticamente como evidências de recursos sociocognitivos mobilizados pelos sujeitos, com ou sem prejuízo cognitivo, durante a construção colaborativa das ações. Como um indicador importante, trazemos, então, para o campo da análise das interações, o corpo nesse espaço interacional. Corpo esse capaz de deixar ver, antes tudo aos demais interlocutores durante a interação social, uma infinidade de recursos cognitivos que são mobilizados na coordenação dessas ações.

Tentarei aprofundar um pouco mais a discussão sobre o papel do corpo em um espaço interacional e as implicações de uma perspectiva corporificada da cognição para os dados de patologias que afetam a linguagem e cognição, explorando uma segunda situação interativa.

A situação seguinte se passa em um ambiente institucional de consulta clínica, em um centro de atendimento a pessoas com Alzheimer, em São Paulo, Brasil. Da mesma forma que o Excerto 1, esse dado também fora extraído do corpus DALI, nas coleções dedicadas a interações em ambientes clínico-institucionais. Optei por indicar os participantes segundo as categorias médico-paciente diretamente relacionadas a esse contexto clínico-institucional (ver, por exemplo, Ten Have, 1999 para a discussão em torno das escolhas de indicações de participantes durante a prática de transcrição). Assim, temos um paciente diagnosticado com Alzheimer, PA; o médico, ME; e a esposa/acompanhante do paciente, que o acompanha à consulta, AC.

No excerto 02, o médico dirige-se ao paciente perguntando-lhe sobre o estado de sua memória. Os problemas de memória são uma das queixas centrais e sinais mais importantes da Doença de Alzheimer. Esse tipo de pergunta é constitutivo das consultas envolvendo pessoas com Alzheimer. Espera-se assim alguma manifestação ou explicabilidade, em termos discursivos, do estado cognitivo. Embora comum, esse tipo de pergunta não deixa de revelar algumas tensões, justamente por colocar em evidência o problema de memória dos sujeitos e todas as injunções sociais a ele relacionadas (CRUZ; MORATO, 2005; CRUZ, 2014). Mas, interacionalmente, seria possível analisar algumas tensões e suas implicações para o curso desta interação?

O estado cognitivo de um sujeito sob avaliação em consultas clínicas é verificado dentro de uma dinâmica interativa, mesmo que para isso sejam utilizados protocolos ou testes estruturados em perguntas e respostas (MARLAIRE; MAYNARD, 1990). São nessas situações de consulta clínica voltadas para aferição do estado cognitivo que podemos observar as distintas formas pelas quais os sujeitos manifestam “seu estado mental”. Por exemplo, discursivamente, através das formulações do tipo “não sei, não lembro, esqueci”, “a memória não está boa” e linguístico-interacionalmente, através de hesitações, pausas, busca de palavras ou reparos. Esse último aspecto nos interessará aqui analisar.

No exemplo acima, a pergunta do médico sobre a memória é respondida pelo paciente com um reparo: “como//(.) a memória//” (linha 02). O reparo, como fenômeno interacional, tem implicações importantes na análise do desenrolar de uma interação, uma vez que é um recurso a partir do qual os participantes demonstram aos outros aquilo que é considerado por eles como fonte de problema (source of problem ou trouble source), ou seja, aquilo que tem potencial de ser tratado interacionalmente pelos participantes (ver SCHEGLOFF; JEFFERSON; SACKS, 1977; DREW, 1997; GARCEZ; LORDER, 2005, dentre outros). Nesse sentido, os reparos, do ponto de vista sequencial, não acontecem a qualquer momento. No exemplo acima, essa característica é fundamental para construirmos um plano de análise das várias pequenas tensões e ações que se passam em um ambiente de consulta clínica sobre o estado mental de quem tem um diagnóstico de perda progressiva de suas capacidades cognitivas.

No Excerto 2, temos uma estrutura de reparo iniciado pelo paciente com relação ao turno anterior, justamente após ser perguntado pelo médico sobre a memória. Assim, o paciente aponta como fonte problema, em termos interacionais e não cognitivos, a pergunta sobre o estado da memória. É na continuidade desta interação que essa ação se reverbera. Vejamos: o médico confirma a fonte de problema que é acionada por um reparo (“é”, linha 3) dando continuidade à consulta. Na sequência, diante da confirmação do reparo pelo médico, o paciente inicia a resposta ao par adjacente pergunta-resposta (pergunta sobre o estado da memória/resposta) proposto pelo médico antes do reparo. Nesse momento, ele introduz uma apreciação, uma auto-avaliação: “agora tá difícil” (linha 04) e uma espécie de projeção que parece transportar a ação de recordar-se (ou a habilidade cognitiva sobre a qual se pergunta) para o momento presente daquela interação: “mas tá chegando”, referindo-se à memória. Na construção desse turno, vemos uma combinação entre algumas ações do paciente: reparos, a resposta ao par adjacente pergunta-resposta; uma apreciação sobre seu próprio estado cognitivo; uma projeção de um estado latente de memória que estaria chegando; e, finalmente, na linha 06, uma ação corporal, o direcionamento do olhar para a acompanhante AC.

Com esse direcionamento do olhar para a acompanhante, o paciente seleciona-a para assumir o papel de interlocutora desta conversa com o médico, propondo uma outra configuração do quadro participativo e dos papéis a serem desempenhados pelos três participantes ali. Mas note que o paciente faz isso de forma multimodal, combinando uma sintaxe da cadeia da fala com todas aquelas ações acima descritas, dando continuidade à construção desse turno.

Embora a acompanhante recuse, a princípio, a seleção realizada pelo paciente para que ela ocupe o papel de interlocutor direto do médico, este último alinha-se à ação do paciente e completando-a efetivamente. Ao selecionar outro interlocutor em seu lugar e reorganizar a configuração do quadro participativo estabelecido até o momento, o paciente é menos convocado a falar sobre seu estado cognitivo nessa situação. O que o paciente constrói durante o curso dessa interação pode ser interpretado como estratégias de preservação da face. Um achado muito semelhante foi mostrado por um estudo realizado recentemente por Pollock (2007), que explora justamente como as ações de preservação da face (GOFFMAN, 2011 [1967]) são construídas em situações de consultas psiquiátricas. O conceito de face, que também tem sido traduzido como fachada, consiste, conforme o autor:

[no] valor social positivo que uma pessoa efetivamente reivindica para si mesma através da linha que os outros pressupõem que ela assumiu durante um contato particular. Construída, portanto, dialogicamente, a face é uma imagem do self delineada em termos de atributos sociais aprovados. (GOFFMAN, 2011, p.14)

No complexo jogo da interação, muitos lances orientam e organizam aquilo que ordenaria um ritual. Sua complexidade, como dirá Goffman, não parece estar em grandes lances ou movimentos, mas em “olhadelas, gestos, posicionamento e enunciados verbais que as pessoas continuamente inserem na situação, intencionalmente ou não.” (op.cit., p.9). Assim, entre reparos, pausas na fala, hesitações, pequenos e breves direcionamentos de olhar, temos um conjunto de gestos mínimos, verbais e corporais, impregnados de efeitos pragmáticos e semânticos, que constroem a interação. Esses elementos nos deixam ver melhor como os sujeitos com Alzheimer e seu entorno, incluindo aqui familiares e profissionais de saúde, lidam com os estados mentais em vários movimentos significativos desta órbita microecológica que envolve uma interação.

Discussão: a observabilidade dos estados mentais e interação social

Uma formulação como “a forma como se manifestam” os estados mentais, ou ainda, « manifestação dos estados mentais » nos remete diretamente a uma questão importante no campo das ciências humanas empíricas interessadas na cognição humana, a questão da observabilidade dos estados cognitivos. Durante as interações, as manifestações que nos remetem a um estado mental não se restringem apenas à estrutura linguística ou ao comportamento verbal do sujeito com DA. Esse tipo de achado dialoga com pesquisas realizadas em outros campos e esse tópico merecerá algumas linhas na reflexão proposta neste artigo.

No campo da Discourse Psychology (EDWARDS, 1997; TE MOLDER; POTTER, 2001) investigam a forma pela qual os aspectos psicológicos e mentais são descritos, nomeados e evocados na interação, bem como as formas pelas quais as categorias e noções psicológicas são utilizadas pelos sujeitos como ferramentas para a realização de ações. Nesta abordagem, alguns termos centrais no campo das pesquisas cognitivas clássicas têm sido reconsiderados a partir de uma perspectiva considerada não-mentalista, mas discursiva, como, por exemplo, as noções de memória (EDWARDS; POTTER, 1992; LYNCH; BOGEN, 2005); atitude (POTTER, 1998); categorias e identidades (EDWARDS, 1991), emoção (LOCKE; EDWARDS, 2003) e script (EDWARDS, 1997). Os estudos realizados a partir dessa abordagem propõem uma forma de conceber e focalizar os fenômenos mentais ou psicológicos partindo da forma como esses fenômenos seriam construídos, ajustados e situados nas interações humanas naturais.

Assim, um repertório de termos relacionados aos estados mentais é concebido como atributos discursivos, não relacionado apenas à representação dos estados mentais internos, mas à expressão desses estados empregadas no curso de uma atividade interacional e com finalidades discursivo-interacionais. Os distintos estudos neste campo investigam tanto a natureza retórica ou o uso retórico que pode ser feito pelos participantes destes termos quanto as formas pelas quais termos vernaculares ou outras ações atribuídas a certos estados mentais podem atuar na organização de microaspectos da interação.

No campo dos estudos interacionais, não necessariamente comprometidos com as dimensões psicológicas, os estados mentais ou cognitivos presentes na interação também recebem um estatuto de objeto de análise. Um exemplo de estudo no campo das análises conversacionalistas é o estudo de Goodwin (1987) que mostra como manifestações de esquecimento, incertezas e hesitações podem operar como uma solicitação de um trabalho colaborativo que se estabelece durante uma atividade narrativa ou uma sentença conversacional. Nesse sentido, as manifestações de esquecimento ou dificuldades de evocação podem ser entendidos, analiticamente, como recursos (DREW, 2005, p.166) utilizados pelos participantes durante as práticas interativas. A noção de recurso se deve justamente ao fato de exercerem um papel importante na organização social e interacional de uma atividade. A questão que nos colocamos é como conceber uma noção de recurso para os casos nos quais os esquecimentos ou os estados de confusão seriam uma dificuldade decorrente de uma patologia neurodegenerativa, cuja natureza do problema é conhecida? Aqui é preciso retomarmos o que foi exposto anteriormente a respeito de uma perspectiva ecológica das interações afetadas por patologias.

Podemos dizer que as manifestações que nos remetem a um estado mental estão imbricadas e manifestadas numa dinâmica da interação (ou seja, em que momento e em que ordem sequencial uma manifestação de dificuldades, esquecimento, confusão emerge); nos níveis discursivos (ou seja, quais as distintas formulações discursivas que dão visibilidade a uma referência linguística aos estados mentais); nas formas linguístico-interacionais (visíveis sobretudo no que diz respeito a uma estrutura linguística e a uma temporalidade interacional através das marcas de hesitação, incertezas, pausas, reparações, repetições, etc.) e, multimodais (através de gestos e do corpo).

Ainda algumas palavras finais sobre os gestos mínimos, o corpo, a linguagem e o de-mens

As investigações clínico-diagnósticas em torno da Doença de Alzheimer procuram fornecer pistas de como o declínio cognitivo afeta diferentes dimensões da vida cotidiana, como linguagem, comportamento social, rotinas, tarefas domésticas ou de trabalho. A investigação dessas atividades para fins analíticos (ou seja, investigação em separado da linguagem, da memória, da atenção, ou ainda, de níveis linguísticos ou habilidades linguísticas específicas, por exemplo) têm fornecido alguns achados importantes, validados inclusive por protocolos investigativos consolidados no campo das investigações neuropsicológicas. Da mesma forma, uma decomposição analítica em termos interacionais também permite destacar um complexo trabalho cognitivo realizado pelos sujeitos, ilustrativo do que fazemos na vida cotidiana, em que lidamos o tempo todo com ações sociais, verbais e corporificadas.

No entanto, ao interagirmos estamos sempre imersos em uma órbita microecológica, em que várias coisas acontecem ao mesmo tempo em que falamos. Esse “ao mesmo tempo”, ou seja, esse caráter sincrônico e simultâneo de algumas ações ainda parece ser um campo a ser explorado em dados de interação envolvendo falas e gestos. As várias coisas que fazemos, digamos assim, colocadas sob uma lente ampliada (um microscópio para a vida social, como faz pensar Buscher (2005)) deixam ver que todos nós, sujeitos com ou sem uma patologia que comprometa as capacidades cognitivas, construímos o sentido e atribuímos valores simbólicos a um conjunto infinito de ações que desempenhamos quando estamos em situações face a face. Justamente onde, segundo Godard, em seu filme Adieu au language, inventamos a linguagem, como anunciado na epígrafe deste texto. Todas as pistas do que estaria envolvido na construção dos sentidos são fornecidas antes pelos sujeitos indiciados nessa linguagem que vai sendo inventada à medida que a interação se estabelece, engendrada pelo compartilhamento em distintos graus das funções cultural e socialmente situadas de tais pistas.

No caso das investigações envolvendo as interações com sujeitos em estado de perda cognitiva, análises desse tipo talvez possam colaborar no entendimento de um corpo no espaço interacional, que persiste, mesmo quando o declínio cognitivo já se avança e que a linguagem verbal já se ausenta. Ou seja, embora a noção de ausência da mente esteja embutida no próprio nome demência (de-mens), quando nos voltamos efetivamente para uma noção de cognição corporificada, somos convidados a rever uma pergunta que parece estar sempre presente nas pesquisas em ciências humanas e sociais que tocam o campo das patologias mentais e cognitivas: o que fazer com o corpo quando uma mente se esvai? Talvez já não formularíamos dessa forma se nos lançássemos a pensar linguagem, interação e cognição de forma corporificada.

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1 Passagem extraída do filme Adieu au langage (Adeus à linguagem, 2014) do cineasta francês Jean-Luc Godard.

2 O corpus CELA está na presente data, em fase de constituição por Caroline Paola Cots no quadro de sua pesquisa de iniciação científica intitulada «A linha de errância do autismo e o método-pensamento de Fernand Deligny: onde a linguagem verbal se ausenta, o que há? », financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, processo 2014/15206-6). Esse corpus integra-se ao Projeto Gestos Mínimos. “Gestos mínimos” faz referência ao bonito trabalho de Fernand Deligny sobre os modos de existência de crianças autistas. Mas, também, gestos mínimos é um convite à própria prática investigativa das interações humanas. Os pesquisadores desse projeto estão interessados no mínimo, minimamente descrito. Assim, este projeto de pesquisa visa estudar os modos de inter-agir de sujeitos com autismo. Esse estudo é feito com base na constituição de corpo audiovisuais de sujeitos em ambientes naturais (institucionais ou não). Na interação humana, as ações nem sempre são organizadas por um único meio, como a fala, por exemplo, mas construídas através do uso simultâneo de múltiplos recursos semióticos com propriedades muito distintas. Nosso movimento analítico implica então em reconhecer a diversidade de recursos semióticos utilizados pelos participantes na interação e analisar como esses recursos interagem entre si para construir localmente uma ação. No escopo do projeto estão ainda os desafios com as notações de transcrição multimodal e o empreendimento de micro-vídeo-análises.

3 Embora aqui eu esteja me referindo a interações envolvendo sujeitos com patologias que afetem a linguagem, o mesmo poderia ser dito para interações envolvendo uma complexa articulação com o mundo material, como interações em ambientes profissionais. Nessas interações, a descrição das ações envolvendo corpo e objetos do espaço é fundamental para o entendimento da construção da interação.

4 A formulação « na vida cotidiana » é uma referência livre ao título “Sobre a psicopatologia da vida cotidiana” (FREUD, 1901/2006), em que Freud movimenta as fronteiras entre normalidade e patologia através de exemplos muito concretos de comportamento linguístico e atos ou ações dos falantes.

5 Tradução minha do original « Nos corps parlent. Nous sommes obligés de « faire avec » plus ou moins spontanément dans nos relations de « face à face ». Pasquier, S. Le corps chez Goffman, Quel statut du corps dans la réalité sociale ; quelle réalité sociale au-delà du corps ?, Revue du MAUSS permanente. 2008. Disponível em: <http://www.journaldumauss.net/./?Le-corps-chez-Goffman. Acesso em: 28 set. 2015.

6 A noção de multimodalidade também se aplica aos estudos do texto, com escopo, objetivos e análises distintos das análises voltadas para ações humanas. Temos estudos interessados em estudos semióticos do texto, como imagens e filmes (KRESS; VAN LEEUWEN, 2001; NORRIS, 2004). No Brasil, temos uma produção significativa no campo desses estudos sobre as relações entre oralidade e escrita. Ver, por exemplo, Marcuschi, L. A.; Dionísio, A. P. (Org.). Oralidade e Escrita. Belo Horizonte: Autêntica.

Recebido: Dezembro de 2015; Aceito: Julho de 2016

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