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Brazilian Journal of Food Technology

On-line version ISSN 1981-6723

Braz. J. Food Technol. vol.14 no.4 Campinas Oct./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.4260/BJFT2011140400038 

Análise isotópica (δ13C) e legalidade em suco e polpa de caju

 

Isotope analysiS (δ13C) and legality in cashew juice and pulp

 

 

Ricardo FigueiraI, *; Andressa Milene Parente NogueiraII; Waldemar Gastoni Venturini FilhoII; Carlos DucattiIII; Martha Maria MischanIV

IUniversidade Estadual Paulista (UNESP) Instituto de Biociências (IB) Centro de Isótopos Estáveis Ambientais Distrito de Rubião Jr., s/n CEP. 18618-000, Botucatu (SP), Brasil. Telefone/Fax: (14) 3811-6359 e-mail: ricardofigueira@hotmail.com
IIUniversidade Estadual Paulista (UNESP) Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) Laboratório de Bebidas Botucatu (SP), Brasil. e-mail: andressa_nogueira@fca.unesp.br, venturini@fca.unesp.br
IIIUniversidade Estadual Paulista (UNESP) Instituto de Biociências (IB) Centro de Isótopos Estáveis Ambientais Botucatu (SP), Brasil. e-mail: ducatti@ibb.unesp.br
IVUniversidade Estadual Paulista (UNESP) Instituto de Biociências (IB) Laboratório de Bioestatística, Botucatu (SP), Brasil. e-mail: mmischan@ibb.unesp.br

 

 


RESUMO

Os objetivos deste trabalho foram utilizar o método de análise isotópica para quantificar o carbono do ciclo fotossintético C3 em suco reconstituído e polpa de caju comerciais e mensurar o limite de legalidade, baseado na legislação brasileira, para identificar as bebidas que não estão em conformidade com as normas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Os sucos foram produzidos em laboratório, conforme a legislação brasileira. Também foram produzidos sucos adulterados com quantidade de açúcar de cana acima do limite mínimo permitido pelo MAPA. Na análise isotópica, foi mensurado o enriquecimento isotópico relativo dos sucos e das polpas de caju e também das suas frações - sólidos insolúveis e açúcar purificado. Com esses resultados, foi estimada a quantidade de fonte C3 por meio da equação da diluição isotópica. Para determinar a existência de adulteração foi calculado o limite de legalidade de acordo com a legislação brasileira. Sete produtos comerciais de caju (suco e polpa) foram analisados. Quatro deles não estavam em acordo com as normas do MAPA. A metodologia de análise isotópica do carbono (13C/12C), baseada nos metabolismos fotossintéticos C3 e C4, mensurou com eficiência a quantidade de fonte C3 dos sucos e polpas de caju comerciais. O limite de legalidade possibilitou identificar as bebidas que estavam em desacordo com a legislação brasileira.

Palavras-chave: qualidade, limite de legalidade, carbono-13, IRMS, Anacordium occidentale


SUMMARY

The aims of this work were to use the isotope analysis method to quantify the carbon of the C3 photosynthetic cycle in commercial cashew pulp and its reconstituted juice, and measure the legal limit based on Brazilian legislation in order to identify beverages that do not conform to the norms of the Ministry of Agriculture, Livestock and Food Supply (MAPA). The juices were produced in a laboratory according to Brazilian law. Adulterated juices were also produced with a quantity of cane sugar above the limit permitted by MAPA. The isotopic analyses measured the relative isotope enrichment of the cashew juices and pulps and of their fractions - purified sugar and insoluble solids. The quantity of C3 source was estimated from these results using the isotope dilution equation. To determine the existence of adulteration it was necessary to create a legal limit according to Brazilian law. Seven commercial cashew products (juice and pulp) were analyzed and four were not in agreement with the MAPA norms. The carbon isotope analysis methodology (13C/12C) based on the C3 and C4 photosynthetic metabolisms efficiently measured the C3 source concentration in commercial cashew juices and pulps. The legal limit enabled the identification of beverages not conforming with Brazilian law.

Key words: quality, legal limit, carbon-13, IRMS, Anacordium occidentale


 

 

1. Introdução

A adulteração de sucos e polpas de frutas ocorre pela adição de açúcar de cana. Para identificar essa adulteração, a análise isotópica é a mais sofisticada e específica técnica, sendo amplamente usada na área de alimentos e bebidas (REID et al., 2006). A técnica dos isótopos estáveis tem sido utilizada rotineiramente no controle de qualidade dos processos industriais de produção de bebidas e nas instituições oficiais de fiscalização como instrumento de autuação de produtos fraudados (KELLY, 2003).

A metodologia da razão isotópica do carbono (13C/12C) baseia-se na mistura de compostos produzidos a partir de plantas dos ciclos fotossintéticos C3 (laranja, uva, maçã, pêssego, etc.) e C4 (cana-de-açúcar, milho, sorgo, etc.). Os vegetais C3 apresentam valores de enriquecimento isotópico relativo (δ13C) entre -22,00 a -4,00 per mil (‰). Nos vegetais C4, o δ13C varia de -9,00 a -16,00‰ (KOZIET et al., 1993; ROSSMANN, 2001). Essa diferença entre plantas C3 e C4 também é encontrada nos seus produtos e derivados, podendo determinar com precisão a origem botânica do carbono (ROSSMANN, 2001).

A maioria das técnicas isotópicas requer a utilização de banco de dados oriundo de valores isotópicos das matérias-primas (suco de fruta e açúcar) como referência de comparação, para estimar a composição dos produtos a serem analisados. Porém, a utilização de um componente interno como referência isotópica diminui erros de quantificação em função da variabilidade isotópica das matérias-primas (KELLY, 2003). Para o suco e polpa de caju, os sólidos insolúveis podem ser utilizados como padrão interno. O açúcar não apresenta constituinte como referência interna. Por isso, há a necessidade de adotar um valor isotópico fixo oriundo de um banco de dados de diversos tipos de açúcares (DONER, 1995).

O controle da qualidade das bebidas não alcoólicas fabricadas no Brasil é realizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). O MAPA define suco de caju integral como a bebida não fermentada e não diluída, obtida da parte comestível do pedúnculo do caju (Anacardium occidentalis), através de processo tecnológico adequado (BRASIL, 2000).

Suco reconstituído é o suco obtido pela diluição de suco concentrado ou desidratado, até a concentração original do suco integral (BRASIL, 2009). Ao suco poderá ser adicionado açúcar na quantidade máxima de dez por cento em peso, calculado em gramas de açúcar por cem gramas de suco (BRASIL, 2009).

Polpa de caju é o produto não fermentado e não diluído, obtido da parte comestível do pedúnculo do caju, através de processo tecnológico adequado (BRASIL, 2000).

O Padrão de Identidade e Qualidade (PIQ), do suco e polpa de caju estabelecem que o teor de sólidos solúveis deve ser maior ou igual a 10°Brix (BRASIL, 2000).

Os objetivos deste trabalho foram utilizar o método de análise isotópica para quantificar o carbono do ciclo fotossintético C3 em suco reconstituído e polpa de caju comerciais e mensurar o limite de legalidade, baseado na legislação brasileira, para identificar os produtos que não estão em conformidade com o MAPA.

 

2. Material e métodos

A razão 13C/12C da amostra e do padrão internacional Pee Dee Belemnite (PDB) foi obtido no Espectrômetro de Massa de Razões Isotópicas (IRMS) (Delta S Finnigan Mat). O valor do enriquecimento isotópico relativo do carbono (δ13C) foi calculado pela Equação 1 (DUCATTI, 2005).

os símbolos da Equação 1 significam: δ13C = enriquecimento isotópico relativo da amostra em relação ao padrão PDB (adimensional); R = razão isotópica 13C/12C da amostra e do padrão (adimensional) (DUCATTI, 2005).

Nos sucos reconstituídos e polpas de caju, foram analisados os isótopos estáveis do elemento químico carbono (13C e 12C) para quantificar a proporção de fonte C3 em cada um desses produtos. Essa mensuração foi obtida pelas Equações 2 e 3, sendo que o valor do enriquecimento isotópico relativo do produto relaciona-se à proporção de carbono C3 de cada suco e polpa (DUCATTI, 2005).

os símbolos das Equações 2 e 3 significam: δa, δb e δp = enriquecimento isotópico relativo da fonte de carbono C3, C4 e produto, respectivamente (adimensional); A e B = proporção relativa da fonte C3 e C4 no produto, respectivamente (adimensional) (DUCATTI, 2005).

Três amostras de suco concentrado de caju e cinco tipos de aditivos (ácido cítrico, metabissulfito de sódio, benzoato de sódio, goma xantana e aroma natural de caju) foram fornecidos por indústrias brasileiras de bebidas de caju. Vinte e oito amostras de açúcar de cana (cristal, refinado e líquido) foram doadas por usinas sucroalcooleiras. Os produtos comerciais (quatro marcas de suco reconstituído e três de polpa) foram comprados (triplicata) em supermercados da região de Botucatu (SP). Todos os produtos foram obtidos no primeiro trimestre de 2010.

2.1. Produção dos sucos reconstituídos de caju fabricados em laboratório

Utilizando suco concentrado de caju, açúcar de cana e água, foram produzidos, em duplicata, sucos reconstituídos com concentração de sólidos solúveis inicial em 10°Brix (BRASIL, 2000). Em seguida, foram adicionadas quantidades crescentes de 0; 2,5; 5,0 até 20,0% de açúcar de cana (m.m-1), conforme o balanço de massa de sólidos solúveis (Equação 4).

Os símbolos da Equação 4 significam: °Brix = teor de sólidos solúveis do suco reconstituído (10°Brix), do açúcar de cana (100°Brix) e do suco reconstituído adoçado; M = massa do suco reconstituído, do açúcar e do suco reconstituído adoçado.

A quantidade teórica de fonte C3 (%C3) dos sucos reconstituídos foram calculadas pela Equação 5. As Equações 4 e 5 foram desenvolvidas a partir do teor de sólidos solúveis citado por Figueira et al. (2010).

2.2. Análise isotópica dos sucos reconstituídos fabricados em laboratório, dos sucos e polpas comerciais e de suas frações (açúcar purificado e sólidos insolúveis)

Em duplicata, as amostras fabricadas em laboratório e os produtos comerciais foram acondicionados em cápsula de estanho (0,35µl para amostras líquidas ou 0,03mg para amostras sólidas), empacotados e colocados no Analisador Elementar (EA 1108 - CHN - Fisons Elemental Analyzer) para serem queimados a 1020ºC, liberando CO2. Este gás foi comparado com o CO2 padrão (PDB) para mensurar o enriquecimento isotópico relativo no Espectrômetro de Massa de Razões Isotópicas (IRMS) (Delta S Finnigan Mat).

Para purificação do açúcar extraído das amostras fabricadas em laboratório e dos produtos comerciais, foi utilizado o método proposto por Koziet et al. (1995). Para a extração dos sólidos insolúveis (padrão interno) foi utilizado a metodologia desenvolvida por Rossmann et al. (1997).

2.3. Análise isotópica do açúcar de cana e dos aditivos utilizados em sucos reconstituídos de caju comerciais

As amostras sólidas de açúcar e aditivos foram moídas em moinho criogênico com nitrogênio líquido (Spex CertiPrep 6750 Freezer/Mill) durante três minutos na temperatura de -196ºC para obter uma textura fina (<65µm) e homogênea. As amostras líquidas foram diluídas com água deionizada até a concentração de 10ºBrix.

2.4. Definição dos parâmetros de δp na análise isotópica dos sucos de caju fabricados em laboratório>

Nos sucos fabricados em laboratório, a análise isotópica foi feita no próprio suco reconstituído (δp) e também nas suas frações - sólidos insolúveis (δa) e açúcar purificado (δp). O valor isotópico do açúcar de cana (δb) foi obtido a partir de banco de dados. Como foi mensurado dois valores isotópicos para δp, obteve-se duas combinações para calcular a concentração de fonte C3, por meio das Equações 2 e 3.

Para determinar qual a melhor combinação, os resultados práticos (IRMS) foram subtraídos da quantidade teórica de fonte C3 (Equação 5). Os Erros obtidos (%fonte C3 teórica - %fonte C3 prática) foram submetidos à análise de covariância (α=0,05) (Equação 6), utilizando o programa "SAS" (ZAR, 1999).

Os símbolos da Equação 6 significam: yij = Erro observado da combinação i e nível j de x; αi = efeito do i-ésimo tratamento; β = parâmetro da regressão linear; xj = nível da concentração j de suco e eij = erro aleatório (ZAR, 1999).

Sendo o valor do teste F significativo (p < 0,05), os Erros de cada combinação foram comparados utilizando o Teste de Tukey (α = 0,05) (ZAR, 1999). Além disso, foi mensurada a média e o desvio-padrão dos Erros.

Com base nas análises estatísticas e na média dos Erros, foi verificada qual combinação teve os resultados práticos mais próximos dos resultados teóricos. A combinação escolhida foi utilizada para quantificar a concentração de carbono de fonte C3 nas próximas etapas de desenvolvimento do método.

2.5. Comparação da mensuração de fonte C3 entre sucos reconstituídos de caju fabricados sem e com aditivos

Para estimar a influência dos aditivos na quantificação de fonte C3 foram produzidos cinco sucos reconstituídos com aditivos e cinco sem aditivos. Os sucos foram fabricados com concentração de sólidos solúveis de 10°Brix (BRASIL, 2000). Em seguida foram adicionados 10% (m.m-1) de açúcar de cana (BRASIL, 2009).

Os aditivos utilizados na produção dos sucos foram o ácido cítrico (0,30 g.100 mL-1), metabissulfito de sódio (0,004 g.100 mL-1), benzoato de sódio (0,05 g.100 mL-1), goma xantana (0,04 g.100 mL-1) e aroma natural de caju (0,03 g.100 mL-1). As quantidades foram informadas pelas indústrias produtoras de bebidas de caju.

As concentrações de fonte C3 foram calculadas de acordo com o item 2.4 e comparadas estatisticamente utilizando o Teste t para amostras pareadas (α = 0,05) (ZAR, 1999).

2.6. Definição do valor isotópico para δb, precisão do método e estimativa de erro

Para verificar a precisão do método, os sucos reconstituídos fabricados em laboratório foram analisados como se fossem bebidas comerciais. Para isso foram feitas três combinações com os valores de δb.

Em δa foi utilizado o valor isotópico dos sólidos insolúveis extraídos dos sucos fabricados em laboratório, conforme citado no item 2.4. Em δb foram utilizados o valor isotópico mais leve, o médio e o mais pesado do açúcar de cana (banco de dados). Para δp utilizou-se o valor isotópico do suco fabricado em laboratório ou de sua fração, açúcar purificado, conforme citado no item 2.4. Utilizando as Equações 2 e 3, os valores isotópicos de δa foram respectivamente combinados com o valor isotópico mais pesado, o valor médio e o mais leve de δb, juntamente com os valores isotópicos de δp, para mensurar as quantificações de fonte C3. Os valores dessas três quantificações foram subtraídos dos valores teóricos de fonte C3 (item 2.1) para estimar o Erro e comparados seguindo os tratamentos estatísticos do item 2.4. Além disso, foi calculado o erro total do método (média dos Erros + desvio-padrão) para cada combinação.

Ao ser definida a melhor combinação, o valor isotópico de δb foi utilizado para quantificar a porcentagem de fonte C3 nos sucos e polpas comerciais. Nesses valores foi acrescido e subtraído o erro total do método.

2.7. Limite de legalidade para suco reconstituído e polpa de caju comercial

Para saber se os sucos e polpas comerciais estavam ou não adulterados, foi necessária a criação do limite de legalidade a fim de identificar as bebidas em conformidade ou inconformidade com as normas da legislação brasileira. O limite de legalidade fornece a concentração mínima de fonte C3 que um suco ou polpa de caju comercial deve apresentar para ser considerado legal, diante a legislação brasileira.

Para os sucos e polpas comerciais, o limite de legalidade foi definido com base na informação do rótulo quanto à presença ou ausência de açúcar de cana na fabricação desses produtos.

2.8. Concentração de fonte C3 e determinação da legalidade em suco reconstituído e polpa de caju comercial

Para calcular a concentração de fonte C3 nos sucos reconstituídos e nas polpas de caju comerciais foi utilizado o valor isotópico dos sólidos insolúveis em δa. O valor isotópico de δb foi definido conforme o item 2.6. Para δp utilizou-se o valor isotópico do produto comercial (suco ou polpa) ou de sua fração açúcar purificado, conforme o item 2.4. Para cada concentração de fonte C3 foi inserido, para mais e para menos, o erro total do método (item 2.6). Quando a concentração de fonte C3 ficou acima ou se sobrepôs ao limite de legalidade, o produto foi considerado em acordo com a legislação brasileira. Quando a concentração ficou abaixo do limite, o produto foi considerado fora dos padrões definidos pelo MAPA.

 

3. Resultados e discussão

3.1. Análise isotópica do açúcar de cana e aditivos

Comparando o valor isotópico dos três tipos de açúcares, houve diferença estatística (Teste de Tukey, α=0,05) entre o valor isotópico do açúcar líquido para o açúcar refinado. O valor isotópico do açúcar cristal não diferiu dos demais (Tabela 1). Os diferentes processos industriais para a fabricação dos açúcares cristal, refinado e líquido invertido podem ser responsáveis pelo fracionamento isotópico no produto final.

 

 

Koziet et al. (1995), analisando a composição isotópica de sucos de frutas e açúcares encontraram o valor isotópico médio de -11,23 ± 0,20‰ para açúcar de cana. O valor isotópico mais leve foi de -11,51 ± 0,01‰ e o mais pesado de -10,76 ± 0,22‰. Os resultados da Tabela 1 apresentam menor concentração de 13C que os resultados obtidos por Koziet e colaboradores. Segundo Boutton (1996), fatores ambientais (irradiação, umidade do solo, salinidade do solo, etc.) e biológicos (capacidade fotossintética, variação genética, competição, etc.) podem influenciar na composição isotópica de carbono nas plantas C3 e C4.

O valor isotópico do benzoato de sódio (-29,46 ± 0,19‰), metabissulfito de sódio (-23,56 ± 0,17‰) e aroma natural de caju (-29,01 ± 0,05‰) foi característico de plantas com metabolismo fotossintético C3. Ácido cítrico (-12,99 ± 0,12‰) e goma xantana (-11,74 ± 0,09‰) tiveram valores isotópicos semelhantes a plantas C4. Os valores isotópicos do benzoato de sódio e ácido cítrico corroboram com os obtidos por Figueira (2008). O valor isotópico da goma xantana foi semelhante ao relatado por Nogueira (2008).

3.2. Análise isotópica e definição dos melhores parâmetros de δp para quantificar a participação de fonte C3 em sucos reconstituídos de caju fabricados em laboratório

O valor isotópico do suco reconstituído fabricado em laboratório e de sua fração açúcar purificado torna-se mais pesado à medida que aumenta a adição de açúcar de cana. O valor isotópico dos sólidos insolúveis (padrão interno) não se altera, permanecendo entre -26,65 a -26,30‰, independentemente da quantidade de açúcar de cana (Fonte C4) adicionada (Tabela 2). A utilização dos sólidos insolúveis como referência isotópica interna permite identificar o valor isotópico da matéria-prima de origem C3.

Utilizando o enriquecimento isotópico dos sólidos insolúveis em δa (Tabela 2), do açúcar de cana (-13,03‰) em δb, do suco reconstituído fabricado em laboratório ou de sua fração açúcar purificado em δp (Tabela 2), obteve-se as quantificações práticas da porcentagem de fonte C3 (Tabela 3).

Na análise de covariância, os valores do teste F não foram significativos (p>0,05). Portanto, não houve diferença entre as combinações 1 e 2. Como a combinação 1 teve a menor média dos Erros, esta foi indicada para mensurar a quantidade de fonte C3 em suco reconstituído de caju (Tabela 3). Figueira et al. (2010) verificou a legalidade de suco de uva comercializado no mercado brasileiro, por meio da análise isotópica. Nesse estudo, o melhor resultado para a quantificação de fonte C3 foi obtido utilizando o valor isotópico do suco de uva em δp. Esta observação corrobora com o apresentado na Tabela 3.

3.3. Comparação da mensuração de fonte C3 entre sucos reconstituídos de caju fabricados sem e com aditivos

A quantificação de fonte C3 nos sucos reconstituídos fabricados sem e com aditivos foi realizada conforme o item 3.2. Comparando os resultados da quantificação de fonte C3 entre sucos fabricados sem (47,01 ± 0,21%) e com aditivos (48,12 ± 0,12%) não foi observada diferença estatística (Teste t, α=0,05). Esta observação foi relatada por Figueira et al. (2010) que realizou o mesmo estudo comparativo com sucos de uva fabricados com e sem aditivos.

3.4. Definição do valor isotópico para δb, precisão do método e estimativa de erro

Para verificar a precisão do método, os sucos reconstituídos fabricados em laboratório foram analisados como se fossem bebidas comerciais. Em δa foram utilizados os valores isotópicos dos sólidos insolúveis extraídos dos sucos (Tabela 2). Para δb (açúcar de cana - Tabela 1), utilizaram-se os valores de -13,38‰ (valor isotópico mais leve), -12,98‰ (valor médio) e -12,62‰ (valor isotópico mais pesado). Em δp foram usados os valores isotópicos dos sucos reconstituídos fabricados em laboratório (Tabela 2).

Na análise de covariância os valores do teste F não foram significativos (p>0,05). Portanto não houve diferença estatística entre as combinações. Como a combinação 2 teve a menor média dos Erros, o valor isotópico de -12,98‰ foi escolhido como o valor padrão para δb (açúcar de cana). Este valor, juntamente com o erro total do método ( ± 1,10%), foram utilizados para mensurar a quantidade de fonte C3 nos sucos e polpas de caju comerciais (Tabela 4).

3.5. Desenvolvimento do limite de legalidade para sucos reconstituídos e polpas de caju comerciais

Para suco reconstituído de caju, a legislação brasileira permite a adição açúcar de cana na quantidade máxima de 10%, calculado em gramas de açúcar por cem gramas de suco (BRASIL, 2009). Porém, todos os sucos reconstituídos adquiridos para essa pesquisa não informavam a adição de açúcar de cana na fabricação dessa bebida. Portanto, esses sucos são constituídos, predominantemente, com matéria-prima oriunda de fonte C3. Nesse caso o limite de legalidade foi definido em 100% de fonte C3.

Segundo informações do MAPA, polpa de caju comercial não deve conter açúcar de cana. Nesse sentido, todas as polpas adquiridas não informavam a adição de açúcar na lista de ingredientes. Portanto, como determinado para suco reconstituído, o limite de legalidade para as polpas de caju foi definido em 100% de fonte C3.

3.6. Análise isotópica e determinação da legalidade dos sucos reconstituídos e polpas de caju comerciais

A análise isotópica dos sucos reconstituídos e polpas de caju comerciais variaram de -25,98 a -26,96‰ e -26,52 a -27,56‰, respectivamente. Para a análise isotópica dos sólidos insolúveis a variação foi de -27,08 a -27,92‰ para suco reconstituído e -27,39 a -27,76‰ para a polpa (Tabela 5). Não foram encontrados na literatura trabalhos isotópicos (δ13C) em bebidas de caju.

Para calcular a concentração de fonte C3 nos sucos reconstituídos e nas polpas de caju comerciais foram utilizados os valores isotópicos do suco ou da polpa (δp) e da fração sólidos insolúveis (δa), conforme os resultados obtidos no item 3.2. Em δb (açúcar de cana) utilizou-se o valor isotópico de -12,98‰, de acordo com o item 3.4. Para cada quantificação de fonte C3 foi inserido o erro total do método de ± 1,10%, calculado no item 3.4. Dessa forma, foi verificado que as amostras 10, 14 e 15 seguem as normas brasileiras. As demais amostras (11, 12, 13 e 16) apresentaram a concentração de fonte C3 abaixo do limite de 100% e, por isso, não estão em acordo com as normas do MAPA (Tabela 5). Essa constatação reforça a necessidade de fiscalização das bebidas não alcoólicas a base de frutas.

Em relação à concentração de sólidos solúveis, todos os produtos de caju estavam em conformidade com os Padrões de Identidade e Qualidade estabelecidos pelo MAPA que limita a concentração mínima de sólidos solúveis em 10°Brix (BRASIL, 2000) (Tabela 5). Somente a concentração de sólidos solúveis não foi suficiente para garantir a legalidade dos sucos reconstituídos e polpas de caju produzidos no Brasil.

 

4. Conclusões

A metodologia de análise isotópica do carbono (13C/12C), baseada nos metabolismos fotossintéticos C3 e C4, mensurou com eficiência a quantidade de fonte C3 dos sucos e polpas de caju comerciais.

O limite de legalidade possibilitou identificar com clareza as bebidas em desacordo com a legislação brasileira.

 

Agradecimento

Ao CNPq (505031/2008-6) e FAPESP (2009/51661-1) pelo apoio financeiro.

 

Referências

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Recebido em: 04/08/2010
Aprovado em: 20/05/2011

 

 

* Autor Correspondente | Corresponding Author