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Trabalho, Educação e Saúde

On-line version ISSN 1981-7746

Trab. educ. saúde vol.11 no.2 Rio de Janeiro May/Aug. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-77462013000200010 

RELATO ACCOUNT

 

Memorial de formação: um dispositivo de aprendizagem reflexiva para o cuidado em saúde

 

Training brief: a tool for reflective learning in health care

 

 

Miriam Buogo1; Gardenia de Castro2

Correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho é apresentar as experiências docentes no emprego do memorial de formação do cuidado como metodologia de pesquisa-formação na elaboração de trabalhos de conclusão de curso do Curso de Enfermagem. Por meio dessa abordagem de ensino, pretende-se que o estudante reflita sobre o seu próprio processo de formação a fim de tomar consciência dos acontecimentos, estratégias e espaços que, para ele, ao longo da sua vida, contribuíram como formadores. Nesse sentido, a construção do memorial oportuniza o resgate de leituras a respeito do cuidado, possibilitando aos estudantes a narrativa de suas experiências de formação, de modo significativo, no decorrer do ensino. A reflexão sobre os aprendizados durante a elaboração do memorial de formação permite que o processo de narrar e de escutar a si e ao Outro seja fator de busca de novas identidades profissionais e de novos conhecimentos. Assim, o memorial é um dispositivo pedagógico de reflexão crítica que reinventa o cuidado da pessoa consigo mesma e o cuidado com o Outro, fato que é de extre ma relevância para o futuro profissional de saúde e para o educador.

Palavras-chave: memorial de formação; autobiografia; educação em saúde; educação em enfermagem.


ABSTRACT

This paper aimed to present teaching experiences that used the care training brief as a research-training methodology in preparing course completion papers in the College of Nursing. This teaching approach is intended to cause the students to reflect on their own training process in order to become aware of events, strategies and spaces that, to them, throughout their lives, contributed to their training. In this regard, the process of building the brief favors readings regarding care to be brought up again, enabling students to narrate their training experiences, in a significant manner, in the course of their education. Reflecting on the learning made while preparing the training brief allows the process of narrating and listening to oneself and to Others to be a factor is seeking new professional identities and new knowledge. Thus, the brief is a pedagogical tool for critical reflection that reinvents the person's care with him or herself and the care for Others, a fact that is extremely important both for the future health professional and for the educator.

Keywords: training brief; autobiography; health education, nursing education.


 

 

Introdução

O cuidado é uma prática que remonta aos primórdios da humanidade. Segundo Waldow (2001), o cuidado humano representa uma forma de relacionamento, um modo de ser advindo de manifestações que ocorrem, especificamente, em humanos e cujo envolvimento inclui responsabilidade, interesse e compromisso moral. Roselló (2009) afirma que cuidar de uma pessoa vai além de estar-com-elaser-com-ela, no sentido mais existencial do termo: implica acompanhá-la, ajudá-la, promover seu ser, velar por sua integridade e por sua singularidade.

Nessa perspectiva integral do cuidado humano, urge desenvolver uma dimensão anima, ou seja, conceder direito de cidadania fundamental à capacidade humana de sentir o Outro: ter compaixão com os seres que sofrem, obedecendo mais à lógica do sentimento fraterno, da cordialidade e da gentileza do que à lógica da conquista e do uso utilitário das coisas (Boff, 2005). Para tanto, fazse necessário criar dispositivos de formação que promovam espaços de convivência e de reflexão, expressando o que foi significativo na construção do cuidado consigo mesmo e com o Outro.

Desta forma, torna-se necessária a implantação, nos cursos de graduação, de dispositivos de formação que possibilitem o cuidado integral e humanizado do estudante. Para que isso se efetive, a aproximação entre a formação do discente e a prática do cuidado profissional deve estar em sintonia.

O ensino dos profissionais da área da saúde pressupõe o desenvolvimento de competências e habilidades, como a capacidade de tomar conta de si mesmo e do Outro, a reflexão crítica e a consciência corporal. Essas capacidades vão se constituindo a partir das vivências pessoais na família, do modo como cada indivíduo recebeu atenção e como aprendeu a cuidar do Outro, e o que adquiriu durante a formação profissional. É possível supor que a prática de cuidado integral abrange o desenvolvimento de saberes técnicos e saberes subjetivos – entre outros, a capacidade de reflexão crítica –, expressos por meio de atitudes de dedicação para consigo mesmo e para com o Outro.

A proposta educacional do Curso de Enfermagem, cuja metodologia é examinada no presente artigo, está norteada, dentre outras regulamentações, pela lei das Diretrizes Curriculares Nacionais e pelo projeto pedagógico do curso.

O objetivo do ensino na graduação em Enfermagem da instituição tem como missão a formação generalista do enfermeiro, sob o eixo da integralidade da atenção à saúde. Para tanto, fazse necessário capacitar o futuro profissional, a fim de que possa atuar nos diversos setores da saúde e da educação, tanto pública quanto privada, privilegiando a realidade local.

Nessa perspectiva, torna-se importante investir no perfil do profissional generalista, para que ele fortaleça a sua visão ética e humanista, bem como tenha condições de elaborar um pensamento crítico e reflexivo, voltado para o desenvolvimento de competências e habilidades gerais. Dentre as competências e habilidades, estão aquelas que contemplam a atenção à saúde, a tomada de decisão, a comunicação, o trabalho em equipe, a liderança, o gerenciamento da equipe de enfermagem e a educação permanente.

O projeto político pedagógico possibilita a integralização do conhecimento por meio de atividades práticas e de pesquisa. As práticas propõem integrar o conhecimento produzido em encontros em sala de aula com as experiências do cuidar em enfermagem, inserindo o estudante no mundo do trabalho (Centro Universitário Metodista do IPA, 2011). O trabalho de conclusão de curso (TCC) é quesito obrigatório para a diplomação do graduando, de acordo com as Diretrizes Curriculares.

A elaboração do trabalho de conclusão de curso dá a oportunidade ao aluno de entrar em contato com a metodologia da pesquisa, ademais de despertá-lo para novas metodologias, que, no devido momento, poderão ser utilizadas como instrumentos no cotidiano de trabalho. Desse modo, constata-se a adequação da metodologia, no que diz respeito ao seu emprego, na rotina de trabalho, estando, portanto, em consonância com a resolução n. 3, de novembro de 2001, do Conselho Nacional de Educação e da Câmara de Educação Superior (CNE/CES), uma vez que visa, também, à formação de enfermeiros com eficiência e responsabilidade.

Nessa perspectiva, a construção educacional desse profissional se faz de modo reflexivo, por meio de uma metodologia problematizadora, que insere os alunos, gradativamente, no mundo do trabalho. A produção do conhecimento ocorre, então, a partir de experiências educacionais, como vivências, atividades práticas e estágios.

Assim, o ensino do cuidado requer o uso de abordagens que promovam a reflexão. Dentre elas, o memorial de formação do cuidado, como metodologia na elaboração de TCCs ou monografia no Curso de Enfermagem, tem sido utilizado como um importante dispositivo pedagógico de construção de conhecimento. Ao empregar tal enfoque espera-se que o estudante seja capaz de discernir sobre o seu próprio processo de formação e tome consciência dos acontecimentos, das estratégias e dos espaços que, ao longo da vida, contribuíram como formadores do cabedal de seu conhecimento.

Para Josso,

é pelo desenvolvimento de um saber sobre suas qualidades e competências que o educando pode tornar-se sujeito de sua formação. Isso implica uma presença consciente do sujeito sem a qual falaríamos mais de adestramento do que de formação (Josso, 2010b, p. 78).

Constata-se, então, que "a história do indivíduo é também, em grande parte, aquela de suas aprendizagens e de sua relação biográfica com o saber e o aprender" (Delory-Momberger, 2008, p. 30).

Com base no que foi exposto, este artigo pretende relatar as experiências docentes sobre o uso do memorial de formação do cuidado como metodologia de pesquisa-formação.

 

O memorial de formação: bases teóricas

A narrativa exerce papel importante na prática dos cuidados, uma vez que o discurso oral ou escrito é essencial na aproximação tanto daquele que é cuidado quanto na do cuidador. Por isso, no processo de cuidar, é fundamental o conhecimento de si mesmo e do Outro, a fim de que o indivíduo possa cuidar e se deixar cuidar. Nesse sentido, Josso lembra que "o autoconhecimento poderá inaugurar a emergência de um eu mais consciente e perspicaz para orientar o futuro de sua relação e reexaminar, na sua caminhada, os pressupostos de suas opções" (Josso, 2010a, p. 60).

É, portanto, a interação entre aspectos cognitivos e afetivos que ajuda a direcionar a metodologia empregada em tal questão. Assim, é por meio da narração que o contexto é identificado e percebido, pois dá a conhecer uma situação de cuidado, expondo não só o lado de quem cuida, mas também o do cuidador, reconhecendo que ambos habitam o mesmo mundo, não da mesma forma, mas demonstrando que podem estabelecer uma relação de harmonia. Ainda é a narrativa que possibilita a compreensão do que está fora da própria experiência humana, daquilo que o ser humano é solidário, embora não faça parte de sua vivência (Waldow, 2005).

Na visão de Alcione Souza, o cuidado é transdimensional, pois

(...) constitui-se em um processo eminentemente participativo e reflexivo, em que cuidador e ser cuidado, através de uma interação dinâmica, intuitiva e criativa, oportunizam um caminhar rumo a novas experiências, nas quais, de forma original e única, se autoconheçam e se autotransformem. O cuidado busca expandir as capacidades inerentes aos seres envolvidos, para entrarem em contato com suas potencialidades de amor e sabedoria e serem seus próprios cuidadores neste processo (Souza, 2007, p. 153).

Nesse enfoque, relembrar situações de cuidado e não cuidado que foram significativas para a formação do estudante pode auxiliá-lo no processo reflexivo e na ressignificação do cuidado em sua vida pessoal e profissional. Ao se considerar a relação orientando–orientador como um encontro de cuidado, podese dizer que a utilização do memorial de formação, como dispositivo de formação e investigação, é uma oportunidade de ressignificação de suas identidades como seres de cuidado. Para Delory-Momberger, "a escrita biográfica não dissocia jamais a relação consigo mesmo da relação com o Outro" (Delory-Momberger, 2008, p. 22).

Como diz Linhares e Nunes (2008), o memorial de formação expõe memórias escritas durante o processo de formação, inicial ou continuada, concebido como TCC no ensino superior, acompanhado por um orientador ou um professor-formador.

O memorial é um texto em que o indivíduo relata acontecimentos que são ou foram importantes no âmbito de sua existência, revelando-se, pois, como "documento de natureza autobiográfica, onde o narrador retoma sua trajetória de vida, a partir de objetivos previamente definidos" (Bragança e Maurício, 2008, p. 263).

Nessa perspectiva, a adoção do memorial de formação, como dispositivo de pesquisa-formação, situase no campo da pesquisa (auto)biográfica e se configura como uma possibilidade de reflexão biográfica, no processo de formação em enfermagem e em outras áreas de saúde.

A pesquisa (auto)biográfica, segundo Abrahão, "é uma forma de história autorreferente, portanto plena de significado, em que o sujeito se desvela, para si, e se revela para os demais. A memória é elemento-chave do trabalho com pesquisa (auto)biográfica" (Abrahão, 2004, p. 202). Optar por uma metodologia (auto)bibliográfica na investigação significa o pesquisador como sujeito da pesquisa.

Josso sinaliza que a narrativa de formação é construída no plano da interioridade e que a "situação de construção da narrativa exige uma atividade psicossomática em vários níveis, pois pressupõe a narração de si mesmo, sob o ângulo da sua formação, por meio do recurso a recordações-referências" (Josso, 2010a, p. 36) – ou seja, experiências formadoras –, "porque o que foi aprendido (o que saber-fazer e os conhecimentos) serve como acontecimento existencial único e decisivo na orientação de uma vida" (Josso, 2010a, p. 37). Para Scholze, a produção de narrativas pode ser vista como "uma prática de reflexão do sujeito consigo mesmo, com o Outro e com o mundo. Nessa perspectiva, o sujeito está situado e é constituído pelos discursos que o atravessam" (Scholze, 2008, p. 90).

O processo de formação, para Josso, designa "um conjunto de transformações realizadas pelo sujeito, tanto sobre si mesmo (naquilo que chamamos de vida interior) e na sua relação consigo mesmo quanto nas interações sociais e em relação ao meio ambiente" (Josso, 2010b, p. 205). De acordo com essa autora,

o ser em formação só se torna sujeito de formação no momento em que sua intencionalidade é explicitada no ato de aprender e em que é capaz de intervir no seu processo de aprendizagem e de formação para favorecê-lo ou o reorientá-lo (Josso, 2010c, p. 78).

Segundo Bragança, a formação é

um processo interior; ela liga-se à experiência pessoal do sujeito que se permite transformar pelo conhecimento. Assim, podemos afirmar que, potencialmente, todos os espaços e tempos da vida são espaços e tempos de formação, de transformação humana (Bragança, 2011, p. 158).

Diante do exposto, o memorial de formação do cuidado, como dispositivo de formação em saúde "fala da experiência pessoal do sujeito, profundamente articulada aos contextos sociais e culturais mais amplos" (Bragança, 2011, p. 161).

Abrahão remete, de forma mais ampla, ao conceito de memorial, ao mostrá-lo como "processo e resultante da rememoração" (Abrahão, 2011, p. 166). Assim, diz que

(...) o memorial é um processo e a resultante da rememoração com reflexão sobre fatos relatados, oralmente e/ou por escrito, mediante uma narrativa de vida, cuja trama (enredo) faça sentido para o sujeito da narração, com a intenção, desde que haja sempre uma intencionalidade, de clarificar e ressignificar aspectos, dimensões e momentos da própria formação (Abrahão, 2011, p. 166).

Fazer um memorial é, então, um exercício sistemático de escrever a própria história, rever a própria trajetória e aprofundar a reflexão a respeito de sua vida. Esse é um exercício de autoconhecimento porque, para cuidar de si mesmo, do Outro e se deixar cuidar, primeiramente é necessário entrar em contato consigo, reconhecer sua subjetividade, enquanto sujeito do cuidado.

Assim, o memorial formativo é um texto no qual os acontecimentos geralmente são narrados na primeira pessoa do singular, com uma sequência definida com base nas memórias e nas escolhas do autor no registro da própria experiência e visando, como todo texto escrito, produzir certos efeitos nos leitores (Prado e Soligo, 2007). Ou seja, num memorial de formação, o autor é ao mesmo tempo escritor/narrador/personagem da história.

O memorial de formação do cuidado deve ser utilizado como um dispositivo pedagógico que visa desenvolver no graduando a reflexão crítica sobre as aprendizagens teóricas, práticas e de identidade profissional trabalhadas no decorrer do curso.

Nascimento (2010) chama atenção para a possibilidade de o memorial de formação ser utilizado como um dispositivo reflexivo e formativo, uma vez que possui uma dimensão formativa e outra avaliativa. Para essa autora, a

dimensão formativa, oportuniza que o sujeito em formação desenvolva o exercício da reflexão de si e sua formação e inserção profissional, apropriando-se de seus processos formativos, se autoformando, se autoavaliando, e reinventando a si mesmo (Nascimento, 2010, p. 76).

No campo da pesquisa (auto)biográfica, a utilização do memorial de formação do cuidado, como trabalho de conclusão do Curso de Enfermagem, inserese como um dispositivo de pesquisa e de formação. Nesse sentido, as escritas de si, que se refletem no dispositivo de formação, fazem parte da perspectiva de humanização do cuidado, inscritas na filosofia do curso. Desse modo, percebe-se o desejo de aproximar as referências teóricas e a práxis do cuidado em saúde, ainda incipientes na formação do graduado.

Como dispositivo de pesquisa-formação, o memorial de formação do cuidado, em suas dimensões formativa e avaliativa, suscita o exercício de uma prática reflexiva, necessária à formação do profissional em saúde. Essas dimensões dão ao memorial de formação o estatuto de pesquisa-formação, "quando permitem a realização de uma arte criadora no desenvolvimento e a apropriação de processos formativos biografados em forma de um trabalho acadêmico (escrito), valorizando a subjetividade de quem escreve" (Nascimento, 2010, p. 124).

Em relação à escrita do memorial, Passeggi observa que é "um processo de pesquisa-formação que permite aos atores-autores historiciar suas aprendizagens, sua formação e seus saberes, ao reinventá-los, percebê-los, clarificá-los" (Passeggi, 2008, p. 126). No entanto, a escrita de si, em um contexto institucional, pode obscurecer as potencialidades formativas e autocriativas, pois o foco muitas vezes recai sobre a dimensão avaliativa. Nesse viés, Passeggi diz que "o ato de escrever o memorial a partir de uma injunção institucional de defesa pública e de ritual de defesa pública tencionam, inegavelmente o processo de escrita" (Passeggi, 2008, p. 114), o que o torna, muitas vezes, contraproducente.

Conforme o exposto, o estudante, utilizando a escrita reflexiva, narra, cronologicamente, ou conforme afloram suas memórias, a história de vida, familiar e profissional, relacionada à construção do conhecimento sobre o cuidado de si mesmo e do Outro. "A finalidade de escrever sobre a própria aprendizagem é justamente a de poder (aprender) a situar-se do lado do processo e não do produto, da ação, e não da produção, pois se volta para a relação da pessoa com o conhecimento" (Linhares e Nunes, 2008, p. 35).

Apresentados alguns dos autores que subsidiam teoricamente o dispositivo de formação e investigação, narra-se a seguir, cronologicamente, a experiência dos docentes com o memorial de formação do cuidado.

 

A experiência com o memorial de formação

O uso do memorial, como estratégia de ensino, teve início em 2008, na disciplina de Práticas Corporais em Saúde. Ministrada no segundo semestre do Curso de Enfermagem de uma instituição de ensino superior, é hoje denominada Terapias Complementares. Essa disciplina tem como objetivo propiciar ambiente de reflexão, análise e vivência sobre a construção dos sentidos corporais, a fim de integrar o sentir, o pensar e o agir, a razão e a emoção no cuidado de si e do Outro.

O memorial do corpo, designação inicial para esse dispositivo de formação, valoriza as experiências do estudante. Baseia-se no entendimento de que o aprendizado do cuidado do Outro passa pelo cuidado de si, pela consciência corporal. Para tanto, o discente, com base em um roteiro recebido do educador, narra, por escrito, a sua história corporal, levando em consideração fatos significativos que lhe vêm à lembrança. Paralelamente a essa narrativa, o estudante realiza, durante o período em que participa da disciplina, vivências corporais, como a respiração consciente, o relaxamento, a massagem e a automassagem, acompanhadas de reflexão individual escrita, procurando dar significado à experiência e a seu aprendizado.

Nas vivências com a metodologia, observam-se mudanças no pensar, no agir e no sentir dos estudantes. Assim, as narrativas de histórias corporais, do cuidado de si mesmo, propiciam reflexões ao acadêmico e ao educador que levam ao autoconhecimento e à ressignificação do uso dos sentidos corporais, no cuidado de si e do Outro, auxiliando o futuro profissional a enfrentar os desafios do universo que envolve o cuidar. Esse entendimento tem por base a visão de que o conhecimento acontece por meio da reflexão compartilhada entre educador e educando. Essa relação também representa um encontro de cuidado, conforme já exposto, pois envolve o uso dos sentidos, a troca e a empatia, construtos essenciais para que o cuidado aconteça. Aprender a cuidar de si e do Outro é fundamental, e para que o cuidar tenha significado e possa ocorrer, fazse necessário que se criem espaços de reflexão.

Para Maturana (2005), o educar ocorre o tempo todo e de maneira recíproca, ou seja, constitui um processo de convivência, quando a criança ou o adulto convive com o Outro e, ao conviver com o Outro, se transforma espontaneamente. Dessa maneira, o modo de viver dos envolvidos, nesse processo, se faz, progressivamente, mais congruente com o do Outro, no espaço de convivência.

Na produção do conhecimento em saúde, fazse necessário o desenvolvimento de dispositivos de ensino que auxiliem na visão do homem integral. Inclui-se, nessa visão integral, a visão do sujeito aprendiz, daquele que cuida e de quem é cuidado. Nesse sentido, a pesquisa (auto)biográfica torna possível a valorização do indivíduo que é parte do contexto socioeconômico, político e cultural de seu tempo que, ao compartilhar o mesmo espaço geográfico em que vivências se transformam em experiências, por meio da reflexão e da crítica, torna significativa a trajetória desse sujeito como pessoa humana (Abrahão e Rosa, 2012).

A experiência docente, aliada ao debate entre os professores do Curso de Enfermagem sobre a construção do trabalho de conclusão de curso, despertou interesse pelo estudo do tema 'pesquisa (auto)biográfica' e, mais especificamente, pelo memorial de formação. Na época em que ocorreu o trabalho, havia o entendimento de que o estudante de Enfermagem poderia, baseado na premissa de que o cuidado de si e do Outro são essenciais durante o processo de formação, optar por narrar sua trajetória de conhecimento do cuidado, focando nas suas experiências pessoais, familiares e profissionais.

Os aspectos até agora expostos sobre a temática em questão, juntamente com as vivências educativas, demonstraram que é imprescindível que o futuro cuidador reflita sobre o processo de construção do cuidado. Assim, após leituras sobre a metodologia de pesquisa (auto)biográfica, chegou-se ao entendimento de que o memorial poderia ser uma estratégia para o estudante ressignificar o sentido de ser um profissional cuidador.

O processo de pesquisa da tradição autobiográfica consiste em fazer surgir memoriais, histórias de vida, biografias, autobiografias, diários, enfim, 'escritas do eu', em planos históricos, ricos de significado, instigados pela rememoração" (Abrahão, 2008, p. 154).

Abrahão (2011) chama atenção para a figura do narrador. Segundo a autora, o narrador, elaborador do próprio memorial, é realmente o sujeito da narração (embora também seja o objeto). Abrahão observa, da mesma forma, que esse sujeito tem "consciência de que a reflexão empreendida é elemento sine qua non para a compreensão da sua própria formação, e o momento da narração, nos moldes aqui entendidos, é também, momento formativo" (Abrahão, 2011, p.166).

Baseado no acima exposto, após a identificação do referencial teórico que sustentasse a estratégia proposta, foi incluído, em 2009, o memorial de formação como uma das metodologias de pesquisa do trabalho de conclusão do Curso de Enfermagem.

Ao escolher a pesquisa-formação como metodologia de trabalho, o estudante dá início ao processo de orientação, que geralmente ocorre no sétimo semestre do Curso de Enfermagem, com a apropriação da metodologia e a construção do projeto de pesquisa. Esse projeto propõe uma apresentação que tem como objetivo sinalizar o motivo que levou o estudante a narrar a sua história de formação no enfoque do cuidado, bem como relacionar o estudo à pesquisa, mantendo a atenção na proposta da narrativa, além de conter a justificativa, o referencial teórico, o percurso metodológico, o cronograma e as referências. Assim, a partir do tema de interesse dos estudantes e observando as suas características individuais – como a capacidade de reflexão crítica –, o processo de orientação se inicia, tendo a duração de mais dois semestres.

Nos dois semestres seguintes, com orientação individual, começa a elaboração do memorial de formação do cuidado. Inicialmente é realizado um contrato informal entre o educador e o aluno, baseado em princípios éticos, como liberdade para falar ou não de si, ajuda mútua, confidenciabilidade, autenticidade dos relatos da escrita, direito à autoria (Passeggi, 2011).

O processo de orientação segue um cronograma, detalhado entre estudante e educador, com base na mediação biográfica descrita por Passeggi (2011), sendo constituído de três etapas.

A primeira etapa do memorial de formação está centrada na pergunta que norteia essa fase: que fatos marcaram a minha vida intelectual e profissional? Essa narrativa inicial é realizada oralmente pelo estudante ao orientador e, posteriormente, por meio da escrita. Assim, o sujeito rememora, de forma aleatória, as suas experiências pessoais e profissionais com o cuidado, acentuando aquelas que foram significativas para a sua formação. Essa etapa corresponde à dimensão iniciática da mediação biográfica, e, nela, o narrador ingressa na experiência da reflexão sobre si mesmo (Passeggi, 2011).

Na segunda etapa, a pergunta norteadora é: o que esses fatos fizeram comigo? Nesse momento o estudante reflete sobre essas lembranças de cuidado, narradas anteriormente, procurando compreender o significado das mesmas na sua trajetória profissional. O orientador, nessa fase, auxilia o estudante a encontrar esses significados em uma perspectiva social, histórica e cultural.

Para Abrahão e Rosa (2012), a pesquisa (auto)biográfica é uma possibilidade de valorização do sujeito que está inserido em um contexto socioeconômico, político e cultural de seu tempo, no espaço geográfico em que as vivências se transformam em experiências, via reflexão crítica, tornando a sua trajetória significativa. Ou seja, à medida que o estudante narra a sua trajetória de cuidado, vai compreendendo a historicidade de seu trajeto, situando-se como sujeito histórico de seu tempo. Esse segundo momento corresponde à dimensão maiêutica da mediação biográfica,

por sua mirada heurística: compreender a experiência vivida significa compreender a si mesmo como agente e paciente de sua história. Esse é o passo decisivo para ressignificá-la na etapa seguinte do ateliê de mediação biográfica (Passeggi, 2011, p. 151).

A terceira e última etapa é o encerramento das reflexões realizadas ao longo da narrativa e responde ao questionamento: o que faço agora com o que esses fatos fizeram comigo, os principais aprendizados com o trabalho, as conclusões, novas perspectivas de cuidado e sugestões de novos trabalhos sobre o cuidado? Nessa fase, o processo de reflexão se caracteriza pelo uso da capacidade de abstração ante o narrado, a fim de compreender o que foi estruturante e mobilizador para o estudante durante o seu processo de formação. Essa unidade corresponde à dimensão hermenêutica da mediação biográfica e "baseia-se na capacidade humana de tirar lições da experiência, situando o saber que dela decorre numa perspectiva histórica, para melhor conhecer-se como sujeito histórico" (Passeggi, 2011, p. 151).

Desse modo, os encontros entre orientador e orientando são momentos de enriquecimento tanto da narrativa, fruto de rememorações do passado, quanto do próprio trabalho, que se amplia, conforme a fase em que se encontra. A partir da narrativa de cada lembrança, são discutidas questões pertinentes aos fatos, como crenças, valores, representações sociais, construtos, valores éticos no cuidado, noções aprendidas e cuidado e noções que foram se modificando ao longo da formação acadêmica. É o aluno que toma a decisão do que quer tornar público na sua história.

A noção de autobiografia se baseia no conceito de que é o sujeito que narra a sua história. O educador vai ser o mediador dessa escrita reflexiva, que tem por meta o entendimento da realidade vivida e ressignificada. Com a ressignificação da experiência ocorre a reinvenção de si. A mediação biográfica, utilizada no memorial de formação do cuidado, não é uma relação em grupo, mas sim uma mediação entre dois sujeitos – orientador e orientando –, conforme mencionado Passeggi (2011).

Em respeito aos preceitos éticos, na construção do memorial, o estudante omite nomes de pessoas, lugares e instituições, no sentido de respeitar e preservar o anonimato dos mesmos. Portanto, as reflexões são de responsabilidade exclusiva do narrador no que tange à descrição das memórias narradas.

Ao término do memorial de formação do cuidado, o estudante faz sua apresentação formal à banca avaliadora do Curso de Enfermagem. Após isso, são feitas as reformulações, quando sugeridas, e uma cópia digital é entregue à coordenação do curso e catalogada na biblioteca da instituição. Dessa maneira, o conhecimento produzido de forma autobiográfica passa a ser compartilhado.

As vivências, acompanhadas da orientação do educador, na construção do memorial de formação do cuidado, oportunizaram, até o presente momento, reflexões e aprendizados.

 

Aprendizados e reflexões sobre o memorial de formação do cuidado

Podese dizer que o memorial, como metodologia de pesquisa-formação para o cuidado, é um dispositivo pedagógico de reflexão crítica que ressignifica o cuidado de si mesmo e o cuidado do Outro. Nóvoa e Finger consideram o método biográfico "um conjunto alargado de elementos formadores, normalmente negligenciados pelas abordagens clássicas e que possibilita que cada indivíduo compreenda a forma como se apropriou destes elementos formadores" (2010, p. 24).

A narrativa do processo de formação do cuidado acontece gradualmente, respeitando o tempo do narrador. Por meio do pensamento reflexivo, o estudante dá significado às memórias do cuidado familiar, relacionando-as com o processo de formação profissional.

Essa fase envolve muita emoção, pois traz à tona sentimentos de cuidado e não cuidado vivenciados pelos estudantes. As reminiscências provocam sensações que, por vezes, levam o discente a interromper a narrativa, como também podem vir sob a forma de fragmentos sem sentido. No entanto, a partir da reflexão e da leitura compartilhada com o educador, bem como do aprofundamento das leituras sobre o cuidado, o estudante consegue dar significado aos fatos que está narrando e perceber como eles influenciaram na sua formação como cuidador. Trabalhar com pesquisa (auto)biográfica significa "enunciar não apenas algumas marcas visíveis e presentes de um sujeito, mas acompanhar e traçar suas transformações, navegando no oceano da subjetividade, por meio de blocos de memória" (Moura, 2004, p. 120).

Verifica-se, então, a necessidade de o educador possuir sensibilidade para perceber o quanto as narrativas de memórias são significativas e quais as que o estudante quer realmente aprofundar. Nessa situação, a postura amorosa e empática do orientador auxilia o estudante a tomar consciência dos construtos que embasam a sua formação do cuidado. Para Peçanha e Santos (2009, p. 64), o cuidado é uma atitude de amor, na medida em que o ente atendido se sente integrado na relação, digno daquele gesto de carinho e dedicação. Sendo assim, a narrativa escrita sobre si propicia a reflexão sob o processo de formação.

Para Souza (2004, p. 407), o processo de escrita da narrativa potencializa, no sujeito, o contato com a sua singularidade, permitindo o mergulho na interioridade do conhecimento de si, inscrevendo-se como atividade formadora, uma vez que o "aprendente questiona suas identidades a partir de vários níveis de atividade e de registro" (Josso, 2002, p. 29).

Outro fato relevante quando se emprega esse dispositivo de formação é a possibilidade de visualizar a constituição de uma linha temporal das memórias, o que auxilia o estudante na identificação do que foi significativo no seu trajeto de formação. O relato assinala os divisores de água na vida familiar, escolar e profissional, bem como pessoas e eventos que provocaram a transformação.

Observa-se também que, durante o processo de orientação, há um momento no qual o estudante questiona a validade das narrativas, pois muitas vezes vem o dilema entre o aprendizado teórico e a práxis do cuidado: é como se houvesse uma saturação e um cansaço da narrativa que, em nossa opinião, antecede uma reorientação na maneira de pensar e agir.

Desse modo, a narração articula épocas de existência que reúnem fatos considerados como formadores, sendo que a articulação entre essas épocas efetuase em torno de 'momentos charneira', momentos em que "o sujeito confronta-se consigo mesmo, entra em conflito com uma dupla lógica: a da individualidade que procura exprimirse e da coletividade que exige em nome de normas e impõe em nome de regras do jogo. Esta descontinuidade que vive impõelhe transformações" (Josso, 2010a, p. 38).

Assim é que esses momentos de transformação e de reorientação se tornam significativos quando contados em uma narrativa autobiográfica, que serve como mediadora do conhecimento de si mesmo e em relação ao Outro e ao mundo em que vivemos, pois que na história há uma imitação recriadora do mundo vivido. Este saber da narração de um eu no tempo é um saber experiencial e que pela releitura amplia o contexto significativo de uma vida, levando o escritor/leitor de si, a descobrir realidades não percebidas da sua existência, abrindo um horizonte de possibilidades para a descoberta/invenção de si, constituindo novas projeções desse eu no mundo (Sanches, 2010, p. 12).

Assim, através da escrita reflexiva sobre os fatos significativos da sua formação, o estudante inicia um processo de autotransformação do cuidado de si e do Outro, pois "a pesquisa (auto)biográfica é uma forma de história referente, portanto plena de significado, em que o sujeito se desvela, para si, e se revela para os demais" (Abrahão, 2004, p. 202).

A experiência, até o momento, com o memorial de formação, demonstra que, aparentemente, o significado que o estudante atribui às narrativas de cuidado, muitas vezes, é superficial, com precária relação com o referencial teórico. Isso pode ser atribuído à leitura insuficiente, durante a graduação, da temática sobre o cuidado. Se o discente não tem o hábito da leitura, a reflexão teórica não acontece. Sendo assim, embora sejam disponibilizados textos sobre o cuidado de si e do Outro, não há possibilidade de interpretar e refletir sobre algo que não tenha sido lido, tendo em vista que, para assimilar qualquer conteúdo, o discente precisa imergir no texto. Nesse sentido, a construção do memorial oportuniza o resgate de leituras sobre o cuidado, incentivando a busca pelo conhecimento teórico.

Outro aspecto relevante é o fato de muitos estudantes trabalharem como cuidadores durante a graduação, o que possibilita que narrem e deem significado às suas experiências de formação no decorrer do ensino técnico.

Nesse momento, cabe ao orientador buscar estratégias de reflexão que levem os estudantes a tomarem consciência do que realmente fez parte de suas experiências como futuros cuidadores. Para Carspecken (2011):

Conscientizar significa expandir e modificar autoentendimentos com formas que, inicialmente, podem ser sentidas como existencialmente ameaçadoras às pessoas que devem abandonar padrões profundamente enraizados de manutenção de segurança da identidade. Porém, ao mesmo tempo, a alteração no conhecimento de manutenção da identidade traz consigo liberdade e liberação, porque distorções no conhecimento implícito, socialmente construído, que está embutido em e mantém práticas sociais, usualmente estão ancoradas a formas fixas de identidade humana: formas fixas de ser válido como homem, mulher, pessoa de cor, pessoa de uma determinada classe social (Carspecken, 2011, p. 397).

Segundo Josso (2010b), o desafio principal de um docente não é educar ou adaptar o aprendente a um contexto, como também não é prescreverlhe uma atitude mental e comportamental. A atitude do orientador deve ser a de, acima de tudo, oferecer ao estudante a possibilidade de tomadas de consciência que lhe permita desenvolver uma sensibilidade perceptiva, analítica e significativa para a vida. A formação se situa, em primeiro lugar, no nível consciencial e, em segundo lugar, no plano de aquisição de conhecimentos e competências.

O momento de orientação também transparece cuidado, pois nele são compartilhados sentimentos, vivências e trocas de experiências. Para tanto é necessário que a amorosidade e a afetividade estejam presentes, além de uma disposição para aceitar, de modo positivo, a narrativa do Outro, auxiliando-o a trilhar os seus próprios caminhos de cuidado.

Nessa linha de pensamento, o memorial, como dispositivo de formação, propicia aprendizados, tanto para o estudante quanto para o orientador. À medida que o processo de escrita e reflexão vai acontecendo, observam-se mudanças nos atores envolvidos. Por exemplo, à proporção que a narrativa evolui, tornando-se mais significativa, o estudante entende melhor os aspectos subjetivos de sua formação e inicia a ressignificação do cuidado de si e do Outro. "Os memoriais não são somente um exercício memorialístico na busca de produzir sentidos para o percurso construído, mas a possibilidade de transformação" (Prado, Cunha e Soligo, 2008, p. 138).

Na perspectiva do orientador, o compartilhar narrativas propicia repensar o fazer diário do aluno, redimensionando o cuidado e a sua formação. Muitas vezes, a narrativa do estudante proporciona ao orientador um novo olhar sobre o seu processo educativo. As lembranças de cuidado direcionam a novos questionamentos, ressignificando o processo de orientação, aprendendo um modo novo de cuidar, o que modifica seu papel de facilitador no aprendizado.

Para Josso (2010b, p. 19), "a formação do sujeito é concebida como uma sucessão de transformações de suas qualidades socioculturais e a pesquisa é entendida como a realização de atividades transformadoras da subjetividade do sujeito aprendente e cognoscente". Essa metodologia de trabalho "possibilita tanto ao formador quanto aos sujeitos em processos de formação significar suas histórias de vida, através das marcas e dispositivos experienciados nos contextos de sua formação" (Souza, 2008, p. 38).

A reflexão sobre os aprendizados durante a elaboração do memorial de formação permite que o processo de narrativa e escuta de si e do Outro sejam possibilidades de busca de novas identidades profissionais e de novos conhecimentos. Trata-se de construir um

conhecimento pessoal (um autoconhecimento) no interior do conhecimento profissional e de captar o sentido de uma profissão que não cabe apenas numa matriz técnica ou científica, mas que está no cerne da identidade profissional docente (Nóvoa et al., 2011, p. 536).

Desta forma, os questionamentos e as reflexões não se esgotam, e o educador, como ser humano, prossegue o seu caminho, ressignificando a sua práxis.

 

Considerações finais

Educar é um ato de amor consigo mesmo e com o Outro. Desse modo, sendo o cuidado inerente ao ser humano, ser educador é também realizar uma tarefa de cuidar de si e do Outro. Se o indivíduo não cuidar dele próprio, como poderá tornar os espaços de ensino-aprendizagem ambientes de cuidado?

Vê-se, então, que o ensino do cuidado, como integrante da formação acadêmica, deve favorecer espaços de reflexão, nos quais os paradigmas tradicionais possam ser questionados e novas formas de consciência de si emerjam como estratégias de ensino. Assim, ao se pensar a formação em saúde e em outras áreas do conhecimento, não se pode excluir a reflexão crítica como habilidade primordial.

Como educadores, a construção do memorial de formação do cuidado, como metodologia de pesquisa-formação, vem propiciando aprendizados e questionamentos, uma vez que exige reflexão e estudo sobre o tema. Em muitos momentos da orientação, a identidade profissional do docente confunde-se com a identidade de cuidador, pois ao ouvir as narrativas e realizar o processo de reflexão com o estudante, ressignifica-se o fazer e o viver, emergindo novos questionamentos sobre o ensino do cuidado. É de se pensar também que a experiência investigativa, com o memorial de formação, envolve alguns construtos do cuidado: capacidade de reflexão, escuta ativa, empatia, ética, solicitude, alteridade, amorosidade e respeito, entre outros.

Na perspectiva do discente, a utilização do memorial auxilia a significar o processo educativo sobre o cuidado, fato de extrema relevância para o futuro profissional. O paradigma biologicista enfatiza a referência de um cuidador técnico, valorizando a aquisição do conhecimento, bem como o saber fazer, muitas vezes em detrimento do ser e do sentir. Entretanto, como concluir uma graduação sem refletir sobre o seu propósito de vida como profissional e o que foi formador nesse percurso? Pensar sobre si, de uma forma honesta, requer mudanças de atitudes pessoais e profissionais. Nessa perspectiva, o memorial de formação do cuidado pode ser considerado uma possibilidade de construção de profissionais de saúde mais reflexivos, com maior compaixão por si, pelo Outro e pelo planeta. Sendo assim, esta é a continuação de uma narrativa inacabada sobre o cuidar/cuidar-se, o aprender/ensinar e o viver.

 

Colaboradores

As duas autoras contribuíram igualmente na construção do artigo.

 

Notas

1 Enfermeira. Professora do Centro Universitário Metodista do IPA, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). <miriamb@globo.com>

2 Bibliotecária da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), Alagoas, Maceió, Brasil. Mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). <gardeniacastro@terra.com.br>

 

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Correspondência:
Rua Portugal, n. 160, apto. 301, Higienópolis
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Recebido em 29/06/2012
Aprovado em 02/09/2012

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