SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.18 issue3Institutional support to families of homicide victims: analysis of the perceptions of health and social assistance professionalsCOVID-19: why the protection of health workers is a priority in the fight against the pandemic? author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Trabalho, Educação e Saúde

Print version ISSN 1678-1007On-line version ISSN 1981-7746

Trab. educ. saúde vol.18 no.3 Rio de Janeiro  2020  Epub July 20, 2020

https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00283 

ARTIGO

‘Já me acostumei’: interfaces entre trabalho, corpo e saúde de catadores de materiais recicláveis

‘I am already used to it’: interfaces between work, body and health of recyclable material collectors

‘Ya me acostumbre’: interfaces entre el trabajo, el cuerpo y la salud de los recolectores de materiales reciclables

1Universidade Federal da Fronteira Sul, Mestrado Interdisciplinar em Ciências Humanas, Erechim, Brasil.cheilabassocb@gmail.com

2Universidade Federal da Fronteira Sul, Mestrado Interdisciplinar em Ciências Humanas, Erechim, Brasil. ivone@uffs.edu.br


Resumo

O contexto social do sistema capitalista de produção impõe efeitos às relações de trabalho, tais como os cenários de precarização marcados pela instabilidade e insegurança para os trabalhadores. Propõe-se aqui a discussão de dados derivados de um estudo qualitativo realizado no município de Erechim, Rio Grande do Sul, de fevereiro a abril de 2018, o qual investigou a relação entre trabalho, corporeidade e saúde com base na análise de narrativas produzidas por catadores de materiais recicláveis e incursões etnográficas em seu contexto laboral. Buscou-se problematizar a incidência de entrega do corpo ao trabalho e suas repercussões no caso dos catadores participantes da pesquisa, considerando a dinâmica da saúde que integra as dimensões física, psicológica e social desses sujeitos. Os resultados indicam as circunstâncias de vulnerabilidade a que são expostos. Como se depreende de suas narrativas, o trabalho se vincula à necessidade, levando-os a desconsiderar as condições adversas implicadas em sua realização ou se adaptar a elas, ainda que os custos desse processo sejam altos. Tal realidade indica a premência de análises sobre as relações entre trabalho, saúde e desigualdade social no contexto brasileiro, considerando-se que saúde é um direito humano fundamental e seu usufruto deve estar ao alcance de todos.

Palavras-Chave: catadores de materiais recicláveis; trabalho; corporeidade; saúde

Abstract

The social context of the capitalist production system impacts labor relations, including precarious scenarios marked by instability and insecurity for workers. Here we discuss data derived from a qualitative study carried out in the municipality of Erechim, Brazil, from February to April 2018, which investigated the relationship between work, corporeality and health based on the analysis of narratives produced by recyclable material collectors and ethnographic incursions in their work context. We sought to problematize the incidence of delivery of the body to work and its repercussions in the case of the collectors participating in the research, considering the health dynamics that integrate the physical, psychological and social dimensions of these subjects. The results indicate the circumstances of vulnerability to which they are exposed. As can be seen from their narratives, the work is linked to the need, leading them to disregard the adverse conditions involved in its realization or to adapt to them, even though the costs of this process are high. This reality indicates the urgency of analysis of the relationships between work, health and social inequality in the Brazilian context, considering that health is a fundamental human right and its enjoyment must be available to everyone.

Key words: recyclable material collectors; job; corporeality; health

Resumen

El contexto social del sistema de producción capitalista impone efectos sobre las relaciones laborales, como los escenarios precarios que se denotan en la inestabilidad e inseguridad de los trabajadores. Se propone aquí discutir los datos derivados de un estudio cualitativo realizado en el municipio de Erechim, Brasil, de febrero a abril de 2018, el que investigó la relación entre trabajo, corporeidad y salud basada en el análisis de narraciones hechas por recolectores de material reciclable e incursiones etnográficas en su contexto laboral. Se buscó problematizar la incidencia de entrega del cuerpo al trabajo y sus repercusiones en el caso de los recolectores participantes de la investigación, considerando las dinámicas de salud que integran las dimensiones físicas, psicológicas y sociales de estos sujetos. Los resultados indican las circunstancias de vulnerabilidad a las que están expuestos. De a cuerdo a sus narraciones, el trabajo está vinculado a la necesidad, llevándolos a ignorar las condiciones adversas involucradas en la realización del mismo o a adaptarse a ellas, a pesar de que los costos de este proceso sean altos. Esta realidad indica la urgencia de análisis sobre las relaciones entre trabajo, salud y desigualdad social en el contexto brasileño, considerando que la salud es un derecho humano fundamental y su disfrute debe estar disponible para todos.

Palabras-clave: recolectores de material reciclable; trabajo; corporeidad; salud

Introdução

O trabalho ocupa grande centralidade nos processos de humanização, figurando como um mecanismo de formação de seres sociais ( Antunes, 2004 ). Trata-se de uma dimensão que, além de produzir gêneros que possuem valor de uso, de modo a atender às necessidades humanas, integra-se no campo das relações sociais de produção e representação das individualidades e sociabilidades.

Essa concepção insere-se no contexto social regido pelo sistema capitalista, no qual os processos produtivos que ditam modelos de funcionamento da lógica de mercado impõem efeitos às relações de trabalho, tais como os cenários de precarização marcados por instabilidade e insegurança. Assim, ajustam-se a essa realidade principalmente aqueles sujeitos que compõem as camadas populares, inseridos nos diferentes setores da economia formal e informal. De acordo com dados de Miura e Sawaia (2013) , as últimas décadas têm sido marcadas pelo aumento do desemprego formal, e esse quadro coincide com o aumento do número de catadores de materiais recicláveis trabalhando nas ruas e em associações. Ao passo que esses sujeitos são distanciados da economia formal, moldam-se à atividade de catação, tendo em vista que “uma das características dessa atividade é a ausência de exigências para o seu ingresso” ( Medeiros e Macedo, 2006 , p. 67).

Para Miura e Sawaia (2013 , p. 331), os catadores são alvos de estereótipos e preconceitos, levando-se em conta, dentre outros aspectos, “sua aparência suja, má vestida, por mexerem com o lixo, com aquilo que é descartado sem cuidado e geralmente identificado como imundície”. Assim, a catação constitui, para esses sujeitos, uma das poucas alternativas de sobrevivência e os expõe à insalubridade e ao reduzido reconhecimento social e financeiro dessa ocupação.

Ao pensar acerca desse cenário laboral, entendemos que o trabalho desses sujeitos os mobiliza integralmente, exigindo esforço e dedicação físicos e mentais. No espaço da associação, a realização de suas atividades demanda desses atores esforço intelectual, planejamento de tarefas, capacidade de gestão de recursos materiais e humanos, uma vez que todos os associados se envolvem na totalidade das tarefas. Assim, podemos afirmar que a catação, como outras ocupações laborais, exige dos trabalhadores concessões e desgastes no âmbito corporal, com repercussões diversas à sua saúde. A intensidade e a natureza dessas repercussões só podem ser dimensionadas considerando-se as especificidades que cercam a relação que cada indivíduo estabelece com sua situação laboral, incluindo sua disposição em colocar o próprio corpo em jogo no exercício do trabalho, mas também aspectos relacionados às condições estruturais de trabalho e vida da classe trabalhadora no capitalismo periférico da atualidade ( Antunes e Praun, 2015 ).

Nosso objetivo, neste trabalho, é discutir a relação entre trabalho, corporeidade e saúde com base na análise de fragmentos dessa realidade, aos quais tivemos acesso mediante depoimentos colhidos com os trabalhadores e nas incursões etnográficas em seu contexto laboral. Buscamos problematizar a incidência de entrega do corpo ao trabalho e suas repercussões no caso dos catadores com os quais tivemos contato em nosso estudo, tendo presente também a dinâmica da saúde que integra as dimensões física e social desses sujeitos.

Trabalho, corporeidade e saúde: discussão teórico-conceitual

O mundo do trabalho vem sendo amplamente impactado pelas mudanças impostas pelo sistema capitalista de produção contemporâneo. As dinâmicas de produção e mercado têm sido pautadas pela expansão das grandes corporações pelo globo, que no contexto da divisão internacional do trabalho impõem desafios às condições laborais e de vida da classe trabalhadora, principalmente de países periféricos ( Antunes e Praun, 2015 ). Os moldes desse sistema se caracterizam pela linha de produção e homogeneização dos produtos, amplo controle sobre o trabalhador e seu tempo de produção; simultaneamente, os direitos trabalhistas são flexibilizados, diminuídos e até eliminados.

Em decorrência disso, verificam-se cenários de trabalho precarizado, onde o trabalhador é condicionado a atividades mecanicamente repetitivas, além da redução do sentido de ‘atividade vital’ atribuído ao trabalho. Tal cenário se materializa na falta de autonomia e reconhecimento no campo laboral, bem como no aumento dos índices de adoecimento dos trabalhadores ( Antunes, 2004 ).

Para Antunes e Praun (2015) , as condições de flexibilização e precarização do trabalho têm convertido os ambientes laborais em espaços de adoecimento, caracterizados por acidentes de trabalho e transtornos de saúde mental, tendo em vista as baixas condições de proteção nesses ambientes. Tais situações se fazem presentes tanto em espaços laborais permeados pela tecnologia e robotização como nos ambientes produtivos com suporte tecnológico inferior e que impõem jornadas de trabalho mais longas e exaustivas. Essas mudanças no mundo do trabalho, como o aumento do uso da tecnologia e a busca pela alta produtividade, ao longo da história têm sido alguns dos fatores responsáveis pelo adoecimento dos trabalhadores ( Brasil, 2001 ; Dale e Dias, 2018 ).

Nesse cenário, “quanto mais frágil a legislação protetora do trabalho e a organização sindical na localidade, maior o grau de precarização das condições de trabalho” ( Antunes e Praun, 2015 , p. 411) – o que nos provoca a pensar na realidade dos catadores de materiais recicláveis que, como trabalhadores informais, são desassistidos pela legislação trabalhista e organização sindical. Essa conjuntura os expõe à insalubridade e carência de condições mínimas para o trabalho, além de tantos outros desafios na realização de suas atividades ( Dale e Dias, 2018 ). Tendo presentes esses preceitos, torna-se imperativo refletir a respeito da corporeidade e dos reflexos na saúde desses atores no cenário laboral no qual se inserem.

Com base nessas concepções, Le Breton (2007) acrescenta elementos importantes a tal discussão ao conceber a condição humana como uma condição corporal, de modo que tudo que existe passa pelo corpo e por ele é traduzido. A vida social é uma interpretação permanente do mundo por meio do corpo, o que, por sua vez, resulta de uma construção cultural com base na educação, no pertencimento geográfico, gênero, entre outros elementos, tratando-se do corpo como uma entidade cultural. Assim, o trabalho é uma instância importante a ser considerada quando abordamos a corporeidade.

Carlos (2014 , p. 474), citando Michel Bernard (1995) e Bernard (1995), entende como indispensáveis as justificativas quando se desenvolvem reflexões acerca do corpo, pois para ela “a vida o impõe cotidianamente, já que através dele sentimos, desejamos, agimos, exprimimos, criamos. Portanto, o corpo tem uma função de mediação social”. O corpo é entendido como um vetor das relações dos meios social e espacial. A partir dele, são estabelecidas “relações com o mundo e com os outros – uma relação com espaços-tempos definidos no cotidiano”. Para essa autora, “nossa existência tem uma corporeidade porque agimos através do corpo” ( Carlos, 2014 , p. 475).

Na realidade pesquisada, a corporeidade dos atores pode ajudar a traduzir as circunstâncias de vulnerabilidade a que são expostos no trabalho, as quais impõem consequências às dimensões física e social deles. Dada a sua condição de ‘inclusão perversa’ ( Sawaia, 1999 ), muitos trabalhadores apresentam características corporais que denotam a privação de autonomia e poder sobre o próprio corpo, aspecto concernente ao mundo do trabalho capitalista ( Dale e Dias, 2018 ).

Procedimentos metodológicos

Este estudo qualitativo foi desenvolvido no período de fevereiro a abril de 2018. Participaram da pesquisa 19 catadores associados da Associação de Recicladores Cidadãos Amigos da Natureza (Arcan) que moram nas diversas áreas dos bairros Cristo Rei e Progresso, no município de Erechim (RS), e trabalham na unidade de reciclagem da associação selecionando materiais recicláveis. Esse grupo é composto por dez mulheres e nove homens com idades entre 18 e 53 anos. A maioria dos participantes declarou não ter concluído o ensino fundamental, ser casada e ter filhos. O critério de seleção dos participantes esteve vinculado à disponibilidade e ao interesse dos sujeitos em participar da investigação; assim, todos os associados concordaram em participar das etapas do estudo, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e o Termo de Consentimento para Uso de Imagem e Voz. Salientamos que a ética foi uma categoria diretamente ligada a todo o processo de desenvolvimento do estudo, no qual foram desenvolvidas as ações previstas por meio do consentimento dos sujeitos pesquisados, respeitando sua integralidade e autonomia. Ao longo de todo o estudo, os catadores foram identificados por pseudônimos escolhidos pelas pesquisadoras, a fim de preservar sua identidade.

A pesquisa empírica se deu inicialmente apoiada em um questionário sociodemográfico com perguntas fechadas (sexo, idade, cor, escolaridade, naturalidade, existência ou não de filhos e suas idades, estado civil, rendimento mensal, jornada de trabalho). As perguntas abertas buscavam incluir aspectos referentes às condições de vida e trabalho dos participantes (há quanto tempo você faz parte da Arcan?; quais atividades você exerce no seu trabalho?; que atividades você faz quando não está trabalhando na Arcan?). O questionário foi respondido individualmente, por escrito, pelos sujeitos da pesquisa em seu local e turno de trabalho durante o período de intervalo para descanso. Os participantes puderam, nesse processo, contar com o auxílio das pesquisadoras para sanar eventuais dúvidas sobre as perguntas. Assim, tivemos como propósito traçar um perfil econômico e étnico-racial dos sujeitos dessa comunidade.

Em seguida, os associados foram convidados a se engajar na etapa posterior do estudo, que correspondeu à produção de fotos pelos catadores, com base em questões norteadoras como: o que é o trabalho para vocês?; quais são os lugares/espaços significativos a que têm acesso em seu cotidiano e que podem expressar suas condições de vida? Para participar desta etapa, os catadores utilizaram as câmeras fotográficas de seus celulares. Foi disponibilizada uma câmera fotográfica digital que permaneceu na associação durante grande parte da etapa empírica. Realizaram-se ainda grupos focais organizados em dois conjuntos de participantes: um deles contou com nove associados mais jovens e com menos tempo de associação; o outro foi composto por dez trabalhadores mais velhos e experientes na associação. Cada grupo participou de dois encontros que tiveram a duração média de 45 minutos cada, os quais foram audiogravados e posteriormente transcritos na íntegra. Em conjunto com os catadores, respeitando sua disponibilidade de tempo e dinâmica de trabalho, definiu-se que os encontros ocorreriam na parte da tarde, durante o intervalo para o descanso no pavilhão da associação. Com essa técnica, buscamos explorar por meio das fotos produzidas e dos relatos dos participantes a temática do trabalho, a construção de sentidos a partir dele, bem como se dão a organização do espaço de trabalho do grupo, seus mecanismos de uso e apropriação.

A observação participante configurou-se ainda como um importante suporte metodológico cujos registros foram realizados em diário de campo. Essa etapa teve início em nossos primeiros contatos com a associação e se deu mediante um roteiro de observação e conversas informais. O roteiro de observação do cotidiano dos participantes em seu espaço de trabalho contou com questões que instigavam os catadores a falarem sobre sua rotina laboral, sensações produzidas pela manipulação dos materiais, desafios e alegrias em trabalhar ali. Além disso, as conversas informais oportunizaram nossa aproximação da realidade e vivências cotidianas dos sujeitos de pesquisa. A etapa de observação participante foi realizada no pavilhão da associação durante dez dias, perfazendo um total de 15 horas, divididas em encontros breves e outros mais extensos.

A análise dos dados produzidos possibilitou a construção de inferências com base nos suportes teóricos advindos da revisão de literatura. Os pontos centrais observados no material analisado foram organizados em categorias, que tratam da corporeidade e saúde dos catadores em sua relação com o trabalho, cujo estudo se efetuou na análise de conteúdo, inspirada na técnica de Bardin (2011) e Gomes (2011) .

Os procedimentos da investigação foram analisados e aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal da Fronteira Sul em 18 de julho de 2017, com o certificado de apresentação para apreciação ética n. 68760517.7.0000.5564 e o parecer Plataforma Brasil n. 2.176.559.

Condições de trabalho e mobilização do corpo

Ao investigar a realidade de trabalhadores de uma associação de recicladores localizada em cidade de médio porte do norte do estado do Rio Grande do Sul, nos deparamos com as condições de precariedade da sua ocupação, condição essa que faz com que grande parte da sociedade os veja como ‘pessoas que trabalham com/no lixo’.

Além disso, cabe reconhecer que, na profissão dos catadores, o uso do corpo é imperativo, situação que os expõe ao máximo, tratando-se de riscos e limites. Ao longo de nossa imersão na realidade do grupo envolvido no estudo, surgiram várias oportunidades que nos possibilitaram experimentar e observar essa realidade. Ao circular pelo pavilhão, principal local onde se dão as atividades de trabalho dos catadores, era necessário estarmos atentas aos riscos que, por vezes, passavam despercebidos às pesquisadoras, representados por insetos, roedores e materiais ali dispostos, o que já era, de certa forma, familiar aos catadores.

Algo que ficou evidente na pesquisa é que, durante a realização do seu trabalho, os catadores mobilizavam bastante o corpo. Isso podia ser atestado observando-se diversos atos que compunham sua rotina de trabalho, como os agachamentos frequentes que realizam para pegar e rasgar as sacolas plásticas nas quais chegam os materiais a serem reciclados, ao manusearem esses objetos, separá-los e os arrastarem até o local para armazenagem. Muitos dos itens que chegam com a coleta seletiva têm algum potencial de uso e aproveitamento pelos catadores, como roupas e calçados, o que faz com que esses objetos sejam inspecionados e guardados à parte dos outros materiais.

Ainda assim, foi comum ouvir desses atores expressões que denotam a valorização que esse grupo dá ao seu trabalho, considerando os avanços e as melhorias conquistadas em detrimento das dificuldades enfrentadas no passado e no presente. Isso se refere principalmente ao fato de esses atores terem um espaço para trabalhar e não necessitarem se expor ao sol ou à chuva, por exemplo. Achados semelhantes também podem ser encontrados em outros estudos ( Coelho et al., 2016a ; De Castro, 2019 ), que também se dedicaram a explorar o universo desses trabalhadores. Porém, com a grande mobilização do corpo e como os catadores afirmam que ‘a maioria das coisas é feita à mão’, manifestações acerca das dificuldades também foram presentes, como as dores nas costas e nos braços – o que nos foi indicado pelos catadores pelo fato de precisarem se abaixar com frequência: “Judia bastante das costas, então é cansativo. A gente está acostumada, eu gosto de vir trabalhar e separar material, mas o serviço da gente é assim, não tem como mudar” (Josiane).

Durante algumas conversas informais, ouvíamos os catadores falando sobre o grande desgaste físico enfrentado para transportar os bags (grandes sacos de material resistente nos quais são depositados os materiais triados) do interior do pavilhão para a parte externa, onde eles são armazenados ( Figura 1 ). Esse transporte se dá de forma manual, de modo que os trabalhadores arrastam os bags pelo espaço, e isso, muitas vezes, resulta em fortes dores musculares: “Puxar os bags lá pra fora é pesado, dói os braços” (Eliane).

Fonte: As autoras

Figura 1 – Catadores trabalhando e mobilizando o corpo em meio aos bags com materiais 

Na Arcan, quinzenalmente ocorre o que os catadores denominam de carregamento, processo que ocorre em dias em que a empresa que compra grande parte dos materiais triados os recolhe. De acordo com os catadores, essa etapa é a mais desgastante, pois eles empregam muito esforço físico ao transportar os fardos de materiais já prensados até os caminhões que a empresa envia. Essas são as situações de maior exaustão física em relação às dores nas costas e nos braços. Todos os associados se envolvem igualmente nessa e nas outras etapas do trabalho, não havendo distinção entre gênero e faixa etária: “É sofrido de levantar bag de cem, cento e poucos [quilos]. Não porque nós somos mulheres que somos poupadas, uma mulher faz a mesma coisa que um homem” (Rosângela).

Além dessas atividades, os associados recebem, semanalmente, o caminhão da Prefeitura, responsável pelo recolhimento do lixo orgânico, para apanhar os rejeitos orgânicos que chegam à associação misturados aos resíduos secos. Nesses dias, são os próprios catadores que desempenham a tarefa que, para eles, é vista como ‘puxada’.

É interessante pensar em como situações que oferecem riscos à integridade física desses atores se repetem com frequência, e o corpo físico desses sujeitos, mesmo que exposto ao esgotamento pelo esforço, parece sofrer adaptações. Isso nos faz refletir no quanto a corporeidade desses sujeitos é exigida, de modo que se adaptem a esses e a outros riscos, sem nem mais senti-los – o que se aplica aos riscos à pele e também ao cheiro, que alguns afirmam não mais perceber.

Sua condição de vulnerabilidade também pode ser traduzida pela ausência de dentes, aspecto comum entre esses trabalhadores, o que muitas vezes não nos permitia compreender o que diziam, pois tinham sua dicção comprometida. Entendemos que isso é resultado de uma existência de privações e de dificuldades financeiras, o que os impossibilita de garantirem a saúde bucal, por exemplo. Maciel e Grillo (2009 , p. 242) também refletem acerca desses aspectos ao tratarem da realidade de numerosos outros trabalhadores que experimentam a inclusão perversa, cujo corpo “parece bem treinado para se adaptar à imprevisibilidade do cotidiano de quem sempre foi descartado pelo mercado de trabalho qualificado”.

Com base nessas considerações, citamos as ponderações de Le Breton (2007 , p. 82) com relação ao fato de o corpo ser percebido como um componente que é atrelado à base material de produção na sociedade capitalista, convertendo-se em instrumento de trabalho. Ao avaliar os padrões de “usos sociais do corpo”, o autor constata que os atores provenientes das camadas populares, como os catadores, estabelecem relações de ordem mais “instrumental com o corpo”. Desse modo, é possível observar que eles “não prestam nenhuma atenção especial ao corpo e o utilizam, sobretudo, como um ‘instrumento’ ao qual demandam boa qualidade de funcionamento e de resistência”. Nesses sujeitos, são verificáveis a valorização da força física e a tolerância a desgastes corporais, já que “eles não admitem, sobretudo, sentirem-se doentes”. De fato, o corpo é visto como uma entidade cultural, ou seja, as suas formas de uso identificadas nessa realidade são moldadas pelas necessidades da vida cotidiana e da cultura desse grupo.

Por mais que possa aparentar ser uma cena corriqueira desse universo, buscamos problematizar ainda a questão das sensações provocadas pelas condições de trabalho desse grupo, representadas, aqui, pelo cheiro do ambiente e pelo contato com os materiais, ao tocá-los diretamente ou ao abrir as sacolas. Tais sensações também são interpretadas de maneiras distintas pelos catadores, conforme tenham maior ou menor experiência acumulada.

Essas interpretações se destacam à medida que os catadores são provocados a falar sobre elas. Assim, identificamos aqueles que se demonstram mais adaptados às condições de trabalho e exercem suas funções de modo pouco reflexivo quanto a esse aspecto, enquanto outros constatam pontos críticos em sua realidade. Por meio de nossas observações, entendemos que os associados com maior experiência acumulada possivelmente puderam construir e reconstruir significados acerca de suas condições de trabalho; assim, apresentam uma leitura mais dura de seu contexto:

[...] A gente, por estar aqui trabalhando, eu não sinto mais [o cheiro desagradável], a gente acostuma. Acho que o organismo da gente [se acostuma]. Só quando tem o lixo mais podre incomoda um pouco, mas acostuma (Lurdes).

Relatos muito parecidos se repetem, ao descreverem as sensações de manipular os materiais que chegam nas sacolas plásticas sem antes saberem o que irão encontrar ali. Alguns dos catadores destacam que esse tipo de situação ‘não faz diferença’ e que em outras profissões também existem situações desafiadoras. Pelos dados, fica evidente tamanha ‘adaptação’ que esses trabalhadores operam em sua vivência com aquilo que foi descartado por não ter mais proveito e tratado pela maioria da população como desagradável e enfadonho. Esses atores destacam que o cheiro já não mais os incomoda, mas além desse aspecto, eles já ‘se acostumaram’ a ser humilhados, oprimidos, negligenciados pelo poder público, dentre outros desafios.

Entendemos que isso se relaciona grandemente com as proposições de Le Breton (2007) , ao abordarem as configurações a que a corporeidade se ajusta devido a alguns fatores que extrapolam o poder de escolha dos indivíduos.

A configuração dos sentidos, a tonalidade e contorno de seu desenvolvimento são de natureza não somente fisiológica, mas também social. A cada instante, decodificamos sensorialmente o mundo transformando-o em informações visuais, auditivas, olfativas, táteis ou gustativas. Assim, certos sinais corporais escapam totalmente ao controle da vontade ou da consciência do ator, mas nem por isso perdem sua dimensão social e cultural. [...] Cada comunidade humana elabora seu próprio repertório sensorial como universo de sentido. Cada ator apropria-se do uso desse repertório de acordo com a sensibilidade e os acontecimentos que marcaram sua história pessoal ( Le Breton, 2007 , p. 55).

Nesse mesmo viés, surgem relatos que indicam que, independentemente dessas condições de trabalho, a luta pela sobrevivência caracteriza-se como um ponto decisivo para que esses sujeitos estejam ali. Assim, as condições de insalubridade e os desafios do trabalho são minimizados diante da necessidade: “Não faz diferença. Com cheiro ou sem cheiro, tem que trabalhar” (Leandro).

Assim como Leandro, outros catadores evidenciam aspectos de seu contexto de trabalho de modo realista, como Ângela, que, ao avaliar a questão do cheiro e da manipulação de materiais, afirma que “às vezes é horrível, mas é suportável”. Ainda é comum chegarem materiais no pavilhão que apresentam alto risco para quem os manipula, como é o caso de agulhas e seringas. Ângela destaca que sempre que percebe que materiais como esses estão dentro das sacolas, os manuseia com mais cautela. Segundo ela, todos os associados têm essa prática como rotina.

Nesse universo, Dona Sandra relata elementos importantes de sua trajetória na associação, os quais nos ajudam a compreender as diferentes maneiras que esses sujeitos têm de ler suas condições de trabalho.

No começo, eu não vou te mentir, tu não conseguia comer em casa. Nos primeiros dois meses, eu sofri muito porque parece que penetra, né? [o cheiro] Depois de dois meses, não dava mais bola, se acostuma. Mas, antigamente, era bem pior. Nós fizemos uma campanha no centro, uma caminhada. Nos primeiros tempos, eu achava cachorro, gato morto, até um feto foi achado, era bem comum. Tu abre ali [a sacola], tu tem que... mas depois de tanta luta, conseguimos mudar um eito [bastante]. Lá, de vez em quando, vem agulha até com sangue. Mas tem coisa que a gente nem abre (Dona Sandra).

Como atestado no início, a percepção das condições de trabalho se dava de uma forma, mas, com o passar do tempo e com o cotidiano, esses sujeitos foram se acostumando a ponto de não sentirem mais o cheiro. E como apontaram alguns catadores, em todas as profissões existem aspectos positivos e negativos; entendemos que isso se ajusta a todas as profissões, como ter reconhecimento financeiro insatisfatório ou pouca disponibilidade de tempo para o lazer. Porém, concebemos que o caso desses atores se diferencia da maioria dos trabalhadores, de modo que eles ‘se adaptam’ às numerosas condições adversas, dada a sua condição de exclusão social. Nesse ponto, cabe ressaltar, novamente, a contribuição de Le Breton (2007 , p. 56): “a percepção dos inúmeros estímulos que o corpo consegue recolher a cada instante é função do pertencimento social do ator e de seu modo particular de inserção cultural”.

Dentre outros aspectos, surgiram no relato de dois jovens catadores percepções distintas daquelas expostas pelos trabalhadores mais experientes. Para esses trabalhadores, os catadores mais velhos já se adaptaram ao cheiro desagradável e às condições adversas do trabalho. Quanto a eles, o cheiro e as sensações de manipular os materiais provocam mais desconfortos. Em conversa com esses dois associados, eles relataram que a máscara que cobre o nariz e a boca minimizava o cheiro dos materiais, porém ela só foi disponibilizada durante o período inicial de trabalho deles e, atualmente, não é tida como necessária pelo restante do grupo. Em tom de confidência, um desses catadores nos relatou que, à medida que novos integrantes entram na associação, eles precisam se adaptar às condições de trabalho, como os mais experientes o fizeram. Assim, os anos de experiência foram ‘endurecendo’ as percepções dos mais velhos, fazendo com que eles não mais se importassem com certas coisas com as quais os iniciantes ainda se incomodam.

Relações entre saúde e corpo

Conforme identificamos, a relação do trabalho desses sujeitos com sua corporeidade nos permite refletir a respeito da dinâmica em torno da sua saúde, tendo presente a precariedade de condições de trabalho.

Foi comum, ao longo da pesquisa, vermos os trabalhadores entrando nos bags buscando pressionar os materiais com o peso do próprio corpo, de modo a amassá-los na tentativa de que diminuam seu volume. Com relação a esse aspecto, é visível que esses sujeitos estão vulneráveis a muitos riscos, considerando que nem sempre possuem equipamentos de proteção individual como botas e botinas, luvas e roupas resistentes para executarem suas tarefas. Além disso, chegam até a associação os mais diversos tipos de materiais com características pontiagudas e cortantes. Dessa forma, esses sujeitos expõem sua corporeidade a numerosas situações de risco e insalubridade. Ao analisar essa questão, Miura (2004) interpreta que os trabalhadores desse ramo, em geral, têm como preocupação maior a garantia de sua subsistência em detrimento da saúde do corpo.

A título de comparação, Le Breton (2007) também analisa as percepções da corporeidade pelos indivíduos das camadas privilegiadas e conclui que estes buscam manter “uma relação mais atenta com o corpo”. Esse grupo inclina-se a “estabelecer uma fronteira mais tênue entre saúde e doença e a adotar, com relação a esta última, uma atitude mais preventiva para evitar qualquer surpresa”. Essa circunstância é interpretada pelo viés de que à medida que se ascende às camadas mais privilegiadas, “diminui correlativa e progressivamente a importância do trabalho manual em relação ao trabalho intelectual, o sistema de regras que rege a relação do indivíduo com o corpo é igualmente modificado”. Esse aspecto influencia diretamente o estabelecimento de relações com o corpo, ao passo que nas atividades laborais do campo intelectual que não demandem esforço físico particular, os trabalhadores inclinam-se “a estabelecer uma relação consciente com o corpo e a tomar mais cuidado com as sensações orgânicas e a expressão dessas sensações e, em segundo lugar, a valorizar a ‘graça’, a ‘beleza’, a ‘forma física’ em detrimento da força física” ( Le Breton, 2007 , p. 83).

Os padrões do uso da corporeidade dos catadores se dão atrelados às condições de insalubridade de seu trabalho. Estas se traduzem pelo que pôde ser experienciado durante a etapa empírica de nosso estudo, mas, e principalmente, pelo que os próprios sujeitos relatam e vivem. Foram várias as ocasiões em que observamos os catadores trabalhando com mãos ou pés enfaixados com curativos improvisados, por terem se cortado com materiais perigosos, como vidros.

Com o acompanhamento da rotina desse grupo, foi possível compreender melhor as motivações que levam situações como essas a se repetirem sucessivamente. Além do problema de esses materiais serem descartados de maneira inadequada, muitos catadores não utilizam equipamentos de proteção individual, como as luvas ou botas, o que não preveniria os acidentes, mas minimizaria os riscos. Porém, é importante salientar que o acesso aos equipamentos de segurança pela associação se dá geralmente por meio de doações. Quando estas não ocorrem, o grupo tem dificuldades financeiras em adquiri-los. Pelo excerto de grupo focal a seguir, observa-se a preocupação relativa a essas dificuldades:

E quando não tem, não tem [equipamentos de segurança]. Acha ali no meio do material alguma coisa (Pedro).

Olha eu, estou trabalhando de chinelo, não tem [botas/botinas] (Teresa).

Só que eles [poder público] não pensam, né? Mas que Deus o livre, chega cortar um pé, a gente não tem carteira assinada (Dona Sandra).

Assim, relatam que usam esses objetos quando os encontram misturados aos materiais, e sempre que necessário, os artefatos que estão sendo utilizados aos poucos são substituídos. Trata-se de situações resolvidas paliativamente, considerando que esses objetos foram descartados pela população e, então, transformam-se em instrumentos de trabalho para esse grupo.

Isso nos fez refletir sobre como esses sujeitos estão expostos aos mais diversos riscos na realização de seu trabalho e como sua corporeidade é exigida. Tal questão nos suscita alguns questionamentos acerca de quem são esses sujeitos que se submetem a utilizar, por exemplo, luvas já usadas e descartadas por tantas pessoas, e que possivelmente continham algum agente agressor.

A forma como os trabalhadores desse campo percebem os acidentes de trabalho também se vincula às condições de vulnerabilidade, uma vez que pequenos cortes ou lesões são vistos como situações corriqueiras, e não como acidentes de trabalho ( De Castro, 2019 ).

Esses pequenos problemas devem ser banalizados para que a realidade de um trabalho duro e precário, como a seleção do lixo da cidade, seja suportável, aceitável dia após dia. Tal compreensão se apresenta para nós como uma tática desenvolvida durante a história de labor de trabalhadores acostumados a atividades penosas e que não devem ser interrompidas, pois isto significaria menos dinheiro no fim do dia, ou do mês, menos comida, ou seja, mais dificuldades e problemas para a vida comum ( De Castro, 2019 , p. 74).

Entendemos que não apenas a saúde física pode estar comprometida nessa relação, mas também a saúde mental. Os acidentes de trabalho, como cortes, queimaduras, perfurações e dores corporais, estão entre os problemas mais citados pelos pesquisadores desse campo ( Porto et al., 2004 ; Arantes e Borges, 2013 ), porém nos questionamos a respeito de aspectos que envolvem a estrutura psíquica e a vida social desses atores.

Como já apontado, os trabalhadores das camadas populares estabelecem uma relação mais instrumental com seu corpo na realização de suas funções profissionais ( Le Breton, 2007 ), podendo comprometer assim sua saúde. Isso se relaciona aos achados de Porto e colaboradores (2004) e Sousa e Mendes (2008) , os quais destacam que, para muitos catadores, o significado de ter saúde relaciona-se ao fato de estar disposto para o trabalho – o que, segundo os autores, faz supor que a saúde dos sujeitos envolvidos em seus estudos está em boas condições, pois as faltas ao trabalho são escassas. Dobrachinski e Dobrachinski (2016) também destacam em seu estudo que os catadores não associam problemas de saúde com seu trabalho. Esses aspectos encontram ressonância nos estudos de De Castro (2019) , que explora a realidade de catadores cooperados que enxergam na organização da qual fazem parte uma oportunidade de reconhecimento como trabalhadores, o que, para o autor, caracteriza-se como um elemento produtor de saúde.

Para os trabalhadores da Arcan, cujo trabalho tem sentido de sobrevivência, pertencimento e até vergonha, principalmente entre os mais jovens, são presentes os relatos de longas horas de trabalho semanais e diárias, indicando a ausência de horário fixo. Muitos desses atores apontam o trabalho como uma forma de se esquecer dos problemas, conferindo a ele um caráter de acolhimento. Os trabalhadores relataram que os principais momentos de lazer são durante o trabalho ou em encontros com os colegas fora do pavilhão. Entendemos que, para esses indivíduos, o trabalho se configura como uma das únicas oportunidades de reconhecimento social e participação efetiva na sociedade. Para essa parcela da população, não são garantidas grandes oportunidades e espaços de lazer, tendo em vista que muitos destacaram a falta de segurança em espaços públicos destinados ao lazer e à convivência. Essa realidade pode configurar riscos de adoecimento, tendo em vista a importância desses momentos para a saúde do trabalhador. Porém, esses trabalhadores possuem um certo grau de autonomia no controle de suas tarefas, o que pode conferir a esses sujeitos em sua relação com o trabalho “um caráter positivo e a possibilidade de uma boa manutenção da sua saúde mental”, como apontado por De Castro (2019 , p. 71).

Outro aspecto que nos faz pensar na saúde em sua relação com a corporeidade desses sujeitos é o fato de muitos aproveitarem alimentos encontrados no lixo. Como afirmou Dona Sandra, “se não está vencido, dá pra aproveitar. Eu levo tudo o que eu achar que tenha proveito”. Isso nos diz muito sobre as reais condições de vida desses sujeitos, a precariedade que compreende seu cotidiano.

Diante da precariedade nas condições de trabalho desses sujeitos, entendemos que pelo fato de possuírem um espaço para trabalhar, isso lhes garante possibilidades de melhorias em certa medida. Porém, os trabalhadores envolvidos na pesquisa convivem com ratos e baratas, iluminação e circulação precárias, frio e calor extremos ao longo das estações do ano, o que configura sua ocupação como insalubre, consequentemente trazendo reflexos à sua saúde.

Como se observa, são muitas as condições inadequadas e processos insalubres de trabalho aos quais são submetidos os catadores, o que os expõe a numerosos riscos na realização de suas tarefas. Além disso, como também apontam Dobrachinski e Dobrachinski (2016 , p. 39) em seu estudo, são muitos os hábitos desses atores que podem potencializar seus problemas de saúde, como “o horário e a qualidade de suas alimentações, o tabagismo [...], os quais têm consequências danosas à sua saúde, além de aumentarem as chances de acidentes”.

As condições de informalidade e a limitada relação do poder público com trabalhadores desse campo são problemas que causam muitas preocupações para esses sujeitos, considerando que são poucas as perspectivas de melhorias, configurando abandono social e trabalhista. A ausência de direitos trabalhistas distancia esses sujeitos da proteção e da segurança no trabalho, tendo em vista que ao realizarem suas tarefas estão colocando sua saúde em risco. Para Coelho e colaboradores (2016a) , esses aspectos contribuem para a vivência da vulnerabilidade e do adoecimento desses trabalhadores. Além disso, “a rede de atenção à saúde do trabalhador encontra dificuldades para alcançar todos os extratos laborais e promover, de fato, a saúde e o bem-estar das pessoas” ( Coelho et al., 2016a , p. 7) – dadas as condições de insuficiência de dados ou registros desses trabalhadores nos sistemas de saúde pública.

Na Arcan, as principais situações que trazem desconfortos aos associados residem na instabilidade do recebimento de materiais recicláveis recolhidos pela coleta seletiva e na negligência do poder público para com essa circunstância. Alguns associados afirmam que têm dificuldades para dormir devido a essas preocupações, considerando os desafios para pagar contas e garantir a sobrevivência. A reduzida gama de outras oportunidades de trabalho para os catadores em virtude de sua baixa escolaridade, bem como a necessidade de prover seu sustento, faz com que situações como essas sejam cotidianas para eles ( Dale e Dias, 2018 ).

Além desses aspectos, os catadores são estigmatizados e frequentemente vinculados ao lixo no imaginário social. Tais elementos, associados ao seu baixo padrão socioeconômico, podem acometer a autoestima desses sujeitos, que têm na catação sua única fonte provedora de sustento. Esse contexto reforça a exclusão social e potencializa os problemas decorrentes da desigualdade social enfrentada por tais sujeitos, considerando que o sentimento de valorização no trabalho traz reflexos importantes para a constituição da identidade do trabalhador. Conforme Trocoli e Moraes (2000) , as políticas públicas voltadas para a saúde e assistência social dessa parcela da população ainda são muito frágeis, pois desconsideram a realidade vivida por ela, o que amplia suas condições de vulnerabilidade.

Coelho e colaboradores (2016b) evidenciam que dificilmente os catadores associam as suas precárias condições de trabalho com adoecimento, relacionando a saúde com a ausência de doenças. Assim, nos questionamos em que medida os catadores percebem os riscos de complicações psicológicas diante do seu contexto de exclusão e possuem recursos para enfrentar essas situações. Isso nos faz pensar que, para essa camada da população, o trabalho se vincula à necessidade, fazendo com que esses sujeitos desconsiderem as condições em que ele é realizado.

Considerações finais

As relações entre a corporeidade e a saúde dos catadores envolvidos no estudo se mostraram amplas e complexas. Ao passo que o trabalho desses sujeitos é desgastante do ponto de vista físico, exigindo sobremaneira a corporeidade dos trabalhadores, ele se caracteriza como uma das poucas alternativas para a sua sobrevivência e a de suas famílias. Assim, a necessidade do trabalhar para prover o sustento se impõe em detrimento da saúde dos trabalhadores.

Nesse contexto, entendemos que a estigmatização social, o preconceito e as condições insalubres de trabalho dos catadores possam suscitar reflexões para esses sujeitos acerca de sua realidade. O cheiro desagradável dos materiais, o convívio com insetos e animais peçonhentos, as dores nas costas, a manipulação de materiais possivelmente cortantes ou contaminados certamente são fatores importantes que fazem esses sujeitos avaliarem sua permanência nesse trabalho. Porém, dado o cenário de vulnerabilidade socioeconômica, a gama de possibilidades de mudanças para eles é reduzida, tendo em vista que na associação, mesmo que de forma precária, garantem o sustento de suas famílias.

Este escrito teve como propósito trazer contribuições que fomentem as reflexões acerca da realidade desses atores. Compreendemos que há uma grande demanda em promover novos e aprofundados debates sobre fatores sociais que influenciam na vida, na saúde e nas condições de trabalho desses sujeitos. Em nosso entendimento, aspectos que podem ser explorados em estudos futuros incluem questões de gênero, uma vez que as mulheres representam uma parcela significativa dos profissionais nessa área. Nesse sentido, admite-se ainda que, em escala global, elas representam a parte da população que têm menos garantias de proteção no trabalho, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (2011) . Além disso, devem ser levados em conta aspectos relacionados à necessidade de atuação de órgãos competentes a fim de garantir condições adequadas de trabalho e saúde física e psicológica a esses atores. Podemos indagar o papel que as políticas públicas de saúde venham a desempenhar na transformação dessa realidade, assim como a atuação de outros setores da sociedade. São essas discussões imperativas que podem determinar o estabelecimento de novas políticas e ações inclusivas para essas coletividades, além da promoção de avanços, garantindo a integridade física e psicológica desses trabalhadores.

Referências

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2004. [ Links ]

ANTUNES, Ricardo; PRAUN, Luci. A sociedade dos adoecimentos no trabalho. Serviço Social e Sociedade, São Paulo, n. 123, p. 407-427, 2015. DOI: 10.1590/0101-6628.030. [ Links ]

ARANTES, Bruno O.; BORGES, Livia O. Catadores de materiais recicláveis: cadeia produtiva e precariedade. Arquivos Brasileiros de Psicologia , Rio de Janeiro, v. 65, n. 3, p. 319-337, 2013. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org.scielo.php?script=sci_arttex&pid=S1809-52672013000300002&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 1 maio 2019. [ Links ]

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo . Lisboa: Edições 70, 2011. [ Links ]

BRASIL. Ministério da Saúde. Doenças relacionadas ao trabalho: manual de procedimentos para serviços de saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. (Série A. Normas e manuais técnicos). [ Links ]

CARLOS, Ana F. A. O poder do corpo no espaço público: o urbano como privação e o direito à cidade. GEOUSP Espaço e Tempo , São Paulo, v. 18, n. 2, p. 472-486, 2014. DOI: 10.11606/issn.2179-0892.geousp.2014.89588. [ Links ]

COELHO, Alexa P. F. et al. Mulheres catadoras de materiais recicláveis: condições de vida, trabalho e saúde. Revista Gaúcha de Enfermagem , Porto Alegre, v. 37, n. 3, e57321, 2016a. DOI: 10.1590/1983-1447.2016.03.57321. [ Links ]

COELHO, Alexa P. F. et al. Risco de adoecimento relacionado ao trabalho e estratégias defensivas de mulheres catadoras de materiais recicláveis. Escola Anna Nery – Revista de Enfermagem, Rio de Janeiro, v. 20, n. 3, e20160075, 2016b. DOI: 10.5935/1414-8145.20160075. [ Links ]

DALE, Alana P.; DIAS, Maria D. A. A ‘extravagância’ de trabalhar doente: o corpo no trabalho em indivíduos com diagnóstico de LER/DORT. Trabalho, Educação e Saúde , Rio de Janeiro, v. 16, n. 1, p. 263-282, 2018. DOI: 10.1590/1981-7746-sol00106. [ Links ]

DE CASTRO, Matheus F. Saúde do trabalhador e economia solidária. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho , São Paulo, v. 22, n. 1, p. 65-80, 2019. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/cpst/article/view/154249>. Acesso em: 15 fev. 2020. [ Links ]

DOBRACHINSKI, Leandro; DOBRACHINSKI, Marilissa M. M. Condições de vida, trabalho e saúde dos catadores de materiais recicláveis do lixão de um município do oeste da Bahia. Hígia: Revista de Ciências da Saúde do Oeste Baiano, Barreiras, v. 1, n. 1, p. 18-45, 2016. [ Links ]

GOMES, Romeu. Análise e interpretação de dados de pesquisa qualitativa. In: DESLANDES, Suely F.; MINAYO, Maria C. S. (Orgs.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 30 ed. Petrópolis: Vozes, 2011. p. 79-108. [ Links ]

LE BRETON, David. A sociologia do corpo. 2. ed. Tradução Sônia M. S. Fuhrmann. Petrópolis: Vozes, 2007. [ Links ]

MACIEL, Fabrício; GRILLO, André. O trabalho que (in)dignifica o homem. In: SOUZA, Jessé (Org.). A ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009. p. 241-277. [ Links ]

MEDEIROS, Luiza F. R.; MACEDO, Kátia B. Catador de material reciclável: uma profissão para além da sobrevivência? Psicologia e Sociedade , Porto Alegre, v. 18, n. 2, p. 62-71, 2006. DOI: 10.1590/S0102-71822006000200009. [ Links ]

MIURA, Paula. Tornar-se catador: uma análise psicossocial. 2004. 165 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social)-Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2004. [ Links ]

MIURA, Paula; SAWAIA, Bader. Tornar-se catador: sofrimento ético político e potência de ação. Psicologia e Sociedade , Belo Horizonte, v. 25, n. 2, p. 331-341, 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttex&pid=S0102-71822013000200010&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 25 ago. 2018. [ Links ]

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Mulheres e saúde: evidências de hoje, agenda de amanhã. 2011. Disponível em: <https://www.who.int/eportuguese/publications/Mulheres_Saude.pdf?ua=1>. Acesso em: 16 fev. 2019. [ Links ]

PORTO, Marcelo F. S. et al. Lixo, trabalho e saúde: um estudo de caso com catadores em um aterro metropolitano no Rio de Janeiro, Brasil. Cadernos de Saúde Pública , Rio de Janeiro, v. 20, n. 6, p. 1503-1514, 2004. DOI: 10.1590/S0102-311X2004000600007. [ Links ]

SAWAIA, Bader. As artimanhas da exclusão. Petrópolis: Vozes, 1999. [ Links ]

SOUSA, Cleide M.; MENDES, Ana M. B. Viver do lixo ou no lixo? A relação entre saúde e trabalho na ocupação de catadores de material reciclável cooperativados no Distrito Federal – estudo exploratório. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, Florianópolis, v. 6, n. 2, p. 13-41, 2008. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/rpot/article/view/1105>. Acesso em: 21 abr. 2017. [ Links ]

TROCOLI, Márcia J. M.; MORAES, Luiz R. S. Política Nacional de Resíduos Sólidos (Brasil): buscando um ideal ou identificando as limitações? In: CONGRESSO INTERAMERICANO DE ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL, 27, Porto Alegre, 2000. Anais... Porto Alegre: Abes, UFRGS, 2000. Disponível em: <http://www.bvsde.paho.org/bvsaidis/saneab/ix-010.pdf>. Acesso em: 20 abr. 2019. [ Links ]

Apresentação prévia

Este artigo é resultante da Dissertação de Mestrado Interdisciplinar em Ciências Humanas, da Universidade Federal da Fronteira Sul, intitulada O trabalho dos catadores de materiais recicláveis e sua tessitura na relação com o espaço: um estudo na cidade de Erechim (RS), de autoria da primeira autora sob orientação da segunda, desenvolvida em 2018.

Financiamento

Não há.

Recebido: 18 de Dezembro de 2019; Aceito: 21 de Maio de 2020

Contribuição dos autores

Concepção do estudo, análise dos dados, aprovação da versão final: CB, IMMS. Pesquisa de campo, coleta dos dados, redação da primeira versão do manuscrito: CB.

Conflito de interesses (declarar potenciais)

As autoras declaram que não há conflitos de interesse.

Creative Commons License  This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.