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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

versão impressa ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.2 no.2 Belém ago. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222007000200002 

INTRODUÇÃO

 

 

Ana Vilacy GalucioI; Pieter MuyskenII

IMuseu Paraense Emílio Goeldi
IIUniversidade Radboud de Nijmegen

 

 

Este volume é um dos resultados finais do projeto de colaboração chamado Exploring the Linguistic Past: Historical Linguistics in South America, que envolveu três instituições, o Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém (Pará, Brasil), a Universidade de Oregon, em Eugene (Oregon, Estados Unidos), e a Universidade Radboud de Nijmegen (Nijmegen, Países Baixos), e foi apoiado principalmente pela Fundação Neerlandesa para Pesquisa Científica (NWO).

Outros resultados em termos de publicação, além do presente volume, incluem uma edição especial do International Journal of American Linguistics, editado por Spike Gildea e Ana Vilacy Galucio (em preparação), e uma coletânea de artigos em forma de livro, editado por Denny Moore e Hein van der Voort1.

O projeto de colaboração foi inspirado pelo crescente e renovado interesse nas relações históricas entre as línguas e as famílias de línguas da América do Sul. Nas últimas duas ou três décadas, o conhecimento disponível sobre línguas sul-americanas aumentou consideravelmente. No Brasil, há cerca de 154 línguas indígenas faladas2. Baseado, em parte, em uma estimativa de Franchetto3, Moore (2007) descreve a seguinte situação para o grau de estudo dessas línguas no ano 2000: 9% das línguas possuía descrição completa, 23% tinha uma tese de doutorado ou muitos artigos, 40% tinha uma dissertação de mestrado ou alguns artigos, e 28% possuía praticamente nada de relevância científica. Esta situação mostra uma melhora considerando-se uma escala temporal maior, mas ainda há muito a ser feito - para 68% das línguas existe pouco ou nenhum estudo.

Contudo, há mais informação disponível agora do que jamais houve. Em outros países, também, cada vez mais trabalhos estão sendo realizados, como as descrições de línguas colombianas publicadas pelo CCELA, em Bogotá, e os projetos em curso para a documentação de um certo número de línguas menos conhecidas na Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru e Equador. O momento é propício para o empenho de esforços histórico-comparativos mais proveitosos, conduzindo, assim, a uma melhor compreensão da lingüística pré-histórica da América do Sul.

O objetivo principal do nosso projeto de cooperação foi criar um fórum para o intercâmbio de informações, resultados e idéias sobre a pré-história lingüística da América do Sul. Com este propósito, especialistas em várias famílias de línguas e/ou línguas isoladas, das instituições participantes (entre as quais há uma relação cooperativa de longa data), participaram de longos workshops (um por ano, durante três anos, promovidos por cada uma das instituições participantes) para tentar integrar seus atuais resultados de pesquisa com os de seus colegas, visando, assim, chegar a um quadro global. Além de lingüistas, especialistas de outras áreas (arqueólogos e antropólogos) também foram convidados, de modo que outros conhecimentos, além do lingüístico, pudessem ser abordados e inseridos nas discussões dessa temática. A idéia básica é que a quantidade de conhecimento existente nos vários aspectos da pré-história sul-americana, embora ainda limitada e em necessidade de expansão, é suficiente para uma primeira tentativa frutífera de integração.

Dois workshops e uma conferência foram realizados durante o período de 2003 a 2005, organizados pelas instituições participantes, de acordo com o seguinte programa:

2003 Universidade Radboud de Nijmegen e Universidade de Leiden (Países Baixos/Holanda)
2004 Universidade de Oregon (EUA)
2005 Museu Paraense Emílio Goeldi e Universidade Federal do Pará (Brasil)

Os proveitosos encontros na Holanda (em Leusden e Leiden, consecutivamente) serviram para esboçar um número de questões atuais, especialmente vínculos entre algumas das maiores famílias de línguas amazônicas, assim como entre estas e as línguas andinas. Isso resultou em um certo número de colaborações e projetos piloto.

A reunião em Oregon, um pouco menor, foi dominada por questões a respeito da putativa macro Família Tu-Ka-Jê (Tupi, Carib, Jê), em grande parte porque sete das nove apresentações tratavam de línguas que pertencem a Macro-Jê, Tupi e Carib. Durante este evento, a qualidade do trabalho em progresso levou-nos a considerar que talvez pudéssemos ganhar um amplo conjunto de leitores selecionando alguns destes artigos e propondo a publicação em uma edição especial de uma revista, como a edição do International Journal of American Linguistics - IJAL, atualmente em preparação.

O último encontro, em Belém - Simpósio Internacional de Lingüística Histórica na América do Sul -, foi mais ambicioso, reunindo um grupo maior de pesquisadores, particularmente de disciplinas adjacentes, incluindo arqueologia, antropologia e biologia. Neste evento, foi possível uma proveitosa interação de pesquisadores e estudantes de várias instituições nacionais e internacionais, desenvolvendo pesquisas sobre as relações lingüísticas e a pré-história da ocupação humana na América do Sul.

Entre as principais conclusões do Encontro, destaca-se a evidência de que rápidos avanços podem ser obtidos se houver colaboração entre pesquisadores. Por meio de disciplinas relacionadas, podemos alcançar um elaborado nível de entendimento da ocupação humana pré-histórica nas Américas e de seu desenvolvimento histórico. Portanto, a reunião de pesquisadores de diferentes áreas neste encontro foi essencial para fortalecer a interação e as possibilidades de cooperação.

 

Os artigos do presente volume

Este volume contém uma seleção dos trabalhos apresentados no encontro de Belém.

O artigo Is Greenberg's "Macro-Carib" viable?, de Spike Gildea e Doris Payne, reavalia, à luz de dados que recentemente tornaram-se disponíveis, a hipótese de Greenberg4 de que há um agrupamento Macro-Carib. Os autores concluem que a família postulada por Greenberg não pode ser aceita nem com base em dados morfológicos, nem com base em comparações lexicais.

O artigo On the Tupi-Guaranian prehistory of the Siriono verb, de Roland Hemmauer, argumenta que, apesar do sistema verbal de Siriono ser morfossintaticamente muito diferente dos sistemas de outras línguas Tupi-Guarani, ele ainda pode ser reconstruído diretamente a partir do sistema do Proto-Tupi-Guarani.

O artigo de Rafael Nonato e Filomena Sandalo, Uma comparação gramatical, fonológica e lexical entre as famílias Guaikurú, Mataco e Bororo: um caso de difusão areal?, apresenta uma comparação entre essas famílias lingüísticas a fim de avaliar se algumas características que compartilham podem ser creditadas a relacionamento genético ou se seriam um caso de difusão areal. Os autores concluem que a comparação lexical aponta para um caso de difusão por empréstimo, mas que outras propriedades morfossintáticas justificam a necessidade de mais pesquisas nessa área antes de se descartar a hipótese de uma origem comum para essas famílias de línguas.

O artigo de Ana Paula Brandão e Sidi Facundes, Estudos comparativos do léxico da fauna e flora Aruák, examina itens lexicais nas línguas Aruák, Apurinã, Piro e Iñapari, e estabelece cognatos pertinentes ao campo semântico da fauna e da flora. Pela análise, várias conclusões interessantes sobre a história e classificação destas línguas podem ser tiradas.

O artigo de Hein van der Voort, Proto-Jabutí: um primeiro passo na reconstrução da língua ancestral dos Arikapú e Djeoromitxí, fornece uma reconstrução preliminar do Proto-Jabutí, com base em novos resultados a respeito de duas línguas Jabuti, Arikapú e Djeoromitxí, com o objetivo de futuramente ligar esta proto-família reconstruída à unidade maior Macro-Jê.

Todos os artigos mostram como, com uma metodologia previamente estabelecida, avanços consideráveis podem ser feitos para estabelecer a pré-história lingüística da América do Sul.

 

Agradecimentos

Esta introdução é baseada, em parte, nos relatórios feitos por Hein van der Voort e Spike Gildea. O projeto de colaboração só foi possível devido a generosas concessões da Nederlandse Organisatie voor Wetenschappelijk Onderzoek (NWO), nº. 235-70-002; das Universidades de Leiden e Nijmegen (Holanda/Países Baixos); do Department of Linguistics e da Associate Dean for Humanities, University of Oregon (Eugene, Estados Unidos); do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), nº. 451675/05-3; da Secretaria Executiva de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Pará (SECTAM), nº. 024/2005; da Universidade Federal do Pará (UFPA); da Fundação Instituto para o Desenvolvimento da Amazônia (FIDESA); da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP); e, por último mas não menos importante, do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG, Belém).

Agradecemos aos autores que trabalharam conosco e fizeram possível esta publicação e aos revisores aos quais os artigos deste volume foram submetidos.

 

 

1 Moore, Denny; Voort, Hein van der (Eds.). Amazonian linguistic stocks and their prehistory. (to appear).
2 Moore, Denny. Endangered languages of lowland tropical South America. In: Brenzinger, Matthias (Ed.). Language Diversity Endangered. Berlin: Mouton de Gruyter, 2007. p. 29-58.
3 Franchetto, Bruna. O conhecimento científico das línguas indígenas da Amazônia no Brasil. In: Queixalós, Francisco; Renault-Lescure, Odile (orgs.). As línguas amazônicas hoje. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2000.
4 Greenberg, Joseph. Language in the Americas. Stanford: Stanford University Press, 1987.

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