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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.2 no.2 Belém Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222007000200006 

ARTIGOS

 

Estudos comparativos do léxico da fauna e flora Aruák

 

Comparative studies on the Arawak lexicon of fauna and flora

 

 

Ana Paula BrandãoI; Sidi FacundesII

IUniversidade Federal do Pará. Museu Paraense Emílio Goeldi. Bolsista. Belém, Pará, Brasil (warirei@yahoo.com.br)
IIThammasat University. Professor Visitante. Universidade Federal do Pará. Professor Adjunto. Belém, Pará, Brasil (sfacundes@gmail.com)

 

 


RESUMO

As línguas Apurinã, Piro e Iñapari, membros da família lingüística Aruák, são inicialmente comparadas com base nos dados utilizados na reconstrução de Payne (1991), e nas correspondências fonológicas apresentadas em Facundes (2000, 2002). A partir das evidências de agrupamento dessas três línguas, cognatos especificamente relacionados à fauna e flora Aruák são estabelecidos. Utilizando-se dos resultados encontrados na comparação, três questões são examinadas: o que as retenções lexicais indicam sobre o lugar dessas línguas dentro da família Aruák? Com base nos cognatos identificados, quais conceitos da flora e fauna provavelmente podem ser reconstruídos para estágios anteriores no desenvolvimento dessas três línguas a partir de uma língua ancestral? E, finalmente, quais inferências podem ser feitas sobre o passado desses povos com base na semântica da fauna e flora reconstruída?

Palavras-chave: Aruák. Apurinã. Piro. Iñapari. Fauna. Flora.


ABSTRACT

Apurinã, Piro and Iñapari, members of the Arawak linguistic family, are initially compared on the basis of the data used by Payne (1991) for the Arawak linguistic reconstruction, and of the phonological correspondences presented in Facundes (2000, 2002). Based on the evidence of subgrouping that emerges from this comparison, cognates pertinent to the semantic field of fauna and flora are established. The results are then used to examine three issues: what do lexical retentions say about the internal classification of these languages in the family? What cognates are likely to be reconstructable to an earlier stage in the evolution of these languages? And, finally, what inferences can be made about the past of these peoples on the basis of the reconstructable semantics of fauna and flora?

Keywords: Arawak. Apurinã. Piro. Iñapari. Fauna. Flora.


 

 

INTRODUÇÃO

O objetivo do trabalho é apresentar resultados preliminares do estudo histórico-comparativo dos itens da fauna e flora nas línguas Apurinã, Piro e Iñapari, línguas pertencentes à família Aruák. Para isso, partimos da proposta de Facundes (2000, 2002) de reconstruir aspectos de um estágio anterior ao surgimento dessas três línguas.

Primeiro, resumiremos a atual situação da classificação da família Aruák. Em seguida, discutiremos sobre o subagrupamento Apurinã-Piro-Inãpari (API). Adiante, examinaremos os cognatos identificados para a fauna e flora API. Por fim, examinaremos algumas possíveis implicações da reconstrução da fauna e flora para o conhecimento da proto-cultura e pré-história Aruák.

A família Aruák e o subagrupamento Apurinã-Piro-Iñapari

Ainda que o grupo lingüistico Aruák seja conhecido desde 1782, quando o missionário Filippo Salvadore sugeriu um grupo genético denominado Maipure (Noble, 1965), problemas tais como a classificação interna e origens continuam sem reposta conclusiva. Como atesta Ramirez (2001), pouco se sabe sobre a origem da dispersão geográfica de um dos povos nativos da América com maior expansão, desde as Bahamas ao norte até o Paraguai ao sul e dos Andes a oeste até a foz do rio Amazonas ao leste. Atualmente a população da família Aruák é de mais de 400 mil pessoas ao todo e são um pouco menos de 30 línguas Aruák que permanecem vivas e faladas até hoje, com uma distribuição predominantemente no ocidente do continente. Sobre sua origem geográfica, há dúvidas se elas teriam como origem a parte setentrional do rio Amazonas, região do Alto Valpés, como afirma Lathrap (1975), ou uma área mais ao sudoeste, no Peru.

Entre os trabalhos histórico-comparativos recentes mais importantes na área estão os de Payne (1991), Aikhenvald (1999) e Ramirez (2001), que apresentam estudos sobre a reconstrução lingüística do Proto-Aruák e a classificação interna da família Aruák. Um panorama dos estudos Aruák é apresentado em Facundes e Brandão (no prelo). A maioria dos demais trabalhos comparativos sobre Aruák que precederam Payne (1991), incluindo Matteson (1972), não segue os passos do método histórico-comparativo.

O foco deste trabalho são as línguas Apurinã e Piro, faladas na região da bacia do Purus, e a língua Iñapari, falada no sul da Amazônia peruana. Os falantes de Apurinã estão localizados no estado do Amazonas. A população apurinã é superior a 2.000 pessoas, das quais menos de 30% falam a língua. Segundo Matteson (1994), os Piro se autodenominam Yine, que quer dizer 'gente'. Os Piro vivem no Peru e possuíam uma população de 1.263 pessoas (sendo que o censo incluía todos aqueles que falavam a língua) em 1981. O outro subgrupo que também se autodenomina Yine são os Manxineri, que ocupam a região sul do estado do Acre (Amazônia Ocidental), no Brasil. Batista e Roquete Pinto (apud Gonçalves, 1991) chegaram a sugerir que "[o]s índios Catiana ou Maneteneris forma[va]m uma horda da tribo dos Ipurinás, habitantes da bacia do alto Purus". Gonçalves (1991) afirma, ainda, que os Manxineri habitavam as margens do rio Purus num ponto entre as bocas dos rios Hyacú e Aracá, até a foz do rio Curinahá. Iñapari conta com apenas quatro falantes localizados no povoado Sabaluyo, Rio Piedras, próximo a Puerto Maldonado (Parker, 1999).

Entre as classificações de línguas Aruák que citam essas três línguas, Apurinã, Piro e Iñapari têm sido consistentemente agrupadas dentro do ramo pré-andino da família, geralmente dentro de um subramo e acompanhadas ou não de Chontaquiro, Mashco-Piro ou de línguas Campa, do Peru (Rivet; Schmidt; Loukotka; Mason apud Noble, 1965; e, mais recentemente, Aikhenvald, 2001; Payne, 1991; Valenzuela, 1991). Das mais recentes publicações que apresentam classificações completas de Aruák (Aikhenvald, 1999; Payne, 1991; Ramirez, 2001), apenas Payne apresenta os dados que justificam a inclusão de Apurinã e Piro em um mesmo subramo (junto com Iñapari), mas sem citar dados de Iñapari. Ramirez apresenta a lista de Swadesh para Apurinã e Piro, também sem citar dados de Iñapari e sem identificar as correspondências fonológicas ou uma análise que determine o status de cognatos dos dados apresentados.

Em sua tentativa de identificar Iñapari como pertencente à família Aruák com base em retenções lexicais, Valenzuela (1991) apresenta os cognatos e respectivas correspondências que justificam a sua análise e, como resultado, identifica maior compartilhamento lexical entre Iñapari e línguas do grupo pré-andino. A comparação feita por Valenzuela restringiu-se ao Iñapari e às línguas pré-andinas Apurinã, Piro e Asheninka, de um lado, e às línguas não pré-andinas Bauré e Ignaciano, de outro. Como resultado dessa comparação, Iñapari compartilhou 36 cognatos com Piro, 27 com Apurinã, 25 com Asheninka, 27 com Bauré e 18 com Ignaciano. Com base na média superior de itens compartilhados com as línguas pré-andinas (53) em comparação à média de itens compartilhados com línguas não pré-andinas (38), Valenzuela concluiu ter confirmado a inclusão de Iñapari dentro do ramo pré-andino.

Portanto, o trabalho de Valenzuela constitui, até a presente data, a principal evidência em favor de um ramo Aruák que incluiria Apurinã, Piro e Iñapari, ainda que a sistematicidade das correspondências identificadas naquele trabalho necessitem de confirmação, e os próximos estágios da comparação (reconstrução dos proto-fonemas, identificação de inovações compartilhadas e reconstrução de itens lexicais e gramaticais) ainda precisem ser executados. De modo a verificar se os compartilhamentos lexicais de fato apontam para um subramo incluindo essas três línguas, foi realizada uma nova comparação dessas três línguas a outras línguas Aruák. Os dados de Iñapari são totalmente independentes daqueles utilizados por Valenzuela, pois procedem de fonte mais atualizada e amplamente mais detalhada, nomeadamente Parker (1995, 1999), em que, ao invés de apenas uma pequena lista de palavras, há um vocabulário com 1.238 itens lexicais, além de informações básicas sobre a morfologia e fonologia da língua. Além disso, ao invés de serem comparados os dados das três línguas a duas ou três línguas pré-andinas e não pré-andinas, todas as 24 línguas que fizeram parte do trabalho comparativo de Payne (1991) foram incluídas na comparação. Finalmente, não nos restringimos à lista de Swadesh nesta comparação, pois foram utilizados os mesmos dados também utilizados por Payne, mas atualizados em relação a Piro e Apurinã e acrescidos dos dados de Iñapari. Os dados atualizados para Apurinã e Piro e os dados acrescidos para Inãpari estão listados no Apêndice; já os cognatos para as outras línguas Aruák não são listados neste trabalho devido a restrições de espaço, mas podem ser encontrados em Payne (1991).

Entre os dados de Apurinã, Piro e Iñapari, foram determinados os cognatos a partir das correspondências fonológicas mais robustas identificadas em Facundes (2000, 2002), esperando, desse modo, eliminar possíveis casos de empréstimos entre línguas Aruák. Com isso, pretendemos obter uma nova comparação com base nos conjuntos de cognatos, sobre os quais o grau de confiabilidade é o mais elevado possível, considerando o estado atual dos estudos Aruák. A análise comparativa preliminar das correspondências entre essas três línguas, na qual este trabalho é baseado, é resumida na Tabela 1 (excetuando-se a Tabela 7, onde a transcrição usada nas fontes consultadas é preservada, os dados nessa Tabela e ao longo do artigo tiveram a sua transcrição unificada, fazendo uso do IPA). Os proto-fonemas apresentados na Tabela 1 constituem uma primeira tentativa de estabelecer de forma sistemática as correspondências fonológicas entre Apurinã, Piro e Iñapari, reconstruindo suas proto-formas. Sozinhas, essas correspondências não podem ser usadas para postular o Proto-Apurinã-Piro-Iñapari, pois ainda não dão conta de todas as correspondências encontradas nos dados da Tabela 2 e carecem do suporte de dados de outras línguas Aruák e da identificação de inovações compartilhadas por essas três línguas e ausentes nas demais línguas Aruák. Para avaliação mais detalhada e revisão dessa reconstrução, ver Facundes e Brandão (no prelo), em que as correspondências não explicadas pela proposta atual de reconstrução do quadro de proto-fonemas são discutidas.

A Tabela 2 lista os números correspondentes às retenções lexicais para 25 línguas Aruák. Nosso interesse é em relação a o que esses números sugerem sobre a distância entre as línguas Apurinã, Piro e Iñapari das demais línguas Aruák. Em relação a essas três línguas, resumimos na Tabela 3 as informações que consideramos mais relevantes. Apurinã, Piro e Iñapari apresentam média de compartilhamento de cognatos entre si de 48% da lista de 203 itens reconstruídos por Payne (Apurinã-Piro 56%, Piro-Iñapari 45% e Iñapari-Apurinã 42%). Asheninka é a quarta língua que mais compartilha cognatos com as três primeiras línguas (42% com Piro, 39% com Apurinã e 34% com Inãpari), com média de 38%. No entanto, enquanto a predominância de compartilhamento envolvendo Apurinã-Piro-Iñapari é mútua (isto é, Apurinã compartilha mais cognatos com Piro e Inãpari do que com outras línguas, Piro compartilha mais cognatos com Apurinã e Iñapari do que com outras línguas, e Iñapari compartilha mais cognatos com Piro e Apurinã do que com outras línguas), o mesmo não acontece com Asheninka. Asheninka compartilha mais cognatos com Machiguenga (49%) do que com Apurinã, Piro ou Iñapari. Quanto às demais línguas, elas compartilham itens lexicais com Apurinã, Piro e Iñapari em números significativamente menores. A partir desses números, podemos concluir que a comparação envolvendo as 203 séries de cognatos utilizadas na reconstrução proposta por Payne reforça a possibilidade de Apurinã-Piro-Iñapari formarem um subramo da família Aruák, independentemente de fazerem parte ou não de um ramo intermediário maior (como o pré-andino).

Ao longo deste trabalho, ao examinar fauna e flora em Aruák, concebemos o subramo API como uma working hypothesis que nos permitirá explorar a semântica da fauna e flora de um estágio ancestral de API, pois a reconstrução completa das formas lexicais, cuja semântica está sendo examinada, ainda está em construção e evidências conclusivas sobre a legitimidade do Proto-Apurinã-Piro-Iñapari (P-API) ainda precisam ser apresentadas. Isso significa que as informações reconstruídas para P-API podem se referir tanto ao Proto-Apurinã-Piro-Iñapari propriamente (caso o ramo API seja legitimado através da reconstrução de sua fonologia e da determinação de inovações específicas desse grupo) quanto a algum estágio mais recente de Pre-Apurinã-Piro-Iñapari, isto é, um momento histórico que antecede a formação das línguas Apurinã, Piro e Iñapari, mas que não necessariamente atinge a língua ancestral da qual Apurinã, Piro, Iñapari (e talvez outras línguas Aruák) tenham sido derivadas.

A fauna e flora de API

Os dados utilizados na pesquisa sobre a fauna e flora API foram coletados em várias visitas ao campo entre os Apurinã, em uma visita entre os Manxineri, além de fontes tais como a gramática de Apurinã (Facundes, 2000), o dicionário da fauna e flora Apurinã (Brandão; Facundes, 2005), a gramática de Piro (Matteson, 1965), o dicionário Piro (Nies, 1986) e um vocabulário da língua Iñapari (Parker, 1995). De um total de 217 possíveis cognatos identificados para API, apenas 57 são compartilhados pelas três línguas (Tabela 4). Desses 217 possíveis cognatos, quase 70% são compartilhados por Apurinã e Piro, um número muito elevado para ser explicado apenas pela disponibilidade maior de dados para essas duas línguas. Esses dados confirmam a proximidade maior, em termos do léxico, entre Apurinã e Piro, já apontada na comparação feita acima a partir da lista de Payne (1991).

 

 

 

Tabela 5

 

Na Tabela 6, listamos as séries de cognatos apenas entre duas das línguas. Na ausência de evidências de empréstimos, a forma não-cognata para o conceito 'água' (item 1) em Apurinã pode ser inovação lexical dessa língua, pois nenhuma forma cognata a esse termo em Apurinã aparece em outras línguas Aruák (Tabela 7).

No item 9, 'cupim', da Tabela 6, podemos dizer que a forma existiu no P-API e pode ter sido perdida em Iñapari, pois há cognatos para esse termo em outras línguas Aruák. Uma segunda possibilidade é que a forma não-cognata seja empréstimo de outra língua, mas cuja verificação requer uma pesquisa mais ampla envolvendo dados de outras línguas da região. Como exemplo de possível empréstimo de línguas Arawá, temos a forma reconstruída em Proto-Arawá *kimi 'milho' (Dixon, 2004), com cognato apenas em Apurinã (item 3 da Tabela 6). Enquanto nas outras duas línguas estudadas as formas são cognatas, mas diferentes desta.

Os dados de outras línguas Aruák listados na Tabela 7 (retirados de Payne (1991), Aikhenvald (2001), Ati'o et al. (2000) e Huber e Reed (1992)) ilustram os cognatos mantidos para 'água', 'lago', 'tartaruga', 'espécie de formiga' e 'cupim' nas 25 línguas comparadas, acompanhados das reconstruções propostas por Payne. Tais dados demonstram a existência de lacunas para alguns termos referentes a certos elementos da fauna e flora em várias dessas línguas, o que pode indicar que os seus falantes inovaram ou deixaram de expressar tais referentes. É possível que uma descrição detalhada dessas perdas ou inovações (além do que propomos fazer neste trabalho) revele informações sobre o trajeto percorrido pelos diferentes grupos Aruák, falantes dessas línguas. Um breve exame exploratório disso é apresentado em seguida especificamente em relação a API.

As migrações pré-históricas dos povos Aruák

Através do método Paleolingüístico, isto é, através da identificação de "itens lexicais comuns compartilhados pelas línguas comparadas e estabelecimento de um proto-léxico" (Fox, 1995, p. 306), a reconstrução lingüística permite fazer inferência sobre a história do povo que falou aquela língua. Há pelo menos duas técnicas usadas para fazer inferências sobre o ponto de origem/dispersão, ou seja, sobre o lugar onde os falantes da proto-língua viviam: uma que se utiliza da reconstrução do vocabulário da fauna e flora e a denominada teoria da migração lingüística (Campbell, 1999). Na primeira técnica, ao descobrirmos, com a ajuda da paleontologia, as distribuições de plantas e animais (cujos termos foram reconstruídos) no período em que foi falada a proto-língua, podemos traçar um mapa e verificar os indícios do ponto de origem/dispersão da mesma.

Com relação à pré-história dos povos Aruák, uma questão muito discutida é sobre sua dispersão, ainda bastante incerta. Heckenberger (2002, p. 106) afirma que "Archaeology suggests that after the Arawak began to split up, probably sometime before 3000 B.P. [...], early pioneer groups moved rapidly throughout floodplain areas of the Orinoco (by c. 1000-B.C.) and, from there, up and down the Amazon [...]" . Assim, a maior parte das evidências aponta para o noroeste amazônico, em áreas nas margens de rios, entre o Solimões (no Brasil) e o médio Orinoco (na Venezuela). Os povos Aruák, ao contrário de outros grupos, têm uma antiga relação com rios, canoas e transportes fluviais (Granero, 2002, p.28).

No caso dos povos Apurinã e Piro, Gow (2002, p. 159) lança a hipótese de que

some of the Piro-Apurinã moved out of northern Bolivia, north toward the Purús River, where they began the process of differentiation that led to the contemporary differences between Piro and Apurinã. Some of the ancestral Piro moved west into the Purús headwaters and thence, following the many portage points, into the Yuruá, Manús, and Urubamba rivers.

A outra hipótese seria a de Urban (1992), segundo a qual "The Matsiguenga, Asháninka-Campa and Piro would have remained close to their geographical origin, and the Apurinã would have penetrated into the lowlands of the Purús".

Urban (1992) se utiliza da teoria da migração (que tem por base a classificação da família e a distribuição geográfica das línguas, considerando que a área onde há grande diversidade lingüística e o mínimo de dispersão é provavelmente o ponto de origem), para indicar a área peruana como ponto de dispersão da família Aruák: "partindo da regra de que a área geográfica que contém a maior diversidade lingüística é provavelmente a zona de origem, a área peruana se apresenta como o possível local de dispersão do ramo Maipure dos Arawak".

A primeira hipótese sobre a dispersão dos povos Arúak é reforçada pelos poucos termos até então reconstruídos para Proto-Aruák (mandioca, batata-doce e jacaré). A presença de jacaré é normalmente associada a grandes rios. A reconstrução de Payne coincide com os possíveis cognatos encontrados aqui para o API. Outros termos apresentados neste trabalho, para elementos específicos da Amazônia, incluem 'açaí', 'castanha', 'tambaqui', 'cacau da várzea', os quais sugerem também que esses povos Aruák viviam à beira de rio.

Encontramos o termo para 'rede' em API (apesar de este aparecer apenas em mitos em Piro, segundo Gow (2002)) e não o termo para 'cama'. Esta informação permitiu inferir que os Piro abandonaram o hábito de dormir em rede, diferentemente dos outros grupos, ao irem à direção dos Campa e Matsiguenga, onde adquiriram o hábito de dormir em cama. Sendo assim, as evidências apontam que os povos API descendem de um povo pré-histórico que vivia na Amazônia. Os Piro teriam se afastado dos outros dois e se deslocado em direção ao Peru, aproximando-se dos grupos Campa, já que Apurinã se localiza no meio da Amazônia e Iñapari na fronteira, ainda na Amazônia. Essa hipótese reforça a proposta de Gow sobre a migração dos Piro.

Outro dado histórico interessante que encontramos é sobre a semelhança entre as confecções de roupas e redes dos Manxineri e dos bolivianos em relatos segundos os quais os Manxineri "tecem o algodão para confecção de roupas e redes muito semelhantes às usadas pelos bolivianos que descem o Madeira" (Gonçalves, 1991). Os Manxineri seriam um subgrupo dos Piro que teria retornado ao Brasil após a emigração dos seus ancestrais, ou permanecido aqui, mas mantido contato com os Piro.

Tanto na reconstrução do vocabulário da fauna e flora como na teoria da migração lingüística é necessário precaução. Uma das dificuldades com a aplicação desses métodos é que a existência de aparentes cognatos nas línguas aparentadas não implica necessariamente a sua presença na proto-língua, como no caso dos empréstimos entre línguas aparentadas. Pode, ainda, ocorrer também de grupos migrarem para zonas geográficas onde a fauna e a flora do lugar de origem não sejam mais encontradas e, com isso, perderiam-se os termos que se referiam a esses itens e, erroneamente, poderíamos inferir que não existia tal conceito na proto-língua. Outra dificuldade diz respeito a estabelecer significados dos termos na proto-língua, o que requer estudo minucioso das mudanças semânticas, como pode ser visto na próxima seção.

A observação de empréstimos, de nomes de lugares e de povos também, pode nos dar outras informações sobre a pré-história, em especial sobre os contatos entre os povos. Como vimos anteriormente, ainda é muito pouco o que sabemos sobre empréstimos dentro da família. O mesmo se aplica à toponímia.

Mudanças semânticas

As mudanças semânticas aqui apresentadas se referem à fauna e flora API. Antes de apresentar a análise de alguns dados, faremos uma breve observação sobre os significados encontrados para os termos em cada língua. O dicionário da fauna e flora Apurinã oferece informações mais descritivas e detalhadas (glosa, definição científica, informação enciclopédica e nome científico) a respeito dos animais e plantas do que os outros trabalhos. Matteson coloca em suas traduções uma glosa geral que apenas identifica se é, por exemplo, um tipo de peixe ou ave, e dá, às vezes, uma descrição sobre o animal ou planta; já Parker não fornece descrições, e ambos fornecem, em alguns casos, alguma informação científica. Assim, a fim de verificar se se tratavam das mesmas espécies, tivemos que procurar a identificação das espécies nas línguas Piro e Iñapari pelo nome científico ou através das descrições. Além disso, houve um cuidado em verificar as traduções das palavras nessas línguas, já que consultamos os vocabulários Piro-English e Iñapari-Español.

Um exemplo da mudança semântica é o item 2 da Tabela 4, em que temos os significados 'macaco prego' em Apurinã e em Piro, mas em Iñapari a possível forma cognata é dada para o 'mono-machín', tradução para o português 'cairara'. Ocorre que não há a espécie de macaco-prego, Cebus apella, na região do rio Las Piedras, no Peru, e por isso o nome em Iñapari deve designar a espécie 'cairara', que também é da família Cebidae. Assim, podemos dizer que, no P-API, o significado era macaco-prego e com a migração do povo Iñapari para o Peru, por não existir a espécie, houve uma substituição do significado do termo para nomear outro macaco da mesma família. Uma outra hipótese é que o significado no P-API é geral para 'macaco' e que passou a designar determinada espécie em cada língua. Esta última hipótese equivaleria ao que ocorre com o nome 'taia', que em Apurinã quer dizer 'pirarara', mas em Piro se refere a 'um tipo de pacu com serras, semelhante à pirarara', pois, segundo informações fornecida pelos Piro, não há pirarara naquela região do rio Yaco.

A série de cognatos do item 5 da Tabela 4 também é interessante para nossos estudos semânticos. A palavra que em Apurinã significa tanto 'aricuri' como 'um tipo de rato', nas outras duas línguas apenas significa rato que se alimenta dessa fruta. Dessa forma, o significado em P-API era 'rato', e o significado 'aricuri' em Apurinã seria inovação semântica nesta língua. A forma reconstruída para o Proto-Aruák por Payne para o conceito 'rato' é diferente dos possíveis cognatos encontrados em API, o que pode indicar um caso de inovação lexical compartilhada atestado nestas línguas e reconstruível em P-API.

Encontramos mais um caso interessante no item 24 da Tabela 4, que mostra três significados diferentes para possíveis cognatos. Em Apurinã temos 'tartaruga' (como nas demais línguas Aruák, a exemplo de Baure e Asheninka), em Manxineri 'tracajá' e 'tartaruga, jabuti' em Iñapari. Com base na informação fornecida pelas outras línguas da família, podemos dizer que o significado em P-API era 'tartaruga' e em Piro e Iñapari o significado passou a ser o de 'tracajá' e 'jabuti', pois a tartaruga (Podocnemis expansa) não tem distribuição no Peru.

 

CONCLUSÃO

Ao contrário dos principais trabalhos comparativos sobre a família, nossa pesquisa utiliza o método bottom up ao invés do top down, tentando identificar ramos mais baixos dentro da árvore genealógica da família ao invés dos ramos mais amplos. A pesquisa objetivou contribuir para a reconstrução do P-API (ou outro nome que Pré-API possa receber mais tarde), pois apresentou novos dados (conjuntos de cognatos) que são relevantes para a reconstrução fonológica já existente e que ajudaram a fazer algumas inferências sobre a pré-história Aruák. Não foi nosso objetivo apresentar a reconstrução fonológica ou gramatical envolvendo as línguas Aruák pesquisadas, ainda que dados importantes para essa reconstrução tenham sido apresentados e são examinados com mais detalhes em Facundes e Brandão (no prelo). Nossos resultados ainda não são conclusivos, mas com eles pretendemos indicar a necessidade de mais pesquisas desse tipo dentro da família e ilustrar maneiras de como tais pesquisas podem ser desenvolvidas. A fauna e flora reconstruída é típica da região amazônica. Alguns animais e plantas indicam proximidade a grandes rios e várzea. Disso pode-se inferir um movimento dos Piro se afastando do sudoeste amazônico, indo em direção aos grupos Campa e Pano. Isso significaria que o grupo que deu origem a Apurinã, Piro e Iñapari dividiu-se no sudoeste amazônico, possivelmente próximo à fronteira em Brasil, Peru e Bolívia. Os Manxineri podem ser um subgrupo de Piro que permaneceu próximo ao ponto de dispersão ou a ele retornou. Isso explicaria porque os Piro usam cama (Gow, 2002), enquanto os Manxineri apenas usam rede. Como postula Gow, o uso de cama pelos Piro foi influência dos grupos com os quais eles tiveram contato ao se afastar do centro de dispersão.

O próximo passo desse trabalho inclui a expansão da pesquisa para outros campos semânticos, tais como termos de parentesco e cultura material, além de fazer uma pesquisa mais ampla abrangendo a reconstrução de formas gramaticais.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido: 06/09/2006
Aprovado: 05/07/2007

 

 

1 Ao longo deste trabalho, o nome científico para elementos da fauna e flora é utilizado apenas nos casos em que a taxonomia científica foi claramente determinada. Nos demais casos, a tradução em português é dada.

 

 

APÊNDICE

Na lista apresentada abaixo, constam os dados atualizados para Apurinã e Piro, acrescidos dos dados para Iñapari, correspondentes àqueles apresentados em Payne (1991). Onde há diferenças apenas de transcrição, os dados apresentados daquele autor são listados, seguidos dos dados atualizados. Nos casos em que se verificou haver equívoco na identificação de cognatos feita por Payne, uma breve observação é feita entre parênteses ao lado dos dados. Nos dados em que Payne sugere segmentação mórfica, a convenção usada por ele é mantida. Nos demais dados, a segmentação mórfica é indicada por '-'.

 

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