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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.4 no.3 Belém Sept./Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222009000300013 

Theodor Koch-Grünberg: documentando culturas indígenas no início do século XX

 

 

Ana Vilacy Galucio

Doutora em Linguística pela Universidade de Chicago. Pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi/MCT (avilacy@museu-goeldi.br)

 

 

 

O terceiro CD da série "Documentos sonoros históricos", do Arquivo Fonográfico de Berlim, nos presenteia com gravações feitas em cilindros, realizadas pelo etnógrafo alemão Theodor Koch-Grünberg (1872-1924) nos anos de 1911 e 1913, no Brasil. Essa série, iniciada em 2003, tem o objetivo de tornar públicos e acessíveis registros de cilindros de Edison, até agora pouco conhecidos, da coleção do Arquivo Fonográfico de Berlim. O CD "Walzenaufnahmen aus Brasilien 1911-1913" (Gravações em cilindros do Brasil) torna acessível, pela primeira vez de forma mais abrangente, as gravações feitas por Koch-Grünberg durante sua terceira viagem à América do Sul, empreendida de 1911 a 1913, ao norte do Brasil/Sul da Venezuela. Nessa viagem, Koch-Grünberg utilizou o então recém-lançado fonógrafo de Edison, para registrar em cilindro músicas de povos indígenas por ele visitados, e gravou, em 1911, 49 cilindros com músicas cantadas e tocadas por membros das etnias Makuxi, Taurepang e Yekuana-Maiongong (da família linguística Karib) e Wapixana (família Aruák). Outros 36 cilindros foram gravados em 1913, contendo cantos e peças de música com flauta dos Baniwa (família Aruák) e dos Tukano e Desána (família Tukano), além de cantos venezuelanos. O CD apresenta 30 desses cilindros, que foram transferidos para formato digital utilizando cassetes de áudio digital (DAT) e, posteriormente, reeditados para compor o CD, porém com interferência mínima na qualidade da gravação. Devido às condições das gravações desde o seu registro, há quase 100 anos, a equipe técnica responsável pela digitalização e pelo processamento dos cilindros teve o difícil trabalho de tentar melhorar a qualidade do som, mantendo o caráter original das gravações. Esse compromisso, justificado no prefácio do livreto que acompanha o CD pelos editores Lars-Christian Koch e Susanne Ziegler, pode ser percebido pelo ouvinte, pois algumas faixas apresentam qualidade inferior aos padrões a que estamos acostumados atualmente. Porém, a importância científica de tal edição se sobrepõe à qualidade técnica nesse particular.

O CD é acompanhado de um valioso encarte bilíngue, em alemão e português, contendo a lista das gravações e exemplos de notas musicais de doze cantos apresentados no CD, estes extraídos de dois estudos de etnomusicologia sobre os registros realizados por Koch-Grünberg (Hornbostel, 1923; Bose, 1972). o encarte contém, ainda, um mapa simplificado da rota das viagens de Koch-Grünberg nas duas expedições de 1903-1905 e 1911-1913, algumas fotos de membros das etnias indígenas visitadas por ele nessas duas expedições, ilustrando aspectos ligados à dança e música, além de informações importantes sobre a coleção de cilindros e sua reedição, bem como sobre a técnica usada para digitalização e processamento dos mesmos. Essas informações são complementadas por dois artigos minuciosos a respeito das gravações realizadas por Koch-Grünberg, escritos por dois especialistas nos seus campos. O primeiro de base etnológica, escrito por Michael Kraus, e o segundo de Julio Mendivil, trazendo informações de cunho etnomusicológico sobre o conteúdo do CD. Michael Kraus, no artigo "Theodor Koch-Grünberg: gravações fonográficas no norte da Amazônia", traz uma breve biografia do etnólogo e do contexto científico que permitiu a sua formação e a realização de suas quatro viagens à América do Sul. Ele apresenta, ainda, um resumo das duas viagens de Koch-Grünberg ao norte do Brasil/Venezuela e um relato etnográfico sobre os indígenas com os quais Koch-Grünberg realizou os registros sonoros, apresentados no CD, e conclui discorrendo sobre a importância das gravações dos cilindros no trabalho de Koch-Grünberg e sua relação com o etnomusicólogo Erich von Hornbostel, que realizou a análise dos instrumentos musicais adquiridos por Koch-Grünberg e de suas gravações de áudio (Hornbostel, 1923). o trabalho de pesquisa investigativa realizado por Theodor Koch-Grünberg com povos indígenas no Brasil é representativo da escola de Etnologia, que se firmava na Alemanha já nas últimas décadas do século XIX e que teve no médico Adolf Bastian (1826-1905) um dos seus principais incentivadores. Influenciado pelos trabalhos pioneiros de Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) e de Karl von den Steinen (1855-1929), na América do Sul, Koch-Grünberg realizou um vasto trabalho de registro etnográfico sobre os mais variados aspectos das culturas dos povos por ele visitados e contribuiu com relatos científicos e com a formação de extensas coleções representativas da cultura material desses povos. A maior parte das coleções etnográficas formadas por Koch-Grünberg se encontra no Museu Etnológico de Berlim e em outros museus da Alemanha. Uma coleção menor, resultante da expedição de 1903-1905, se encontra no Museu Paraense Emílio Goeldi.

Independente da filosofia embutida tanto na justificativa das suas expedições quanto nos trabalhos publicados, os relatos de suas principais expedições (Koch- Grünberg, 1909/1910, 1916, 1917, 1923) contêm ampla documentação do cotidiano dos povos indígenas visitados, incluindo informações detalhadas sobre diversos aspectos envolvendo a cultura material e imaterial (especialmente língua, mitologia, cantos, danças e rituais xamânicos), fotos, desenhos, listas de palavras e textos de músicas. Devido à importância de seu trabalho documental sobre os povos indígenas da Amazônia brasileira no início do século XX, suas principais obras têm sido traduzidas mais recentemente para o português (Koch-Grünberg, 2005, 2006, 2009).

O artigo de Julio Mendivil, "os registros sonoros de Theodor Koch-Grünberg e seus significados para a musicologia comparativa", inicia com a descrição do contexto musicológico dos registros sonoros realizados por Koch-Grünberg, destacando a importância dos mesmos como documentos testemunhais tanto da vida musical dos indígenas neles representados quanto das próprias práticas da musicologia comparativa e da etnologia das primeiras décadas do século XX, e também da história do Arquivo Fonográfico de Berlim. O caráter global da documentação feita por Koch-Grünberg, que seguindo os paradigmas científicos da época procurava cobrir o máximo de informações sobre as culturas estudadas, bem como as limitações técnicas impostas pela tecnologia disponível na época e o pioneirismo das gravações de seus registros sonoros na região norte do Brasil, também são destacados por Mendivil. A segunda parte do artigo é dedicada a uma descrição das peças executadas no CD, classificadas, de acordo com as categorias utilizadas pelo próprio Koch-Grünberg, em cantos de dança, cantos de trabalho, cantos de cura e peças instrumentais. Mendivil apresenta uma descrição do contexto cultural das festas onde a música era executada, conforme registrado por Koch-Grünberg, faz uma breve descrição musical das peças e da análise das mesmas e indica referências a outros registros, comparáveis aos de Koch-Grünberg no estilo e na procedência regional das músicas.

Esta iniciativa do Arquivo Fonográfico de Berlim faz parte de um projeto de longa duração, iniciado em 1998, que está digitalizando os documentos sonoros históricos gravados no início do século XX e que constituem o riquíssimo acervo de documentos em áudio daquela instituição, representativos da cultura musical de diversas partes do globo e cuja importância se dá tanto pela riqueza da diversidade musical registrada quanto pelo fato de que muitas dessas culturas já não existem mais ou foram completamente transformadas. No atual contexto mundial, em que a diversidade linguística e cultural encontrase ameaçada de forma inexorável, em determinadas situações, os trabalhos de documentação, conservação e disponibilização de registros de aspectos representativos das culturas no mundo ganha espaço e se intensifica tanto no meio acadêmico quanto no político e no seio das sociedades envolvidas. Por exemplo, a UNESCO lançou, em 1992, o "Memory of the World Program" como parte das ações desenvolvidas pela organização para a proteção da diversidade linguística e cultural mundial. Ao reconhecer a importância dos registros documentais do patrimônio cultural da humanidade, que refletem a diversidade de línguas, povos e culturas, o programa atua no sentido de promover a preservação e disseminação desses registros. A rica coleção de cilindros sonoros do Arquivo Fonográfico de Berlim pertence desde 1999 à lista de registros reconhecidos pela UNESCO ("Memory of World register") e o trabalho de salvamento e disponibilização desses documentos sonoros históricos, exemplificado pelo referido CD, se insere de forma contundente nos objetivos de preservação e disseminação desses registros.

A publicação do CD também merece destaque do ponto de vista da documentação das línguas indígenas brasileiras. no início da década de 1990, a questão específica das línguas em perigo de extinção ganhou força a partir da publicação de um artigo pelo linguista Michael Krauss (1992), no qual estimou que, se não fossem tomadas medidas preventivas, pelo menos 90% das línguas do mundo iriam desaparecer no século XXI. Apesar de o Brasil ser ainda o país com maior diversidade linguística da América do Sul, com pouco mais de 150 línguas indígenas faladas no seu território, a maior parte concentrada na Amazônia, essa diversidade linguística e cultural está seriamente ameaçada (Moore et al., 2008). nesse contexto, a documentação sistemática dessas línguas e demais aspectos culturais dos povos indígenas é um dos nossos grandes e urgentes desafios. O trabalho pioneiro de Koch-Grünberg, registrando em áudio músicas cantadas e instrumentais de povos indígenas no norte do Brasil, e o lançamento do CD são exemplos positivos do valor da documentação para a preservação do patrimônio cultural e da importância da criação e manutenção de acervos científicos dessa natureza.

Nos últimos anos, o Brasil tem participado de forma positiva do movimento mundial voltado para a documentação sistemática de línguas ameaçadas, inicialmente com projetos individuais de pesquisadores de instituições nacionais, em parceria com programas internacionais de documentação de línguas ameaçadas, como o Documentation Bedrohter Sprachen (DOBES) e o Endagered Languages Documentation Programm (ELDP), entre outros. Com a ampliação mundial desse movimento de documentação e o desenvolvimento das tecnologias de documentação em áudio e vídeo, estão sendo criados em diversas partes do mundo arquivos digitais multimídia, específicos para armazenar o acervo de registros (escritos, sonoros e visuais) das línguas documentadas. A tecnologia para arquivamento de dados de línguas usada nesses arquivos foi desenvolvida pelo Instituto Max Planck de Psicolinguística (MPI), que firmou em 2007 acordos de cooperação científica para a transferência dessa tecnologia com a Fundação nacional do Índio (FUNAI), do Ministério da Justiça, e com o Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). Atualmente, o Museu do Índio (FUNAI/MJ) e o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG/MCT) possuem servidores equipados com essa tecnologia e estão desenvolvendo projetos de implementação de acervos digitais multimídia (gravações em áudio e vídeo anotadas).

O Projeto de Documentação de Línguas Indígenas (PRODOC-Línguas), sediado no Museu do Índio, dará uma extraordinária contribuição para a documentação das línguas indígenas brasileiras por meio do apoio, no primeiro momento, a projetos de documentação sistemática de 20 línguas indígenas, cujos produtos irão compor o acervo do Museu do Índio e também devolvidos às comunidades produtoras. Por sua vez, o Museu Goeldi também possui uma longa tradição na formação e manutenção de acervos científicos na Amazônia, tendo acumulado, nas últimas décadas, uma vasta coleção de material linguístico de aproximadamente 70 línguas indígenas amazônicas, provenientes de suas ações e projetos de documentação linguístico-cultural. A criação do acervo digital do Centro de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas da Amazônia, em curso no Museu Goeldi, tem o apoio do Fundo de Defesa de Direitos Difusos (FDDD/MJ) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCT), e visa a sustentabilidade de seu acervo linguístico, garantindo a conservação, acesso e utilização desse material por longos anos, tanto pelos grupos indígenas quanto por instituições, pesquisadores e pela sociedade em geral. É nesse sentido que o projeto de salvamento dos registros sonoros históricos do Arquivo Fonográfico de Berlim alinha-se com essas iniciativas nacionais, pois promove a preservação e a divulgação do patrimônio cultural linguístico dos povos indígenas do país.

 

Referências

BOSE, Fritz. Die Musik der Tukáno und Desána. Jahrbuch für musikalishe Volks- und Völ- kerkunde, v. 6, p. 9-50, 1972.         [ Links ]

HORNBOSTEL, Erich M. von. Musik der Makuschí, Taulipáng und Yekuana. In: KOCH-GRÜNBERG, Theodor. Vom Roroima zum Orinoco. Stuttgart: Strecker u. Schröder, 1923. v. 3, p. 397-442.         [ Links ]

KOCH-GRÜNBERG, Theodor. Começos da arte na selva. Manaus: Universidade Federal do Amazonas/IGHA, 2009.         [ Links ]

KOCH-GRÜNBERG, Theodor. Do Roraima ao Orinoco. Observações de uma viagem pelo norte do Brasil e pela Venezuela durante os anos de 1911 a 1913. São Paulo: UNESP/lnstituto Martius Staden, 2006. v. 1.         [ Links ]

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KOCH-GRÜNBERG, Theodor. Vom Roroima zum Orinoco. Ergebnisse einer Reise in Nordbrasilien und Venezuela in der Jahren 1911-1913. Zweiter Band. Mythen und Legenden der Taulipang- und Arekuna-lndianer. Berlin: Dietrich Reimer, 1916. v. 1.         [ Links ]

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KRAUSS, Michael E. The World's Languages in Crisis. Language, v. 68, n. 1, p. 4-10, 1992.         [ Links ]

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LINKS de INTERESSE

www.unesco.org/webworld/mdm/

http://prodoc.museudoindio.gov.br

http://www.museu-goeldi.br/destaque_n39_julho09.pdf

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