SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.5 número1Populações, territorialidades e Estado na Amazônia índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

versão impressa ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.5 no.1 Belém jan./abr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222010000100001 

CARTA DO EDITOR

 

 

O ano de 2010 iniciou com duas boas notícias para o Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas: em janeiro, foi indexado no Directory of Open Access Journals (DOAJ), um dos mais importantes serviços de disseminação científica do mundo, mantido pela Universidade Lund, na Suécia. O DOAJ (http://www.doaj.org) reúne cinco mil títulos de periódicos de todas as áreas do conhecimento, em dezenas de línguas, com aproximadamente 400 mil artigos acessíveis. O objetivo da base é aumentar a visibilidade e facilitar o uso de periódicos científicos com acesso aberto, na contra-corrente da mercantilização e do controle da informação científica mantidos pelas grandes corporações editoriais. Nesse sentido, um dos critérios essenciais para ingressar no DOAJ é utilizar um modelo de financiamento que dispense o periódico da cobrança de taxas dos leitores, dos autores e das instituições usuárias. O conceito de 'acesso aberto', internacionalmente reconhecido, implica conceder aos usuários os direitos de ler, fazer o download, copiar, distribuir, imprimir, buscar e ativar links para os textos completos. Além do compromisso com esses direitos, os periódicos indexados devem exercer o controle de qualidade por meio da avaliação por pares, devem divulgar principalmente resultados de pesquisas científicas para a comunidade acadêmica, devem garantir a periodicidade e dispensar o período de embargo, isto é, o tempo decorrido entre a publicação impressa e a disponibilização dos textos online com acesso gratuito.

A segunda boa notícia chegou em março. Na XXIII Reunião do Comitê Consultivo da Scientific Electronic Library Online (Scielo Brasil), ocorrida em fevereiro, o Boletim recebeu parecer favorável ao ingresso na coleção principal de periódicos, após quatro anos de esforços para aperfeiçoá-lo do ponto de vista científico, editorial e gráfico. A Scielo Brasil (http://www.scielo.br) é a mais importante biblioteca digital científica do país, com 205 títulos de periódicos correntes, mantida pelo Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME), pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Seus critérios de seleção incluem o caráter científico, a arbitragem por pares, a composição do conselho editorial, a periodicidade, o número de artigos publicados anualmente, os aspectos formais da publicação, como normalização, resumo, abstract etc., além da avaliação de pareceristas sobre o conteúdo científico.

Para o Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, ingressar em ambas as bases significa, por um lado, o reconhecimento de que o caminho percorrido até o momento foi acertado e, por outro, atenção redobrada com sua política e seus procedimentos editoriais. O Boletim permanece no caminho do profissionalismo editorial, felizmente livre de impedimentos financeiros, de injunções políticas e da pessoalidade que vez por outra assaltam as instituições brasileiras. Nosso compromisso mantém-se, desde o início, no campo da qualidade e da ética, em boa parte inspiradas pelos ideais que moveram os criadores da revista, há 116 anos: proporcionar ao meio acadêmico um lugar confiável para encontros e debates, e à sociedade brasileira uma revista comprometida com a democratização do conhecimento científico.

Este número, que inaugura o volume cinco, é condizente com os desafios que assumimos. Ele reúne um ensaio e quatro artigos no dossiê temático "Populações, territorialidades e Estado na Amazônia", organizado por Karin Marita Naase (MPEG/MCT), a quem agradeço pela colaboração. Os autores que aderiram ao nosso convite e se submeteram ao processo de avaliação são reconhecidos nacionalmente pelas contribuições sobre o tema: Bertha Becker (UFRJ), Francisco de Assis Costa (UFPA), Wanderley Messias da Costa (USP), Neide Esterci (UFRJ) e Kátia Schweickardt (INCRA/AM), além da organizadora. Juntos, enriquecem uma discussão de grande importância para a Amazônia, sobretudo no momento atual, quando o mundo vê fortalecido um destino que lhe foi imposto por Brasília há algumas décadas: de ser fonte de commodities (incluindo energia elétrica) e espaço para reprodução do grande capital, sem os necessários e complementares investimentos do governo federal para evitar conflitos sociais, para a melhoria da qualidade de vida da população, para o incentivo à pesquisa científica e para a conservação dos recursos naturais. Os autores aqui reunidos mostram que existem alternativas à exploração predatória e que também existem maneiras diferentes de perceber e gerir o espaço amazônico.

Na sequência, apresentamos dois artigos que estão no limiar da arqueologia com outras disciplinas, como as geociências e a etnologia. O primeiro, de Paulo César Giannini (USP) e colaboradores, avança na relação entre processos socioculturais e transformações ambientais, tomando como objeto a distribuição espaço-temporal dos sambaquis da costa de Santa Catarina. Estudos dessa natureza têm grande potencial para aprofundar os conhecimentos disponíveis sobre a ocupação humana do território brasileiro numa escala temporal de longa duração, bem como para demonstrar a construção da paisagem na interseção entre ação humana e forças naturais. O caso dos sambaquis, presentes de norte a sul do país, oferece elementos adequados para essas reflexões, incluindo possíveis comparações entre regiões distintas.

O segundo artigo, de Antonio Porro (USP), trata das raras e pouco estudadas estatuetas líticas amazônicas, cujos exemplares conhecidos, em número de 25, estão depositados em algumas poucas instituições, sendo quatro brasileiras: Museu Nacional/UFRJ, Museu Paraense Emílio Goeldi/MCT, Universidade Federal do Pará e Museu de História Natural/UFMG. Com base em fontes históricas, em estudos pretéritos e em análise tipológica comparativa, o autor associa esses objetos a rituais xamânicos, possivelmente usados para inalação de alucinógenos, de maneira a permitir a incorporação de seres sobrenaturais. Essa abordagem, ao se aproximar da história e da etnologia, permite maior sofisticação na análise de artefatos sem registro arqueológico ou com registro deficiente.

Na seção Memória, publicamos uma nota biográfica de Erwin Frank (1950-2008), de autoria de sua esposa, Nelita Frank, e um texto que o antropólogo deixou inédito sobre a etnografia de Theodor Koch-Grünberg (1872-1924). Agradeço à Nelita pela oportunidade de publicar este texto e pela confiança que demonstrou ao me permitir editá-lo. Também agradeço ao Dr. Ernst Halbmayer, responsável pela Divisão de Etnologia da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia da Universidade Philipps de Marburg, Alemanha, pela autorização para publicarmos sete fotografias originais de Koch-Grünberg, conforme os planos que Erwin Frank traçou para seu trabalho.

Há, ainda, o relato de uma expedição realizada há 60 anos entre os índios Urubú-Ka'apor, no Maranhão. Escrito pelo israelense Sam Zebba, à época mestrando no curso de Artes Teatrais da Universidade da Califórnia em Los Angeles e atualmente regente da The Emeritus Chamber Orquestra, em Israel, o texto narra não apenas o encontro com os índios, que protagonizaram o conhecido filme "Uirapuru", dirigido por Zebba, mas também o início da amizade do autor com o arqueólogo alemão Peter Paul Hilbert (1914-1989), à época pesquisador do Museu Goeldi (ver biografia escrita por Klaus Hilbert em Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 4, n. 1). Este encontro multi-étnico nos deixou como legado as belas imagens do referido filme e das fotografias de Zebba, publicadas aqui pela primeira vez e agora acrescidas de um testemunho de tolerância e solidariedade.

O número encerra com três resenhas bibliográficas, escritas por Sebastian Drude (MPEG/MCT), Márcio Rangel (MAST/MCT) e Samuel Almeida (MPEG/MCT), respectivamente, sobre publicações relacionadas à obra de Koch-Grünberg, à curadoria em museus e a plantas aromáticas da Amazônia, particularmente a priprioca.

Boa leitura!

 

Nelson Sanjad
Editor Científico

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons