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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.6 no.1 Belém Jan./Apr. 2011

https://doi.org/10.1590/S1981-81222011000100014 

MEMÓRIA

 

A contribuição de Osvaldo Rodrigues da Cunha (1928-2011) à Herpetologia

 

The contribution of Osvaldo Rodrigues da Cunha (1928-2011) to Herpetology

 

 

Teresa Cristina Avila-Pires

Museu Paraense Emílio Goeldi. Coordenação de Zoologia. Belém, Pará, Brasil

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

O texto faz breve descrição da obra herpetológica de Osvaldo Rodrigues da Cunha (1928-2011), pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, Brasil. Destaca sua formação intelectual, os principais trabalhos, a organização da coleção herpetológica do Museu Goeldi e a criação do Setor de Herpetologia da instituição. Também destaca as espécies descritas por Cunha e colaboradores.

Palavras-chave: Osvaldo Rodrigues da Cunha. Museu Paraense Emílio Goeldi. Coleção herpetológica. Herpetologia. Amazônia.


ABSTRACT

The article presents a briefly description of the herpetological works of Osvaldo Rodrigues da Cunha (1928-2011), researcher of the Museu Paraense Emilio Goeldi, Brazil. It highlights his intellectual training and main works, the organization of the Goeldi Museum herpetological collection, and the creation of the Department of Herpetology in this institution. It also put in relief the species described by Cunha and collaborators.

Key words: Osvaldo Rodrigues da Cunha. Museu Paraense Emilio Goeldi. Herpetological collection. Herpetology. Amazonia.


 

 

Ainda que tenha contribuído em outras áreas do conhecimento, Osvaldo Rodrigues da Cunha (1928-2011) foi herpetólogo do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) durante a maior parte de sua vida profissional, área na qual deixou um grande legado, na forma de estudos pioneiros e da Coleção Herpetológica do MPEG.

Segundo seu próprio depoimento, o interesse pela zoologia começou com suas visitas, durante a infância, ao parque do MPEG, do qual era vizinho. Quando chegou o momento de cursar uma faculdade, decidiu não fazer curso superior, pois, à época, não havia faculdade de biologia. Em vez disso, buscou estágio no MPEG. Iniciou em 1945 (então com 17 anos), estudando borboletas e besouros, passando a se dedicar aos répteis após uma passagem pelo Museu Nacional, no Rio de Janeiro, influenciado pelo herpetólogo Antenor Leitão de Carvalho (1910-1985). Nesse período em que esteve no Museu Nacional (entre setembro de 1949 e janeiro de 1951), fez também alguns cursos de biologia, que auxiliaram em sua formação. Mais tarde (de setembro de 1963 até dezembro de 1964, já na posição de 'Naturalista' do MPEG), realizou novo estágio fora de Belém, dessa vez com o herpetólogo (e também compositor) Paulo Emílio Vanzolini, no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Nesse mesmo período, encontrou ainda Alphonse Hoge (1912-1982), herpetólogo do Instituto Butantan.

Em 1961, Osvaldo Cunha publicou "Os lagartos da Amazônia brasileira, com especial referência aos representados na coleção do Museu Goeldi" (Cunha, 1961), trabalho pioneiro que representa a primeira publicação mais abrangente sobre esse grupo na Amazônia. Em junho de 1965, foi instalada, por influência de Cunha, a Seção de Herpetologia do MPEG. Para auxiliá-lo, Francisco Paiva do Nascimento foi transferido para essa seção, vindo a se tornar seu principal colaborador no estudo dos répteis, especialmente dos ofídios. Cunha e Nascimento idealizaram um esquema de coleta de répteis que contou com o auxílio de moradores de várias localidades, treinados por eles, inicialmente cobrindo o leste do Pará, depois se estendendo para o sul do estado e oeste do Maranhão. Essas coletas estenderam-se por dez anos (1970-1980) e permitiram formar uma extensa coleção, inigualável em termos de representatividade da fauna de cobras e lagartos dessas áreas percorridas, e que é fonte inesgotável de estudos. Representam também um testemunho histórico da ocorrência de diversas espécies em áreas hoje totalmente alteradas pela ação do homem.

Inúmeras publicações resultaram dessas coletas, assim como de expedições mais pontuais realizadas no Amapá, Rondônia e Roraima. Entre elas, a série "Ofídios da Amazônia", compreendendo 23 artigos, entre os quais "As cobras da região leste do Pará", de 1978 (Cunha e Nascimento, 1978) (Figura 1), com uma complementação publicada em 1993 (Cunha e Nascimento, 1993), que se tornou fonte básica de consulta para os estudiosos desse grupo na Amazônia. Sobre lagartos, Osvaldo Cunha publicou dez trabalhos (oito dentro da série "Lacertílios da Amazônia"), incluindo a descrição de dois novos gêneros (Amapasaurus Cunha, 1970 e Colobosauroides Cunha, Lima-Verde e Lima, 1991), novas espécies e outros estudos taxonômicos. Merece destaque, entre eles, o estudo sobre Stenocercus dumerilii (que, então, chamou de Ophryoessoides tricristatus), um lagarto restrito ao leste do rio Tocantins, que, até seu estudo em 1981, era praticamente desconhecido (Cunha, 1981). No total, Osvaldo Cunha descreveu 15 novos táxons de répteis, dos quais dez são ainda considerados válidos. A esses trabalhos, devem ser acrescentados os estudos sobre os répteis de Carajás e de Rondônia, dentro do programa Polonoroeste.

 

 

Quando Osvaldo Cunha se aposentou, a Coleção Herpetológica do MPEG já contava com 38.000 exemplares, um aumento de quase 60 vezes em relação ao número existente em 1965. Constituía, então, a maior coleção herpetológica com material da Amazônia brasileira e a terceira do Brasil. Hoje, o setor de Herpetologia do MPEG conta com três pesquisadores contratados e um pesquisador-associado; participa do Programa de Pós-Graduação em Zoologia, mantido pela Universidade

Federal do Pará em convênio com o MPEG; agrega muitos estudantes, que aqui desenvolvem seus estudos; além de ter contribuído para a formação de muitos biólogos profissionais. A coleção conta com cerca de 86.000 exemplares, continuando a crescer, e mantém sua posição entre as principais do país. É base para inúmeros estudos, seja por nós, do museu, seja por pesquisadores e estudantes de outras instituições, no país e no exterior. Tudo isso graças à semente plantada por Osvaldo Cunha, sua percepção sobre a importância do conhecimento e sua obstinação em estudar os répteis da Amazônia.

Duas espécies de répteis e uma de anfíbio ápoda foram nomeadas em homenagem a Osvaldo Cunha: Amphisbaena cunhai, Leposoma osvaldoi e Typhlonectes cunhai. Outras homenagens em reconhecimento à sua contribuição à zoologia brasileira foram feitas pela Sociedade Brasileira de Zoologia (1986) e pela Sociedade Brasileira de Herpetologia (2007). Márcio Martins e Ermelinda Oliveira dedicaram a ele um estudo sobre a história natural de serpentes da região de Manaus (Martins e Oliveira, 1998), em mais uma demonstração da importância de seus trabalhos para aqueles que estudam os répteis amazônicos. Por tudo isso, o nome de Osvaldo Cunha permanecerá vivo, em seus trabalhos, nas espécies que descreveu e naquelas descritas em sua homenagem, para aqueles que estudam a herpetofauna amazônica.

 

REFERÊNCIAS

CUNHA, Osvaldo Rodrigues. Lacertílios da Amazônia. VIII. Sobre Ophryoessoides tricristatus Duméril, 1851, com redescrição da espécie e notas sobre a ecologia e distribuição na região leste do Pará (Lacertilia: Iguanidae). Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, nova série Zoologia, n. 108, p. 1-23, 1981.         [ Links ]

CUNHA, Osvaldo Rodrigues. Lacertílios da Amazônia. II. Os lagartos da Amazônia brasileira, com especial referência aos representados na coleção do Museu Goeldi. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, nova série Zoologia, n. 39, p. 1-189, 1961.         [ Links ]

CUNHA, Osvaldo Rodrigues; NASCIMENTO, Francisco Paiva. Ofídios da Amazônia. As cobras da região leste do Pará. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, série Zoologia, v. 9, n. 1, p. 1-191, 1993.         [ Links ]

CUNHA, Osvaldo Rodrigues; NASCIMENTO, Francisco Paiva. Ofídios da Amazônia. X. As cobras da região leste do Pará. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1978. (Publicações Avulsas do Museu Paraense Emílio Goeldi, 32).         [ Links ]

MARTINS, Márcio; OLIVEIRA, Ermelinda. Natural history of snakes in forests of the Manaus region, central Amazonia, Brazil. Herpetological natural History, v. 6, p. 78-150, 1998.         [ Links ]

 

 

Autor para correspondência
Teresa Cristina Avila-Pires
Museu Paraense Emílio Goeldi
Coordenação de Zoologia
Av. Perimetral, 1901. Terra Firme
Belém, PA, Brasil. CEP 66077-830
(avilapires@museu-goeldi.br)

Recebido em 25/03/2011
Aprovado em 28/03/2011

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