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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.6 no.2 Belém May/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222011000200011 

MEMÓRIA

 

Benedito Nunes e reflexões sobre a Amazônia

 

 

Maria Stella Faciola Pessôa Guimarães; Edna Maria Ramos de Castro

Universidade Federal do Pará. Núcleo de Altos Estudos Amazônicos. Belém, Pará, Brasil

Autor para correspondência

 

 

Da minha aldeia vejo quanto da Terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
(Fernando Pessoa, 1980, p. 43).

 

INTRODUÇÃO

Este texto está disposto em quatro partes. Na primeira, são colecionados importantes aspectos da vida e obra de Benedito Nunes. Na segunda, com base em Gaston Bachelard, delineia-se o problema de pesquisa, que engenha a análise da produção intelectual de Benedito a respeito da Amazônia. A terceira recupera fatos que levam a visualizar a contribuição de Benedito para as ciências sociais e para a interpretação da realidade, uma vez que estudos identificados com o pensamento social brasileiro têm caráter interdisciplinar e estão se desenvolvendo progressivamente no âmbito daquela área de conhecimento. No quarto e último segmento, são inventariadas possibilidades de pesquisa sobre o acervo criado por Benedito no papel de intérprete da sociedade e das culturas da Amazônia.

O recorte dos textos arrolados no último tópico tem foco privilegiado nos contornos de uma pesquisa de pós-graduação, denominada "Um olhar atrás da escrita: o pensamento de Benedito Nunes sobre a Amazônia", em curso no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) da Universidade Federal do Pará (UFPA).

 

BENEDITO - VIDA E OBRA

Benedito Nunes nasceu em Belém em 1929 e faleceu em 2011. Sempre residiu na capital do Pará, embora tenha feito muitas viagens ao exterior e a outros estados brasileiros, sobretudo voltadas a estudos ou como professor. Bacharelou-se em Direito. Casou-se com Maria Sylvia, sua colega desde o curso primário. Trabalhou na antiga Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) e no Tribunal de Contas do Pará, contribuindo, assim, na ordem da ação prática, com o pensamento sobre o planejamento, as políticas públicas e o desenvolvimento regional. No entanto, sua maior contribuição como intelectual vem da reflexão acadêmica. Foi Professor Emérito da UFPA e, como professor visitante, de universidades no exterior. Conforme Castro (1999, p. 13),

No exterior, lecionou e dirigiu seminários na Université de Haute Bretagne - Rennes II, na França; na University of Texas at Austin (EUA); Vanderbilt University, em Nashville (EUA); Universidade de Stanford (EUA); Universidade de Yale (EUA); Universidade de Montreal (Canadá), também em Portugal e Uruguai. Benedito Nunes exerceu importantes funções na UFPA: (...) coordenador do Serviço de Teatro (1962-1967); (...) coordenador da publicação dos Diálogos de Platão (XIII Tomos), traduzidos do grego por Carlos Alberto Nunes, editados pela UFPA, coleção Amazônica, série Farias Brito (1974-1980); autor do projeto e da exposição de motivos para criação do Curso de Filosofia (1975), que passou a coordenar e dirigir o seu colegiado a partir de 1976.

No Collège de France, Benedito foi aluno dos cursos de Paul Ricoeur e de Maurice Merleau-Ponty. Realizou estudos de pós-graduação com pesquisas sobre o modernismo brasileiro, no Instituto de Estudos Portugueses e Brasileiros da Sorbonne. Foi bolsista da Guggenheim Foundation em 1970. Na UFPA, aposentou-se em 1992, mas prosseguiu sua trajetória intelectual pronunciando conferências e dedicando-se à própria produção bibliográfica, cercado de livros que formam sua biblioteca particular. De 2004 a 2010, participou das atividades do Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém (CCFC), ministrando cursos e fazendo palestras, programação sempre aberta gratuitamente ao público interessado em literatura e filosofia, bem como na aproximação das áreas do conhecimento que compõem o traço mais forte da sua obra.

Benedito publicou livros - aqui citados com as respectivas datas de suas primeiras edições - como "O mundo de Clarice Lispector" (1966), "Introdução à Filosofia da Arte" (1966), "Filosofia Contemporânea" (1966), "Farias Brito - trechos escolhidos" (1967), "O Dorso do Tigre" (1969), "João Cabral de Melo Neto" (1971), "Leitura de Clarice Lispector" (1973), "Oswald Canibal" (1979), "Passagem para o poético: filosofia e poesia em Heidegger" (1986), "O tempo na narrativa" (1988), "No tempo do niilismo e outros ensaios" (1993), "Crivo de Papel" (1998), "Hermenêutica e Poesia - o pensamento poético" (1999), "O Nietzsche de Heidegger" (2000), "Dois ensaios e duas lembranças" (2000), "Heidegger e Ser e Tempo" (2002), "Crônica de duas cidades - Belém e Manaus" (com Milton Hatoum, em 2006), "A Clave do Poético" (2009) e "Ensaios filosóficos" (2010). Além desses trabalhos publicados, Benedito participou de coletâneas, organizou obras de outros autores - como Mário Faustino, Haroldo Maranhão, Dalcídio Jurandir e Francisco Paulo Mendes - e publicou artigos e ensaios em revistas e jornais nacionais e estrangeiros.

Assim Benedito relembrou sua primeira experiência - ao término do ginasial - como professor no Colégio Moderno, em Belém: "Ali onde comecei a dar aulas, (...) também aprendi a ensinar. É o que tenho feito na vida: aprender a aprender. Sou autodidata dos pés à cabeça". E prosseguiu o depoimento: "Eu também não fiz curso de didática. Aprendi a ensinar a duras penas - a ensinar e a ensinar-me" (Nunes, 2009b, p. 15). Estava definida, desde cedo, a direção de quem se apaixonara pelo que a inteligência orquestra. Intelectual reverenciado no Brasil e no exterior, Benedito recebeu distinções como o Prêmio Jabuti (concedido duas vezes pela Câmara Brasileira do Livro, em 1987 e em 2010), o Prêmio Multicultural Estadão (em 1998), o Prêmio Ministério da Cultura / Fundação Nacional de Arte - Funarte (em 1999), a Comenda Ordem do Cruzeiro do Sul (concedida pelo Ministério do Exterior, em 2003), a Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura (em 2004), o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (em 2005), o título de Doutor Honoris causa da Universidade da Amazônia (UNAMA) (em 2009), o Prêmio Machado de Assis (referente ao conjunto de sua obra e concedido pela Academia Brasileira de Letras, em 2010). Benedito Nunes é nome do grande auditório do Centro de Convenções da UFPA (inaugurado em 2009) e do prêmio da UFPA instituído, também em 2009, para ser concedido periodicamente às melhores teses em humanidades.

A repercussão do pensamento e da obra de Benedito Nunes em outros recantos brasileiros já ensejou importantes pesquisas e variadas análises. Em termos universitários, merecem destaque os doutorados de Jucimara Tarricone - concluído na Universidade de São Paulo (USP), com o título "Hermenêutica e crítica: o pensamento e a obra de Benedito Nunes" (Tarricone, 2007) - e de Maria de Fátima Nascimento - em desenvolvimento na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com o nome "O lugar de Benedito Nunes na moderna crítica literária brasileira" (Nascimento, 2008).

Benedito é, portanto, referência em literatura e filosofia, com leituras aprofundadas e trabalhos seminais sobre Heidegger, Sartre, Nietzsche, Camus, Guimarães Rosa e Clarice Lispector - apenas para citar os mais propagados. Nessas áreas, acumula extensa fortuna crítica. No entanto, sem a mesma divulgação ou repercussão, o pensador paraense também escreveu ensaios, concedeu entrevistas e apresentou palestras sobre a Amazônia, sobre o Pará, sobre Belém (Guimarães, 2010). Mas não há dissertações de mestrado ou teses de doutorado que examinem Benedito como intérprete da sua própria região. A obra de Benedito ainda não foi percorrida criticamente por esse viso.

 

O CONHECIMENTO ENQUANTO PROBLEMA

Na concepção de Bachelard - autor que possui adesão significativa como caminho para desenvolver projetos de pesquisa no meio acadêmico -, é em termos de "obstáculos" que deve ser apresentado um "problema de conhecimento científico". O estudioso francês escreveu sobre a formação do espírito científico, entendendo que a história das ideias é feita por rupturas ou cortes epistemológicos: se o conhecimento é "luz", não deixa de projetar "sombras", pois "o ato de conhecer dá-se 'contra' um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal estabelecidos, superando o que, no próprio espírito, é obstáculo à espiritualização" (Bachelard, 1996, p. 17). Bachelard notabilizou-se na ciência e na filosofia, mas também experimentou a poesia. Benedito Nunes (2005) costumava relacioná-lo, nesse aspecto - ao lado de Sartre, Heidegger, Foucault e Ricoeur, por exemplo -, ao caminho ou ao percurso que vai da filosofia à poética.

Em primeiro lugar, é preciso saber formular problemas. E, digam o que disserem, na vida científica os problemas não se formulam de modo espontâneo. É justamente esse 'sentido do problema' que caracteriza o verdadeiro espírito científico. Para o espírito científico, todo conhecimento é resposta a uma pergunta. Se não há pergunta, não pode haver conhecimento científico. Nada é evidente. Nada é gratuito. Tudo é construído (Bachelard, 1996, p. 18, grifo nosso).

Por meio da filosofia e da crítica literária, Benedito incessantemente buscou o conhecimento - sua inquietação maior, seu tema permanente ao longo da vida. O que se ligava à possibilidade do conhecimento e ao seu valimento estava na pauta de Benedito, pois esses tópicos marcam a filosofia de ontem e de hoje, com interesse a cada instante renovado nas indagações e suas posteriores descobertas que logo engendram novos questionamentos. Com frequência, recorrendo à epistemologia, o professor paraense refletia sobre os limites do conhecimento humano. A filosofia de Bachelard foi, inclusive, tema escolhido por Benedito no ano de 1989 para um curso de pós-graduação na UFPA (Tarricone, 2007) e sempre esteve entre as suas referências:

Outro ponto quente do pensamento filosófico contemporâneo é a crítica da Teoria do Conhecimento, derivada da relação modelar entre sujeito e objeto. A Teoria do Conhecimento, conforme deixa prever a obra de Bachelard, será uma teorização de práticas científicas não-cartesianas (Nunes, 2004b, p. 22).

A Academia Brasileira de Letras (ABL) realizou, em 2005, um ciclo de conferências denominado "Caminhos do Crítico". A revista "Estudos Avançados", da Universidade de São Paulo (USP), editou os anais do congresso. Convidado, Benedito participou desse evento no Rio de Janeiro. Bem no início do discurso, Benedito recordou um encontro seu com Clarice Lispector, quando a escritora lhe afirmou: "Você não é um crítico, mas algo diferente, que não sei o que é". Continuou Benedito em sua recordação:

No momento, perturbou-me essa afirmação. Hoje posso ver como foi certeiro, além de encomiástico, o aturdido juízo de Clarice. Ela percebia, lendo o que sobre ela escrevi, que o meu interesse intelectual não nasce nem acaba no campo da crítica literária. Amplificado à compreensão das obras de arte, incluindo as literárias, é também extensivo, em conjunto, à interpretação da cultura e à explicação da Natureza. Um interesse tão reflexivo quanto abrangente é, portanto, mais filosófico do que apenas literário.

Ora, desde Kant a filosofia também foi chamada de crítica. Não sei por qual das críticas comecei, se foi pela literária ou pela filosófica, tão intimamente se uniram, em minha atividade, desde novinho, e alternativamente, literatura e filosofia.

No "algo diferente" a que Clarice se referia para qualificar-me, estava implícita semelhante união. Não sou um duplo, crítico literário por um lado e filósofo por outro. Constituo um tipo híbrido, mestiço das duas espécies. Literatura e filosofia são hoje, para mim, aquela união convertida em tema reflexivo único, ambas domínios em conflito, embora inseparáveis, intercomunicantes (Nunes, 2005, p. 289, grifo nosso).

Clarice Lispector questionou Benedito Nunes, como se lhe lançasse pergunta aos moldes de Bachelard. Impelido no passado por Clarice, Benedito reconhece que a "interpretação da cultura" e a "interpretação da Natureza" são elementos componentes da sua obra. Se a produção intelectual de Benedito grafou seu nome no painel de grandes autoridades da filosofia e da crítica literária, poderá também inscrever o professor paraense como um intérprete da Amazônia? Alguns componentes dessa obra, mesmo que analisados ainda superficialmente, não deixam de combinar história, antropologia, sociologia, geografia, filosofia, crítica da literatura e das artes em geral, muitas vezes no contexto amazônico. Em certa medida, tais trabalhos, quando estudados mais profundamente, poderão despontar, então, como crítica das culturas e exame das sociedades na Amazônia? Em que medida? Têm ethos, como diriam os gregos? Têm marca própria? Eles formam uma unidade de pensamento? Que articulações podem permitir? Qual a importância das criações de Benedito que, além de lançarem mão da literatura e da filosofia, também constroem explicitamente reflexões sobre Belém? Por que não há recepção ou fortuna crítica desses textos de Benedito, pontuados de alusões à nossa região? Eles não foram construídos com o mesmo rigor intelectual e igual erudição que pontilham as aulas, os livros, os ensaios e as conferências que Benedito fez sobre Heidegger, Nietzsche, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, e que tanto repercutiram além do Pará? Teriam sido os textos sobre a nossa região mais esparsos e, assim, menos difundidos ao longo do tempo, talvez fragmentos espremidos pela recepção calorosa de Benedito, fora da Amazônia, como filósofo e crítico literário? O hermeneuta de Heidegger, que nasceu e sempre morou em Belém, não seria hermeneuta da sua própria região? Emerge da obra de Benedito uma compreensão da Amazônia? Esse pensamento pode ser útil aos programas de desenvolvimento da Amazônia, à altura da complexidade da região? Ou, no mundo contemporâneo, há lugar apenas para especializações e segmentações? Essas perguntas têm o sentido de despertar inquietações e de abrir possibilidades de leitura da obra fecunda de Benedito Nunes, um tesouro a explorar.

De outra feita, na entrevista que concedeu à TV Globo em 2006, Benedito declarou: "Não sei se eu interiorizei a Amazônia. Belém, certamente, eu interiorizei". Interiorizar significa interpretar? Ele realmente interpretou a metrópole onde reside? Na mesma ocasião, o filósofo comentou o fato de sempre ter morado em Belém, embora tenha passado temporadas de estudo no exterior: "A margem sempre me dá um distanciamento. Eu sempre fui um marginal" (Nunes, 2006b) - completa com um sorriso.

Após o falecimento de Benedito, seu legado foi objeto de comentários do professor Renan Freitas Pinto, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM): "sua obra, construída com rigor crítico, sem nunca abrir mão da clareza de sua escrita, ainda permanece relativamente desconhecida em sua terra, a Amazônia, necessitando ser devidamente incorporada por nossa inteligência" (Pinto, 2011).

As questões referentes à Amazônia demandam faina interdisciplinar. Se o "Brasil não é para principiantes", como pugnava o músico Tom Jobim (Botelho e Schwarcz, 2009, p. 16), o que dizer da Amazônia, da sua complexidade, das suas desigualdades internas? Talvez outro grande artista da música popular brasileira tenha traduzido isso bem: Chico Buarque de Hollanda, em "Bye bye, Brasil". "Tomei a costeira em Belém do Pará / Puseram uma usina no mar" e "Peguei uma doença em Belém" (Hollanda, 2006, p. 284-285). Teria Chico - filho de Sérgio Buarque de Holanda, um reconhecido intérprete do Brasil - feito referência nessa letra de 1979 à região complexa onde conviviam discrepâncias e contradições, como a exuberância exposta pelo Projeto Jari e sua usina enquanto a insalubridade grassava pela capital do Pará? Complexo é o Brasil e complexa é a Amazônia! Como sabem também os artistas... Como sabia Clarice Lispector ao observar a produção de Benedito.

As relações entre filosofia e cultura constituíram pergunta feita a Benedito Nunes por Nobre e Rego: "Seria possível falar de uma filosofia brasileira? Como o senhor vê as relações entre a filosofia e a cultura brasileira?". A resposta de Benedito alcançou a abrangência do pensamento social na história e na política:

Se pensarmos em uma filosofia com características brasileiras, como uma concepção de mundo que só o Brasil proporciona por ser o Brasil, a minha resposta é não. A menos que visemos filosofia no sentido lato: pensamento social, histórico e político. Nesse sentido, Oliveira Vianna e seu livro "A evolução do povo brasileiro" têm filosofia. "Casa grande e senzala", de Gilberto Freyre, também. Adito o termo 'filosofia brasileira' como filosofia feita no Brasil, mas a partir de uma reapropriação da tradição filosófica, da história da filosofia e das obras-fonte. Ou continuamos o diálogo com Platão, Aristóteles, Descartes, Kant e Hegel, ou não há filosofia (Nunes, 2000a, p. 79, grifo nosso).

Benedito reconheceu, portanto, a pertinência do debate sobre a relação entre filosofia, cultura e pensamento social - encontrada em grandes intérpretes do Brasil, como Oliveira Vianna e Gilberto Freyre. Em outra entrevista, Benedito discorreu mais sobre a importância da filosofia:

A filosofia tem uma aplicação mais ampla que as outras disciplinas (...) que têm alguma utilidade por assim dizer, direta, prática. Ela serve para instigar o pensamento, ou seja, como uma curiosidade para desenvolver o que interessa à mente humana. Quem estuda a filosofia procura uma razão de ser e se questiona a respeito das causas e implicações de tudo a seu redor. Assim, encontra respostas e razões mais profundas para diversos acontecimentos históricos e comportamentos humanos, por exemplo (Nunes, 2007a, grifos nossos).

Bachelard, na epistemologia, reivindica uma "razão operante (...) que se constrói com a experiência, construindo o seu objeto" (Nunes, 2004b, p. 22). Conforme esse 'novo' espírito científico despertado pelas inquietações de Bachelard, o problema desta pesquisa sobre Benedito engloba várias indagações aqui listadas e que podem ser sintetizadas em uma grande pergunta aglutinadora: qual é a interpretação, a importância e o estatuto da criação intelectual de Benedito sobre a Amazônia presente na obra de um pensador que sempre morou em Belém? Eis uma questão, cuja busca de respostas visa a construir conhecimento sobre a obra de Benedito Nunes.

 

BENEDITO - CONTRIBUIÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS

Em ensaio datado de 1958 e publicado, como apêndice, na segunda edição de "A redução sociológica", de Guerreiro Ramos, Benedito Nunes (1965) mostra seu olhar atento e interessado em interpretações da sociedade brasileira e de seu processo de desenvolvimento - identificado naquele momento com a industrialização, a constituição da nação e a construção da identidade nacional. Guerreiro, enquanto sociólogo, teve a atenção voltada também ao papel das ciências sociais no país (Malta e Kronemberger, 2009) e constava na bibliografia da disciplina que Benedito ministrava no curso de ciências sociais da UFPA, nos anos 1970.

No diálogo com o autor de "A redução sociológica", Benedito se debruça sobre os impasses teóricos e ideológicos da construção da objetividade no campo das ciências sociais. E interroga a pertinência metodológica da noção de "redução", tal qual é empregada por Guerreiro. Considera que "aí começa a segunda função da atividade redutora: depois da crítica, ela se torna essencialmente reflexiva" (Nunes, 1965, p. 209). Então, Benedito Nunes (1965, p. 201) expressa claramente seu entendimento sobre os fundamentos de validação:

(...) dois fundamentos teóricos, de igual importância, asseguram a validade do princípio da redução. O primeiro é a razão histórica de Dilthey que, reformulada, veio dar a razão sociológica; segundo é a ideia de mundo, tal como se encontra, hoje, na filosofia de Heidegger, depois de uma elaboração demorada, que principiou quando o método fenomenológico já estava ultimado, no período das "Meditações Cartesianas" de Husserl.

O professor recorre à filosofia de Dilthey, Heidegger e Husserl, mas reflete também sobre questões metodológicas enfrentadas pela sociologia e por seus dilemas teóricos, como, por exemplo, no debate denominado "Tem vez o sociólogo?" - organizado com o propósito de discutir o papel desse profissional na produção do conhecimento e na intervenção social. O evento foi uma iniciativa da Associação dos Sociólogos do Brasil, Seção da Região Norte, em 1976, na capital paraense. Depois, em 1978, houve a publicação desse debate, embora de forma um tanto quanto artesanal, com reduzida tiragem. Como parte de seus comentários durante o encontro, Benedito observa que

as formulações ousadas, como as de um Bohr e de um Einstein, decorrem de uma transgressão dos paradigmas, quando o cientista passa a divergir da comunidade profissional a que pertence. Os cientistas sociais têm desse ponto de vista uma vantagem. Eles ainda não possuem paradigmas fixos. Mas devem ter (um dever que não significa imperativo categórico) uma perspectiva metodológica. Mas será uma perspectiva metodológica que não limita o estudo da ciência à simples identificação de fenômenos (ASB, 1978, p. 21).

Continuando seu posicionamento, logo em seguida, referindo-se também às palavras anteriores de Rosa Acevedo nesse debate, quando ela se manifestara sobre "a capacidade do sociólogo para predizer os fatos com as ferramentas que dispõe" (ASB, 1978, p. 12), Benedito completa: "Prever os acontecimentos, muito bem, estou de acordo com você, Rosa, toda ciência é previsiva, não é? Mas que o sociólogo também nos diga algo sobre o que significam esses acontecimentos" (ASB, 1978, p. 21).

Benedito contribuiu seguramente para a construção do conhecimento na área das ciências sociais. Em Belém, sua presença nesse meio é denotada pela participação marcante como professor do curso de Ciências Sociais na 'velha' Faculdade de Filosofia, situada à avenida Generalíssimo Deodoro. A reflexão do mestre ia da filosofia ao ensino da epistemologia científica como dimensão da crítica do conhecimento, avaliando e interpelando variados aspectos da produção de conhecimento na sociologia e nas ciências humanas em seu sentido mais amplo. O professor paraense participou ativamente, na UFPA, de programas de ensino e orientação de monografias de alunos, desde quando a pós-graduação se restringia a programas de aperfeiçoamento e especialização - como o curso de História da Filosofia, em 1974 - e poucos eram os debates no correr dos anos setenta e oitenta. Sua presença lúcida foi essencial para iluminar reflexões e aguçar o interesse pelos segredos da arte de pensar e, com essa preocupação, inseriu disciplinas filosóficas e epistemológicas nas pautas dos cursos de graduação. Assim, Benedito estabeleceu programas e participou da formação do curso de Ciências Sociais, em 1962. Manteve durante anos, em sessões semanais noturnas, para as quais produzia textos originais, um seminário exclusivamente para o grupo de aproximadamente dez professores de Filosofia: versavam sobre os conteúdos filosóficos das disciplinas, no início da década de 1970, quando todos os alunos da UFPA passavam pela obrigatoriedade de cursar Introdução à Filosofia. Entre tantas outras contribuições ao campo intelectual, em Belém, destaca-se ainda a "série de seminários, coordenados e dirigidos pelo professor Benedito Nunes", onde estiveram em debate temas de física, de filosofia, da relação entre ciência e filosofia, mas também o "processo cognitivo da ciência; a intuição criadora; ciência e ideologia; ciência, tecnologia e desenvolvimento" (Bassalo, 2009, p. 136).

Pensador brasileiro de inteligência incomum, Benedito manifestou relevantes preocupações teóricas e epistemológicas, de pensar o universal e de destrinchar as relações entre as coisas e os acontecimentos, de entender os significados que ligam filosofia e ciência, filosofia e arte, poesia e filosofia, cultura e política, ideologia e ciência, enfim, uma reflexão completa, complexa e interdisciplinar, rompendo fronteiras do conhecimento com sua visão universalista da filosofia e da cultura. Sempre adotou uma postura teórica da reflexividade, captando o universal dos acontecimentos, nos nexos e nas correlações que tecem as dimensões profundas da condição humana.

Centradas sobre o conhecimento e o papel teórico da sociologia, as intervenções de Benedito questionam o lugar da mediação e dos objetos de estudo da sociologia e da antropologia. Ensinam a pensar a cultura e a sociedade brasileira como questão - cenário de obras fantásticas que tentam entender, falar, interpretar, decifrar o que é o Brasil, o seu povo, os seus costumes e, consequentemente, o pensamento social aí produzido. Os ensaios escritos por Benedito Nunes sobre obras de inúmeros autores que se perfilam entre os grandes intérpretes do Brasil, na literatura e na poesia, como Guimarães Rosa, Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, marcam pela sua originalidade e introduzem novas leituras interpretativas à crítica literária. Tais interpretações são caras às ciências sociais na medida em que contribuem para elucidar e aprofundar reflexivamente o debate no campo do pensamento social brasileiro. Benedito envereda nessa linha bem cedo, desde o primeiro ensaio sobre Guimarães Rosa - "Primeira notícia sobre Grande sertão: veredas"-, publicado no "Jornal do Brasil", em 1957 (Tarricone, 2007). Em seu primeiro livro - "O mundo de Clarice Lispector" -, Benedito refere-se à realidade social: "Na literatura, (...) é sempre possível encontrar uma concepção-do-mundo, inerente à obra considerada em si mesma, concepção esta que deriva da atitude criadora do artista, configurando ou interpretando a realidade" (Nunes, 1966, p. 15).

Sua concepção de ciência e arte é ampla, pois se ancora na filosofia. No ensaio "Pluralismo e teoria social", Benedito destaca o papel da filosofia e da análise literária na interpretação do mundo:

A filosofia interpreta o mundo e interpreta a si mesma. A "hermeneutização" (Hermeneutisierung) de tudo revela-nos também que a linguagem é a principal mediadora da 'referência à vida' na filosofia. Tal mediação ainda mais estreita os laços entre o filosófico e o literário (Nunes, 2010b, p. 297).

No ensaio "Filosofia e Memória", discorre sobre a filosofia como intérprete de culturas:

Diante da diversidade das culturas, em nossa época de fastígio da ciência, como forma de conhecimento sob dominância tecnológica - época, também, de exacerbação das rupturas com o passado e de valorização ideológica do futuro, como dimensão privilegiada do tempo -, a filosofia assume, entre outras funções modestas, o encargo hermenêutico de intérprete das heranças culturais e das modalidades de consciência histórica. Com isso, a coruja de Minerva torna a encontrar seu pouso no ombro de Mnemosyne. Tal como a poesia, de que se aproxima, a filosofia tende a lembrar hoje o que não pode ser esquecido (Nunes, 2010a, p. 24-25).

É visível o interesse de Benedito em contribuir com a construção de uma consciência crítica, tomando as disputas intelectuais da sociedade brasileira como pano de fundo. Constata-se, assim, sua intenção de formar pessoas comprometidas com estudos sobre o pensamento social brasileiro.

Está sempre presente em suas orientações a preocupação com a escolha de métodos que considerem a história, de forma a contextualizar as trajetórias das ideias. Nas suas análises sobre a circulação do ideário social e político, observa-se a inclinação para traçar essa visão de conjunto e refletir sobre marcos culturais e literários, determinantes político-culturais e institucionais relativos ao tema abordado e sua avaliação crítica.

Benedito Nunes formou intelectuais na leitura sistemática, filosófica e literária, de autores que pensam o Brasil, suas mudanças sociais, seus dilemas, a desigualdade, a relação de classes, a constituição da identidade nacional e da cultura. E, nessa perspectiva, contribui marcadamente com o campo de circulação de ideias pela leitura crítica de seus ensaios. Logo, se aproxima, direta ou indiretamente, de grandes intérpretes consagrados da sociedade brasileira. Autores como Oliveira Vianna, Sérgio Buarque de Holanda, Guimarães Rosa, Gilberto Freyre, Nelson Werneck Sodré, Florestan Fernandes, Antonio Candido, Caio Prado Júnior, cujas obras são reconhecidas incontestavelmente como singulares no esforço de decifrar este país, fazem parte do universo literário e humanista de Benedito Nunes. Ainda hoje, as obras daqueles intérpretes constituem referências e objeto de releituras de novas gerações, que promovem atualizações constantes no afã de retomarem pontos cruciais que emergem desses 'desenhos' do Brasil.

Assim como inúmeros outros autores que passaram pelos períodos difíceis da ditadura militar no Brasil, dos anos 1960 aos 1980, com o aparato policial montado para coibir o pensamento e a circulação de ideias, Benedito se manteve firme na postura de intelectual comprometido com o conhecimento, a liberdade de expressão e a perspectiva reflexiva. Um exemplo que levou intelectuais de sua geração e de gerações mais jovens da época à reflexão e à crítica social, nele se espelhando.

O interesse e a perspicácia de Benedito em buscar os subterrâneos da teoria e das metodologias difundidas à época, adotando a perspectiva analítica na sua leitura acerca da produção intelectual de autores que refletem sobre a realidade brasileira, constituem uma contribuição importante no âmbito das ciências sociais e do pensamento social no país. Ainda que sua reflexão sociológica não esteja reunida ou concentrada especificamente em uma publicação, ela se encontra em diferentes documentos, livros, ensaios, entrevistas, palestras e conferências. Eles dizem de sua trajetória intelectual em períodos diversos, nos quais a lucidez de pensamento e a absoluta obstinação pelo saber foram os tons que marcaram seu espírito inquieto desde muito jovem. Assim, pensa a sociologia - e as considerações sobre "A redução sociológica" servem de exemplo - como espaço da reflexão sobre a realidade, visando compreender os processos de transformação por que passa a sociedade brasileira, em contexto de forte influência desenvolvimentista.

Benedito trouxe a Belém, para difundir o debate, alguns intelectuais eminentes na reflexão filosófica, antropológica e sociológica que se permitiam pensar o mundo no contexto entre a filosofia e a política, formulando a crítica à modernidade e às suas consequências, como Michel Foucault. A presença de Foucault, no ano de 1976, em Belém, foi lembrada por Benedito em 2004, durante entrevista que concedeu aos professores Márcio Benchimol Barros e Ernani Chaves, depois publicada em 2008:

O Foucault... Tudo começou com um conhecimento muito rápido. Ele apareceu e ficou na casa do Machado Coelho, na Praça da República. (...) Fui lá e perguntei se ele não queria fazer uma palestra na Universidade (Federal do Pará). Ele me disse "agora não, estou de férias, vou para o Marajó, mas ano que vem eu posso fazer". (...) No ano seguinte, o agente consular da França me telefonou dizendo que o Foucault estava vindo fazer a tal palestra que ele prometeu. Ele ficou hospedado no Hotel Grão-Pará e durante uma semana ele fez essas palestras. Naquela época era o regime militar ainda e, justamente para que as conferências fossem proveitosas, eu peguei a turma da filosofia e fiz uma série de exposições sobre Foucault, sobre "As palavras e as coisas" e outros trabalhos. (...) Foucault foi extraordinário, como sempre ele era muito brilhante. Eu fazia a intermediação, as pessoas faziam as perguntas, eu traduzia, ele dava as respostas e eu traduzia para a assistência (Nunes, 2008b, p. 21, grifo nosso).

A partir de seus escritos, Benedito mostra a proximidade com autores brasileiros que promoviam a crítica face às contradições que imperavam na vida social. Nesse contexto, se discutia a função social da ciência e se perguntava o quanto as ciências sociais deveriam ser também um instrumento de conscientização política, ao desvendar um mundo sob o véu da dominação social, ideológica e política; ou se perquiria, ainda, sobre a necessidade de produzir, ao seu lado, também a mudança e a transformação da sociedade. Essa é a perspectiva encontrada em autores como Florestan Fernandes (Miceli, 1989) e, na linha da sociologia da cultura, igualmente em Pierre Bourdieu (2004) - que teorizou sobre as práticas dominantes no campo intelectual e as relações de poder que atravessam a sociedade, polemizando e tomando posição explícita sobre a necessidade de se evidenciar os usos sociais da ciência. Para Guerreiro Ramos (Nunes, 1965), a ciência social não tem somente uma função de organização do pensamento reflexivo sobre a sociedade - reflexão teórica, portanto -, como também de 'reduzir' o transplante de ideias coloniais do ocidente para o Brasil (e a América Latina, no seu conjunto). É o seu legado interiorizado e arraigado no 'ser brasileiro'. E, é oportuno que se diga, no 'ser amazônico'. O interesse maior de Benedito Nunes - estudioso da obra de Guerreiro - é pela reflexão, com o mundo do pensar e de sua crítica, pois aí reside seu precioso legado ao campo intelectual.

Em meados do século XX e por todas as décadas seguintes, ocorreram no Brasil mudanças de grande significado na reconfiguração da organização social - decorrentes dos processos de industrialização, urbanização e das novas condições no mercado de trabalho -, redefinindo, assim, estruturas e papéis sociais. Por outro lado, no campo governamental, as políticas orientadas pela ideologia nacional-desenvolvimentista demarcavam novas fronteiras de intervenção e iriam colocar o país diante de novos dilemas econômicos, sociais e políticos. Ainda que se concentrassem as decisões no eixo das regiões Sul e Sudeste, essas mudanças atravessavam o país como um todo, e a elas Benedito estava atento com seu olhar perscrutador.

O tema do desenvolvimento e de sua urgência ideológica foi pauta relevante na sociedade brasileira nos anos 1970, pois emergia a influência de um pensar sobre o planejamento com base nas ciências econômicas. Havia a nítida sensação de transformações econômicas, sociais e morais para as quais a ciência tinha um papel a desempenhar. Essa visão instrumental sempre esteve presente na tradição ocidental das ciências sociais, de forma bastante polêmica e fecunda ao pensamento. Relembre-se o Brasil à época de "A redução sociológica", de Guerreiro: processos de industrialização, mudanças nas relações sociais no campo, crescimento de uma classe média com acesso a outro padrão de consumo e, consequentemente, mudanças no perfil da urbanização no país - tudo gerando importantes efeitos no campo científico.

Certamente, é importante compreender e ampliar a discussão sobre ideias, conceitos, noções e representações que marcaram presença, em momentos e circunstâncias diferentes, na formação do pensamento social sobre a Amazônia. Cabe interrogar a respeito da sua relação com o pensamento social brasileiro e o processo de construção da identidade nacional. A releitura da obra de Benedito Nunes impõe-se nessa direção, como também a de outros autores regionais cujas interpretações são ainda pouco visitadas. Tal linha de pesquisa é importante para o avanço dos estudos sobre a Amazônia, lembrando-se aqui algumas contribuições vindas de tradições teóricas diversas, como as de Euclides da Cunha (1986), Dalcídio Jurandir (Nunes, 2006a), Leandro Tocantins (1973), Charles Wagley (1988), Eduardo Galvão (1955) e Djalma Batista (1976).

A interpretação do pensamento social é abordada por Benedito durante entrevista, quando Márcia Mendes lança ao professor uma pergunta sobre a função do regionalismo na literatura e na filosofia. Ele faz distinção entre regional, regionalismo e amplitude universal, que resulta em extraordinária síntese sobre o sentido da cultura:

Acho que convém distinguir entre regionalismo e regional. A literatura pode ter regionalidade sem que, forçosamente, seja regionalista. A filosofia está acima das regiões; ela reside na amplitude das questões que levanta: amplitude universal.  Certa literatura, como a de Guimarães Rosa, que aproveita matéria regional abundante, constitui uma espécie de supra-regionalismo. Quando alguém escrevesse sobre a visão amazônica do mundo estaria aplicando um conceito filosófico (visão do mundo = Weltanschauung) para tirar o sumo das lendas, crenças e comportamentos do homem amazônico, no intuito de configurar um conjunto de pensamentos, ideias e atitudes (Nunes, 2009a, p. 88).

Benedito faz crítica social nas análises sobre a obra de Dalcídio Jurandir, em quem encontra um observador atento no exercício da interpretação da estrutura social, das relações da cidade com o interior, dos bairros e da fisionomia de Belém, do lugar da ilha de Marajó na sociedade regional. E Benedito se refere a "Belém do Grão-Pará" como "uma das melhores e mais completas leituras da cidade" (Nunes, 2006c, p. 29):

Quem lê "Belém do Grão-Pará", como o romance dos Alcântaras (o casal seu Virgílio / dona Inácia e a filha Emilinha), lê a inteira cidade dos anos vinte, tal como a tinham deixado, após o início da decadência econômica, consequente à crise da borracha, que culminara em 1912, as reformas do intendente (prefeito) Antônio Lemos. O drama daquela família, com a qual Alfredo vai viver, drama todo exterior, de perda de status, levando-a, após o lemismo, a uma mudança de casa e de rua, está relacionado com aquela decadência (Nunes, 2006a, p. 246).

A cidade amazônica é objeto da reflexão de Benedito. Em circunstâncias e contextos diferentes, ela é revelada em sua obra. No trabalho "Pará, capital Belém", Benedito percorre o passado e desvela seus personagens, acontecimentos e contradições que se entrelaçavam no cotidiano da cidade. Descreve a fisionomia e a estética de uma cidade amazônica que tem a particularidade de uma relação estreita com a floresta, relembra lugares perdidos na memória de uma cidade que se distancia de si, que se desfigura e abandona relações constitutivas de sua singularidade. O trecho a seguir é precioso por explicitar nexos entre o local e o universal da condição humana, entre mundos de ideias e de imagens que a memória contém, ícones de um conjunto fisionômico:

Já existente desde 1883, como pedaço da floresta amazônica, o Bosque Municipal Rodrigues Alves, um dos 16 bosques tropicais que Lemos planejara, foi ajardinado à moda europeia em 1903. No entanto, o gosto europeu aí se tropicalizou: uma mestiçagem de majestosas árvores da hileia, altíssimas árvores de volumoso tronco, das quais pendem grossos cipós, com cascatas, lagos sinuosos, pontes, refúgios, abrigos e choupanas românticas cobertas de palha, sob os nomes de Atala, personagem de Chateaubriand, e de Paul e Virginie, o casal amoroso de Bernadin de Saint-Pierre, do lado francês, e sob os de Ceci e Peri, do lado brasileiro, menos homenagem a José de Alencar do que ao maestro Carlos Gomes, que foi, como se verá, um dos nomes, senão um totem, de Belém" (Nunes, 2006c, p. 29-30).

Na apresentação do livro denominado "Pará, capital: Belém - memórias & pessoas & coisas & loisas da cidade", ao ver Belém como personagem, Benedito explica as razões dessa obra ter sido escolhida para encetar um projeto de publicação da obra completa de Haroldo Maranhão:

Porque do cruzamento dos textos que constituem a antologia, cada um dos quais é uma maneira de ver, sentir Belém, não resulta apenas a cidade como o contexto histórico dessas fontes. As fontes são, por sua vez, fragmentos de uma memória comum, coletiva, de todos e de ninguém em particular. De qualquer forma, pessoalizada, Belém vira personagem, agindo num certo meio, fadada a proceder de uma certa maneira. É uma persona dramática - um modo de falar, de gesticular, de andar, de comer, deitar, de dormir e sonhar. Já então a cidade se apresenta, ela mesma, como um conjunto legível - um texto para nossa leitura reflexiva, silenciosa ou em voz baixa (Nunes, 2000b, p. 9).

Em "Luzes e sombras do Iluminismo paraense", Benedito sintetiza o dilema do conhecimento, de ordem prática e da circulação de ideias no Pará:

Singular Iluminismo o do Pará, sem contrapartida político-social. Pois, ao que parece, faltou à então província do Pará e do Maranhão aquele contato subversivo com a Europa que ativou a Inconfidência Mineira e que introduziria os livros insurrecionais nas livrarias particulares dos prelados. Se nos faltavam universidades e imprensa, esta introduzida entre nós por Felipe Patroni em 1822 e que, anos depois, nos traria as ideias do extremista Babeuf pela propaganda do frade Luís Zagalo, como poderíamos ter tido antes e depois da época de Landi as luzes do esclarecimento? (Figueiredo e Nunes, 2002, p. 24).

Por esses e outros exemplos, é muito feliz a alusão de Aldrin Moura de Figueiredo (2006, p. 5) no prefácio do livro "Crônica de duas cidades - Belém e Manaus". Ele se refere a Benedito Nunes e também a Milton Hatoum como "legítimos cronistas de suas aldeias, paraísos perdidos, palácios da memória, invocados pela lembrança do tempo que passou". Os autores interpretam suas cidades com a sensibilidade rara daqueles que podem estar dentro e também fora. Eles podem olhar o contemporâneo na obra coletiva, social e cultural, que atravessa os tempos, do passado, presente e futuro.

 

INVENTARIANDO POSSIBILIDADES DE PESQUISA

O objetivo geral do projeto em desenvolvimento no NAEA é interpretar a obra do paraense Benedito Nunes sobre a Amazônia, sobre o Pará, sobre Belém, com base em levantamento da produção intelectual do professor, fazendo uso de técnicas e métodos para entender os textos escolhidos e também promovendo entrevistas com pessoas que possam trazer contribuições ao tema. A dissertação de mestrado tem o objetivo específico de difundir questões e análises relacionadas à Amazônia e às suas culturas, inclusive como conhecimento fundamental para elaboração e compreensão dos programas de desenvolvimento da região.  Assim, os conceitos principais a trabalhar são: história e cultura da Amazônia, papel do intelectual e pensamento social.

"A interpretação não é jamais a apreensão de algo sem pressuposto", escreve Heidegger em "Ser e tempo". Situacional, a pré-compreensão inclui um referencial (Vorhabe), um contorno ou perspectiva (Vorsicht) e um esboço conceptual (Vorgriffen), que prendem o intérprete nas malhas de um sentido antecipado. Essa pertença abre, porém, o processo de interpretação (Nunes, 2010b, p. 288).

Estudar e ler intelectuais que procuram, de forma crítica, interpretar seu país e sua região é estudar e ler este país e esta região. Daí a relevância do estudo do pensamento social como tema. Essa é a área onde se situa este projeto e que vem progressivamente ganhando espaço em meios acadêmicos:

Comumente revisitar ideias (...) pode ser bom princípio para compreender problemas cruciais de uma cultura. O contínuo esquadrinhamento da nossa vida intelectual, persistência marcante no Brasil, acentuada no último quarto do século XX, confirma uma atitude tão recorrente que se firmou como qualidade singular de nossa reflexão (Arruda, 2004, p. 107).

Trabalhos indiciários sobre a obra em estudo levam à formulação da seguinte hipótese: Benedito é intérprete da Amazônia e interrogador da realidade amazônica - papel que desempenha com sentimento de pertença e a desenvoltura de quem conhece filosofia e literatura, áreas do conhecimento nas quais é autoridade respeitada. Assim, a interpretação reflexiva do humanista Benedito, que retrata a Amazônia, é importante para a história das ideias, de acordo com o entendimento: aspectos culturais, filosóficos e históricos devem estar presentes nas representações da região, nos seus projetos de desenvolvimento e na avaliação crítica dos processos sociais. O qualificativo 'humanista' é usado porque Benedito é intelectual versado em humanidades e dedicado ao estudo e à difusão de obras.

Como o objeto de estudo é a obra de grande latitude de Benedito Nunes, o projeto precisa de limites. Assim, considera um segmento ou subconjunto dessa produção intelectual, escolha feita a partir do critério: os textos para análise aprofundam questões ligadas à cultura, à história e à sociedade, com referências a Belém, ao Pará e à Amazônia. Listam-se a seguir os trabalhos escolhidos, que estão assinalados em ordem cronológica de criação pelo autor:

1) "UMA CONCEPÇÃO GEOGRÁFICA DA VIDA"

Artigo escrito em 1961 e veiculado no Suplemento Literário do jornal "O Estado de S. Paulo". Comenta o livro "Ideias para uma concepção geográfica da vida", lançado por Eidorfe Moreira em 1960 (Moreira, 1960; Nunes, 1961). Na ocasião, Benedito era regular colaborador do jornal paulista. Eidorfe, professor de geografia, foi companheiro de Benedito, tanto nas atividades da UFPA como naquelas desenvolvidas na SPVEA - durante a gestão do historiador Arthur Cézar Ferreira Reis. É autor de obra ampla e diversificada, cujos principais enfoques estão vinculados a Belém, ao Pará e à Amazônia. Segundo Nunes (1961, p. 4),

O professor Eidorfe Moreira aborda (...) diversos temas que podem interessar tanto ao geógrafo quanto ao filósofo. Na primeira parte do volume trata das questões referentes ao método e ao objeto da geografia; na segunda, analisa, para mencionarmos somente os capítulos mais importantes, o conteúdo geográfico da cultura, da civilização e da política; e na terceira, finalmente, sob o título de "O homem e a paisagem", merecem destaque os estudos sobre o antropocentrismo, o sentimento pátrio, a cosmologia do amor, a empatia geográfica e as regiões imaginárias da mitologia e da literatura, que constituem objeto de toda uma geografia especial.

2) "UM CONCEITO DE CULTURA"

É o título da aula magna proferida em 1973 na UFPA. O ensaio depois virou clássico e foi incluído em livro do NAEA. A realização dessa aula ocorreu quando a reforma universitária instalava no curso superior um ciclo básico, que estabelecia em seu programa elementos de cultura geral. Para conceituar 'cultura' e refletir sobre a cultura geral formativa do indivíduo e da sociedade, Benedito recorreu a vários autores de diversas áreas do conhecimento, como T. S. Elliot, Paul Valéry, Jean-Paul Sartre, Jorge Luis Borges, Ezra Pound, Ruth Benedict, Picco de la Mirandolla, Oswald Spengler, Heidegger, Claude Lévi-Strauss e Lucien Levy-Brühl, entre outros.

Dos egípcios aos gregos, dos gregos aos germanos, dos esquimós aos tupis, dos tupis aos bororos, quer adotemos um eixo vertical de sucessão no tempo ou um eixo horizontal de coexistência no espaço, verifica-se o fato cultural na constância de elementos característicos, que definem, para cada agrupamento humano, um conjunto de modos de proceder e de pensar, segundo estruturas normativas variáveis e particulares, que sustentam, conforme expressão de Ruth Benedict, "diferentes padrões de pensamento e ação" (Nunes, 1997, p. 536).

3) "NOTA CRÍTICA"

É o texto de apresentação crítica das obras reunidas de Eidorfe Moreira. Publicado em 1989, ano do falecimento de Eidorfe. Na análise de Nunes (1989, p. 25), a coleção apresenta ordens diferentes de estudo:

(...) os específicos sobre a região amazônica, como "Amazônia - o conceito e a paisagem", "Belém e sua expressão geográfica", "Os igapós e seu aproveitamento", "Influências amazônicas no Nordeste - reflexos da fase áurea da borracha", (...) e os de história cultural do Pará, como "O livro didático paraense (breve notícia histórica)", "Presença hebraica no Pará" e "As letras jurídicas no Pará".

4) "À MARGEM DO LIVRO"

O ensaio é de 1996. Prefacia a obra "A casa e suas raízes: ensaios em economia, ecologia e ecomenia", de Armando Dias Mendes, professor da UFPA e autor de livros sobre a Amazônia.

Por volta do período da Eco-92, a questão ecológica que o autor de "A casa e suas raízes" reconhecera expressamente a propósito do desenvolvimento regional em "O mato e o mito" (1987), depois de já havê-la aflorado 14 anos antes em "A invenção da Amazônia" (1973), alastrou-se em nossas conversas, daí por diante, com o viço de uma plantinha tropical: tomou conta do afã especulativo dos 'conversistas', como uma ideia tensa de nossa época, ainda em estado de ebulição nascente, capaz de lhes proporcionar, a partir de problemas diferentes, congêneres às distintas províncias de pensamento que frequentam, um denominador comum para as suas interrogações teóricas e inquietações espirituais. Armando chegara à questão ecológica seguindo o problema do desenvolvimento regional; eu a vislumbrara através do problema ontológico, na fase moderna, interpretado por Heidegger como esquecimento do ser (Nunes, 1996, p. 11).

5) "AMAZÔNIA REINVENTADA"

É criação de Benedito, com abordagem sobre pintura e fotografia, construída em 1998 para o livro "A Amazônia: o olhar sem fronteiras" - voltado à divulgação da fotografia contemporânea. Esse livro documenta a coleção do catálogo da exposição II FOTONORTE e sua publicação é fruto da associação institucional entre a Fundação Nacional da Arte (FUNARTE) e a Secretaria de Cultura do Estado do Pará (SECULT). Da lista de fotógrafos brasileiros que participam do acervo, citam-se Luiz Braga, Orlando Maneschy, Ligia Simonian, Guy Veloso, Paula Sampaio, Patrick Pardini e Octavio Cardoso - todos com destacada atuação no Pará. Aparecem também fotógrafos de outros países: Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.

Os Fidanzas viajaram fotografando dentro e fora de Belém; mas foram, sobretudo, como demonstram os Álbuns do Estado e de sua capital, cuja tradição iniciaram, grandes flâneurs da cidade, colecionando seus espécimes imagéticos naturais e artísticos, suas paisagens e ruas, praças e monumentos, como o interior de seus prédios, além de registrarem os sinais do que então parecia ser o surto da indústria naval da região e os acontecimentos excepcionais, espetaculares da vida urbana na Belle Époque, o período de ouro da borracha (Nunes, 1998, p. 30).

6) "UNIVERSIDADE E REGIONALISMO"

A aula magna foi pronunciada em 1999 na UFPA. Depois, o texto também mereceu publicação em livro do CCFC. Benedito registra os estudos sobre a Amazônia anteriores à criação da UFPA, em busca de uma história intelectual da região:

Longe de mim a ideia de poder escrevê-la (...). Mas, pelo menos, será preciso delinear-lhe algumas passagens, principalmente aquelas que salientaram na transição do século XIX para o século XX, quando uma parcela da intelligentsia local conquistou, atuando em vários planos, didático, artístico e científico da atividade intelectual, sob o influxo de "ideias novas" perfilhadas pela geração de 1870, identidade própria no trabalho de abrir as diversas frentes de investigação exploratória das terras amazônicas. Entende-se por intelligentsia, na acepção de Karl Mannheim, o grupo heterogêneo, no exercício de profissões liberais, de que participam como escritores, artistas e homens de ciências, elementos de diferentes classes sociais.

(...)

Talvez lhes acudisse, aos intelectuais autodidatas, nos vários momentos da empresa de investigação exploratória da região que acometeram, aquele misto de deslumbramento e decepção com que Euclides da Cunha, em 1906, quatro anos antes de publicados "Os Sertões", exprimiu sua primeira impressão da planície amazônica e de seu grande rio: um mundo excessivo em formação, - "um excesso de céus por cima de um excesso de águas" - a lembrar "uma página inédita e contemporânea do Gênesis" ainda incompleta, e por isso vazia de gente e sem história alguma. Euclides da Cunha era um adepto das "ideias novas", tal como antes o tinham sido, de diferentes maneiras, os escritores nortistas Inglês de Sousa e José Veríssimo (Nunes, 2008a, p. 256).

7) "LUZES E SOMBRAS DO ILUMINISMO PARAENSE"

Trata-se de um trabalho sobre o século XVIII - Século das Luzes - escrito no ano 2000. Benedito Nunes e Aldrin Moura de Figueiredo, professor do curso de História da UFPA, são coautores. Inicialmente, houve exposição da temática em ciclo de estudos sobre Antonio Landi e depois o ensaio teve publicação no conjunto "Terra matura: historiografia e história social na Amazônia", pois a palestra dos dois professores fez parte do II Encontro Regional Norte da Associação Nacional de História, Núcleo do Pará.

Na Europa, o Iluminismo deixou marcas de ordem cultural e intelectual. A razão era entendida como atributo essencial para o homem apreender o universo e, assim, melhorar sua condição humana e a organização social. O que ocorreu no Pará na mesma ocasião? Essa é a questão abordada por Figueiredo e Nunes (2002).

8) "DO MARAJÓ AO ARQUIVO: BREVE PANORAMA DA CULTURA NO PARÁ (COM OMISSÕES PERDOÁVEIS E IMPERDOÁVEIS)"

O ensaio panorâmico de 2004, com título e subtítulo bem representativos dos seus propósitos, faz parte da segunda edição do livro "A Amazônia, terra e civilização: uma trajetória de 60 anos", organizado por Armando Dias Mendes e comemorativo do aniversário do Banco da Amazônia.

Com a reforma da cidade, capitaneada por Lemos, que implantou entre nós o Art Nouveau, erguem-se belos edifícios públicos e residenciais, como, principalmente, o de propriedade do arquiteto Francisco Bolonha, já exemplar histórico das edificações nesse estilo. De outros estados convergem pintores para Belém, onde expõem, sob o patrocínio do referido prefeito, no foyer do Teatro da Paz (Nunes, 2004a, p. 644).

9) "MEU CAMINHO NA CRÍTICA"

A conferência de Benedito Nunes teve a ABL como palco em 2005, com multiplicação do texto em várias publicações posteriores (Nunes, 2005). O longo ensaio é uma espécie de autocrítica, na qual Benedito recupera detalhes de sua trajetória intelectual, incluindo a participação, quando muito jovem, em projetos desenvolvidos em Belém, como a criação da Academia dos Novos - com espelho no modelo da ABL - e do suplemento Arte e Literatura do jornal "Folha do Norte".

10) "O ANIMAL E O PRIMITIVO: OS OUTROS DE NOSSA CULTURA"

Em artigo onde tanto a antropologia como a filosofia são palavras-chave, Benedito expôs suas ideias sobre o tema em 2005, no seminário "Saúde, Meio Ambiente e Cultura: 100 anos de Oswaldo Cruz na Amazônia", organizado pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) em Manaus, no Centro de Pesquisas Leônidas e Maria Deane (Nunes, 2007b).

11) "CRÔNICA DE DUAS CIDADES - BELÉM E MANAUS"

No livro, em edição primorosa patrocinada pelo Governo do Estado do Pará, Belém é cinzelada por Benedito e Manaus, por Milton Hatoum (Hatoum e Nunes, 2006). Aldrin Moura de Figueiredo, prefaciador do conjunto, usa citação de "O palácio da memória", de Santo Agostinho, para abrir o livro dos 'cronistas' Nunes e Hatoum. Nesses "palácios" estão os tesouros porque "crônica é memória", e "Santo Agostinho havia de ter razão" (Figueiredo, 2006, p. 7-8).

Esse recorte, constituindo onze peças escritas em 46 anos (as datas estão distribuídas de 1961 a 2006), é fruto do levantamento e da investigação preliminar já empreendidos em grande parte da criação ensaística de Benedito Nunes. Na maioria desses textos, a região aparece explicitamente nos próprios títulos. O recorte prevê, inclusive, o exame de trabalhos de Benedito em relação, parceria ou coautoria com professores de diferentes gerações. Mais próximos da geração do autor estudado, estão Eidorfe Moreira e Armando Dias Mendes, enquanto Milton Hatoum e Aldrin Moura de Figueiredo pertencem à geração mais nova de intelectuais.

É evidente que o projeto de pós-graduação em curso na UFPA, dentro do recorte esboçado, não esgota todas as possibilidades de pesquisa em torno da obra de Benedito como intérprete da sua região. Por exemplo, observa-se ainda que, muitas vezes, a Amazônia pode ser considerada objeto de estudo de Benedito a partir de suas análises das criações literárias de Max Martins, Haroldo Maranhão, Mário Faustino, Dalcídio Jurandir, João de Jesus Paes Loureiro, Bruno de Menezes, Ruy Barata, Maria Lúcia Medeiros, Vicente Cecim, Age de Carvalho, Lilia Silvestre Chaves e Paulo Plínio Abreu, entre outros autores ficcionistas ligados ao Pará (Guimarães, 2010).

Outro aspecto da produção de Benedito que demanda estudos aprofundados é o conjunto de prefácios que elaborou para trabalhos de professores com destacada atuação no Pará, mais especificamente na UFPA. Nessa linha, citam-se as apresentações que Benedito chancelou para Ernani Pinheiro Chaves - livro "Foucault e a psicanálise", Raymundo Heraldo Maués - livro "Uma outra invenção da Amazônia: religiões, histórias e identidades", e José Carlos Castro - livro "A utopia política positivista e outros ensaios".

Como consideração final - last but not least - e síntese, face a tantas possibilidades de realizar investigações sobre Benedito no papel de intérprete da Amazônia, com acervo de contribuições ao pensamento social brasileiro, este artigo, escrito para o dossiê do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, reproduz depoimento irrefutável de intelectual brasileiro muito estudado pelas ciências sociais na atualidade: Antonio Candido. A declaração essencial de Candido faz parte de outro dossiê sobre Benedito: o da revista "Brasileiros", editado em 2009 sob o título "Benedito Nunes - o iluminista dos trópicos". Para Candido,

Benedito é sobretudo um intelectual exemplar (...). Em primeiro lugar, pela grande inteligência; em segundo, pelo caráter original da inteligência (...). O mais notável é que ele pertence a um tipo muito característico de intelectual, o que não renuncia à sua província. Nós temos o caso dele no Pará; o caso de Gilberto Freyre, em Pernambuco; do Érico Veríssimo, no Rio Grande do Sul; e do Emílio Moura, em Belo Horizonte. Respeito muito esses intelectuais que resistem ao magnetismo das grandes metrópoles (...). Ele é um pioneiro ao acreditar que os núcleos de conhecimento devem ser desenvolvidos em vários pontos do Brasil, em várias universidades, em vez de se concentrar apenas nas faculdades famosas (apud Leite, 2009, p. 104-106, grifos nossos).

 

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Autor para correspondência:
Maria Stella Faciola Pessôa Guimarães
Avenida Dezesseis de Novembro, 881, ap. 402. Cidade Velha. Belém, PA, Brasil. CEP 66023-220
(stellapessoa@uol.com.br)

Recebido em 10/07/2011
Aprovado em 12/08/2011

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