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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

versão impressa ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.6 no.3 Belém set./dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222011000300005 

ARTIGOS

 

Uso medicinal da pimenta malagueta (Capsicum frutescens L.) em uma comunidade de várzea à margem do rio Amazonas, Santarém, Pará, Brasil

 

Medicinal use of malagueta chili pepper (Capsicum frutescens L.) in a floodplain community, Amazon River, Santarém, Pará, Brazil

 

 

André Luís Cote RomanI; Lin Chau MingI; Izabel de CarvalhoI; Maria das Graças Pires SablayrollesII

IUniversidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Botucatu, São Paulo, Brasil
IIUniversidade Federal do Pará. Belém, Pará, Brasil

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

Neste trabalho, efetuou-se um levantamento etnobotânico voltado à compreensão da importância medicinal da pimenta malagueta (Capsicum frutescens L.) no cotidiano dos moradores de Cabeça D'Onça, uma localidade de várzea, situada à margem do rio Amazonas. Pertencente ao município de Santarém, estado do Pará, a comunidade é constituída por aproximadamente 330 habitantes. Ao todo, foram entrevistadas 116 pessoas residentes em 70 domicílios. As informações concernentes aos diferentes propósitos medicinais de uso das pimentas, recolhidas mediante entrevistas semiestruturadas, foram compiladas pormenorizadamente. Na segunda etapa do trabalho, foram realizadas entrevistas estruturadas em 40 domicílios, com 80 pessoas (40 casais), para se determinar quais as indicações das pimentas eram mais conhecidas na área de estudo. Do contato com a água do Amazonas, reputam-se algumas doenças, citadas por mais de 50% dos entrevistados, curadas com a malagueta, tais como o 'pano-branco' e a 'impinge' (tratados com as folhas) e o reumatismo (tratado com os frutos). Por meio de comparações entre os dados obtidos nesta pesquisa e os registros encontrados na literatura, verifica-se forte influência indígena quanto aos modos de utilização medicinal das pimentas.

Palavras-chave: Capsicum. Etnobotânica. Terapêutica. Cabeça D'Onça. Santarém. Rio Amazonas.


ABSTRACT

An ethnobotanical study was carried out for this study aimed at understanding the medicinal importance of malagueta / chili pepper (C. frutescens L.) in the daily life of the people of Cabeça D'Onça, an area in the Amazon River floodplain. The community of approximately 330 residents is situated in the municipality of Santarém, Pará State. In total, 116 people from 70 households were interviewed for this work. Information regarding the medicinal uses of these peppers was collected in semi-structured interviews and compiled in detail. In the second phase of the study, structured interviews were carried out in 40 households with 80 people (40 couples) to determine the most commonly-known uses of the peppers in the study area. Over 50% of those interviewed cited the use of the malagueta in curing certain illnesses reputed to be caused by contact with water from the Amazon River, including 'pano-branco', and 'impinge' (both diseases of the skin treated with the leaves) and rheumatism (treated with the fruit). A comparison of the data obtained in this study with published literature reveals strong indigenous influence in their medicinal use.

Keywords: Capsicum. Ethnobotany. Therapeutic. Cabeça D'Onça. Santarém. Amazon River.


 

 

INTRODUÇÃO

Capsicum L. é o gênero botânico da família Solanaceae, que abrange as pimentas e os pimentões, hortícolas originários da América Central e do Sul. Acredita-se que a exploração de tais pimentas se deu desde o início do povoamento humano nas Américas, supostamente há cerca de 12.000 anos (Bosland e Votava, 2000). Por conta desse largo curso de tempo, populações ameríndias descobriram modos de satisfazer, por meio desses vegetais, necessidades diversas, como as ligadas à alimentação e à cura de doenças. Incluíram-nos em cultos sagrados e nos arredores de suas habitações como plantas ornamentais (DeWitt e Bosland, 1996; Nuez et al., 1996; Bosland, 1999).

Reconhece-se, até o momento, que o gênero seja composto por aproximadamente 35 taxa, incluindo espécies e algumas variedades botânicas. De acordo com o nível de domesticação, são distribuídos da seguinte forma: cinco domesticados, dez semidomesticados e cerca de 20 silvestres. Os taxa domesticados são: C. annuum var. annuum, C. chinense, C. baccatum var. pendulum, C. frutescens e C. pubescens (Casali e Couto, 1984; Nuez et al., 1996; Reifschneider, 2000; Bianchetti e Carvalho, 2005).

É comum às pimentas Capsicum a produção de oleorresinas e de capsaicinóides, um grupo de alcalóides exclusivo do gênero botânico em questão. São esses capsaicinóides, os quais são produzidos nas células epidérmicas da placenta dos frutos, que conferem às bagas de tais plantas a pungência, atributo relacionado a um grande número de usos humanos, entre eles o condimentar, o repelente, o ritual e o medicinal (Bosland e Votava, 2000; Berke e Shieh, 2001; Carvalho et al., 2001).

Com respeito ao emprego medicinal, alguns autores sugerem que o mesmo pode ter precedido aos demais usos, mesmo ao condimentar, durante o processo de domesticação dessas plantas nas Américas (DeWitt e Bosland, 1996; Bosland e Votava, 2000). Informações encontradas em trabalhos que abordam a medicina ameríndia revelam uma diversidade grande de sua aplicação terapêutica. Castiglioni (1947), por exemplo, menciona o conhecimento que povos americanos detinham, antes do contato com os europeus, sobre a propriedade antiblenorrágica dessas plantas. Índios colombianos as empregavam no tratamento de picadas de cobras (Otero et al., 2000). Povos maias e astecas usavam-nas, misturadas com milho, para cura de resfriados comuns. Também as utilizavam em casos de queimaduras e no tratamento de asmas, tosses e dores de garganta (Cichewicz e Thorpe, 1996; Bosland e Votava, 2000).

Na Amazônia brasileira, dentro da tradição de uso de plantas para a cura de diversas doenças, enfatizada por Moraes (1931), o conhecimento sobre a aplicação terapêutica das Capsicum tem sido, de igual modo, documentado. No estudo de Furtado et al. (1978), entre pescadores do litoral paraense, encontra-se citado o emprego da planta para o amadurecimento de tumores. Em Roraima, registra-se seu uso no tratamento de 'pano-branco', conforme notas de Berg e Silva (1988). Quilombolas do Amapá conhecem modos de aproveitar as pimentas para aliviar cólicas menstruais e de crianças e para os casos de dores reumáticas e problemas intestinais, conforme Pereira et al. (2007). Entre índios Yanomami, os estudos de Milliken e Albert (1997) e de Milliken et al. (1999) registram o emprego dessas solanáceas para tratar infecções respiratórias, oftalmias e malária. Documenta-se, ainda, seu aproveitamento na composição de banhos pós-parto por mulheres caboclas do baixo Amazonas (Amorozo e Gély, 1988) e por índias do alto rio Negro (Ribeiro, 1990).

É preciso ressaltar que as indicações medicinais, por ora aqui referidas, são, na maior parte das vezes, retiradas de um universo amplo de uso de plantas, isto é, sem o propósito específico de averiguar o potencial terapêutico das pimentas nas áreas pesquisadas. Estudos etnobotânicos focando as Capsicum, entre as populações amazônidas, devem trazer informações que ampliem a compreensão a respeito de suas possibilidades de aproveitamento para o propósito em questão. Desse modo, o presente trabalho tem por objetivo abordar o conhecimento sobre a utilização medicinal das pimentas do gênero Capsicum, mais precisamente da C. frutescens, entre uma comunidade de várzea, em Santarém, no Pará, denominada Cabeça D'Onça.

 

MATERIAL E MÉTODOS

As informações a respeito da utilização da C. frutescens para fins terapêuticos na área de estudo foram levantadas entre 2007 e 2009, na ocasião do trabalho de campo para a tese de doutorado do primeiro autor (Roman, 2010). O referido trabalho buscou compreender a importância das pimentas Capsicum, de modo geral, entre os moradores de Cabeça D'Onça, sendo o foco deste artigo o uso medicinal.

A comunidade de Cabeça D'Onça pertence ao município de Santarém, o qual compõe a mesorregião do Baixo Amazonas, situada na região do Oeste do Pará (Santarém, 2010). É constituída por aproximadamente 330 habitantes e possui 84 domicílios. Está localizada em área de várzea, à margem esquerda do rio Amazonas, nas seguintes coordenadas geográficas: 2º 6' 10'' S e 54º 44' 59" W.

Esclarece-se que por 'várzea' entende-se a unidade espacial representada pelos terrenos periodicamente inundáveis, constituídos por solos aluviais, recentes e férteis. Segundo a precipitação pluviométrica, divide-se em dois períodos localmente denominados 'inverno' e 'verão'. O primeiro é o período chuvoso, também referido como período das cheias ou das enchentes. Ocorre de meados de dezembro a junho. O segundo é o período no qual se dá a diminuição das chuvas, também conhecido como período da seca ou da estiagem. Ocorre de meados de julho a novembro.

A pesca, a agricultura de subsistência e o artesanato de cuias constituem as principais atividades econômicas da população. A distância entre a comunidade e o centro urbano de Santarém é percorrida em aproximadamente cinco horas de barco.

A comunidade conta com um posto de saúde, no qual uma enfermeira atende aos casos mais corriqueiros de enfermidade. Em casos mais graves, em que é imprescindível atendimento médico-hospitalar, o paciente procura, geralmente, ser atendido na cidade de Santarém. Entretanto, o uso de remédios caseiros entre os moradores de Cabeça D'Onça é uma das providências imediatas mais adotadas no tratamento de várias doenças. Acrescenta-se que, em determinados casos de saúde, os moradores recorrem a algumas pessoas respeitadas na comunidade pela habilidade na cura por meio de ingredientes de origem vegetal e/ou animal. Tais pessoas são genericamente chamadas de 'curadores'.

Para proceder-se ao levantamento etnobotânico entre os moradores de Cabeça D'Onça, foram utilizados dois tipos de amostragem. Uma parte do trabalho foi realizada de forma censitária (amostragem não probabilística), ou seja, procurando abranger o maior número de residências possível (Albuquerque et al., 2008). Desse modo, foram visitados 70 dos 84 domicílios da comunidade, o que representa aproximadamente 83% do total. Nessa ocasião, além de questões socioeconômicas do entrevistado (quem estivesse disponível no momento da visita), foram levantadas, por meio de entrevistas semiestruturadas (Bernard, 1988), as diversas formas de aproveitamento das pimentas ("para que serve a pimenta?"), inclusas as relacionadas aos fins terapêuticos. Uma vez anotada uma determinada indicação medicinal, eram compilados os dados sobre a parte da planta utilizada, os modos de preparo e uso e a posologia.

Depois de essas informações serem organizadas e sistematizadas, todas as indicações terapêuticas recolhidas foram listadas em um formulário utilizado na segunda fase da pesquisa, em entrevistas estruturadas (Bernard, 1988). Estas foram aplicadas mediante uma amostra estratificada por sexo (80 informantes, 40 casais), buscando checar com os entrevistados quais das indicações medicinais listadas ele conhecia e/ou já tinha utilizado. Desse modo, o trabalho com os casais foi realizado em 40 dos 70 domicílios visitados em Cabeça D'Onça (57%). Ao todo, foram entrevistadas 116 pessoas.

A idade média dos entrevistados do sexo feminino foi de 45,8 anos, com intervalo entre 14 e 82 anos. Os do sexo masculino tiveram idade média de 51,3 anos, com intervalo de 19 e 90 anos. A média geral foi de 48,5 anos.

A identificação da espécie C. frutescens (pimenta malagueta) foi feita in loco, utilizando a chave de identificação das pimentas domesticadas do gênero Capsicum apresentada em DeWitt e Bosland (1996).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Em Cabeça D'Onça, são cultivadas três espécies de pimentas solanáceas: C. annuum, C. chinense e C. frutescens, sendo que as duas primeiras se prestam, essencialmente, para fins condimentares. A C. frutescens, por sua vez, é utilizada para um número grande de finalidades, as quais podem ser organizadas em sete categorias de uso, elaboradas segundo critérios e termos dos autores: condimentar, medicinal, repelente, ritual, ofensivo, estimulante para animais e ornamental. Interessam, para o presente trabalho, os resultados referentes à categoria de uso medicinal.

Na área de estudo, foram registradas 30 indicações medicinais para a referida espécie (Anexo). Entre elas, as dez mais citadas pelos entrevistados encontram-se apresentadas na Tabela 1, com as referências da parte da planta utilizada e o modo de uso mais citado. A seguir, são apresentadas descrições mais detalhadas sobre tais usos.

 

DESCRIÇÕES ATINENTES ÀS DEZ INDICAÇÕES MEDICINAIS MAIS CITADAS

1. Tratar pano-branco, titinga

Na área de estudo, 'pano-branco' é um problema de pele descrito como uma mancha branca que pode aparecer no corpo da pessoa devido ao contato com a água do rio ou pela exposição ao sol. Outro termo muito utilizado para esta micose é 'titinga', que, segundo Ferreira (1999), é palavra de origem tupi, a qual se traduz por 'branco, branco'.

Parte usada: folha.

Modo de uso: emplastro.

Modo de preparo: faz-se o macerado da folha do vegetal e aplica-se à mancha, previamente 'machucada' ou 'irritada' com a unha, para melhor penetração do sumo. É comum recomendar-se acrescentar sal ao macerado.

Posologia: geralmente, o emplastro é feito à noite, depois do banho, antes de deitar. Segundo os informantes, após três dias de tratamento, a mancha desaparece.

Notas comparativas: a indicação de C. frutescens para o combate de 'pano-branco', documentada nesta pesquisa, encontra apoio no levantamento da flora de Roraima, empreendido por Berg e Silva (1988). Em Saúde... [s.d.], publicação voltada para a divulgação de remédios caseiros em Óbidos, município vizinho de Santarém, encontra-se, de igual modo, a indicação do emplastro com o sumo da pimenta malagueta para o tratamento de 'mancha branca' ou 'titinga'. Nesta publicação, consta ainda o emprego externo do chá da folha da malagueta, entre outros ingredientes, para combater frieiras. Embora nada tenha se falado em Cabeça D'Onça sobre o aproveitamento medicinal de outras espécies de Capsicum, que não a C. frutescens, no levantamento de remédios caseiros de Santos (1992), empreendido no município de Santarém, consta que a ingestão do suco de pimentão (C. annuum), junto com o de cenoura, é indicada para o caso de 'manchas de rosto'.

2. Tratar dor de dente

O uso da pimenta malagueta para combater dor de dente foi um dos mais citados, na área de estudo, entre as indicações terapêuticas. Pequenos depoimentos de alguns informantes ilustram o quanto é corrente esta prescrição na comunidade, a exemplo de uma senhora de 77 anos, que diz tê-la empregado várias vezes para dores de dente, diante da impossibilidade de extraí-los em Santarém. Outra informante, de 69 anos, muito respeitada na comunidade pelo seu conhecimento sobre o uso medicinal de plantas, afirma que a 'pontinha' da pimenta é que deve ser esmigalhada e recomenda acrescentar álcool ao macerado: "para ensopar o algodão". Há, ainda, quem determine sobre o estado de maturação do fruto a ser utilizado: "a pimenta deve ser bem 'amarela'" (o termo 'amarela' é usado na área de estudo para designar o fruto da malagueta maduro, o qual é, na verdade, de coloração vermelha).

Parte usada: fruto.

Modo de uso: emplastro.

Modo de preparo: proceder à maceração do fruto. O macerado é então embrulhado em um pedaço de algodão e colocado no dente dolorido ('no buraco do dente').

Posologia: o procedimento pode ser repetido até parar a dor.

Notas comparativas: o emprego de frutos de Capsicum para aliviar dores de dente acha-se documentado em diversos levantamentos etnobotânicos. Na África, por exemplo, C. frutescens é utilizada para este propósito entre povos pigmeus da República dos Camarões, conforme estudo de Betti (2004). Na medicina popular valenciana, Espanha, a espécie registrada é a C. annuum (Fresquet Febrer et al., 2001). Entre povos ameríndios, Bosland (1999) e Bosland e Votava (2000) mencionam a prática dos antigos astecas em aplicar uma a duas gotas do sumo da pimenta para o caso de dor de dente. Na Amazônia, índios Jivaro colocam o fruto de Capsicum diretamente no dente, segundo nota de Duke e Vasquez (1994). Os autores relatam, ainda, o emprego de C. frutescens para o mesmo objetivo, entre nativos do rio Apaporisa, na Amazônia colombiana. No Brasil, o estudo de Borba e Macedo (2006), realizado em Mato Grosso, traz menção do cultivo de Capsicum (pimenta malagueta) em quintais, cujos frutos amassados são indicados para dor de dente e fístula de dente. Cabe mencionar que, de modo análogo à pimenta solanácea, na Idade Média, a Piper nigrum (pimenta-do-reino) era utilizada pelos chamados cirurgiões-dentistas, os quais aplicavam três grãos de pimenta e sal no molar doente, conforme assinala Pelt (2003). No Brasil, tal emprego da piperácea encontra referência no trabalho de Souto Maior (1988).

3. Tratar reumatismo

Parte usada: fruto.

Modo de uso: emplastro.

Modo de preparo: proceder à maceração do fruto. Com um pedaço de algodão, deve-se passar o macerado da pimenta malagueta 'amarelinha' (madurinha) sobre a parte dolorida. Segundo relatos de alguns informantes que já fizeram uso de tal tratamento, a parte da pessoa atingida pelo reumatismo não é sensível ao contato com a pimenta: "Já usei no braço e por duas vezes não senti, na terceira fui pra água, tinha curado, por isso ardeu". Acrescenta-se que há quem indique o macerado do fruto da mesma planta em mistura com outros ingredientes vegetais, com álcool e também com gordura de animais, como botos ou jacarés.

Posologia: a maior parte dos informantes não determina a quantidade de frutos necessários para o tratamento em questão, no entanto, há quem o faça, a exemplo de uma senhora que informa sobre a recomendação de se utilizar dez pimentas malaguetas, conforme aprendeu com um 'curador' na ocasião em que estava sofrendo de dores reumáticas.

Notas comparativas: alguns trabalhos reportam o emprego das pimentas Capsicum para tratar problemas associados ao reumatismo, como o realizado nas Filipinas para cura de artrites (Eusébio e Umali, 2004). Na Jamaica, a espécie assinalada é a C. frutescens, conforme Asprey e Thornton (1955). A utilização da banha de animais, como boto e jacaré, para o tratamento de reumatismo, conforme acima documentado, está igualmente referenciado no trabalho de Castro (1958). Neste, assinala-se o emprego, por pajés e curandeiros indígenas, da gordura de sucuriju (sem referência à espécie) para fricções antireumáticas.

4. Tratar isipla, vermelha, vermelhão

O nome 'isipla', corrente entre a população de Cabeça D'Onça, corresponde à erisipela, segundo a enfermeira que atua na comunidade. Os outros termos utilizados ('vermelha' e 'vermelhão') relacionam-se às manchas avermelhadas na pele das pessoas acometidas pela enfermidade. Para seu tratamento, há várias formulações, nas quais se empregam a pimenta malagueta, conforme apresentadas a seguir.

Formulação 1

Parte usada: folha.

Modo de uso: emplastro do sumo.

Modo de preparo: através da maceração, obter o sumo da folha, ao qual podem ser adicionados outros ingredientes. Por exemplo, um senhor de 55 anos explica que se deve socar a folha da pimenta malagueta junto à do tomate e misturar com álcool ou cachaça.

Formulação 2

Parte usada: folha.

Modo de uso: emplastro com a folha inteira, pré-aquecida. Folhas de outras plantas, como a do tomate ou da babosa, podem ser empregadas de modo análogo ao uso das folhas da malagueta.

Modo de preparo: aquece-se a folha em uma chama, sobrepondo-a ao ferimento quando a mesma estiver amolecida.

Posologia: proceder ao emplastro três vezes ao dia até 'matar a isipla'.

Formulação 3

Parte usada: folha.

Modo de uso: banho.

Modo de preparo: a folha é esfregada na água. Após cinco minutos, esta água já pode ser utilizada para o banho. Pode-se banhar, inclusive, a cabeça.

Formulação 4

Parte usada: ramo.

Modo de uso: benzedura. A benzedura da 'isipla' com a pimenta malagueta é feita usando um galhinho verde da planta, conforme um 'curador' de 42 anos, residente na comunidade. Ao ser indagado, ele confirma que o nome da planta faz parte dos dizeres da reza, os quais, porém, não podem ser revelados.

Notas comparativas: no trabalho de Santos (1992), empreendido no município de Santarém, há referência ao tratamento do mal em questão por meio do emplastro da folha de diversas espécies vegetais, porém não há menção ao emprego da pimenta. Com respeito à prática da benzedura para a erisipela, acha-se referida no trabalho de Camargo (1978), o qual traz trechos de rezas registrados em estudos empreendidos no século XIX em Portugal e no Brasil. Na Amazônia, Orico (1975) ressalta a importância deste método de cura para o tratamento da 'ersipla' ou 'esipla'. Em ambos os trabalhos, porém, não há referência às pimentas e sim ao azeite da oliveira e a rosas de diferentes cores, plantas utilizadas na farmacopeia europeia. No trabalho de Chacon (1973, apud Souto Maior, 1988), em Recife, registra-se benzer com galho de 'pimenteira brava' para o caso de eczema (dermatose). No interior de São Paulo, Sant'anna (1990) registra a benzedura com três folhinhas de pimenteira para tratamento de queimaduras em festas juninas, documentando, inclusive, os dizeres pronunciados.

5. Impinge

A 'impinge' (impingem) costuma ser diferenciada do 'pano-branco' na área de estudo, conforme trechos de algumas descrições aqui transcritas: "No pano branco, só fica aquela mancha no corpo (...) na impinge, dá uns olhinhos. Fica umas feridas, umas bolinhas que fica (...)"; "O pano branco não coça e a impinge coça demais"; "A micose da impinge é mais forte que a titinga (...)".

Parte usada: folha.

Modo de uso: fricção com o sumo.

Modo de preparo: macerar a folha para a retirada do sumo. Alguns entrevistados dizem misturar ao mesmo a cachaça, enquanto outros recomendam acrescentar sal.

Posologia: a prescrição deve ser repetida até o desaparecimento da impingem. Entretanto, alguns informantes afirmam que, após a primeira aplicação, já é possível perceber o efeito benéfico do remédio.

Notas comparativas: no levantamento coordenado por Santos (1992), a respeito dos remédios caseiros usados no município de Santarém, a parte dedicada a 'coceiras e impinges' traz, entre várias outras prescrições, esfregar o sumo da folha da pimenta malagueta e da 'mucuracaá' na parte afetada, modo de uso similar ao empregado em Cabeça D'Onça. Neste mesmo trabalho, consta que a ingestão do suco de cenoura e do pimentão é indicada para o caso de manchas no rosto, conforme referido anteriormente.

6. Combater amebas Parte usada: fruto.

Modo de uso: ingerir o fruto, sem mastigar. Segundo relatos de alguns entrevistados, pessoas 'mais antigas' ensinavam que para combater a ameba deve-se, de vez em quando, engolir uma malagueta, 'das pequenas', feito comprimido, sem mastigar. Um dos informantes (homem de 39 anos) informa que melhorou de problemas provocados por ameba ao ingerir uma pimenta, a conselho do pai, quando tinha 18 anos. O sintoma que a pessoa apresenta quando está com ameba é descrito por ele como uma forte dor na 'pente' (região abaixo do umbigo, anterior à pelve). Diz que bastou ingerir uma para ficar bom. No entanto, não aconselha os filhos a tratarem com este método, conforme transcrito a seguir: "Não dou para meus filhos pequenos porque é um remédio tratado na brutalidade (...) agora, grande já aguenta o choque". Há informação de que esse tratamento deve ser evitado entre as crianças mais novas, pela tendência que elas têm de mastigar o fruto levado à boca. Outros informantes, embora indiquem o mesmo modo de tratamento, ou seja, engolir a pimenta inteira, prescrevem posologia diferente. Alguns, por exemplo, relatam ter aprendido com uma antiga enfermeira da comunidade que se deve ingerir uma pimenta durante nove dias consecutivos. Já a senhora, tida em Cabeça D'Onça como uma grande conhecedora de remédios caseiros, recomenda três de manhã, todos os dias, até a pessoa "não sentir mais nada". Além da ingestão da pimenta inteira, registra-se o emprego do fruto batido com água, conforme relato de uma senhora de 58 anos. Segundo ela, na infância, sua mãe costumava dar esse preparado para os filhos quando estavam com ameba: "várias vezes, até normalizar (...)".

Notas comparativas: o uso da pimenta para curar parasitoses encontra apoio em trabalhos realizados entre diferentes populações humanas, ao redor do mundo. No Nepal, por exemplo, C. frutescens é empregada para desprender e matar sanguessugas da pele (Turin, 2003). Entre povos nativos da Guiana, é indicada para o tratamento de doenças parasitárias em humanos e em porcos domésticos (Grenand et al., 2004). Na África, conforme observação feita por Asprey e Thornton (1955), a espécie é utilizada no caso de disenterias e para curar 'bouba', doença contagiosa também referida por 'framboésia', cujo agente etiológico é uma espécie de Treponema. No trabalho de Pousset (2004), encontra-se registrada para uso antiséptico, para desinfetar feridas e combater parasitas intestinais. Na Etiópia, Getahun (1976) menciona o emprego de C. annuum para evitar verminoses e amebíases. Segundo o autor, esta espécie é frequentemente encontrada nos quintais de casas etíopes. O motivo principal deste cultivo é que o fruto, na forma de pó, condimenta a carne crua, cuja ingestão é prática culinária bastante corrente no país. Desse modo, algumas pessoas interpretam a associação da pimenta ao consumo de carne crua, nesta dieta popular, como um modo de dar sabor ao prato, enquanto outras acreditam ser uma forma de matar parasitas contidos na carne e, de igual modo, evitar infecções de ameba e vermes no estômago.

7. Tratar nascida

'Nascida' é termo utilizado na área de estudo para referir-se ao furúnculo, ao abscesso.

Parte usada: folha.

Modo de uso: emplastro.

Modo de preparo: a folha deve ser aquecida para se proceder ao emplastro. Recomenda-se sobrepor, à parte afetada (furúnculo), a face adaxial (superior ou ventral) da folha, localmente referida como o 'peito' da folha.

Notas comparativas: o emplastro com a folha de C. frutescens para furar tumores e furúnculos possui registros em levantamentos realizados nas mais diversas partes do mundo, a exemplo da Nicarágua (Instituto Interamericano de Cooperación para la Agricultura, 2005), da Jamaica (Asprey e Tornton, 1955) e das ilhas do Pacífico (World Health Organization, 1998; Whistler, 2006). No Brasil, são vários os trabalhos que citam a prescrição em questão como parte de sua medicina popular. Como exemplo, pode ser referido o realizado por Souto Maior (1988). Na região amazônica, prescrição similar à recolhida na presente pesquisa vem documentada no trabalho de Pereira et al. (2007), o qual aborda o uso das pimentas por uma população quilombola do estado do Amapá. Entre populações pesqueiras do litoral paraense, alguns trabalhos registram o emplastro da folha da mencionada espécie para o mesmo propósito, a exemplo dos estudos empreendidos por Furtado et al. (1978) e Roman (2001).

8. Tratar coceira

Parte usada: folha.

Modo de preparo: maceração da folha com água.

Modo de uso: emplastro com o sumo.

Notas comparativas: o emprego do sumo da folha de C. frutescens para o tratamento de coceiras está registrado, de igual modo, na Malásia, conforme assinalam Ahmad e Ismail (2003). Em outros estudos, é possível encontrar menção ao emprego de Capsicum para combater coceira, porém sem registro da espécie, tampouco do seu modo de uso. Exemplifica, entre eles, o realizado entre populações que habitam as ilhas do Pacífico (World Health Organization, 1998).

9. Inchaço

De acordo com os depoimentos dos participantes desta pesquisa, 'inchaços' tratados com a folha da malagueta podem ser, por exemplo, aqueles advindos de alguma 'nascida' (furúnculo) ou da 'isipla' (erisipela), entre outras causas. Para aliviá-los, registraram-se duas formulações, descritas a seguir.

Formulação 1

Parte usada: folha.

Modo de uso: emplastro com o sumo da folha.

Modo de preparo: a folha deve ser macerada para a extração do sumo: "Soca a folha, pila para fazer aquela papa, aquele sumo e coloca em cima (...) até baixar o inchaço" (mulher, 27 anos). Uma senhora, 63 anos, diz conhecer o uso da folha da pimenta malagueta para o caso de 'inchaço do dente' ou 'dente inflamado'. Segundo explica, as folhas devem ser as mais novas, apanhadas da ponta (parte superior) da planta e, após murchas, sobrepostas à região afetada.

Formulação 2

Parte usada: folha.

Modo de uso: emplastro.

Modo de preparo: ferver a água misturada com sal e as folhas inteiras da pimenta malagueta. Após esfriar, devem-se esmigalhar as folhas e fazer o unguento, no qual entram como ingredientes o 'sebo-de-holanda' e o sebo do rim de gado. O preparado é colocado em algodão e amarrado com um pano sobre a parte afetada.

10. Ferrada de arraia, furada de arraia

Segundo os moradores de Cabeça D'Onça, a utilização da pimenta malagueta no caso de acidentes com arraia é uma prática antiga na comunidade, aprendida com os mais idosos, usando expressões empregadas pelos entrevistados.

Parte usada: fruto.

Modo de uso: emplastro.

Modo de preparo: proceder à maceração dos frutos, a qual pode ser sobreposta diretamente ao ferimento ou por meio de um pedaço de pano ou algodão. Alguns informantes deixam, em seus depoimentos, pareceres a respeito do modo de se preparar e aplicar o emplastro e sobre o efeito e a eficiência do remédio, conforme os seguintes trechos: "(...) tora três pontas da pimenta malagueta, quando ela tá bem 'amarela'. Esfrega em cima da cesura, da ferrada (...)" (pescador, 61 anos); "Uso só ela mesmo, socada em cima da cesura, onde entrou o ferrão (...)" (pescadora, 48 anos); "Já peguei várias ferradas (...) esmigalha a pimenta, tora ela e passa que é bom. Com poucos minutos pára a dor" (pescador, 60 anos).

Notas comparativas: segundo a literatura consultada, não há menção ao emprego de pimentas para o caso específico de ferimentos causados por arraias. No entanto, o estudo de Otero et al. (2000) traz a C. frutescens como espécie utilizada no tratamento de picadas de cobra entre indígenas da Colômbia.

 

USO MEDICINAL DA PIMENTA E O AMBIENTE DA VÁRZEA

Na comunidade de Cabeça D'Onça, certas doenças tratadas com a C. frutescens são reputadas ao modo de vida ligado à várzea. No caso de problemas provocados por amebas, por exemplo, como as diarreias, a agente local de saúde credita-os à ingestão da água do rio Amazonas. Segundo esta profissional, no período da cheia, uma quantidade grande de lixo é trazida de outros locais; na seca, por sua vez, o acúmulo de água parada pode também oferecer risco com relação a parasitas. A despeito do acesso a outros tipos de medicamento na cidade de Santarém e da melhoria da qualidade da água consumida, nos últimos anos (pela instalação de filtros de areia nas casas), a ingestão da pimenta para combater ameba, em Cabeça D'Onça, é conhecida por cerca de um terço (34%) da população entrevistada.

Enfermidades de pele, tais como o 'pano-branco', a 'impinge' e a 'coceira', são causadas, de acordo com os informantes, pelo contato (banhos, pescarias) com a água do rio. O emprego das folhas da malagueta, em forma de emplastro, seria eficaz no tratamento de 'pano-branco', conforme 86% dos entrevistados. Já procedimentos parecidos para tratar 'impinge' e 'coceira' são do conhecimento de, respectivamente, 41% e 21% dos entrevistados.

Inerente à atividade da pesca está o constante contato do corpo do pescador com a água do rio ou dos lagos, o que leva à 'frieldade' (frialdade), entendida na comunidade como uma das causas do reumatismo, doença tratada com as pimentas malaguetas, conforme 56% dos informantes. Entre eles, uma senhora, 50 anos, discorre sobre o problema da seguinte maneira: "O reumatismo dá dores nos braços, nas pernas (...) é por causa do 'frieldade'. A pessoa passa o dia inteiro na água pescando e, aí, quando vai deitar, vai sentindo aquela moleza, fraqueza (...)".

Ferradas de arraias durante as pescarias são comuns e, muitas vezes, utiliza-se a pimenta para aliviar as dores por elas provocadas, conforme 28% dos informantes.

 

PIMENTA MALAGUETA, A ESPÉCIE MAIS EMPREGADA

De acordo com alguns autores, a pimenta malagueta, C. frutescens tem a Amazônia como seu centro de origem e pode ser encontrada, em áreas de floresta, na forma silvestre (DeWitt e Bosland, 1996).

Neste estudo, a referida espécie revelou-se como a única empregada em Cabeça D'Onça para fins terapêuticos. As demais espécies ocorrentes na comunidade (C. annuum e C. chinense), salvo eventual uso como planta ornamental, restringem-se ao aproveitamento na alimentação, como condimentos.

Além disso, a malagueta é concebida na comunidade estudada como a única que 'não faz mal pra saúde' ou 'não faz mal pra ninguém', enquanto o pimentão e, principalmente, as 'cheirosas' (variedades de C. chinense) comumente são referidas como pimentas que deixam a pessoa 'rotando' (arrotando), com azia, após serem consumidas.

Na obra de padre Daniel, intitulada "Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas", do século XVIII, recolhe-se um trecho sobre o prestígio medicinal da planta na região, entre outras espécies de Capsicum observadas: "É a mais estimada na Amazônia (...) abre a vontade no comer (...) é muito medicinal (...) fora a malagueta, que é a mais estimada, há várias castas de pimenta (...)" (Daniel, 2004, p. 564-565).

Alexandre Rodrigues Ferreira, no mesmo século, ratifica o uso medicinal da malagueta, principalmente para combater as febres, conforme fragmento da obra transcrito por Salles (2003, p. 173): "Os índios para estes casos jamais embarcam sem provimento de malagueta em pó e gengibre".

Alguns trabalhos mais recentes trazem, de igual modo, menção ao uso da referida espécie, na Amazônia, para cura de diversas enfermidades. Exemplificam aqui os realizados entre os Yanomami, por Milliken e Albert (1997) e Milliken et al. (1999), nos quais se acham prescrições da planta para o caso de malária, oftalmias e infecções respiratórias.

A despeito do uso da C. frutescens como a única espécie indicada para fins medicinais na área de estudo e da documentação do seu emprego na literatura relacionada a estudos das populações amazônidas, como os acima referidos, deve-se aqui citar o trabalho de García (1991), voltado exclusivamente para o estudo da C. chinense entre indígenas da Amazônia colombiana. Segundo dados recolhidos pelo autor, algumas variedades desta espécie (cujo centro de diversidade é a bacia amazônica) são empregadas, além do uso condimentar, para tratamento de febres, afecções de voz, doenças mentais e mordidas de 'cachorro do monte'.

Em outras regiões do continente americano, diferentes espécies de pimentas, inclusive silvestres, vêm sendo utilizadas para fins medicinais. Na Argentina, por exemplo, a C. chacoense é empregada como antireumática, de acordo com o estudo da flora nativa argentina empreendido por Del Vitto et al. (1997). No México, centro de origem da C. annuum, uma representante silvestre da espécie, conhecida por 'chiltepín' (do asteca 'pimenta pulga'), é indicada para cura de doenças várias, tais como reumatismo, gastrite, úlceras, dores de ouvido e problemas de pressão arterial, entre outras (Bañuelos et al., 2008).

De acordo com o que foi até aqui explanado, várias espécies de Capsicum podem ser utilizadas para o propósito em questão. Entretanto, a escolha das espécies parece estar, entre as populações humanas do continente americano, relacionada ao taxon ao qual as mesmas têm maior relação ancestral.

 

O USO DOS FRUTOS

Conforme pode ser observado na Tabela 1, as doenças ou os sintomas cuja cura com as malaguetas é mais conhecida na área de estudo são tratados, na maior parte dos casos, mediante o uso de apenas um órgão da planta, ou seja, com as folhas ou com os frutos.

Os frutos, além de serem ingeridos inteiros para combater amebas, são utilizados na forma de emplastro para aliviar dores de dente, dores reumáticas e as provocadas por ferradas de arraia. Tal propriedade analgésica dos capsaicinóides, produzidos pela placenta do fruto de Capsicum, tem sido também explorada pela indústria farmacêutica. A capsaicina, o alcalóide mais estudado destas solanáceas, vem sendo empregada na elaboração de analgésicos tópicos para o tratamento de artrites, herpes zoster, diabetes neuropáticas, neuralgias, dores pós-cirúrgicas, como anti-inflamatório, agente anticancerígeno, entre outros. O uso externo dessa substância, por meio de creme e pomadas, diminui a dor, pois atua na inibição do acúmulo, dentro do neurônio, de um neurotransmissor chamado 'substância P', responsável pela sensação de dor. Ou seja, ela impede que os nervos emitam sinais de dor ao cérebro. Além disso, a sensação de calor que os capsaicinóides provocam no organismo auxilia no tratamento de dores musculares e das articulações (Eshbaugh, 1993; Sampaio e Rivitti, 2000; Berke e Shieh, 2001; Carvalho et al., 2001).

Com respeito à cura do reumatismo na comunidade, uma mulher deixa o seguinte comentário sobre o emprego do emplastro com o macerado do fruto da malagueta: "Quando minha mãe era viva, mandaram ela passar para reumatismo, porque esquenta (...)".

Sabe-se que, de modo geral, os capsaicinóides são produzidos no fruto cerca de duas semanas após o florescimento da planta e atingem o ponto máximo duas semanas depois, ou seja, 40 dias após o florescimento. O decréscimo da concentração de capsaicinóides, após atingir seu pico, está relacionado com o aumento da atividade da peroxidase, indicando que aqueles alcalóides são degradados por esta enzima (Zewdie e Bosland, 2001).

O estado de maturação dos frutos, por vezes, é considerado em seu aproveitamento terapêutico, na área de estudo, conforme depoimentos de alguns entrevistados. Em certos casos, como os relacionados aos 'problemas de parto' (ver Anexo), as malaguetas devem ser utilizadas verdes e não maduras, a exemplo do seu emprego para 'endireitar a criança' no ventre materno: "(...) para a criança não ficar rodando, de pé, para se endireitar, pega a malaguetinha verde, que é mais fraca, tem menor potência".

Um curador de Cabeça D'Onça afirma tratar o 'derrame' de uma senhora da comunidade com malaguetas verdes, pois a paciente é idosa, sendo, neste caso, inapropriado usá-las maduras por serem muito 'ardosas'. Para aplacar dores, de modo geral, são utilizadas as pimentas maduras, conforme anteriormente abordado.

 

O USO DAS FOLHAS

As folhas são empregadas na área de estudo para o tratamento de diversas enfermidades, tais como inchaços, queda de cabelo, afecções de peles ('pano-branco', impingem e coceiras), 'nascidas' (furúnculos) e 'isiplas' (erisipela), entre as mais citadas.

Enquanto aos frutos seja reputada a qualidade de quente e, com isso, sejam empregados para aliviar dores musculares e reumatismo, às folhas associam-se uma qualidade particular, conforme explica uma senhora, 59 anos: "A folha 'refresca' porque ela é macia (...)". Assim, tal qualidade atribuída às folhas encontra correspondência em determinados usos terapêuticos, conforme alguns depoimentos: "A folha é refrescante, torna remédio para assadura de bebê (...)" (mulher, 63 anos); "Minha mulher pegou baque e pisou em terra quente, com a quentura ela pegou a isipla (...)" (homem, 34 anos); "As folhas da pimenta é bom para banho, para isipla, para a quentura do corpo (...)" (mulher, 48 anos); "(...) quando tá muito quente a testa [febre] (...) alivia a quentura"; "Murcha a folha dela e põe na testa ou na 'fonte' [fronte]...".

Não obstante, é oportuno mencionar que o atributo pungência, próprio dos frutos da planta, não raro é transferido às folhas, de acordo com alguns comentários recolhidos dos informantes. Isto fica claro, por exemplo, durante o relato de uma mulher, 36 anos, que, ao narrar o uso da planta por uma senhora da comunidade para tratamento de 'pano-branco', brinca dizendo não saber se a mesma ficou muito 'taída' (do tupi, ardida) depois de ter procedido à fricção das folhas no corpo. De modo parecido, ao explicar uma determinada formulação para o tratamento de 'impinge' com as folhas da malagueta, um pescador, 33 anos, ressalva a necessidade de adicionar 'minâncora' ao sumo da folha, com o seguinte argumento: "Só a folha da pimenta dói no ferimento (...)".

Essa forma de conferir às folhas qualidades ligadas à pungência dos frutos de Capsicum encontra apoio na literatura. Como exemplo, cita-se o uso de folhas de Capsicum no Canadá em banhos para cavalos, para curar 'anidrose', segundo Lans et al. (2006). De acordo com os autores, as folhas adicionadas ao preparado visam 'esquentar' os animais, fazendo com que os mesmos bebam mais água.

Acrescenta-se que, embora não haja menção sobre os princípios ativos destes órgãos na literatura por ora consultada, há referência ao emprego das folhas de Capsicum como antibiótico, carminativo, rubefaciente, estimulante, estomáquico e vesicante (Molina-Torres et al., 1999; Bosland e Votava, 2000; Barros e Napoleão, 2007).

As raízes não foram citadas como partes aproveitáveis da planta na área de estudo. Porém, Cabrera (2003) menciona formulações caseiras empregando tais órgãos (sempre em mistura com folhas e frutos) de C. annuum para cura de tifo; de C. baccatum, com finalidade abortiva; e, desta última espécie, também como fortificante dos tecidos dos testículos. No Brasil, a obra de Piso (1948) faz menção à utilização terapêutica das folhas e raízes das pimentas como os primeiros ingredientes dos 'banhos quentes'.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No Brasil, as pimentas Capsicum encontram referências em documentação que revela modos bem particulares de uso ao longo de diferentes momentos históricos e de áreas geográficas. Na comunidade de Cabeça D'Onça, a pimenta malagueta (C. frutescens) mostrou-se importante em vários domínios das atividades humanas, tais como na alimentação; em diversas práticas ritualísticas; como repelente; e como ingrediente de remédios caseiros. De acordo com a literatura consultada, a planta vem sendo utilizada para tais fins também em outras partes do mundo, porém a forma como é empregada depende do contexto cultural pertinente. No caso da comunidade de Cabeça D'Onça, muitos usos estão relacionados ao modo de vida ligado à várzea. Por exemplo, na alimentação, a pimenta é aproveitada para condimentar produtos advindos da pesca; como repelente, presta-se, entre outras finalidades, para afugentar botos que atrapalham as pescarias; e com respeito ao emprego ritualístico da planta, é utilizada para tratamento de infortúnios ligados ao ambiente ribeirinho, a exemplo da cura da 'panema' e de males provocados pela influência do 'espírito do boto', assuntos a serem tratados em outras publicações.

No caso do uso medicinal, foco deste artigo, a espécie é bastante empregada para a cura de doenças reputadas à qualidade da água do rio. Desta forma, utiliza-se seu fruto para combater vermes e amebas e, no caso de afecções de pele, as folhas são empregadas para tratar 'coceiras', 'pano-branco' e impingem. Do permanente contato com a água, reputa-se um mal denominado 'frieldade', responsável pelo reumatismo, ambos tratados com a malagueta. Durante as pescarias, não são raros os acidentes causados por ferradas de arraia, tratadas com a malagueta por alguns pescadores. O presente estudo, portanto, contribui para melhorar a compreensão a respeito da intrínseca relação entre as populações humanas e as pimentas Capsicum na região amazônica, tendo como foco uma comunidade de várzea do baixo Amazonas.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por conceder bolsa de estudo ao primeiro autor; e à população de Cabeça D'Onça, por possibilitar a realização desta pesquisa.

 

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Autor para correspondência:
André Luís Cote Roman
Rua Maria Teresa Breda, 149
São Paulo, SP, Brasil. CEP 15400-000
coteroman@yahoo.com.br

Recebido em 09/06/2011
Aprovado em 20/10/2011

 

 


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