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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.6 no.3 Belém Sept./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222011000300006 

ARTIGOS

 

Artefatos de miriti (Mauritia flexuosa L. f.) em Abaetetuba, Pará: da produção à comercialização

 

Miriti artifacts (Mauritia flexuosa L. f.) in Abaetetuba, Pará State, Brazil: from production to marketing

 

 

Ronize da Silva Santos; Márlia Coelho-Ferreira

Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém, Pará, Brasil

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

No estuário amazônico, a palmeira Mauritia flexuosa L. f. (miriti) é conhecida por fornecer matéria-prima para a confecção de cestaria e brinquedos, ambos de relevância econômica e cultural para a população local. Este estudo teve como objetivo realizar um levantamento a respeito da produção e comercialização dos dois principais artefatos - paneiros e brinquedos de miriti, no município de Abaetetuba, Pará. A pesquisa foi conduzida na comunidade ribeirinha de Cutininga e em duas associações de artesãos da sede municipal, por meio de entrevistas semiestruturadas e não estruturadas, envolvendo 18 informantes. Entre os produtos cesteiros comercializados, o paneiro é o único que conseguiu se manter no mercado e atualmente é a principal fonte de renda para os moradores da comunidade de Cutininga. Já a comercialização dos brinquedos de miriti vem ganhando maior expressividade a cada ano, com ápice de produção em outubro, durante a festividade do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Tanto os brinquedos como os paneiros atingiram escala comercial, sendo que o brinquedo é o produto feito da folha de Mauritia flexuosa L. f. de maior representatividade econômica no município. Porém, na região das ilhas, onde está situada Cutininga, constatou-se que o paneiro apresenta maior importância econômica.

Palavras-chave: Miriti. Cestaria. Artesanato. Ribeirinhos. Abaetetuba.


ABSTRACT

The palm tree Mauritia flexuosa L. f. (Miriti) provides the raw materials to basketry and toys, with economic and cultural significance to Amazon estuary communities. This paper surveyed the production and marketing of panniers and miriti toys in Abaetetuba, State of Pará, Brazil. The research was conducted in the riverine hamlet of Cutininga and in two craftsmen associations of Abaetetuba city, with semi-structured and non-structured interviews, totalizing 18 informants. Among marketed basketry items, panniers were the only products consistently sold, providing a steady flow of income for the residents of Cutininga. The commercialization of miriti toys has made increasing headway each year, with peak production and sales during October, on the occasion of the religious festival of the Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Both toys and panniers have made their mark in the commercialization of craftwork. The miriti toys, made from Mauritia flexuosa L. f. fronds, have higher economic value for the county of Abaetetuba as a whole. Yet, for the community of Cutininga, panniers have a higher marketing value.

Keywords: Miriti. Basketry. Handicraft. Riverine communities. Abaetetuba.


 

 

INTRODUÇÃO

A produção de artefatos para o uso doméstico é uma prática milenar, herdada da população ameríndia que habitava a região amazônica, antes da colonização europeia. A necessidade de produzir objetos para serem usados em diferentes atividades foi determinante para que as populações indígenas desenvolvessem técnicas de manufatura de uma diversidade de artefatos, alguns voltados para o uso doméstico, outros para auxiliar na caça e na pesca, outros ainda para o vestuário e dotados também de natureza estética e ritual (Oliveira et al., 1991; Sahagún e Codex, 2000; Leoni e Marques, 2008). Alguns destes saberes foram transmitidos e apropriados por populações ribeirinhas da região, que perpetuaram esse aprendizado, bem como o conhecimento sobre os recursos florestais usados nesta produção (Sousa, 2009).

Os artefatos trançados de fibras vegetais, geralmente chamados de cestarias, fazem parte da cultura material de diversas tribos indígenas existentes no Brasil (Velthem, 1998) e estão integrados ao cotidiano das populações tradicionais da Amazônia.

No estuário amazônico, cujos habitantes mantêm uma forte relação de dependência com os recursos naturais, Mauritia flexuosa L. f. (Arecaceae) é uma palmeira de destaque na cultura regional, especificamente empregada na alimentação, construção de casas e confecção de utensílios de trabalho e artesanato. Popularmente, é conhecida como 'miriti' ou 'buriti'. Seus frutos são consumidos in natura ou em forma de sucos, mingaus, sorvetes e doces (Balick, 1986). Utilizadas na cobertura de casas, suas folhas são amplamente exploradas para a produção de cestarias e brinquedos, confeccionados pelos artesãos locais e admirados por sua beleza e originalidade (Santos et al., 2005; Cynerys et al., 2005). A maioria dos artesãos envolvidos nessas atividades encontra-se no município de Abaetetuba (Pará), localizado no baixo curso do rio Tocantins, onde os miritizais são abundantes. Também conhecida pela alcunha de 'terra das cestarias', nos dias atuais, Abaetetuba passou a acumular a denominação de 'terra dos brinquedos de miriti', dada a relevância da produção desta modalidade de artesanato.

Em estudo etnobotânico sobre M. flexuosa L. f. neste município, Santos (2009) identificou 26 artefatos manufaturados a partir de suas folhas, entre os quais se destacaram os paneiros e os brinquedos, cuja comercialização nos dias atuais garante renda a muitas famílias. Diante disto, o presente estudo teve por objetivo realizar um levantamento a respeito da produção e comercialização desses dois produtos no município de Abaetetuba, caracterizando a sua produção, os atores envolvidos, a quantidade produzida e suas respectivas rotas de comercialização.

 

MATERIAL E MÉTODOS

ÁREA DE ESTUDO

O estudo foi realizado na área urbana de Abaetetuba e na comunidade de Cutininga. O município pertence à mesorregião do Nordeste Paraense, possuindo coordenadas geográficas de 01º 43' 24"de latitude Sul e 48º 52' 54" de longitude a Oeste (Figura 1). Ocupa uma área de 1.610,74 km² e conta com uma população de 139.819 habitantes, localizando-se a 120 km da capital, Belém (IBGE, 2007). Conta com 72 ilhas, situadas na confluência do rio Tocantins com o rio Pará, no estuário do rio Amazonas, onde vivem 35.000 habitantes, denominados de 'moradores das ilhas' ou 'ribeirinhos' (Hiraoka, 1993).

O município tem como principal fonte de renda o comércio, além da agricultura, da pecuária e do extrativismo, notadamente de madeira, fibras, palmito e frutos de açaí e miriti (IBGE, 2007). Historicamente, este município é reconhecido pelas várias mudanças que ocorreram em sua economia. Por volta de 1760, escravos africanos foram trazidos para trabalhar no cultivo de cacau, café, arroz e cana-de-açúcar, e, aproximadamente um século mais tarde, a expansão da produção da borracha foi acelerada com a chegada de migrantes nordestinos (Hiraoka e Rodrigues, 1997). Embora os distintos grupos tenham contribuído com traços culturais característicos, nos dias atuais as técnicas e estratégias de subsistência predominantes continuam sendo de origem indígena (Hiraoka, 1993).

No decorrer dessas transformações, na época dos grandes canaviais e valorizados engenhos que caracterizavam a paisagem das ilhas, Abaetetuba foi conhecida como a 'terra da cachaça'. Assim como mais tarde foi chamada de 'terra das cestarias', tendo em vista a grande produção de cestas ('paneiros') confeccionadas pelos ribeirinhos locais. Hoje, o município é designado como 'terra dos brinquedos de miriti'. Importante ressaltar que as mudanças ocorridas ao longo dos anos e que denotam as particularidades de Abaetetuba, com exceção dos brinquedos, são atividades que ocorreram principalmente nas ilhas.

A ilha de Cutininga possui uma economia de subsistência que se diferencia dos padrões das demais comunidades ribeirinhas de Abaetetuba e do estuário amazônico, onde geralmente predomina a exploração econômica do açaí (Euterpe oleracea Mart.). Esta espécie é valorizada não somente por fazer parte da dieta local, mas por possuir alto valor de mercado, o que garante a renda de muitas famílias ribeirinhas.

Esta ilha, situada a aproximadamente três horas de barco do centro urbano, foi indicada pelos comerciantes locais, que a reconhecem como principal pólo produtor e fornecedor de paneiros. A indicação da ilha foi confirmada durante oficina de mapeamento participativo, realizada pelo Projeto Miriti, executado pelo Centro Internacional de Pesquisa Florestal (CIFOR), e no âmbito do qual o presente estudo foi desenvolvido.

COLETA E ANÁLISE DE DADOS

As informações foram coletadas no período de setembro a novembro de 2008. A pesquisa envolveu 18 informantes, distribuídos em dois grupos de artesãos: um que trabalha com a confecção de paneiros na comunidade ribeirinha de Cutininga (N = 10) e outro que abrange artesãos de brinquedos de miriti das associações situadas no centro urbano (N = 8). Foi utilizada a técnica 'bola de neve' para a seleção dos informantes de Cutininga, uma estratégia de seleção intencional, sugerida por Albuquerque et al. (2010) em casos de pesquisa cujo tempo em campo é limitado. Esta técnica permite que cada entrevistado indique outro possível informante, reconhecido(a) como detentor(a) do conhecimento em questão. A escolha dos artesãos de brinquedos também se deu de maneira intencional; porém, pelo fato de estarem organizados em associações locais, em cujas sedes praticam seu ofício, consideraram-se a presença e a disponibilidade desses atores quando das visitas feitas às associações locais. Dos oito artesãos entrevistados no centro urbano, cinco são filiados à Associação Arte Miriti de Abaetetuba (Miritong) e três à Associação dos Artesãos de Brinquedos de Miriti de Abaetetuba (Asamab).

Entrevistas semiestruturadas e não estruturadas (Albuquerque et al., 2010) foram conduzidas junto aos dois grupos de artesãos. Nos dois universos amostrais foram buscadas informações a respeito da produção e da comercialização dos respectivos artefatos.

Foi feita uma análise qualitativa e quantitativa dos dados, tabulados em planilhas do Microsoft Excel 2007 e, posteriormente, organizados em tabelas e gráficos.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

CARACTERIZAÇÃO DOS ARTESÃOS

A amostra populacional foi de 18 informantes (N = 18), cuja faixa etária variou entre 17 e 86 anos. Nove informantes são do sexo masculino (50%) e nove do sexo feminino (50%). A faixa etária correspondente às idades entre 15 e 25 anos apresentou o maior número de informantes. Dos dez artesãos de paneiro, apenas 30% são do sexo masculino. Já com relação aos oito artesãos de brinquedos, os homens se apresentaram mais numerosos, com apenas duas mulheres entrevistadas. Vale ressaltar que 50% dos artesãos de Cutininga apresentaram idade menor que 30 anos, enquanto que entre os artesãos de brinquedos, a maioria (62,5%) se enquadrou nesta mesma categoria, demonstrando que essa atividade é bem representada pelos mais jovens.

Dos dez entrevistados de Cutininga, sete informaram serem moradores da própria comunidade desde seu nascimento; três vieram de outros municípios localizados ao longo do estuário, como Igarapé Miri e Breves, e residem na comunidade há pouco tempo.

Não é comum encontrar nas comunidades ribeirinhas, principalmente nas ilhas, moradores vindos da sede do município. Normalmente, ocorre o contrário, mas de forma não muito intensa. Alguns, por terem parente que possui residência na sede do município, já moraram na cidade, e muitos deles, durante algum período, acabaram residindo ali. Isso é uma característica principalmente dos jovens, por não terem responsabilidade com a família e pelo fato da vida pacata das ilhas não oferecer atrativos que despertem o interesse e motivem a fixação definitiva nelas, como emprego e maiores estudos. Este fato pode ser observado em relação aos artesãos de brinquedos, muitos dos quais são antigos moradores das ilhas que se mudaram para o centro urbano.

CADEIA PRODUTIVA DE DOIS ARTEFATOS DE IMPORTÂNCIA CULTURAL E ECONÔMICA: PANEIROS E BRINQUEDOS

Em se tratando de cadeia de comercialização de produtos de origem extrativista feita por populações tradicionais na Amazônia, algumas já foram traçadas e descritas, tanto para produtos oriundos de plantas fibrosas como para outros de maneira geral. Este tipo de estudo é ainda restrito para algumas espécies. No caso de produtos fibrosos, podemos citar aqueles feitos por Wallace e Ferreira (1998), relacionados a produtos confeccionados a partir do cipó-titica (Heteropsis flexuosa (Kunth) G.S. Bunting) no estado do Acre, e os achados de Nakazono (2007), que trata do uso das fibras de tucumã (Astrocaryum vulgare Mart.) na produção de artesanato por comunidades no Pará. A cadeia produtiva dos paneiros e brinquedos, obtidos das folhas do miriti, está representada na Figura 2 e é descrita e analisada a seguir.

 

 

Antes, porém, faz-se necessário esclarecer o leitor sobre a nomenclatura das partes vegetais utilizadas e sua correspondência na linguagem local. Ambos os artefatos têm como matéria-prima o pecíolo, localmente denominado de 'braça'. As fibras, que são a parte mais externa do pecíolo, são conhecidas como 'talas' e utilizadas na confecção das cestarias em geral e dos paneiros, em particular. A medula do pecíolo, parte mais interna deste e que consiste em um material esponjoso chamado de 'bucha', é empregada na feitura dos brinquedos.

OS PANEIROS

As cestarias compreendem todos os produtos que recebem um trançado e que são confeccionados há muitas gerações pelos ribeirinhos de Abaetetuba. A propósito, ao descrever os trançados de vários utensílios artesanais feitos por diferentes comunidades indígenas, Ribeiro (1985) ressalta que muitas vezes, por meio deles, são demonstradas as características de uma comunidade e, em particular, as habilidades de cada artesão, pois os mesmos possuem preferência quanto à confecção de determinados tipos de objetos. Ribeiro (1987) comenta, ainda, que o uso de fibras de origem vegetal para a confecção de artefatos, no Brasil, está associado a culturas indígenas que desenvolveram técnicas de secar, trançar e costurar, com vários estilos diferentes, e que estas características podem ser evidenciadas pela maioria das populações tradicionais que fazem uso desses recursos.

As cestarias de Abaetetuba eram vendidas para muitos municípios do estado do Pará, e principalmente para a capital, Belém, onde até hoje abastecem as feiras das Centrais de Abastecimento do Pará (Ceasa) e do Mercado Ver-o-Peso, dois pólos importantes para a distribuição de produtos oriundos de outras regiões do país e da Amazônia, respectivamente. A confecção de cestos, embora ainda muito praticada nas comunidades ribeirinhas, já não é mais tão significativa do ponto de vista econômico. Sua importância cultural para o município tem também sido colocada em xeque, haja vista que muitos desses utensílios foram gradativamente substituídos por produtos industrializados, como sacolas, caixas de madeira e de papelão.

Para os ribeirinhos que os utilizam intensamente, e sobrevivem de sua comercialização, essa é, porém, uma atividade muito presente e necessária. Nas comunidades ribeirinhas das ilhas, muitos jovens, de ambos os sexos, desenvolvem a arte de confeccionar esses objetos e fazem disso uma fonte de renda, ajudando a manter viva a tradição dos trançados. Esta constatação vai de encontro àquela feita por Rufino et al. (2008), que, ao estudarem o uso de duas palmeiras no interior de Pernambuco, constataram que as mudanças que ocorrem nas comunidades levam a novos modos de vida e, frequentemente, ao abandono das práticas de uso dos recursos vegetais. Consequentemente, apenas os membros mais idosos ou aqueles de uma determinada classe socioeconômica retêm o conhecimento original.

Os moradores da comunidade de Cutininga vivem basicamente da confecção de cestos, mais precisamente de paneiros feitos da fibra de M. flexuosa L. f. e de sua venda, que se configura como a principal fonte de renda. Em Cutininga, ao contrário de outras ilhas do município, não há relatos de beneficiamento de qualquer tipo de crédito financeiro destinado ao plantio de açaí, o que acaba favorecendo a preservação dos miritizeiros nativos e a continuidade da produção de paneiros. "Nossa comunidade não recebe dinheiro para o plantio do açaí, ninguém tem açaizal por aqui, todo mundo vive de fazer paneiros, aqui você não tem nenhuma família que não viva disso", afirma um informante.

Os paneiros, utilizados no transporte de frutas e verduras, são atualmente o produto cesteiro mais representativo de Cutininga, na ótica dos moradores, uma vez que todos os entrevistados mencionaram viver de sua confecção e o reconheceram como o único entre os produtos cesteiros a conseguir se manter no mercado.

O processo de confecção dos paneiros envolve a coleta da matéria-prima, o beneficiamento das fibras e a montagem do artefato (Tabela 1, Figura 3). A matéria-prima é geralmente fornecida pelos extratores, residentes na própria comunidade ou em outras localidades de Abaetetuba, como também em municípios vizinhos da ilha de Marajó (Limoeiro do Ajurú e Cametá), que fornecem as fibras já beneficiadas ou as 'braças' ainda verdes. Outra situação existente é aquela em que o próprio artesão realiza a coleta das 'braças' em áreas próximas de suas residências ou em localidades mais distantes.

 

 

O beneficiamento se inicia com a separação das 'talas' da 'bucha'. Em seguida, as 'talas' são colocadas a secar até que estejam aptas a serem trabalhadas, para compor as partes inferior e central do paneiro, localmente denominadas 'árvore' ou 'corpo do paneiro', e a parte superior ou borda. Posteriormente, procede-se à montagem dos paneiros, o que, se realizado por um artesão experiente, demanda em torno de 15 minutos. Segundo os entrevistados, cada família chega a produzir, em média, 300 paneiros por semana, podendo variar de tamanho e de preço.

O tempo gasto para produzir uma única peça vai depender do estado de beneficiamento ou acabamento em que se encontram as 'braças' que serão utilizadas. Por exemplo, quando o artesão resolve apanhá-las no mato, isso demanda horas ou até mesmo dias, dependendo da distância onde se encontram os miritizais, acrescido ao tempo necessário para a secagem. Desse ponto de vista, torna-se mais vantajoso para o artesão comprá-las beneficiadas do extrator. Sob a ótica do lucro, no entanto, comprar a matéria-prima semiacabada dos atravessadores ocasiona uma diminuição significativa no lucro final para os artesãos, pois este material apresenta preço mais elevado.

No que diz respeito à atuação de homens e mulheres, a atividade em questão conta com a participação de ambos; entretanto, enquanto as mulheres se envolvem mais com o beneficiamento da fibra e a confecção do produto, os homens, normalmente, se dedicam à comercialização. O desempenho das mulheres nessa etapa é combinado com inúmeros afazeres no âmbito doméstico, o que dificulta sua participação nessa fase.

Os paneiros, como dito anteriormente, podem variar de tamanho e, consequentemente, de preço; assim como a forma de comercialização depende dos atores envolvidos na transação. Os artesãos de paneiros não estão organizados formalmente em associações e nem recebem apoio que possibilite a manutenção dessa atividade, bem como incentivos de agregação de valor que viabilizem a continuidade da comercialização. Entretanto, em Cutininga, é possível notar uma organização própria, através de acordos entre artesãos e atravessadores, que vem se mantendo há muitos anos, apesar de haver aparente insatisfação dos primeiros com o preço pago pelos segundos; porém, por falta de outras opções de venda, acabam aceitando tal situação. Os atravessadores são, geralmente, ribeirinhos e donos de embarcações, os quais repassam a mercadoria aos feirantes, elevando o preço do produto. Por fim, pode ainda ocorrer a venda entre os feirantes, e esse valor se eleva ainda mais.

Segundo relato de um dos atravessadores, mesmo com essa dinâmica na comercialização, a venda dos paneiros está diminuindo a cada ano. O índice de produção em Cutininga vem sofrendo um declínio nos últimos anos (Figura 4). Ainda assim, essa é uma atividade bastante intensa e muito influente na economia local, conforme se pode apreender pela presença de barcos freteiros, que chegam a fazer de duas a três viagens por semana, carregando milhares de paneiros a cada viagem.

A queda na produção de paneiros resultou da substituição desses produtos por caixotes de madeira certificada, produzidos por empresas madeireiras e preferidos pelos comerciantes, por serem considerados mais duradouros que os paneiros. Este fato se ajusta perfeitamente ao enunciado por Homma (1992), segundo o qual, se um determinado produto atinge alta demanda de mercado, demonstrando ser economicamente viável, a tendência é que seja domesticado ou substituído por produto alternativo mais barato, condenando seu extrativismo. Trata-se, pois, de um aspecto relevante que pode colocar em declínio a popularidade e a comercialização dos paneiros até mesmo entre os ribeirinhos, não pelo seu preço, mas por sua durabilidade.

Por outro lado, conforme dados do CIFOR1, a continuidade dessa atividade é possível por ainda haver preferência pelo uso do paneiro na hora de entregar a mercadoria, por ser uma embalagem mais barata que os caixotes de madeira, por exemplo, que chegam a custar o dobro dos paneiros. Ademais, estes são essenciais no acondicionamento de determinados produtos que demandam aeração apropriada para sua conservação, como é o caso da manga, uma das frutíferas mais importantes no estado do Pará. Entre os meses de setembro a março, há um aumento de pelo menos 10% na produção de paneiros, especificamente devido à safra desta frutífera na região.

OS BRINQUEDOS

Este tipo de artesanato não é prerrogativa dos ribeirinhos, apesar de muitos artesãos de brinquedos pertencerem a essa categoria social. Esta prática artesanal em Abaetetuba é de natureza comercial e os artesãos que a ela se dedicam estão, normalmente, organizados em duas associações: Associação dos Artesãos de Brinquedos de Miriti de Abaetetuba (Asamab), com 109 associados, e Associação Arte Miriti de Abaetetuba (Miritong), com 108 associados. Ambas estão envolvidas com a produção e a venda destes artefatos em feiras e lojas regionais e nacionais, atendendo também a encomendas internacionais ao longo do ano. No entanto, existem artesãos que não se encontram vinculados a nenhuma destas organizações. Santos et al. (2005) comentam que muitos não associados mantêm em suas próprias casas uma oficina, contribuindo com o aumento da produção local e tornando o município pólo nessa arte.

A aprendizagem da prática de confecção de brinquedos pode se dar tanto por meio da transmissão de uma geração à outra, como por meio de cursos e oficinas ministrados nas associações pelos artesãos. Em geral, estes eventos são oferecidos para o grande público, inclusive alunos das escolas da sede do município e das ilhas. Isto talvez explique a predominância de jovens nessa atividade.

Segundo os entrevistados, o primeiro registro de produção de brinquedos no município se deu há aproximadamente 50 anos, sendo as primeiras peças confeccionadas e vendidas em maior quantidade pelo mestre Cambota, considerado precursor e um dos maiores artesãos nessa arte.

Não se sabe exatamente quando os brinquedos de miriti tornaram-se produtos comerciais. Em 2004, foram tema de destaque da Escola de Samba Viradouro, no carnaval do Rio de Janeiro. Nos anos seguintes, o brinquedo foi apresentado em feiras nacionais e internacionais através de articulação entre artesãos locais e centros culturais e de pesquisa. No inventário de referências culturais do Círio de Nazaré, produzido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), consta o ano de 1905 como a data do primeiro registro da presença dos vendedores de brinquedos de miriti nas festividades de Nossa Senhora de Nazaré. A primeira ocorrência do brinquedo associado a este evento, oriundo do município de Abaetetuba, data de 1793 (IPHAN, 2004).

A produção dos brinquedos começa com um bom preparo da matéria-prima, adquirida junto aos extratores de folhas de miriti, geralmente, moradores das ilhas. Alguns preferem comprar as 'braças' ainda verdes e secá-las em casa. Neste caso, os informantes alegam que a técnica tradicional de secagem ao sol, utilizada pelos extratores, deixam as 'buchas' manchadas e escurecidas, dando um aspecto envelhecido aos brinquedos. Assim, os artesãos recomendam que depois de retiradas as 'talas', as 'buchas' sejam imediatamente protegidas dos raios solares, para garantir uma matéria-prima de qualidade. Outros artesãos, porém, compram-nas já secas e prontas a serem manuseadas, cujo preço pode chegar até R$ 90,00 o cento em época de grande procura.

Muitos são os produtos chamados de 'brinquedos de miriti', podendo ter diversas formas e tamanhos, mobilidade ou não. Geralmente, representam a fauna (Figura 5), a flora e aspectos do cotidiano local. A confecção de um determinado tipo de brinquedo, bem como o tamanho deste, se dá em função da aptidão ou preferência dos artesãos. Alguns confeccionam apenas embarcações (barcos e canoas), um dos brinquedos mais populares e que podem medir até um metro de altura; outros têm preferência pela feitura de animais. Características semelhantes foram encontradas por Purata et al. (2004) quanto ao artesanato de brinquedos conhecidos como 'alebrijes', em Oaxaca, no México, onde os artesãos também expressam particularidades na produção de seus objetos, as quais identificam uma determinada obra.

 

 

O custo de produção de cada brinquedo varia de acordo com o tamanho e o tipo (Tabela 2). Assim como acontece com as cestarias, tanto os homens como as mulheres se dedicam à confecção e ao beneficiamento dos brinquedos, porém, em se tratando de comercialização, essa fica delegada à responsabilidade de cada artesão, sendo ele homem ou mulher.

Outrora considerados subprodutos, por serem confeccionados com as 'buchas' descartadas pela atividade cesteira, os brinquedos são vistos, hoje, como um dos principais produtos oriundos do miriti. São produzidos durante todo o ano; porém, no âmbito estadual, a maior demanda é para a já mencionada festa do Círio de Nazaré, cujos altos índices de venda estão representados na Figura 6. Outros momentos de alta demanda são as festividades locais, como o Miriti Fest, a Semana de Arte e Cultura, a festividade de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Abaetetuba, o carnaval e o Natal. Em um contexto geográfico mais amplo, de acordo com artesãos, há vendas constantes para São Paulo, Rio de Janeiro e para o exterior, sobretudo para a França. Em consequência disso, a antiga 'terra das cestarias', tornou-se, nos dias de hoje, a 'terra dos brinquedos de miriti'. Quanto a este aspecto de valorização de produtos de origem extrativista, que acabaram se tornando produtos de exportação, os famosos chapéus de Panamá, feitos das fibras da espécie Carludovica palmata Ruiz & Pav. (Cyclanthaceae), são o exemplo mais conhecido (Gallegos, 2006).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tanto os brinquedos como os paneiros atingiram escala comercial, sendo o brinquedo o produto feito da folha da Mauritia flexuosa L. f. de maior representatividade econômica no município, enquanto que na região das ilhas, onde está situada a comunidade ribeirinha estudada, o paneiro desempenha este papel.

Os atores sociais na cadeia produtiva de paneiros e brinquedos envolvem extrativistas, extrativistas-artesãos, atravessadores-proprietários de barcos, artesãos de paneiro e artesãos de brinquedos, comerciantes e consumidores regionais, nacionais e internacionais. Alguns acumulam mais de uma atividade na cadeia e outros executam atividades específicas.

A espécie M. flexuosa, conhecida como miriti, é de extrema importância para o município de Abaetetuba por duas razões: de um lado, a popularidade e a representatividade cultural que os brinquedos alcançaram colocam o município em lugar de destaque não somente em nível regional, como nacional; de outro, a representatividade comercial tanto dos paneiros como dos brinquedos é valiosa, uma vez que conseguiram alcançar mercados estabelecidos.

 

AGRADECIMENTOS

As autoras agradecem ao Museu Paraense Emílio Goeldi e à Universidade Federal Rural da Amazônia pela oportunidade na realização do mestrado da primeira autora; ao Programa Beca pela concessão de bolsa de pesquisa; ao Centro Internacional de Pesquisa Florestal (CIFOR) pela parceria e ajuda de custo; e aos informantes das comunidades estudadas de Abaetetuba, que compartilharam conosco sua sabedoria.

 

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Autor para correspondência:
Ronize da Silva Santos
Museu Paraense Emílio Goeldi
Coordenação de Botânica
Avenida Perimetral, 1901. Terra Firme
Belém, PA, Brasil. CEP 66077-830
ronizess@yahoo.com.br

Recebido em 15/12/2010
Aprovado em 24/10/2011

 

 

1 Centro Internacional de Pesquisa Florestal. Relatório "Projeto Miriti", 2008. Não publicado.