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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.7 no.1 Belém Jan./Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222012000100001 

CARTA DO EDITOR

 

 

A Museologia é uma área do conhecimento relativamente recente, que está em expansão e que tem explorado de maneira promissora as conexões com as ciências sociais, sobretudo Antropologia, Ciência da Informação e Comunicação Social. No Brasil, há indícios de que a disciplina está em processo de consolidação, como atestam os frequentes eventos relacionados ao assunto, a recente criação de alguns periódicos, de cursos de graduação em todo o território nacional e também de programas de pós-graduação, incluindo o primeiro Doutorado em Museologia, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), aprovado em 2010. Nesse processo, a área vem se estabelecendo em torno do conceito de Patrimônio, entendido como herança cultural, tangível e intangível, musealizado ou não, o que a torna permeável a praticamente todas as disciplinas que compõem o quadro das Humanidades.

Neste número, o Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas apresenta um dossiê composto por sete trabalhos que tomam a relação entre Museologia e Patrimônio como ponto de partida para reflexões teóricas e estudos sobre coleções etnográficas, museus de arte, cidades, exposições e políticas públicas. Organizado por Marcio D'Olne Campos (Unirio), Luiz Carlos Borges (Museu de Astronomia e Ciências Afins – MAST ) e Marcio Ferreira Rangel (MAST ), o dossiê Museologia e Patrimônio conta com a participação de Tereza Cristina Scheiner (Unirio), Diana Farjalla Lima (Unirio), Lúcia Hussak van Velthem (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – MCTI ), Maria Isabel Roque (Universidade Católica Portuguesa), Heloisa Helena Costa (Universidade Federal da Bahia), além dos organizadores. Trata-se de um esforço coletivo para aprimorar o debate de ideias na área e também abrir possibilidades de pesquisa – esforço compartilhado e incentivado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), um dos mais antigos e maiores museus de história natural do país, ele próprio constituindo-se em campo fértil para investigações museológicas.

Exemplo disso é o Parque Zoobotânico, o primeiro de seu gênero no Brasil, criado em 1895, que ainda carece de estudos que façam convergir aspectos históricos, sociológicos, arquitetônicos, paisagísticos, zoológicos e botânicos – sob o fio condutor do Patrimônio e de suas representações no tempo e no espaço. Com o intuito de contribuir com semelhantes estudos, apresentamos na seção Memória dois textos originalmente publicados na língua alemã em 1897 e 1901, de autoria, respectivamente, de Hermann Meerwarth (1870-1943) e de Gottfried Hagmann (1874-1946), ambos
pesquisadores da instituição, através dos quais é possível acessar como se deu a construção de um fenômeno museal na Amazônia do final do século XIX, e que viria a se tornar em pouco tempo um dos espaços públicos mais visitados do país, fortemente identificado com a cultura regional, ainda que inspirado por modelos internacionais de organização museológica. Os textos, traduzidos por Miriam Junghans (Fundação Oswaldo Cruz), atualizados e comentados por Nelson Sanjad (MPEG), David Oren (MCTI ), José de Sousa e Silva Junior (MPEG), Marinus Hoogmoed (MPEG) e Horácio Higuchi (MPEG), são precedidos de uma introdução que contextualiza a criação do Parque Zoobotânico– marco na urbanização de Belém (PA), na ampliação das formas de sociabilidade da população local, na institucionalização da ciência e na musealização do patrimônio no Brasil – e sucedidos por um caderno de fotografias da época, que documentam determinada concepção de jardim botânico e parque zoológico, pertencentes ao Arquivo Guilherme de La Penha (MPEG/MCTI ).

Outros três artigos compõem o número, dois deles dialogando indiretamente com o dossiê, posto que baseados no estudo da cultura material, ainda que façam referência a outro marco teórico e se ocupem de outro tema, a saber, as expressões estéticas pré-coloniais. Denise Gomes (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a partir do conceito de perspectivismo ameríndio, discute a ideia da existência de uma estética pré-colonial própria do território americano, tendo por base a ampla distribuição geográfica de um mesmo fundo cosmológico, cuja expressão material seriam objetos arqueológicos envolvidos na ação ritual. Por sua vez, María Alba Bovisio (Universidad de Buenos Aires) propõe o conceito de metáfora como princípio estético que rege o funcionamento simbólico de um tipo específico de peças arqueológicas, particularmente aquelas associadas ao chamado Período Médio do noroeste argentino (400-900 d.C.). Ambos são excelentes contribuições que associam Arqueologia, Etnologia e Antropologia da Arte.

O número da revista estava sendo fechado quando recebemos a notícia do falecimento do autor do terceiro e último artigo, César Ades (Universidade de São Paulo), em 14 de março de 2012. Prof. Ades nos honrou com a submissão de um texto, incentivado pelo Prof. Rui Murrieta, do Conselho Científico da revista, uma vez que ambos procuraram estimular reflexões sobre o legado de Charles Darwin durante as comemorações pelos 150 anos da teoria da evolução por seleção natural. Os leitores terão a oportunidade de apreciar a qualidade do texto e da argumentação do Prof. Ades no artigo "Cucos, formigas, abelhas e a evolução dos instintos", que analisa o sétimo capítulo de "A Origem das Espécies", considerado pelo autor como uma proposta paradigmática para a análise dos comportamentos típicos da espécie, ponto de partida para as abordagens atuais da etologia e da ecologia comportamental – as duas especialidades que Prof. Ades contribuiu decisivamente para implantar no Brasil.

Outra perda a lamentar foi a de Aziz Ab'Saber, ocorrida em 16 de março de 2012. Prof. Ab'Saber, além da carreira no magistério e na pesquisa, militou em causas ambientais e sociais, colocando-se sempre em posição crítica à inabilidade e à falta de planejamento e de compromisso de governos com questões cruciais para a região amazônica, como a escala e a diversidade de ambientes naturais em relação à ocupação antrópica, geralmente predadora e incentivada por ações governamentais irresponsáveis. Em sua homenagem, recomendamos a leitura de duas entrevistas, a que foi publicada pela revista "Estudos Avançados" em 2005 (v. 19, n. 53) e a veiculada no jornal "O Estado de São Paulo" em 9 de janeiro de 2010, após sua cidade natal, São Luiz do Paraitinga (SP), ter sido destruída pelas chuvas daquele verão. Ambas estão disponíveis na internet e nelas perfilam o conhecimento, o raciocínio e a verve do geógrafo, um tanto intolerante com a incompetência do poder público: inquirido pelo jornalista sobre quem entende de meio ambiente no Brasil, Ab'Saber não hesitou em afirmar que os agentes que realmente poderiam fazer algo pelo país estariam imobilizados pelos governantes federais, estaduais e municipais – e que "nós, no Brasil, precisamos aprender a contestar os idiotas".

Ainda sobre Ab'Saber, recebemos um depoimento da Profa. Bertha Becker, Conselheira deste periódico, que reproduzimos abaixo por considerarmos oportuno compartilhar sua visão sobre o eminente geógrafo:

O Brasil perde um grande cientista com a morte de Aziz Nacib Ab'Saber. Era geógrafo, profundo conhecedor da geografia física e da geomorfologia, o que não o impedia de ser um geógrafo pleno, preocupado com o desenvolvimento social e ambiental. Embora Aziz estivesse envolvido com sua geografia física e eu com minha geografia política, tivemos um importante encontro. Encontro que se deu na Amazônia. Primeiro, pela contribuição que deu, há anos, para o planejamento regional ao sugerir uma atuação através das bacias hidrográficas. Mais recentemente, por sua corajosa luta contra a concessão de exploração das florestas, com a qual concordo plenamente no que tange às florestas ombrófilas densas. Vai fazer muita falta esse geógrafo sábio e valente.

Finalizo com o anúncio dos novos Conselheiros Científicos da revista, que muito nos honraram ao aceitar o convite para integrar o corpo de pesquisadores que pode lançar um olhar crítico sobre o que aqui é veiculado. São eles: Janet Chernela (University of Maryland, Estados Unidos), Neil Safier (University of British Columbia, Canadá), Michael Kraus (Ethnologisches Museum Berlin, Alemanha), Gustavo Politis (Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires, Argentina), William Balée (Tulane University, Estados Unidos) e Eduardo Brondízio (Indiana
University, Estados Unidos). Esses nomes juntam-se, a partir deste número, aos atuais Conselheiros. Agradecemos a todos o apoio e o desvelo com que têm acompanhado a recente trajetória deste periódico.

Boa leitura!

 

Nelson Sanjad
Editor Científico