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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.7 no.1 Belém Jan./Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222012000100007 

DOSSIÊ MUSEOLOGIA E PATRIMÔNIO

 

Museologia e patrimônio nas cidades contemporâneas: uma tese sobre gestão de cidades sob a ótica da preservação da cultura e da memória

 

Museology and heritage in contemporary cities: a thesis on city management from the perspective of culture and memory preservation

 

 

Heloisa Helena Fernandes Gonçalves da Costa

Universidade Federal da Bahia. Salvador, Bahia, Brasil

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

Essencialmente consideradas como um espaço para viver, as cidades contemporâneas são complexos territórios onde a memória e o patrimônio não têm efetiva função representativa. O objetivo principal deste trabalho é analisar o surgimento do conceito de 'saúde cultural', suportado pela relação entre museologia, patrimônio e cidadania. A pesquisa foi baseada na experiência de campo e em estudos de memória de adultos e idosos que vivem em áreas urbanas, onde eles podem observar o significado simbólico dos monumentos e de objetos similares nas cidades-museus e nas paisagens culturais. A maneira com que os museus e monumentos estão inseridos na sociedade civil e seu poder de produzir códigos e valores culturais fazem deles parte integrante do processo de promoção das identidades e da cidadania. Além disso, esse processo pode melhorar a saúde cultural, a autoestima e a qualidade de interação social. Esses elementos são indispensáveis à construção de cidades saudáveis.

Palavras-chave: Cidade saudável. Museologia. Patrimônio cultural. Narrativa de vida. Memória.


ABSTRACT

Essentialy considered a space to live, the contemporary cities are complexes territories where memory and heritage have no effective representative function. The main objective of this paper is to analyze the emergence of the 'cultural health', a new concept supported by the relationship between museology, heritage and citizenship. The research was based on fieldwork experience and on memory studies of adults and elderly people that live in urban areas, where they can observe the symbolic meaning of the monuments and similars objects within the museum cities and the cultural landscapes. The way that museums and monuments are inserted in civil society and their power to produce values and cultural codes make them part of the process to promote identities and citizenship. Also, this process can improve the cultural health, the self-esteem and the quality of social interaction. These elements are essential for the building of healthy cities.

Keywords: Healthy city. Museology. Cultural heritage. Life narrative. Memory.


 

 

INTRODUÇÃO

As cidades são espaços de vida associativa e, portanto, de efervescência cultural. Elas crescem ou declinam, mas estão sempre em constante mudança; políticos, urbanistas, historiadores, arquitetos, sociólogos, museólogos e a população em geral, todos têm parte (para o melhor ou o pior, com maior ou menor intensidade) no processo de mudança e no formato que se dá às cidades.

Considerando a importância cada vez maior que se dá ao patrimônio cultural como um dos vetores de mudança urbana e conceitual, o artigo busca analisar o patrimônio urbano e as questões da memória e da história no complexo e tenso diálogo com a inovação, com a necessidade de planejar o novo respeitando o antigo, em ambiente de crescimento demográfico desmesurado. Nesse sentido, que papel pode ter a Museologia nas questões que se colocam para uma cidade em desenvolvimento e qual pode ser sua contribuição e interferência nas condições de vida da população? Como os diversos tipos de patrimônios, musealizados ou não, podem participar da construção de 'cidades saudáveis' e de uma 'cultura de paz'? Essas questões ainda não foram suficientemente respondidas no Brasil e estamos longe de intitular nossas cidades como 'saudáveis' e 'pacíficas'. Na consultoria à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), no âmbito do Fórum Universidades e Patrimônio, desde a criação em 1996, têm sido colocadas essas questões para os parceiros que atuam na tarefa da salvaguarda do patrimônio cultural universal. O que se pretende, nesse artigo, é apresentar o resultado de pesquisas nos campos da Museologia e do Patrimônio Cultural que levam à elaboração do conceito de saúde cultural, sendo este altamente contributivo para a qualidade de vida em coletividade.

 

FUNDAMENTOS TEÓRICOS

Visando contribuir com mais eficácia, eficiência e efetividade com a gestão cultural no território político denominado cidade, tomou-se por base os estudos desenvolvidos por Taylor (1997), Kaspi e Borbalan (1996-1997) e Bakhtin (1984) sobre formação de identidades. Esses autores abordam de diferentes maneiras a apropriação de valores e a compreensão da sociedade para o surgimento das identidades, essas que permitem ao cidadão se sentir parte da esfera social. Também a análise de Argan (2005) sobre história e arte nas cidades contribuiu para que a autora analisasse a cidade como um museu vivo, um local, ao mesmo tempo, de fruição, criação e rememoração. Já a micro-história, existente na obra de Fuentes (1996, 2001) e de Ginzburg (1989), trouxe a percepção do microcosmos, da memória possível em cada objeto material ou cada signo e/ou mito, levando a compreensão da autora para a relevância do paradigma indiciário de Ginzburg, que põe sua ênfase no pormenor, no detalhe que revela, da mesma forma que Fuentes evidencia o romance histórico como ferramenta pedagógica para fazer as pessoas compreenderem a sua própria história, o seu país. A teorização sobre códigos culturais de Rapaille (2007) contribuiu para a apreensão de métodos de decifração dos códigos culturais, mas, além desse instrumental, também tornou mais visível as diferenças e as similitudes entre as culturas, o que permite observar mais intensamente as cidades contemporâneas com suas características multiculturais, mas sempre e fundamentalmente humanas. "As memórias da memória social", de Pereira de Sá (2005), formam um conjunto muito interessante de categorias atribuídas às memórias ditas sociais, as quais não se deve confundir com memória da sociedade ou memória cultural, tendo cada uma delas seu uso legítimo e próprio. "A memória social na apropriação dos saberes históricos", de Lautier (2005), trouxe à autora uma contribuição imensa, já que explicita como as memórias orais e escritas se constituem nos materiais de trabalho do historiador e, portanto, devem ser dessacralizadas e problematizadas, identificando, ainda, Lautier a rica contribuição de Nora (1984), ao afirmar que "a história transforma a memória em objeto do saber" (Lautier, 2005, p. 183); e é Lautier (2005, p. 185) que complementa: "Parece difícil isolar categorias de saber de um ponto de vista intrínseco, próprio ao objeto. Os objetos de saber se definem bem mais em sua relação com o aluno, ele mesmo colocado em situação social". Ora, o que vem a ser toda essa gama de contribuições senão a constatação de que a memória, em suas diversas tipologias, tem um papel fundamental nas decisões políticas sobre a salvaguarda do patrimônio cultural em benefício de cidades mais saudáveis? E, nesse ponto, o encontro com a obra de Ecléa Bosi (1994) sobre as lembranças de velhos culmina por dar força e direcionamento ao olhar analítico da autora, que acredita ser a memória contida nos objetos dos museus e/ou no patrimônio exposto nas ruas uma síntese das memórias de toda gente, que quando trabalhada pela linha da história, com o ponto equilibrado entre a razão e a emoção, se transforma em húmus, capaz de nutrir o solo cimentado das cidades com a essência humana há tempos fragmentada, esfacelada e quase totalmente perdida.

Complementando as referências já explicitadas, junte-se a tudo isso as análises realizadas pela autora sobre museus de história de cidades, no Brasil, no Canadá e na Inglaterra, durante os anos de 1996 a 2000, análises essas que resultaram em Relatórios Técnicos de Viagem, apresentados em seminários na Universidade de Québec (UQAM), em Montréal, e que deram base à tese de doutorado da autora.

Essa linha de raciocínio, que procura traçar o papel fundamental da memória coletiva e afetiva na preservação do patrimônio cultural, visando oferecer qualidade de vida ao cidadão da pólis, também caminhou junto ao pensamento científico do neurocirurgião Antonio Damasio (1995), quando este apresenta os fundamentos de sua tese sobre o que considera o 'erro de Descartes', colocando em evidência o papel da emoção na tomada de decisão por sujeitos sociais. Para entendê-lo, fez-se necessário ler e reler os textos de Ivan Izquierdo (2004) e suas teses sobre memória, pois, sendo ambos neurocirurgiões, conseguem mostrar, como resultado de pesquisas científicas, que os seres humanos dependem tanto, e talvez muito mais, de suas memórias e de suas emoções quanto de seus raciocínios precisos, lógicos e racionais. Acrescente-se, comparativamente, às teorias referidas, os relatórios de práticas de ação que usaram o método de Educação Patrimonial preconizado por Horta e colaboradores (Horta et al., 1999) e ter-se-á uma tese sobre a necessidade fundamental de se estabelecer um equilíbrio entre razão e emoção, entre ciência precisa, cartesiana, e vivência individual e coletiva, portadora de memórias afetivas e sociais.

Essencialmente, esses autores, mas também outros, a exemplo dos quarenta e um participantes que fizeram intervenções substanciais ao tema 'Cidades para o século XXI' (Paye, 1994), durante a Conferência Internacional da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 1992, serviram de base teórica e prática para a compreensão das relações entre Museologia e Patrimônio Cultural no contexto de mudanças de forma e de conteúdo das cidades contemporâneas, voltadas, em sua maioria, para um intenso crescimento econômico-demográfico, para um espírito de consumo desenfreado e para a substituição das identidades coletivas pela globalização.

Foi possível perceber a rica contribuição e colaboração multidisciplinar de vários campos do conhecimento aos temas da Museologia, do Patrimônio e da Memória. Esta última, apresentando alguns códigos unificadores quanto ao comportamento memorialista em indivíduos e grupos, também surpreende com a infinita diversidade de termos no que diz respeito à memória social. Por outro lado, a ampliação da noção de patrimônio pressupõe uma necessária renovação do olhar e da compreensão sobre o fenômeno patrimonial, renovação essa que necessariamente terá de ser apropriada pelos órgãos responsáveis por inventários, registros e tombamentos, sob pena de, em não o fazendo, permitir a perda de traços e vestígios que poderiam desvelar o conteúdo e o significado de objetos que, em si mesmos, não conseguem mostrar. Trata-se, aqui, da apropriação das memórias afetivas, das narrativas de vida em superposições com os fatos históricos e artísticos para dar a conhecer o real patrimônio das comunidades, imaginadas ou territorializadas em espaços físicos e políticos bem definidos, mas em qualquer dos modelos compostas de sujeitos com emoção e razão.

Ao se referir sobre o papel dos museus e dos objetos de coleções na sociedade atual, Contardi (2005, p. 7) assim se referiu:

Os objetos, as obras de arte – numa sociedade cuja estrutura cultural não seja mais a história, como corre o risco de acontecer com a sociedade atual – são fragmentos de um passado não mais relacionável ao presente, são quase ilhas, resíduos de um continente submerso. Desfeitos os nexos que os relacionavam ao contexto, reduzem-se a textos, cuja guarda em museus também será dolorosa, mas é, hoje, conditio sine qua non para a sua sobrevivência.

 

CIDADES PATRIMÔNIO OU PATRIMÔNIO NAS CIDADES

Cidades ícones no Brasil, a exemplo de Salvador, da Bahia, possuem enorme quantidade de exemplares significativos do patrimônio cultural urbano. Sobre eles recai o estudo das noções de monumento, ligado à memória oficial, e de patrimônio, cuja base é a memória coletiva. Há sempre um diálogo possível entre a tradição e a inovação, entre os vários tipos de memória nos cantos e recantos da cidade, quando se analisa o que é considerado patrimônio cultural na contemporaneidade, à luz da lista de tipos de patrimônio reconhecidos pela UNESCO, a partir de 2004. Essa lista considera patrimônio cultural os seguintes objetos e expressões: cidades históricas; paisagens culturais; territórios sagrados; herança cultural submersa; museus; artesanato e festivais folclóricos; herança documental digital; documentos cinematográficos; tradições orais; línguas; ritos e crenças; música e canções; artes cênicas; medicina tradicional; literatura; tradições culinárias; esportes e jogos; e talentos humanos vivos. Dessa forma, as cidades podem ser analisadas pela quantidade e qualidade dos patrimônios que possuem, que preservam e que promovem diálogo com as comunidades urbanas.

O fenômeno da cidade talvez tenha sido a realização mais importante da história da humanidade, pois, apesar do transcurso de milênios, aquele fato criativo permanece atual e está constantemente submetido a contínuas transformações. Há muitos tipos de cidades que podem ser estudadas a partir da sua historicidade, de seu estilo arquitetônico, de suas finalidades, enfim, cada época externou sua forma de pensar a cidade, mas todas sempre se preocuparam com a morada do ser humano, com o local de guarda e de proteção dos sujeitos que passam a habitar esse espaço.

Analisando o mundo globalizado do século XXI, percebe-se que o lugar de habitação também vem sendo redefinido, e a cidade, fenômeno considerado por Aristóteles (2000, p. 15-16) como a maior invenção do homem para seu próprio desenvolvimento enquanto cidadão, transformou-se de espaço de convívio em espaço de luta e competição acirrada pela sobrevivência.

O ritmo de vida é acelerado, não há espaço e tempo para promover a memória nem para as rememorações, atitude obrigatória nas sociedades onde a oralidade é predominante. Habermas explora o tema na sua Teoria do Agir Comunicativo, mostrando que a grande fissura, o fosso que separa e que desestrutura o mundo moderno é a desigualdade entre dois mundos nomeados por ele: mundo sistêmico e mundo vivido. O mundo sistêmico, composto pelo Estado e por suas formas institucionalizadas de poder, e o mundo vivido, o espaço da emoção, da realização pessoal e da liberdade, caminham em paralelo (Costa, 2000, p. 79).

A sociedade muda e as noções de patrimônio e de museologia também. Patrimônio cultural é uma noção que tem se modificado e ampliado ao longo dos séculos, sendo atualmente muito mais abrangente do que nos primórdios do século XX, quando edifícios e marcos históricos, a exemplo dos monumentos urbanos, eram protegidos e passavam a fazer parte da memória oficial, em detrimento de outras formas de expressão patrimonial até então não reconhecidas como tal. Nesse sentido, a Declaração de Caracas, oriunda da reunião de 1992, na qual especialistas nas mais variadas disciplinas se encontraram para debater o patrimônio latino-americano sob os auspícios da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da UNESCO, preconizou que "o patrimônio cultural de uma nação, região ou de uma comunidade é composto de todas as expressões materiais e espirituais que o constituem, incluindo o meio ambiente" (UNESCO, 1992). Trazendo essa noção ampliada de patrimônio para a análise histórica e cultural do fenômeno cidade, pode-se perceber a carga de conteúdo simbólico que os marcos históricos e artísticos, entre outras formas de expressão (sítios culturais, lugares notáveis, sítios arqueológicos), imputam às cidades e possibilitam o surgimento e fortalecimento de identidades.

Na cidade de Salvador, Bahia, existem diversos tipos de marcos simbólicos: os monumentos históricos e artísticos, as hermas, os bustos, espalhados em praças públicas, em áreas de entrada de prédios públicos e privados, em fachadas e outros locais de grande afluência de público. A criação desses monumentos foi bastante intensa no século XIX, com grande contribuição estilística e construtiva por parte de arquitetos e artistas franceses e italianos. Além disso, Salvador possui o Centro Histórico, agora chamado de centro antigo, que foi tombado, em 1984, pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (hoje Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN), e inscrito na lista de patrimônio mundial em 1985, tendo o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) declarado que, além de conservar a estrutura urbana original do século XVI, outro critério de inscrição deveu-se ao fato de

ser um eminente exemplo de estrutura urbana da Renascença, tornando-se, pela densidade dos monumentos reunidos, a capital por excelência do Nordeste brasileiro (...) e de ser um dos principais pontos de convergência das culturas europeias, africanas e ameríndias dos séculos XVI a XVIII (Silva, 2003, p. 101).

Entretanto, a população que passa em um vai-e-vem constante e acelerado raramente se detém para observar, analisar, ler placas, descobrir informações novas e usar essas referências para se identificar com a cidade-museu e com a sua história.

Cultura, memória e história são domínios intimamente entrelaçados e juntos adquirem seu sentido sociológico. Memória é conhecimento, mas só funciona como tal se houver transmissão. Já a identidade é um conceito complexo; em geral, um indivíduo considera que sua identidade é a percepção do que ele é em relação ao mundo cultural, ao mundo natural e o sentimento de pertencimento ligado a essa percepção. Entretanto, pensadores como Bakhtin (1984), Taylor (1997), Kaspi e Borbalan (1996-1997) entendem que o 'eu' é múltiplo, e a identidade de um indivíduo não é uma entidade homogênea, mas sobretudo um conjunto oriundo de identidades variadas, pois são todas criadas dialogicamente e os diversos 'eus' são autores de Uns e de Outros, a saber: autopercepção (eu por mim mesmo); eu a partir dos outros (como sou percebido pelo outro) e o outro por mim (como eu percebo o outro). Assim sendo, a identidade não é um atributo imutável de um indivíduo ou de uma coletividade; as identidades comunitárias ou políticas se elaboram na interação entre os indivíduos e os grupos sociais. Para Kaspi e Borbalan (1996-1997, p. 4), a identidade é concebida atualmente como o resultado de construções e de estratégias, estando sempre em evolução e em recomposição. Nesse sentido, pode-se dizer que a identidade tem um caráter, ao mesmo tempo, de permanência, de resistência e de continuidade, utilizando-se da memória e da história como bases de seus registros de transmissão. Assim, a identidade cultural é uma consciência coletiva que se apóia na memória social.

Entendendo a Museologia como o estudo científico das relações entre o ser humano, ator social, e o mundo real por meio dos bens culturais que formam a herança coletiva, e percebendo que o patrimônio cultural é composto por bens significantes que fixam os códigos culturais em uma dada comunidade ou nação, a análise das transformações pelas quais vêm passando as cidades contemporâneas não só pode, como deve, ser realizada por meio da interligação entre Museologia e Patrimônio, na tentativa de se perceber o percentual de qualidade de vida e o quanto de critérios para se tornar uma cidade saudável está sendo observado pelos gestores municipais. De fato, no estudo das relações entre a Museologia e o Patrimônio nas cidades contemporâneas, reside o dilema de se encontrar o equilíbrio entre a tradição e o contemporâneo no ambiente urbanizado, pois, ao mesmo tempo em que se ampliam traçados urbanos, em que se movimenta a vida cotidiana com mais intensidade no espaço citadino, também há um discurso protecionista de valores simbólicos do passado histórico, que, em geral, entra em choque com os ideais de avanço tecnológico, de inovação, de perpetuação de memória. Como encontrar esse desejado equilíbrio? Onde se encontra a alma da cidade, aquela espécie de memória que não deveria desaparecer e pela qual vale a pena criar instrumentos de tombamento? Como proteger tantos tipos diferentes de patrimônio?

Entendendo o fenômeno cidade como um organismo vivo que, ao mesmo tempo em que está em desenvolvimento, necessita guardar memória de sua existência anterior, para prosseguir em caminhos mais adequados à preservação de sua existência, pode-se inferir que as cidades falam de muitas maneiras e expressam desejos e sentidos.

Assim como a canção do popular músico Antônio Candeia Filho (1935-1978), que diz que "mudo é aquele que só se comunica com palavras", as cidades conversam com os seus habitantes por meio de várias linguagens, por meio de códigos que precisam ser decifrados, pois muita coisa que se vê na cidade não é exatamente o que ela quer mostrar. Assim como ocorre com seres humanos, que disfarçam amarguras e tristezas por meio de sorrisos leves ou de maquiagens pesadas, a cidade enquanto fenômeno criativo de origem humana, portanto não natural, também se expressa ora com franqueza ora com disfarces. Em seus estudos, Rapaille (2007, p. 5) anuncia que todos os sujeitos possuem um sistema silencioso de códigos pelo fato de crescerem em determinada cultura. Da mesma forma, a história e a memória das cidades (e das pessoas) ficam marcadas em objetos testemunhos do patrimônio material, do imaterial e do ambiental, mas nem sempre visíveis e sim debaixo de códigos culturais, que necessitam de tempo e de espaço para estudo, para análise, para divulgação, que culmina com a educação dos sujeitos/habitantes. E como todo esse processo é também parte da cultura de cada lugar, umas cidades vão descobrir mais rapidamente do que outras "a insustentável leveza do ser", expressão de Milan Kundera (1985), autor tcheco, sobre a dificuldade do ser humano em ser simples, livre e feliz.

Onde se escondem esses códigos culturais que podem dar sentido aos lugares? Certamente, dentro de inúmeros testemunhos, a exemplo dos nomes de ruas, das construções históricas e também das contemporâneas, através de ditos populares, de ritos e festas que estão inseridos na tradição, nas paisagens, nos odores, nos sons e ruídos que caracterizam usos seculares e, portanto, compõem o patrimônio vivo, que muitos estudiosos costumam chamar de intangível. Também se escondem no ambiente natural que teima em continuar vivo, apesar da destruição massiva com que alguns urbanistas, arquitetos, engenheiros e administradores da cidade insistem em tratá-lo. O que se pode aprender com esses objetos testemunhos? Muito! Das origens da cidade, dos seus habitantes, das estórias e da história de cada canto e recanto, muito se obtém ao se estudar o que está por traz, e no entorno, do surgimento e do desaparecimento, de cada um desses objetos e também das gentes da cidade.

Salvador, conhecida por tantos nomes, a exemplo de cidade capital, cidade da alegria, cidade da luz barroca, a depender do olhar do grupo que os criou, ainda é desconhecida para a maioria de seus habitantes. Entretanto, é necessário aprender a olhar e ver Salvador. Uma cidade secular, que em algumas paisagens ou ruas guarda o sentido do lugar, a exemplo da vista que se vê do mar para o forte São Marcelo. São quatro séculos de uma mesma visão, que, felizmente, o tempo e a mão humana não conseguiram mudar e, portanto, ainda não foram perdidas as características históricas de cidade fortaleza, cidade protegida. Mas, há algo novo na vizinhança. É a Bahia Marina, bela, bem estruturada e que aproveita o espaço marítimo mais ou menos com a mesma interpretação de espaço daqueles construtores coloniais: um braço de terra avança e abraça os barcos ancorados, só que em linha reta, sem a sinuosidade tão característica da Salvador colonial e sensual.

Lastimavelmente, o mesmo não ocorre com a colina, uma ladeira chamada Preguiça que, da parte alta, leva ao cais. Antes, belíssimos casarões, residenciais e de comércio, que davam vida e beleza à encosta. Hoje, escombros e ruínas há muito sem uso, cheirando mal, infestados de roedores e insetos, agredindo os cidadãos e a estética urbana.

 

O QUE SERÁ ISSO, SENÃO A MÁ LEITURA E A MÁ INTERPRETAÇÃO DOS CÓDIGOS?

Aquela era uma região de morar, de trabalhar, de viver, mas, por falta de compreensão sobre essas vocações, foi sendo deixada de lado e perdendo a energia imputada pelo tempo. O sentido de progresso da segunda metade do século XIX e de todo o século XX preconizava moradas edificadas com novas tecnologias e materiais; também considerava urgente mudar a região nobre da cidade para o interior da mesma e, assim, a área foi abandonada. Curiosamente, o século XXI vê um retorno de interesse nessa área a partir de novos ricos, em geral, empresários e artistas que não nasceram em Salvador, oriundos de outras regiões do Brasil ou outros países, que agora revalorizam aquele espaço abandonado, procurando obter, de novo, o que a cidade oferecia séculos antes: estética da paisagem cultural, facilidade de serviços do centro urbano, área comercial e bancária em renovação e com segurança; isto é o projeto de revitalização do bairro do Comércio (Cidade Baixa). Agora, esses lugares são considerados de 'charme'. É um fenômeno, no mínimo, interessante a tentativa de se buscar o charme, a elegância, talvez até o glamour do passado, dando um novo tratamento às fachadas arruinadas e recriando os odores e sabores da velha Bahia. Tudo isso se observa e se analisa com a percepção de que houve extrema perda de valores sociais e culturais que antes existiam: sociabilidade, boa vizinhança, convívio, certa segurança no ir e vir, ou seja, um retorno à cidade aristotélica, onde a praça pública era o ágora, o fórum e a catarse. No dizer do professor Charles Taylor (1997, p. 24), é a busca da identidade perdida, da identidade formada no dialogismo e que precisa da esfera pública para criar e retomar valores fundamentais para a vida do ser humano, identidade que só consegue se formar nos locais abertos ao diálogo.

Então, de repente, ficou chique morar no Centro antigo, ficou charmoso procurar e adquirir objetos de arte ou antiguidades nos antiquários e brechós da região, ficou elegante voltar ao que já foi um dia, mas não é por questão de formação de identidade coletiva, e sim por uma moda de nostalgia que invade o sentimento dos novos ricos, fazendo parte do novo sentido de enobrecimento urbano. Esse fenômeno não é próprio apenas da cidade de Salvador, ocorre também nas cidades que hoje saem da categoria de metrópole para virarem megalópoles. Essa busca de identidade, de memória e de história é algo que vai se tornando muito comum em um mundo globalizado tal como este, o mundo do século XXI, porque as populações estão se sentindo perdidas de sentido e de significado, sem raízes nas quais possam se firmar e se estruturar e através das quais possam saber de onde vieram e projetar para onde irão e como querem ir. Então, o que se percebe é que essa busca está envolvida e inserida no registro dos códigos culturais que se fixam no inconsciente e, à semelhança do conceito de habitus desenvolvido por Bourdieu (1986, p. 42), aflora sutilmente nos sujeitos e nos grupos em forma de desejos mal decifrados. Ora é uma necessidade de se reconstruir com ladrilhos hidráulicos, ora é a retomada da fachada colonial, mas esses desejos não são suficientes para dar a perceber aos desejosos que, enquanto suas moradias e suas vidas são inspiradas nesse passado nostálgico, o passado real torna-se presente e está evidente nas ruas da cidade, nos monumentos, nos grupos escultóricos e nas fachadas das casas em ruínas, está bem visível a todos, mas em condições precárias, em situação de abandono, relegado à condição de escombro.

Por isso, essa reflexão sobre porque e como gerir de forma integrada a cidade e o patrimônio cultural se torna muito necessária, a fim de que se evitem os erros e as inadequações que comumente são feitos e se fique a dar voltas em círculos, fazendo e refazendo locais nas cidades, em busca de significados e de adaptações. É muito importante estudar as cidades e seus códigos, analisar os usos e tomar atitudes com base na decifração correta dos códigos.

Tome-se o exemplo do traçado urbano da Praça da Sé, em Salvador. Desde quando foi construída (século XVII), ela passou por quatro grandes processos de urbanização e acabou voltando, com aparatos modernos, ao mesmo uso inicial, ou seja, espaço de convivência, com apenas uma rua de ir e vir no mesmo sentido direcional, acrescida de uma fonte que, quando ligada, molha demasiadamente os passantes e, quando desligada, torna-se um equipamento estranho e pouco estético, no dizer de muitas pessoas contatadas para dar opinião sobre ela.

Os museus na cidade fazem parte da cidade que é um museu de si mesma e poderiam compartilhar com os administradores da urbis da imensa tarefa que é preservar o patrimônio cultural, usando-o como pedagogia social para o desenvolvimento harmônico e equilibrado da cidade.

Em uma visão macro, observa-se o Subúrbio Ferroviário de Salvador e o diversificado patrimônio que ele contém. Ambiente marítimo e restos de Mata Atlântica, o nostálgico e histórico Parque São Bartolomeu, hoje entregue à violência e com uso extremamente limitado, antigas construções fabris e religiosas, saberes e fazeres locais, tudo dentro da extensa lista do que hoje é considerado patrimônio pela UNESCO, mas, como de hábito, mal cuidado e arruinado. A cidade de Salvador cresce vertiginosamente para o alto e essa verticalidade gera alegrias para uns poucos, que garantem a moradia, mas obstaculizam serviços, transporte, redes de energia, de água potável, esgotos, estacionamento para a maioria e, mais do que tudo, acelera e intensifica a violência urbana.

Olhando as imagens de Salvador vista do alto de um avião de carreira, percebe-se que não há respeito com as normas internacionais e nacionais vigentes. O desmatamento em benefício da construção civil é gritante; ao mesmo tempo, os institutos de pesquisa mostram o valor de se arborizar as cidades em benefício do conforto térmico, especialmente em tempos de aquecimento global do planeta.

Também faz falta a elaboração de um planejamento urbano compartilhado com o cidadão. Quando há regras para serem cumpridas, quando as regras são informadas claramente aos usuários e quando existe fiscalização ao cumprimento das mesmas, mais ganhos de qualidade na vida civil são obtidos.

Enfim, planejar o uso adequado do patrimônio cultural, em qualquer de suas modalidades, com a gestão política, econômica e social das cidades parece ser uma solução coerente, harmoniosa e pacífica. Ou os cidadãos estarão todos fadados a fugir das cidades em busca do seu pedaço de chão, como nos versos da bela canção criada em 1997, por Chico Buarque: "A cidade não mora mais em mim, Francisco, Serafim vamos embora" (Buarque de Holanda, 1997).

 

SOBRE IDENTIDADES E SAÚDE CULTURAL

Em entrevista realizada por Costa (2000) com a arquiteta e professora Maria do Socorro Martinez1 para a realização da tese de doutorado, obteve-se a seguinte informação sobre uma atividade desenvolvida em Salvador por duas instituições culturais: o Museu Carlos Costa Pinto (MCCP) e a Fundação Casa de Jorge Amado, sob a coordenação da referida arquiteta. Tratava-se do concurso fotográfico intitulado Foto Safári, que foi aberto à população em geral a partir de um ciclo de palestras sobre a história da cidade. Resumidamente explicando, os participantes tiveram que pegar dois rolos de filme no MCCP, fazer um trajeto a pé no circuito Avenida Sete – Pelourinho, lançando um olhar sobre a cidade em busca de um exemplo para o seu conceito pessoal de patrimônio, e entregar esses filmes, para serem revelados, na Fundação Casa de Jorge Amado. Em um total de 5.634 fotos produzidas, mais de 40% foram fotos de pessoas comuns, entre elas crianças, mulheres gestantes, vendedores autônomos, passantes, idosos etc. Muitas fotos tiveram como tema a natureza, especialmente as árvores centenárias e o pôr-do-sol. As demais enfocaram prédios, praças e monumentos históricos.

Estabelecendo um paralelo com a definição de patrimônio assumida na Declaração de Caracas, percebe-se uma tendência crescente em direção ao conceito de patrimônio global, isto é, as expressões materiais e espirituais que caracterizam uma comunidade, incorporando-se seus valores naturais e ambientais. Entretanto, ainda existem grandes diferenças na maneira de compreender o indivíduo enquanto ator social e criador do patrimônio cultural. As noções de igualdade, cidadania e de desenvolvimento vêm sendo redefinidas pelo mercado global. Nesse contexto, o indivíduo é sempre o elemento alvo considerado como o consumidor em potencial. A noção de indivíduo enquanto cidadão/ator social ainda é uma conquista a ser feita, mesmo que se possa identificar uma tendência muito atual de valorização do papel das comunidades como elemento propulsor do desenvolvimento regional e municipal.

Assim, torna-se evidente a necessidade de se criar instrumentos educativos e pedagógicos que, usando o patrimônio cultural como ferramenta de aprendizagem, demonstrem que o processo de salvaguardar e de preservar a memória coletiva é uma atitude de muitos atores sociais trabalhando em conjunto. É necessário que especialistas em patrimônio e membros da coletividade estejam envolvidos em um trabalho de educação permanente, no qual os sujeitos se reconheçam como parte do patrimônio global. As bases para esse trabalho conjunto estão na adoção de uma abordagem holística e interdisciplinar que se debruça sobre o uso social do patrimônio cultural.

Nesse sentido, a Museologia, ciência em processo avançado de construção e com característica interdisciplinar por força natural do oficio de depuração do real, pode ser a parceira ideal para se aliar aos estudos patrimoniais e oferecer inúmeras possibilidades de compreensão dos códigos culturais contidos nos diversos suportes do patrimônio, já que a Museologia preconiza a polissemia dos objetos, estuda as múltiplas relações que se estabelecem entre o real (patrimônio material) e os indivíduos, explorando a realidade (vivências, estórias de vida, patrimônio imaterial) desses e de outros indivíduos que fizeram parte das gerações do passado. Nesse processo, está inserida a memória afetiva que, lidando com as emoções individuais e coletivas, possibilita: ofertar carga positiva ao organismo; renovar energia; fortalecer a autoestima e a segurança em si mesmo; recordar e religar, promovendo vínculos e potencializando sinapses; adquirir força e coragem para combater estados depressivos e stress.

Dentro da mesma linha de raciocínio, insere-se um estudo recente do Instituto de Psicologia de Roma2, que identificou, após dois anos de pesquisa com adultos entre 25 e 45 anos, um resultado surpreendente: a visita a museus torna a vida mais saudável porque o contato com as obras de arte ou com os testemunhos da história humana coloca o visitante em uma situação de reconhecimento da sua situação de partícipe do processo de construção histórica, permite a elevação do espírito humano e fortalece a autoestima. Tudo isso em razão do reencontro da memória coletiva, portanto afetiva, com a história e a arte em ambiente de preservação adequada do patrimônio, em situação de diálogo e de motivação.

Então, voltando o olhar para as cidades contemporâneas e para o patrimônio urbano nelas contido, tomando como estudo de caso a cidade de Salvador, pode-se inferir que o cidadão não se reconhece da mesma forma diante de patrimônios arruinados e mal conservados, diante da destruição sem critério para introdução de elementos novos, que não respeitam os códigos culturais que dão sentido aos lugares. Exemplificando essa análise, a reunião do ICOMOS, em Quebec (2008), teve como tema a pergunta: "Onde se esconde o espírito dos lugares?". E uma das melhores respostas apresentadas na plenária final foi o trabalho de jovens estudantes de Arquitetura e de Museologia, que filmaram as pedras do piso do antigo Convento das Ursulinas ao som dos depoimentos de ex-alunas e antigas funcionárias, relatando a vida que pulsava e ainda pulsa naquele local.

De novo, volta-se à questão da memória e dos códigos culturais não plenamente desvelados, à espera de mediadores à altura de promoverem as pontes entre gerações, de maneira a tornar clara a lição do patrimônio para as novas gerações. Essa reflexão segue em direção ao conceito de cidade saudável, a que permite ao cidadão o espaço de diálogo e o reconhecimento de sua identidade para, então, promover mais qualidade.

Uma cidade saudável, na definição da Organização Mundial de Saúde (OMS), é aquela que coloca em prática, de modo contínuo, a melhoria de seu meio ambiente físico e social, utilizando todos os recursos de sua comunidade. Portanto, considera-se uma cidade ou município saudável aquela em que os dirigentes municipais enfatizam a saúde dos cidadãos dentro de uma ótica ampliada de qualidade de vida. Ora, qualidade de vida é um bem estar geral que acomete os sujeitos de uma dada população pelo fato de se sentirem seguros e nutridos em todas as áreas (emocional, mental, intelectual, afetiva, entre outras), autônomos e com habilidades específicas mantidas por meio de processos de aprendizagem, de uso da memória; enfim, ser saudável é poder se relacionar com objetos e pessoas de forma não violenta, respeitando a diversidade cultural e promovendo maior compreensão de mundo.

Adotar hábitos de vida saudáveis é contribuir para o estabelecimento de relações mais solidárias, é participar da criação de políticas públicas que incidam positivamente na saúde de todos e, sobretudo, é ser capaz de lidar com o mundo de uma forma positiva. Ainda segundo a OMS, tais atitudes promovem saúde e existência, e a existência é uma faculdade de quem tem memória, de quem tem patrimônio para lembrar e sobre o qual se referir, pois um ser desmemoriado não existe, apenas vive. Existir, de acordo com Paulo Freire, é estar no mundo e participar conscientemente dele, "o poder de transcender, de discernir, de dialogar (comunicar e participar), é exclusividade do existir. A existência é individual, mas ela só se realiza com outras existências, em comunicação com elas" (Freire, 1974, p. 40).

Dos anos 1980 até os dias de hoje, no campo da Museologia e do Patrimônio, formou-se um grupo muito atuante de pesquisadores que identifica o patrimônio cultural com a memória, sobretudo, a memória coletiva. Assim sendo, o ser humano dotado de memória e capaz de rememorar, de religar, de fazer uso da tradição e de construir um processo permanente de criação, adaptação, assimilação e resignificação de valores em uma dada sociedade, é um ser capaz de produzir cultura, portanto, é em si mesmo o patrimônio. Dessa forma, cultura vem a ser a memória que procuramos ter enquanto atores sociais. E essa memória é melhor apropriada quando os campos da Museologia e do Patrimônio trabalham juntos, estabelecem relações interativas e promovem conhecimento, reflexão, interesse; promovem lembranças e sinapses; despertam emoções; fortalecem a autoestima e suavizam zonas de conflito externo e interno graças ao conhecimento e ao respeito à diversidade cultural que se apresenta aos cidadãos com os quais se está interagindo.

No âmbito das argumentações convincentes que confirmam essas teses sobre o potencial regenerador advindo do uso adequado das memórias individuais e coletivas, tome-se o exemplo de um, entre cinquenta entrevistados, durante a pesquisa de campo para a tese de doutorado: um arquiteto urbanista, que discorreu sobre os museus de história da cidade de Montréal. Ele iniciou a entrevista formalmente, analisando aspectos técnicos das exposições já vistas, questionando o uso limitado de mapas (ele os considera importantes para fortalecer a compreensão dos limites geográficos e do posicionamento espacial). Pouco a pouco, ele começou a falar dos trajetos e itinerários urbanos, a discorrer sobre as ruas da sua infância, os lugares descobertos com amigos, as paisagens culturais e históricas que ele criara na memória afetiva. Discorreu, inclusive, sobre os odores da cidade e, ao final, emocionou-se com as próprias lembranças, descrevendo as primeiras visitas aos museus, ainda menino, acompanhado dos pais e depois de amigos. Após o término da entrevista, passados alguns dias, ele procurou a pesquisadora, retomou o assunto com novas informações e agradeceu, novamente emocionado, a oportunidade de haver tido a chance de recuperar tais lembranças, pois elas o fizeram reviver e o deixaram feliz. Além disso, ele havia decidido ir se encontrar com amigos há muito esquecidos e retomar os laços que os uniram no passado. Meses depois, enviou à pesquisadora uma foto onde aparece com alguns amigos revisitando os lugares referidos na entrevista. Todos os fotografados sorriam muito.

Um outro entrevistado, membro da Associação de Amigos do Ecomuseu do Fiermonde, em Montréal, começou a entrevista explicando como as coleções da referida instituição cultural foram formadas e estudadas. Em seguida, explicou qual a contribuição dos membros da associação de amigos no processo; que ações práticas tinham sido executadas. Na rememoração daquelas ações, ele foi desenvolvendo uma confissão sobre a sua característica de órfão, a caminhada em busca da família, comparando-a com os passos dados na pesquisa para a formação da coleção, e novamente a emoção tomou conta do entrevistado. A entrevista formal foi interrompida, desligou-se o gravador para dar lugar ao respeito de ouvir atentamente uma história de vida, que estava necessitando de um espaço para desabrochar. Quando foi possível, a pesquisadora retomou a entrevista, que se tornou mais rica de informações graças a um tipo de estimulação cerebral obtida pelas substâncias químicas secretadas no momento da grande emoção. O entrevistado se recordou de amigos que poderiam ter documentos e fotos dos primórdios do bairro onde o museu está situado, convidou a entrevistada a caminhar até a ponte próxima ao museu para, então, descrever o grande acidente da queda de parte da ponte, anos antes, e a participação de inúmeros cidadãos de Montréal na recuperação da mesma. Terminou a entrevista analisando que as pessoas daquela cidade eram muito solidárias, porém, não mais como antes, e aconselhou a entrevistada a fazer uma apresentação pública de todas as entrevistas e dos entrevistados porque, certamente, segundo as palavras dele, muitas pessoas seriam "salvas" do esquecimento, da solidão, e receberiam a oportunidade de recuperarem l'estime de soi (autoestima).

Já no exemplo brasileiro e baiano, vale destacar uma senhora de oitenta e dois anos, que exercia a função de auxiliar de limpeza no Museu da Cidade de Salvador. Ela solicitou para ser entrevistada, afirmando ter muita memória da cidade no passado. Oriunda de uma família com recursos financeiros limitados, aprendeu na escola pública a tocar piano com a professora de canto orfeônico e foi excelente aluna de história do Brasil. Escreveu textos para pequenas cenas de teatro histórico sobre o Brasil dos holandeses e alguma poesia. Porém, com as profundas transformações nos níveis social, político e econômico que marcaram a sociedade brasileira, sua família se viu reduzida ao desemprego por vários anos, tendo a mãe costureira e o pai músico da filarmônica local vivido grandes momentos de carência física, emocional e financeira. O Museu da Cidade de Salvador lhe abriu uma oportunidade de trabalho na categoria de auxiliar. Tempos depois, permitiu que ela colaborasse com o visual das exposições, criando bonecas de pano em forma de caricatura de personagens históricos e de gente do povo, expostas até os dias atuais. Nos anos 1980, ela foi reconhecida como personagem importante que impactou a visitação do Museu com seu trabalho e, seguramente, obteve uma elevação da autoestima e uma melhoria no estado geral de saúde, tal como comprovado por testemunhos de colegas e por exames médicos que ela guardou com zelo e carinho.

Esse fenômeno de récit de vie (narrativa de vida) ocorreu em todas as 50 entrevistas realizadas pela autora, registradas em áudio e através de fotos, com maior ou menor intensidade, até mesmo naquelas em que os entrevistados foram autoridades governamentais, ministros de Estado (a exemplo do ministro Francisco Weffort, no Brasil, e da ministra Louise Beaudoin, do Québec, ambos nos cargos no ano de 1998), secretários de cultura, diretores de museus.

Refletindo sobre o que ocorrera durante as entrevistas, analisando as respostas, perscrutando as nuances dos sons da fala e as palavras, revendo as expressões refletidas nas fotos, até mesmo tabulando as palavras repetidas e em que contexto foram ditas e de que forma, se afirmativamente, dubiamente ou em outros sentidos, não foi difícil confirmar a tese sobre o uso adequado da memória e seus efeitos na saúde cultural das pessoas.

 

SOBRE MEMÓRIAS, MUSEUS, PATRIMÔNIO E VIDA SAUDÁVEL

Entre os anos de 2007 e 2010, pesquisas realizadas com público de museus e também com a população nas ruas da cidade de Salvador, ambas com entrevistas aleatórias feitas por pesquisadores do Grupo de Estudos em Museologia, Museus e Monumentos, da Universidade Federal da Bahia, observou-se que ainda permanece no senso comum um distanciamento dos indivíduos em relação aos museus e monumentos da cidade.

No primeiro momento, quando perguntados se gostariam de participar de um programa de visita aos museus, os respondentes sorriram e fizeram piadas e jogos de palavras do tipo: "Eu hein, cara, quem gosta de museu é coroa!" Ou ainda: "Qual é, cara, tô morto ainda não!". Alguns mais discretos disseram que os museus são sempre tão iguais que basta visitar uma ou duas vezes na vida. Uma grande maioria disse que poderia ser interessante, mas que não havia tempo disponível. No entanto, quando se insistiu na possibilidade de assistir a um show de um cantor popular no museu, então surgiu a dúvida e depois a possibilidade de se encontrar tempo porque, afinal, disseram alguns, o museu vai estar sempre ali, mas o cantor pode ser só dessa vez. Ou seja, o cantor poderia mexer com os sentidos, a emoção, e o museu não mais após a primeira visita.

Pouco a pouco, algumas das perguntas da entrevista foram mexendo com a memória das pessoas entrevistadas sobre os lugares de onde vieram ou onde nasceram, sobre o bairro em que moravam, sobre o que era lembrado da infância. Alguns que disseram não ter tempo, nem para as respostas nem para a visita aos museus, começaram a querer falar um pouco mais e foram arranjando tempo para a conversa memorialista. Passar da conversa ao riso, depois à emoção mais profunda e depois aos agradecimentos pelo momento feliz e alegre que estavam tendo, segundo a opinião deles, foi uma constante. Raros foram os casos de gente aborrecida com os entrevistadores.

Essa ação, realizada com 450 entrevistados, tendo sido cinquenta em cada um dos cinco museus participantes e duzentos escolhidos aleatoriamente nas ruas da cidade de Salvador, provocou na equipe de pesquisadores uma reflexão sobre as carências humanas e sobre o que uma população realmente gostaria de ter na cidade em que vive. Certamente que conforto material faz parte do que se quer ter; entretanto, mais do que isso, é resgatar locais de convívio, espaços de troca afetiva e de conversa sem que haja uma pressão para respostas rápidas e comprobatórias de conhecimento adquirido. É nesse sentido que a Museologia pode exercer uma das suas grandes funções, que vem a ser a arte de promover o reencontro entre a memória e o esquecimento; e a museografia contemporânea contém em si a possibilidade de favorecer o questionamento, de contar estórias e a história a partir dos objetos que possuem funções sociais de relevância. Os objetos, bens de valor cultural de uma sociedade, quando tratados pela Museologia e no domínio do Patrimônio, possuem uma função mediadora entre a ação e o homem, como afirmou Barthes (1970). Indo mais além, pode-se admitir, como o fez Bourdieu (1972), que os objetos são construídos por pessoas e as pessoas são construídas, são formadas, pelos objetos. Isso porque há uma relação intrínseca entre o fazer, o saber e o saber fazer, que permanece integrada na memória enquanto for praticada e estimulada continuamente.

Conforme os estudos do médico Ivan Izquierdo, que dirigiu por mais de vinte anos o Centro de Memória do Departamento de Bioquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), "a memória é filha da prática, como provavelmente todas as funções que envolvem sinapses. Por exemplo, as sinapses neuromusculares de um atleta são mais rápidas, são melhores e mais eficientes e assim acontece com todas as sinapses" (Izquierdo, 1997-1998, p. 2). É ainda Izquierdo que diz:

A memória guarda emoções. Por exemplo, se neste momento cair o teto em nossas cabeças, ou algo do estilo, e sairmos correndo, nos lembraremos sempre desse episódio. A parte que é informacional ou cognitiva do episódio, ou seja, a visão do teto caindo, nossa corrida, etc. seguramente se registrará no hipocampo, na área entorrinal, etc. e a partir daí que ela será armazenada ou não. Seguramente ela será armazenada como uma memória declarativa. Agora, a parte emocional, o susto que isto nos daria, o terror que isto nos causaria (não necessariamente ligado ao teto que cai, mas ligado ao que aconteceu no momento) é armazenada pela amígdala e provavelmente pelo córtex corticomedial da área prefrontal no homem (Izquierdo, 1997-1998, p. 2).

Portanto, comprova-se que a memória, filha da prática, e a emoção, experiência sensitiva desencadeada por um estímulo, estão sempre caminhando juntas e a faculdade de lembrar está em relação direta com a estrutura social que motive, permita e promova esse ambiente de rememoração. E o ato de rememorar em condições adequadas, com ouvintes atentos e plenos de respeito pelo Outro, possibilita a formação de um vínculo de amizade e confiança entre os interlocutores.

Nesse sentido, quando uma cidade promove a preservação de seu patrimônio cultural (que na atual noção ampliada remete à inter e à transdisciplinaridade) em espaços dignificados por condições físicas e humanas, dispõe equipamentos urbanos e infraestrutura para que a população possa fazer uso desses espaços, estimula programas de gestão participativa e oferece instituições culturais onde a história e a memória possam dialogar com os cidadãos, essa cidade está permitindo que o ambiente urbano seja saudável e sua população também.

Por outro lado, se o patrimônio cultural de uma dada região se encontra degradado, permanece em ruínas e nada se faz para salvaguardá-lo em condições dignas; se os museus que ali se encontram não fazem um trabalho criativo e dinâmico, promovendo o diálogo sensível entre o público visitante e a totalidade das questões que emergem do cotidiano que ocorre na cidade contemporânea; então, a probabilidade de se estar construindo uma cidade saudável sobre o que restou do patrimônio e dos museus é quase nula. Porque o desenvolvimento de uma política de memória e de valorização dos ancestrais e das origens históricas e culturais de uma cidade está na raiz mesma da formação de cidadãos. Ninguém é totalmente Ser se for um desmemoriado e ninguém se torna cidadão se não aprender a conhecer o passado e usá-lo como ponte para construir, no presente, o futuro coletivo.

A partir da compreensão do valor da memória coletiva como instrumento de base para a salvaguarda e a preservação do patrimônio global, os museus e os lugares de memória urbana começam a ter um papel fundamental como contadores da história e das narrativas de vida nas cidades onde se encontram implantados. A partir desse instante, pode-se falar de uma Museologia urbana, cujas características são a ruptura com cânones clássicos, o engajamento responsável nas questões sociais e humanas, a pulsação emotiva e lúdica diante da variedade de público que chega ao museu proveniente de todos os bairros e portando identidades diversas (ou, às vezes, nenhuma identidade aparente ou consciente).

No entanto, não se pode negar a complexidade atual das cidades contemporâneas, que cada vez mais se parecem com megacidades do que com as metrópoles de final do século XIX e da primeira metade do século XX. Nem é possível esquecer que as cidades atuais têm um papel insubstituível em matéria de desenvolvimento econômico, político e social. Afinal, são elas os símbolos culturais mais marcantes das sociedades do século XXI, pelo fato de abrigarem empreendimentos os mais sofisticados em termos tecnológicos e de estarem em permanente e veloz mutação.

Como, então, falar de Museologia e de Patrimônio, noções que remetem a objetos e códigos culturais do passado, em cidades assim constituídas? É mesmo um paradoxo ou há caminhos que podem ser traçados entrelaçados?

Os caminhos potencialmente existem, todavia, para se tornarem viáveis e exequíveis precisam seguir o fio condutor da interdisciplinaridade, da visão holística e da transdisciplinaridade. Esses conceitos reforçam a ideia de que a ética pessoal, profissional e planetária é cada vez mais indispensável no trato das questões da cidade contemporânea, cidade essa que é entendida como a polis aristotélica, o espaço de convivência e o ágora das questões sociais, políticas, econômicas e culturais. Sem essa compreensão, corre-se o risco da perda absoluta do sentido dos lugares, do espírito das coisas e da humanidade dos seres.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os anos de pesquisa e de ensino nos cursos de Museologia, nível de graduação e mestrado, e em Mestrados e Doutorados em áreas afins e correlatas, têm tornado possível à autora delinear e firmar conceitos estruturantes, cujos fundamentos fortalecem a Museologia no seu trajeto de ciência em etapa de consolidação.

Um conceito de base é a definição de função dos museus. Museu não é uma instituição pública que eventualmente realiza pesquisa. Museu é uma instituição de pesquisa com caráter público, que se abre ao domínio público e procura difundir e ampliar o conhecimento cultural e científico de um mundo em transformação permanente. A Museologia tem no museu um excelente campo de atuação e de experimentação, pois o museu vem a ser um laboratório de alto nível para o estudo do homem criador e difusor da cultura e do patrimônio. E, além do museu, a Museologia encontra parceria nos patrimônios que se situam extra-muros da instituição cultural.

Admitindo e compreendendo essa característica fundamental da instituição museu, percebe-se que o poder público, em qualquer das três esferas, ainda está longe de reconhecer, admitir e investir nessa instituição, capaz de participar ativamente do processo de construção de cidades saudáveis. Em que pese nessa análise o reconhecimento da importância da criação do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), em 2010, o cenário nacional ainda é limitado quanto ao potencial de ação dos museus para o desenvolvimento qualitativo da sociedade.

A Museologia pode colaborar para que os museus estabeleçam vínculos entre o que o público diversificado sabe e o que os pesquisadores científicos, artistas, literatos, músicos, entre outros, estão produzindo. O Patrimônio Cultural, quando bem preservado, divulgado e tornado efetivamente conhecido e apreendido pela população, garante a adoção de, ao menos, duas atitudes pró-ativas:

a) conservação dos bens de valor cultural, em todos os níveis da tipologia patrimonial;

b) aquisição de saúde cultural pelos participantes envolvidos na tarefa de salvaguardar e preservar os bens culturais, os quais possibilitam a formação da identidade cultural e a elevação da autoestima e do compromisso engajador e solidário.

Dessa forma, é possível afirmar que os museus, os monumentos, as hermas, os bustos, os obeliscos, as esculturas, os totens, as fontes, entre outros marcos históricos, artísticos, científicos, enfim, culturais, serão pontes entre as gerações quando os profissionais que com eles trabalham procurarem resgatar a função primeira de cada bem, que é guardar na memória tudo aquilo que pode dar esperança e alento aos cidadãos de uma dada comunidade, região, nação. Função essa que remete à reflexão sobre o Templo das Musas, onde a história, a memória, a estética e a poesia caminhavam de mãos dadas, construindo a vida; onde os cidadãos eram seduzidos pela beleza, entusiasmados pela criação e estimulados a se tornarem criadores de sua própria história, pois, ao fazê-lo, estariam construindo a História e a Memória de seu país, de sua região, de sua comunidade.

 

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Autor para correspondência:
Heloisa Helena Fernandes Gonçalves da Costa
Rua Prof. Aristides Novis, 105, 1201-A
Federação. Salvador, BA, Brasil
CEP 40210-630
helocosta@uol.com.br

Recebido em 01/05/2011
Aprovado em 19/01/2012

 

 

1 Professora aposentada da Universidade Federal da Bahia, que atuou intensamente na Faculdade de Arquitetura e nos museus de Salvador, com projetos de formação e de conscientização sobre o patrimônio arquitetônico, histórico e cultural da Bahia.
2 Instituto di Psicologia Psicoanalitica, em Roma. Pesquisa realizada pelo presidente do Instituto, prof. Massimo Cicogna, e a profa. Stefania Rocchi. Massimo Cicogna, psicólogo e antropólogo italiano, explica que visitar museus faz bem à saúde integral dos visitantes. Segundo ele, os casais que convivem e apreciam o 'belo' têm uma cumplicidade erótica mais forte e até conseguem superar casos de depressão. O grupo de pesquisadores liderado por Cicogna até identificou a Síndrome de Rubens, que vem a ser uma série de impulsos sexuais que os visitantes sentem em face de determinadas obras de arte nos museus.