SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.7 issue2Agriculturas amazônicas: cultivando plantas, saberes, paisagens e ideias author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.7 no.2 Belém May/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222012000200001 

CARTA DO EDITOR

 

 

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de nível superior (CAPEs) está finalizando a atualização da base de dados WEBQUALIS, conforme a avaliação do triênio 2010-2012. Quatro comitês de áreas afins ao Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas já divulgaram suas respectivas listas de periódicos: Antropologia/Arqueologia, Ciências sociais Aplicadas, História e Letras/Linguística. Nos três primeiros, a revista foi classificada como A2, resultado que a coloca entre as mais bem avaliadas do país. O comitê de Letras/Linguística atribuiu ao Boletim o conceito B5.

Apesar de polêmica e questionável, como já comentei neste espaço em outras ocasiões, a avaliação da CAPES tem impacto direto na credibilidade dos periódicos entre os pesquisadores brasileiros, nas instituições que os publicam e nos programas de pós-graduação. Por isso, merece ser observada com atenção. Em nosso caso, a questão que se impõe é o contraste com a avaliação do triênio anterior (2007-2009), quando o melhor conceito da revista foi B2, atribuído pelos comitês interdisciplinar e de Ciência Política e relações internacionais. Antropologia/Arqueologia e Letras/Linguística, dois dos comitês focais, consideraram a revista como B5. Ciências sociais Aplicadas e História não a avaliaram.

Entre o triênio anterior e o atual, o Boletim amadureceu sua política editorial, buscou profissionalizar todas as etapas do trabalho e ampliou sua visibilidade por meio da indexação em duas importantes bases, o directory of open Access Journals (DOAJ) e a scientific Electronic Library online (SciELO), tornando-se atraente para um diversificado conjunto de autores. A nova avaliação da CAPEs parece corroborar todo o empenho e a dedicação do corpo editorial e do Conselho Científico, grupo que, unido em torno de um objetivo comum, conseguiu fortalecer o Boletim como espaço adequado para debates científicos (embora permaneça a dúvida sobre a avaliação de Letras/Linguística, de todo descolada dos próprios critérios estabelecidos pelo comitê). Entendemos ser esse o fator primeiro, o ponto inicial do desenvolvimento de uma revista, a finalidade última de sua existência: publicar bons artigos.

O número atual é revelador do movimento em torno da revista. Pode-se dizer que o Museu Goeldi teve um papel fundamental para a institucionalização da etnobiologia e da ecologia humana no Brasil e no mundo, bem como para os estudos relacionados à agricultura tradicional/local e à agrobiodiversidade. Nomes como darrell Posey, William Balée, Anthony Anderson e Walter neves, que tiveram destacada atuação no museu durante a década de 1980, remetem a uma geração de pesquisadores que abriu novos campos de trabalho e tornou mais complexa as abordagens sobre as relações entre humanos e o mundo natural, sobretudo quando grupos indígenas e 'comunidades tradicionais' são os objetos de estudo. Em 2008, publicamos um primeiro dossiê sobre o assunto, organizado por Cristina Adams (Universidade de São Paulo - USP) e rui sérgio sereni Murrieta (USP), com o objetivo de reacender esse tipo de debate na nova fase da revista. Quatro anos depois, Pascale de robert (Muséum national d'Histoire naturelle, frança) e Claudia López Garcés (Museu Paraense Emílio Goeldi - MPEG) conceberam um denso dossiê que certamente será referência para as discussões futuras sobre a agrobiodiversidade amazônica. Ele reúne sete artigos de 19 autores, sediados em instituições do Brasil, da frança, da Venezuela e da Colômbia, e se desdobra em textos da seção

Memória, que celebram o legado de darrell Posey, incluindo sua militância política em defesa dos direitos indígenas - hoje tão desrespeitados pelo governo brasileiro -, e a 'ressonância' da ciência antropológica na arte fotográfica de Patrick Pardini (Museu da Universidade federal do Pará). Por feliz coincidência, o leitmotiv das organizadoras do dossiê também extrapola para dois textos publicados na seção de Artigos Científicos, o de Helbert Medeiros Prado (USP) e colaboradores, sobre sustentabilidade e práticas de caça entre os Awá-Guajá, e o de isabel Maria Madaleno (instituto de investigação Científica tropical, Portugal), sobre a percepção que os ilhéus de tuvalu têm das mudanças climáticas e as relações que fazem entre sustentabilidade e morte. Os outros três artigos dessa seção abordam questões diferentes, mas igualmente pertinentes ao escopo editorial do Boletim: Líliam Barros (Universidade federal do Pará) analisa um repertório musical associado à cosmologia desana; André strauss (Max Planck institute for Evolutionary Anthropology, Alemanha) disserta sobre a aplicação de uma teoria da arqueologia processual na interpretação de práticas mortuárias; e felipe faria (Universidade federal de santa Catarina) estuda a mudança de paradigmas na ciência paleontológica durante o século XIX, reflexão rica que aproxima processos epistemológicos e história de vida.

Encerro esta Carta rendendo homenagens a quatro intelectuais que nos deixaram recentemente: o economista Armando dias Mendes (1924-2012), notabilizado por suas discussões sobre desenvolvimento sustentável, professor da Universidade federal do Pará, onde fundou o curso de Economia e, posteriormente, o núcleo de Altos Estudos Amazônicos, também com passagens pela política e pela administração pública; neil Whitehead (1956-2012), da Universidade de Wisconsin, colaborador desta revista, onde publicou um texto ("Commentary on the journal of Lourens Lourenszoon (1618-1625) and his stay among the Arocouros on the Lower Cassiporé river, Amapá (Brazil)", 2009) e uma resenha ("Arqueologia amazônica", 2011); Betty Meggers (1921-2012), da smithsonian institution, cuja trajetória profissional foi ligada à arqueologia amazônica, com profícua colaboração com o Museu Goeldi nas décadas de 1940-1970 (ver, por exemplo, os textos de Klaus Hilbert aqui publicados, o fundamental "Cave canem!: cuidado com os 'Pronapianos'! Em busca dos jovens da arqueologia brasileira", de 2007, e "Uma biografia de Peter Paul Hilbert: a história de quem partiu para ver a Amazônia", de 2009); e Gilberto Velho (1945-2012), professor do Museu nacional da Universidade federal do rio de Janeiro, com destacada atuação nos estudos de antropologia urbana. A eles dedicamos este número.

Boa leitura!

 

Nelson Sanjad
Editor Científico