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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.8 no.1 Belém Jan./Apr. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222013000100010 

ARTIGOS

 

O bairro Batista Campos e as dinâmicas do tempo na cidade de Belém, Brasil: memórias e paisagens arruinadas

 

Batista Campos district and time dynamics in Belém, Brazil: memoirs and ruined landscapes

 

 

Flávio Leonel Abreu da Silveira; Manoel Cláudio Mendes Gonçalves da Rocha

Universidade Federal do Pará. Belém, Pará, Brasil

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

O artigo propõe uma reflexão acerca das memórias de moradores do bairro Batista Campos, situado na cidade de Belém, Pará, de maneira a possibilitar, a partir de suas narrativas, a compreensão dos processos de transformação das paisagens urbanas com as quais possuem vínculos simbólico-afetivos. Em nossa análise, consideramos a emergência do fenômeno das ruínas e a dinâmica de práticas sociais que cercam os moradores do bairro. A pesquisa parte das relações dos interlocutores com as edificações antigas, que hoje constituem paisagens arruinadas, para compreender como estes sujeitos se conectam, por meio do ato criativo de rememorar, a uma Belém de outrora, a outras pessoas e a práticas sociais diversas.

Palavras-chave: Memória. Cidade. Paisagem. Ruína. Belém (PA).


ABSTRACT

The article considers a reflection about memoirs of Batista Campos district's residents, situated in Belém, State of Pará, Brazil, to enable, from their narratives, the comprehension of transformation processes of cityscapes with which they have symbolic and affective connections. In our analyses, we consider the emergence of the phenomenon of ruins and the dynamics of social practices surrounding neighborhood residents. The research is based on the relationships between interlocutors and old buildings that constitute ruined landscapes today, to understand how these individuals connect through a creative act of remembering to an old Belém, to other people and various social practices.

Keywords: Memory. City. Landscape. Ruin. Belém (PA).


 

 

INTRODUÇÃO

Este artigo consiste em uma reflexão a partir da antropologia urbana sobre os processos de mudança ocorridos nas paisagens do bairro Batista Campos, localizado na porção central da cidade de Belém, Pará. Para tanto, privilegiamos as narrativas de alguns habitantes do bairro, a fim de compreender tal dinâmica, mediante o esforço em rememorar as suas vivências no lugar, de modo a identificar como percebem, interpretam e vivem as modificações presenciadas ao longo do tempo, bem como as suas relações com a dinâmica das práticas sociais encenadas em tal meio (Certeau, 1994). As nossas interpretações acerca deste universo partem da experiência de convívio com a família Sampaio, antigos moradores do local, especialmente com o patriarca do grupo, Seu Carlos, que vive há 60 anos na mesma moradia.

O estudo propõe reflexões acerca do fenômeno de transformação das paisagens em alguns bairros de Belém, implicando o surgimento de ruínas de diversas construções antigas em locais como Campina, Cidade Velha, Comércio e Batista Campos, este último foco de nosso interesse. Em tais áreas do mundo urbano belemense, é possível encontrar quantidade notável de casas e prédios antigos que, ao que tudo indica, foram construídos nos extremos do século XIX e início do século XX, no período do apogeu da economia da borracha e sob os auspícios da Intendência de Antônio Lemos. Alguns destes passam por visível processo de arruinamento, conformando paisagens ruiniformes que evocam imagens de uma Belém de outrora. A própria casa da família Sampaio é uma destas edificações antigas que demonstra sinais de deterioração.

Alguém que se disponha a caminhar nas proximidades da travessa Padre Eutíquio, deambulando pelas ruas que envolvem o shopping center Pátio Belém e a Galeria Portuense, conjunto de lojas em frente ao shopping, irá deparar-se com um interessante emaranhado comercial, sendo possível perceber uma profusão de lojas de roupas e de calçados; de eletrodomésticos e de utensílios para o lar; produtos de informática; bares e restaurantes, sem esquecer, é claro, o 'vazio' nas calçadas, onde até fins de 2010, quando a Secretaria Municipal de Economia (SECON) passou a proibir o comércio informal naquele lugar, trabalhavam incontáveis vendedores ambulantes e camelôs.

Estas várias atividades são exercidas em um espaço dividido entre prédios novos e construções mais antigas. Algumas destas demonstram-se bem conservadas, fato evidenciado nas reformas e restaurações pelas quais passaram ao longo do tempo; outras, no entanto, demonstram o desgaste temporal na pintura das fachadas, nas estruturas e na vegetação que, aos poucos, vai tomando as paredes e os muros, conformando um paulatino processo de arruinamento.

Para compreender as modificações das paisagens urbanas em Batista Campos e a dinâmica de conformação de paisagens ruiniformes, bem como os processos de (re)construção das memórias sobre o lugar e a intensidade de suas práticas sociais, a pesquisa centrou-se na observação participante, associada ao registro fotográfico e à manutenção de um diário de campo, portanto, segue as orientações do método etnográfico voltado aos estudos do mundo urbano. A prática de caminhadas sistemáticas pelo bairro e visitas continuadas à casa da família Sampaio - nossos principais interlocutores na pesquisa -, quando foram realizadas entrevistas abertas com os residentes (registradas em diário de campo e com o auxílio de gravador digital, quando possível), foram táticas metodológicas necessárias ao exercício etnográfico1. Segue-se a proposta de experiência etnográfica na rua (Rocha e Eckert, 2003), quando o antropólogo busca compreender a dinâmica das interações cotidianas e representações sociais 'na' e 'da' cidade por meio de registros realizados durante caminhadas.

 

O BAIRRO BATISTA CAMPOS DE ONTEM E DE HOJE: NOTAS SOBRE AS TRANSFORMAÇÕES OCORRIDAS AO LONGO DO TEMPO

Os arrabaldes de Batista Campos conformam, hoje, espaços disputados entre o comércio e o surgimento de grandes edifícios, que denunciam a paulatina verticalização da cidade de Belém. O bairro é marcado pelo grande número de edifícios residenciais elevados (alguns deles com mais de dez pisos) e diversos estabelecimentos comerciais (o que inclui os mais variados gêneros: de lojas de roupas e de calçados a bares e restaurantes), destacando-se, inclusive, o shopping Pátio Belém, um dos principais da região metropolitana (Madaleno, 2002).

Quem deambular pelo bairro, a partir da avenida Padre Eutíquio em direção à praça Batista Campos, em cujas proximidades encontra-se o colégio Santa Rosa, fundado há oitenta anos pela Congregação das Filhas de Sant'Ana e um dos mais tradicionais da cidade, se alcançar a avenida Serzedelo Corrêa, encontrará um conjunto de cemitérios de grande importância na história da cidade, como o de Nossa Senhora da Soledade, o Israelita (considerado o primeiro cemitério judeu construído no Brasil, inaugurado em 1842) e o dos Ingleses (Beltrão, 2000)2.

Fundado em 1850, sob propriedade concedida à Santa Casa de Misericórdia, o Cemitério de Nossa Senhora da Soledade assume destaque em meio às paisagens da cidade de Belém. De acordo com Barata (1963 apud Barata, 2011), "isolado pelas quatro faces, o 'Soledade', incluindo pequenos campos santos de Ordens Terceiras, é área urbanisticamente significativa, na capital paraense", realçando, de forma singular, o cenário formado pelas construções que o envolvem, com suas pedras e pilares oitocentistas e os suntuosos gradis ingleses.

A necrópole deste cemitério assume ares de espaço arruinado e se mostra imersa em uma mística que alude à estética de decaimento e de reconfiguração das formas arquitetônicas dos construtos. Liga-se à dimensão sacral do lugar, ao 'velho campo santo' onde jazem alguns 'distintos' e meros desconhecidos. Ali, as forças da natureza, ao imiscuírem-se à concretude das formas, conferem novas feições e sentidos diversos ao caracterizá-las como ruínas, uma paisagem ruiniforme evocadora das vicissitudes e tensões entre temporalidades distintas. Como espaço da morte, o 'Soledade' vivifica as afetividades e as memórias dos sujeitos que o praticam como meio para rememorar os mortos, cultuando-o como terreno santo3.

O cemitério tem 'ressonâncias' patrimoniais no contexto da urbe paraense, tendo sido tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) nos idos de 1964, período no qual estava ameaçado de ser destruído para, em seu lugar, serem construídos, 'em nome do progresso', alguns edifícios residenciais (Barata, 1963 apud Barata, 2011).

A uma quadra de distância do Cemitério da Soledade, é possível encontrar a elegante e charmosa praça Batista Campos. A sua beleza remonta ao início do século XX, mais precisamente ao ano de 1900, quando o então intendente Antônio Lemos decidiu transformar em bosque o que outrora era apenas um 'ajardinamento', que seguia pela antiga travessa São Mateus, hoje Padre Eutíquio (Rocque, 1996). Segundo Rocque (1996, p. 455), "o plano escolhido era o de um grande parque com árvores plantadas em linhas convergentes, qualquer que fosse o ponto de onde se olhasse".

Por volta de um século atrás, a praça Batista Campos configurava-se como um cenário citadino de caráter romântico, evidenciando certo bucolismo edênico em pleno fausto. Os 'quadros' de uma natureza urbanizada se delineiam nas palavras do próprio intendente Lemos:

(...) regatos serpeiam por entre tufos de verdura, onde flores coloridas e perfumosas desabrocham ao vivificante sol equatorial; cascatas, onde a água límpida saltita sonoramente, surgem debaixo aspectos deliciosos; aqui um canteiro originalmente talhado, ali uma pequena ponte, adiante uma cabana. E tudo forma um conjunto agradável, que prende durante horas o visitante, encantado nesse ambiente, que a arte vai transformando num recanto verdadeiramente sedutor (Lemos apud Rocque, 1996, p. 456).

Um século se passou desde que Antonio Lemos deixou à cidade de Belém suas "formosíssimas praças (...) encanto de seus visitantes, refrigério de quem as busca, mesmo às horas mais cálidas do dia" (Belém, 1906, p. 194). Passados cerca de cem anos, e mesmo diante de certa hipertrofia do espaço urbano, a praça Batista Campos mantém-se formosa, verdadeiro 'refrigério' no calor equatorial, como nos tempos do intendente.

 

UM OLHAR PANORÂMICO4 SOBRE AS PAISAGENS DO BAIRRO BATISTA CAMPOS

O simples fato de pensar em descrever os contornos de Batista Campos nos faz reconstruir uma série de imagens que conformam o sentido de 'paisagem' que concebemos a respeito do bairro: imensas mangueiras, formando admiráveis corredores arbóreos ao longo das ruas Padre Eutíquio, Conselheiro Furtado e Gentil Bittencourt, entre outras5; o cemitério da Soledade, cuja presença no bairro ancora a dimensão fantástica das memórias que lhe cercam; e a bela praça Batista Campos, com seus calçadões ataviados com traços marajoaras em mosaico português, onde pessoas de todas as idades fazem exercícios físicos, corridas e caminhadas em cenário formado por lagos, pontes e coretos; o verde vivo das árvores e a magnitude canora dos pássaros. Na praça, existem várias bancas de venda de água de coco junto às ruas que a contornam, a dos Tamoios e a Mundurucus, principalmente, espaços de sociabilidade nos quais as pessoas saciam a sede enquanto desfrutam o lugar.

Não se trata aqui de ressaltar impressões exclusivas, um olhar particular dos autores deste artigo. Pelo contrário, buscamos uma aproximação à poiesis social, que concebe as paisagens nas suas formas e expressões de sociabilidades tão próprias aos "espaços de celebração" (Maffesoli, 1994) configuradores de paisagens sensíveis, construídas e compartilhadas por aqueles que as vivenciam cotidianamente em Batista Campos.

Paisagens desta ordem revelam imagens que compõem uma dinâmica complexa no mundo urbano, indo, por certo, além do que poderia ser uma coleção de "cartões postais" para o deleite do "olhar do turista", lembrando Urry (1996), o que não diminui a sua potência imagética, como espaço de contemplação. Elas são vividas e praticadas por pessoas diversas, enquanto lugares onde habitués e figuras em trânsito convivem, revelando a dinâmica das práticas sociais e das transformações no mundo urbano contemporâneo, tendo em vista que "a cidade é sempre uma paisagem aberta e em devir, porque experienciada na tensão entre a vontade de permanência e o desejo de mudança próprios dos anseios, conflitos e necessidades de sua população no ato mesmo de vivê-la" (Silveira, 2008, p. 110).

Em meio a um bairro que revela seu encanto pela poética de suas paisagens e do 'saber-viver' que nelas vibram, há não apenas beleza e um quê de fantástico, mas também trabalho movendo economias, produção de sentidos e de coisas, engendrando um 'formismo' contínuo que coopera para as transformações do lugar. E, por certo, nele existe a violência como possibilidade de 'sociação'6. A "cultura do medo" se entranha na vida vivida e grassa espaço nas mentes, definindo zonas de perigo e territórios a serem preservados com suas grades e filmadoras (Eckert, 2002). Talvez este seja um dos motivos pelo qual alguns almejam gradativamente as alturas em cada novo arranha-céu que se constrói, verticalizando a cidade, que paulatinamente perde cenários de seu horizonte de outrora. Crescendo em economia, a cidade se expande, não apenas aquela que segue as 'regras' de uma economia capitalista, formal e padronizada, mas também aquela de vetor caótico, que segue os caminhos tortuosos da informalidade, da 'gambiarra' e da pirataria, de uma "economia bandida" (Napoleoni, 2010).

O assombro diante da criminalidade, um medo que se faz constante não apenas nas 'baixadas', mas que percorre as ruas do 'centro' sem distinção; uma Belém que se apresenta nova a cada dia divide espaço com aquela que vive nas lembranças dos que nela moram há mais tempo. As paisagens que conformam o bairro Batista Campos estão, portanto, para além das experiências e impressões atuais e individuais, tendo em vista que resultam da dinâmica que há entre o que é vivido e o que perdura nas memórias dos coletivos que vivem e praticam aquele arrabalde.

 

OS PRÉDIOS ANTIGOS DA RUA VEIGA CABRAL

Um bairro como Batista Campos, complexo em sua dinâmica e envolto em uma poética que adere aos seus espaços públicos, se configura como expressão e meio de viver mediante as tensões entre o que é dado como coevo em experiência vivida e o que se faz presente no exercício de rememorar através das experiências de seus habitantes. Neste estudo, aspectos de tais memórias foram acessados por meio da pesquisa etnográfica, mais especificamente no convívio com a família Sampaio. Nota-se que nas proximidades do shopping Pátio Belém há um conjunto de casas antigas - algumas arruinadas, outras bem conservadas. Ao longo das deambulações etnográficas, encontramos um contíguo de quatro casarões semelhantes, entre os quais está a casa onde vive o grupo familiar.

É preciso destacar que as quatro edificações compartilham semelhanças em suas estruturas e fachadas. Segundo Seu Carlos, os prédios foram construídos à mesma época, mas em data incerta, seguindo a mesma planta, de modo que foram construídos apenas dois forros para as quatro estruturas, sendo que cada um era dividido por um par de casas. Os forros só foram separados definitivamente há pouco mais de cinco anos, devido a mudança dos donos das propriedades.

Seu Carlos sempre morou na rua Veiga Cabral, inclusive nasceu em um dos quartos da casa em que mora há pouco mais de 60 anos. Ele não sabe precisar em números o período exato, mas conta que seus pais e irmãos já viviam ali anos antes de seu nascimento, sendo ele o filho caçula de uma progênie de quatorze filhos. O senhor acredita, porém sem muita certeza, que seu pai veio morar na residência entre os anos de 1928 e 1930. Junto com Seu Carlos vivem a sua esposa, Dona Janira, seus dois filhos, Carlinhos e Camila, além de alguns familiares vindos de cidades do interior paraense, que, de tempos em tempos, ali se hospedam durante o período em que permanecem na cidade.

A experiência da família Sampaio é um exemplo interessante daquilo que, no âmbito do projeto de pesquisa "Paisagens culturais, memória coletiva e trajetórias sociais: estudo antropológico de fronteiras culturais no mundo urbano contemporâneo na cidade de Belém-Pará"7, tem-se percebido, desde o ano de 2006, como um fenômeno importante da dinâmica urbana belemense: a mobilidade de pessoas provenientes de outras partes do estado nos diversos espaços e bairros da metrópole. Desta forma, encontram-se elementos importantes para pensarmos as fronteiras culturais no mundo urbano na porção norte do país.

Sendo os parentes da família, em sua maioria, provenientes de cidades localizadas na ilha do Marajó, como Ponta de Pedras, Cachoeira do Arari, Soure, Salvaterra, entre outras, quando circulam/permanecem/co-habitam com a família Sampaio, além de nutrirem o mundo urbano com experiências e imaginários diversos, indicam fronteiras na pertença às paisagens paraenses, ao mesmo tempo em que participam da vida metropolitana, enriquecendo as suas características multiculturais de caráter amazônida. O exemplo da sobrinha do casal, Carol (de Cachoeira do Arari), que está passando um período na capital para estudar, é elucidativo, pois cursa o ensino médio e se prepara para prestar os exames de vestibular. Além dela, os sobrinhos Gleissom, Igor e Jemine (oriundos da cidade de Ponta de Pedras) moraram em certa ocasião na casa da família Sampaio e, atualmente, tendo residência fixa em Belém, visitam com frequência a morada dos tios.

Além dos próprios moradores, a casa é frequentada por pessoas que trabalham nas suas proximidades - no shopping, nos estabelecimentos comerciais, entre outros -, tendo em vista que a família mantém uma venda de refeições e de lanches, bem como um estacionamento de bicicletas no porão do prédio. Há, ainda, os amigos que seguidamente visitam a casa, desfrutando da agradável e receptiva companhia da família. Diante das diversas atividades exercidas no lugar, não é de surpreender que a casa dos Sampaio tenha um fluxo intenso de pessoas e, por conseguinte, uma série de manifestações de sociabilidade no âmbito doméstico.

Quanto ao aspecto físico do casarão, é possível perceber que demonstra algumas características de arruinamento: a fachada envelhecida e a pintura desgastada, com limo e vegetação crescente no concreto; no interior da casa, as falhas nas madeiras do forro, bem como os 'remendos' de argamassa e de cimento nas paredes cor de rosa, quase salmão, que vêm perdendo o tom, desbotando e descolorindo pela ação corrosiva do tempo. O seu trabalho moroso faz descascar os paredões, que acabam revelando cores distintas, pinturas outras de décadas passadas, as quais se misturam confusas ao verde musgo das marcas de infiltração. Sob as camadas de tinta não repousam apenas cores que ficaram do passado, mas também lembranças de outrora, evidenciando temporalidades que evocam as imagens de diversas pessoas, de parentes e de amigos. Memórias que se fazem vivas a partir das narrativas de Seu Carlos e de Dona Janira.

A respeito das histórias contadas, é interessante frisar aquelas de caráter fantástico, envolvendo as 'visagens' que assombram a velha casa. Seu Carlos fala que nunca viu nada de extraordinário e comenta, rindo, que não tem medo 'dessas coisas'. Dona Janira, por sua vez, já ouviu 'coisas', como vozes e passos nas ambiências da morada. Um dos irmãos da senhora enxergava 'neguinhos' andando pela casa, saindo de trás da geladeira e pulando sobre ele, na rede onde dormia; o mais interessante é que alguns dos moradores já viram ou ouviram os parentes mais antigos que faleceram.

As lembranças familiares tomam corpo a partir do trabalho da memória (Bosi, 1994), do ato de rememorar os seus integrantes, materializando-se nas histórias contadas acerca do que se viveu outrora, à luz do que é vivido no presente. Por outro lado, em cada experiência sensível com o sobrenatural - com aqueles que já não pertencem mais ao mundo dos vivos -, a memória do lugar pulsa como dimensão das paisagens fantásticas que animam a sua aura de morada antiga, tornando mais profundos e sutis os laços pessoais dos moradores com sua casa, por meio das lembranças que repousam sutilmente em cada recinto: na madeira da mobília, das portas e das janelas, do piso daquele antigo casarão; no cimento e no concreto das paredes envelhecidas (Rocha, 2011).

Sobre estas experiências com parentes próximos falecidos, Carlinhos, o filho mais velho do casal, narrou certa vez a respeito de algo que havia lhe ocorrido. Ele passou um ano e meio no Rio de Janeiro, entre 2009 e 2010, período no qual sua tia, Dona Linda, veio a falecer (irmã de seu pai e que também nascera na velha casa). Após retornar a Belém, a ausência da senhora foi uma das impressões que marcou seus primeiros meses de volta ao lar. Em uma tarde, estando deitado na cama de seu quarto, sob a luz da janela aberta para o longo corredor que cruza a casa, Carlinhos se encontrava mergulhado em uma fluidez mista de sonolência e devaneio, aquela que precede o sono profundo, e, quando menos esperava, sentiu o leve toque de uma mão percorrendo seus cabelos e a fronte, um carinho familiar que o despertara tantas outras vezes. Súbito, abriu os olhos procurando em torno sem nada encontrar. Então se deu conta de que gesto tão singular só poderia ter vindo de uma pessoa: a tia falecida.

Até mesmo Seu Carlos, que afirma nunca ter visto 'nada de mais' e que não tem medo 'dessas coisas', possui algumas histórias para contar:

Eu não, nunca tive medo de nada, eu nunca vi. Eu vi uma vez que eu dormi aqui, a minha mãe veio, veio na beira da minha, da minha rede. Aí, tentei falar com ela, ela sumiu (...). Outro dia eu tava aqui, eu tava deitado aí, a gente tava acordado, já era tarde. Aí, eu senti parece que passou um vulto assim, e senti as pisada assim [Seu Carlos bateu o pé no chão com força, simulando os ruídos que havia escutado], aí eu me dei um pulo na cama, vim, vim, até lá no fim, olhar. Vi nada. Ela [referindo-se a Dona Janira] sentiu também. Às vezes, é um aviso. Mas era igual a uma pessoa.

A morada é vivida, portanto, em sua atualidade e em sua virtualidade, na medida em que aproxima o que está para além do mundo dos vivos à concretude da vida terrena, conciliando lembranças de entes queridos com elementos fantasmagóricos, materializando-se nas 'visagens', constituindo 'paisagens fantásticas' que evocam a força dos "jogos da memória" (Eckert e Rocha, 2000) no âmbito doméstico. Ao contar sobre aqueles que 'voltam da outra vida', tais narrativas fazem com que o futuro, o presente e o passado sejam tocados, nutrindo as afetividades e (re)criando vínculos que conectam a família a seus antepassados, bem como (re)ligando-os com mais força e vivacidade à própria casa como lugar do vivido e como locus de projetos familiares. Nas considerações de Bachelard (1978, p. 201):

(...) a casa é um dos maiores poderes de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem. Nessa integração, o princípio que faz a ligação é o devaneio. O passado, o presente e o futuro dão à casa dinamismos diferentes, dinamismos que frequentemente intervêm, às vezes se opondo, às vezes estimulando-se um ao outro (...). Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida. Ela é corpo e alma.

 

AS TRANSFORMAÇÕES NAS PAISAGENS DO BAIRRO BATISTA CAMPOS: AS NARRATIVAS DE SEU CARLOS

Anteriormente, esboçamos um rápido apanhado a respeito das modificações ocorridas no bairro Batista Campos no decorrer do tempo de uma cidade amazônica como Belém. Urbe identificada com um projeto de expressão civilizacional no trópico úmido, com certos ideais de nação. Contudo, o que interessa a este artigo é refletir sobre como tais mudanças são compreendidas pelos agentes sociais, que, mediante perspectivas diversas, vivencia(ra)m ao longo de suas vidas tais transformações.

A partir daí, as memórias presentes nas narrativas de Seu Carlos sobre sua própria trajetória social e suas experiências de vida na cidade de Belém nos auxiliam a compreender aspectos da dinâmica de mudanças nas paisagens presentes no mundo urbano local. Tendo por base não apenas a 'história oficial' ou, ainda, aquela presente nos registros e documentos oficiais, buscamos o caráter micro e episódico, porque narrados pelas pessoas que viveram as dimensões cotidianas desta história.

Durante as conversas sobre o bairro Batista Campos e, de modo geral, sobre a cidade de Belém, não era raro ouvir Seu Carlos dizer frases do tipo: "Ah, isso aqui mudou muito (...). Ah, antes era muito diferente", sinalizando que iniciaria uma narrativa sobre o lugar e as pessoas que ali vivem ou viveram. O senhor, que morou no local a sua vida toda, salvo alguns poucos anos em que permaneceu em Manaus, falou a respeito de antigos moradores do bairro, alguns que viveram naquela vizinhança mais tempo que ele, tecendo uma rede de moradores de longa data.

Algumas dessas pessoas são figuras de destaque na vizinhança pelo tempo que moram ali, pelas pessoas que conheceram/conhecem ou pela atividade que exercem. Uma delas é uma senhora conhecida na vizinhança como Sarita, bastante idosa, que mora na esquina da rua Veiga Cabral com a rua São Francisco. Ela tem em sua casa uma espécie de depósito de venda de bebidas (refrigerantes, cerveja, entre outras).

Retomando as narrativas de Seu Carlos sobre os moradores mais antigos da vizinhança, ele apresentou algumas personagens do bairro, ao mesmo tempo em que indicou uma geografia do poder e a rede de relações sociais, como segue:

Não tem o conjunto na, na Arcipreste, que é antes de chegar na São Francisco? (...) Lá era, era, era... lá, ali morava o Pirão, já ouviste falar do Pirão? O Pirão era um cara aí, ele era da Justiça

do Trabalho, ele era muito, muito, o pessoal respeitava muito ele (...).

E do lado pra lá, onde é hoje a Yamada, era uma fábrica de castanha. Eles beneficiavam castanha (...). E esse pessoal que era dono da fábrica de castanha, eles moravam lá na, na São Francisco, moravam bem defronte do Quartel General (...).

Bem aqui onde tem essa, essa, não tem essas casas, igual daí defronte do lado da Visão? Aí era uma horta, a horta do Seu Caetano, isso aí tu pode butá aí, era a horta do Seu Caetano (...).

O 'Paysandu' já morava aí, ele morava do lado de lá, tu sabe quem é o 'Paysandu'? O 'Paysandu' morava aí na esquina, morou aí na esquina, era o 'Paysandu' (...), mas ele não tá mais morando aí, ele sempre que vem aí dá... Tu já viste um cara que dá pão pro pessoal ali na esquina? Ele dava pão pro pessoal, sempre ele ta aí de manhã (...); ele é mais antigo do que eu.

Entre as histórias que Seu Carlos narrou, destacamos as mudanças pelas quais a vizinhança já havia passado e que ele havia visto ao longo dos sessenta anos que mora no local. Falou a respeito da enorme horta que existia na rua São Francisco, em frente à casa de Sarita, e que deu lugar a um super center8. Segundo ele, quem olha hoje para esta rua, ao ver edifícios, um super center, uma série de pequenas lojas, dois cursos pré-vestibulares, papelarias, lavanderias, entre outros estabelecimentos - o que resulta em um grande contingente de pessoas indo e vindo na área -, nem pensaria que a rua "era só mato", sem asfalto, onde moravam pouquíssimas pessoas. De acordo com Seu Carlos:

Era cheio de mato lá. E no Nazaré era uma horta. (...) Ali naquele pedaço que tem do churrasco9até na, na São Francisco, tinha, tinha mato assim pelas beira. E só tinha um caminho pra passar, pra passar só a roda do carro. Aí ficava aquele mato no meio. Égua! Era muito, muito...! E do lado daqui era só o capinzal, que tu olhava daqui, tu sabe onde é aquele edifício Tancredo Neves10? Se não me engano na, bem na esquina da... Ali tinha o colégio Paramazonas e dava o fundo dele, o fundo dele era um, tinha mato, que tu passava aqui, passava aqui na São Francisco, aí tu via os fundo dele lá, era só mato. E do lado tinha a horta, onde é o Nazaré. E essa rua era só mato, uma rua muito feia, muito mato, muito mato, e desse lado daqui onde tem a Visão, era um, também era um capinzal. Égua! Era muito feio isso aí. Aí depois da época de já de setenta que começaram a melhorar. Época de setenta que começô já o desenvolvimento. Ali na, ali na São Francisco, nessa área aqui da São Francisco com a Tamandaré, ali, ali próximo do Impacto, ali enchia tudinho, que ficava as água entrava nas casa, a água ficava quase meio metro só de água, a água da maré, ela entrava.

O 'desenvolvimento' mencionado por Seu Carlos ocorreu ao longo da década de 1970, envolvendo uma série de políticas públicas que abarcavam melhorias na habitação e no saneamento básico da cidade de Belém. No que diz respeito aos contornos do bairro Batista Campos, entre as principais mudanças, destacavam-se a verticalização paulatina e a construção do canal da avenida Almirante Tamandaré:

(...) a verticalização tornou-se, à medida que as soluções arquitectônicas o iam permitindo, na solução preferida pela classe média. Bairros como Batista Campos, Nazaré, e Umarizal foram "parcialmente reconstruídos" a partir da década de 70 (...). No caso da Batista Campos (...), o processo de adensamento registou-se a partir de 1967, ano em que se concluíram os trabalhos de construção do canal do Tamandaré, obra de drenagem notável que inclui um sistema de galerias de águas pluviais, 5 pontes, baterias de comportas automáticas e avenidas marginais ao canal com mais de 1 km de extensão (Madaleno, 2002, p. 89-90).

Outra grande modificação nas paisagens do bairro foi a inauguração do shopping Iguatemi, que, atualmente, se chama Pátio Belém. Foi construído há mais de quinze anos, transformando o lugar, que antes era apenas uma vizinhança de clima bastante familiar, em um movimentado centro comercial, atraindo diversos estabelecimentos dos mais variados gêneros comerciais e, junto com eles, outras pessoas que engendraram novas relações e práticas sociais naqueles espaços e com as que ali residiam e/ou trabalhavam. Como mencionado anteriormente, as cercanias de Batista Campos se encontram, portanto, entre disputas ligadas à avidez do impulso imobiliário e ao crescimento comercial do bairro.

Esta profusão de práticas sociais provocadas pelo desenvolvimento comercial está diretamente ligada às atividades exercidas pelas pessoas que ali vivem e/ou trabalham. A moradia da família Sampaio é um exemplo disso, tanto pela venda de refeições e lanches, como pelo aluguel do porão, utilizado como estacionamento de bicicletas aos trabalhadores das redondezas. Seu Carlos e Dona Janira deram os primeiros passos nesse pequeno negócio há pouco mais de dezoito anos, mesma época em que a filha caçula do casal nasceu: Dona Janira, 'cozinheira de mão cheia', preparava deliciosos pratos que atraíam principalmente pessoas que trabalhavam nas proximidades; enquanto isso, Seu Carlos servia os clientes ali mesmo na sala de estar da casa, devidamente ambientada para receber a clientela; além, é claro, do auxílio dado pelos familiares que se hospedavam na casa.

Durante algum período, o casal forneceu 'quentinhas' para uma padaria que funcionava na travessa Presidente Pernambuco, serviço que acrescentava uma quantia considerável à sua renda, ajudando a manter a família, criar os filhos e enfrentar as dificuldades da época, pois, segundo o senhor contou, o início da década de 1990 foi marcado por dificuldades financeiras, mencionando principalmente o período em que o país passou pelas transições monetárias entre Cruzeiro, Cruzado e Real.

Nesse sentido, é importante ressaltar que o "projeto" (Velho, 1994) que cada citadino delineia como forma de orientar, até certo ponto, as suas experiências na urbe diz respeito às escolhas individuais que são tomadas diante de sua agência, mas que levam em conta as exigências que a complexidade da vida na cidade apresenta aos sujeitos como opção. No caso de Seu Carlos, formado em Engenharia Agronômica, nesta mesma época, teve a oportunidade, oferecida por um amigo próximo, de lecionar em uma universidade particular, no entanto, optou por dar continuidade às atividades comerciais que já exercia, pois garantiam melhores condições financeiras ao sustento de sua família.

Há cinco anos, contudo, o casal resolveu diminuir o ritmo de trabalho, reduzindo as vendas e evitando, assim, um desgaste excessivo, uma vez que ambos passaram por problemas de saúde. Desse modo, limitaram o negócio apenas à venda de lanches, deixando de lado a venda de refeições, pois implicava um dispêndio maior por parte deles.

O estacionamento de bicicletas que funciona no porão atendia outrora, como informou o senhor, muitos dos funcionários que trabalham no shopping e nas lojas vizinhas. Contudo, atualmente, ele atende a poucas pessoas, na verdade, apenas aquelas mais próximas e que são consideradas 'de confiança' da família. Isto ocorre porque, anteriormente, alguns clientes acusaram o sumiço de suas bicicletas. A família se responsabilizou pelas perdas, ressarcindo aqueles que haviam sido lesados. A partir de então, Seu Carlos resolveu suspender a atividade, prestando o serviço apenas aos clientes conhecidos da família.

O lar da família Sampaio é o lugar onde pairam lembranças que envolvem a vida de seus atuais moradores e antepassados, mas também de suas experiências em uma cidade que se modifica ao longo do tempo. A casa guarda memórias que são ativadas constantemente, seja por intermédio das histórias contadas pelas pessoas que ali vivem; nos antepassados que já não estão mais entre os vivos, mas que em determinados momentos 'reaparecem' e continuam 'morando' no lugar; nas sociabilidades encerradas no vai-e-vem de bicicletas, da clientela e de parentes oriundos do Marajó; nos momentos sociáveis na cozinha, em que os mais velhos e os mais novos interagem por meio do rememorar junto, ou mesmo na fisionomia de ruína que o lugar assume, evocando imagens de outrora, suscitando lembranças e esquecimentos.

 

AS PAISAGENS DE RUÍNAS NO MUNDO URBANO BELEMENSE

Quando ouvimos falar em ruínas é comum pensarmos em uma paisagem acabada ou mortificada pela ação constante das intempéries. Tratar-se-ia de um conjunto disforme a revelar algo esquecido ou perdido nas brumas de tempos idos e que, por isso, traz assombro à experiência urbana moderna, por indicar a presença do decaído em meio à constante procura pelo novo arquitetônico. O discurso urbanístico, que preza a higienização e estetização dos espaços da cidade, ou mesmo a sua espetacularização, busca, por vezes, dar fim à ruína, pois vê no seu corpo o signo da degradação do "desenho urbano", resolvendo o "problema" através da intervenção do Estado, por meio da "política do restauro à revelia das artes de viver o lugar" (Eckert, 2009, p. 92-93).

Partimos do conceito simmeliano de 'ruína', que a compreende como "fundadora de imaginários e motivações emocionais" (Simmel, 1998). Logo, compreende-se que o fenômeno da ruína está longe de compor um julgamento escatológico que indique serem as forças da natureza aquelas que sentenciam o fim da intenção humana imbricada às paisagens. As experiências dos interlocutores com as ruínas demonstram como estes espaços são possuidores de sentidos diversos, porque conformam uma dinâmica de práticas cotidianas que não findam com o arruinamento, sendo ressignificadas pelos que as praticam ou que com elas interagem.

Para refletir sobre o fenômeno estético da ruína, Simmel (1998) toma como ponto de partida a arquitetura, impulso artístico por meio do qual o espírito humano submete as formas da natureza à verticalidade de construtos e edificações. A natureza, subordinada contra a sua vontade ao fazer humano, e condicionada à coerência racionalizada da forma inerente ao construto, revela que a 'vitória' do homem é, na verdade, a violação de um equilíbrio entre ela e o espírito humano. Para restituir tal equilíbrio, a natureza busca formas de reivindicar a obra humana, incorporando-lhe novos elementos e conformando sentidos outros ao lugar (Simmel, 1998).

Portanto, na medida em que o lugar é reivindicado pelas imposições de uma natureza ativa em seus processos, o construto passa a assumir nova fisionomia - um misto de ação criativa dos naturais sobre as obras provenientes do gênio humano - e também outros arranjos simbólico-afetivos, resultando na sobreposição de imagens e de memórias referentes às paisagens que emergem do dinamismo tensional entre temporalidades.

As paisagens de ruínas, distintas em sentidos do que antes compunha o lugar, fazem emergir imagens outras, redimensionando as memórias evocadas, a noção de lugar e o sentimento de pertença daqueles que praticam tais espaços. A experiência de paisagem que Seu Carlos revela em suas narrativas - entre as quais estão presentes as imagens do viver a cidade, bem como as do casarão antigo em que reside com sua família - demonstra como o senhor se conecta, por meio do ato criativo de rememorar uma Belém de outrora, de outras pessoas, a práticas sociais diversas, evocando a potência subterrânea das imagens dos espaços arruinados e aquelas relativas às paisagens fantásticas, sejam elas ligadas às memórias dos moradores que neles vivem ou à presença fantasmal dos antigos moradores que se foram, mas que circulam entre os vivos.

Com o passar do tempo, a casa onde Seu Carlos reside com a família segue configurando-se como paisagem de ruína, não apenas pela voracidade remodeladora da natureza, mas também pela experiência sensível da memória: o ato criativo de rememorar reconstitui não apenas temporalidades outras, como também desloca imagens de um passado vivido à atualidade, conformando sobreposições, bem como rupturas e rearranjos, reativando sensibilidades e afetividades que engendram a experiência do real. A ruína é a localidade do espaço onde o tempo elabora a sua ação: a fachada da casa envelhecida pelo tempo; as camadas de tinta sobrepostas nas paredes; o piso talhado em madeira de lei; a poeira da mobília antiga; as 'aparições' de pessoas que já não estão mais entre os vivos são alguns dos elementos, entre outros, que fazem parte da constelação de imagens que compõem a efígie da "casa onírica"11 (Bachelard, 1978) compartilhada pela família Sampaio. O "devaneio" (Bachelard, 1978), que envolve a fisionomia atual da casa e as memórias evocadas por meio das histórias contadas por seus moradores, aprofunda os laços de pertencimento que estas pessoas tece(ra)m junto à casa ao longo do tempo.

Cada recinto ou canto da morada guarda uma singularidade de memórias, na medida em que tais espaços foram e continuam sendo o palco onde se encenaram/encenam os jogos e as brincadeiras da infância; as manifestações de formas de sociabilidade diversas; os conflitos familiares; os encontros com o que habita o universo sensível: sejam as 'visagens' desconhecidas ou os parentes que retornam de um plano 'sobrenatural' e caminham na 'realidade' dos vivos; os animais criados no quintal, onde também são cultivadas frutas12; bem como as atividades comerciais exercidas na casa, que garantem o sustento econômico da família. A casa é prenhe de memórias do lugar que a ruína (re)situa no contemporâneo, denunciando o perecimento das coisas e a finitude do ser.

As memórias relativas a estes espaços reúnem experiências diversas ou, ainda, diferentes maneiras pelas quais as gerações que habita(ra)m a casa praticaram/praticam o lugar. Se relacionarmos a infância do patriarca e de seus irmãos às vivências que seus filhos - Carlinhos e Camila -, bem como a que seus sobrinhos e sobrinhas que residiram ou residem na casa, tiveram quando crianças junto à morada, percebe-se que diferentes formas de 'experienciar' e imaginar os seus espaços vêm à tona. No entanto, através do rememorar juntos, acabam por incidir em memórias compartilhadas (Halbwachs, 2006), as quais reverberam ao longo das décadas e das gerações que vive(ra)m e se sucedem no casarão antigo. Seu Carlos contou-nos o seguinte:

Já tivemos muitas coisas boas aqui. Meu pai, minha mãe, meus irmão (...). A gente ia 05:30 da manhã pra missa, ali na Batista Campos (...). Todo domingo a gente ia (...). Nós éramos 14, que dois a minha mãe criou. Muita gente, sempre teve muita gente em casa (...). O pessoal estudava aqui embaixo [no porão da casa] (...). Meus irmãos estudavam aí, eles com os colegas deles, eu também estudava muito aí (...). A gente vinha e estudava aí de noite.

O mesmo porão onde Seu Carlos e seus irmãos estudavam foi o lugar que suscitou temores a Carlinhos durante a infância, medos que o rapaz não consegue encontrar motivação clara. Segundo ele, não eram 'visagens' ou fantasmas que lhe assombravam, pois se deleitava com as histórias que o avô materno lhe contava, as quais envolviam as criaturas mais fantásticas que habitam o imaginário paraense: as matintapereras, a mulher do táxi, as aventuras dos caboclos. Seu receio fundava-se nas brumas que cobriam misteriosamente o porão, este desconhecido que funda os temores que se acomodam nas profundezas da casa (Bachelard, 1978).

Hoje em dia, quando Carlinhos vai com alguém ao porão, é comum que mencione acercados sentimentos temerosos que tinha em relação ao lugar quando era criança. Neste espaço, onde estão guardados vários objetos antigos que suscitam recordações, funciona o estacionamento de bicicletas que seu Carlos administra.

O rapaz, durante uma conversa sobre a infância, mencionou acerca de algumas marcas cingidas nos rodapés das paredes, produzidas a partir das correrias em seu velocípede, ao longo do imenso corredor da casa, por dentro dos quartos, sala e cozinha, derrubando coisas, marcando o rodapé com as rodas do brinquedo, descobrindo os espaços da casa através do lúdico. Ao lembrar-se da infância, Carlinhos refere-se, em sua fala, a um universo que parece distante pelas lacunas do tempo vivido e, ao mesmo tempo, bastante próximo, pois ressoa nas memórias contidas nas histórias cujas lembranças evocam experiências afetivas que fazem o passado vibrar no presente.

No que se refere aos espaços da casa onde se manifestam as sociabilidades, identificamos a sala de estar e a cozinha como os dois ambientes onde é possível reconhecer processos significativos de 'sociação', cada um destes apresentando formas de interações sociais distintas e relações de interdependência entre os atores sociais (Simmel, 1983). A sala de estar, como o próprio nome sugere, é o cômodo da casa onde supostamente se realizaria o desejo de "estar-junto" (Maffesoli, 2001), quando os familiares reúnem-se para conversar e assistir à novela das oito, por exemplo.

Contudo, a sala de estar é, durante boa parte do dia, o lugar de trabalho da família, pois é ali que são atendidos os clientes e onde estes fazem as refeições. Nela, encontra-se uma grande mesa, rodeada por várias cadeiras, coberta com uma toalha de material sintético com estampas coloridas, sugerindo imagens de um restaurante caseiro, sobre a qual estão colocados vidros de temperos diversos e guardanapos; ao lado, uma mesa menor onde estão enfileirados vários copos; ao fundo, fica uma cristaleira antiga, que tem ao lado um refrigerador, onde ficam guardados sucos naturais e refrigerantes destinados à venda; do outro lado, encontra-se uma televisão e uma escrivaninha coberta por papéis e jornais. Por volta das 21 horas, quando não há mais clientes, Seu Carlos senta-se em frente à escrivaninha e faz várias anotações em blocos de papel enquanto assiste à televisão. Nesses momentos, pode-se assistir a uma partida de futebol, durante os quais as conversas giram em torno de esportes, das notícias do jornal e dos acontecimentos cotidianos.

Estes episódios, no entanto, são raros se comparados aos momentos sociáveis que se passam na cozinha. É neste lugar que os moradores da casa se encontram, pois é ali que as refeições e os lanches são preparados pelo casal Sampaio, com o auxílio de seus familiares. Além disso, os amigos mais próximos da família e os parentes que vêm do Marajó, quando os visitam, dirigem-se à cozinha, pois é o lugar onde estão mais próximos, quando se conversa sobre 'filho de fulano', a 'esposa de cicrano' e o 'primo de beltrano'; é na cozinha que correm as notícias sobre o que está acontecendo nas cidades marajoaras, como Ponta de Pedras, Soure e Salvaterra. É naquele espaço que são revelados projetos e onde surgem aspirações e sugestões: 'quero morar pra cá' ou 'vocês tem é que morar pra lá com a gente'; como também a saudade: 'égua, já tem ano que eu não vou por ali!'.

Neste contexto, o que fica evidente é que a memória coletiva e o imaginário no mundo urbano belemense, bem como suas fronteiras culturais, não se encerram na cidade, na medida em que atravessam a baía e correm pelos rios, entrecruzando trajetórias e experiências de vida, de forma a culminar neste fenômeno urbano complexo que chamamos Belém.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio da experiência de convívio com a família Sampaio, foi possível compreender as suas percepções acerca do fenômeno de transformação no mundo urbano belemense, bem como as formas como investem sua agência na dinâmica de práticas sociais imbricadas no viver a cidade ao longo do tempo. Além disso, foi possível reconhecer como o grupo familiar se relaciona com a ruína: a experiência de residir em um prédio que se apresenta como uma paisagem em processo de arruinamento, evocadora de imagens e sentidos diversos, que estabelecem uma linha tênue entre passado, presente e futuro. As lembranças do vivido vibram com intensidade tamanha na experiência atual, que, por certo, ecoam no devir dos seus moradores, como uma projeção para o amanhã.

Através das narrativas de Seu Carlos, Dona Janira e seus filhos, uma parcela outra da história da cidade de Belém é recontada: 'outro tempo, outra gente' são descritos em suas histórias; paisagens distintas das que veem hoje, mas que não deixam de fazer parte da experiência de paisagem presente, na medida em que estão vivas na memória, compartilhadas entre os sujeitos que praticam aquele meio, reverberando nas histórias contadas por estes agentes sociais e nos laços afetivos com o lugar (a casa arruinada) que ocupam/residem.

Quando evocamos lembranças sobre determinado fato, mesmo que sob diferentes perspectivas, revela-se a heterogeneidade característica do viver a cidade e de praticá-la - urbe complexa e túrgida de diferenças e de imaginários diversos. Todavia, sendo o exercício de rememorar sempre efetivado como experiência coletiva, as memórias adquirem mais significado e o passado é ativado no presente (Halbwachs, 2006) a partir da experiência sensível de 'reviver' certos momentos em comum, interpretados, por certo, de acordo com as subjetividades e as emoções pessoais de cada um13.

O prédio onde reside a família Sampaio está envolto pela aura de ruína. Ele emerge no cenário citadino como uma paisagem em processo de arruinamento, este fenômeno complexo produzido pela cultura num jogo com a natureza. A casa, praticada das mais diferentes formas - o lar de uma família, com suas formas de sociabilidade e de conflito, ao mesmo tempo em que se revela o espaço de trabalho -, é a ambiência onde se encenam práticas cotidianas e onde trajetórias sociais se entrecruzam.

É também paisagem fantástica, pois a sua fisionomia, ao degradar-se e adquirir feições disformes, confere novo sentido ao lugar mediante os 'jogos da memória', mesclando lembranças e esquecimentos. A ruína, e sua aura melancólica, é o espaço no qual circulam espectros que habitam o imaginário belemense.

A casa arruinada, como um recanto do ser, faz emergir o elo que liga temporalidades e, ao ser narrada, desvenda as histórias de uma Belém de outrora, que ressoa - e ao mesmo tempo ressignifica - a experiência atual de viver a urbe.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos especialmente à família Sampaio por sua disponibilidade em cooperar com a pesquisa. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio.

 

REFERÊNCIAS

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Autor para correspondência:
Manoel Cláudio Mendes Gonçalves da Rocha
Travessa São Francisco, 815 - Batista Campos
Belém, PA, Brasil. CEP 66023-530
(manoelcs@live.com)

Recebido em 15/04/2012
Aprovado em 10/07/2012

 

 

1 A pesquisa ocorreu entre 2010 e 2011. As caminhadas iniciaram em 2010, com o registro no diário de campo e a utilização de máquina fotográfica. Após o reconhecimento do bairro, foram realizadas as entrevistas com os interlocutores. Tais práticas metodológicas, consideradas em paralelo (caminhadas, convívio com a família Sampaio e entrevistas), possibilitaram aos pesquisadores lançar olhares outros sobre as paisagens do bairro.
2 Neste período, os enterramentos eram realizados nas igrejas, existindo apenas cemitérios onde eram sepultados os escravos (Beltrão, 2000).
3 O fato de o cemitério ter funcionado somente cerca de 30 anos lhe confere especial unidade de concepção e de realização de valores arquitetônicos e escultóricos, que ampliam o seu sentido espiritual e histórico (Barata, 1963 apud Barata, 2011).
4 Um olhar "panorâmico" (Certeau, 1994) sobre a cidade e o bairro Batista Campos pode ser identificado na experiência descrita pelo primeiro autor do artigo, em outro momento: "Da janela do nono andar de um edifício do bairro Batista Campos, meu olhar vaga pela cidade e se lança sobre o labirinto das ruas, percorre seus meandros até se perder em meio às frondosas copas de árvores, cujos matizes de verde inundam minha visão do contexto urbano. Segue e percorre logo adiante o desenho complicado dos telhados de tantas casas, umas antigas e outras mais recentes que, com os edifícios arrojados de uma Belém que paulatinamente se verticaliza, revelam uma paisagem em processo constante de transformação ao longo do tempo" (Silveira, 2008, p. 110).
5 Estes corredores naturais estendem-se a outros bairros, sendo possível encontrá-los ao longo de ruas como a Braz de Aguiar e as avenidas Nazaré e José Malcher, compondo uma das imagens característica de Belém e que acaba por lhe conferir o título de 'cidade das mangueiras'. Ver, sobre este último tema, Airoza (2010).
6 Para Simmel (1983, p. 165-166): "Tudo que está presente nos indivíduos (que são os dados concretos e imediatos de qualquer realidade histórica) sob a forma de impulso, interesse, propósito, inclinação, estado psíquico, movimento - tudo que está presente nele de maneira a engendrar ou medir influências sobre outros, ou que receba tais influências, designo como conteúdo, como matéria, por assim dizer, da sociação".
7 Coordenado pelo primeiro autor do presente artigo, pesquisa da qual o segundo autor participou como bolsista de iniciação científica entre agosto de 2010 e julho de 2011.
8 Centro comercial que faz parte de uma das maiores redes de supermercados e super centers de Belém.
9 Aqui, Seu Carlos se refere a uma churrascaria localizada em uma residência na rua Veiga Cabral.
10 Edifício Presidente Tancredo Neves, localizado na avenida Dezesseis de Novembro, paralela à rua São Francisco.
11 Segundo Bachelard (1978, p. 200), "a casa é o nosso canto do mundo. A partir do momento em que deixamos de viver naquela que foi a nossa primeira residência, não importa o número de lugares em que iremos morar dali para frente, em todos eles a ideia que construímos de lar sempre recorrerá às lembranças que remontam à primeira casa. Na casa nova, sobrepõem-se imagens de uma casa dos sonhos, que evoca memórias e afetividades que nos ligam à primeira morada, mas ao mesmo tempo estabelecem laços de pertença com o novo lugar".
12 No quintal da família Sampaio, são criadas algumas galinhas e cultivados pés de graviola e acerola. Antes havia criação de patos e o cultivo de taperebá.
13 Segundo Halbwachs (2006, p. 29-30), "assim que evocamos juntos diversas circunstâncias de que cada um de nós lembramos (e que não são as mesmas, embora relacionadas aos mesmos eventos), conseguimos pensar, nos recordar em comum, os fatos passados assumem importância maior e acreditamos revivê-los com maior intensidade, porque não estamos mais sós ao representá-los para nós".

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