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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.8 no.1 Belém Jan./Apr. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222013000100011 

MEMÓRIA

 

Vicente Juarimbu Salles (1931-2013): o tempo vence o homem, não a obra

 

Vicente Juarimbu Salles (1931-2013): time vanquishes the man, but not his work

 

 

Roseane Silveira de Souza

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

Notas biográficas em memória do historiador, antropólogo e folclorista paraense Vicente Juarimbu Salles, falecido em março de 2013, no Rio de Janeiro. Salles é autor de obras de referência para a história do Pará e reuniu uma importante coleção de documentos, disponível no Museu da Universidade Federal do Pará. O texto destaca os marcos espaço-temporais da vida e da trajetória como intelectual e pesquisador; os títulos importantes; as microedições que ele produzia; e sua contribuição teórico-metodológica para os estudos históricos sobre a Amazônia, especialmente sobre a presença do negro na região.

Palavras-chave: Vicente Salles. Cultura negra. Folclore. História. Pará.


ABSTRACT

Biographical notes in memory of historian, anthropologist and folklorist Vicente Juarimbu Salles, born in the State of Pará and deceased in March 2013 in Rio de Janeiro. Salles has authored reference works on the history of Pará and collected important documents, available at the Museu da Universidade Federal do Pará. The article highlights space and temporal landmarks of his life and career as intellectual and researcher; his major book titles; the small book editions that he produced; and his theoretical and methodological contributions to the history of the Amazon, especially on the black people.

Keywords: Vicente Salles. Black culture. Folklore. History. Pará.


 

 

Era janeiro de 1954 quando o jovem Vicente Salles (Figura 1) iniciou suas atividades como pesquisador da cultura do Pará, de uma forma inusitada: em uma sessão de pajelança para curar a própria alma. Foi na ilha de Algodoal, localizada no município de Maracanã, nordeste do estado, a 168 quilômetros da capital Belém. Algodoal para os turistas. Para a população local, é Maiandeua, termo tupi que significa 'Mãe da Terra'.

Contava 23 anos de idade e queria apurar dados sobre a chamada região do Salgado, detendo-se naquela ilha, onde a pajelança cabocla e o carimbó, expressão que une dança e música, chamaram a sua atenção. Eram os passos solitários em pesquisa de campo de alguém que tinha como mestre o folclorista e poeta Bruno de Menezes, quarenta anos mais velho, autor de obras como "Batuque" e "Boi-bumbá", fundamentais para a literatura paraense, e que de tudo sabia das manifestações populares da capital. Menezes, membro da Comissão Paraense de Folclore e reconhecido entre os especialistas brasileiros, costumava empreender andanças por terreiros de umbanda, pássaros e bois-bumbás de Belém, vivendo intensamente as festas e as danças. Salles passou a acompanhá-lo, tornando-se uma espécie de discípulo e, depois, estudioso da obra do amigo.

"Minha memória é toda Bruno de Menezes portador de folclore", escreveu na introdução de um dos volumes das "Obras Completas de Bruno de Menezes", lançadas pela Secretaria de Cultura do Pará, à época da comemoração de seu centenário de nascimento, em 1993. Era uma provocação de Salles à famosa frase proferida por Heitor Villa-Lobos: "O folclore sou eu".

Foi em Maiandeua que o pajé Atanásio e a mulher dele fecharam o corpo do jovem contra todos os males, em um ritual repleto de cantorias, baforadas de cachimbo e toques de maracás, do qual Vicente memorizou o que pôde e descreveu em "Um retrospecto: memória", sua autobiografia. "Abre-te, mesa!/Abre-te, ajucá!/Abre-te, cortina!/Cortina reá!", dizia a toada de abertura.

Na praia da Princesa, ouviu histórias sobre os encantamentos da ilha, que se acreditava ser o lugar da 'eterna felicidade'. Não era a primeira vez que ouvia tais relatos. Quando criança, na cidade de Castanhal, Maria Pretinha, sua mãe de leite, que o salvara da morte, também o alimentou com aqueles contos de assombrações e encantarias. Nas histórias de Maria Pretinha, Iara, a sedutora mãe d'água, morava num lago entre as dunas de Maiandeua.

Por que lembrar esses relatos? Porque, tomado por essas imagens, Vicente Salles desejou a vida inteira ir embora para a Maiandeua de sua imaginação, quando chegasse a sua hora. E a hora chegou para ele no dia 7 de março de 2013, no Hospital Casa de Portugal, no Rio de Janeiro, onde estava internado desde o dia 27 de fevereiro para a realização de exames e para tentar debelar uma anemia teimosa, agravada por uma hemorragia. Ele, que vinha de um histórico de problemas de saúde, entre os quais um câncer e um aneurisma, teve uma parada cardiorrespiratória, que o levou embora antes do raiar do dia, às duas da manhã. Teria ido, finalmente, para Maiandeua, para os afetos da Iara ou, feito menino de novo, para o colo de Maria Pretinha? Teria sido visitado por seu amigo Preto Velho, entidade da umbanda pela qual, embora agnóstico, nutria simpatia e que aparecera nos delírios de outras internações? Quem saberá?

Encerrava-se ali uma história de mais de 50 anos dedicados à pesquisa, que resultou em mais de 20 livros publicados, alguns dos quais ocupando lugar entre os clássicos da historiografia da Amazônia: "O negro no Pará sob o regime da escravidão" (1971); "A música e o tempo no Grão-Pará" (1º volume, 1980); "Sociedades de Euterpe" (4º volume, independente, de "A música e o tempo no Grão-Pará", 1985); "Memorial da Cabanagem" (1992); "Época do teatro no Grão-Pará ou Apresentação do teatro de época" (1994); "Marxismo, socialismo e os militantes excluídos" (2001); "Vocabulário crioulo: contribuição do negro ao falar regional amazônico" (2003); e "O negro na formação da sociedade paraense: textos reunidos" (2004). Uma obra pautada por estudos sobre o Pará, com marco temporal entre os séculos XVII e XX, variando entre música, teatro, literatura, dança, imprensa, humor, política, artesanato e biografia, sendo estes também enredados por dois campos temáticos mais abrangentes: o negro e o folclore.

A partir desse panorama temático, também produziu 51 microedições, livretos artesanais de pequena tiragem (de 20 a 50 exemplares), preparados por ele mesmo para difusão de seus trabalhos entre estudiosos e instituições de pesquisa. Essas publicações foram inspiradas nos fascículos "Réflexions d'un folkloriste", de autoria do belga Albert Marinus, que circularam entre as décadas de 1960 e 1970. O primeiro volume assinado por Salles se intitulou "O negro e as transformações sociais no fim do século XIX no Grão-Pará" (1988) e o último, "Machado de Assis: tema com variações" (2012), ensaio atualizado ao longo do tempo a partir do original publicado no jornal "O Estado", de Niterói, em 1958. Algumas microedições foram transformadas em livros, a exemplo de "Estórias do Eldorado nos tempos calamitosos da devastação contadas pelo Cidadão-de-Arco-e-Flecha e escritas pelo folclorista e historiador Vicente Salles" (2010), originalmente a microedição n. 15, de 1998, com um título ligeiramente diferente.

Sem falar em tantos discos, artigos, revistas, inventários e outras produções assinadas por ele quando funcionário do antigo Ministério da Educação e Cultura (MEC). Pode ser destacado, no setor fonográfico, o raro registro musical do compositor e violonista paraense Tó Teixeira, de 1977, em disco compacto: "Lá vem Tio Tó", com o selo Discos Marcus Pereira.

Vicente Salles teria muito ainda por fazer, se já não estivesse no "crédito da vida", como ele se reportava aos tantos reveses que a saúde lhe imputava. Deixou obras finalizadas ou pelo meio do caminho, como legado aos seus herdeiros, pois sabia que poderia faltar a qualquer momento.

 

VICENTE SALLES E O TEMPO

Em uma das entrevistas a mim concedidas para a realização de meu trabalho sobre sua trajetória de pesquisa a respeito da cultura do negro na Amazônia, Salles revelou-me que, de tanto tratar do tempo como elemento fundamental de sua obra, passou a observar o próprio tempo de sua vida em etapas. Seguindo a orientação dele, é possível destacar cinco marcos temporais e espaciais relevantes: a infância em Castanhal; a juventude em Belém; a mudança para o Rio de Janeiro, com a integração a um circuito intelectual na área do folclore e a formação de uma família; a radicação em Brasília e a consolidação de seu trabalho como pesquisador; e o retorno ao Rio de Janeiro.

Vicente Juarimbu Salles nasceu na Vila do Caripi, município de Igarapé-Açu, no Pará, em 27 de novembro de 1931, filho do rábula Clóvis de Mello Salles e da dona de casa Maria Cristina Passos Salles, os dois cearenses. Juarimbu, nome indígena, foi homenagem de Clóvis aos índios Tembé, que habitavam a região, e dos quais era considerado 'amigo branco'. Vicente era o terceiro de sete filhos - dois homens e cinco mulheres.

Clóvis e Maria Cristina moraram inicialmente em Belém, mas foram migrando para outras cidades, conforme apareciam oportunidades de trabalho para ele: da capital foram para Igarapé-Açu e depois para Anhanga (atual São Francisco do Pará), dentro do município de Castanhal; em seguida, houve nova mudança para a sede de Castanhal e, por fim, retornaram a Belém.

As primeiras lembranças mais vivas do Vicente menino vêm da morada em Castanhal. Lá se entendeu como gente, como ele mesmo dizia, depois de ter sido salvo da morte, graças ao leite de Maria Pretinha, quilombola de Petimandeua, que depois fugiu com o namorado. Foi alfabetizado em casa pelo pai, lendo tudo o que pôde na biblioteca dele - Júlio Verne, Miguel de Cervantes, Johann Goethe, Victor Hugo, Eça de Queirós, José de Alencar, entre outros. Além de livros, o mundo de Vicente era povoado pelas modinhas cantadas pela mãe, os serões políticos liderados pelo pai, que também gostava de ler, em voz alta e cantada, os romances de cordel, que mais tarde se tornaram objeto de estudo de Salles. O menino também estudou canto orfeônico e violino, mas acabou desistindo do desejo de se tornar músico profissional.

Em 1945, a família tomou o rumo de Belém. Vicente, adolescente, precisou trabalhar para ajudar nas contas da casa. Empregou-se como auxiliar no escritório de um representante de uma firma inglesa, onde, entre outras tarefas, era responsável por datilografar a correspondência comercial. Quando o chefe saía para as atividades de rua, ele aproveitava para escrever cartas, artigos e poesias. E se correspondia com gente de várias partes do mundo, trocando selos e revistas. Assim foi se forjando o escritor e o colecionador, pois, desde esse tempo, acostumou-se a fazer cópia de tudo o que escrevia. Em sua autobiografia, resume bem o que significou esse momento: "Poemas e cartas fizeram-me o que sou".

Enturmado com pessoas mais velhas que ele, Vicente frequentou as sessões musicais operísticas na casa do violonista Joel Pereira e se tornou secretário particular do cantor Ulysses Nobre, que, ao lado da irmã, Helena, formava o legendário duo Irmãos Nobre. Com Ulysses, que também era articulista na imprensa, descobriu o gosto pela pesquisa sobre música, recebendo de presente dele uma parte do acervo de Alcebíades Nobre, seu irmão, que fora bilheteiro do Teatro da Paz e produzia uma espécie de diário das atividades do teatro. A outra parte, Vicente encontrou descartada na lixeira da casa de espetáculos, na década de 1950, iniciando um acervo particular de pesquisa - acervo que hoje leva seu nome e se encontra recolhido à biblioteca do Museu da Universidade Federal do Pará (MUFPA).

Nessa época, iniciou sua colaboração na imprensa, primeiro em "A Província do Pará", depois em "O Estado do Pará". Também passou a admirar a obra de Dante Alighieri, de tanto ouvir o engraxate italiano Domenico Amoscato, que, na entrada do prédio de "A Província", recitava os versos da "Divina Comédia": "Lasciate ogni speranza voi ch'entrate" ("Deixai toda esperança, vós que entrais"). Outro personagem que Salles sempre destacou em sua formação política foi o sapateiro Dagoberto Lima, Seu Lima, que era militante comunista e apresentou-lhe a filosofia marxista.

O engraxate e o sapateiro. Ao apontá-los como importantes em sua formação, Vicente Salles não fazia mais do que mostrar os filtros por onde passava a sua percepção do mundo e dos sujeitos históricos: a vida comum, as práticas sociais, os modos de fazer e viver, e os sujeitos invisíveis da história, como os negros escravos no Grão-Pará, ponto de partida para um dos suportes de sua obra. Quase tudo o interessava como leitura da vida, aproximação com os outros e observação da história pela dialética marxista, da inter-relação entre os fatos sociais e as ações do homem, marca de sua geração, ao que ele acrescentou a sagacidade de utilizar fontes pouco usuais, não canônicas para a época em que desenvolveu a pesquisa para o primeiro livro: as notas da imprensa, por exemplo, que expunham os sujeitos anônimos nas cidades, nas senzalas, no cotidiano silencioso da história. Como bem observa a antropóloga Anaíza Vergolino na apresentação de um dos livros de Salles:

São pessoas com ou sem nome, mas que nos casos-exemplos de Cirilo, da preta Eva, do anônimo que matou seu senhor na Baía-do-Sol e por isso morreu na forca, do cozinheiro Isidoro, empregado do viajante inglês Alfred Wallace, ou daquele anônimo negro, mercadoria à venda como predicado de falar inglês, mostram as vicissitudes a que estavam sujeitos negros e mulatos, fossem eles escravos das senzalas dantescas ou indivíduos vivendo em regime de relativa liberdade (Vergolino, 2004, p. 7).

O salto na vida de Salles viria em junho de 1954, ano realmente memorável, quando Bruno de Menezes hospedou o renomado antropólogo e folclorista baiano Édison Carneiro, que coletava dados para um livro sobre a Amazônia. Apresentado ao antropólogo, Salles recebeu dele a tarefa de realizar um levantamento dos terreiros de umbanda de Belém. Com esses dados, Carneiro ampliou sua pesquisa sobre a religiosidade do negro no Brasil, estudos que não passavam do Maranhão, pois se acreditava que na Amazônia essas investigações não tinham relevância, devendo ser priorizada a cultura indígena.

Ele ainda recomendou a Salles que se mudasse para o Rio de Janeiro, onde poderia completar a formação secundária e iniciar um curso superior. Salles acatou a sugestão, embarcando num Ita em 13 de agosto e desembarcando na então capital federal no dia 24, sob o impacto da notícia do suicídio de Getúlio Vargas. Tornou-se logo amigo da escritora paraense Eneida de Moraes, que lhe abriu as portas da imprensa carioca. Em dezembro, ao tentar continuar seus estudos de violino com o músico e compositor Marcos Salles, apaixonou-se por uma das filhas dele, Marena, violinista que se tornaria sua esposa em 1965, mãe de seus filhos - Marcelo, Mariana e Márcia - e sua companheira de pesquisa.

Salles deixara Belém já funcionário concursado do governo federal e, no Rio, foi lotado como datilógrafo em um departamento do então Ministério da Educação e Cultura (MEC). Essa condição permitiu-lhe, em 1961, ser transferido para a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro (CDFB), organizada e dirigida por Édison Carneiro, a quem Vicente reencontrou alguns anos antes (Figuras 2 e 3). A campanha, na abrangência do MEC, foi responsável pela realização de um inventário sobre cultura popular em todo o Brasil, e Salles esteve à frente das expedições organizadas, culminando na elaboração do "Atlas Cultural do Brasil". Hoje, o acervo da CDFB encontra-se recolhido ao Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, que agrega o Museu do Folclore Édison Carneiro e a Biblioteca Amadeu Amaral, esta organizada por Vicente Salles (Figura 4). Ele também produzia o programa "O assunto é... folclore" pela Rádio MEC, cujos arquivos podem ser encontrados tanto na Biblioteca Amadeu Amaral quanto no MUFPA.

Com o golpe de 1964, a CDFB quase foi desmantelada e a Rádio MEC, no mesmo edifício, fechada de forma truculenta. Seria um 'antro de comunistas', conforme cartaz que Salles recolheu à porta de entrada do prédio. A campanha prosseguiu sem a liderança de Carneiro, afastado por sua militância no Partido Comunista. Salles chegou a ser interrogado, mas foi logo liberado. No entanto, teve o pagamento de seu salário suspenso até o fim das investigações sobre ele, o que adiou seu casamento com Marena e a finalização do bacharelado em Ciências Sociais pela Faculdade Nacional de Filosofia, na área de Antropologia (Figura 5). Mas prosseguiu 'na trincheira do folclore', a pedido do próprio Carneiro, e ainda assumiu a redação da "Revista Brasileira de Folclore", substituindo seu amigo Bráulio do Nascimento. Por desentendimentos com o novo diretor da campanha, o influente folclorista Renato Almeida, afastou-se em 1972. Em seguida, tornou-se secretário da Câmara de Artes do Conselho Federal de Cultura, uma academia de notáveis intelectuais brasileiros, da qual fazia parte, entre outros, o sociólogo Gilberto Freyre. Eram tempos que antecediam a mudança para Brasília.

 

O NEGRO NO PARÁ

Em meio a todos esses acontecimentos, ele preparava aquela que veio a ser uma de suas principais obras e um marco divisor nos estudos sobre o negro na Amazônia: "O negro no Pará sob o regime da escravidão", pesquisa que empreendeu com a orientação informal de Édison Carneiro e que encontrou a acolhida surpreendente do historiador amazonense Arthur César Ferreira Reis, ex-interventor federal no Amazonas e figura influente no governo militar. A despeito da orientação marxista de Salles e por reconhecer o mérito do trabalho, Ferreira Reis apadrinhou e prefaciou a obra, fazendo-a publicar em coedição da Fundação Getúlio Vargas e da Universidade Federal do Pará, em 1970.

"O negro no Pará sob o regime da escravidão" foi reeditado em 1988 a partir da reivindicação feita pelo movimento negro, à frente o Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará (CEDENPA), para a Secretaria de Cultura do Estado, durante a celebração do Centenário da Abolição. A segunda edição revista e ampliada desse livro foi assumida pelo Instituto de Artes do Pará (IAP), em 2005.

A pesquisa que resultou no livro contrariou a tendência dos estudos antropológicos e historiográficos da época, segundo os quais a quantidade de negros escravos migrados para a Amazônia não era suficiente para assentar uma dinâmica cultural relevante. Além disso, ainda residia a ideia de que aquele negro chegado à região, hibridado à população local, já não estava mais dotado de 'pureza' ou de 'africanidade', aspectos então considerados relevantes para uma investigação científica sobre as raízes negras no Brasil. Salles foi na contramão, orientando-se por outros padrões teórico-metodológicos de uma pesquisa nessa área. Usando recortes de jornais, códigos de postura, autos de infração, literatura, música e imagens, mostrou por onde circulavam aqueles sujeitos, como participaram ativamente do movimento da Cabanagem e, finalmente, como contribuíram para a formação cultural, política e econômica da região amazônica. Esse trabalho abriu espaço a outros na trajetória do autor, ampliando, refinando ou especificando temas, e também estimulou a realização de novas pesquisas nas áreas da História, da Antropologia e da Sociologia no Pará.

 

OUTROS TEMPOS-ESPAÇOS

Em 1975, Vicente foi transferido para Brasília, para organizar o escritório do Departamento de Assuntos Culturais (DAC), onde, entre outras ações, foi criada a Fundação Nacional de Artes (FUNARTE). Foi um tempo em que ele estabeleceu contatos com artistas e produtores do Brasil inteiro, iniciou a coleção "Documentário sonoro do folclore brasileiro" e produziu mais de 30 discos, entre eles o compacto "Lá vem Tio Tó" (Teixeira, 1977), raro registro do violonista paraense executando suas composições. Também publicou livros e ganhou prêmios. Um período de maior dedicação às suas pesquisas relacionadas ao Pará e de consolidação dessas investigações.

Aposentou-se em 1990, durante o governo de Fernando Collor de Mello, que, em uma só 'canetada', extinguiu o Ministério da Cultura, a FUNARTE e os demais órgãos do setor. Entre 1996 e 1997, dirigiu o Museu da Universidade Federal do Pará, para o qual doou todo o seu material de pesquisa coletado ao longo da vida: livros, discos, fitas cassetes e magnetônicas, partituras, recortes de jornais, folhetos e muitos outros. Foi assim constituído o Acervo Vicente Salles, alimentado de materiais novos pelo escritor até as vésperas de sua morte.

No início de 2012, Vicente, Marena e Márcia retornaram ao Rio de Janeiro, onde já residiam os filhos mais velhos. Com a saúde bastante enfraquecida, decidiu reunir a família. Passou por novas internações, porém continuou sua atividade de escritor, embora com mais vagar, e preparava novos livros para publicação.

Por isso, é de se ressalvar que a morte põe um ponto final em sua atividade de pesquisa, mas não necessariamente em sua obra. Vicente Salles deixou uma porção de livros inéditos, entre eles dois volumes de "A música e o tempo no Grão-Pará", do qual foram lançados o primeiro e o quarto volumes, ambos fora de catálogo há muito tempo. Também encaminhava a publicação do livro "Lundu: canto e dança do negro no Pará", provavelmente com recursos próprios, a exemplo de outras produções. Para finalizar este livro, falta um CD com os temas musicais aludidos no trabalho, o que vem sendo preparado por Marcelo Salles, seu filho músico. Além desses, há dois títulos pelos quais o pesquisador muito ansiava: "Os mocambeiros", sobre as viagens da exploradora francesa Otille Coudreau pelo oeste do Pará, no século XIX, em edição pelo IAP; e "Traços & troças: o desenho de crítica e de humor no Pará", edição comprometida com a UFPA.

A quantidade de arquivos e manuscritos existentes no acervo pessoal de Salles, tanto no Rio de Janeiro quanto em Brasília, mostra que essa obra ainda há de render outros tantos frutos, pois ele era assim: incansável com seus projetos, ainda que o tempo, elemento tão definidor de sua pesquisa, a inferir pelos títulos de seus livros, fizesse com que, nos últimos anos, o pesquisador andasse ansioso para vê-los publicados. Preocupação não à toa, pois ele conhecia como ninguém os limites de seu corpo. "A noção de tempo às vezes me angustia, porque eu tenho pressa, (...) que o tempo me vença, e vai me vencer. Vai vencer você, né?", vaticinou em entrevista concedida a mim em agosto de 2012.

Vicente Salles foi um pesquisador generoso com seus pares e com os novos, colocando-se disponível para ouvi-los e para trocar experiências. As microedições e os livros patrocinados por ele eram distribuídos gratuitamente pelo prazer de ver sua obra circular. Também foi generoso com suas fontes, referenciando-as, às vezes exaustivamente, para oferecer a informação completa aos leitores, facilitando a localização dos dados. Foi, enfim, um historiador atento aos detalhes, às minúcias da história. Isso, segundo ele, seria a base de sua historiografia, como revela na última entrevista à imprensa, em 5 de fevereiro de 2013, publicada no "Diário do Pará":

É caminhar, juntar pedras soltas. É uma arquitetura que a gente faz. Não é só juntar palavras e construir frases, e um livro bem feito. Ao fazer um trabalho de História, você tem um compromisso com a verdade. Não sei se tanto com a verdade, com a oportunidade, talvez. A coisa se forma na cabeça da gente e passa a nos comandar. Muito da minha pesquisa é gerada pelo inesperado. Ao pesquisar sobre a história do negro, me deparei com as gazetilhas policiais, os anúncios, as crônicas, as críticas. Eu cultivo a pesquisa como o artista, o pintor cultiva a arte de fundir materiais, cores e texturas; um tecelão que pega o fio e começa a tecer uma renda. E nós temos uma tendência grande de não observar os detalhes (Salles, 2013, p. 3).

Também é de se notar que a existência do Acervo Vicente Salles estimula o trabalho de novos pesquisadores, por tornar acessíveis fontes preciosas para estudos sobre a Amazônia. "Acho que as gerações futuras poderão usufruir daquilo que eu usufruí, e esse é o destino que eu dou: um órgão público que possibilite o acesso de futuros pesquisadores", explicou, para completar: "Eu me sinto muito gratificado quando leio os trabalhos acadêmicos que têm 'Acervo Vicente Salles' no local de pesquisa. Você não sabe como isso me gratifica, porque acho que estou sendo útil, né?", revelou-me na entrevista ao "Diário". Desse modo, não é ilegítimo afirmar que seus esforços encontram acolhida no trabalho de outros, tecendo os fios e as rendas da história e do conhecimento.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela bolsa de doutorado concedida à autora, que está elaborando a tese intitulada "O cidadão e a poronga: a peleja de Vicente Salles contra a exclusão do negro da história do Pará", orientada por Estefânia Knotz C. Fraga, do Programa de Estudos Pós-graduados em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

 

PUBLICAÇÕES DE VICENTE SALLES CONSULTADAS

SALLES, Vicente. Lundu: canto e dança do negro no Pará. Brasília: Edição do Autor, 2013. Acompanha CD. Obra inédita.         [ Links ]

SALLES, Vicente. Machado de Assis: tema com variações. Brasília: Microedição do Autor, 2012. (Microedição n. 51).         [ Links ]

SALLES, Vicente. Estórias do Eldorado nos tempos calamitosos da devastação contadas pelo cidadão-de-arco-e-flecha e escritas pelo folclorista e historiador Vicente Salles. Brasília: Thesaurus, 2010.         [ Links ]

SALLES, Vicente. Um retrospecto: memória. Brasília: Microedição do Autor, 2007. (Microedição n. 44).         [ Links ]

SALLES, Vicente. O negro no Pará sob o regime da escravidão. Belém: IAP/Programa Raízes, 2005.         [ Links ]

SALLES, Vicente. O negro na formação da sociedade paraense. Belém: Editora Paka-Tatu, 2003.         [ Links ]

SALLES, Vicente. Vocabulário crioulo: contribuição do negro ao falar regional amazônico. Belém: IAP/Programa Raízes, 2003.         [ Links ]

SALLES, Vicente. Marxismo, socialismo e os militantes excluídos: capítulos da história do Pará. Belém: Editora Paka-Tatu, 2001.         [ Links ]

SALLES, Vicente. Épocas do teatro no Grão-Pará ou Apresentação do teatro de época. Belém: EDUFPA, 1994. t. 1-2.         [ Links ]

SALLES, Vicente. Bruno de Menezes era o folclore. In: SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA (PA). Obras completas de Bruno de Menezes: folclore. Belém: SECULT/Conselho Estadual de Cultura, 1993. (Coleção Lendo o Pará, 14). v. 2.         [ Links ]

SALLES, Vicente. Memorial da Cabanagem. Belém: Edições CEJUP, 1992. (Coleção Amazoniana).         [ Links ]

SALLES, Vicente. O negro e as transformações sociais no fim do século XIX no Grão-Pará. Brasília: Microedição do Autor, 1988. (Microedição n. 1).         [ Links ]

SALLES, Vicente. Sociedades de Euterpe: as bandas de música no Grão-Pará. Brasília: Edição do Autor, 1985.         [ Links ]

SALLES, Vicente. A música e o tempo no Grão-Pará. Belém: Conselho Estadual de Cultura, 1980. (Coleção Cultura Paraense, Série Theodoro Braga). v. 1.         [ Links ]

 

Referências

SALLES, Vicente. Na vastidão da Amazônia, um olhar atento às minúcias. Entrevista a Rose Silveira. Diário do Pará, Belém, 5 fev. 2013. Caderno Você, p. 3.         [ Links ]

TEIXEIRA, Tó. Lá vem Tio Tó: composições de Tó Teixeira. Rio de Janeiro: Discos Marcus Pereira, 1977. 1 disco sonoro (ca. 9 min. 19 seg.), 33 1/3 rpm, 7 pol.         [ Links ]

VERGOLINO, Anaíza. Prefácio. In: SALLES, Vicente. O negro na formação da sociedade paraense. Belém: Editora Paka-Tatu, 2004. p. 5-11.         [ Links ]

 

 

Autor para correspondência:
Roseane Silveira de Souza
Rua Professor João Arruda, 437, ap. 11. Perdizes
São Paulo, SP, Brasil. CEP 05012-000
(silveirissima@gmail.com)

Recebido em 10/03/2013
Aprovado em 28/03/2013

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