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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

versão impressa ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.8 no.2 Belém maio/ago. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222013000200015 

MEMÓRIA

 

Primeira viagem aos Ticuna: um artigo pouco conhecido de Curt Nimuendajú

 

First visit to Ticuna Indians: a little-known article of Curt Nimuendajú

 

 

Peter Schröder

Universidade Federal de Pernambuco. Recife, Pernambuco, Brasil

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

Neste artigo, é apresentada a tradução de um texto pouco conhecido do antropólogo Curt Nimuendajú (1883-1945) sobre sua primeira viagem aos Ticuna, originalmente publicado em 1930, na Alemanha. Na apresentação, são oferecidas informações sobre a história do artigo e sua contextualização científica.

Palavras-chave: Curt Nimuendajú. Ticuna. Etnologia alemã.


ABSTRACT

The article presents a translation of a little-known text of Curt Nimuendajú (1883-1945) about his first travel to the Ticuna Indians. The text was originally published in Germany in 1930. The introduction offers some information about the history of this article as well as about its scientific context.

Keywords: Curt Nimuendajú. Ticuna Indians. German ethnology.


 

 

INTRODUÇÃO

"Besuch bei den Tukuna-Indianern" (Visita aos índios Tukuna), publicado em 1930, é um texto pouco conhecido de Curt Nimuendajú (1883-1945), embora haja referências a ele em diversos trabalhos de circulação mais ampla, por exemplo, na famosa monografia "The Tukuna", do mesmo autor (Nimuendajú, 1952). Até entre os especialistas na vida e obra de Nimuendajú, ou na etnografia dos Ticuna, muitos jamais viram o artigo (Nimuendajú, 1930).

Isto quase nada tem a ver com o idioma em que foi escrito, mas principalmente com a revista na qual foi publicado, meio obscura do ponto de vista atual. O "Ethnologischer Anzeiger" (Diário Etnológico), hoje em dia quase esquecido, foi um periódico que existiu de 1928 a 1944, impresso em Stuttgart, editado por Martin Heydrich (1889-1969) e Georg Buschan (1863-1942). Em comparação com outras revistas etnológicas alemãs, como "Anthropos" ou "Zeitschrift für Ethnologie", o "Ethnologischer Anzeiger" nunca obteve muita influência no cenário institucional da antropologia alemã. Até mesmo em bibliotecas do país pode ser difícil encontrar exemplares. O autor destas linhas teve sorte na biblioteca do Instituto Anthropos, em Sankt Augustin bei Bonn.

Por que Nimuendajú publicou em um periódico pouco conhecido também na época, e não em uma revista de maior circulação? Uma das respostas possíveis, meramente hipotética, diz respeito à situação em que se encontrava a "Zeitschrift für Ethnologie" (ZfE) depois da Primeira Guerra Mundial. Afinal, era o periódico onde tinham saído seus primeiros artigos científicos. Numa carta de Theodor Koch-Grünberg, datada de 20 de maio de 19201 , Nimuendajú foi aconselhado a apresentar um manuscrito sobre "fragmentos de religião e tradição dos índios Xipaya" ao "Anthropos", e não à ZfE, com o argumento de que seria o único periódico etnológico de língua alemã que ainda estava circulando com certa regularidade e "com um aspecto decente". De fato, na década de 1920, Nimuendajú publicou no "Anthropos" quatro artigos sobre língua e cultura dos Xipaya, mas, em 1929, o editor-chefe, Padre Wilhelm Koppers (1886-1961), decidiu publicar uma carta particular de Nimuendajú, dirigida a ele, sem autorização prévia do remetente (Nimuendajú, 1929a), o que azedou para sempre a relação entre os dois antropólogos, de modo que, a partir do final daquele ano, a revista não recebeu mais nenhum trabalho de Nimuendajú.

Provavelmente, o artigo agora traduzido foi redigido como resposta a uma sugestão de Fritz Krause (1881-1963), diretor do Museu Grassi, em Leipzig, com o qual Nimuendajú manteve correspondência regular a partir de abril de 1927. O indício mais direto a este respeito é uma carta de Krause, datada de 27 de junho de 19292, enviada depois de Nimuendajú ter finalizado uma expedição financiada pelos museus etnológicos de Leipzig, Dresden e Hamburg, entre setembro de 1928 e maio de 1929. Krause sugeriu um relato breve de poucas páginas sobre a expedição realizada, porém Nimuendajú enviou depois dois trabalhos menores com outros conteúdos. O primeiro, traduzido para o português por Thekla Hartmann com o título "Excursões pela Amazônia" (Nimuendajú, 2001), é um relatório resumido sobre as diversas viagens e expedições empreendidas de 1922 a 1927, sobretudo aquelas para o Museu Etnográfico de Gotemburgo (Nimuendajú, 1929b; Schröder, 2012), enquanto o segundo é o texto apresentado aqui em tradução.

Em 1929, depois de terminar a expedição para os museus alemães, Nimuendajú encontrava-se, como em outros momentos de sua vida, sem emprego nem renda. No intervalo entre a primeira e a segunda expedição para instituições alemãs, em 1930, ele aceitou, por necessidade, porém relutante, um contrato do casal Brückner, que queria produzir um documentário sobre a Amazônia, para acompanhá-los na qualidade de guia, de julho a setembro de 1929 (Brückner, 1939). Em novembro do mesmo ano, Nimuendajú realizou, para o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), uma viagem de 15 dias ao alto Solimões para o reconhecimento da situação em que os Ticuna se encontravam. As observações desta viagem aos Ticuna, a primeira de quatro, no total, foram apresentadas em um relatório ao SPI, datado de 10 de dezembro de 1929 (Nimuendajú, 1977, 1982).

O texto publicado em "Ethnologischer Anzeiger" é parecido com o relatório para o órgão indigenista, porém não idêntico, porque destaca aspectos diferentes. Enquanto no relatório são apresentadas observações que dizem respeito às relações dos Ticuna com o mundo não indígena, sobretudo a exploração pelos seringalistas, o artigo em alemão focaliza o repertório cultural registrado pelo etnólogo. Devido ao pouco tempo passado na região, o texto assemelha-se mais com uma lista de impressões primárias colhidas em campo do que com uma forma de escrever que pode ser tachada de etnografia. Contudo, não se trata simplesmente do estado bruto de informações a serem transformadas posteriormente numa monografia etnográfica, mas, antes de mais nada, de um estilo comum da etnologia americanista praticada na época. Em particular, a enumeração, muitas vezes fatigante, de 'elementos' culturais daquilo que foi visto como pertencente à cultura 'antiga', ou supostamente originária, em contraposição às mudanças introduzidas devido aos contatos culturais, era uma característica comum de estudos difusionistas, especialmente na etnologia alemã, com a qual Nimuendajú estava familiarizado pelas leituras autodidáticas.

Outro aspecto característico da etnologia alemã da época também é reconhecível no texto: o destaque dado à cultura materializada. O que, à primeira vista, pode ser interpretado como mero reflexo das atividades coletoras do autor era, na realidade, expressão de uma prática etnológica fortemente ancorada em ambientes museológicos (Penny, 2002), mesmo depois da Primeira Guerra Mundial.

Grande parte do artigo é usada para apresentar dois mitos, dos quais o primeiro, maior, relata as peripécias e vicissitudes dos heróis culturais Dyoí e Ipi. Esta versão do mito foi reproduzida mais tarde, porém recortada em motivos temáticos, em "The Tukuna" (Nimuendajú, 1952, p. 123, 125-126, 128-129, 134).

O estilo do artigo é meramente descritivo, sem exceções, e sua linguagem sugere um apreço da sobriedade, porém é difícil imaginar um texto de Nimuendajú sem pequenas ironias do observador, mesmo ele tendo realizado os maiores esforços para seguir certos padrões de assepsia científica, muito prezadas na época. Por um lado, chama atenção a ausência completa da terminologia antropológica consagrada na época, por exemplo, a nomenclatura praticada na antropologia do parentesco. Há indícios de que Nimuendajú começou a se familiarizar mais com essa terminologia depois de ter recebido, por intermediação de Fritz Krause, um exemplar de "Primitive Society" (1920), de Robert Lowie, em 1930, o que pode ser concluído com base em duas cartas arquivadas no Museu Grassi3. Por outro lado, há um vocabulário descritivo minucioso, no que diz respeito à cultura materializada. Algumas palavras, como Wiegebrett ou Zupfbogen, explicadas na tradução, já caíram em desuso no alemão atual e podem ser encontradas apenas em dicionários antigos.

Ao versar o artigo para o português, optei por uma tradução mais fiel possível ao original, ainda que isto signifique uma leitura menos fluida em alguns trechos. No entanto, é importante frisar que o texto original tampouco foi escrito em alemão sofisticado. Pelo contrário, parece ser a linguagem de um "artífice honesto e diligente", para usar a expressão de Herbert Baldus quando se referiu ao etnólogo alemão Max Schmidt (Baldus, 1951, p. 257). Os etnônimos e as denominações de animais e plantas, no entanto, foram adaptados à grafia atual com base no Dicionário Aurélio e nas informações veiculadas na "Enciclopédia dos Povos Indígenas no Brasil", do Instituto Socioambiental, de São Paulo (ISA, s.d.).

 

VISITA AOS ÍNDIOS TUKUNA4

Em novembro de 1929, passei 15 dias entre os Ticuna no igarapé Preto, no lago Cajari e no igarapé do Caldeirão (afluentes esquerdos do rio Solimões, entre Tabatinga e São Paulo de Olivença). No total, a tribo ainda conta no território peruano e brasileiro pelo menos 3.000 cabeças; ela já foi bastante influenciada pela civilização, mas ainda conserva muitos elementos de sua cultura antiga [Figura 1].

A tribo, de acordo com as circunstâncias externas, divide-se em tantos bandos quanto há afluentes do Solimões habitados por ela. Estes bandos têm pouco contato entre eles e, às vezes, se encaram com certa desconfiança. Eles não têm mais nenhuma organização política: seus chamados 'capitães', ou 'curacas', no Peru, são intérpretes que repassam a seus companheiros tribais, os quais, geralmente, entendem apenas sua própria língua, as ordens de seus senhores civilizados, proprietários no Solimões, que monopolizam todos os contatos com os índios, mantendo-os sob tutela rigorosa e, assim, assegurando para si a produção gomífera.

A organização social interna da tribo apresenta dois grupos rigorosamente exogâmicos, cujos nomes não consegui averiguar, cada um constituído por alguns clãs (keá5), que não se encontram localizados. O pertencimento das crianças é decidido por descendência paterna. Constatei os keá seguintes:

A:

Nayï' (saúva – Atta cephalotes6)

O'i (onça – Felis onça)

Aru (árvore cujos frutos servem para maracás: Auahy)

Nã'i (árvore em geral)

Tëma (miriti [buriti] – Mauritia flexuosa)

Cëë (acapu – Vouacapoua sp.)

E (jenipapo – Genipa sp.)

B:

Táu (tucano – Rhamphastos sp.)

Tuyuyu (tuiuiú – Tantalus loculator)

Aiwéru (urumutum – Crax sp.)

Kóurë (japiim – Oriolus sp.)

Noï (arara – Ara macao)

Ngu/nã (mutum – Crax sp.)

Barï (japu – Cassicus sp.)

Kówa (maguari – Ardea cocoi)

Ngaûa (socó – Ardea sp.)

Ê/ča (urubu-rei – Gypagus papa)

Dyawïrú (jaburu – Mycteria americana)

Máyu (piury – Crax sp.)

Cada keá tem seus próprios nomes pessoais e, por ocasiões festivas, é identificável pela pintura de jenipapo (urucum nunca é usado).

Os Ticuna são batizados pelos missionários capuchinhos em São Paulo de Olivença; todo o seu cristianismo resume-se a isso. Demônios de plantas, animais e fenômenos naturais desempenham um papel importante entre eles. Dos seus mitos astrais, só consegui anotar dois:

 

DYOÍ E IPI

Ngutapa ficou irritado com sua esposa; ele atou-a com as pernas abertas, de modo que suas genitálias ficaram expostas às picadas dos marimbondos. O cancã (Ibycter americanus) libertou a esposa e mandou os marimbondos atacarem Ngutapa. As picadas provocaram um inchaço enorme no joelho direito de Ngutapa, do qual acabaram por sair dois meninos, Dyoí e Ipi, e duas meninas, A'ike e Muwace. Ngutapa, em feitio de veado, foi devorado pela onça na selva, mas Dyoí e Ipi decidiram vingá-lo. Eles fizeram piranhas (Serrasalmo sp.) e colocaram-nas no igarapé que a onça costumava cruzar por cima de um pau. Depois, esfregaram neste o sumo gosmento da embaúba (Cecropia sp.), de modo que a onça escorregasse, caísse na água e fosse morta pelos peixes predadores. Eles puxaram o morto à margem do igarapé e retiraram de seu corpo os restos de Ngatupa, os quais Dyoí recompôs e ressuscitou com um pontapé. Ngutapa levantou-se e perguntou por quanto tempo ele teria dormido.

Dyoí e Ipi encontraram na floresta o demônio feminino Mači, que estava preparando pó de coca e, além disso, estava cantando os nomes dos dois irmãos. Estes criaram cobras venenosas, escorpiões e centopeias por baixo de uma embaúba e proibiram as folhas da árvore de voar para Mači quando esta as chamava para queimá-las, para fazer delas cinza. Depois, quando as folhas da embaúba não atenderam ao chamado de Mači, esta foi pessoalmente à árvore, foi mordida pelos animais venenosos e morreu. Dos ossos das pernas, os irmãos fabricaram flautas e deixaram o resto do esqueleto para os diversos animais, para a mesma finalidade.

Depois, os irmãos encontraram na floresta os demônios Ukai, que tinham acabado de chegar em casa para comer. Os dois esperaram até aqueles irem de novo à floresta e depois envenenaram a água potável na panela dos Ukai com a cinza de um sapo. Ao amanhecer, voltaram os Ukai com sede, beberam da água envenenada e tombaram mortos, um depois do outro. Apenas o último ficou desconfiado e fugiu.

Estava na floresta uma mulher com sua filhinha. Ela estava fugindo dos Ukai, que já tinham devorado todos os seus parentes. Quando um matagal de capim cortante fechou o caminho, a menina começou a chorar e não quis mais avançar. Então, a mãe mandou-a ir até Dyoí. Este mandou a menina subir num umari, onde ela se transformou numa fruta; por isso, seu nome é Tëčarîui (= Geoffroy aspinosa L.). Ao anoitecer, ela começou a cantar, e à noite ela voltou a ter feições humanas, foi até Dyoí e brincou com ele. Na escuridão, Ipi escutou-a dar risadinhas e perguntou quem seria, então Dyoí lhe respondeu que foi a tábua7 que teria rido, porque ele teria lhe feito cócegas. Aí, Ipi levantou-se, pegou uma tábua e lhe fez cócegas, mas ela não quis rir, tampouco a gamela e a vassoura com as quais Ipi tentou outra vez, depois das respostas do irmão.

De manhã, Tëčarîui voltou a se transformar numa fruta de umari e cantou, em cima de seu ramo, os nomes dos irmãos. Ipi buscou em vão a cantora, enquanto Dyoí foi à floresta. Ao meio-dia, a fruta ficou madura e caiu, e logo Ipi acorreu para pegá-la, mas ela se escondeu. Aí, Ipi varreu o espaço inteiro em torno da árvore, mas não encontrou nada. À noite, Tëčarîui voltou a Dyoí: agora ela já era uma donzela; ela não riu mais e dormiu com ele. De manhã, Dyoí escondeu-a numa flauta feita de um osso, antes de entrar na selva.

Ipi foi ao igarapé para pescar tamuatá [um tipo de peixe]. Ele voltou para casa com um paneiro cheio, acendeu o fogo por baixo da assadeira e despejou os peixes nela. Os tamuatás pularam e dançaram na assadeira quente, e Ipi dançou ao redor dela. Quando Tëčarîui viu isto de seu esconderijo, ela riu. Imediatamente, Ipi procurou por ela, mas não achou nada. Ele ainda repetiu duas vezes a cena com os peixes, até que finalmente descobriu Tëčarîui na flauta e a obrigou a sair ao soprar nela. Ele a pegou e copulou com ela até o esperma sair pela boca e pelo nariz dela. Depois, ele quis escondê-la de novo na flauta, mas ela não cabia mais, pois já estava grávida. Aí, Ipi ficou com medo de seu irmão: ele untou sua glande com a massa branca do tucum para se dar ares de não ter copulado por muito tempo e, assim, foi ao encontro de Dyoí; porém, este logo percebeu o que tinha acontecido.

Dyoí pegou Tëčarîui e sacudiu-a, ao que ela pariu o menino Čiekï. Então, Dyoí mandou seu irmão trazer jenipapos para pintar a criança e o obrigou a subir na árvore de cabeça para baixo e a pegar os frutos com os pés. Ipi gritou da altura [da árvore] para baixo que ele estava vendo pessoas ao longe: eram os Omágua [Kambeba], que estavam flutuando o Solimões abaixo em suas embarcações. Para punir ainda mais o seu irmão, Dyoí então mandou crescer um imponente fungo arborícola em torno do tronco, mas Ipi, transformado numa formiga tocandira, superou o obstáculo. Depois, Dyoí fez uma magia e colocou um arbusto espinhoso Nanahy (Bromelia sp.) ao pé da árvore. Mas Ipi, transformado num floco de algodão, deixou-se cair e chegou incólume no chão. Então, Dyoí mandou-o ralar os frutos de jenipapo. Ele não o deixou parar, mesmo já estando ralados, mas mandou-o continuar a triturar, de modo que Ipi ralou suas mãos, seus braços e finalmente ele mesmo, e se misturou com a massa de jenipapo. Com isso, Dyoí então pintou o menino, jogou o resto da massa no rio e lá construiu uma armadilha de pesca. Muitos peixes pequenos ficaram presos nela e cresceram ali dentro por se alimentarem da massa.

Quando os peixes já estavam grandes, Dyoí pegou seu anzol com uma pedra como isca e foi à armadilha. Todos os peixes que ele pescou, estando em terra, transformaram-se em caititus: por isso, eles têm aqueles dentes fortes. Depois, Dyoí pescou com milho verde como isca, e os peixes que ele pegou agora se transformaram em índios Ticuna: por isso, seus dentes são menos resistentes. Depois, ele tentou debalde, por muito tempo, pescar seu irmão Ipi; finalmente, ele deu o anzol a Tëčarîui: "Veja se você pega seu amante!". Aí, Ipi logo mordeu o anzol, deixou-se puxar por terra e voltou a ter seu antigo vulto. Então, Dyoí deu-lhe o anzol, para que ele também pescasse seu povo, mas Ipi logo matou todos os peixes que pegou, antes de se transformarem em seres humanos. Dyoí teve que lhe mostrar como fazer, e então Ipi pescou com isca de macaxeira os Kokama e as outras tribos da Amazônia peruana. Finalmente, Dyoí fez os negros do resto dos detritos.

Depois, os irmãos começaram a brigar pela distribuição do mundo, quem deles devia ficar com o oeste e quem com o leste. Ipi queria ir rio abaixo de qualquer forma e, de fato, partiu com seu povo para o leste, mas, enquanto ele dormia, Dyoí virou o mundo de modo que Ipi e seu povo chegaram ao lado ocidental e Dyoí e os seus, ao leste, como queriam.

Ainda hoje, Dyoí mora longe, no leste, além do mar, num lugar que se chama Múruapi; Ngutapa e Tëčarîui também estão lá, mas nenhum ser humano consegue chegar a eles. Nos tempos antigos, alguns viram Múruapi de longe, mas, quando chegaram perto, tudo se transformou em bosques florescentes. Dyoí é o pai dos Ticuna; ele é "Tupána" (língua geral = Deus). Tëčarîui é Nossa Senhora.

 

WÏKÏČA, O ÓRION

Dois irmãos acharam nas profundezas da floresta, ao pé de uma árvore, um cesto com batatas-doces cozidas. O mais velho passou, mas o mais novo não conseguiu resistir à tentação e comeu uma das batatas.

Quando, à noite, eles estavam dormindo em uma cabana, veio pela floresta o demônio Nguri, ao qual pertencia o cesto, e ele chamou: "Onde está minha batata?". E do estômago do mais novo ressoou a resposta: "Estou aqui!". O mais velho levantou-se abruptamente e tentou acordar seu irmão, mas este estava deitado como se estivesse morto e tampouco se mexeu quando o outro o tocou com um fogo. Aí, este se escondeu na cumeeira da cabana, enquanto Nguri se aproximou, tirou uma perna do adormecido e a levou para comê-la.

Depois de ele ter ido embora, o mutilado acordou, viu o coto sangrento e falou: "Irmão, os morcegos comeram minha perna!". "Não foram os morcegos, mas o demônio Nguri, porque você comeu das batatas dele", respondeu o outro. Aí, o mais novo mandou fazer um cacete e abandonou a cabana, carregado nas costas pelo irmão. Quando andavam pela floresta, levantou-se uma cutia em frente deles e o mais novo imediatamente pediu para pô-lo no chão. Ele pulou atrás da caça com sua única perna, muito mais rápido do que teria feito com as duas, e matou-a com o cacete. Ele cortou um pedaço de carne da caça, embrulhou em folhas e deu ao irmão. Depois de algum tempo, ao continuar andando, eles espantaram um veado, que o mutilado abateu da mesma maneira; de novo, ele cortou apenas um pedacinho da caça, embrulhou e deu a seu irmão. Quando eles chegaram em casa, sua esposa ficou aborrecida por causa dos pequenos pedaços de carne; mas o marido mandou-a arrumar uma grelha com muita brasa em baixo. Então, ele desembrulhou a carne e jogou-a sobre sua esposa, e aí os pedaços viraram tão grandes que ela ficou completamente coberta por eles.

Depois, ele mandou ser carregado à floresta de novo, onde, desta vez, matou uma anta. Ele esperou ao lado da caça até que chegassem os urubus e, quando todos estavam reunidos, falou ao urubu-rei: "Matei esta caça para vocês; em troca, me levem ao céu convosco!". Aí, os urubus levaram-no à terra celeste, onde ele pode ser visto ainda hoje: Wïkïča, o Órion.

As almas dos falecidos ficam na proximidade de seus antigos locais de moradia; às vezes, elas são visíveis para os vivos, mas apenas à noite.

Feiticeiros "não há mais" entre os Ticuna – por suprema ordem de seus senhores civilizados, os quais não toleram ninguém que exerça alguma influência sobre os índios, com exceção deles. No entanto, que isso não deve ser levado muito ao pé da letra é provado, entre outros [casos], pelo caso de que, há poucos anos, dois Ticuna, depois de resistência desesperada, mataram um terceiro, que tinha levantado a suspeita de ter assassinado várias crianças por magia. Eles jogaram no rio o cadáver esquartejado.

Parece que os Ticuna são afeiçoados, com tenacidade extraordinária, a suas festas de puberdade feminina e às danças de máscaras concomitantes; no entanto, estas se trivializam cada vez mais pela influência dos patrões civilizados dos índios, os quais conseguem entender as máscaras apenas como objetos carnavalescos. Por causa disso, há muito elas não são mais confeccionadas com o mesmo cuidado como antigamente. Infelizmente, eu não pude assistir a nenhuma de tais cerimônias, mas vi muitas máscaras penduradas nas casas, em estado mais ou menos ruim. Uma delas representava o demônio da tempestade Oma e estava equipada com um falo um pouco cilíndrico de meio metro de comprimento, com o qual o demônio, quando ataca, derruba as árvores. Arrancar o cabelo ainda é comumente praticado, como pude ver em várias donzelas recentemente consagradas. A poligamia existe e é estimulada pelo número maior do sexo feminino.

Vários elementos importantes de sua cultura antiga os Ticuna já esqueceram completamente, por exemplo, a circuncisão, o sepultamento secundário em urnas, o arremessador de dardos, o ralador de mandioca com lascas de pedra embutidas, a tatuagem, o penteado antigo, o uso do paricá [para rapé] e a tanga das mulheres. Quase todos os Ticuna, hoje em dia, andam vestidos à laia dos civilizados. Adornos plumários e faixas de algodão nos braços e nas pernas são usados apenas pelas moças por ocasião da festa da puberdade. A forma oval das casas (com paredes verticais) agora está suplantada quase completamente pela retangular. Outros elementos culturais antigos continuam a existir, como a cama feita de estacas (para o descanso diurno, ao lado da rede trançada com fios de tucum); o banquinho de quatro pés, que mal alcança sete centímetros de altura e é fabricado de uma única peça; o laço para trepar; o gancho para colher frutas; o raspador de concha; os três pés barrosos da fornalha, às vezes enterrados no chão pela metade; a grelha encostada em quatro paus bifurcados, além da piramidal, enquanto o espeto é usado apenas para peixes; o abanador de fogo feito de uma asa de mutum; a tábua pesada para cortar, em forma semilunar, e a gamela correspondente, a qual substitui o almofariz, desconhecido por lá; a pintura com jenipapo; o aguçar dos incisivos superiores; a tipoia para as crianças, cujo laço é dobrado pela metade, de modo que a criança fica sentada em uma faixa, enquanto a outra passa em cima de suas costas; a flauta de Pã; uma trombeta de até quatro metros de comprimento, soprada lateralmente e feita de cascas [de árvores] enroladas em forma espiralar; o gancho de madeira para suspender objetos; a rede para carregar; a sacola de crochê etc. Estão ausentes a tarrafa; a cabaça; a flecha para pássaros; a armação de estacas para guardar objetos; e o maracá com cabo, em substituição do qual se usam apenas faixas com chocalhos fixadas abaixo dos joelhos ou em bastões de dança; além disso, o bodoque [Tonkugelbogen] e o arco para puxar algodão [Zupfbogen für Baumwolle].

Os Ticuna são bons agricultores. Eles plantam principalmente mandioca, macaxeira e milho, mas nenhum feijão. Pescam com um arco, que é muito comprido, achatado do lado externo e arredondado do lado da corda, o qual, junto com flechas emplumadas de uma a cinco pontas, também usadas para pescar, está caindo em desuso. Além disso, [pescam] com arpões, anzóis, armadilhas e ao intoxicar a água, porém não conhecem tarrafas, como já foi dito, mas apenas redes para carregar. Muitos Ticuna são bons caçadores, como comprovam os penduricalhos compridos de crânios ensartados de mamíferos abatidos e de esternos de pássaros, que ficam pendurados em suas cabanas. Hoje em dia, a espingarda suplanta as antigas armas de caça. O arco não é mais usado para a caça, e dardos envenenados de ponta fina e outros, sem veneno, feitos de uma estaca comprida de marajá (Bactris), com ponta larga, são raros. A zarabatana ainda pode ser encontrada de vez em quando, mas atualmente apenas poucos índios ainda conhecem a arte de preparar o curare, pela qual os Ticuna antigamente eram tão famosos. O componente principal desse veneno é a infusão da casca raspada de um cipó chamado "Gurë" (u aberto). São acrescentados mais duas outras cascas e um tubérculo tirado de seus roçados, todos preparados da mesma maneira, só que este é ralado com uma língua de pirarucu. Quaisquer ingredientes animais, o curare não contém. As infusões são filtradas em funis feitos de folhas e são todas condensadas numa panela com fogo muito baixo. Com isso, forma-se uma borra preta, que é retirada de vez em quando. Mexe-se com uma colher feita de uma concha fluvial encabada, que serve apenas para esta finalidade. O engrossamento leva muito tempo e exige a atenção ininterrupta do produtor.

As mulheres Ticuna, hoje em dia, ainda são boas oleiras. Elas fabricam assadeiras de borda alta, pratos, panelas, recipientes para água e potes enormes para bebidas fermentadas. Estes têm pintura vermelha com fundo branco e vários sempre podem ser encontrados em todas as casas, pois os Ticuna bebem bastante e, embriagados, ficam muito dados a brigas.

Além de vestuário, armas e ferramentas, os Ticuna também adotaram: a bacia de madeira; a colher de pau; o espremedor de cana com forma de alavanca; o tipiti – nem para este nem para farinha fermentada eles têm expressões próprias e, por isso, parece que antigamente preparavam a mandioca apenas em forma de beijus; finalmente, dos instrumentos musicais, o violão e o tambor de pele, os dois copiados exatamente de modelos europeus. Na época de Spix, ainda usavam como tambores cascos secos de tartaruga. Hoje em dia, os dançarinos de máscaras usam seus tambores, os quais são batidos com uma baqueta, pendurados em bastões formosamente entalhados em forma de peixes, crocodilos8 e cobras estilizados.

Dos animais domesticados propriamente ditos, os Ticuna apenas possuem cães e galinhas, mas eles criam em grande número os filhotes de todos os tipos de mamíferos e aves da selva. Eles tratam bem estes animais, mas os vendem com facilidade.

 

Pará, 19 de dezembro de 1929.

 

REFERÊNCIAS

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Autor para correspondência:
Peter Schröder.
Universidade Federal de Pernambuco.
Departamento de Antropologia e Museologia.
Av.
Acadêmico Hélio Ramos, s/n – CFCH, 13º andar. Cidade Universitária.
Recife, PE, Brasil. CEP 50670-901
(kanarawa@ufpe.br).

Recebido em 05/11/2012
Aprovado em 20/04/2013

 

 

1 Nachlass Theodor Koch-Grünberg, Völkerkundliche Sammlung der Philipps-Universität Marburg, VK MR A.29.
2 Staatliche Ethnographische Sammlungen Sachsen (doravante, SES), Leipzig, 1929/71, Krause, S. 700, 27 jun. 1929.
3 SES, Leipzig, 1929/71, Krause, S. 736-739, 10 dez. 1929; e 1929/71, Nimuendajú, S. 743-744, 10 jan. 1930.
4 Nimuendajú, Curt. Besuch bei den Tukuna-Indianern. Ethnologischer Anzeiger, Stuttgart, v. 2, n. 4, p. 188-194, 1930. Tradução de Peter Schröder. Revisão do português por Mônica Gusmão.
5 [Nota do autor] Para economizar sinais fonéticos, vale o seguinte para as palavras em língua Ticuna utilizadas pelo autor: e átono, î e ã no final devem ser lidos com cedilha; em vez de i com cedilha, foi colocado ï; o é sempre pronunciado muito aberto; e acentuado, sempre curto; u, depois de ng e m, no início da palavra e na palavra Tuyuyu, é pronunciado aberto. Ng = velar nasalado simples, C (č) = tsch.
6 [Nota do tradutor] Foi mantida a nomenclatura científica latina do texto original, sem verificar se a denominação dada pelo autor está correta.
7 [Nota do tradutor] No original, Nimuendajú escreveu Wiegebrett, que é uma palavra pouco conhecida até para falantes nativos do alemão. Um Wiegebrett é uma tábua usada para cortar carne com um Wiegemesser, uma faca de duas lâminas em forma de meia-lua e com cabos curtos nos dois pontos. No relatório para o SPI, contudo, lê-se: "quiricá (pesado pau em forma de meia lua para pisar milho)" (Nimuendajú, 1982, p. 196).
8 [Nota do tradutor] No original consta Krokodile, embora seja evidente que Nimuendajú sabia que os répteis crocodilianos na Amazônia não são crocodilos no sentido mais estrito do termo. Estranhamente, ele não usou Kaimane, a palavra alemã que corresponde a 'jacarés' em português.

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